Departamento de teologia


“Outra” compreensão da relação de Deus com o ser humano



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3.1.1.3 “Outra” compreensão da relação de Deus com o ser humano

Para outra compreensão da relação de Deus com o ser humano, é necessário boa visão histórico-evolutiva da experiência religiosa de Israel. Além disso, interpretar o texto no contexto em que foi escrito, em tensão dialética com o pré-texto do autor, antes de empreender aproximação com o horizonte atual do leitor, ou seja, superar a leitura literalista da Bíblia. As ciências bíblicas oferecem novo horizonte de compreensão do texto sagrado. A experiência religiosa de Israel tem na trajetória histórica paulatina apercepção da presença amorosa e solícita de Deus, promovendo e sustentando a realização e autonomia da criação. O povo de Deus compreendeu – não sem intensas crises, não sem profundas transformações da mentalidade –, que o Criador não concorre com o ser humano, apenas o ama, promove e sustenta-lhe a vida, sem que esse impulso vital anule ou contradiga a autonomia da criação.

De fato, a Escritura consignou muitas e díspares concepções religiosas, com variadas imagens de Deus, superadas no caminhar religioso de Israel. O Deus, que se dá a conhecer, no Primeiro Testamento é, indubitavelmente, o mesmo do Segundo. Mas da parte do homem, em seu lento aperceber-se da revelação, o Deus de Jesus parece outro, em relação ao Deus de Abraão ou de Moisés. Pelo menos, na maneira como as Escrituras descrevem seu agir, seu relacionar para conosco. Percebe-se plenitude inaudita em Jesus de Nazaré. De tal forma que não constitui exagero algum supor tratar-se de outro Deus468. A invocação do testemunho de Jesus de Nazaré corroboraria a necessidade urgente do repensar da compreensão pré-moderna da relação de Deus com a criação e das imagens que fazemos de Deus.

A experiência profunda de fé de Torres Queiruga explicita sua intuição básica. O dinamismo mais profundo da experiência cristã indica que o mistério de Deus em sua relação com o ser humano, longe de despertar qualquer temor, se traduz como refúgio seguro, oferta salvífica e horizonte amoroso de luz e esperança469. Deus se apresenta como autêntica “Boa Nova” para o homem. Um salvador, com amor gratuito, generosidade irrestrita e luminosa oferta de graça470. Deus revela-se não apenas como apoio e ajuda, “mão estendida”, mas como Abbá querido que inspira confiança e promove a vida, como mãe solícita que cuida, ama e faz que tudo esteja bem e que sofre em seu amor ao ver que aquele que é amado se recusa a ser feliz471.

A partir dessa experiência libertadora do projeto salvífico de Deus, a criação adquire novo sentido e assume o caráter de iniciativa amorosa absoluta, que nasce do amor, nele se move e para ele se volta. O dinamismo criador explicita-se na afirmação da criatura em e por si mesma. Sem buscar o próprio proveito, sem exigir nada em troca, apenas que se volte para a busca da plena realização472. Nessa perspectiva supera-se toda dualidade natural-sobrenatural, sagrado-profano. Permanece a diferença, mas, como tudo vem de Deus e está incluído e sustentado n’Ele, observa o autor, tudo pode e deve ser vivido como acolhida e afirmação da ação criadora. Tudo o que ajuda a verdadeira realização da criação, responde ao desígnio criador e constitui a alegria do Criador. O bem das criaturas é a afirmação do próprio ser de Deus e realização do desígnio divino473. Deus olha com infinito respeito a autonomia das criaturas e sua ação consiste em afirmá-las com seu amor incondicional474.

Paradoxalmente, se deveria dizer que Deus cria, “não para ser servido”, mas para servir475. Deus não tem carências. De sua plenitude, revela-se como amor, como aquele que é inteiramente dom. Deus é puro amor-agape. A ação de Deus não tem sombra de egoísmo, é pura afirmação generosa do outro. Não busca algo para si, relaciona-se exclusivamente como generosidade de quem o presenteia com tudo o que tem em si476. O Deus de Jesus não cria para ser servido, mas para colocar-se a serviço da criação (1 Jo 4, 4.8.16)477. Essa visão contradiz a idéia de que “o homem foi criado para servir a Deus”, ao contrário, é Deus quem serve ao homem. Jesus é a imagem fiel das atitudes de Deus. Põe-se com todo seu amor a serviço dos seres humanos. Deus cria o homem para si mesmo, para que seja feliz e se realize. A vida humana, em todas as suas dimensões, é querida e apoiada por Deus. Seu interesse é a plenitude da realização humana. Deus “deseja” a realização, a plenitude possível e a felicidade, já agora, e a salvação definitiva, futura478. Para isso está sempre promovendo tudo o que é bom e positivo para as pessoas e para o mundo479.

Desde o início da religião bíblica, sem negar a transcendência divina, concebeu-se como uma aliança, compreendida como relação pessoal com Deus, relação eu-tu. Nela o ser humano se sente interpelado por Alguém com o qual pode falar, escutar, diante do qual se sente responsável, pelo qual se sente salvo480.

Se por religião entende-se o pensar em Deus e o colocar-se a seu serviço, deve-se confessar que o Abbá de Jesus não é nada “religioso”481, pois, Ele só “pensa” em nós e busca exclusivamente nosso bem. Não precisa de “servos” que proclamem sua glória482.

A linguagem religiosa é elaborada em determinado contexto histórico e, como tudo que é histórico e situado, padece os efeitos do tempo. Na caminhada do cristianismo, muitas expressões religiosas ficaram à beira do caminho quando perderam seu vigor ou capacidade de expressar a experiência cristã. As inúmeras reformas litúrgicas testemunham a necessidade de contínua atualização dos diversos mecanismos de expressão e das formas de configuração da “eterna novidade” da experiência cristã. Há expressões litúrgicas que não conseguem expressar aos fiéis, como antes, o que pretendem483. No mesmo sentido compreende-se o sensus fidei, a formação da mentalidade religiosa acontece num processo vivo e dialético com a linguagem e formas culturais disponíveis. Há mútua implicação, contínua tensão dialética, entre o sensus fidei, a liturgia – com seus símbolos, linguagem e gestos –, e a linguagem fontal bíblica484.


      1. Outra” compreensão da relação do ser humano com Deus

A religião nasce da experiência vivida da proximidade de Deus por algum líder espiritual. Tal experiência se apresenta como algo transformador, por isso deseja-se consigná-la e transmiti-la aos demais. O significado fundamental da religião é a de ser vivência libertadora. A experiência cristã não é diferente. Apresenta-se como libertação essencial, com o objetivo de tornar o peso da existência humana mais leve485. Nasce para tornar a tarefa da vida mais suportável, ao revelar a companhia da presença amorosa, sustentadora e salvífica de Deus. Uma verdadeira “Boa Notícia”. Apresenta-se essencialmente como graça, libertação, alegria, ajuda, alívio e comunhão pessoal, num destino plenificador486.

A experiência de Deus vivida por Jesus de Nazaré possibilitou o surgimento, dentro da tradição judaica, de outra tradição religiosa libertadora. Anuncia a possibilidade da relação de proximidade amorosa, gratuita e solícita entre o divino e o humano, a partir da iniciativa de Deus em autocomunicar-se na história ao ser humano. Deus revela-se, em Jesus, como Abbá querido e como aquele que tem um projeto salvífico universal. Da parte humana, requer-se acolhida dessa oferta salvífica e resposta, seguir o caminho de Jesus.

Essa experiência religiosa, para continuar apresentar-se como “Boa Nova” atualmente, precisa conhecer os anseios e as esperanças do homem. A “virada antropocêntrica” lhe possibilitou mudança radical na autocompreensão, pois, permitiu a tomada de consciência da autonomia das realidades criadas e, especialmente, da sua própria subjetividade. Esse fato exigiu, como já se analisou nessa dissertação, profunda revisão da imagem de Deus e de seu modo de agir na história487.

A compreensão da relação do ser humano com Deus pede intensa revisão. Não dá para não levar a sério a consciência dessa autonomia e continuar a apresentar-se de modo moralista, dogmático, arbitrário, autoritário, de “cima para baixo”. A resposta humana ao projeto salvífico de Deus passa mais pela lógica do encontro amoroso, do assentimento livre e consciente, da entrega comprometida, do que pela relação servil de submissão, pela lógica do dever, da imposição ou legislação de mandamentos e decretos, da dependência.

Hoje, devido às conseqüências que provocam na compreensão do cristianismo, fechar-se e não levar em conta as críticas da Modernidade significa continuar repetindo fórmulas e expressões religiosas que contradizem frontalmente a experiência cristã mais autêntica.

3.1.2.1 “Outro” sentido para a oração cristã488

Para Torres Queiruga, a partir do Deus vivo e verdadeiro compreende-se que a oração cristã tem outro sentido. A oração é, por excelência, o cultivo da intimidade com Deus. Saborear a sua presença amorosa. Ela restaura as forças, alimenta a confiança e sustenta a esperança do homem. Nesse sentido, em situações difíceis só orando é possível esperar, porque só a fé em Deus é capaz de manter viva a esperança489.

A autêntica oração cristã não é a iniciativa humana com objetivo de conquistar ou provocar a ação divina. A atitude religiosa cristã respeita a iniciativa absoluta do Deus criador, reconhece seu amor incondicional e sempre em ato, fruto de sua bondade infinita e universal490. O esforço humano encontra sentido à medida que se deixar iluminar, guiar e convencer por Ele. A iniciativa é sempre de Deus, é Ele que “escuta os gemidos” dos que sofrem, suscita na consciência humana o desejo de ajudar. Portanto, na verdade, é Deus que nos diz: “escuta, tem piedade dos teus irmãos, que são meus filhos, seus gritos são meus gritos” (Ex 2, 24; 3, 7-1)491.

A oração cristã tem outro sentido. Porque se experimenta a iniciativa amorosa divina, não se precisa convencer a Deus com pedidos. A um Deus Pai-Mãe solícito, que sempre busca nossa plenitude e salvação, não tem sentido informar, convencer ou despertar a compaixão492:

A um Deus separado do mundo, que procede por intervenções pontuais, que concede graças ou favores a quem quer e quando quer, faz sentido tentar despertar sua compaixão, convencê-lo ou ganhar seu favor. Pelo contrário, diante do Deus que “consiste em amor” (1 Jo 4, 8-16), que não tem outro interesse além de nossa realização, que, sendo pura e absoluta iniciativa, “trabalha sempre” por nós, o que nos cabe é acolhê-lo e auxiliá-lo, deixar-nos convencer e colaborar com Ele, cultivar o agradecimento e a confiança em sua ajuda e em sua presença, apesar das possíveis aparências que, contra tal convicção, são impostas por nossa finitude.

Diante d´Ele – só diante d´Ele – o pedido e a súplica carecem de sentido, não por soberba ou auto-suficiência, mas justamente pelo contrário: pelo reconhecimento de que a falha ou a deficiência, a falta de disposição ou boa vontade – para evitar a catástrofe ou acabar com a enfermidade, do mesmo modo que para rechaçar o mal e se decidir pelo bem – não estão jamais do lado de Deus, mas sempre do nosso493.

No fundo, quem precisa ser convencido é o próprio homem. Este precisa abrir-se mais e mais ao chamado divino, deixando-se tocar pela graça em sua subjetividade. Nesse sentido, a oração em comum, na Igreja, oferece ocasião oportuna de abertura social a Deus e à influência transformadora da graça salvífica494. A oração cristã tem, prioritariamente, sentido e direção antropológica. É o homem que necessita do efeito da oração: abrir-se e deixar-se iluminar pela graça de Deus.

Ao longo de toda a Escritura perpassa a prática da oração de petição495, mas no fundo o que se revela é que Deus é fiel ao seu amor e que a atitude primeira do cristão é confiar-lhe e entregar-lhe a vida. A Bíblia registra o caminhar de um povo na fé. Houve momentos em que imperava mentalidade de retribuição, de troca de favores, mas esta foi superada à medida que entrou em crise. Nem por isso foi excluída da Escritura. Jesus também, como homem situado em seu tempo, compartilhou mentalidades que não são mais as de hoje. A título de exemplo citemos a visão cosmológica ou a compreensão de doença496. Nem por isso ele deixou de ser a plenitude da revelação cristã. A Bíblia é “Palavra Viva” de Deus, sua interpretação e atualização são necessárias para que continue fonte crível para o homem de todas as épocas e geografias.

O fato de Jesus ter feito e ensinado a oração de súplica, compreende-se a partir da concepção da relação de Deus com a criação entendida dentro do universo cultural em que vivia. Como esse universo já não é o atual, é preciso repensar a linguagem e a forma de expressar a atitude de confiança em Deus, bem como a relação de Deus conosco. É iluminador nesse sentido a atitude de Jesus na paixão, no primeiro momento suplica a intervenção do Pai, mas a atitude mais intensa e profunda não se deu na súplica. Ao contrário, pareceu a muitos que Deus o abandonou, pois, suas preces “não” foram atendidas. A riqueza da vivência religiosa de Jesus traduz-se, antes, na entrega confiante nas mãos do Pai. Essa entrega não foi em vão.

Na mesma direção entende-se o fato da oração de petição fazer parte da tradição cristã. O contexto cultural em que o cristianismo se configurou difere-se enormemente do que hoje se vive. Em razão disso, não se constituía problema teológico. Sua caducidade aflorou com a entrada da Modernidade, com a descoberta da autonomia das realidades físicas e da liberdade humana, com o paradigma histórico.

Na experiência mais intensa de Jesus de Nazaré com o Abbá, nota-se que as palavras acabam sobrando, pois, Deus é amor em ato e, como testemunha o Evangelho contradizendo a leitura literalista do “amigo importuno”, é Pai solícito que sabe do que cada um precisa antes de qualquer solicitação (Mt 6, 7-8.25-33). A iniciativa de Deus é que move o coração humano ao amor. Deus conhece cada ser humano intimamente, só quer o bem, não precisa ser convencido a exercitar sua compaixão ou movido em sua generosidade497.

Na experiência de Jesus, Deus se revela como presença paternal, que está sempre com o homem, que é pura e absoluta iniciativa. Um Deus, que consiste em amor sempre em ato (1 Jo 4, 8-16), não tem interesse maior do que a realização humana. É um Deus que trabalha sempre para que essa se realize plenamente498. Portanto, a rigor, teologicamente, não tem sentido o pedido ou a iniciativa humana de convencer a Deus em atender pedidos. Deus é o primeiro a lutar e a fazer de tudo para a realização humana. Ao contrário, é ele quem chama e “suplica” a colaboração humana nessa luta. Esse é o sentido maior do mandamento do amor: o apelo divino ao homem para que se una à sua ação salvadora499.

A atitude de confiança em Deus é mais profunda que a prática da oração de súplica. Aliás, a súplica, no contexto atual, revela objetivamente o oposto do que pretende. Tal prática hoje objetivamente implica que Deus “poderia” preocupar-se, mas não se preocupa, “poderia” conceder, mas, por alguma razão, não concede. Nesse sentido ficam duas alternativas inaceitáveis para o cristão autêntico. Por um lado parece que as “incansáveis” preces dominicais não chegam até Deus, o que não pode ser. Por outro, que ele não quer “escutar”, “atender” ou “ter piedade”, o que também não pode ser500.

É preciso recuperar o sentido básico de confiar em Deus. Confiar é, sobretudo, entregar-se nas mãos e esperar em Deus, como Jesus no horto, contra toda desesperança. É fruto do ato de fé maduro que, em qualquer situação, aconteça o que acontecer, sabe que Deus está junto com ele, com seu amor salvador de Pai.

A iniciativa é sempre de Deus, por isso a súplica não tem sentido teológico vertical,– do homem para Deus –, mas tão somente sentido antropológico horizontal, – do homem para o homem –, ou seja, movido pela fé, de coração aberto, cada um é chamado a crescer ou alimentar o espírito de solidariedade. Ao pedir “algo” a Deus, na verdade, os fiéis em oração é que, impulsionados pelo Espírito e interpelados pelas necessidades dos irmãos e irmãs, tomam consciência da responsabilidade fraterna. Deus não precisa ser lembrado, por que não esquece. O ser humano sim! Deus não precisa ser movido em suas entranhas, porque seu amor é sempre solícito e em ato.

Para o autor, na autêntica experiência cristã, à medida que se aprofunda nela, a oração do fiel vai abandonando paulatinamente as petições para concentrar-se na única e verdadeira petição: “que eu me abra à tua vontade, à tua graça, à tua Salvação”. Na caminhada espiritual do cristão, as petições se convertem em meio para precisar as dimensões da existência em que a abertura a Deus há de se concretizar. Por exemplo, quando alguém eleva à Deus uma prece para o amigo enfermo é, antes de tudo, pedido para que ele mesmo tenha disponibilidade para acompanhar e ajudar a esse amigo, ou seja, que se abra ao chamado divino, ao amor solidário. Ou ainda, quando alguém pede por justiça não significa que venham anjos do céu para fazer a distribuição eqüitativa dos bens da terra, mas pedir que todos os seres humanos de boa vontade se abram à dinâmica do amor e da entrega que a salvação de Cristo instaurou no fundo dos corações501.

Segundo Paulo, “o Espírito vem em auxílio de nossa fraqueza, pois, nem sabemos o que convém pedir; o próprio Espírito intercede por nós de acordo com a vontade de Deus” (Rm 8, 26-27). Para as tradições místicas, a oração é, antes de tudo, silêncio e abertura a Deus. Nesse sentido, explicita-se o sentido fundamental da oração cristã: Deus espera que o ser humano abra a porta do desejo, que esteja disponível para acolher seu amor salvador.

A graça da salvação transforma e penetra o coração humano e abre-lhe a possibilidade de identificação com Jesus Cristo. Mas seu dinamismo respeita profundamente a liberdade humana e procura ativamente realizar-se através dela. Por isso a atitude fundamental é a abertura. O desejo cristão autêntico se expressa na confiança, na liberdade e na abertura a Deus502. O próprio Jesus, ao receber a tradição religiosa judaica, gratuitamente teve que responder ao chamado e cultivar atitude de abertura a Deus. A experiência cristã é, antes de tudo, encontro de liberdades. Da Liberdade absoluta de Deus e da liberdade contingente humana.

3.1.2.2 “Outro” jeito de ser cristão

A dependência da criatura em relação a Deus não significa a anulação da autonomia e da liberdade. A salvação cristã é, no fundo, ação amorosa da parte de Deus, cujo fruto é a potencialização da liberdade e autonomia humanas. O cristianismo sustenta essa afirmação tendo diante de si a grande referência: a pessoa concreta de Jesus de Nazaré. Sua relação com Deus não lhe anulou, de modo algum, a dimensão de autonomia, ao contrário, a sustentou e a promoveu em plenitude. Jesus foi o homem livre por excelência. Quanto mais referido ao “Deus do Reino”, quanto mais aberto à “transcendência-imanente” da presença amorosa do Abbá, melhor concretizou sua liberdade, diante do Templo, da lei, das estruturas políticas e religiosas, em fim, diante de si mesmo. Jesus entregou-se, num ato extremo de liberdade, ao projeto salvífico de Deus. Este lhe revelou, enquanto amor gratuito e libertador, o sentido maior da liberdade: praticar a justiça e o amor.

“Fizeste-nos para vós, e nosso coração está inquieto, enquanto em Ti não repousar”, a profundidade do pensamento de Agostinho (354-430) não constitui contradição. A não ser que se tome de modo absoluto a literalidade do texto. Agostinho expressa nas “Confissões” seu itinerário espiritual, o papel ímpar da graça de Deus em sua conversão ou, para ser mais preciso, utilizando o horizonte paulino, a libertação da liberdade para a práxis do amor e da justiça. A experiência cristã da liberdade, por causa do pecado, é sempre a da graça, uma liberdade libertada. É muito esclarecedora, nesse sentido, a teologia da graça ou a antropologia teológica de França Miranda503.

A espiritualidade cristã, no confronto com a liberdade vivida e realizada por Jesus de Nazaré, percebe a presença amorosa de Deus como fonte da vida. Cada ser humano nasce do Amor e somente no amor se realiza. Nasce da Liberdade e apenas na liberdade se realiza. O ser humano, enquanto finito e contingente, é dependente da fonte que o promove para ser livre e praticar o amor e a justiça.

Nesse sentido, considerar o sentido radical da criação para a “glória de Deus”, significa um ato de fé. A criação não acrescenta nada a Deus. É Deus que a sustenta, a destina e lhe faz tudo para sua realização. Deus é em si mesmo “relação subsistente” e “relação de Amor”. A criação é fruto da iniciativa gratuita e sem limites desse Amor benevolente. O ser humano, como toda a criação, existe em Deus e n’Ele subsite, no dinamismo do processo de vir-a-ser504.

Essa mudança possibilita ao cristianismo desenvolver postura aberta e prospectiva em relação ao mundo e à história. Acolher, positivamente, aquilo que favorece a realização autêntica do ser humano. Perceber o progresso do mundo inserido no dinamismo criador divino. Como também, assumir como critério central de discernimento, o que concretamente impede ou favorece a realização das criaturas505.

Essa posição permite postura religiosa nova, pois, situa o projeto salvífico de Deus na integridade da vida real506. Corrobora nessa direção a espiritualidade de Teilhard de Chardin ou a reflexão da Teologia da Libertação com sua insistência na Salvação integral das pessoas e povos, bem como da reflexão teológica com preocupações ecológicas507.

A relação do ser humano com Deus, ou seja, a resposta cristã ao dinamismo criador, não pode passar à margem da tarefa universal de assumir a responsabilidade com a vida e a história. Fazem parte intrínseca da experiência religiosa o radical compromisso ético-político e o apoio prospectivo aos diversos movimentos, religiosos ou não, de luta pela dignidade da vida, pelos direitos humanos, pela justiça, etc.



      1. Outra” compreensão da linguagem religiosa508

Segundo a compreensão atual, advinda da contribuição das ciências bíblicas, a linguagem religiosa não é descritiva e objetivante, mas narrativa e performativa. Sua intencionalidade é a de transmitir experiências ou mensagens, cuja interpretação sugere ou conduz à conversão de mentalidade ou atitude. É muito recente na história do cristianismo a acolhida da necessidade de interpretação dos textos sagrados, bem como o reconhecimento da variedade de gêneros literários contidos nos diversos textos bíblicos509.

A transformação radical da linguagem religiosa é um caminho áspero, mas necessário. Não é mais possível continuar, sem pagar altíssimo preço, com a leitura literalista da Bíblia ou com a concepção a-histórica dos dogmas ou conceitos cristãos. A tarefa ingente é cunhar uma compreensão da linguagem religiosa que supere tanto a mentalidade “objetivista” quanto as posturas “subjetivistas”, renunciando as concepções autoritárias da fé510.

A história nos mostra que não levar isso em conta ou claudicar nessa questão significa exigir do fiel assumir posturas ingênuas diante da fé: atitude fideísta, infantilismo acrítico. Tais posturas, muito facilmente, induzem ou mesmo provocam compreensões supersticiosas, dualistas e fanáticas na vivência da fé cristã.


        1. Novo” jeito de compreender a linguagem religiosa

O processo de mudança de paradigma cultural afetou o conjunto da cultura e modificou a função da linguagem. Exige-se profunda remodelação dos conceitos e nova tradução do conjunto das expressões em que culturalmente a experiência cristã se encarna511. Nesse sentido, entre os grandes desafios postos à teologia, está o de buscar nova significatividade e articulá-la efetivamente no discurso da fé, já que a religião está entregue de modo muito especial à palavra512.

A consciência do papel e do risco, a necessária atenção e cuidado, que a questão da linguagem religiosa exige, de certa forma, estão presentes desde o início da experiência cristã. Nos Evangelhos se percebe, nos inúmeros conflitos de Jesus, o problema da interpretação ou a perda do sentido autêntico que a linguagem busca conservar e transmitir. A lição mais explícita aparece em Paulo: “a letra mata, enquanto o Espírito gera vida” (2 Cor 3,6)513. A própria razão de ser da teologia emerge da necessária reflexão da contínua tensão entre o sujeito, a experiência e a linguagem em que esta é captada e transmitida.

A teologia de Torres Queiruga propõe assumir, entre seus principais desafios, a tarefa de empreender a leitura atualizadora e “maiêutica” da Escritura514. A teologia mantém a preocupação apofática de que, dada a consciência de que Deus não é o que as palavras humanas dizem a seu respeito, Deus é sempre mais515. Nesse sentido entre as tarefas da reflexão teológica atual destaca-se a promoção do ensino-aprendizagem “não-objetivante” da linguagem religiosa. Além disso, simultaneamente, deve assumir a “missão impossível” catafática: a possibilidade de falar, com propriedade, do intrinsecamente não mundano de Deus com a única linguagem mundana que dispomos. Aqui coincidem o problema estrutural e o estatuto da teologia516.

Tentativas importantes de superação dos limites estruturais da linguagem religiosa fracassaram pela dificuldade de manter os pólos da tensão: a transcendência divina e a imanência da história. O deísmo tentou salvaguardar a transcendência divina despersando a “máxima unidade” experimentada em Jesus e acabou por converter Deus numa realidade passiva e distante do mundo. O panteísmo, por não salvaguardar a diferença entre Deus e a criação, caiu numa linguagem que favorecia a identidade total inaceitável para a experiência cristã. A consciência religiosa comum buscou solução intermediária, o “deísmo intervencionista”. Deus está no céu, mas age de vez em quando em resposta a necessidades concretas dos seres humanos. Essa solução promoveu a mentalidade religiosa de que a intervenção divina pode ser alcançada pelo rito, recordação ou invocação, ou seja, o ser humano pode tomar a iniciativa de mover ou mesmo convencer a Deus pela súplica, oferenda ou sacrifício517.



        1. O desafio de “outra” linguagem da ação divina

Superar essa mentalidade religiosa deturpada não é tarefa fácil. Para Torres Queiruga essa superação passa pela elaboração de nova linguagem para a compreensão do agir divino. A possibilidade dessa efetivação se insere, decisivamente, na ruptura da visão dualista natural-sobrenatural, sagrado-profano.

Desse modo, favorecer-se-á a compreensão do “panenteísmo”, no qual, Deus concebido como “Infinito positivo”, não precisa vir ao mundo, porque o inclui dentro de si, ou seja, o habita desde sua raiz mais originária. Como Criador, não precisa intervir pontualmente, porque é já Ele mesmo que promove, convoca e solicita a colaboração humana na luta pela realização da vida. Tudo vem de Deus e está sustentado n’Ele. A conseqüência para a experiência cristã é que tudo que seja para ajudar na verdadeira realização da criação, deve ser vivido e acolhido dentro do dinamismo do desígnio criador. É preciso evitar a linguagem que sustenta a compreensão de Deus como ser passivo e fora do mundo, cuja ação possa ser movida pela iniciativa humana, através de ritos e orações. A nova linguagem religiosa deve zelar pela absoluta iniciativa divina em tudo. Nesse sentido, toda ação humana, para o bem e o amor, é promovida pelo Espírito de Deus que “trabalha sempre” desde a criação do mundo, é resposta da criatura ao chamado do criador518.

Essa nova linguagem favorece a solidificação de outra maneira de conceber a criação. Deus não é um motor imóvel ou relojoeiro celestial. Sua criação é infinitamente transitiva, ou seja, possibilita, afirma e sustenta a autonomia do criado. Em perspectiva antropológica, significa que Deus “cria criadores”, entregues totalmente a si mesmos e ao mesmo tempo, “pro-movendo-os”, de dentro, ao amor, e, de fora, convocando-os a assumirem ou colaborarem, com Ele, na construção do mundo519.

Esse modo de conceber a criação permite recuperar a originalidade da experiência cristã de Deus: o modo novo de experimentar a relação imanência-transcendência. A transcendência de Deus não significa distância do mundo, nem a sua diferença infinita em relação à criação significa falta de identidade. Em Deus, e somente n’Ele, não há relação de oposição ou de exclusão com a imanência da criação. Na criação, imanência e transcendência divina se reforçam mutuamente, na “máxima diferença”. Deus, distinto do mundo, o faz existir. A contingência e a finitude da criatura se sustentam n’Ele e procedem, continuamente e na “máxima identidade”, do Criador520.

Deus é distinto, mas não separado da criação. Ele está unido, mas sem identificar-se com a criação. Estabelece com o criado relação única e incomparável. Só pode ser expressa de modo inteligível com recurso à linguagem aproximativa, simbólica, intuitiva, mas, sempre, provisória. É preciso evitar a tendência objetivante, porque se inclina para a separação: Deus está acima no céu. Ao mesmo tempo, evitar a tendência subjetivista, porque favorece a fusão, Deus e a criação são um. Trata-se de afirmar a “identidade na diferença”, sem eliminar a tensão e o equilíbrio521.


        1. O caminho de superação da leitura literalista da Escritura

Aqui o autor, mesmo ciente dos gigantescos desafios, mostra-se bastante otimista, pois, a magnitude da mudança favorece a percepção da estrutura do problema. A mudança, que impede a compreensão literal de relatos bíblicos, por exemplo o da “ascensão de Jesus”, é a mesma que provoca a distinção entre o significado da mensagem e seu significante temporal. Essa distinção franqueia a busca da intenção autenticamente religiosa em cada novo marco histórico interpretativo. O significado não existe “em estado puro”, separado de uma forma histórica concreta522.

Vizualizam-se as implicações constitutivas da linguagem, segundo o autor, na imagem metafórica da “água e o recipiente”. Nela a água é o significado e o recipiente o significante. Assim, a água não se identifica com o recipiente, ou seja, com o significante, mas sempre assume a sua forma concreta. O desafio da reflexão teológica é, “sem perder a água”, ou seja, o significado, criticamente distinguí-la do recipiente, para que possa ser transmitida, com fidelidade e inteireza, em outros recipientes ou formas culturais523.

O autor nos lembra que a linguagem religiosa é narrativa e não deve ser tomada ao pé da letra. Isso não significa que ela não cumpra a sua missão, ou seja, a de “evocar” no ser humano a imagem justa e precisa de Deus e fazer vislumbrar, ainda que “em espelho e de maneira confusa” (1 Cor 13,12), a verdade mais radical524.

3.2 “OUTRA” COMPREENSÃO DOS PILARES DA EXPERIÊNCIA CRISTÃ PARA UMA CONFIGURAÇÃO ATUAL

A reflexão teológica de Torres Queiruga se consolidou nos albores do Concílio Vaticano II. É herdeiro do dinamismo e do anseio renovador de inúmeros movimentos – entre os quais se destacam os que lançaram as sementes da primavera conciliar, os que cuidaram dos primeiros brotos e os que colheram as primícias dos frutos, até mesmo em terras de além-mar –525, e da reflexão de grandes nomes da teologia contemporânea a esse evento colossal.

Essa situação histórica proporcionou-lhe assimilar a importância do movimento de “volta às fontes” da experiência cristã. Com apurada sensibilidade teológica experimentou de modo peculiar aquilo que seria a intuição básica de todo o edifício teológico. O leitor atento percebe, com clareza, em sua obra a presença constante da experiência religiosa do Abbá de Jesus. Este, de modo inaudito, experimenta historicamente a proximidade da presença salvadora amorosa de Deus, como realidade contínua e universal.

Ao mesmo tempo, como aconteceu com Jesus e com importantes representantes da tradição cristã, o autor percebeu a distância entre a experiência humanizadora e libertadora, e as formas como a tradição a configurou. A madureceu seu pensamento teológico no dinamismo do movimento eclesial que suscitava forte desejo de atualização e superação da configuração antiga do cristianismo. Nesse sentido, ele se situa entre os teólogos e cristãos que experimentam o ocaso de certa configuração do cristianismo. Válida e legítima em outro contexto, mas que perdeu o vigor de transmitir a beleza da novidade da experiência cristã ao homem de hoje.

O pensamento de Torres Queiruga mais do que “teologia da crise”, é já “teologia de resposta” à crise. As grandes pistas de saída da crise ou de nova configuração do cristianismo de sua teologia se situam em torno de dois grandes eixos. O primeiro, fruto imediato da intuição básica, é a concepção da salvação cristã526. O segundo, dela decorrente, organiza-se em torno da concepção da revelação. Juntos trazem, com fidelidade, para o contexto atual a riqueza da tradição jesuânica.

3.2.1 “Outra” concepção de Salvação527

A análise de eixos estruturantes da configuração histórica do cristianismo trouxe a percepção da vivência deturpada da fé, conseqüência direta da grave deformação da imagem de Deus528. Não se trata apenas de discrepância, há verdadeiro conflito das imagens divinas nas diversas configurações históricas do cristianismo ou entre os diversos cristianismos delas decorrentes529. Algo fundamental se perdeu no itinerário histórico da fé cristã, quanto à experiência originária, provocando os sintomas negativos que se analisam nessa dissertação530. Confrontar-se com a experiência fontal “maiêutica”, concretamente com o Deus que emerge da vida de Jesus de Nazaré, é condição irrenunciável na busca de recuperação do sentido autêntico do cristianismo. O Deus de Jesus é o lugar teológico da experiência de afirmação plena do humano531. Constata-se, em muitos cristãos, a falta de clareza a respeito do núcleo da experiência cristã. Em momentos como esse, o movimento de “volta às fontes”, é imprescindível. O centro da experiência cristã é a “Boa Nova”. Jesus de Nazaré é, para o cristianismo, o “Caminho” para experimentar a salvação. Ele é o “diapasão” capaz de afinar o cristianismo com o projeto salvífico universal de Deus (1Tm 2, 4; Tt 2, 11).

Não há espaço nesse nível para concessões. Trata-se do núcleo da experiência cristã. Para Torres Queiruga, é preciso instaurar profunda “hermenêutica de reinterpretação” do dinamismo afirmativo da fé cristã. “Trazer à luz”, como única significação legítima, seu valor exclusivamente positivo. Isso significa a radical ruptura com toda interpretação negativa do cristianismo. O dinamismo mais profundo da experiência cristã indica que o mistério de Deus em sua relação com o ser humano, longe de abrir espaço obscuro de temor, vence sempre pelo lado do amor e se traduz em maior bem e esperança para o ser humano532.


        1. O amor salvífico de Deus por nós no centro de tudo

Para o autor, a intuição central do cristianismo, sua chave de leitura primeira, é a experiência de Deus como salvador, amor gratuito, generosidade sem limites nem fronteiras, luminosa oferta de graça533. Em outras palavras, o coração do cristianismo é a sua experiência de Deus como Abbá, como puro amor e bondade (1Jo 4, 8.16). O amor é o mistério do universo, a chave de sentido e a fonte da vida. Deus é amor e ser humano é esforçar-se para viver no amor534. A experiência cristã possui caráter gratuito, puramente salvífico, libertador e exclusivamente positivo em sua estrutura fundamental. Deus revela-se como mão estendida, ajuda gratuita para superar as dificuldades. Toda interpretação legítima passa por essa “matriz hermenêutica”535.

        1. O cristianismo como sacramento do amor gratuito de Deus

Deus se revela à humanidade enquanto presença libertadora de amor que potencializa para a vida em plenitude. Como desdobramento lógico, direto e imediato, o testemunho dessa experiência religiosa deve ser ciente de que no amor está sua força transformadora. Anunciar-se basicamente como fonte de positividade e confiança para o ser humano. Apresentar-se como autêntica “Boa Notícia” para a humanidade. Configurar-se como irradiante sacramento do “Amor Maior”536.

A concentração da atenção analítica na experiência salvadora de Deus pode dar a impressão de que a reflexão acima é mera obviedade. Acontece que, concretamente, nem sempre a configuração histórica do cristianismo assumiu essa interface. Para muitas pessoas, grupos e culturas, ele se apresentou sob as vestes da ameaça, com assustadora pedagogia do medo, manancial de insegurança, assumindo a face do terror, da intolerância e da destruição.

Essas deturpações históricas devem aguçar a sensibilidade da reflexão teológica para algumas tarefas fundamentais. Primeiramente, o “voltar às fontes”, em movimento constante de aprofundamento e encontro com a experiência de Jesus de Nazaré e a necessária revisão e atualização do modo como essa experiência se concretiza no cristianismo. Em segundo lugar, valorizar o processo de assimilação e apropriação pessoal do núcleo da fé cristã pelos fiéis. Isso significa preocupar-se com os mecanismos capilares eclesiais que chegam à subjetividade como caminho imprescindível para a construção da intimidade pessoal com Deus. Em terceiro, a distinção entre o conteúdo e a forma do cristianismo, entre a experiência de Deus, de modo pleno em Jesus, e as necessárias configurações culturais dessa experiência, para sua transmissão, ao longo da história.

A revitalização da identidade originária do cristianismo exige e implica, para o autor, a recuperação da alegria cristã em Deus e diante de Deus. O fundamento da alegria cristã é a “alegria” de Deus ao criar. Portanto, não se trata de suavização da “densidade encarnatória” e da concretude histórica da vida cristã nesse mundo finito. Ela é a alegria experimentada no sentido último e radical de saber-se vivendo na presença de Deus e de que toda realidade “está traspassada por um amor maior do que todos os obstáculos”, “de sentir a própria vida envolta no mistério insuperável de sua graça amorosa e salvífica”537.

Em outras palavras, urge superar o equívoco da “evangelização”, cujo anúncio apresentou a experiência cristã, de modo deformado, como “peso” suplementar acrescentado à existência humana. Promover a efetivação de “nova evangelização”, que transmita, de fato, a autêntica “alegria da salvação”. Alegria de quem sabe que não caminha sozinho, ao contrário, que está sempre sustentado pela presença amorosa do Abbá. Para que tal mudança se concretize, o autor indica três eixos fundamentais, em torno dos quais se deve dialeticamente articular a construção de “outra” presença cristã no mundo. O primeiro é a evidência de que o cristianismo autêntico tem caráter exclusivamente libertador, fruto direto da experiência “agápica” de Deus como salvador, que quer somente a realização plena e autêntica de suas criaturas. O segundo é o fato de que a relação de Deus com o ser humano, afirma, fundamenta e agracia interiormente a autonomia humana, em direção de, cada vez maior, autêntica realização histórica. O terceiro é a necessidade de mostrar concretamente que a salvação cristã está diretamente implicada, em todo anseio e luta autêntica pela libertação sócio-histórica de todo homem538.

É verdade que o cristianismo não se reduz a mero humanismo, mas também que não se concretiza historicamente sem a afirmação do autenticamente humano. Nesse sentido, é legítimo conceber que a experiência cristã é a afirmação e a superação de todo humanismo, à medida que abre a realidade humana para a plenitude infinita, no mistério de comunhão pessoal com o absoluto de Deus539.



        1. A importância da mudança na idéia de Salvação

A salvação de Deus, captada na experiência cristã, é universal e afirmativa da vida humana. Destina-se a toda humanidade540. Nenhum homem permanece intocado. Ao contrário, todos são afetados, desde a sua raiz mais original. Foram criados em Cristo e estão todos sob o dinamismo da graça salvífica de Deus. Toda pessoa que vem ao mundo é “trabalhada” pela graça cristã.

O dinamismo amoroso da graça salvadora trabalha – pressionando e impelindo interiormente todo homem e toda mulher, sem destruir-lhes a autonomia – para maior abertura ao irmão, para o crescimento do senso de justiça e honestidade, para autêntica acolhida dos valores que avançam em direção da dignidade e da fraternidade e para maior percepção da transcendência. Todo avanço social é sopro do Espírito. A ação salvífica apresenta-se sempre como solicitação a ser acolhida numa práxis social libertadora que colabore na realização de seu desígnio salvador541. Toda a realidade está transpassada e trabalhada pelo amor salvador de Deus542.

Compreende-se a salvação cristã a partir da revelação de Deus. Deus – como Criador, entrega a criatura a si mesma, e como Infinito, inclui em si sua própria oposição a ela – cria, sustenta e promove a autonomia do criado, sem cair no abandono deístico. Em sua “criação por amor”, quanto maior sua presença salvadora, mais garantida a liberdade e autonomia de cada ser543.

A salvação cristã é iniciativa absolutamente livre de Deus, “quando ainda éramos pecadores” (Rm 5, 8), “nos reconciliou consigo por intermédio de Jesus Cristo” (2 Cor 5, 18). Jesus Cristo é a concretização histórica da possibilidade concreta da vida humana fundada e salva por Deus.



        1. Uma teologia afirmativa a partir do Deus criador-salvador

A proposta de Torres Queiruga sustenta o princípio da continuidade entre criação e salvação. O que vem de Deus tem sentido libertador e salvador. Deus cria e afirma, salvando com seu amor, e salva, gratuitamente, criando e afirmando a autonomia de cada ser. A salvação apresenta-se como interpelação, como chamado para o amor. Essa unidade provoca a revisão de esquemas antigos que concebiam a salvação a partir da idéia de “sacrifício” pelo qual se “paga um preço” e se “redime de castigo”544.

A concepção salvífica cristã tem estrutura dialética. O autor mostra que ela é, simultaneamente, indicativa e imperativa. Primeiramente é indicativa. Na identidade mais profunda, o cristianismo se entende como o “anúncio” de acontecimento ocorrido, por iniciativa divina, em favor da humanidade. A “proposta salvífica de Deus” é, simultaneamente, interpeladora da liberdade e visa a provocar no homem a livre decisão de viver o anunciado. Deus, porque quer salvar o homem, promove e respeita sua liberdade. Não força, embora o chama, continuamente, à conversão e o pressiona amorosamente para a salvação. A salvação é oferta que só pode florescer na responsabilidade da resposta humana545.

Nessa direção o autor mostra que a salvação se concretiza no “encontro de liberdades” e “encontro de amor”. A vida cristã genuína se desenvolve a partir da “dialética do amor”. Deus cria e salva respeitando e amando. Ele respeita e ama, criando e salvando. O desafio, nessa tensão dialética, é manter o equilíbrio dinâmico entre “graça-amor” – enquanto a salvação é oferta e proposta amorosa de Deus -, e “resposta-liberdade” – enquanto a salvação é também decisão, esforço pessoal e responsabilidade –, sem cair em posturas unilaterais, pendendo para o extremo do voluntarismo ou do fiducialismo. “Fé” e “obras” fazem parte do mesmo dinamismo salvífico, enquanto dimensões implicativas da vida cristã. O ser humano é “chamado a ser o que é: a ser livre e pessoalmente o que real e onticamente já é pela graça”, pois, “Cristo nos libertou para que sejamos verdadeiramente livres” (Gl 5, 1)546. Salvos e libertados do egoísmo, mas para a práxis da justiça e do amor.

A experiência cristã é experiência amorosa de libertação. Situa o homem numa dimensão de plenitude, mas sem tirar a responsabilidade ou a inevitável angústia do exercício da liberdade humana. A iniciativa absolutamente livre e amorosa de Deus em identificar-se com o ser humano em Jesus Cristo revela algo novo que potencializa para o amor e alimenta a confiança humana na possibilidade de viver como “nova criatura”. Em Cristo somos chamados a viver como filhos e filhas de Deus (Gl 4,4-7)547. O cristianismo é “Boa Nova” porque possibilita, com a graça de Deus e o esforço humano, “vida nova”, jeito novo de olhar o mundo, a existência e a sociedade. “No amor não existe medo... quem sente medo, ainda não está realizado no amor” (1Jo 4, 18)548. O autor nos mostra que, se por um lado, Paulo exacerba a dimensão de liberdade como algo central na experiência, por outro, João acentua a dimensão do amor. A fé em Deus compromete a liberdade para o amor até os limites de sua capacidade, porque nela o ser humano experimenta a profundidade pessoal infinita549.

Na experiência cristã verdadeira, graça e liberdade não se subtraem, mas se somam. Tudo o que é bom é graça, sem que isso suprima em nada a consciência do esforço pessoal, nem faça com que alguém sinta a Deus como rival. A relação salvífica de Deus com a humanidade não se concretiza numa “lógica do domínio” ou da negação do outro, mas na “lógica do serviço”, da acolhida e da afirmação do outro550.

A experiência cristã capta a transcendência de Deus de modo inovador. Esta, pela absoluta liberdade divina, se realiza na “máxima unidade” com a criação. Deus não é energia criadora, mas um “Rosto” que se oferece com a possibilidade efetiva de relação “face a face”, pessoal, íntima e filial, com o ser humano. Isso não significa que possa ser objetivado ao lado dos outros seres ou das outras pessoas. Por isso a experiência cristã acentua a diferença de Deus em relação às criaturas, como superação dos limites humanos e acentuação de sua infinita capacidade de comunhão551.

A salvação exige esforço de apropriação, mas não se trata de “preço a ser pago” ou de obrigação como compensação, mas do necessário respeito à liberdade finita. É dom gratuito e libertador, não castigo ou peso. Enquanto for vivida como peso ou obrigação, a vida cristã não poderá ser celebrada como ação de graças, como sinal denso e generoso do amor salvífico de Deus. A glorificação, o louvor, a confissão, a bênção, o prazer, como experiência viva da salvação, são presenças contínuas ao longo de todo o Novo Testamento552.

O eixo central, o princípio nuclear, que unifica, esclarece o mistério de Deus para com o ser humano e dá coerência a toda a Bíblia é que Deus anuncia e realiza a salvação. Revela-se como perdão salvador, incondicional a não ser pela acolhida livre do ser humano. Nesse sentido, só o amor é digno de fé. “Entre pecado e graça, temor e esperança, condenação e salvação, Adão e Cristo, a balança inclina-se sempre, com superabundância, para o lado da graça” (Rm 5, 20-21). Deus é puro amor-agape, puro desinteresse, só pensa no ser humano, no bem ou no mal que possa se fazer. O pecado faz o Pai sofrer pela situação dos filhos e filhas. Nada existe de mais forte nem mais exigente do que o amor553.

Para o autor, a autêntica experiência cristã provoca certa tranqüilidade de fundo diante do ser, segurança confiante em face do destino do homem, pois, nasce do fato de Deus entrar na vida do ser humano como Salvador, e unicamente como salvação gratuita. Ela postula também certa plenitude na vida, que a torna visível e desejável para os outros, tem aspecto radicalmente positivo ante a presença amorosa que nos ajuda na difícil tarefa de construir a nós mesmos e a história. Por isso ela encara como mediação salvífica de Deus todo labor e conquista do ser humano: a ação de Deus é pura ajuda, independente de seu reconhecimento explícito por parte do homem, para a realização do ser humano. Confirma nessa direção o critério salvífico estabelecido pelo Evangelho (Mt 25, 31-46). Isso significa que o dinamismo da ação de Deus não concorre, e nem é alheio ou indiferente, ao esforço histórico humano. Em outras palavras, a história humana é, aos olhos da fé, a história da salvação: história da conquista e libertação progressiva.

A autêntica experiência cristã preconiza o reconhecimento da presença do amor salvífico de Deus até mesmo onde ele está sendo rejeitado, a presença do fermento do Reino mesmo onde é explicitamente negado. O interesse maior e definitivo de Deus, mesmo quando não reconhecido, é a realização do ser humano. Este deve ser o verdadeiro e mais urgente objeto da religião. O núcleo do cristianismo é a plena realização do amor gratuito de Deus na redenção do ser humano554.



3.2.2 “Outra” concepção de Revelação555

Necessita-se buscar “nova” compreensão do processo revelador, que seja significativa e crível nos atuais “paradigmas cognoscitivos”, respeitosa tanto da transcendência de Deus como da autonomia contingente do mundo, da história e do homem. Reflexão que esteja em diálogo aberto com a cultura e a sensibilidade do tempo atual.

Torres Queiruga empreendeu essa busca. A tradição da experiência fundante do Deus de Jesus, com seu dinamismo amoroso salvador, lida e relida na trajetória histórica do cristianismo, refletida no seio da cultura atual, possibilitou a ele a construção de inovadora compreensão do processo revelador de Deus. A “volta às fontes” da rica tradição judeu-cristã, consignada nas Escrituras, a avaliação crítica do modo como o processo revelador era predominantemente compreendido e aguçada sensibilidade da cultural atual, permitiram ao autor explicitar de modo original como a humanidade captou e continua a captar a presença afirmativa e a vontade salvífica universal de Deus.

3.2.2.1 O esforço supremo do amor divino na mediação do esforço e realização humanos

A intuição central se expressa na vontade divina da máxima revelação possível. Deus, “como puro amor sempre em ato, está sempre se revelando plenamente em todas as partes e a todos na máxima medida que lhe é ‘possível’”. Qualquer limite no processo revelador não deve ser buscado da parte de Deus, mas situado na “incapacidade constitutiva” da finitude humana em acolher a transcendência divina556. A iniciativa amorosa de Deus em autocomunicar-se à humanidade é o pano de fundo de sua reflexão. Deus está tentando dar-se a conhecer, pedindo amorosamente a atenção de todos os seres humanos, chamando-os de todas as maneiras possíveis a que tomem consciência e experimentem sua presença amorosa salvadora.





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