Departamento de teologia


O processo revelador postula autêntico encontro de liberdades, em profunda “dialética de amor”. Em suas palavras



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O processo revelador postula autêntico encontro de liberdades, em profunda “dialética de amor”. Em suas palavras:


Em seu amor total e em sua providência salvadora sempre em ato, Deus é como o sol irradiante que está pressionando em todas as partes o espírito da humanidade, para se fazer perceber a si mesmo; é a “palavra viva” que está chamando continuamente a sensibilidade profunda de todo homem, para fazer-se sentir. Ali onde uma greta se abre à luz, ali onde um coração se acautela obscuramente de sua voz, Deus irrompe com a impaciência do amor e inaugura um diálogo que, aproveitando essa abertura, vai-se ampliando e aprofundando 557.

O ser humano descobre a presença fundante divina, porque estava ela tentando, de todas as formas possíveis, dar-se a conhecer. A revelação vem de Deus e o homem acolhe a presença que já estava aí , desde todo sempre558.

No processo revelador, Deus se revela “amor sem medidas” e, como tal, só por amor cria e só no e por amor age. Deus é contínua e irradiante “pressão de amor no espírito da humanidade”. A liberdade divina se demonstrou como amor total, agindo ao máximo, em favor da humanidade559. O autor caracteriza a revelação como o “esforço supremo de um amor salvador”, já que a história da revelação significa basicamente o fato de:

Ir Deus conseguindo que esse meio opaco e impotente para o infinito, que é o espírito humano, vá captando sua presença e se sensibilize para sua manifestação, entrando assim em diálogo com sua palavra de amor e acolhendo a força salvadora de sua graça560.


A revelação é, exatamente, o “esforço supremo do amor” que faz tudo para que a humanidade o perceba e acolha, e acolhendo-o se realize na máxima plenitude de seu amor salvador.

O autor, ao debruçar-se sobre a fonte primária de toda reflexão cristã, percebe o “papel maiêutico” da “Palavra” consignada na Bíblia e da própria tradição cristã”, ou seja, sua função fundamental de ajudar a “dar à luz” a uma compreensão da realidade que provoca a tomada de consciência da presença divina, que desde todo sempre está aí a sustentá-la, vivificá-la e agraciá-la com seu amor infinito561.


A Bíblia, lugar onde se tornou evidente o amor gratuito e infinito de Deus pela humanidade, conserva a “luta agápica” de Deus para ir vencendo os impedimentos arraigados no espírito humano. Ela consigna em suas páginas autêntica história de salvação. Torres Queiruga percebeu a presença constante do amor incondicional e universal de Deus ao longo das Escrituras562. “Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2, 4).


Os limites na revelação efetiva nascem apenas da incapacidade estrutural da finitude e do pecado humano, que freia, deforma ou não reconhece a manifestação divina. O ser humano torna obscura e dramática a história da revelação, tanto nas religiões como no peculiar caminho da Bíblia. Os limites da revelação histórica não se devem a uma reserva divina, mas à incapacidade constitutiva humana. Como ser finito e pecador, somente obscura, ambígua e lentamente se apercebe da palavra viva que Deus lhe está constantemente dirigindo563. O que impede a total transparência da revelação é a condição finita diante da manifestação do Absoluto564.

Em si mesma, a presença viva de Deus na vida humana é sempre pura e incontaminada; mas a tomada de consciência da parte humana passa por meio de nossas limitadas capacidades, que tendem a medir tudo com esquemas e categorias humanos. É condição de possibilidade do ser humano. O longo e difícil caminho da revelação foi e é a luta amorosa de Deus para abrir passagem na consciência humana através da finitude de nosso espírito e vencendo a resistência de nosso instinto, egoísmo ou vontade de poder565.

A revelação consiste, portanto, no lento processo e no longo caminho pelo qual Deus vai conseguindo fazer sentir sua presença. O homem descobre, pouco a pouco, o verdadeiro rosto de Deus e, a partir dele, a verdadeira orientação do próprio ser e da própria conduta566.

A “Palavra de Deus” não pode ser tomada sem mais, pois, apresenta-se inexoravelmente na unidade racadial e inseparável da “palavra humana” – dado atual inegável, resultado da pesquisa das formas literárias – e, simultaneamente, da “palavra divina” – pressuposto fundamental da experiência cristã. É ao mesmo tempo humana e divina, ou seja, é “Palavra de Deus em palavra humana”. Nesse sentido, a interpretação estará sempre aberta e sujeita à dupla possibilidade: atender mais ao lado humano, arriscando-se a descuidar o divino; ou atender mais ao divino, arriscando-se a descuidar o humano567.

A condição de possibilidade de toda revelação implica necessariamente três dimensões fundamentais, por acontecer entre Deus e o homem na história. A dimensão divina, a subjetiva e a histórica. Não se deve deixar de lado nenhuma delas. A revelação é iniciativa livre e amorosa de Deus em se autocomunicar ao homem. Ela acontece necessariamente através de mediações humanas, sem anular ou ferir sua autonomia e subjetividade, pois, o conteúdo da revelação explicita algo que lhe é constitutivo. A história é o lugar onde acontece, realiza e se encarna a revelação568.

A pluralidade das perguntas e respostas a cerca da revelação se articulam em torno de duas preocupações centrais. Primeiro, o modo como se deu a revelação, os caminhos que ela percorreu para chegar à consciência humana e expressar-se à humanidade. Segundo, as conseqüências para o ser humano, sobretudo, para autonomia de seu saber e de sua liberdade, ao ser atingido por esse amor infinito569.

O núcleo do problema a ser enfrentado na Modernidade era o de sustentar a verdade e a credibilidade da revelação de Deus. Demonstrar a plausibilidade, o fundamento mesmo, da fé cristã. A concepção tradicional, ao entender o processo revelador como “ditado” divino de caráter milagroso e aceito por autoridade, – “o profeta disse que Deus lhe disse” –, não permitia verificação crítica570. As soluções apresentadas não conseguiam superar essa dificuldade571. A Constituição Dogmática Dei Verbum reconhece a dificuldade e promove profunda mudança na aproximação eclesial da linguagem bíblica. Apresenta outro conceito de revelação que abre possibilidades de nova compreensão do processo revelador. Tais mudanças asseguraram a centralidade da experiência de Jesus e, simultaneamente, a tensão dialética contínua da transcendência divina que se revela nas condições da imanência da história. A revelação divina acontece nas condições de possibilidade da história. A revelação conjuga o caráter imanente da condição histórica de todo ser humano, e a dimensão transcendente, percebida, por excelência, na experiência religiosa572.


        1. Possibilidades alvissareiras

Tornou-se possível outra compreensão do processo revelador, especialmente, devido à nova concepção da relação imanência-Transcendência, finito-Infinito, criatura-Criador. Nessa, Deus transcendente, para anunciar-se na imanência do mundo, não precisa romper, com intervenções pontuais e milagrosas, a justa autonomia das realidades criadas. Não vem de fora, pois, já está aí, dentro, intrinsecamente possibilitando a autonomia da criação com sua presença amorosa.

Nesse sentido, a revelação consiste no “processo de apercepção dessa presença”, que é a origem fundante, que habita todo ser e que, por livre iniciativa, procura, de todos os modos possíveis, manifestar-se ao ser humano. Essa apercepção, como todo conhecimento concreto e real de Deus, é possível pela iniciativa e pelas estratégias infinitas do amor de Deus em auto-revelar-se. O conhecimento humano de Deus é sempre um conhecimento a ele revelado. O acesso a Deus é Deus mesmo. Quando esse dinamismo amoroso encontra mínima fresta de abertura, na consciência e na liberdade de qualquer ser humano, ilumina e potencializa.

Segundo o autor, esse modo de conceber o processo revelador permite fecunda sensibilidade dialogal, pois, não reduz a revelação aos estreitos limites das formas concretas consignadas nas Escrituras. Reconhece-o presente em todas as tradições religiosas, bem como em todas as formas de conhecimento humano573. Levar a sério a centralidade do amor universal de Deus proporciona ao autor não só a elaboração de outro conceito de revelação, mas também ampla liberdade teológica para cunhar importantes conceitos para a reflexão teológica atual: “inreligionação”, “particularidade como estratégia do amor universal”, “universalismo ou pluralismo assimétrico”, “teocentrismo jesuânico”574.

A revelação se mostra enquanto processo universal. Trata-se do desvelamento do que o ser humano é – por livre disposição do Deus-amor, que o está continuamente criando e salvando – em seu cerne mais radical e originário. Não é, de modo algum, o acesso a conteúdo estranho ou a realidade alheia e inacessível aos demais, mas a apercepção do que Deus procura, desde o início da criação, revelar a toda humanidade. Nesse sentido, é algo reconhecível e verificável pelos receptores de seu anúncio e responde à autêntica realidade humana575.

Para expressar seu modo de conceber a revelação, desde a Modernidade, o autor usa a criativa categoria de “maiêutica histórica”. Primeiramente cristianiza a profunda intuição da “maiêutica” socrática, pois, não se trata de mera reminiscência. Percebe que a mediação da “Palavra de Deus” é necessária. Não no sentido de trazer, de fora, alguma verdade divina para dentro da mente humana já feita, mas, como “parteira”, ajuda a mente humana, ao tornar-se consciente do que leva dentro de si, a “dar à luz”. Essa mediação parturiente da “Palavra”, afastando-se aqui da intuição socrática, não se produz pela “reminiscência” de um conjunto de verdades eternas e imutáveis. Mas “no anúncio de um Deus já aí presente e sempre vindo”, que, ao se revelar, capacita o ser humano para novo avanço histórico na percepção da própria realidade e da eterna novidade de Deus. Essa capacitação, por responder ao dinamismo criador amoroso, transforma o ser humano em “nova criatura”. A acolhida da revelação permite intensa remodelação do presente e suscita a esperança e a certeza da plenitude futura576.

A “maiêutica histórica” consiste em interpretar a palavra bíblica como Palavra que ajuda a “dar à luz” a realidade mais íntima e profunda que já somos pela livre iniciativa do amor que nos cria e nos salva. Não é a “Palavra” que gera e nem a vontade humana por si mesma, mas a livre e amorosa iniciativa do Criador577. Sua única pretensão é “trazer à luz” a realidade mais profunda do sujeito, ou seja, fazer aflorar “seu próprio ser, enquanto radical e ultimamente determinado por Deus”. Esta determinação pertence à constituição do ser concreto do homem, mas enquanto “ser-desde-Deus-no-mundo”.

A função “maiêutica” da revelação consiste em fazer a pessoa “se aperceber” do sentido que estava “já aí”, lutando por se fazer sentir através da ambigüidade da história. A revelação descobre a “presença na qual todos já estão vivendo e mesmo pressentindo. Não se trata de acréscimo externo nem interpretação arbitrária, pois remete o homem a ele mesmo em sua interioridade mais radical”. Por isso ela conserva tensão dual imanência-transcendência, sem ferir a sensibilidade da cultura atual. Ela indica que a palavra reveladora chega sim “de fora”, mas não como um estranho “meteorito”. A revelação, portanto, não rompe a autonomia da imanência, mas a desvela, a desborda enquanto enraizada fundamentalmente na transcendência divina578.

O processo revelador é histórico porque não se trata da mera percepção de uma espécie de “essência” eterna que o homem, por si mesmo, é desde sempre e para sempre, mas de um dinamismo que o impulsiona para frente: rumo ao crescimento e à realização do “novo” ser, que se adquire na história. Não é um processo inexorável, pois, sem a mediação histórica do “anúncio da Palavra”, a humanidade não chegaria à consciência da “nova” realidade, por causa dos limites da condição antropológica e não divina579. A necessidade da mediação da “Palavra” não termina com sua acolhida. Devido à natureza transcendente da realidade desvelada, esta tende, novamente por limites humanos, a ser perdida, deformada ou mal interpretada nos caminhos da história. Daí a necessidade de sistematicamente “voltar às fontes” e de refazer o caminho “maiêutico” da Palavra.580.

A tomada de consciência da presença contínua e amorosa de Deus, estabelece envolvente dinamismo histórico entre a iniciativa gratuita de Deus em revelar-se à humanidade e o homem de fé, sempre limitado pela situação histórica. A experiência cristã, para além desses limites e por revelação de Deus em Jesus de Nazaré, concebe o ser humano constitutivamente como “ouvinte da Palavra”581. Deus faz de tudo para que cada ser humano, em sua história pessoal e social, se aperceba de sua presença e experimente conscientemente o seu amor salvador. Esse processo salvífico libertador concretiza-se numa autêntica “hermenêutica do amor”.

A concepção de Torres Queiruga permite integrar os dados fundamentais da tradição cristã. Reconhece a mediação necessária e objetiva da “Palavra” revelada, e simultaneamente a liberta da escravidão da letra, ao permitir que o “ouvinte” a verifique com autonomia o conteúdo revelado582. Dessa forma, favorece a superação da visão antiga, mas ainda predominante no imaginário religioso comum, da revelação como “ditado” divino, acabado e fechado num “depósito”, feito a uns poucos eleitos e privilegiados num passado longínquo.

Além de garantir a fidelidade à tradição, o autor consegue superar a atitude de resignação do receptor da “Palavra” eterna. Sua concepção mantém o legítimo valor da autonomia do sujeito e a importância da subjetividade de quem faz a experiência de Deus. A Palavra é interpretada e verificada pela própria pessoa. Cada sujeito pode e deve ser, por si mesmo, intérprete autêntico da presença divina em sua vida pessoal e em sua realidade histórico-social. A leitura bíblica deixa de ser a aceitação passiva, literalista e extrínseca de saber o que foi revelado a uns poucos escolhidos e inspirados. Recupera a tensão dialética entre universalidade e particularidade histórica da revelação.


        1. Outra” objetividade na compreensão da Revelação

É preciso apropriar-se do significado vivo do dinamismo revelador. Cada pessoa é, pela presença amorosa e por graça do Criador, interlocutor legítimo e receptor direto e ativo da revelação sempre em ato. Deus se doa irrestritamente a todos, mas a receptividade humana faz parte constitutiva do processo revelador. Isso é de vital importância para a vivência atual da fé. Somente apropriando-se e assumindo como próprio, o que foi dito ao e pelo profeta ou escritor bíblico, torna-se acessível sua compreensão atual. Nesse sentido, a leitura atualizadora e “maiêutica” da Escritura se insere entre os maiores desafios da teologia e da evangelização583.

A incontestável importância da subjetividade no processo de transmissão-recepção-assentimento da experiência cristã, para o autor, fez com que a reflexão cristológica atual se apercebesse da necessidade de se “refazer o caminho de fé dos apóstolos” para reconhecer a Jesus como o Cristo584. O próprio Jesus nos convida a dizer com ele e como ele: Abbá585.

Além disso, a partir da nova visão da revelação, as religiões adquirem novo valor. Elas são lugares privilegiados onde a pressão reveladora do amor de Deus consegue romper expressamente a opacidade do espírito finito. Isso acontece quando uma ou mais pessoas, com sensibilidade religiosa, experimentam a presença de Deus e possibilitam aos demais descobrir com clareza a presença que já obscuramente pressentiam e que agora se converte em evidência. A religião bíblica, nesse sentido, não é diferente. À medida que se pode seguir histórico-criticamente os passos de sua formação, percebem-se todas as pegadas da difícil conquista do espírito religioso de Israel pela manifestação salvadora de Deus.

A Bíblia é a sedimentação por escrito de um longo e difícil processo de iniciativa divina, através do qual a presença viva, pessoal e salvadora de Deus vai sendo captada e vivenciada pelo povo de Israel. Presença que se deixa sentir como chamado, que pede diálogo, como atuação amorosa que espera reciprocidade586.

Longe de acolher qualquer pretensão de exclusivismo, todas as religiões são verdadeiras e fontes de autêntica revelação, no sentido de captarem realmente a presença de Deus. O limite de cada uma está no modo inadequado de captar ou em deformar gravemente essa presença que se oferece a todos. Somente assim se compreende como que, em nome de Cristo, já se destruiu, se perseguiu e se matou nos caminhos da história. Quantas atrocidades acometidas contra a vida em nome de Deus! Para o autor, esse é o preço inevitável que Deus aceita pagar para que seu amor salvador penetre na história da liberdade humana587.

Não há favoritismo na religião bíblica, no fato de ter conseguido superar suas deformações e desvios históricos na manifestação definitiva de Jesus. Ao contrário, constitui, antes, verdadeira “estratégia do Amor”. Isso fica evidente quando se percebe que o conteúdo da experiência cristã tem caráter universal. O que foi captado nessa experiência pertence a humanidade. Israel conseguiu – não sem a contribuição de muitas outras tradições culturais, pois a Bíblia testemunha a assimilação sincrética de inúmeros elementos e traços de variegadas tradições religiosas –, com todas as vicissitudes históricas, acolher a presença divina num caminho histórico próprio e original, com sensibilidade sem precedentes. Deus, que em seu amor não busca outra coisa senão revelar-se ao máximo possível a todos os homens, aproveitou essa brecha de abertura para oferecer-se a todos, sem diminuir em nada a pressão amorosa sobre todas e cada uma das religiões da humanidade. A revelação bíblica é, portanto, “oferecimento maiêutico” à humanidade e às demais religiões, não como imposição alheia, mas como possibilidade de que cheguem à plenitude de si mesmas.

Nesse horizonte aberto, o autor re-significa a categoria da “eleição”. Descarta-se qualquer espécie de privilégio exclusivo dado a Israel ou de favoritismo da parte de Deus. Na generosidade infinita de seu amor universal, é uma estratégia para se dar a todos. Insere-se na missão aberta, da qual toda religião participa a seu modo e em favor de todos. Um “oferecimento maiêutico” para que Deus chegue à consciência de toda a humanidade. Na busca de concretizar, de nossa parte, acolhida cada vez mais plena da revelação universal do amor de Deus, cada religião tem algo a oferecer e a receber. Todas dão e recebem porque nada é nosso, mas tudo é graça. Graça destinada a todos588.

Afirmar que a revelação atingiu a plenitude, o cume positivo da máxima possibilidade, em Cristo não significa que a revelação acabou ou que Deus deixou de se comunicar a nós. Ao contrário, em Cristo se percebe, finalmente, desvendadas as chaves fundamentais em que se funda a existência humana. Esta experiência, como contínuo chamado ao seguimento, abre “Caminho” por onde se consegue ser plenamente humano. Em Cristo, experimenta-se definitivamente quem é Deus para a humanidade. O mistério é desvelado, Deus é amor incondicional. Compreende-se, assim, o sentido fundamental do caminho a seguir, no mundo e com o próximo diante de Deus.

Para Torres Queiruga, a revelação que alcança sua plenitude em Cristo não fecha, mas abre, não paralisa, mas torna patente a presença de Deus em sua máxima atualidade. Por isso a revelação é sempre atual. Deus continua revelando-se, não em novas chaves, mas no modo de vivê-la na livre acolhida de sua presença viva. Além disso, a acolhida do Deus que se dá totalmente só foi total em Cristo. Na vida humana limitada é processo sempre aberto e em novas possibilidades pelos caminhos da história rumo a sua plenitude no Crucificado-Ressuscitado. É no fato da acolhida, sempre imperfeita, da liberdade ambígua e limitada, que se compreendem os muitos desvios e pecados, mas também seus passos evolutivos na sua encarnação na história589.


    1. A TÍTULO DE CONCLUSÃO: ENSAIO PROSPECTIVO DE “OUTRA” CONFIGURAÇÃO DO CRISTIANISMO NO CONTEXTO ATUAL

Pretendeu-se, nesse último capítulo, recolher e analisar aspectos centrais da rica e fértil produção teológica de Torres Queiruga. Suas intuições nasceram da necessária busca de resposta à crise da configuração pré-moderna do cristianismo. Elas permitem contemplar, ainda que de modo seminal e esperançoso, a beleza “possível” do delineamento da conformação atual da eterna e inesgotável novidade da experiência cristã.

O itinerário dessa dissertação almejou sustentar a “necessidade” de mudança profunda na feição epocal do cristianismo pré-moderno como forma de recuperar a credibilidade e o vigor da experiência originária. Depois dele percorrido, percebe-se, para além da “necessidade”, a “possibilidade”, como exigência de fidelidade ao Evangelho de Jesus e da Tradição cristã, da afirmação e da efetiva construção da compreensão contemporânea da identidade cristã e da figura histórica do cristianismo dos tempos e geografias atuais590. Nas palavras otimistas de Torres Queiruga:

À medida que nossa experiência cristã vivenciar que em Jesus de Nazaré se nos manifestou uma articulação dessa Presença que preenche nossas expectativas, a ponto de estarmos dispostos a vender tudo para vivê-la, cultivá-la e comunicá-la, estaremos seguros de que continuará rebrotando na comunidade, quebrando rotinas, promovendo novidade, abrindo na direção de um universalismo sempre renovado591.

A constatação realista da “necessidade” de mudança provoca atitude de inquietude e alimenta a esperança teimosa da “possibilidade” histórica dessa construção coletiva já em andamento. No âmbito da Igreja Católica, o Concílio Vaticano II há quarenta anos apontava a direção. Apesar dos imensos contratempos, e “contra-ventos”, e da consciência de que o caminho será longo, há inúmeros sinais de “outros” cristianismos em processo de delineamento592. A credibilidade dessa “aposta” vem da força propulsora da experiência originária sempre re-visitada e da própria dimensão histórico-escatológica do cristianismo. Sua revelação tem a atualidade da presença amorosa do Ressuscitado e conserva um profetismo que o distancia dos poderes voltados unicamente para manter-se no presente. Isso faz predominar certo otimismo sobre a realidade histórica atual. O início e o fim são obra de Deus. A travessia está marcada também pela presença salvífica de Deus manifestada em Jesus e animada pelo Paráclito593.

A seguir pretende-se, a título de amostra prospectiva, apontar algumas características importantes que ensaiam a figura ou o cenário de um “cristianismo atual” captado nas intuições do autor.

3.3.1 Um cristianismo liberto de todo particularismo estreito

As intuições e reflexões teológicas do autor sobre a relação Deus-mundo e homem-Deus, os temas fundamentais da criação-revelação-salvação, a tomada de consciência da especificidade da linguagem religiosa permitem visualizar os traços da figura de “outro” cristianismo, outro porque liberto de todo particularismo estreito. Por particularismo estreito se entendem as diversas posturas históricas do cristianismo, sustentadas pela presunção e altivez de ser a “única religião verdadeira”, a “única que detém a plenitude da verdade”, a “única receptora da revelação direta de Deus”, a “única Igreja fundada por Jesus Cristo”, o “único caminho, escolhido por Deus, para salvar a Humanidade”, etc594.

Hoje é “necessária e possível outra postura”, pois, os caminhos da história, com seus inúmeros erros e miopias, mas também acertos e sabedoria, oferecem a oportunidade de conversão e da construção de “outra” mentalidade religiosa. O cristianismo atual deve apresentar-se mais humilde595 e aprendiz, irmanado, em atitude dialogal, com todas as culturas e tradições religiosas rumo ao mesmo objetivo maior, a realização do projeto salvífico universal do Reino. Um movimento de autêntica conversão-transformação pascal do “eclesiocentrismo” para o “reinocentrismo jesuânico” 596.

Entre os desafios para a superação de toda postura de arrogância ou superioridade arcaica do cristianismo da “cristandade” destaca-se o pressuposto presunçoso, fruto da interpretação literalista, da categoria bíblica de “eleição”. Para o autor não basta uma re-interpretação do conceito. José Maria Vigil observa nos últimos anos significativa evolução teológica, no tocante a esse tema, na reflexão de Torres Queiruga. Inicialmente com a postura de quem buscava justificar teologicamente o conceito de “eleição” até a proposição da total superação ou abandono simples e direto da categoria597.

Para o autor, o caminho para a superação de todo particularismo estreito, implica a superação do conceito de “eleição” para a compreensão de que todas as formas históricas consagradas nas tradições religiosas de apreensão da revelação são, na verdade, estratégias do amor de Deus para chegar até o coração da humanidade e se inserem no dinamismo do seu projeto salvífico universal. Seria pobre, religiosa e humanamente qualquer interpretação da “eleição” como a escolha divina de um povo entre os demais, para a ele entregar sua revelação sobrenatural, deixando aos outros a religião natural598. O amor universal do Abbá de Jesus não discrimina (1 Cor 12), não faz acepção de pessoas (Rm 2, 11), mas se doa totalmente a quem responda a sua graça599.

O que permite a superação do particularismo é fundamentalmente a experiência da universalidade radical do amor de Deus. Um Deus, que cria por amor e para a realização em comunhão com Ele, vive debruçado com “generosidade irrestrita” sobre todas e cada uma de suas criaturas e chama a todos desde todo sempre. Desde o começo não há um homem se quer que não tenha nascido amparado e intrinsicamente movido por seu amor incondicional. O cristianismo autêntico busca sempre revelar a toda a humanidade tal maravilha. Sua identidade nasce desse dinamismo, captado na vida de Jesus de Nazaré, de ser “sacramento” do amor salvífico universal de Deus.

Da parte de Deus, Ele se doa a todos indistintamente. A diferença está na abertura e na acolhida humana. Nesse sentido, o cristianismo coloca-se a serviço do Reino e manifesta a todos o tesouro, que experimentou e que pertence a todos, através de seus frágeis e limitados “vasos de argila” (2 Cor 4, 7) 600.


      1. Um cristianismo aberto ao diálogo com as outras tradições religiosas em prol da humanidade

No mesmo dinamismo transformador, compreendendo o processo revelador como “maiêutica histórica” universal, o cristianismo atual deverá passar por “radical mutação em sua auto-compreensão” e desenvolver postura aberta e dialogal, sem qualquer privilégio, com as demais tradições religiosas em vista da realização do projeto salvífico universal de Deus601. Para isso é necessária profunda revisão do conceito de religião. As religiões são criações humanas, modos de configuração social da descoberta do amor universal de Deus por nós. Não existe, portanto, revelação isolada, pois, toda “particularidade” é uma necessidade histórica para universalidade602. Nesse sentido, para o autor, o pressuposto básico é a atitude honesta e aberta de que todas religiões são verdadeiras e constituem, para seus adeptos, que autenticamente as praticam, reais caminhos de salvação. Não existe religião sem alguma verdade, nem perfeita a ponto de esgotar, em sua tradução humana, a riqueza do mistério divino. Um conceito aberto e inclusivo, no entanto, não significa a consideração de que sejam todas iguais.

A diferença entre elas não vem da origem divina, mas dos diversos graus de receptividade humana. Deus se doa total e indiscriminadamente a toda humanidade e em todas as culturas. A receptividade humana é parte constitutiva do processo revelador603. A diferença entre as religiões, portanto, está radicada na fragilidade e na ambigüidade de toda experiência humana. O estado evolutivo, a situação histórica, a circunstância cultural, enfim, os limites da finitude humana condicionam e deformam continuamente a revelação. Todas estão submetidas aos limites da condição histórica604. Do desdobramento teológico desse condicionamento estrutural segue-se que todas as tradições religiosas podem aprender e ensinar umas com as outras e se corrigirem mutuamente605.

A postura aberta e inclusiva do autor permite compreender de “outro” modo, e sem fazer concessões às custas da identidade cristã, a plenitude da revelação em Jesus de Nazaré. Compreende-se essa plenitude como dom de Deus a toda humanidade. Não se trata de qualquer favoritismo, mas de autêntica “estratégia do amor” para chegar a todos. Deus encontra um povo que por diversos fatores permitiu iniciar um tipo de relação histórica que tornou possível o acontecimento, insuperável para nós cristãos, em Jesus de Nazaré. Mas Deus, através da experiência cristã e de todas as outras, pretende revelar-se a toda a humanidade como dom amoroso pelos caminhos da história (Hb 1, 1-3)606.

A revelação do “princípio teológico” da universalidade do amor de Deus Criador-Salvador implica a universalização do sujeito humano. “Deus quer que todos os seres humanos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4).

Esse modo de conceber a plenitude da revelação em Cristo aponta para a compreensão de que Deus continua dando-se, revelando seu projeto salvífico a todos, dentro das condições de possibilidade e limite de cada um para acolher essa oferta amorosa. Nesse sentido, cada tradição religiosa ofereceu e continua a oferecer aspectos específicos que possibilitaram e continuam a possibilitar a percepção, acolhimento e desenvolvimento do mesmo projeto salvífico de Deus607. Concretiza-se, desse modo, a passagem do foco numa revelação positiva para a perspectiva universal e inclusiva do “Reino”, ou seja, da salvação da humanidade ou de toda a criação608.

Percebe-se assim a importância do crescimento e aprofundamento da atitude dialógica do cristianismo com as demais tradições religiosas. O autor analisa duas importantes contribuições da reflexão teológica dos últimos tempos. O primeiro avanço veio da consciência da necessidade da “inculturação”. Concretamente, a consciência da atitude de necessário respeito diante da especificidade de cada cultura na qual o anúncio, no caso cristão, do Evangelho é semeado. Para ser assimilado de modo autêntico por uma cultura deve expressar-se em suas categorias e encarnar-se em suas instituições. O segundo avanço veio por conta da mentalidade inclusivista. Significa, em suas diversas nuances, a assimilação do princípio de que toda religião é verdadeira e, por isso mesmo, todos podem aprender de todos. A partir desses dois avanços, levando à sério a convicção de que, dentro dos próprios limites, “toda religião é revelada e está traspassada pela ação salvífica de Deus”, Torres Queiruga, propõe novo passo. É o que ele denomina de irreligionação. Sustenta que a atitude autêntica de diálogo entre as religiões parte do pressuposto de que a verdade salvífica de Deus está presente em cada tradição religiosa. Por isso não deve anular, mas promover, vivificar e complementar com a própria contribuição, a verdade e a salvação de Deus já aí presente, num dinamismo tal que, ao final, todas saem enriquecidas e complementadas umas com as outras. Encontra fundamentação para sua aposta tanto na Bíblia, quando Paulo compara a relação entre cristianismo e judaísmo como a que se dá num enxerto vivo (Rm 11, 16-24), como na Patrística, quando os Padres alexandrinos compreendem as tradições filosóficas como uma espécie “Antigo Testamento” dos gregos609.



      1. Um cristianismo mais comprometido com o mundo

O conjunto da reflexão teológica do autor permite visualizar um terceiro traço da figura do “cristianismo renovado”, o do compromisso ético com a realização da criação. O comprometimento ético com a humanidade erige-se como o critério de credibilidade de qualquer tradição religiosa digna desse nome. Exigência percebida na revelação da vontade amorosa e universal de Deus, captada em plenitude na pessoa de Jesus de Nazaré.

Quando se leva realmente a sério o caráter puramente amoroso e infinitamente transitivo da criação, compreende-se que o critério de autenticidade do cristianismo não se situa no conteúdo positivo recebido numa revelação sobrenatural, mas no comprometimento e empenho concreto com a construção comum de um mundo melhor para todos. A missão primeira do cristianismo, como de toda tradição religiosa, inscreve-se na colaboração em prol da “Nova Humanidade”. As religiões encontram aqui a motivação para o diálogo e o compromisso comum, razão maior do que suas diferenças, para unirem os esforços em autêntica rede ou “teia da vida”. A história ensina que “não pode haver paz entre as nações sem paz entre as religiões”610.

A reflexão crítica do conceito pré-moderno de revelação possibilitou a superação daquela visão abstrata e estreitamente eclesiológica que a concebia como um conteúdo objetivo, extrínseco e a-histórico entregue de modo acabado ao “depósito” da Igreja católica. Para o autor é legítimo afirmar que o único e mesmo processo revelador se concretiza e se historiciza na mediação das religiões. Nesse sentido, a particularidade vivida no cristianismo, como em qualquer outra tradição religiosa, é a manifestação de uma universalidade. Mas a universalidade da experiência de Jesus, captada no cristianismo, não exclui outras particularidades. Cada religião pode concretamente ser uma manifestação particular da universalidade do amor de Deus.

Essa postura aberta, inclusiva e plural permite incluir na compreensão da identidade cristã, sem qualquer postura dualista, o dinamismo libertador presente na ambigüidade dos processos históricos. O cristianismo assume a postura de afirmação e irmanação em toda busca do que verdadeiramente nos humaniza como homens e mulheres e de valorização e potencialização, pela abertura à profundidade infinita da transcendência divina, de todo aprofundamento nos valores autênticos. Pelo critério de discernimento da identidade cristã se avança rumo ao mais autenticamente humano611.



      1. Um cristianismo aberto ao diálogo com as demais buscas culturais

A presença do cristianismo no mundo atual, como a de qualquer tradição religiosa, deve pautar-se pela “lógica do serviço” e da colaboração. Ao contemplar o mundo a partir do Deus Criador e Abbá universal, o cristianismo, descentrado de si, coloca-se, como Jesus, a serviço da promoção da libertação de todos. Torna-se, assim, sacramento do Reino, mediação e concretização da presença amorosa de Deus no mundo.

Esse cristianismo não experimenta a si mesmo fora ou sobreposto ao dinamismo dos esforços culturais ou das demais tradições religiosas na busca por realização. Ao contrário, numa atitude dialogal e companheira, se irmana na luta comum. Acolhe as contribuições das culturas, das ciências e das demais religiões, ouve sabiamente as críticas e os desafios colocados, não se afastando da própria identidade. É a oportunidade de crescer na autocrítica e avaliar a especificidade de sua contribuição. Numa postura de parceria é verdadeiramente enriquecido, mas também, ao mesmo tempo, oferece a sua contribuição para o enriquecimento de todos612.



      1. Um cristianismo mais companheiro

O cristianismo que emerge a partir de tais características é, indubitavelmente, menos detentor das verdades eternas e, por isso, menos centrado em si mesmo. Torna-se mais companheiro na busca comum da vontade de Deus. Através de seus ritos, da memória e da profecia, da práxis solidária, o cristianismo torna-se autêntico “sacramento vivo” e mediação da presença amorosa de Deus na história613.

O seu dinamismo fundamental concretiza-se no fato de compreender-se como “uma realidade no mundo e para o mundo”, lugar onde a intenção do Criador se faz consciência expressa e missão aceita. Por isso seu esforço maior é o da realização do humano, ser, de fato, “mestre em humanidade”, a manifestação na história, como sinal palpável “do que Deus quer para o mundo”614.





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