Desafio de dizer raduan nassar em voz alta



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Jornal O Globo

Rio de Janeiro

17 de maio de 1998

Hugo Sukman



DESAFIO DE DIZER RADUAN NASSAR EM VOZ ALTA

Aluízio Abranches acaba de rodar no Rio Um Copo de Cólera, primeira adaptação cinematográfica da obra do escritor.

A festejada obra de Raduan Nassar – dois romances curtos Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera, e uma coletânea de contos, Menina a Caminho – foi cercada durante 20 anos por uma aura de dificuldade, reforçada pelo temperamento arredio do autor e por sua decisão precoce de trocar as teclas pretas por uma lavoura real no interior de São Paulo (“... não há criação artística ou literária que se compare a uma criação de galinhas”, chegou a escrever). Isto mudou, de dois anos para cá, Raduan começou a sair da toca, participar de leituras públicas, relançar seus livros, e até viajou a Paris para, mesmo a aparente contragosto, comparecer ao Salão do Livro. A relativamente intensa popularização do escritor está chegando ao cume este ano com a adaptação cinematográfica de seus dois romances.

Antes mesmo de o diretor de TV Luiz Fernando Carvalho debutar no cinema capinando a terra acidentada de Lavoura Arcaica (coisa que fará ainda este ano), outro estreante, Aluízio Abranches, terminou de rodar esta semana num sítio escondido em Vargem Grande, no Rio, sua versão de Um Copo de Cólera. No princípio, tanto Abranches quanto o casal real, Júlia Lemmertz e Alexandre Borges, que dá vida ao abstrato casal inventado pelo autor, acreditaram no mito da dificuldade de Raduan Nassar.

- A primeira vez que li Um Copo de Cólera, apresentada pelo Aluízio, fiquei assustada – confessa Júlia – Pensei em como seria possível me apropriar de suas palavras, em como penetrar naquele raciocínio que mistura uma história de amor com uma visão social, política, universal. Mas agora, depois de todo o trabalho feito, vi que fiquei mais assustada antes do que durante. Conhecendo o texto, e entendendo a sua lógica, o filme tornou-se o meu trabalho mais pessoal em cinema.

A experiência da atriz pode ser lida como uma metáfora do que aconteceu à obra de Raduan nos últimos 20 anos, de sua inatingibilidade inicial até virar tema de dois filmes de estreantes.

- Sinto como se tivesse um Shakespeare na mão, tal a condenação de assuntos tratados tão bem em apenas 80 e poucas páginas – afirma Abranches, que até hoje realizou um curta-metragem (A Porta Aberta, há dez anos), trabalhos em publicidade e em filmes dos outros. – No filme, segui a linha da paixão entre os dois personagens, uma relação em que está presente o humano, o político, o existencial.

Custo de R$ 800 mil é dos mais baixos dos últimos anos.

O filme Um Copo de Cólera, escrito por Abranches e pelo produtor Flávio Tambellini (de A Ostra e o Vento), segue à risca o livro de Raduan, em hora e meia de duelo verbal entre os dois personagens, ela uma jornalista o tempo todo conectada com o mundo real, ele um recluso, um homem de vagos pensamentos anarquistas, com um rico passado intelectual, mas que desistiu da sociedade indo viver numa chácara afastada. Em 24 horas de intenso (e feliz) relacionamento sexual, os dois confrontam sua visão de mundo, numa discussão iniciada por um fato à-toa, o buraco feito por saúvas numa cerca viva cultivada há anos por ele. A história não é nada perto da violência desabrida e afetuosa travada pelos dois através da prosa precisa de Raduan.

- Nosso desafio foi justamente achar o equilíbrio entre o aspecto emocional levantado por dois atores representando uma história tão intensa e a beleza e a clareza do texto do Raduan – diz Alexandre.

Não há uma palavra no filme que não tenha sido escrita por Raduan para o livro.

- O livro foi um trunfo para mim e eu não poderia abrir mão disso – diz Abranches. – Tem rima, tem métrica, cada palavra tem uma intenção, um significado. Por isso, sempre pontuando a discussão do casal, botei vários dos pensamentos que estão no livro em forma de depoimentos dos personagens para a câmera.

Para contar história tão simples, que busca sua complexidade apenas na palavra, Abranches está fazendo um dos filmes brasileiros mais baratos dos últimos anos, consumindo apenas R$ 800 mil, pouco para uma cinematografia que gasta, em média, mais de R$ 2 milhões por filme. A razão disso é a utilização de apenas dois atores, locação única, cenografia simples (a tosca casa de madeira do homem, sobre uma coelheira), tudo captado por uma ágil câmera de 16 mm comandada pelo fotógrafo Pedro Farkas. O sítio de Vargem Grande, apesar da simplicidade, é belíssimo.

- Quis que a história, um inferno, fosse representada no paraíso – diz Abranches. – Mas, ao mesmo tempo, não queria que parecesse uma casa de campo, e sim, um lugar onde um homem foi passar o resto de sua vida.

Se há algum filme brasileiro recente parecido com Um Copo de Cólera, Abranches acha que é Um Céu de Estrelas, de Tata Amaral, também todo centrado na densa discussão de um casal.

- Acho que estamos conseguindo fazer um filme diferente de tudo – diz, no entanto, Alexandre. – Já representei um Guimarães Rosa no teatro, Corpo de Baile, e o Raduan apresenta o mesmo desafio: o de achar a simplicidade de dizer a palavra clara e exata.

Por isso, lembra Júlia, eles ensaiaram o filme como se fosse uma peça de teatro.

- Não lembro de um filme tão ensaiado antes – diz a atriz – Fizemos preparação corporal com a Angel Vianna, preparação vocal, e estudamos tanto o texto que poderíamos montá-lo como uma peça. Por isso, acho que tudo vai resultar muito simples.

É nisto que confia o diretor. Ele sabe que não tem propriamente um filme popular na mão, mas confia em que a prosa de Raduan vá conquistar o público:

- É basicamente, um filme de casal, o que atrai todo mundo.

Raduan não está interferindo nas adaptações.

Embora tenha ficado amigo de Raduan, Abranches não está contando com ajuda do autor, que lhe deu liberdade na adaptação, assim com já havia feito com Luiz Fernando Carvalho.

- Não sou do ramo, por isso dei liberdade total para o Luiz Fernando e para o Aluízio Abranches. Realmente não consigo ler um roteiro sem sentir medo, parece que te amputaram todo – disse Raduan ao Globo em novembro passado.



Mesmo assim Abranches deu o roteiro para Raduan ler. O escritor o fez, mas preferiu não dar nenhuma opinião.


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