Departamento de teologia marcelo rodrigues de oliveira



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1A TEOLOGIA DA RETRIBUIÇÃO: GÊNESE, FUNDAMENTOS E SUSPEIÇÃO

1.1Introdução


A TP encontra seus fundamentos na TR6 - sistema teológico com pressupostos próprios, implícitos em suas afirmações, que permite a leitura da realidade a partir de um ponto de vista bem determinado. Tal sistema serve de base para atualizar e relançar uma nova versão de teologia conhecida como TP. Assim, o primeiro movimento da investigação consiste em compreender a origem e a sustentação bíblico-teológica da TR. Pode-se afirmar que a TP é uma forma de revivescência da TR. É preciso deixar claro no início dessa pesquisa que, nas origens da TP, está a TR e que explicitar esta última redunda em iluminar a gênese da primeira.

A TR fundamenta-se numa lógica mecanicista de causa e efeito. A lógica que a anima não é exclusivamente hebraica ou própria do pensamento bíblico, mas lança suas raízes nas mais antigas iniciativas do ser humano de autocompreensão e de compreensão do mundo que o cerca e das suas angústias quanto à morte e ao futuro. Essa lógica é identificada já nas civilizações antigas7, ao se deterem seus sábios na observação da natureza para entender como funcionam os elementos que compõem o universo. A partir da compreensão do esquema de causa e efeito, interpretava-se o mundo e o ser humano – suas ações e respectivas conseqüências – e as intervenções do sagrado na história.

Assim, os primeiros indícios da chamada TR podem ser identificados no âmbito da sabedoria antiga8, desde sua fase oral ou pré-literária, presente nas sociedades mais antigas da humanidade. Algumas formas mais sistematizadas ganharam corpo no âmbito das antigas escolas, como fruto das experiências e intercâmbios com outros povos. Tal sabedoria desenvolveu-se e se impôs como tradição sapiencial no Oriente Antigo9. Posteriormente, será assumida e teologizada em Israel, sob a égide da fé em Yahweh.

A aplicação indiscriminada da regra de causa e efeito produziu um esquema rígido que, ao ser referido à questão da forma como ocorre a distribuição da justiça divina, condicionou a relação Deus-homem-Deus a um mecanicismo invariável, a ponto desse esquema tomar refém o próprio Deus. Por força de tal condicionamento, as ações divinas passaram a obedecer a um rigoroso e inflexível script, que neutralizava qualquer outra expectativa e inviabilizava alternativas de relacionamento no presente, impactando também as relações do passado e do futuro.

Depois de incorporada à teologia em Israel, essa expressão da sabedoria, cuja espinha dorsal se articula pela casuística, foi questionada. Tal problematização pode ser acompanhada nos textos bíblicos num movimento crescente, que, em princípio, se registra em alguns trechos de Provérbios e, em seguida é abertamente rejeitada nos escritos sapienciais posteriores, como e Qohelet.

Este capítulo propõe-se a descrever o percurso de conscientização e problematização em torno da TR nos textos bíblicos sapienciais do Primeiro Testamento. Elegeram-se aqui os textos dos discursos dos amigos de Jó como os intérpretes exemplares da TR. Nesse percurso, busca-se identificar os pressupostos teológicos, antropológicos e éticos que permeiam essa Teologia, demonstrando, respectivamente, como se constrói a imagem de um Deus previsível (teologia), pensa-se o ser humano como ser capaz de controlar a Deus pelo seu comportamento (antropologia), e se entende o agir humano a partir de uma causalidade rigorosa (ética).


1.2Teologia da Retribuição: descrição e fenomenologia


A doutrina da retribuição, antes mesmo de ser assumida pela teologia de Israel como forma de explicar a distribuição da justiça divina, já estava presente na sabedoria das civilizações antigas do Crescente Fértil10. Pode-se, assim, inferir que a sabedoria antiga foi o útero no qual se gerou a doutrina da retribuição e seu desenvolvimento pode ser traçado desde a literatura egípcia e mesopotâmia antigas até a bíblica.

Para se ter idéia de como a doutrina da retribuição chegou a se constituir categoria teologal, propõe-se aqui acompanhar seu percurso, desde o nascedouro na visão de mundo egípcia do ma’at 11 (direito, retidão, ordem), passando pela transposição para o contexto de Israel e conseqüente teologização, até sua refutação em . Tal percurso pretende ainda explicitar a intensidade da influência que essa doutrina exerce na teologia cristã, até hoje.


1.2.1A Teologia da Retribuição: seu ambiente de origem na literatura extra-bíblica


Como sujeito histórico, o povo de Israel não se construiu isolado em seu tempo e, por isso, é preciso que pergunte pelos traços da TR presentes na cultura e na tradição religiosa e sapiencial de outros povos de tradições mais antigas, fora de Israel. Civilizações surgidas nas e entre as duas extremidades da chamada Meia Lua do Crescente Fértil que construíram um poderoso círculo civilizatório ao redor do deserto da Arábia, abrangendo a Palestina e a Síria mediterrâneas. Babilônios e egípcios, principalmente, estão dentre os povos circunvizinhos ou anteriores à instalação dos israelitas em Canaã e que exerceram forte influência na cultura e sabedoria popular do povo de Yahweh.

Tais civilizações produziram farta literatura, datada do II e III milênios a.C. São documentos ricos em conteúdo sapiencial, dentre outros assuntos, sobretudo aquele que interessa a este estudo: a presença da doutrina da retribuição, ou seja, a compreensão da forma de punição ou recompensa por parte dos deuses aos seus servos humanos. Pode-se denominar essa fase de primeiro estágio, no qual a doutrina se apresenta plasmada na forma de sabedoria primitiva, que visa à aplicabilidade direta à realidade, de forma exclusivamente pragmática. Passa a um segundo estágio, quando sua aplicabilidade se estende a questões de ética e moralidade à luz da teologia.

No primeiro estágio, caracteriza-se pelo desinteresse em relação ao conhecimento especulativo e, antes, volta-se para as questões da vida prática, resultado de observações e experiências que oferecem a compreensão de uma ordem intrínseca existente no mundo. São as experiências que, de alguma forma, iluminam as questões práticas e do cotidiano, e são catalogadas para servir de roteiro para a vida, em forma de enunciado. Sinalizam o caminho (o melhor caminho) que se deve tomar para se afastar dos perigos que ameaçam a vida (o mais temível de todos, a morte)12, e encontrar a direção unívoca para a vida realizada: “O ensinamento do sábio é fonte de vida, para evitar as ciladas da morte” (Pr 13.14) e “O caminho da vida leva o homem prudente para o alto, desviando-o do Sheol, embaixo” (Pr 15.24).

No segundo estágio, sob o influxo da fé em Yahweh, a compreensão da ordem intrínseca existente no mundo cresce no sentido ético-religioso13. A literatura sapiencial deixa de ser exclusivamente antropocêntrica para ser sabedoria de conhecimento e de comportamento caracterizado pela justiça e pelo temor a Yahweh 14. Sobretudo no período do pós-exílio, fé e sabedoria se abraçam:

A sabedoria assume uma característica israelita, o pensamento de Israel se torna mais sapiencial, e a sabedoria passa a ser o conceito central da teologia judaica. Esta evolução só foi possível porque a sabedoria sempre teve um caráter religioso. A lei que governa o mundo, objeto de suas considerações, não fora nunca entendida em sentido puramente profano, mas religioso, em ligação com Deus15.

A doutrina da retribuição em Israel é devedora dos povos circunvizinhos16. O Poema do justo doente, por exemplo, denominado o Jó babilônico pela semelhança com o Jó bíblico, é um poema exemplar da doutrina da retribuição. Um devoto de Marduc questiona por que seu deus permite que um fiel padeça tantas adversidades na vida17. Trata-se de um esquema religioso sumério-acádico que se baseia no determinismo divino do destino: tudo vem ou advém ao ser humano por determinação dos deuses. O humano está sujeito às forças superiores, benéficas ou maléficas. Como no caso da forma canônica final do Jó bíblico, no Poema do justo doente, finalmente, seu deus o cura e o restabelece totalmente, terminando o poema com uma ação de graças18.

Outro exemplo é o da Teodicéia babilônica, conhecida também como Diálogo do justo sofredor com seu amigo. Trata-se de um diálogo entre um homem que sofre e seu amigo, em que as questões de sempre são levantadas: por que sofre o pobre, o desvalido, apesar de ser justo, piedoso e fiel? Por que não é protegido pelo seu deus? As respostas seguem categoricamente a regra da causa e efeito: se alguém sofre é porque merece, em virtude de algum crime oculto cometido. Diferentemente do Jó bíblico, o sofredor da Teodicéia pede ajuda ao amigo, confessa sua desgraça e se encomenda piedosamente aos deuses e ao rei:
Que me ajude o deus que me abandonou;

Que se mostre compassiva a deusa [que de mim se esqueceu];

O pastor, o sol do povo, que pastoreia (seu rebanho) como se fosse um deus19.
Dessas culturas tão antigas e variadas se nutriram os israelitas durante sua longa história20, construindo o ethos israelita.

1.2.2A literatura sapiencial extra-bíblica e a literatura sapiencial em Israel – suas relações


A sabedoria do Oriente Antigo, em seu movimento basilar de observação e busca da ordem da criação, tem sua origem mais remota na visão de mundo egípcia expressa no ma’at21. O ma’at era um conceito que fornecia ordem, coesão e sentido ao universo e à realidade humana, pois se organizava como o direito, a retidão e a ordem estabelecidas pelo Faraó como lei viva. Designava, assim, a matriz de ordem e harmonia nas relações entre os diferentes elementos que constituem o mundo e a vida humana22. Essa relação conceitual se fazia representar, também, através de um paralelo: a entronização do Faraó era vista como restauração do ma’at que correspondia ao ato da criação do mundo, que, por sua vez, era entendido como o estabelecimento da ordem no caos23.

Esse conceito foi re-elaborado no pensamento teológico israelita:

Em Israel, o ma’at foi substituído pela presença e ação direta de Deus, Senhor da criação, ou, simplesmente pela sabedoria que a tudo invade e penetra (cf. Sr 1.9; Sb 1.7). Por isso, o homem pode descobrir através de sua atividade sapiencial essa presença ativa de Deus no mundo (cf. Sb 13.1-9), mesmo reconhecendo o mistério que a oculta e as fronteiras ou limites da sabedoria 24.
No Sl 19.1, por exemplo, ao dizer que “os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos”, o salmista transmite a idéia de que a criação compõe o cenário através do qual Deus revela sua grandeza. A criação, na perspectiva da revelação, constitui-se o campo privilegiado, por assim dizer, para o surgimento do ethos israelita, que observa a ordem que Yahweh estabelece para os seres criados, no contexto bíblico (cf. Gn 2).

A adequação decorrente dessa ordem (ma’at) existente no universo faz com que o ser humano passe a ordenar moralmente sua vida, seguindo o modelo observado na criação. Desprezar tal ordem tornaria a vida insuportável. É o que narra o texto de Gênesis 3, com Adão e Eva, no Jardim do Éden. A desobediência e desprezo à ordem de Yahweh, ordem que se faz passar pela criação, “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás (...)” (Gn 2.16 e 17a), trouxe punição em forma de castigo à mulher (sofrimento nos trabalhos e sofrimento na gravidez, cf. v.16), ao homem (fadiga e suor para ganhar o pão, v.17), à serpente e a terra (“maldita a terra por tua causa”, v.17).

Assim, o princípio do ma’at e a estrutura da sabedoria egípcia, que harmonizava o comportamento humano à ordem da criação, são absorvidos e re-interpretados na perspectiva teológico-religiosa em Israel, e serão, mais tarde, codificados como doutrina da retribuição pela escola deuteronomista.

Existem semelhanças e diferenças entre as literaturas egípcia e mesopotâmia antigas, principalmente, e a literatura sapiencial bíblica. No que tange às semelhanças, destaca-se o uso de provérbios, comuns aos israelitas e aos povos antigos; no que tange às diferenças, à forma específica da revelação divina e à fé de Israel.

As semelhanças podem ser percebidas em textos como Pr 22.17-23.11. Nestes se percebe similaridades com o texto da Sabedoria de Amenemope25, obra escrita provavelmente por um sábio egípcio. A identificação da interdependência entre os dois textos é motivo de divergência entre os pesquisadores quanto a textos como O homem e Deus26, que parece ter como temática uma variante do tema do justo sofredor de , e no qual constam ensinamentos e doutrinas em que as desgraças são resultantes dos pecados e maldades dos seres humanos. Há uma espécie de determinismo ou fatalismo, presente também no esquema religioso sumério-acádico que destitui a humanidade de qualquer autonomia e responsabilidade, sujeitando-a, quanto às ações e futuro, às forças superiores, benéficas ou maléficas27. Como já apontado, o poema babilônico do Justo doente é outro texto que reflete a situação de um enfermo que não sabe porque os deuses o condenaram a tal situação, mas que é restabelecido tanto na saúde como na riqueza, uma vez reconhecida a sua impotência e dependência dos deuses.28. Percebe-se, pois, que há temas comuns à produção de literatura de sabedoria extrabíblica que tratam da questão do sofrimento humano sob o ponto de vista da retribuição.

As diferenças podem ser detectadas naquilo que é mais específico e fundante em Israel, seu elemento central, que dá forma específica à sua revelação e fé, Yahweh. Na literatura sapiencial de Israel, Yahweh se apresenta com: a) o Criador de todas as coisas (cf. Sl 148:1-5); b) o Deus Único e Poderoso (cf. Sl 136; 89.8); c) a origem da sabedoria (cf. Pr 9.10); e, d) aquele que tudo faz e ordena (cf. Sl 33.9). Diferentemente dos demais povos, Israel serve a um Deus que “habita num alto e santo lugar, mas que habita também com o contrito e abatido de espírito” (cf. Is 57.15). Além disso, antes do exílio, a sabedoria aparece ao lado da fé. No pós-exílio, os limites da sabedoria são percebidos e o ser humano passa a depender da vontade livre e insondável de Deus29. Ocorre, portanto, a teologização da sabedoria em Israel (sua subordinação e interlocução com a revelação de Yahweh).



1.2.3Tema comum, independência literária e originalidade de Israel

Apesar das semelhanças entre a literatura extrabíblica e a literatura de Israel ao tratarem de temas comuns (o sofrimento do justo, a regra da causa e efeito, o mal e as conseqüências das más ações), não se pode falar de dependência literária estrita entre os relatos bíblicos com a literatura oriental antiga. Há gêneros literários semelhantes, frases parecidas, temas co-ocorrentes; no entanto, o enfoque é substancialmente diferente.

Para efeitos puramente didáticos, para que as semelhanças e as diferenças explicitamente se polarizem pode-se estabelecer um corte entre tema e fonte. Pode-se falar de tema comum entre os corpos literários bíblicos e extrabíblicos, não, porém, do compartilhamento de uma mesma fonte30.

O tema do sofrimento humano, por exemplo, é comum a todas as culturas em todos os tempos, nem por isso torna-se necessária a interdependência literária entre as culturas e povos vizinhos (ou não) para que tais reflexões sejam produzidas. A experiência de cada povo e de cada pessoa, particularmente, torna-se sua própria fonte de reflexão.

Os diálogos do livro bíblico de são um exemplo disso. Sua originalidade, além de outros elementos que serão considerados neste estudo, pode ser explicitada pela dimensão que essa história de sofrimento adquire. Não há paralelos, pois em relação aos demais relatos sobre o tema, é muito mais vívida e de uma expressividade superior mesmo ao relato mesopotâmico31.

Além de semelhanças e diferenças, a literatura sapiencial de Israel possui elemento singular que a difere dos demais testemunhos da sabedoria dos povos antigos. A originalidade de Israel em relação aos demais povos está na Revelação divina que recebeu. Não só a história de Jó está marcada por essa originalidade, como toda a história do povo de Israel é reconhecida pela força de sua fé, pois “embora tenha assimilado toda espécie de influxos oriundos de culturas vizinhas, jamais perdeu seus traços essenciais”32.

A problematização das questões existenciais é comum a todos os povos, indistintamente. Todavia, existe em favor da sabedoria israelita esse elemento de distinção essencial, que se demonstra no processo da revelação33 de Yahweh ao povo. Assim, “o Primeiro Testamento não só pressupõe que Deus pode ser conhecido; também afirma claramente que ele se faz conhecido”34, como se pode perceber em perícopes como:

Manifestou os seus caminhos a Moisés e os seus caminhos aos filhos de Israel (Sl 103.7).

Apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó como Deus Todo-Poderoso; mas pelo meu nome, o Senhor, não lhes fui conhecido (Ex 6.3).

Então, disse: Ouvi, agora, as minhas palavras; se entre vós há profeta, eu, o Senhor, em visão a ele, me faço conhecer ou falo com ele em sonhos. Não é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa. Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a forma do Senhor (Nm 12. 6-8).

No dia em que escolhi a Israel, levantando a mão, jurei à descendência da casa de Jacó e me dei a conhecer a eles na terra do Egito (Ez 20.5).

Um dos resultados dessa revelação são os livros sapienciais35 do Primeiro Testamento, fruto de um povo que se relacionou com Deus em todos os níveis de experiência da vida.


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