Departamento de teologia


A GRAVIDADE DA CRISE EM PILARES ESTRUTURANTES DA EXPERIÊNCIA CRISTÃ



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A GRAVIDADE DA CRISE EM PILARES ESTRUTURANTES DA EXPERIÊNCIA CRISTÃ

Nenhuma reflexão teológica coloca em questão a pureza da presença viva de Deus na vida humana. O mesmo não se pode afirmar, de nossa parte, do processo de tomada de consciência dessa presença em nosso meio. Toda tradição religiosa surge a partir dessa tomada de consciência. Esta experiência esbarra necessariamente, condição de possibilidade de ser captada, elaborada e transmitida, nos limites de nossas capacidades. Nesse sentido, toda experiência religiosa, o cristianismo não é exceção, traz em seu bojo as marcas da ambigüidade humana349.

Analisar-se-á essa realidade em dois eixos estruturantes da experiência cristã: salvação e revelação a partir da crítica de Torres Queiruga. O objetivo maior é apontar as mudanças que colocaram em crise o núcleo da fé cristã, exigindo dos cristãos repensar radicalmente o cristianismo no mundo atual.



      1. Análise crítica da compreensão pré-moderna de salvação

O tema da salvação toca, no nível subjetivo, “a vivência pelo ser humano da atitude fundamental de Deus com respeito a ele”, refere-se “ao modo profundo como este concebe que Deus esteja internamente disposto de frente para ele”. Diz respeito ao significado fundamental da religião para sua vida350. No nível objetivo, significa debruçar-se sobre o núcleo da experiência cristã, da experiência religiosa vivida por Jesus de Nazaré351 e da que se deu, possibilitada por seu testemunho e ensinamentos, em torno dele. Essa experiência mudou radicalmente a compreensão de quem é Deus e, por conseqüência, de quem é o ser humano. Apercebido por Jesus de Nazaré, em proximidade nunca antes experimentada, Deus revela-se Abbá querido, com amor universal, gratuito e incondicional, solícito para com todos os seres humanos e toda a criação. De tudo isso, o que concretamente mais interessa é como o cristianismo apresenta sua identidade originária ao homem atual.

O itinerário dessa reflexão postula a necessidade contínua de avaliação das imagens humanas de Deus. Primeiramente pelo pressuposto de que Deus, infinito e transcendente, sempre desborda da clausura dos conceitos. Deus é sempre mais do que a linguagem humana dá conta de captar e expressar. Em segundo lugar, para além dos limites da linguagem, objetivamente, a história acumulou enorme pluralidade de concepções divinas conflitivas entre si. Esse fenômeno acontece em escala geral, mas também internamente numa mesma tradição religiosa ou experiência pessoal. Dentro da tradição judeu-cristã ou na caminhada de cada cristão não é diferente. De qualquer modo, é necessária contínua avaliação crítica dos fundamentos, possibilidades e limites, das concepções religiosas que cada um acolhe.

A imagem de Deus provoca determinada atitude no ser humano. Essa atitude explicita, entre outras coisas, a concepção de salvação que aquela imagem divina preconiza. Em termos de imagem cristã de Deus, o que a atitude dos cristãos revela? É Deus um juiz que incute medo, legislador que dita deveres a serem estritamente cumpridos sob pena de enviar eternos castigos ou o Abbá amável que inspira confiança e promove a vida? O clima que predomina na vivência da religião relaciona-se intensamente com a experiência religiosa da “imagem de Deus”. Ela será vivida como peso, dever, obrigação ou como libertação, livre acolhida e presença amiga352.

Torres Queiruga defende a intuição-convicção de que existe correlação com implicações mútuas entre a experiência de Deus e a posterior configuração da experiência religiosa numa religião. Experiência de Deus e configuração histórica da religião formam fecundo “círculo hermenêutico”. A religião nasce de intensa experiência de Deus na vida de uma ou mais pessoas. Esta se constitui em proposta a ser anunciada e seguida por outros. Ao ser transmitida numa linguagem provoca a formação do imaginário religioso ou do “fundo de crenças”. Esse oferece a seus adeptos elementos para assimilação, aprofundamento e neotransmissão da experiência religiosa.

Nesse sentido, torna-se evidente a discrepância entre a experiência fontal de Deus em Jesus de Nazaré e as diversas imagens cunhadas ao longo das muitas configurações históricas do cristianismo. A partir dessa evidência, tornam-se pertinentes as interpelações: o Deus dos cristãos é o Deus cristão? Tem sintonia com o Deus de Jesus de Nazaré? Olhando para os cristãos, para o modo como experimentam a Deus e se relacionam com Ele, vale a pena tornar-se um deles? Traz alegria para o viver ou mete medo? Em que medida a crítica ao cristianismo tem a ver com a imagem de Deus que transparece na sua configuração histórica?353. Essa última indagação remete à questão da crítica externa ao cristianismo. No primeiro capítulo afirmou-se que, muitas vezes, essas críticas se erigem em verdadeiras profecias354.

Não é difícil a constatação de que o cristianismo atual precisa de rigorosa autocrítica. Para tal, nada mais sábio e prudente do que ouvir, dar atenção às críticas de “velhos amigos”. Aqui essa expressão se refere, especialmente, aos “mestres da suspeita”. Ao longo da obra de Torres Queiruga nota-se no método a sabedoria da escuta.

No tocante à experiência da salvação, para ele, soam ainda muito pertinentes as críticas de Nietzsche (1844-1900), quando observou que os cristãos tinham pouca aparência de redimidos, de libertos, ao contrário, aparecia a ele que, na verdade, predominava o sentimento de escravos, de prisioneiros355. A partir dessa percepção lançou possante e incômodo “grito libertador”. A “morte de Deus” seria o advento de novo tempo para o ser humano356.

Não é menos mordente, nota o autor, a crítica de Feuerbach (1804-1872), quando em seu livro “A essência do cristianismo” observou que, no dinamismo cristão, o modo de enriquecer a Deus se concretiza às custas do empobrecimento do homem, ou seja, para Deus ser é preciso negar o homem357. Deve-se, com seriedade, se perguntar como foi possível que o cristianismo transmitisse algo tão perverso e, o que é pior, que contradissesse o núcleo mais caro da experiência fontal. Segundo Feuerbach, Deus aparece como “grande vampiro”, que vive às custas da sugação do ser humano. Algo explicitamente contraditório com a experiência de Jesus, na qual Deus se revelou como aquele que dá a vida, que liberta e sustenta a dignidade da existência humana. A crítica de Feuerbach torna-se valioso instrumento de auto-análise para as diversas configurações do cristianismo e para a práxis cristã. Ela oferece importante critério de análise e instrumento para a constatação de possíveis esquecimentos ou deturpações do núcleo fundamental da experiência cristã. Por exemplo, certo esquecimento da centralidade da vida e experiência de Jesus de Nazaré na autocompreensão do cristianismo, impossibilitaria a percepção de posturas ou atividades no seio da vida cristã que contradissessem sua experiência originária.

Outra importante contribuição crítica veio de Marx (1818-1883) ao anunciar ao mundo a convicção de que a experiência religiosa mais atrapalhou do que ajudou a caminhada da humanidade em busca de realização e felicidade. Para ele, o cristianismo era autêntica fonte de alienação que era preciso eliminar358. O que essa crítica tem a contribuir para a percepção dos desvios e deturpações na experiência cristã? Em que sentido o cristianismo tem reforçado ou criado estruturas alienantes e empobrecedoras da vida humana ou deixado de ser fonte de libertação para a vida mais plenamente humana?

Outra contribuição profícua vem da crítica de Freud (1856-1939). Este se convenceu de que a fé é fruto de grande ilusão e sua manutenção equivaleria a permanência do ser humano na imaturidade da infância359. Como terá Freud chegado a tal conclusão? Que imagem de Deus o cristianismo lhe revelou?

Não é o objetivo dessa dissertação perscrutar cada um desses autores, com suas importantes contribuições críticas ou desmontar seus pressupostos e equívocos, etc. Pretende-se mostrar que subjaz a todas essas críticas a concepção de Deus como concorrente ou como peso negativo para a vida humana. Defende-se, portanto, a posição de que o autêntico alvo não era o Ser de Deus em sua transcendência, mas a concepção ou imagem transmitida no seio da configuração religiosa cristã pré-moderna daquele tempo. O cristianismo, muitas vezes, em sua configuração histórica, apareceu, de fato, como quem é contra o avanço das ciências e do progresso, da consciência da liberdade e da autonomia, contra o senso crítico com posturas dogmatistas, intolerantes, repressivas, moralistas e infantilizantes. Além disso, apoiou, em diversas circunstâncias, a escravidão e a exploração do índio e do negro. É inegável que a imagem de Deus emergida num cristianismo assim apresenta sérias razões para ser rejeitada360.

Aqui se interessa saber em que medida as críticas apontadas questionam a validade do cristianismo em si ou de traços de determinada configuração histórica. E, mais ainda, em que medida elas oferecem horizonte crítico para o discernimento dos elementos que contribuíram e ainda contribuem para a formação de imagem tão negativa da experiência de Deus. Levar a sério as críticas acima oferece ricas possibilidades e intuições pertinentes para a reformulação e recuperação da credibilidade e coerência do cristianismo.

As críticas desferidas contra o cristianismo levam a constatação de graves deturpações na vivência do cristianismo com enormes danos. Torres Queiruga verifica que muitos cristãos vivem o cristianismo de modo deformado. Este se apresenta a muitos como pesado “fardo” sobre as costas. Uma situação que em vez de alívio, entorpece e endurece seu caminhar (Mt 11, 28-30)361. Esta deturpação aparece sob a forma de sentimentos de angústia diante da presença de Deus, medo de ser castigado com a condenação eterna às profundezas dos infernos. Tais sentimentos criam atmosfera de repressão e de castigo, desenvolvem consciência escrupulosa, carregada de culpa e subserviência acrítica diante de preceitos moralizantes e posturas legalistas. A moral cristã reduziu-se freqüentemente ao conhecimento de proibições e ao cumprimento de deveres e obrigações. Essa compreensão provoca sentimento de insegurança e temor, que destrói qualquer espontaneidade ou alegria na relação com Deus. A religião cristã – com seus mandamentos, preceitos, diretrizes, normas e orientações –, assume a forma do dever, do cumprimento, da obrigação362.

Entre os fatores que contribuíram para a consolidação dessa configuração deturpada do cristianismo, com sua “proposta salvífica”, destaca-se indubitavelmente o próprio anúncio da Igreja. A “pregação” sempre foi o instrumento privilegiado de divulgação, transmissão da doutrina e formação de espiritualidades, seja em sua dimensão oral, nos sermões litúrgicos, nos confissionários, nas missões ou na catequese, seja em sua dimensão escrita, na produção de catecismos, jornais e subsídios pastorais. A pregação, enquanto faz verdadeiro círculo hermenêutico com a teologia, é lugar privilegiado para captar-se a qualidade da seiva do cristianismo. Nela detecta-se os temas e as pautas que transitam no seio da Igreja. Os temas bíblicos que eram enfatizados e os esquecidos. Por isso ela oferece permanente feedback para a teologia363.

A constância de temas recorrentes na pregação cristã levanta a suspeita, para o autor, de que aqui está uma das fontes para apreensão do modo de consolidação de deturpações na configuração hegemônica do cristianismo. O grande equívoco foi a ênfase numa verdadeira “pedagogia do medo”. Através dos temas repetidos se percebe claramente como a tomada de consciência do drama da existência humana, narrado nos mitos de todos os tempos, conduz ao sentimento de angústia e medo diante da condição de liberdade. Ao encontrar terreno fértil na pregação cristã, o peso da responsabilidade diante da própria existência converte-se em medo da liberdade e em medo de Deus364. O que era para ser refúgio torna-se ameaça.

Entre os temas preferidos, destacava-se o do pecado original. Com objetivo tácito de formar a consciência cristã para a responsabilidade, provocou na verdade o medo diante do risco da liberdade como possibilidade do pecado. Este era concebido como ofensa grave e direta a Deus. Através da narrativa da queda original, ficava explícito como que Adão e Eva, além de receberem de Deus o castigo da perda do paraíso, entraram para a “história” como aqueles que, através da desobediência a Deus, trouxeram conseqüências terríveis para toda a humanidade e de todos os tempos. A vida humana, que já tem em si a própria dureza, sob a ótica desse cristianismo deturpado, se transforma num imenso drama de salvação ou condenação. Outro tema recorrente era o do juízo final. Após a morte, a alma se via à mercê do julgamento divino, tendo diante de si as possibilidades terríveis, mas bastante plausíveis ou de longo e sofrido purgatório ou até mesmo da condenação eterna ao fogo do inferno. Essa situação era descrita com eficiente efusão de imagens e símbolos, reforçada por eloqüentes oratórias, carregada de suspense que impregnava na alma dos ouvintes, de modo quase indelével, sentimentos de medo e angústia diante da morte365.

Constata-se assim a concretude de enorme desajuste no seio do cristianismo. Este se traduz numa grande distância entre a revelação de Deus enquanto oferta salvífica e a vivência concreta que a tem traduzido. Nele o que predomina é a imagem de Deus como ser de poder absoluto, imprevisível e que provoca o sentimento de insegurança, medo e angústia. A ênfase na dimensão do dever levou muitos à compreensão da religião como algo imposto por Deus e agregado à existência humana. Algo a ser suportado, ainda que a vida se torne mais dura e difícil do que já é366. O ideal cristão visto como obrigação para com um Deus “tremendum”, converteu a vida religiosa num autêntico instrumento de aflição e expiação. Essa situação existencial provocou verdadeiro “medo à liberdade” e “medo de Deus”. Quando Deus se transforma em fonte de medo, então tudo com respeito a ele se transforma: “a promessa converte-se em ameaça, o chamado em imposição, a existência em castigo e o Evangelho em lei”367.

Torres Queiruga percebe que, ao longo de grande parte da tradição teológica cristã – e a que mais diretamente chegou até nós –, o caráter positivo da salvação tendeu a ficar, por diversas razões, obscurecido em sua interpretação. Dentre as causas para esse pernicioso esquecimento arrola certo fundo de reminiscências míticas nas quais a divindade necessitava lutar ou padecer para resgatar o ser humano do poder de seres demoníacos; a concepção cada vez mais jurídica do pecado original, especialmente a partir de Agostinho; e a necessidade de esquemas simples de exposição que justificasse a “morte redentora” de Jesus. O certo é que a própria idéia de redenção adquiriu negatividade na qual o que predominava era a mistura de dívidas a pagar, pecados a expiar e castigo punitivo a suportar. E o mais grave, perdeu-se seu núcleo fundamental: a gratuidade absoluta do amor salvífico de Deus368.

Num horizonte hermenêutico tão carregado o envio de Cristo pelo Pai perdeu o dinamismo positivo para concentrar-se na morte de Jesus. Esta ofuscava a densidade de seus ensinamentos e ações, a presença do Reino e a proximidade amorosa de Deus. Ao preço do sangue derramado, a encarnação adquiriu a força de resgate ou pagamento de dívidas ao próprio Deus ou ao “demônio”. O esquema “anselmiano” encontrou terreno fértil e fez história, penetrando de tal maneira o imaginário religioso que ofuscou a necessidade de outros enfoques. Em poucas palavras, pode-se visualizá-lo da seguinte maneira. O pecado humano implica ofensa infinita a Deus. Rouba-lhe a honra devida. Diante de tamanha ofensa a Deus, o ser humano está perdido, pois, por si mesmo não tem poder para expiá-la. Não tem salvação. Faz-se necessária, então, a encarnação divina: Cristo, por ser Deus, pode oferecer satisfação infinita; e, ao mesmo tempo, por ser humano, sua satisfação equivale, com justiça, a devolução da honra divina. Somos eternos devedores a Cristo. Ele é o nosso redentor369.

Deus aparece como um ser tão preocupado com sua honra, que só consegue aplacar sua ira ao preço da morte violenta de seu próprio Filho. Aparece como juiz implacável e mesquinho, enfim um ser pior do que nós.



      1. Análise crítica da compreensão pré-moderna de revelação

O tema da revelação é central para toda religião que se considera a si mesma criação divina, pois, trata-se do desvelamento do mistério de Deus e de sua vontade, como também do acesso às profundezas do sentido da vida. O cristianismo se entende, em sua identidade radical, como religião “revelada”. Isso significa que seu sentido último tem a pretensão de vir da parte de Deus, ainda que a limitada racionalidade não tenha acesso a essa verificação. Nesse sentido, ele se considera religião do livro sagrado (Bíblia), nascida no seio da “Palavra de Deus”. Sua autoridade não vem da razão, mas do próprio Deus.

Educado no seio da rica tradição judeu-cristã, tende-se a fazer da Bíblia mundo à parte, sem influências ou derivações, e não como fruto de fenômeno histórico. Até bem pouco tempo, a compreensão da aventura humana na terra se embasava quase que exclusivamente nos dados “inquestionáveis” da Escritura. A religião bíblica sempre se apresentou historicamente com força colossal e excepcional riqueza, tanto que se erigiu como um dos eixos centrais da cultura ocidental370.

O cristão comum acolhia, enriquecia e transmitia a visão ingênua e mítica do espaço e do tempo bíblicos. Segundo tal visão, os homens da Bíblia viviam envoltos e cercados pela luz de revelação. Mesmo que estes não soubessem bem o que ela significava ou como se concretizou historicamente. Esta compreensão entrou para o patrimônio do imaginário religioso comum. Não havia perguntas. Tudo estava ali, escrito e descrito, na autoridade reconhecida da “Palavra de Deus”. Com essa espécie de áurea divina, ficava difícil assimilar a necessidade, nascida hegemonicamente do Iluminismo, de transformar criticamente essa visão. Mais difícil ainda foi percebê-la como fruto da atitude passiva e piedosa, produzida pela leitura fiducial, literalista, positivista e infantil da Escritura. A título de exemplo, os perigosos pressupostos das reminiscências de Renan soam, para muitos hoje, quase como anedóticos, embora tal visão habite ainda a cabeça de muitos cristãos piedosos:

Um só erro prova que a Igreja não é infalível: um só ponto fraco prova que um livro não é revelado... Num livro divino tudo é verdadeiro e não deve haver, portanto, nenhuma contradição... Um livro inspirado é um milagre. Deveria, pois, apresentar-se em condições únicas, distintas das de qualquer outro livro371.

Foi difícil ser acolhida no seio da teologia a problematização do complexo processo de consignação escrita seja da experiência religiosa de Israel – o longo processo histórico de elaboração da “Lei e os profetas” –, seja dos primeiros cristãos, na formação do Novo Testamento, e depois, a elaboração do cânon bíblico. O processo revelador de Deus, especialmente a forma de captação, apercepção e consignação da parte do homem, é questão bastante recente na história da teologia. Foi com a entrada da Modernidade e o advento das ciências, que as “evidências” se problematizaram. Nas palavras de Torres Queiruga: “Ao questionar a evidência, comum e pacificamente aceita, da Bíblia como acriticamente idêntica à palavra de Deus, o Iluminismo fez a revelação ‘surgir como um grande tema teológico’”372.

A reação apologética assumirá, em confronto direto com a Modernidade, uma concepção extrinsecista, intelectualista e abstrata, ao converter a revelação em verdadeira “lista de verdades sobrenaturais” manifestadas ou entregues de modo “sobrenatural” (leia-se fora do alcance da razão ou extraordinário) ao ser humano, cuja credibilidade estava garantida e sustentada unicamente pela autoridade divina373. A revelação como “conjunto de verdades” leva à concepção de um grande “depósito” estático. Compreende-se, desse modo, o processo revelatório sem qualquer dinamismo atual. Aos cristãos caberia apenas a tarefa de guardar esse tesouro “sobrenatural” e eterno, com a missão de repetir tais verdades, anunciando-as a todos os homens374.

As mudanças culturais possibilitaram emergirem, à luz da razão crítica, as intuições e os desajustes da compreensão teológica da experiência reveladora. A crise do Iluminismo, ao questionar os pressupostos da fé, obrigou a teologia a explicitar o caráter irredutivelmente específico da revelação bíblica. Esse fato colocou, pela primeira vez no horizonte da história do cristianismo, a revelação na pauta dos grandes problemas teológicos375.

A revelação representava ameaça às conquistas do novo tempo: a autonomia das realidades e do próprio homem. Era inaceitável acolher a revelação concebida como intervenção vinda “de fora”, palavra direta e imediata “ditada” pelo Espírito de Deus ou “meteorito” que já cai pronto do alto, interferindo na dinâmica dos acontecimentos históricos. Significava ruptura na imanência e ameaça ao legítimo princípio da autonomia humana. Ao apoiar-se numa “palavra inspirada”, compreendida como “ditado” vindo “de fora”, da parte de Deus, entregue ao homem de uma vez por todas e para sempre, parecia adicionar sentido, arbitrária e autoritariamente, aos fatos históricos. Soava como violação e desrespeito divinos à seriedade da história. Esta ficaria reduzida a “marionete dos desígnios divinos” 376.

O surgimento da crítica bíblica, ao explicitar o caráter profundamente humano do processo bíblico, provocou concomitantemente o nascimento de questões inesquiváveis:

Pode uma palavra humana ser simultaneamente palavra divina? Será preciso fechar os olhos à crítica para continuar mantendo a fé? Teremos de negar a revelação para ser fiéis às exigências da razão? Ou caberá encontrar o caminho da síntese, mantendo sem contradição a honestidade da crítica e a autenticidade da fé?377.

A redução da revelação ao horizonte bíblico da tradição judeu-cristã e sua visão extrinsecista e positivista como “conjunto de verdades” provocou diversas questões: o problema da universalidade do conteúdo da revelação, do por quê da eleição de Israel para receber e transmitir a todos os povos, o problema das outras tradições religiosas, dentre outros.

CONCLUSÃO

Nesse capítulo explicitaram-se os efeitos mais graves na crise do cristianismo pré-moderno. Primeiramente se abordou a compreensão tradicional da maneira de Deus se situar e relacionar-se com o mundo. A concepção de Deus, como onipotência abstrata, totalmente separada e transcendente à realidade do mundo, favoreceu a compreensão infantil e autoritária de sua relação com o mundo e com o ser humano. Esta se concretizava em intervenções extrínsecas e pontuais na dinâmica dos acontecimentos naturais378. Concepção que entra em crise na Modernidade com a descoberta da autonomia das realidades criadas. Nesse sentido, é necessário repensar a relação imanência-transcendência e o modo de conceber a relação Deus-mundo.

Como conseqüência, a crise atingiu o outro pólo da relação de fé, ou seja, o modo tradicional de conceber a resposta humana à iniciativa amorosa de Deus em revelar-se. A compreensão do ser humano como ser em tudo dependente de Deus entrou em crise e precisa ser repensada nas coordenadas de outra antropologia, tendo em consideração as justas aquisições da Modernidade.

Mostrou-se que esta crise afeta diretamente a linguagem religiosa. Esta é o veículo de apreensão, expressão, explicitação e transmissão da experiência religiosa, da relação de Deus com o homem, com o mundo e do homem para com Deus. O modo predominante de se aproximar da linguagem religiosa em chave objetivista e diretamente descritiva, especialmente, na leitura e compreensão da Escritura, provocou inúmeros conflitos no horizonte das mudanças culturais. Tais conflitos possibilitaram a pergunta pela especificidade da linguagem religiosa e favoreceram a tomada de consciência de inúmeros equívocos e ingenuidades nas posturas religiosas.

É preciso repensar com radicalidade os conceitos, as expressões e os hábitos mentais, ou seja, a linguagem religiosa antiga, que configura e transmite hoje a experiência cristã. Do jeito que está chegando hoje, tem provocado, com toda boa vontade e zelo subjetivos, objetivamente a mentalidade religiosa, experiências e vivências, que negam o núcleo da experiência cristã. Aquela experiência feita por Jesus de Nazaré, do Deus Abbá querido, próximo, solícito e amoroso, que faz de tudo para que sua criação se realize em plenitude. O ser humano foi criado pelo Amor e para o amor, para participar da comunhão divina.

O modo como concebemos a relação de Deus com a criação, seu modo de revelar-se em nossa história e o significado de seu amor salvífico em nossa vida, na forma como estão, deturpam a compreensão da experiência originária. Precisam, portanto, ser repensados para que continuem oferecendo fecundo horizonte de sentido para o homem atual. A ação criadora de Deus não pode ser compreendida no mesmo nível das causalidades intramundanas sob pena de deformar a experiência religiosa cristã. Sua revelação não vem de fora, arbitrária e destruidora da autonomia das realidades. O amor salvífico de Deus não é uma conquista, recompensa divina pelo esforço da iniciativa ou serviços prestados do ser humano a ele. Na forma e na linguagem que chega ao homem moderno, estas experiências estruturantes do cristianismo perdem seu dinamismo originário e provocam vivência deturpada da fé cristã.





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