Departamento de teologia marcelo rodrigues de oliveira



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2A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE EM SUAS GRANDES LINHAS NA PREGAÇÃO DAS IGREJAS NEOPENTECOSTAIS

2.1Introdução


O tema da TP remete ao neopentecostalismo, pois, como o título deste capítulo aponta, é nas grandes linhas da pregação das igrejas neopentecostais que se pode perceber a elaboração da TP. É difícil dizer se o neopentecostalismo se construiu a partir do discurso da TP, ou, ao contrário, o discurso da prosperidade encontrou eco nas lacunas que a tradição e eclesiologia cristãs, tanto católica como protestante, deixaram em relação às demandas existenciais humanas na Pós-modernidade. Neste trabalho, assume-se o neopentecostalismo como uma forma de expressão religiosa cristã que se manifesta tanto na vertente da confissão protestante como na católica. No entanto, aqui por questões metodológicas, que envolvem inclusive o espaço e o escopo do pesquisador, o olhar se deterá mais especificamente na vertente protestante.

Falar da TP é também encarar a mercantilização da fé. Sabe-se que mercadejar com a fé popular é artifício antigo. A história da igreja cristã no Ocidente e no Oriente pode testemunhá-lo amplamente. Porém, a sua legitimação e articulação como movimento religioso, oriundo do cristianismo, pode ser observada no século XXI nas terras brasileiras. Este capítulo busca entender as vias pelas quais se organiza sistemática, religiosa e teologicamente essa mercantilização da fé dentro do que se denomina neopentecostalismo no Brasil.

De origem americana, chegou ao Brasil na década de 70 do século XX, o que somente mais tarde foi reconhecido e denominado de neopentecostalismo. Seu crescimento foi (e é) vertiginoso, assustando católicos e protestantes pelo avanço proselitista na conquista de pessoas; pela ousadia no uso da mídia e rápida penetração em quase todos os segmentos da sociedade brasileira. Em virtude disso, o neopentecostalismo tem sido objeto de estudos e pesquisas por parte de teólogos, sociólogos, antropólogos e cientistas da religião.

Aborda-se aqui o neopentecostalismo pela via teológica, como fenômeno religioso cristão, sem compromisso com uma eclesiologia histórica, ou melhor, como alternativa à Teologia tradicional, tanto católica quanto protestante. Mapeia-se seu nascedouro em movimentos92 pentecostais procedentes dos Estados Unidos, na década de 40 do século passado, que depois recebem influência de outros movimentos como Ciência Cristã e Nova Era93, que contribuem significativamente na construção da TP.

Devido à proximidade temporal do estudo do neopentecostalismo, que dificulta o distanciamento crítico e a produção textual reflexiva e de revisão, as Ciências da Religião e as Ciências Sociais estudam o fenômeno através de pesquisas de campo, com entrevistas, depoimentos, histórias de vida, levantamentos estatísticos em busca de diretrizes e elementos que conduzam à análise. Neste estudo, reconhece-se que não há distanciamento temporal, geográfico e reflexivo suficientes para uma análise crítica compreensiva. O quadro que se pode apresentar do neopentecostalismo e da TP é muito mais fenomenológico. Mas, também por razões metodológicas e formais que envolvem a produção de uma dissertação do Programa de Mestrado, optou-se pelo mapeamento bibliográfico. Buscou-se a literatura publicada a respeito, tanto a literatura de sustentação que dá racionalidade à TP como também se procurou acompanhar as reações de linha ortodoxa às manifestações da TP nas pregações e literatura neopentecostal.

Constatar-se-á que, no Brasil, o neopentecostalismo é comandado por uma liderança jovem e leiga. Aqueles que se inserem na estrutura eclesiástica hierárquica, bispos, pastores e obreiros, são proibidos de passar por formação teológica formal, por acreditar serem ungidos de Deus94 - pessoas diretamente comissionadas por Deus e capacitadas pelo Espírito Santo para desempenharem o ministério de pastor: sem lastro com um passado histórico cristão tradicional, são treinadas para fazer suas igrejas crescerem numericamente e deslancharem. E o fazem com muito mais eficiência do que quaisquer outras igrejas cristãs na atualidade. Conhecidos por suas mensagens dialogadas, os pregadores da TP, em conversa com o amigo ou amiga95, atingem seus interlocutores naquilo que lhes é mais latente: os anseios pela riqueza, saúde e prosperidade.

Mostrar-se-á a proposta da TP como pragmática e imediatista quanto à realização escatológica da esperança cristã e, por isso, pouco reflexiva, processual e transformacional. Paradoxalmente, apesar do gosto por sermões dialogais, seus teólogos não se abrem à reflexão e crítica, carecendo-lhes, por isto, de consistência doutrinária. Seu hermetismo é identificado no fato de as igrejas neopentecostais se manterem afastadas das demais igrejas cristãs em eventos que lhes são comuns. Seus líderes parecem ignorar o sentido da ortopraxia (a sã doutrina de Tt 2.1) e avançam celeremente na construção de uma teologia de concorrência. Aí, deus é reduzido à condição de servidor do ser humano, visto como ser de posse, nascido para ser feliz, a cujos problemas existenciais (pobreza, infelicidade e doenças) apresentam-se soluções sobrenaturais a la carte. Tal antropologia não encontra respaldo na tradição bíblica.

Para uma melhor compreensão da TP, serão abordadas suas grandes linhas na pregação das igrejas neopentecostais. Isto será feito percorrendo passos sistemáticos e complementares entre si: 1) a descrição fenomenológica da TP; 2) um breve diagnóstico crítico da TP no Brasil; e, 3) um esforço de análise da TP a partir das categorias: teológica, antropológica e ética.


2.2Descrição fenomenológica da Teologia da Prosperidade


A TP fundamenta-se em uma lógica mercantilista, com ênfase no sucesso, na saúde física e emocional e na posse de bens como resultados visíveis e comprobatórios de uma fé viva em Deus. Essa fé viva alinha-se como um novo tipo de fé que exige mudanças significativas na postura escatológica dos crentes que, tradicionalmente, remetiam ao futuro, às promessas de saúde perfeita e ausência de sofrimento (cf. Ap 21.4). A lógica mercantilista não lida com a formação de caráter, a construção ética da responsabilidade pelo outro ou com a pedagogia da esperança, mas com a comprovação e a efetividade da bênção através da experimentação imediata. Por isso, a dor e a doença devem ser eliminadas, e a saúde e felicidade vividas aqui e agora.

É possível descrever o percurso histórico da TP desde suas raízes nos Estados Unidos da América e sua difusão no Brasil, em uma perspectiva fenomenológica. A primeira percepção é a do deslocamento teológico da relação binária básica reino de Deus e reino do mundo. Em seguida, seguem-se os passos da TP no Brasil, desde uma perspectiva neopentecostal. Acompanha-se, na década de 90 do século XX, a uma forte reação protestante à pregação neopentecostal, quando esta é definida como TP. Identifica-se o sujeito histórico que deu forma à tendência pragmática e imediatista do neopentecostalismo e a formação de seu pensamento. Finalmente, analisa-se a estratégia de difusão da TP no meio neopentecostal, com ênfase no uso dos meios de comunicação, modernização, conforto e beleza nos ambientes de culto neopentecostal marcados pela mensagem de prosperidade. Reserva-se também fôlego para compreender um dos maiores expoentes da Teologia da Prosperidade no Brasil, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD)


2.2.1Um deslocamento teológico


Em toda a história do Cristianismo, sustentou-se a pregação da abnegação dos prazeres mundanos e discernimento na utilização dos recursos que o mundo, teologicamente falando, oferece. Às vezes, tal pregação era levada ao extremo por determinados grupos religiosos, católicos ou protestantes, que optavam por um estilo de vida agrária, de total desprezo à urbanização e modernização. No século XX e XXI, algumas comunidades, como a dos Amish96, são um exemplo desse radicalismo religioso97.

Levada ao extremo ou não, até à chegada da TP, a mensagem comum da igreja em relação mundo era: não se deve amar o mundo (cf. 1 Jo 2.15-17) e, quanto aos limites da liberdade cristã, o aferidor era o discernimento pessoal orientado pela tradição bíblica: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas edificam”, ou [...] não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1 Co 10.23; 6.12b).

No entanto, a TP operou uma guinada vertiginosa na postura cristã de renúncia ao mundo e na conseqüente expectativa escatológica. Pode-se dizer que se promoveu um deslocamento teológico, em que as motivações do ser humano foram transferidas do seu objetivo original, servir a Deus despretensiosamente, para um substituto aceitável, isto é, alguma bênção ou ganho que o represente. A partir daí, autorizou-se uma procura frenética pelas benesses religiosas no tempo que se chama hoje.

A ambição pelas coisas do mundo, denunciada pela ética e moral cristã, passou a ser considerada “direito a ser reivindicado em nome de Jesus”. A pessoa humana passou a ser entendida como ser que tem direitos espirituais e materiais a serem reivindicados; e Deus se organiza exclusivamente como o depositário das bênçãos, que passa a ser saqueado, e cujo poder é colocado a serviço de interesses materialistas. As bênçãos divinas, que sempre foram vinculadas à justiça, ao amor e aos deveres cristãos, são, agora, vista como bens de consumo.

Surge, a partir desse deslocamento teológico, uma nova geração de crentes descompromissada com a tradição cristã e que desconhece a mensagem da cruz (renúncia), mas que é perita em reivindicar direitos adquiridos na cruz. O que mais se poderia esperar de tudo isso, senão algo como o estouro da boiada, multidões desesperadas atrás de um Jesus do ôba ôba, à procura de pão, mas que não querem compromisso com os valores do reino de Deus? “(...) vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes” (cf. Mt 6.22-40).

Essa geração é diferente daquelas do pentecostalismo hoje chamado histórico ou das igrejas cristãs tradicionais98, que aderem à renúncia ao mundanismo e aos seus prazeres, mantendo um estilo de vida cultural e sócio-econômico marcado pelo ascetismo99. A geração neopentecostal parece buscar desenfreadamente a ascensão social facilitada pela urbanização, modernização e o pronto acesso aos bens de consumo disponibilizados, no Brasil, a partir dos anos setenta100. A TP é vista pelas linhas tradicionais como produto alienígena que encontrou mercado ávido e amplo, exportada para as igrejas da América Latina diretamente da América rica, sem levar em consideração que o Norte é rico e o Sul é pobre. “Uma teologia que violenta o Evangelho e ofende o pobre; que conduz a um perigoso processo de materialização da fé, onde a bênção é medida em categorias materiais”101.

A passagem para o neopentecostalismo foi rápida, porém não sem transição. Percebe-se, por trás da formação dessa geração neopentecostal, vários pregadores norte-americanos que encontraram no pentecostalismo brasileiro o que se pode chamar de cabeça de ponte, através das quais atravessaram suas doutrinas mescladas de idéias oriundas do ocultismo e da Nova Era. No próximo subitem, trabalha-se quem foram esses personagens e quais as suas principais idéias.

2.2.2Teologia da Prosperidade em termos neopentecostais


Entende-se por lógica mercantilista o fato de um sistema de pensamento e conduta se fundamentar nos valores de mercado, ou seja, o que dá sentido à ação humana é o enriquecimento e status. No caso da TP tal lógica se verifica a partir da leitura retributiva das promessas contidas nas Sagradas Escrituras com vistas à adaptação da fé aos apelos do existencialismo102 em face do neoliberalismo econômico. Pode-se mesmo dizer que a TP não sobreviveria se não fosse articulada (como o é, efetivamente) numa sociedade democrática da Pós-modernidade de regime capitalista neoliberal.

Na TP, Deus e os homens, agentes através dos quais se dá o circuito da Revelação e da fé, invertem seus papéis: - Deus coloca-se a serviço dos interesses do ser humano e o ser humano se auto-afirma como ser de posse. O resultado dessa inversão é de tal envergadura epistemológica e teológica que praticamente estabelece o surgimento de uma nova religião, que dificilmente se poderia denominar cristã em termos teológicos, atraente ao ser humano da Pós-modernidade e de grande aceitação pela proposta de felicidade e prosperidade que anuncia. Nela, a pessoa se diviniza, age como ser de posse e goza de uma felicidade sem ética e sem compromisso social, uma vez satisfeitos seus anseios através da manipulação da ação divina em seu favor.


2.2.3O percurso da Teologia da Prosperidade no Brasil


Diferentemente da opção que se seguiu nesta pesquisa, alguns pesquisadores, como Gaede Neto103, vinculam o surgimento da TP no Brasil ao pentecostalismo, a partir da criação das igrejas Assembléia de Deus em Belém do Pará, em 1910 e, Congregação Cristã do Brasil em São Paulo, em 1911. Depois, nas décadas de 50 e 60, com a chegada do movimento de cura divina ao Brasil trazido pelos missionários norte-americanos, surgem novos grupos pentecostais de origem nacional, como a Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil para Cristo, em 1955, e Igreja do Evangelho Quadrangular, na década de 60. Na efervescência desse movimento pentecostal, várias cisões denominacionais aconteceram, dando ocasião ao surgimento de igrejas autônomas (não denominacionais), e, daí, denominadas neopentecostais, como, por exemplo, a Igreja Evangélica Pentecostal Deus é Amor, em 1961104 e, a de maior expressão nesta linha, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Percebe-se que, apesar das diferenças, há entre o pentecostalismo e o neopentecostalismo a identificação da origem na pregação avivalista norte-americana do século XIX e XX, a tendência ao afastamento da Teologia tradicional, sendo que o neopentecostalismo é a expressão de uma ruptura de segunda geração que adere à TP. Percebe-se que o viés de Gaede Neto é o da continuidade e da estrutura eclesial.

Outros pesquisadores, como Ricardo Mariano, pelo viés da ruptura, definem a década de 70 do século passado como marco histórico. A ênfase está no discurso e na elaboração teológica. Nessa perspectiva, segundo Ricardo Mariano, a TP:

(...) penetrou em muitas igrejas e ministérios para-eclesiásticos, em especial: Internacional da Graça, Universal, Renascer em Cristo, Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra, Nova Vida, Bíblica da Paz, Cristo Salva, Cristo Vive, Verbo da Vida, Nacional do Senhor Jesus Cristo, Adhonep, CCHN, Missão Shekinah105.

No entanto, cada uma das instituições citadas por Ricardo Mariano trabalhará matizes diferentes da TP por motivos os mais diversos, de acordo com a conveniência de cada uma106. A unidade entre essas formas tão distintas está no discurso teológico e não na eclesiologia aplicada.

Mas, independente de qual década tenha sido, pode-se dizer que tanto a forte ênfase que o pentecostalismo deu aos dons espirituais como sinais evidentes da operação do Espírito Santo (especialmente a glossolalia), como a busca romântica por um modelo eclesiológico que se assemelhasse à Igreja Primitiva de Atos dos Apóstolos, criaram as condições de possibilidade para a aceitação e expansão da TP em muitas igrejas pentecostais. Além do mais, a mensagem baseada na tríade: cura, exorcismo e prosperidade configura-se atrativa na conquista e adesão de pessoas para tal teologia, pois,

(...) estabelece conexões com o ideário das massas sob influxo da cultura do consumo plasmada pela mídia. Paralelamente, num nível mais profundo, vai ao encontro do irracionalismo reinante (atávico à chamada pós-modernidade?); ao mesmo tempo contempla a tendência atual para o fundamentalismo religioso107.


2.2.4Um elenco de personagens americanos nos bastidores da Teologia da Prosperidade


Muito antes da TP tornar-se uma força dominante no cenário brasileiro na forma neopentecostal, doutrinas oriundas de seitas esotéricas foram adotadas por determinados grupos de cristãos norte-americanos, como forma de explicar seus novos conceitos de fé e, ao mesmo tempo, justificar as experiências espirituais singulares de alguns de seus líderes. Tais doutrinas encontraram guarida nos antigos movimentos de cura divina108 que antecederam o próprio pentecostalismo, e produziram uma espécie de mentalização da fé, que é o resultado da fusão metafísica do poder da mente com a fé, que ajusta um novo conceito de fé inerentemente humano à religião.

Não se pode negar que, durante toda a história da Igreja Cristã, houve movimentos de cura divina legitimamente firmados nas Escrituras e na ação do Espírito Santo, mas, também, muitos abusos e muito charlatanismo se apresentaram. Ora, “o Movimento de Cura permanecia nos moldes dos avivalistas até que surgiu no cenário evangelístico o norte-americano, Kenneth Hagin”109.


2.2.5Percurso e pensamento de Kenneth Hagin


K. Hagin ficou conhecido como o pai da TP e o seu principal divulgador nos Estados Unidos e no Brasil, além de outros países. Dezenas de livros deste autor foram e são publicados e exercem influência no ministério de muitos pastores evangélicos de diversas denominações espalhadas pelo mundo. Para entender a origem de suas doutrinas, é necessário voltar um pouco na história e conhecer as idéias de alguns personagens do século XIX que influenciaram o pensamento de Kenneth Hagin, especialmente na elaboração da confissão positiva: Finéias Parkhust Quimby, Warren Felt Evans e H. Emilie Cady.

Finéias Parkhust Quimby110 (1802-1866) é considerado o pai do Novo Pensamento e divulgador da noção de que a enfermidade e o sofrimento, em última análise, têm sua origem no pensamento incorreto. Formulou o que se chama de confissão positiva: 1) o ser humano pode criar sua própria realidade através do poder da afirmação positiva; 2) saúde e riquezas são supostamente conquistadas através de afirmações; e, 3) confissões positivas que trazem à existência aquilo que está no mundo invisível. O médico e escritor Warren Felt Evans entende que “a fé é a forma mais intensa de ação mental”111. Ao tratar um paciente, Evans comentou que “o efeito da sugestão [ou afirmação de que o paciente está bem] é o resultado da fé do sujeito, pois é sempre proporcional ao grau em que o paciente acredita no que diz”112. Já, a médica e homeopata pioneira, H. Emilie Cady, declarava enfaticamente que “a nossa afirmação, escudada pela fé, é o elo que conecta nossa necessidade humana consciente com seu [de Deus] poder e suprimento. [...] há poder em nossa palavra de fé para trazer todas as coisas boas até nossa vida diária”113.

Esses e outros pensadores dos séculos XIX e XX seguem uma linha positivista de pensamento, fórmula imprescindível na autosugestão e na auto-ajuda. Articulam o uso de exercícios mentais, característicos de seitas orientais, adaptados à fé cristã, inconscientemente ou não, e os utilizam como recursos suplementares para fazer as coisas acontecerem em nome de Jesus.

Na década de quarenta do século XX114, a fermentação do Novo Pensamento, de Quimby, em composição com a fé cristã, começou a levedar a massa que daria densidade à TP. Somente a partir da década de setenta, um conjunto de crenças sobre cura, prosperidade e poder da fé se constituirá no movimento doutrinário de alguns grupos evangélicos carismáticos dos Estados Unidos da América e, via importação, do Brasil. O mais notável expoente deste movimento é, o aqui estudado, texano batista evangelista nascido em 1918, Kenneth Hagin115.

Além de Quimby, Evans e Cady, Hagin foi influenciado por seu contemporâneo Essek William Kenyon116 (1867-1948), ex-pastor de igrejas cristãs protestantes de várias linhas (batista, metodista e pentecostal), que adotava idéias de seitas cristãs e correntes metafísicas como Ciência da Mente, Escola da Unidade do Novo Cristianismo, Ciência Cristã e, a já mencionada, metafísica do Novo Pensamento.

Kenyon nutria certa simpatia por Mary Baker Eddy117, fundadora do movimento gnóstico Ciência Cristã. Essa, por sua vez, acreditava que a matéria e a doença não existem e desenvolveu estudos que, entre outras coisas, tratavam do poder da mente, a inexistência das doenças e o poder do pensamento positivo. “Muitas frases popularizadas pelos atuais mestres da prosperidade, como ‘o que eu confesso, eu possuo’, foram originalmente cunhadas por Kenyon” 118.

A história pessoal de Hagin fornece também elementos para se compreender a formação de suas crenças. Na juventude, foi vitimado por várias enfermidades e experimentou profunda pobreza119. Aos dezesseis anos de idade, relata ter recebido uma revelação quando lia Mc 11.23,24, entendendo que se pode obter de Deus qualquer coisa, desde que confesse em voz alta, nunca duvidando da obtenção da resposta, mesmo que as evidências indiquem o contrário120. Foi ainda pastor de igrejas cristãs protestantes em várias denominações: batista, Assembléia de Deus e outras igrejas de linha pentecostais. Assim, depois de passar por tantas comunidades e diversas denominações, finalmente, "em 1974, ele e seu filho Ken Jr. fundaram, em Oklahoma, o Rhema Bible Training Center, centro de formação de discípulos e de novas lideranças dessa corrente”121.

2.2.6A Teologia da Prosperidade segundo Kenneth Hagin

As idéias que subsidiaram Kenneth Hagin no estabelecimento de uma teologia própria do Rhema Bible Training Center, que neste trabalho se denomina TP, podem ser divididas em três pontos ou dimensões principais: 1) autoridade espiritual; 2) bênçãos e maldições da Lei; e 3) confissão positiva.

Quanto à dimensão da autoridade espiritual, segundo Hagin, Deus oferece (doa) autoridade (unção) a profetas, nos dias atuais, como seus porta-vozes. Ele próprio (Hagin) testemunha que recebe revelações diretamente do Senhor: “(...) dou graças a Deus pela unção de profeta [...] reconheço que se trata de uma unção diferente [...] é a mesma unção, multiplicada cerca de cem vezes”122.

Quanto às bênçãos e maldições da Lei123 aponta, com base em Gl 3.13,14, que os seres humanos que passaram pela experiência de conversão a Jesus pela declaração verbal de adesão são libertados das maldições da lei, que são: 1) miséria; 2) enfermidade e, 3) morte espiritual. Obviamente, os demais seres humanos não o são. Ele formula sua teoria partindo das maldições conjuradas em Dt 28 contra os israelitas que pecassem. Assim, o cristão tem direito à saúde e riquezas, pois doença e pobreza são maldições da lei. Hagin ensina que todo cristão deve esperar viver uma vida plena, isenta de doenças, sem dor ou sofrimento124. Caso alguém adoeça é porque não reivindicou seus direitos ou não tem fé. E não há exceções. Defende que o texto de Is 53.4,5 é algo absoluto: os cristãos já foram sarados e não existe mais doença para o crente. Os seguidores de Hagin enfatizam ainda que no tema dos direitos entra o direito ao “melhor dessa terra” e, por isso, o crente deve ter carro novo, casa própria, as melhores roupas, uma vida de luxo, que o consumo pode oferecer.

Quanto ao terceiro ponto, a confissão positiva, pode-se verificar suas raízes históricas no ocultismo. A base bíblica para a confissão positiva é do tipo prova escriturística e se acha apenas nas interpretações particulares de seus próprios líderes, não na ortodoxia teológica cristã. A confissão positiva foi adaptada numa espécie de fórmula da fé que Hagin diz ter recebido diretamente de Jesus, o qual lhe apareceu e mandou que a escrevesse em quatro tópicos. Se alguém deseja receber algo de Jesus, basta seguí-la:

1) “Diga a coisa” positiva ou negativa, tudo depende do indivíduo. De acordo com o que o indivíduo quiser, ele receberá. Essa é a essência da confissão positiva; 2) “Faça a coisa”. Seus atos derrotam-no ou lhe dão vitória. De acordo com sua ação, você será impedido ou receberá; 3) “Receba a coisa”. Compete a nós a conexão com o dínamo do céu. A fé é o pino da tomada. Basta conectá-lo. 4) “Conte a coisa” a fim de que outros também possam crer. Para fazer a confissão positiva, o cristão deve usar as expressões: exijo, decreto, declaro, determino, reivindico, em lugar de dizer: peço, rogo, suplico; jamais dizer: “se for da tua vontade”, pois isto destrói a fé125.


2.2.7Outros difusores da Teologia da Prosperidade


Apesar de se ter focado aqui a história e o pensamento de Kenneth Hagin, os difusores da TP no e para o Brasil são muitos, e seus nomes estão ligados não somente a essa forma de fé, mas também à busca de riqueza, fama e sucesso. Os pastores, teólogos e escritores que influenciaram, direta ou indiretamente, as igrejas brasileiras, são126, entre outros, Kenneth Copeland, Benny Hinn, David Robertson, Oral Robertson, Fred Price e Paulo Crouch. Todos eles norte-americanos.

Em terra brasilis, os mais conhecidos e influentes (e não exatamente pelo conteúdo do que escrevem, quando escrevem!) são os que utilizam a mídia para a divulgação de suas mensagens. São eles127: R. R. Soares, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus; Jorge Tadeu, líder das igrejas Maná, em Portugal; Cássio Colombo (o tio Cássio), ligado ao ministério de Jorge Tadeu; Miguel Ângelo, líder da Igreja Evangélica Cristo Vive, no Rio de Janeiro; Valnice Milhomens Coelho, líder do Ministério Palavra da Fé; Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD); entre outros.


2.2.8Estratégias da Teologia da Prosperidade


Identificam-se duas estratégias que foram decisivas tanto para a expansão e penetração da TP no meio cristão como para a sua identificação com o discurso neopentecostal. São: 1) a utilização da mídia televisa e modernas estratégias de gestão e de marketing aplicadas à pregação e aos cultos; e 2) a elaboração do deslocamento de parte da esperança escatológica para o presente.

Como se verificou até aqui, a TP é singular, e é até então, a linha cristã que preconiza abertamente o sucesso, a saúde e a aquisição de bens materiais como resultados da fé. A fé compassiva, fides pietate, cheia de compaixão pelos males alheios, anunciada pela Igreja como fonte de resignação e contentamento, parece ter sido substituída por uma fé ousada que não se conforma com o pouco, mas que busca conquistar abundâncias para a vida terrena. Para a TP, uma vida de fé significa o quanto faço em nome de Jesus e o quanto recebo pelo investimento aplicado em Deus.

O sentimento de renúncia e resignação, acalentado pelos crentes pentecostais, sofre inversão paradoxal com a chegada da TP, a partir da década de 70 do século XX. A mensagem escatológica que anunciava uma vida melhor somente no porvir, para uma pátria celestial, mudou seu foco para a vida presente, na qual o reino de Deus é vivido e desfrutado aqui e agora.

Predominantemente norte-americana, a doutrina chegou ao Brasil trazendo consigo as ambições do primeiro mundo justificadas em nome de Deus. Uma boa ala das igrejas pentecostais e dissidentes se identificou com a mensagem da prosperidade que, hoje, denominada de neopentecostais, já tem o seu perfil próprio e doutrinas consolidadas. Marcados pela inovação e marketing arrojados, os neopentecostais surgem e crescem vertiginosamente sob os holofotes da TP. No entanto, sua proposta doutrinária deixa dúvidas quanto a sua genuinidade cristã, e se mostra frágil diante de uma análise teológica crítica.


2.2.9Utilização da mídia televisiva e estratégias mercadológicas


Estrategicamente mais modernos do que as demais denominações religiosas cristãs históricas, os pregadores da TP utilizam os meios de comunicação mais avançados do país para transmitir suas liturgias, tecidas com base na simbologia veterotestamentária.

Sob holofotes e diante das câmeras de televisão, um misto de práticas espiritualistas, mistéricas e cristãs é oferecido ao povo, sempre em nome de Jesus: sal grosso, lenços ungidos e orados no Monte Sinai, água do Rio Jordão, folha de oliveira do Jardim do Getsêmani, exorcismos exibicionistas etc. São práticas medievais, enquanto liturgia, e ultramodernas, na sua transmissão midiática.

As igrejas cristãs tradicionais, principalmente as pentecostais, faziam uso da mídia de forma modesta, apenas para transmitir suas pregações, sem apelação estética e de marketing. De aparência simples, e mesmo cafona ou brega, o que se via era a pregação do evangelho acompanhado dos dons espirituais, como descrito em 2 Co 12. O cuidado para não se conformar com o mundo (cf. Rm 12.2) inibia, de alguma forma, certa propensão ao exibicionismo.

Já, os neopentecostais lançaram mão do marketing e, quebrando a rotina de todos os programas religiosos veiculados pela mídia, buscaram o veículo top de linha da comunicação nos anos 70 do século XX: a televisão. São ousados nas apelações e criativos na mística dos símbolos e cenários do Antigo Testamento (candelabro, arca, trombetas, Monte Sinai etc.). Antes dos reality show e da interação da web, introduzem grande inovação: conversas com o povo em canal aberto de rádio e televisão. Ouvem, aconselham, encorajam os desalentados, sempre com uma palavra de . Fazem o que há de mais elementar e imprescindível na ação pastoral: ouvem as pessoas e oram por elas (no entanto, em cadeia nacional, de forma espetacular).

O salto em relação às demais igrejas, na atualização e modernização de sua comunicação, pode ser percebido também na escolha de seus pontos de pregação. Os lugares escolhidos para começar uma nova igreja são privilegiados, preferencialmente cinemas e teatros - adquiridos ou alugados. Isso trouxe ganhos na congregação de pessoas para os cultos, pois eliminou a tradição de freqüentar cultos aos domingos em edificações em estilo medieval. Assim, em lugar de freqüentar templos feios, com bancos duros em madeira maciça, desconfortáveis, as pessoas, que na sua maioria vêm cansadas do trabalho, têm a opção de se reunir em qualquer dia e hora da semana em salões agradáveis, espaçosos, confortáveis e arejados. Quem não admite a beleza e conforto do Templo Maior da Igreja Universal do Reino de Deus, situado na Avenida Olegário Maciel, em Belo Horizonte? É um cartão postal da TP.

O que levou as igrejas neopentecostais a utilizarem os recursos do mundo, outrora tão renegados pelos cristãos tradicionais? Quem desconhece que, atualmente, seus representantes estão na política, na televisão, no esporte, na música, enfim, em praticamente todos os segmentos da sociedade? Muitas explicações poderiam ser dadas para responder a estas perguntas. Porém, notoriamente se vê que a TP dissipou a linha que dividia o santo do profano, facilitando a penetração da instituição eclesiástica neopentecostal em praticamente todos os segmentos da sociedade, desde que atendam aos seus interesses e conquistas.


2.2.10O deslocamento da esperança escatológica para o presente


Com a secularização da fé, as esperanças escatológicas antes projetadas para o “novo céu e nova terra” (cf 2 Pe 3.13), compartilhadas pelo povo de Deus em todas as épocas, inclusive pelos pentecostais, são, agora, desfrutadas no presente século pelos neopentecostais. Em lugar de aguardar a vinda do Senhor para enxugar as lágrimas e sanar a dor (cf Ap 21.4), deve-se pronunciar as palavras de ordem: tomar posse, ordenar, trazer à existência. No neopentecostalismo, todos os direitos já devem ser desfrutados, de antemão, pelos cristãos. Cabe-lhes, por dever, decretar a existência deles, para que saiam da condição de bens espirituais e ganhem existência material. O adventismo não tem lugar na mensagem da TP.

2.2.11A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD)


Hoje, sem sombra de dúvida, dentre as igrejas denominadas cristãs no Brasil, a que melhor interpreta a TP é a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) com sua mensagem de posse de bens em que a abastança, saúde e outras realizações existenciais substituem o contentamento de 1 Tm 6.6-10. Tal mensagem, resultante de uma exegese bíblica nada crítica, encontra eco nas necessidades mais gritantes daqueles por quem Jesus se compadeceu – os aflitos e necessitados: “Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9.36).

Fundada em 1977, por Edir Bezerra Macedo, a IURD se assemelha às igrejas evangélicas por proclamar as doutrinas fundamentais da fé, como, por exemplo, a deidade de Jesus, o dogma da Trindade, a ressurreição corporal de Jesus e a salvação pela graça através da fé. No entanto, difere radicalmente na sua eclesiologia (especialmente suas práticas litúrgicas) e, no tema deste trabalho, na adesão e defesa da TP. Essa adesão transtorna sua teologia e antropologia teológica, inevitavelmente.



Na luta contra os demônios e pregando com base na TP, a IURD põe as pessoas diante de uma oportunidade mágica de prosperarem financeiramente e ficarem livres de todas as ações dos demônios: para isso, basta “dar o seu tudo”128. Entrega de dízimos, ofertas de sacrifícios e tantos outros apelos de arrecadação são apresentados como ato de fé que abrem as portas para o sucesso emocional e financeiro.

A explosão de crescimento da IURD não se dá apenas em número de adeptos e freqüentadores em busca de prosperidade. A IURD, hoje, é dona de um grande império econômico. Livre de impostos, fatura mais que a Autolatina129 e é dona de várias emissoras de televisão e rádio, sem contar os seus muitos imóveis. De fato, seu patrimônio faz jus à doutrina que prega - a doutrina da prosperidade. Estabeleceu-se em mais de 80 países. Tornou-se objeto da atenção nacional na busca por escândalos financeiros de um periódico de circulação nacional130, que denunciou alguns de seus líderes envolvidos no escândalo de lavagem de dinheiro nas Ilhas Cayman, paraíso fiscal britânico localizado no Caribe. O que mais pesa contra os pregadores da doutrina da prosperidade em algumas igrejas neopentecostais é que, em lugar de serem levados perante tribunais, governadores e reis, por causa de Jesus, para lhes servir de testemunho (cf. Mc 13.9), eles estão sendo levados perante a Polícia e a Receita Federal para explicar lavagem de dinheiro em paraísos fiscais e enriquecimento ilícito131.

O mesmo periódico afirma que, além da

Universal do Reino de Deus, liderada pelo bispo Edir Macedo, a Internacional da Graça de Deus, do missionário Romildo Ribeiro Soares (RR Soares), e a Deus é Amor, do missionário David Miranda, há mais 78 igrejas e 171 templos evangélicos verde-amarelos instalados nos EUA, no Canadá, na Europa e na África 132.

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