Departamento de teologia marcelo rodrigues de oliveira



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1.5Análise teológica, antropológica e ética


Neste tópico, objetiva-se apresentar pontos fundamentais para se entender a virada antropológico-teológica que se vislumbra em : primeiro, demonstrar como a TR, de certa forma, aprisionou o Deus soberano e imprevisível a um esquema de causa e efeito, colocando-o a serviço do ser humano e de seus interesses; e, segundo, como o ser humano e suas ações éticas passaram a se pautar por uma ideologia de dominação, na qual os afortunados eram considerados privilegiados e os desafortunados, desprezados. Esses dois pontos são demonstrados ao se analisar a imagem de Deus, a antropologia desenvolvida e a ética defendida pela TR.

1.5.1Um Deus previsível


A TR caricaturou Yahweh e o imobilizou numa moldura rigidamente dimensionada pelo esquema de causa e efeito. Tal forma mecanicista de retorno se construía pela lógica que circulava viciosamente entre os vértices de argumentação do triângulo teológico tradicional57, a saber: 1) a sorte dos ímpios (cf. Jó 4.7-11; 5. 2-7); 2) a felicidade dos justos (cf. 5. 17-26); e, 3) o fato de que nada é puro diante de Deus (cf. 4.17-21). Destituído de autonomia e pouco criativo nessa teologia, Yahweh estava condicionado a somente reagir ao comportamento do homem, e não a agir livremente, por si mesmo, como Deus.

Recapitulando, a doutrina da retribuição tem suas raízes na sabedoria do Oriente Antigo, penetrou na cultura religiosa de Israel e incorporou-se formalmente à teologia através da codificação legal deuteronomista. Nesse percurso, a imagem de Yahweh foi tendenciosamente desenhada, de maneira a satisfazer às classes dominantes da época, que privilegiavam a riqueza, a saúde e a felicidade como sinais da bênção de Deus. Entretanto, a regra geral não era o sucesso e a prosperidade. A decadência econômica e a opressão fizeram parte (presente e constante) da vida tanto das elites, quanto das pessoas das mais variadas classes sociais, semelhantes à situação encontrada no capítulo 5 de Neemias58. As idas e vindas, os altos e baixos cotidianos como experiências de vida foram abalando os fundamentos rígidos e dogmáticos da doutrina da retribuição como a única regra possível para se compreender a distribuição da justiça de Yahweh.

A doutrina evoluiu do conceito de retribuição do bem e do mal, cuja aplicação passou por três estágios: 1) a aplicação terrestre e temporal em termos coletivos (cf. Ex 20. 5-6; Nm 16.31-33; Js 7.1-5; 2 Sm 3.2; 21. 1-5; 24. 11-17 etc); 2) a aplicação terrestre e temporal em termos individuais (cf. Dt 24.16; cf. 2 Rs 14.1-6; Ez 18.33) até os últimos séculos do período do Segundo Templo; 3) a aplicação espiritual e eterna coletiva e individual (cf. Dn 12. 1-3; 2). Os dois primeiros estágios já foram mencionados anteriormente e o último situa-se na primeira metade do séc II a.C., com a crença de que as sanções ultrapassariam a vida terrena.

Pouco a pouco as experiências da vida, à luz da Revelação, desbarataram a antiga regra de causa e efeito como forma de explicar o sofrimento ou a felicidade do ser humano. Constatou-se na prática que nem sempre o ímpio sofre e o justo é recompensado. Sobretudo, tais questionamentos ofereceram espaço para que Yahweh pudesse se revelar de maneira mais completa, agora que havia maturidade e capacidade de resposta por parte de seu povo. No apogeu do desconforto causado pela improcedência e incapacidade da doutrina da retribuição em dar conta dos desencontros e sofrimentos da vida, mais especificamente, entre o retorno do cativeiro (início em 538 a.C. – Edito de Ciro) e a invasão grega (ca. 330 a.C.), “numa época em que a retribuição individual e terrestre se chocava com insolúveis dificuldades de ordem experimental”59, o livro de foi escrito. Em , a doutrina da retribuição, incorporada pela teologia tradicional, promulgadora da mensagem de que Yahweh premia ou pune os homens de acordo com o seu comportamento, será veementemente questionada e mostrará sua face sombria, como uma teologia que esconde o verdadeiro rosto de Deus.


1.5.2Tensão teológica


Numa empreitada nada fácil, o autor (es) de tenta desvendar a verdadeira imagem de Yahweh, colocando em contraposição personagens distintos: o Jó da moldura do livro (prólogo: caps 1,2 e epílogo: cap 42.7-17), que aceita seu sofrimento submisso a Deus (o Jó sofredor), “(...) que não é um pecador e não tem necessidade da misericórdia de Deus (...)” 60, e o Jó do poema, da seção de diálogos, que se revolta contra o sofrimento, se queixa e desafia Yahweh que lhe dê resposta e justifique todo aquele sofrimento (o Jó rebelde). Na contraposição entre esses dois Jó (o primeiro, representando a teologia tradicional da retribuição, e o segundo, representando a reação à teologia tradicional), surge o que Schwienhorst-Schönberger denomina de tensão teológica61, que se desenrola numa novela dramática.

Tudo começa num cenário celestial, quando Yahweh e Satanás resolvem apurar a integridade religiosa de Jó: se, de fato, sua religião é de pura gratuidade ou não. De um lado, está Yahweh, que garante não existir quem se assemelhe a Jó: “Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal” (1.8). Do outro, está Satã (hassatan), questionando e duvidando da fidelidade de Jó a Deus: “Porventura Jó debalde teme a Deus?” (1.9). Ocorre uma espécie de aposta entre Yahweh e Satã. Jó, na terra, é então vitimado com toda sorte de desgraças, que o atingem em todas as áreas da sua vida. Prostrado e adoecido, ensimesmado num silêncio de reflexão, não sabia a razão ou a origem de tanta tragédia. Suas forças haviam sido imobilizadas pela dor e pelo sofrimento. Sobraram-lhe apenas a resignação e a fé, fortemente abaladas, mas guardadas dentro de si.

Até essa altura da narrativa do trecho em prosa não há nenhuma tensão teológica, nenhuma crise de fé. No silêncio, Jó se encontrava a sós com Yahweh. A adoração era o seu alento: “(...) Lançou-se em terra e adorou; e disse: Nu sai do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor! Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma” (Jó 1. 20b-22).

A partir dessa cena se estabelece uma tensão teológica entre o que se esperava do Jó resignado e o Jó rebelde que vai ressurgir na figura de um homem inesperadamente consciente, inconcebivelmente crente em Yahweh e reivindicador. O leitor de vai testemunhar que guardar a fé não significa perder o direito de lamentar, questionar e reivindicar. Jó resolve abrir sua boca e amaldiçoa o seu nascimento (cf. Jó 3). Assustados com essa lamentação atrevida, seus amigos, que há sete dias e sete noites faziam-lhe companhia, também em silêncio, reagem com discursos e réplicas que circulam entre os vértices do triângulo teológico tradicional: a sorte dos ímpios, a felicidade dos justos e o fato de que nada é puro diante de Deus. Serão através dos discursos dos amigos que se delinearão os contornos teológicos a respeito de Yahweh como um Deus que Jó não conhece e rechaça.


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