Departamento de teologia marcelo rodrigues de oliveira



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1.8O agir humano a partir de uma lei causal rigorosa


A TR postula a ação humana fundada na concepção mecanicista de causa e efeito. Conforme tal teologia, cada pessoa pode programar seu futuro, pois a realidade da vida deve ser pensada de forma esquemática: a justiça leva à felicidade, em contrapartida, a injustiça leva à infelicidade.

1.8.1Nem tudo o que acontece resulta de uma lei causal rigorosa


Para manter-se protegida dos possíveis ataques contra suas incongruências doutrinárias, a TR precisou se entrincheirar na prerrogativa de sua suposta imunidade: assim, qualquer tentativa de questionar o sofrimento e a pobreza do inocente se constitui em afronta direta a Deus. Daí, a falsa concepção de que tudo que acontece com as pessoas obedece a um script divino, e, por isso, não deve ser questionado. “Os questionadores devem ser afastados da sociedade para não manchá-la”85. Com isso, a solidariedade humana como ação de socorro e misericórdia em favor daqueles que sofrem é “imolada” no altar teológico da falsa religião.

1.8.2Jó era livre para agir


O texto de apresenta um recurso interessante para permitir que o personagem Jó fosse livre em relação à TR: descreve-o como um estrangeiro. Como não-israelita, Jó era livre para agir e não estava preso a nenhum esquema teológico dominante. A regra de causa e efeito é quebrada nele. Propositalmente o autor (autores) de , com o intuito de tratar o problema do sofrimento do justo em sua forma mais rigorosa, constrói seu personagem isento de toda solidariedade possível com um povo pecador ou com uma família pecadora. Como estrangeiro que era, Jó não tinha que dar conta de sua fé à sociedade de Israel. Sua retidão, integridade e temor a Deus estavam livres de todo esquema teológico dominante e, como se sabe pelo texto, não havia na sua família nenhum pecado não expiado que pudesse ter ocasionado suas aflições (cf. Jó 15).86

Nesse caso, para o autor (es), a inocência não era uma mera questão de honestidade individual, meritória de bênçãos e recompensas; nem as riquezas prêmio de Yahweh ao honesto e trabalhador; nem a pobreza castigo ao pecador. Tanto Yahweh como o homem agem em liberdade. Um comportamento de honestidade e temor a Yahweh, que não seja pela gratuidade, não encontra respaldo teológico legítimo. Para o pensamento dominante da época, a recompensa como sinal da bênção divina servia mesmo era para aliviar a consciência dos que possuíam muitas riquezas e bens neste mundo e para alimentar a resignação aos fracos e pobres na condição de carentes, como se tal fosse a vontade de Yahweh.


1.8.3Yahweh não pode ser privado de sua liberdade


Yahweh não aceita ser enquadrado na TR para justificar as ações humanas. Os amigos de Jó queriam enquadrar Yahweh dentro de sua teologia, privando-o assim de sua liberdade87. Obviamente Deus não se conforma a este tipo de enquadramento, mesmo porque Yahweh não pode ser contido por ninguém e por nada. Ele é o Todo-Poderoso – “Porventura, desvendarás os arcanos de Deus ou penetrarás até à perfeição do Todo-Poderoso?” (Jó 11.7). Diante da teologia dos amigos de Jó, Yahweh não fica calado, “ataca o pretenso saber de Jó e de seus amigos, de prever e saber exatamente quando e como Deus castiga os pecadores”88. À humanidade não é possível conhecer por antecipação as ações de Deus. “Nada, nem mesmo o mundo da justiça é capaz de aprisioná-lo”89.

1.8.4Ética da solidariedade versus ética classista


A ética que resulta de uma teologia mecanicista de causa e efeito, em que a realidade da vida é pensada de forma esquemática, privilegia os que tiveram sorte na vida e despreza os desafortunados. É uma ética classista porque não contempla a pessoa humana na sua mais ampla complexidade; não resulta do ethos, mas vem pronta, pré-fabricada; não conta com o imprevisível, porque tem que dar respostas calculadas e adequadas ao status quo daqueles que controlam o saber.

Os amigos de Jó, em nome da sabedoria, discursavam fundamentados em uma ética de cartilha, aprendida e decorada na escola tradicional da ortodoxia, enquanto Jó procurava respostas em meio ao sofrimento que havia se juntado ao da sua dor física: o do conflito gerado entre sua fé, sua ética e Yahweh. Da experiência, Jó aprende uma nova ética, a da gratuidade, e sua fé é provada e aprovada até poder contemplar Yahweh diretamente: “(..) mas agora os meus olhos te vêem” (Jó 42.5). Seus amigos teólogos não vivem nenhuma experiência, nada aprendem, apenas trazem consigo uma teologia acadêmica, uma teologia de gabinete. Eles, que se percebiam superiores, capazes da dar respostas a qualquer situação, arrogantes, foram desmascarados, humilhados e socorridos pela oração de Jó (cf. Jó 42.7-9). Os amigos realmente falam sobre Yahweh e sua justiça, mas sabem quase nada a respeito do viver com Yahweh e do agir de seu Deus, e pouco dizem ou parecem saber sobre o ser humano e suas carências. Configuram um discurso ético capenga, unilateral e injusto. Não fosse Jó, com suas inquirições e coragem para contestar, não prevaleceria finalmente a ética na qual a solidariedade, o amor a Deus e a dignidade humana tornam-se os fundamentos para se ter algo a dizer que faça sentido para o justo sofredor.


1.9Conclusão


As reflexões em torno da TR colocaram as bases para se compreender a TP. De fato, a TR tem uma lógica no seu método e pensar, quando vista em seu aspecto de conseqüência possível, não, porém, no sentido de uma verdade absoluta90.

Mesmo a conhecida afirmação do apóstolo Paulo, de que “(...) aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7), não se remete a uma lei rígida de causa e efeito. Senão, como explicar suas prisões, açoites, apedrejamentos, naufrágio, fome, sede, nudez etc (cf 2Co 11.16-33)? Seriam tais acontecimentos de sua vida conseqüências de algum pecado não confessado? Certamente, não. O próprio apóstolo entende tudo isso como fraquezas, através das quais Deus aperfeiçoa nele o seu poder, e conclui: “(...) Porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza [...] Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (2 Co 12. 9,10). A graça de Deus era o seu alento (v.9).

Há um detalhe no princípio da semeadura91 que não pode ser esquecido quando aplicado à distribuição da justiça: o que se planta será colhido de volta pela força da natureza da semente plantada. Mas, não é verdade que tudo o que se colhe foi plantado um dia. Principalmente, quando se entra no âmbito das relações humanas, não se pode aplicar cegamente a lei de causa e feito, como peso e medida pré-estabelecidos, a fim de fazer a distribuição da justiça; nem através dela tirar certas conclusões, partindo do que se observa nas experiências dos outros. É preciso considerar cada caso no seu contexto e perceber o ser humano em seu contexto histórico, social, psicológico e religioso específico. Coisa que os amigos de Jó não fizeram.

Devido ao fato de que a TR não pondera suas reflexões a partir do ser humano e em seu contexto de vida, mas, sim, a partir de um esquema teológico já pronto, chegou-se à cristalização de uma concepção mecanicista de causa e efeito. Isso contribuiu para a construção de uma teologia maniqueísta, porque trata de um Deus previsível, cujas ações estão condicionadas por dois princípios que se digladiam: o bem e o mal; de uma antropologia simoníaca (um ser humano que pode controlar Deus) e de uma ética mecanicista (um agir humano a partir de uma lei causal rigorosa).

Este tripé – o Deus previsível, o ser humano todo-poderoso e lei causal rigorosa – sobre o qual a TR desenvolveu sua doutrina, servirá de base também para a TP que surgirá como um movimento, conhecido no seu início por Movimento de Confissão Positiva, nas décadas de 40 e 70 do século XX, nos Estados Unidos da América, e depois, no Brasil. É o que se pretende abordar no próximo capítulo.

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