Desenvolvimento do sistema de moda a partir dos estudos sobre economia criativa



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DESENVOLVIMENTO DO SISTEMA DE MODA A PARTIR DOS ESTUDOS SOBRE ECONOMIA CRIATIVA
Fernanda Cereser Fracaro1 fercereser@gmail.com

Juliana Teixeira de Paiva1 jullymess@gmail.com

Lucas da Rosa2lucasdarosa@yahoo.com.br

Talyta Duarte Bastos1 talytabastos@hotmail.com



Resumo

Este estudo apresenta informações sobre a economia criativa e sua relação com o sistema de moda no Brasil. Para tanto, o objetivo geral é de apresentar uma revisão de literatura sobre os temas, permitindo uma reflexão e as possibilidades de atuação futura. Para atender ao que foi proposto neste trabalho, realizou-se uma pesquisa bibliográfica em diferentes fontes de referência, buscando elaborar a compreensão dos conceitos, a apresentação de dados e apontar alguns caminhos que contribuam para o desenvolvimento de uma economia mais criativa na moda brasileira. Conclui-se, assim, que o Brasil tem grande potencial de criatividade a ser explorado, podendo ser referência em produtos de moda a partir de aspectos de sua cultura que hoje estão esquecidos em consequência da valorização de produtos internacionais.


Abstract

This paper presents information on the creative economy and its relationship with Brazil´s fashion system. Therefore, the overall objective was to present a review of literature on the issues, allowing reflection and possibilities for future action.  To cater to what was proposed in this paper, a literature search in different reference sources was performed, seeking to develop understanding of the concepts, the presentation of data and point out some ways that contribute to the development of a more creative economy in Brazil’s fashion. This paper concludes, therefore, that Brazil has great potential for creativity to be explored, which may be a reference in fashion products from aspects of their culture that are forgotten nowadays as a result of the appreciation of international products.



  1. Introdução

A partir dos conceitos de inovação e criatividade, surgem as teorias que fundamentam a Economia Criativa Brasileira e somando outras bases para sua realização: a diversidade cultural, a sustentabilidade e a inclusão social. Sendo o Brasil um país de grandes possibilidades em todos esses setores, o grande desafio é colocar em prática as ideias que surgem dessas propostas e unir essas bases para transformar o setor produtivo brasileiro em um setor criativo, visto que, apesar de seus potenciais, o Brasil não está entre os países que se destacam com relação ao desenvolvimento de bens e serviços criativos.

Na cadeia produtiva da moda é evidente essa lacuna existente na criação nacional. Levar o conhecimento da Economia Criativa para o sistema de moda do país pode ajudar a solucionar vários problemas da indústria do vestuário nacional e não apenas para a indústria em si, mas para a própria sociedade. O estudo busca, dessa forma, entender a Economia Criativa, como ela pode ser inserida no mercado brasileiro e como o sistema de moda pode ser beneficiado nesse processo.

Com o intuito de colocar em prática as ideias do estudo aqui realizado, surgiu o programa de extensão do Departamento de Moda da UDESC, Economia Criativa: Interlocuções entre Moda e Artesanato na Costa da Lagoa, contando com 3 ações vinculadas: (1) Projeto: Interação entre UDESC, a Comunidade da Costa da Lagoa e o Pólo Calçadista de São João Batista; (2) Projeto: Figurinos para Espetáculo Musical; e (3) Evento: Mostra de Moda, Música e Artesanato. Porém, com a desistência dos parceiros da comunidade da Costa da Lagoa, apenas foi possível realizar ações com o SINCASJB (Sindicato das Indústrias de Calçados de São João Batista). As atividades que envolveram o projeto para criar e desenvolver figurinos e o evento não sofreram alterações e sua finalização está prevista para dezembro de 2012.

Assim, foram realizados encontros com os representes do SINCASJBC e se iniciou um planejamento em que, inicialmente, desenvolveram-se e apresentaram-se pesquisas de tendências de moda no evento “Rodada de Negócios”, organizado pelo SINCASJB no primeiro semestre do ano de 2012. Como de 6 a 8 de novembro de 2012 está sendo projetada outra “Rodada de Negócios” e foi aberto espaço para o Curso de Moda da UDESC expor produtos desenvolvidos por alunos e pelo programa de extensão citado anteriormente. Desta maneira, estão sendo realizadas atividades com base nos preceitos da Economia Criativa visando o intercâmbio entre escola e empresa por meio da troca de informações e compartilhamento de conhecimentos.

Logo, há importância do seguinte estudo ao incluir a divulgação das ideias geradas pela Economia Criativa que, se forem disseminadas o máximo possível, podem auxiliar no desenvolvimento do país de forma mais preparada para utilizar nos produtos comercializáveis o seu potencial criativo. Apesar do programa de extensão não ter finalizado suas atividades se buscam soluções, tanto na área da moda, quanto em outras áreas criativas, que podem incluir na produção de bens e serviços os fundamentos da economia criativa.





  1. Economia Criativa

Atualmente, diversas sociedades enfrentam crises sociais, econômicas, ambientais e culturais. Essas são constatações concretas de que o modelo moderno de desenvolvimento necessita ser renovado para diminuir essas crises nacionais e mundiais que afetam diretamente o planeta. Com o desafio de pensar no desenvolvimento, tirando o foco do produto e direcionando para processo cultural, começaram a ter destaques discussões relativas à economia criativa, economia da cultura e indústrias criativas – conceitos plurais relativos ao desenvolvimento de uma economia fundamentada na criatividade, na inovação, na cultura, no tradicionalismo, nos valores humanos de forma sustentável ambiental e socialmente. (PLANO, 2011).

Essas denominações surgiram a partir da situação social do mundo globalizado – considerado por De Masi (2000) como pós-industrial - que vem sofrendo um intenso processo de transformação, tendo a propriedade do intelecto como uma forma de sustentação para economia. No Brasil, país considerado propenso a ter destaque por sua criatividade, as teorias sobre a economia criativa contribuem com o avanço para um novo desenvolvimento includente e sustentável. Nesse contexto, a cultura surge como recurso econômico, devendo ser deslocada para o centro do discurso social e financeiro.

Na sociedade industrial ocidental existe uma grande valorização de novidades, inovação científica e tecnológica e preocupação com os direitos do autor. Esses aspectos incentivam um tipo de criatividade geradora de produtos inovadores. Para que isso aconteça é necessária primeiramente uma criatividade individual, a fim de transformar todo e qualquer insumo das indústrias, acrescentando a eles a livre manifestação e o estímulo a criatividade aplicada aos negócios.

De acordo com estudos da FIRJAN (2008), a inovação, a criatividade e a cultura são alguns dos principais ativos econômicos no mundo contemporâneo, por fazer parte das particularidades humanas. A economia criativa está em ascensão por ter a democracia cultural como característica, possuindo uma ligação maior com a inclusão e o equilíbrio entre os indivíduos e a sociedade como um todo.

Segundo Howkins (2001), a economia criativa é a comercialização e venda de novas ideias e invenções, onde o trabalho intelectual gera valor econômico. Essa propriedade intelectual, que consiste nos direitos do autor, patente, marcas comerciais e design, dão às pessoas o direito de propriedade, podendo exercer, assim, direitos tanto econômicos quanto morais sobre seus produtos. A economia criativa surge, nesse contexto, como forma de revitalizar as tradicionais indústrias de manufaturas, entretenimento e serviços.

No Brasil, a Secretaria da Economia Criativa (SEC) formula, implementa e monitora políticas públicas para um desenvolvimento fundado em quatro princípios: a inclusão social, sustentabilidade, inovação e diversidade cultural brasileira. A inclusão social significa direito de escolha e direito de acesso aos bens e serviços criativos brasileiros. Essa inclusão se daria por projetos que priorizem aqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade social por meio da formação e qualificação profissional, além da geração de oportunidades de trabalho e renda. Também, é importante definir qual o tipo de desenvolvimento se deseja a fim de garantir a sustentabilidade social, cultural, ambiental e econômica em condições semelhantes para as gerações futuras. O processo de inovação se liga ao conceito de economia criativa uma vez que exige conhecimento, identificação e reconhecimento de oportunidades, escolha por melhores opções, capacidade de empreender, dentre alternativas. A diversidade cultural brasileira surge como fonte da grande criatividade do povo, criando um mundo rico e variado e aumentando a gama de possibilidades. Esses quatro princípios interseccionados definem o plano de Economia Criativa da SEC para o país. (PLANO, 2011).

Aplicar um elemento criativo em determinado insumo gera inovação e diferenciação de bens e serviços. São chamados setores criativos, ou indústrias criativas, esses que tem origem na criatividade, na competência e talento individuais, e no potencial para criarem riqueza e emprego através da propriedade intelectual. Esse setor criativo tem como principais insumos a criatividade e o conhecimento. As indústrias criativas estão crescendo em ritmo mais acelerado que outros setores econômicos e têm como processo principal um ato criativo gerador de valor simbólico. Pode-se afirmar que economias criativas caracterizam-se pela prevalência dessa dimensão simbólica oriunda de setores criativos.


As indústrias criativas têm por base indivíduos com capacidades criativas e artísticas que, em parceria com gestores e, quando necessário, profissionais da área tecnológica, desenvolvem produtos (e serviços) comerciais cujo valor económico reside nas suas propriedades intelectuais (ou culturais). (DANTAS, 2008, p. 4).
A partir de estudos realizados por Paulo Miguez que estão contidos no PLANO (2011, p. 87):

Ele transcreve a definição formulada em 1997 pelo Ministério britânico da Cultura (UK Department for Culture, Media and Sports – DCMS), definição que é seguida pelo corte arbitrário [...] enumera as atividades que estarão incluídas no conceito e, conseqüentemente, na política pública para as indústrias criativas. O DCMS menciona, assim, a propaganda, a arquitetura, o mercado de arte e antigüidades, os artesanatos, design, design de moda, filme e vídeo, software de lazer interativo, música, artes cênicas, publicações, software e jogos de computador, televisão e rádio.


A partir disso pode-se observar que foram incorporadas às “indústrias culturais” outras que antes não eram assim consideradas. Vale lembrar que em outros países foram realizadas outras inclusões, como exemplo da gastronomia, na França. Desta forma, percebe-se que a economia criativa está passando por um processo de organização em nível mundial e, consequentemente, o Brasil está se adequando a essa nova realidade social e econômica. Enquanto a economia criativa se expande, o sistema de moda está procurando incorporar os seus fundamentos no mercado de moda. Assim, a seguir serão apresentados principais pontos que estruturam o sistema de moda que permitirão a discussão da relação entre economia criativa e o sistema de moda.



  1. Sistema de Moda

A moda surgiu e se desenvolveu juntamente com o mundo moderno ocidental, estando diretamente ligada à estética das aparências, permitindo o surgimento de dispositivos de reconhecimento social e permitindo aos indivíduos escolher como se apresentar aos outros. A moda se configura como um sistema original de regulação e de pressões sociais, relacionando o indivíduo com o seu contexto. Desta forma, a moda como, atualmente, se conhece foi se estabelecendo ao longo da segunda metade do século XIX e se transformando até os dias de hoje, caracterizando-se pela renovação sazonal, por ter na figura do costureiro um criador, pelo surgimento de modelos inéditos apresentados em manequins vivos e, mais tarde, pela lógica da produção industrializada. “Já não há uma moda, há modas”. Hoje o indivíduo é convidado a experimentar, testar, misturar e buscar um resultado para o que se chama de look. (LIPOVETSKY, 2009, p. 144).

Assim, dentro do sistema de moda encontram-se, na Europa e nos Estados Unidos, as maiores e mais importantes semanas de moda mundiais. Os olhares que se voltam para Paris, Londres, Milão e Nova York tendem a captar as tendências de uma maneira muito direta, o que acaba por gerar imitações ou cópias dos modelos internacionais. Por exemplo, a história da cópia na indústria do vestuário brasileiro não é recente, na verdade, nos anos de 1980 algumas marcas européias não permitiam a entrada de brasileiros em seus desfiles para evitar que copiassem seus produtos, tamanha era a fama dos brasileiros no quesito que diz respeito à criação. (EMÍDIO; SABIONI, 2010).

É difícil entender como um país, com o potencial criativo latente que é veiculado pelas diferentes mídias, acaba por escolher meios ultrapassados de criação, desenvolvimento e produção industrializada. Mas, é possível citar alguns desses motivos: a supervalorização que os brasileiros dão aos produtos estrangeiros desde o período colonial; a facilidade de encontrar produtos que ainda não chegaram ao Brasil nas ruas das cidades mais expressivas da moda; o fato de o conhecimento da área de moda ser recente e estar em fase de consolidação no país; em resumo, esses e outros fatores econômicos e sociais acabam agravando a situação e continuam alimentando o ciclo de repetições que acredita pouco na criação individual e coletiva.

A realidade é que o processo criativo de várias empresas brasileiras se baseia em pesquisas feitas nas ruas do exterior. A “pesquisa” é basicamente ver o que existe de novo nas ruas de Paris, juntar pedaços de uma novidade com outra, modificar um bolso, uma costura e lá está uma peça “novinha”. Apesar disso, conforme Emídio; Sabioni (2010), o verdadeiro problema dessa cópia descarada, que surge como exemplo nos artigos e Coisas da Moda - cópia + imita + plagia = roupa nova - é a perda da identidade brasileira.

Inúmeras vezes essa discussão surge no meio acadêmico, buscando respostas para encontrar a identidade de um país imenso, repleto de culturas, conhecimentos e tradições diferentes, mas tem dificuldade de valorizar esses atributos no intuito de agradar consumidores com o que já existe e é vendido com facilidade. Mas, aos poucos o mercado brasileiro está começando a perceber que, para competir com as outras empresas, é necessário ter um diferencial, pois, se a qualidade técnica e inovadora dos produtos europeus é maior e a China é capaz de sanar a necessidade da cópia dos produtos estrangeiros com custo muito mais baixo e qualidade superior, este é o momento dos profissionais de moda do Brasil utilizarem seu potencial criativo para gerar soluções para a indústria nacional do vestuário.

O Brasil possui a capacidade de ganhar competitividade internacional e oferecer a perspectiva de aumento da oferta de emprego, ocupação e renda, bem como atender a dois critérios essenciais: a vocação para a exportação e a possibilidade de competir, no mercado brasileiro, com os produtos importados. Uma empresa, ao combinar insumos adquiridos com recursos humanos, financeiros e tecnológicos, tem por objetivo produzir e oferecer ao mercado um produto competitivo internacionalmente (BRUNO; MALDONADO, 2005).

Valorizar o conhecimento; investir em pesquisas de mercado, de moda, de tendências; buscar nas raízes da cultura brasileira a matéria-prima para a criação; incentivar micro e pequenas empresas a contratar criadores de moda que auxiliem de maneira mais concreta na criação dos produtos; fazer o intercâmbio de conhecimento entre profissionais de moda e comunidades; estudar soluções para a grande necessidade de importação de matérias-primas; são apenas alguns tópicos do que podem ser feitos para revitalizar o desenvolvimento criativo nacional. Alguns estilistas e designers já estão caminhando nessa busca e colhendo frutos dessas iniciativas e que possuem identidade brasileira e reconhecimento nacional e internacional, simplesmente por utilizar o solo brasileiro como base criativa, como é o caso de Ronaldo Fraga e Jum Nakao. (ECONOMIA, 2011).

Com essas expectativas de mercado crescentes, tanto criadores quanto empresas nacionais estão começando a sentir a necessidade de investir na busca por um caráter inovador em seus produtos. Os designers brasileiros vêm buscando propor uma nova forma de visão para as criações desenvolvidas no Brasil. Segundo o estilista Jum Nakao, “o entendimento da moda como instância simbólica fundamental da cultura brasileira, patrimônio cultural do Brasil”, “expõe nossa caleidoscópica formação miscigenada e a necessidade de fazer uma moda simbólica dos nossos valores imateriais” [que serve para atravessar] “a superficialidade do espelho de nossa própria cultura”, aproximando o desenvolvimento de ações específicas no âmbito cultural. (ECONOMIA, 2011, p.13).

E é essa tentativa de ir além da superficialidade que poderá unir a identidade cultural com a criação de moda, respondendo, assim, às questões sobre o que seria essa identidade brasileira. Mas, para que as propostas inovadoras ganhem mais força e sejam mais bem sucedidas é possível encontrar nos fundamentos da Economia Criativa bases sólidas para a construção dessa identidade, agregando valores como sustentabilidade e inclusão social ao Sistema de Moda.





  1. Discussão

A economia criativa é uma forma de economia contemporânea, centrada na geração de ideias com o uso da criatividade, possuindo uma interligação entre economia e cultura, consolidando um desenvolvimento sustentável.

A moda pode encontrar soluções diferentes do que vem fazendo, tomando como base nas práticas que promovem a economia criativa. Um estudo desenvolvido pela FIRJAN - Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro - procurou fazer um mapeamento da cadeia da indústria criativa no Brasil com a finalidade de levantar dados correspondentes a essa atividade. A definição-guia dessa indústria é a de ser a base de empreendimentos que tenham origem na criatividade, a partir da aplicação do talento individual ou coletivo (grupos, cooperativas e clusters) sobre insumos econômicos, tornando essas competências capazes de gerar emprego, renda e desenvolvimento, a partir de novos bens com valor no âmbito da propriedade intelectual (FIRJAN, 2008).

A cadeia produtiva da moda possui duas subdivisões que transformam o insumo em produtos ressignificados. A primeira é a intervenção artística que é quando o produto final da confecção acaba sendo transformado em um tipo de procedimento adquire um valor diferenciado. E a outra, a confecção que é a criação de um determinado produto, partindo de materiais ou do insumo têxtil, em uma escala reduzida.

A pesquisa da FIRJAN (2008) aponta que as atividades da cadeia criativa corresponde a cerca de 16,4% do PIB nacional. Os setores que surgem como responsáveis pela parcela mais significativa da indústria criativa do Brasil são o design, a arquitetura e a moda que pouco recebe investimentos para que seu desenvolvimento torne-se unificado. A moda no Brasil entende-se como parte de um simbolismo da cultura nacional - patrimônio cultural do Brasil, definido como um todo a partir das atuações culturais tangíveis e intangíveis - herança das gerações precedentes e que, se conservadas, serão difundidas às subsequentes. É relevante a presença desses valores simbólicos nos hábitos sociais de consumo que são expressos na moda, além da grandeza econômica tradicional de mercado.

Embora o Brasil apresente grande potencial de criação e uma grande herança cultural, é no imaginário do estrangeiro que isso assume destaque. Consequência desse pensamento é a forte cultura de “cópia” que o país tem, simplesmente olhando e se espelhando no que se faz lá fora e reproduzindo aqui, valorizando de forma precária referências locais para transformar essas criações em suas.

Por outro lado, nos últimos anos, com a valorização do Brasil no exterior, o que se percebe é o início de uma busca por identidade do design brasileiro. As empresas na área da moda vêm desenvolvendo diferentes formas de criação, mais desafiantes no seu potencial individual e integradas à inovação, design e sustentabilidade com inserção de novos materiais, explorando a riqueza dos artesanatos típicos do país. Entretanto ainda é algo pouco evidenciado nas criações, devido à forma com que esses produtos são transpostos, seja de forma contemporânea, convidativa aos consumidores ou tradicionalmente apenas para “enfeitar”.

Nesse contexto, a atuação de universidades entra de forma decisiva a fim de levar esse conhecimento já mais digerido, essa cultura transformada em produto, para empresas e para a comunidade, mostrando o potencial de inserir aspectos locais em produtos com esse valor simbólico agregado. De forma a integrar-se nessa prática, o Curso de Moda da UDESC, apresenta ações de pesquisa e extensão em parcerias com a comunidade, como exemplo o programa de extensão Economia Criativa: Interlocuções entre Moda e Artesanato na Costa da Lagoa, que originou esta publicação. O projeto tem mão-dupla: ao mesmo tempo em que leva o artesanato e a cultura local para dentro da universidade, devolve o conhecimento para transformá-los em produtos com design local, valor simbólico e grande valorização da cultura da região. Atuando através desse programa, a instituição tem a oportunidade de preservar a cultura da região e fortalecer o setor, mostrando-se interessada em buscar alternativas para tornar a economia do local mais criativa e comercializável na forma de produtos e serviços.





  1. Considerações finais

Na atual conjuntura, surgem conceitos relativos à nova forma de economia que está ligada diretamente a criatividade. A economia criativa é a junção de cultura, economia, tecnologia, inovação e sustentabilidade com a inclusão e o equilíbrio entre a sociedade e seus indivíduos.
A criatividade floresce em ambiente aberto e não regulado para o fluxo de idéias. Segundo Richard Florida, autor de “The Rise of the Creative Class”, cidades ou estados caracterizados pela diversidade, onde prosperam atividades educacionais e culturais, sem restrições a qualquer minoria, atraem educadores, cientistas, artistas e outros profissionais relacionados à Economia Criativa. (MELITO, 2006).
O autor citado anteriormente indica que a criatividade brasileira, transmitida aos olhares estrangeiros, reflete que o país possui destaque nessa nova economia. No entanto, a realidade é que, em estudo recente, os professores Richard Florida e Irene Tinagli, da Carnegie Mellon University, elencam quarenta e cinco países segundo o “Índice da Criatividade Global”, no qual o Brasil ocupa a antepenúltima posição, devido a falta de investimentos e incentivos na área de criatividade e inovação. (MELITO, 2006).

As empresas brasileiras já investem em economia criativa e a moda é o setor da economia com maior destaque na indústria criativa nacional, unificando elementos cujos resultados não são tão visíveis, por isso o processo é gradativo. A semana de moda SPFW vem apresentando uma nova visão à cadeia produtiva da moda e movimentando a economia da região, seja por meio de turismo, de eventos, e dos negócios fechados em função de sua existência.

Conforme Artigas (2012), a integração da moda com a cultura popular é uma forma vigente a ser valorizada no país, como exemplo o estilista Ronaldo Fraga que em sua última coleção para o verão 2013, apresentada no São Paulo Fashion Week, afirma que, “não se trata de um trabalho assistencialista. Envolve a transformação do olhar da comunidade, a capacitação profissional, e a apropriação da técnica e da matéria prima”. Além da necessidade da valorização do artesanato tradicional, percebe-se que é possível conciliar uma forma inovadora do artesanato a produtos, pois, os consumidores possuem um conceito pré-estabelecido interligado ao folclore e que não transcendem aos produtos típicos de cada região.

O Brasil ainda possui carências em suas políticas públicas congruentes, nos investimentos em infra-estrutura, e na coordenação de gastos públicos, todavia, é necessário melhorar os investimentos em educação. Desta forma, os processos de ensino e aprendizagem que são aliados aos fundamentos da economia criativa permitem que a sociedade contribua para a geração de resultados positivos em níveis sociais e econômicos. Nesse contexto, as instituições de ensino cooperam com a disseminação dos conhecimentos sobre a economia criativa, socializando ferramentas para expandir aspectos da cultura nacional e aumentando o repertório dos cidadãos em termos de significado e valor simbólico.

A exemplo disso, o programa de extensão Economia Criativa: Interlocuções entre Moda e Artesanato na Costa da Lagoa, está buscando dar os primeiros passos no Curso de Moda da UDESC, integrando os estudantes do Bacharelado em Moda com o artesanato local e como seus produtos podem ser utilizados em produtos industrializados do setor calçadista da região de São João Batista (SC).

Por meio das atividades desse programa de extensão estão sendo estudadas soluções que utilizem a cultura local, unindo moda e artesanato, como ponto de partida para criações que possuem suas bases na economia criativa. A partir disso, a bolsista Talyta Duarte Bastos e co-autora desse artigo, está projetando uma coleção que será apresentada no Desfile de Formandos do Curso de Moda da UDESC, no 2º semestre de 2013. Desta forma, estão sendo encontradas várias possibilidades para serem colocadas em prática e serão relatadas no seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso).

A precariedade da preservação cultural em muitas comunidades da região de Florianópolis é perceptível e, aos poucos, está desaparecendo, como é o caso da renda de bilro. Com o intuito de preservar e levar adiante a tradição, está se buscando meios de utilizar essa matéria-prima de maneira inovadora e diversificada. Além disso, outras matérias-primas podem ser encontradas nos locais em que essas comunidades residem.

As matérias-primas cogitadas como base para a realização do programa levam em consideração o menor impacto possível ao meio ambiente, ou seja, a consciência ambiental é parte primordial do projeto.  Dentre elas estão, além da renda de bilro, materiais recicláveis, pétalas de flor, fibras de bananeira, folhas, conchas, couro e escamas de peixe.

O couro é um material muito questionado em sua relação com o meio ambiente e a sustentabilidade. Mas a realidade é que o intenso cultivo de peixe presente em Florianópolis gera um grande descarte de resíduos, como o couro e as escamas do peixe, que poderiam ser utilizados como matéria-prima para a produção de roupas, calçados e acessórios. Unindo isso ao curtimento ecológico, proposto pelo projeto, o couro de peixe se torna matéria-prima viável e de pequeno impacto ao meio ambiente.

Uma das ações do projeto que já produziu efeitos foi a criação e produção de figurinos para o espetáculo musical: O Fantasma da Ópera, em uma releitura da obra coordenado pela professora do Departamento de Música da UDESC, Alicia Cupani. Com a reutilização de materiais como óculos velhos, missangas, correntes, restos de tecidos, foram criadas máscaras para uma das cenas do espetáculo. Além disso, serão confeccionados corseletes com couro de peixe e acessórios por meio da reutilização de materiais.

Existe, também, projetado para o ano de 2013 a criação de uma coleção de calçados, em parceria com o pólo calçadista de São João Batista (SC). Mas a proposta principal do projeto é a integração da academia com a comunidade, para isso serão realizadas oficinas e cursos com a comunidade, onde ocorrerá o intercâmbio de conhecimentos para que, dessa forma, a cultura local possa ser utilizada na Universidade e o conhecimento criativo e inovador possam contribuir na geração de trabalho e renda.

Encerra-se esse estudo mostrando o potencial latente de inovação no Brasil em diversos setores. A grande criatividade do povo e a riqueza cultural nacional deve se mostrar mais, não somente em produtos físicos, que já se supõe serem resultados de um processo criativo, mas nos próprios processos em si, gerando formas inovadoras e mais sustentáveis de criar e disseminar os produtos e serviços. Apesar dos resultados ainda não estarem totalmente sistematizados, apresentou-se também exemplos que estão sendo realizados pela universidade de como se aproximar de uma realidade mais inovadora. Em estudos futuros espera-se gerar uma reflexão com base em resultados oriundos do que está sendo feito sobre o tema e que, cada vez mais, novas iniciativas tornem a economia nacional mais criativa e sustentável.





  1. Referências

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Acesso em: 17/10/2012.

BRUNO, Flavio da Silveira; MALDONADO, Lucia Maria de Oliveira. O futuro da indústria têxtil e de confecções: vestuário de malha / Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Instituto Euvaldo Lodi. Brasília: MDIC/STI : IEL/NC, 2005.

DANTAS, Vera. Dossier de economia criativa. CULTDIGEST. Agência Inova: Lisboa, 2008.

Disponível em: http://www.inovaforum.org/inovaforum/docs/Dossiers/Microsoft%20Word%20-%20Dossier_Economia%20Criativa_RevisaoFin_.pdf

Acesso em: 20 out. 2012

DE MASI, Domenico. A Sociedade Pós-Industrial. 3ª ed. São Paulo: Editora SENAC, 2000.

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Disponível em: <http://www.cultura.gov.br/economiacriativa/pesquisa-economia-e-cultura-da-moda-no-brasil/

Acesso em: 21 out. 2012

EMÍDIO, Lucimar de Fátima Bilmaia; SABIONI, Maria Lívia. O Private Label e Seu Estímulo à Cópia na Indústria de Confecção de Vestuário: uma reflexão a partir de um estudo de caso. Projética, Londrina, V. 1, N. 1, P. 68-81, Dez. 2010. Nº Inaugural.

FIRJAN (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro). Estudos para o desenvolvimento do estado do Rio de Janeiro: a cadeia da indústria criativa no Brasil. Rio de Janeiro, n.02, maio 2008.

Disponível em: <http://www.firjan.org.br/main.jsp?lumItemId=2C908CE9215B0DC40121737B1C8107C1&lumPageId=2C908CE9215B0DC40121793770A2082A>

Acesso em: 21 out. 2012.

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Acesso em: 16 out. 2012.

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Disponível em: http://www.cultura.gov.br/site/wp-content/uploads/2011/09/Plano-da-Secretaria-da-Economia-Criativa.pdf

Acesso em: 15 out. 2012.



REIS, Ana Carla Fonseca. Economia criativa: como estratégia de desenvolvimento: uma visão dos países em desenvolvimento. São Paulo: Itaú Cultural, 2008.

1 Graduanda do Bacharelado em Moda: Habilitação Design de Moda, UDESC. Bolsista do Programa de Extensão Economia Criativa: Interlocuções entre Moda e Artesanato na Costa da Lagoa.

2 Professor do Departamento de Moda da UDESC. Coordenador do Programa de Extensão Economia Criativa: Interlocuções entre Moda e Artesanato na Costa da Lagoa.


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