Departamento de teologia marcelo rodrigues de oliveira



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1.7O pano de fundo do desejo humano de controlar Deus


O desejo de controlar Deus é uma forma de vaidade presente na humanidade desde épocas antigas, principalmente naqueles que querem exercer domínio sobre os mais fracos. Tal desejo se constitui no pano de fundo da TR que, em , é questionada e combatida.

Sabe-se que, para compreender a ordem do mundo, a sabedoria antiga tinha como ponto de partida e de chegada o ser humano, em um mundo criado por uma ou mais divindades. Esse ser humano observava e refletia acerca do mundo à sua volta, sem, contudo, questionar a existência e a soberania dos deuses 75. Mais adiante, com a crise76 da sabedoria (a de e de Qohelet), já se questiona a intervenção de Deus na história. Por volta do século IV a.C., surge, entre os sofistas, uma nova concepção de mundo: “O homem passa a ser a medida de todas as coisas” – o antropocentrismo de Protágoras77. Nessa concepção filosófica o ser humano abandona a Deus e passa a ser o centro do universo.

Constata-se, no caminhar das gerações, que o ser humano será o ponto de referência de tudo, inclusive das relações com Deus: é o chamado antropocentrismo religioso, sem que com isso “ele [o ser humano] seja proclamado o ser absoluto e supremo em aberta disputa com Deus”78 (essa percepção já faz parte da virada antropocêntrica) e que o mundo foi feito à medida e ao alcance do humano. É bem possível que o limite dessa compreensão tenha sido ultrapassado pela TR na forma de controle sobre Deus, através de méritos ou deméritos pessoais.

1.7.1O desejo de controlar a Deus presente na narrativa bíblica e na cultura egípcia antiga


O desejo que o ser humano tem de ser igual a Deus, ou, no mínimo, controlá-lo, pode ser visto, de alguma forma, na figura de Eva, como representante da raça humana, que diante da proposta da Serpente, cede à tentação de comer do fruto da árvore proibida (cf. Gn 3.1 e seguintes). O germe desse desejo estava presente na insinuação da Serpente - representando o mal presente no mundo: “[...] no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (v.5, grifo meu). A ilusão de que o ser humano possa ser como Deus foi a causa da queda da raça humana é a interpretação agostiniana tradicional da narrativa bíblica. Diante da possibilidade de galgar um status sobre-humano ou, quem sabe, pelo menos manipular e controlar a Deus, Eva prontamente acedeu àquela insinuação que, depois de consumada, desencadeou a queda da raça humana no pecado (cf. Gn 3).

Voltando os olhos, mais uma vez, para as culturas antigas e suas crenças, pode-se ver na pessoa do Faraó do Egito as raízes dessa relação de controle ou manipulação do humano sobre o divino. O rei do Egito era considerado um deus79, o qual reinava através do poder do ma’at que, no fundo, era também um dever cultual80. Essa prática cultual assegurava-lhe o direito à proteção divina sobre a terra e o privilégio da vida eterna. A concentração do poder de justiça na pessoa do Faraó implicava riscos, pois o rei poderia se exceder na auto-atribuição do poder divino, deixando sua prerrogativa de deus para ser manipulado pelos poderosos, os quais buscavam vantagens pessoais em lugar dos valores morais da justiça social81.

As duas informações dadas, tanto a bíblica quanto a egípcia sobre o desejo que o ser humano tem de usurpar o lugar de Deus, não são únicas, mas, para os efeitos desejados nesta dissertação, são suficientes para se entender o pano de fundo antropológico da TR. As raízes dessa antropologia que apóia o ser humano no movimento de usurpar o lugar de Deus alimentam aquilo que se denomina aqui como lógica casuística, ou seja, a compreensão de que toda ação, boa ou má, desencadeia um determinado resultado para a pessoa que a praticou.

1.7.2Conseqüências antropológicas e teológicas do desejo de controlar Deus


O desejo de controlar Deus, ainda que tal pareça absurdo, é uma forma de vaidade que se manifesta com intensidades diferentes ao longo da história do ser humano. Se levado a cabo, resulta em um excessivo e danoso autocentramento que afronta à soberania de Deus e à compreensão de seu caráter e atributos.

É indiscutível que o ser humano jamais poderá controlar Deus. No entanto, enquanto desejo, tal pode acontecer por outro viés, quando alguém, em nome da religião, esconde-se atrás da imagem de um Deus implacável e punitivo a fim de transmitir a sua própria intolerância para com os mais fracos. Como representantes divinos, assumem o papel de juízes dos demais, sentindo-se no direito de ditar as regras, como o fizeram os amigos de Jó.

Esses, falando em nome de um Yahweh implacável e muito zeloso com a distribuição da justiça, não disseram o que era reto acerca de Deus (Jó 42.7b). Erraram ao falar de Yahweh como um Deus que só age em resposta ao comportamento humano, em função de uma antropologia dualista que divide os humanos em privilegiados e desgraçados. Nesse caso, a forte imagem de tais mensageiros como titereiros82, manipulando a Deus como a um boneco através dos cordéis da causa e efeito, parece pertinente.

1.7.3Jó supera o desejo de controlar Deus, próprio da Teologia da Retribuição


Ainda que inicialmente adepto da TR, Jó progride no decorrer dos discursos, desvencilhando-se dela na medida em que sua experiência de sofrimento o ajuda a descortinar um novo modo de fazer teologia. Sua antiga ortodoxia desmorona diante de sua experiência de sofrimento. Ela não o sustentou nem se susteve frente à realidade. No momento em que Jó mais precisava da retribuição em troca da sua retidão e integridade (cf. Jó 1.1), mais dor e acusações vieram de todas as partes, especialmente da dos amigos. Naquela hora, onde havia se escondido o Deus da TR?

Jó escandaliza-se por não receber a retribuição de sua justiça no presente e busca, em vão, o sentido de seu sofrimento. Ele

(...) luta desesperadamente para encontrar a Deus que se esquiva e em cuja bondade ele continua crendo. E quando Deus intervém, é para revelar a transcendência de seu ser e de seus desígnios e reduzir Jó ao silêncio. Esta é a mensagem religiosa do livro: o homem deve persistir na fé, mesmo quando seu espírito não encontra sossego83.

Finalmente, pode-se dizer que uma teologia que defende o antropocentrismo e, por conexão, uma ética comportamental que obrigue Deus a recompensar ou punir uma pessoa, nada mais é do que roupagem religiosa que, em nome de Deus, camufla interesses individualistas em prejuízo dos mais fracos. Contra esses interesses individualistas, somente a “noção de justiça como a busca comunitária de uma vida melhor supera a idéia de que o ser humano é o centro do mundo”84.


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