Departamento de teologia


O ateísmo123 e secularização



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1.3.4 O ateísmo123 e secularização

O processo de avaliação, revisão e conversão, já está a caminho. O Concílio Vaticano II deu importante passo ao reconhecer grande parcela de culpa em relação ao fenômeno do ateísmo. A Gaudium et Spes reconhece-a em, pelo menos, dois aspectos. Em primeiro lugar, pelo cristianismo não ter se preocupado em adequar e atualizar a forma da fé à nova situação, de modo que o conteúdo da experiência originária não se apresentou de modo crível na Modernidade. Em segundo lugar, pelo contra-testemunho dos próprios cristãos ao viverem a fé desvinculada da vida concreta, divorciada do embate pela realização plena da vida humana124. Reconhece-se, portanto, que o remédio não está na mera atitude apologética, mas na conquista de nova credibilidade para a experiência cristã, a partir de revisão séria e profunda, numa caminhada de conversão contínua ao próprio Evangelho, em busca de fidelidade e testemunho.

O Concílio vai além da defesa do necessário diálogo com a Modernidade. Incentiva autêntico movimento de irmanação entre crentes e não-crentes, na construção de mundo melhor para todos, pois, há unidade entre o amor a Deus e o amor ao próximo125. Postura que está em sintonia com as mais profundas e lídimas intuições do Evangelho e da Tradição cristã (Mt 25, 31-46; 1Jo 4, 7-21)126.

Torres Queiruga denuncia o risco da piedade ingênua e ultrapassada culturalmente – fazer preces a Deus para que envie chuva ou acabe com a fome, fazer procissões ou penitências para que a ira divina seja aplacada –, bem como da postura de defesa e respeito pela letra da Tradição – leitura literalista da Escritura ou dos documentos da Igreja. Segundo ele, tais manifestações no interior do cristianismo são o mais eficaz “caldo de cultivo” para o ateísmo127. Justificar tais práticas, em nome da prudência pastoral, com apoio em leitura fundamentalista da Escritura, na cultura atual, significa semear ateísmo128. A superação destas dificuldades exigirá, entre outras coisas, o reconhecimento da necessidade urgente de nova compreensão da linguagem religiosa e conseqüente esforço coletivo do ensino-aprendizagem de “como ler as Escrituras”129. É preciso “aprender a aprender” a cultivar a intimidade interpretativa e libertadora com a Palavra de Deus.

O fenômeno do ateísmo moderno pode transformar-se em grande oportunidade para a fé cristã compreender, de uma vez por todas, que Deus é sempre maior do que as idéias que d´Ele fazemos. A crítica dos ateus pode servir de ajuda aos cristãos para a ruptura de esquemas que deformam a idéia de Deus. Deve-se lutar contra a tendência humana de apoderar-se de Deus, enclausurando ou reduzindo a grandeza infinita de seu Ser ou a generosidade de seu amor em estreitos esquemas mentais130. Para que isso aconteça, é preciso “desdemonizar” o ateísmo e alimentar o processo já existente de sua “desdogmatização”, promovendo postura aberta e dialogante131.

O processo de secularização, devido à tomada de consciência da autonomia, é conquista dos tempos atuais. Parte-se do pressuposto de que a compreensão do sentido e explicação da realidade encontra-se em si mesma, a partir das categorias criadas pelo conhecimento racional. Este fenômeno tornou-se explícito e agudo com a Ilustração. A tomada de consciência da própria autonomia e a das realidades criadas engendraram e legitimaram novo jeito de buscar a compreensão da realidade132. Nesse sentido, não se precisa da referência contínua a Deus ou a sua ação pontual, recurso hegemônico no paradigma teocêntrico pré-moderno, para encontrar sustentação ou explicação para os acontecimentos humanos ou fenômenos físicos. Toda leitura compreensiva que não se fundamenta em Deus ou em categorias sobrenaturais é já uma leitura secularizada133.

Em síntese o mundo secularizado é aquele em que os fenômenos físicos ou os acontecimentos da história humana não precisam da hipótese de Deus como fonte de explicação de tudo. Não se atribui a Deus a causa imediata de tudo134. Uma postura de defesa teimosa e de volta ao teocentrismo coloca em questão e prejudica a própria credibilidade da fé cristã para o homem atual135.

Para alguns, o fenômeno da secularização constitui grande ameaça para a fé cristã, pois, a estes, ele aparece como processo inexorável que paulatinamente impossibilita qualquer espaço para Deus e conduzirá, com o tempo, ao mundo auto-suficiente, secularista, ateu e materialista. Para outros, entre eles Torres Queiruga, a rigor, o fenômeno da secularização não se identifica com as posições extremas do secularismo ou do ateísmo136.

A própria tradição judeu-cristã possui uma lógica interna secularizante. Ao afirmar a experiência de Deus como Criador, a criação marca, por conseguinte, uma diferença radical entre Deus e o mundo. Esta distinção possibilitará compreensão crescente em direção da dessacralização do mundo, pois nada é divino fora de Deus: natureza, história, ordem política ou estrutura social. Nesse sentido é que o autor afirma que o cristianismo possibilitou o fenômeno da secularização, não por causa de seus defeitos, mas por suas virtudes, especialmente, pela idéia de criação e encarnação. A pregação profética, que tanto influenciou ao próprio Jesus, favoreceu a tomada de consciência de que as estruturas sociais não são algo sagrado, fruto de decretos divinos, mas algo entregue à própria responsabilidade humana137.

A experiência cristã de Deus possibilitou a percepção de que a autonomia da criação é condição para a realização do projeto salvífico de Deus. A criação foi entregue a si mesma, por amor, num dinamismo de autonomia para sua própria realização. E o Criador faz de tudo para que tal dinamismo se realize138.



1.4. RECONHECIMENTO DA NECESSIDADE DE REPENSAR O CRISTIANISMO

O sentido do reconhecimento da crise do cristianismo na mudança de cultura, por um lado, não significa a entrega acrítica ao espírito da Modernidade ou da renúncia à fé perante o espírito do tempo139. Por outro lado, o fato de haver elementos discutíveis e errados ou existir abusos e exageros em muitos pontos do processo moderno não diminui a necessidade irrenunciável de a reflexão cristã reconhecer os enormes avanços conquistados140. É legítimo questionar o marco cultural moderno, mas não tomar como suposto o marco pré-moderno, identificando-o como a única reta interpretação da fé e, portanto, como critério último de juízo para novas proposições141.



      1. Positividade e irreversibilidade da nova consciência

A crise do cristianismo diante da Modernidade não se planejou nem se produziu por malícia de certos inimigos da fé cristã. Trata-se de realidade objetiva, fruto do próprio devir histórico e do caráter evolutivo da consciência humana. Por isso a descrição do processo histórico da Modernidade revela a crise do cristianismo142. Ela resulta de uma das mudanças de maior repercussão na história da humanidade. Seus tentáculos ao envolverem tudo e a todos, incidem sobre o cristianismo, em sua autocompreensão e na vivência de seus membros.

A experiência que deu origem ao cristianismo exprimiu-se em formas culturais que, com a entrada da Modernidade, perderam seu vigor143. Diante das mudanças culturais essa configuração do cristianismo se torna cada vez menos inteligível para o homem moderno e, conseqüentemente, provoca inúmeros mal-entendidos144. Torres Queiruga afirma que:

Falar hoje das ‘deformações na linguagem da fé’ equivale a colocar o dedo em grande chaga histórica: a do longo, acidentado, conflitivo e doloroso processo da consciência cristã confrontada com o nascimento do mundo moderno. Processo já por si mesmo difícil, pois supunha nada menos que submeter a revisão os fundamentos de uma religião com mais de mil e seiscentos anos de história, mas que, ademais, se viu inflamada pelos inevitáveis conflitos entre o instinto defensivo da instituição, até então protagonista, e o entusiasmo, entre ingênuo e prepotente, das forças culturais emergentes145.

A mudança de paradigma gerou nova consciência que articula e determina o “substrato cultural”146. Por isso é necessário reconhecimento crítico das conseqüências para a fé cristã147. Esta mudança, para o autor, é positiva e irreversível, pois, como a nova realidade cultural passa a formar o “fundo de crenças”, qualquer configuração humana, inclusive a religiosa, medirá com ela sua plausibilidade e verdade148. Hoje se tornou impreterível repensar a configuração pré-moderna da fé cristã.



1.4.2 Reconhecimento e necessidade de nova expressão cultural

Muitos cristãos, especialmente aqueles que conseguiram resistir aos embates contínuos e desconcertantes da Modernidade, com sua miríade de perguntas e dilemas postos sistematicamente ao homem de fé, já se deram conta da necessidade ineludível da construção de nova expressão cultural da experiência da fé cristã.

Esta clareza começa a despontar no horizonte do pensar da fé149, somente agora no final de doloroso processo, com inumeráveis vítimas e perdas. Na travessia desse “vale tenebroso” variadas soluções paliativas foram construídas sem o esperado resultado. Já foram descritas, há pouco, as intempestivas reações polares. Outra tentativa de solução foi a “tentação da mumificação do cristianismo”, caracterizada pela tendência de agarrar-se às formas do passado como meio de assegurar sua continuidade no tempo ou sua própria existência150. Solução tentadora, mas ilusória. Não adianta a cedição ao sentimento de nostalgia idílica, com suas pretensões restauradoras. As lições do Evangelho não podem ser esquecidas. Em face à novidade da Modernidade, é preciso a intrepidez de abandonar a segurança dos “barris velhos”, pois, estes não suportam a eterna novidade do “vinho novo”. É preciso atitude de aprendizagem diante do novo, atitude de verdadeiro êxodo. A única garantia de futuro para o cristianismo é a coragem da renovação151.

O Evangelho nos desafia a crer na força criadora do Deus da vida: “quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas, quem perde a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la” (Mt 16, 25; Mc 8, 35; Lc 17, 33). Para isso é necessário o exercício contínuo de “volta às fontes” em busca de aprofundamento na compreensão da experiência fundante. Como os antepassados fizeram em seu tempo, é preciso reinterpretar e configurar essa experiência nos moldes culturais atuais. Esse dinamismo de re-tradução cultural é inerente ao próprio itinerário histórico da fé cristã152. Para que a experiência fontal seja autêntica ela precisa realizar-se nos “problemas-pergunta” da realidade em que se insere153. Graças a esse processo, hoje se tem acesso e possibilidade de experimentar, com credibilidade, a fé cristã.

Não se trata de fazer tábula rasa da Tradição, mas de nova expressão da experiência fundante no marco cultural hodierno. A própria Tradição é formada pelas configurações do cristianismo no marco de cada tempo. Cada uma era legítima e necessária no seu tempo, mas é, definitivamente, ultrapassada para o homem de hoje154. Em outras palavras, retraduzir-se no novo marco cultural não é vender-se à moda ou abdicar do próprio ser, mas conservar-se através da transformação pela criação de nova história155.

Para que se repense a fé é imprescindível a tomada de consciência da herança dos velhos hábitos mentais, pressupostos inconscientes, crenças incontroladas, antigas suposições, conotações adulteradas que habitam o imaginário religioso da fé cristã156. Esse desafio chegou a momento inevitável157. Não há meias medidas, para o autor, ou busca-se reinterpretar as palavras e conceitos com que se expressa e vivencia a fé, ou esta se torna incompreensível e não crível para as novas gerações:

Ou as verdades profundas, que estão latentes no cristianismo, são pensadas e expressas de maneira que se tornem inteligíveis e vivenciáveis na nova situação cultural, ou passarão inevitavelmente para o baú das recordações, boas apenas para a nostalgia dos avós e para o escárnio dos netos. De fora, muitos já crêem que seja assim, confundindo a forma com a substância; e, do lado de dentro, sobram os que se empenham em confirmá-las em sua apreciação158.

A saída para o cristianismo recuperar sua identidade cultural passa pelo reconhecimento de que é preciso re-traduzir também o conjunto da teologia dentro do novo horizonte159. Para a concretização dessa tarefa torna-se fundamental a distinção entre a forma e a substância do cristianismo. O que está em crise é a forma da fé, por isso, é preciso adequá-la à nova situação cultural160. Torres Queiruga tem consciência da complexidade de tal empreendimento, porque não existe a experiência cristã, propriamente dita, em estado puro; não existe o significado separado ou desnudado do significante. Ao contrário, aquele se encontra sempre já traduzido em uma forma concreta161. Além disso, a forma concreta ou molde cultural através da qual a riqueza da Tradição cristã chegou até aqui, não existe mais162. Por isso repensar teologicamente para atualizar a compreensão da experiência da fé é uma tarefa urgente e necessária163. É preciso, portanto, recuperar o sentido original do conteúdo da fé, transformando o que for necessário, para que este volte a ser significativo164.

O autor está convencido de que é urgente ir a fundo na tarefa de repensar a fé, acolhendo as impertinentes conseqüências, em atitude de honestidade e coerência165. A gravidade vem da inegável percepção do desajuste, da estrutura do problema, – nesse sentido é que se caracterizou o cristão moderno como um “cidadãos em dois mundos”– experiência de verdadeira “esquizofrenia” que os obriga, enquanto cristãos, a colocar-se em atitude de prontidão e busca assídua de maior clareza para a fé nas categorias dos tempos modernos. Não se trata de conquista racionalista, mas de postura de fé166.

A 40 anos realizava-se um dos maiores eventos da história do cristianismo, o Concílio Vaticano II. Momento eclesial de fundamental importância para o tema em questão, já que através dele, a Igreja demonstrou reconhecer, ao proclamar a urgência do “aggiornamento”, a necessidade de renovação e de nova relação com a Modernidade. Esse evento mostra que o cristianismo conserva em seu dinamismo extraordinária capacidade de reação em situações bastante improváveis167.

Este acontecimento, ao abrir “portas e janelas”, representa a ruptura e indica uma meta distante ou um longo caminho por ser trilhado168. Oficialmente, o Concílio foi o momento em que o cristianismo católico assumiu postura de abertura para o processo de renovação. Mais do que soluções, apresentou novas e decisivas perspectivas e proporcionou importantes avanços quanto aos processos de fundo na vida eclesial169. Torres Queiruga lembra que a “Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje”, a Gaudium et Spes, foi a proclamação inaugural e solene de uma transformação geral e de alcance histórico170.

Mesmo que a recepção do Concílio suscitou problemas e tensões ou que o peso das dificuldades, juntamente com a vertigem da novidade, tenha freado muitas iniciativas, essa experiência possibilitou passo fundamental. Sua semeadura continua rompendo caminho nas consciências dos cristãos e gestando novos tempos e rumos para o cristianismo171.



1.4.3 Enfrentar o desafio da assimilação assimétrica dos novos dados

A mudança paradigmática ainda não atingiu a todos no mesmo grau. Há diversos níveis de assimilação e acesso à mentalidade moderna. Ao se debruçar sobre a agudeza da crise do cristianismo na Modernidade, diante da percepção das inúmeras dificuldades e conflitos produzidos entre os próprios cristãos, Torres Queiruga compreendeu que não há linearidade uniforme no avançar do processo de assimilação das mudanças. Ele denominou esse fenômeno inevitável de “assimilação assimétrica” dos novos dados172. Isso explica, segundo ele, porque muitos cristãos ainda continuam a dirigir preces a Deus por chuva ou buscar ritos eficazes, tais como procissões, penitências, promessas, sacrifícios dentre outros, para aplacar a ira divina ou merecer d’Ele uma graça, como cura de doenças ou solução de problemas173.

Esta intuição lhe permitiu desenvolver lúcida análise, contribuir para a compreensão da trajetória histórica do cristianismo hodierno e abrir-lhe caminhos novos e alvissareiros. O tempo de travessia da crise tem sido uma longa e infindável “noite escura”, situação de “travessia tateante”. As reações extremadas diante da mudança de paradigmas pioraram ainda mais a situação conflitiva entre os cristãos. Por esta razão o processo de assimilação do novo paradigma não só é moroso, como também agrava as diferenças entre os que sentem a sensação de atraso e os que sentem todo avanço como um afastar-se da verdade da experiência primeva. De um lado, muitos cristãos experimentam o cristianismo como um gigante lento e vagaroso em seu avançar nos caminhos da história, preso pelo peso de enorme tradição, ultrapassado em muitas de suas posições, atrasado em inúmeros aspectos. A estes parece que a humanidade caminha muitos passos a frente do cristianismo, dando a eles a sensação de contínua obsolescência e falta de atualização da fé cristã. Do outro, ao contrário, muitos experimentam a vertigem diante do novo, quase não se identificam com a rapidez das transformações do mundo e também do cristianismo. A estes parece que o cristianismo está perdido, embalado pelo frenético ritmo do mundo moderno. Sentem saudosismo e tornam-se, freqüentemente, sisudos e fechados a qualquer aceleração ou atualização aos sinais dos tempos174.

Numa situação como essa é imprescindível a abertura para o diálogo crítico, a tolerância na diversidade, a paciência do discernimento na busca histórica da verdade e a perseverança na oração fraterna. A fé cristã convida a depositar a confiança na luz do Espírito Santo e na presença do Ressuscitado que permanece conosco até o fim (Mt, 28, 20; Jo 14, 18-20.23).

Para além do fenômeno da “assimilação assimétrica” das mudanças, com seus inúmeros e conseqüentes conflitos no seio da Igreja, muitos cristãos encontram-se confusos e perdidos, pois, experimentam a sensação contínua de viverem num ambiente cultural hostil a sua fé. Suas convicções mais radicais sofrem abalos sísmicos e já não se sentem muito à vontade e em segurança para apresentar, nem para os outros e, o que é pior, nem para si mesmos, as razões de sua esperança e fé (1 Pd 3, 15). Situa-se aqui, neste contexto, um dos melhores lugares para captarmos e compreendermos a força e a credibilidade do esforço da reflexão teológica de Torres Queiruga175.

Ele nos mostra que quando se leva a sério e vai-se a fundo na reflexão da fé, percebe-se, de fato, que tudo parece está a meias medidas. Por exemplo, aceita-se a crítica bíblica, mas continua-se falando de “Adão no paraíso”; reconhecem-se os gêneros literários na Bíblia, mas continua-se tomando ao pé da letra o “sacrifício de Isaac”; aceita-se a autonomia das leis físicas, mas prossegue-se com as preces por chuva176; aceita-se que Deus “não pode” acabar com a fome no mundo, mas continua-se com esta prece nas missas177.

Em sua busca de encontrar respostas para a crise, ele percebe a vinculação estreita entre a vivência da fé e a situação histórica em que o cristão se encontra situado. Com base nessa estreiteza, o autor nos mostra que a situação descrita sustenta a tese de que:

A vida da fé, em suas expressões históricas, aparece sempre e por força como uma longa série de equilíbrios instáveis. Enquanto equilíbrios, permitem a vida e satisfazem a necessidade de expressão e comunicação. Enquanto instáveis, devem estar sempre abertos ao cambio, à correção e ao pluralismo178.

Para expressar a necessidade de mudança, a partir dessa condição para manutenção da vitalidade da fé cristã na história, o autor utiliza uma imagem plástica a partir da relação entre “a água e o recipiente que a contém”. Nela o autor mostra a impossibilidade da explicitação da existência da água sem que esta assuma, concomitantemente, a forma do recipiente. Assim como a realidade da água, a fé assume a forma da situação cultural em que se encontra. Isso significa, para o que nos interessa no âmbito da fé, que o significado, o próprio conteúdo da fé, não existe sem o significante temporal, a situação histórico-cultural. Apesar da estreita vinculação, não se confunde a água com o recipiente. Assim também deve estar clara para o cristão a diferença fundamental entre a fé e sua necessária configuração histórica. Outro elemento dessa analogia, interessante para o que importa captar na relação fé e história, é que a mudança da forma do recipiente não muda ou interfere na identidade da água. É claro que, com isso, o autor não tem a pretensão e nem a ingenuidade de ficar no nível estrito comparativo, como se fosse algo simples, como no caso do exemplo, trocar o recipiente ou a configuração histórica do cristianismo. O desafio da teologia é o de possibilitar a mudança da forma, com a garantia e o cuidado para que o conteúdo não se perca179. O autor vai além da imagem e mostra que:

A jamais existe em estado puro, mas sempre no seio de uma interpretação determinada. Porém, se deve viver na história, não pode ficar estacionada em um tempo determinado; deve atravessar todas as épocas, adaptando-se a suas necessidades e aproveitando suas possibilidades; o que implica, ao mesmo tempo, liberdade e modéstia. Modéstia, porque parece claro que nenhuma época pode pretender que sua interpretação seja única ou definitiva, nem sequer a melhor: nossas atualizações são sempre provisórias. Mas também liberdade, porque, precisamente por isso, toda época tem direito a sua própria interpretação. Justamente porque a fé que pretende ser “água viva”, a maneira de conservá-la não é represá-la em um depósito morto, mas sim construir (...) canais sempre novos através dos quais flua para frente, fecundando os tempos e as culturas. Isso é tão sério que rompe por si mesmo a sacralização de qualquer configuração expressiva da fé, seja ela a primeira ou, muito menos, a medieval. Nem sequer na Escritura a experiência cristã está contida em estado puro, mas sim traduzida nos esquemas culturais de seu tempo e nas ‘teologias’ dos diversos autores ou comunidades: o próprio Jesus falava e pensava dentro de seu marco temporal, que não é nem pode ser o nosso180.

Embora seja necessidade ineludível o enfrentamento da nova situação, em busca de equilíbrio atualizado da fé, muitos continuam resistindo ao re-pensamento do cristianismo181, pois, a re-tradução é tão imperativa quanto difícil e custa-nos distinguir entre o que é propriamente o conteúdo da fé e o que é sua interpretação histórico-cultural182.

Para Torres Queiruga não há alternativa, pois, é perigoso economizar-se no “trabalho do conceito” e refugiar-se no sentimento ou na retórica183. Repetir frases teológicas bonitas, cujo sentido se sustenta somente no contexto pré-moderno e com apoio numa leitura fundamentalista da Escritura, hoje, devido a mudança de contexto cultural, são recursos suicidas e sementeira de ateísmo184. De modo incisivo ele afirma que:

Compreende-se que constituiria uma enorme cegueira histórica escudar-se nos defeitos reais ou nos possíveis abusos para evitar a confrontação da fé com a nova situação. E o que é pior: Isso acabaria convertendo-se em uma armadilha suicida, que mumificaria a vivência da fé e tornaria inverossímil sua compreensão. Um mínimo de sentido histórico mostra que não existe outra possibilidade de sermos verdadeiramente críticos com o processo da Modernidade a não ser reconhecendo a realidade de seu desafio, procurando aproveitar suas possibilidades e evitar seus perigos185.

Segundo ele, é preciso vencer o medo e pensar verdadeiramente os conceitos, contrapondo-os com a vivência real da fé hoje, e buscar as palavras deveras significativas. Não resta outro remédio eficaz que o de mudar as palavras e modificar os conceitos, por isso é preciso buscar o que se queria significar com os conceitos e expressões teológicas, e concebê-los e formatá-los de outra maneira. Eis o desafiante “trabalho do conceito” 186.

Não se trata de uma rejeição da Tradição em si, ao contrário, é preciso autêntico respeito ao passado, mas de suas expressões hoje, da validade de sua expressão cultural pré-moderna para expressar hoje o que fizeram em seu tempo de surgimento. Acontece que muitas dessas expressões, nem todas, caducaram. O problema é de discernimento e, no fundo, questão hermenêutica, ou seja, consiste em perceber que nem a cultura em que surgiram os conceitos do cristianismo é o contexto atual, nem os significados que pretendem transmitir garantem os níveis de compreensão nos quais os destinatários atuais os percebem e interpretam187. Torres Queiruga afirma que:

O que, afinal, nos é pedido, por estrita fidelidade ao dinamismo da fé, é trabalhar na busca de uma interpretação e de sua correspondente linguagem que, rompendo moldes culturais que não são os nossos, torne transparente o sentido originário para os homens e mulheres de hoje188.

Para ele, a revolução exegética, com sua abertura de renovação e superação da leitura fundamentalista da Escritura, e a renovação patrística, com sua provocação a “volta às fontes” primeiras do cristianismo, abriram grandes possibilidades de ruptura dos esquemas que caducaram com a Modernidade e possibilitaram, não sem grandes riscos, a busca de novas fórmulas e expressões para a fé cristã189.




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