Desenvolvimento Humano e Estrutura Fundiária: Uma análise das microrregiões de Carazinho e Frederico Westphalen-rs1



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Área Temática: c – Localização e distribuição regional do desenvolvimento
Desenvolvimento Humano e Estrutura Fundiária:

Uma análise das microrregiões de Carazinho e Frederico Westphalen-RS1
Janaina Ottonelli2

Geovane Dutra de Souza3

Solange R. Marin4
Resumo: O objetivo principal do trabalho é investigar as relações entre os indicadores de desenvolvimento humano – IDH-M e IDESE – e características da estrutura fundiária, além incluir outras dimensões também importantes para o bem viver das pessoas, nas microrregiões de Carazinho e Frederico Westphalen no Rio Grande do Sul. A hipótese do estudo de que uma estrutura fundiária não-concentrada seria benéfica ao desenvolvimento humano foi estatisticamente confirmada para a microrregião de Carazinho. No entanto, isso não se observou para a microrregião de Frederico Wesphalen. Com este resultado optou-se por testar outras informações relacionadas a vida das pessoas, por meio da definição de dimensões, a fim de verificar sua relação com o IDH-M e IDESE.
Palavras-chave: Desenvolvimento Humano, Estrutura Fundiária, Rio Grande do Sul
Introdução
O Estado do Rio Grande do Sul pertence a região sul do Brasil e é composto por 35 microrregiões. Em duas dessas microrregiões, Carazinho e Frederico Westphalen, estão situados os dois campi do Centro de Educação Superior Norte do Rio Grande do Sul (CESNORS), nova extensão da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Um dos campi fica na cidade de Palmeira das Missões (pertencente a microrregião de Carazinho) e o outro na cidade de Frederico Westphalen. A microrregião de Carazinho abrange 18 municípios, possui área de 4.935 km² e população estimada de 158.669 habitantes no ano de 2007 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A microrregião de Frederico Westphalen compreende 27 municípios, possui área de 5.180 km² e uma população estimada de 177.876 habitantes em 2007 (IBGE).

A instalação da nova unidade de ensino se deu em 20 de julho de 2005 por meio do parecer n. 031/05 da 648ª sessão, do Conselho Universitário da UFSM. Segundo o Art. 3º, o CESNORS tem como objetivos (I) interiorizar a educação pública e (II) impulsionar o desenvolvimento da região norte do RS, promovendo o Ensino, a Pesquisa e a Extensão (Regimento Interno do Centro de Educação Superior Norte-RS).

Como o CESNORS facilita o ingresso da população local no Ensino Superior, busca também evitar a migração, principalmente dos jovens, para os centros urbanos em busca de qualificação profissional e fixar os novos graduandos nos seus municípios de origem. A preocupação de estimular o desenvolvimento econômico e o desenvolvimento humano da região está no fato de que com a instalação da nova unidade mais pessoas utilizarão da infra-estrutura da região (transporte, saneamento, saúde, educação, energia elétriga, água, moradia, alimentação, vestuário etc.). Cabe aos integrantes do centro (professores, alunos e técnicos), juntamente com a comunidade, a elaboração de estudos locais que possam promover o desenvolvimento.

Este artigo se baseia nos trabalhos de Victoria e Blank (1980) e Hoffmann (2001). Tem como objetivo gerar informações importantes para se pensar o desenvolvimento humano local ao tratar da correlação entre o desenvolvimento humano - índice de desenvolvimento humano municipal (IDH-M) e índice de desenvolvimento socioeconômico (IDESE) – e outras informações relacionadas ao modo de vida das pessoas, considerando especialmente indicadores de estrutura fundiária para os municípios pertencentes das duas microrregiões. Uma das hipóteses a serem tradas neste estudo é a de que uma concentração fundiária seria prejudicial ao bem estar das pessoas.

A utilização dos dois índices de desenvolvimento humano se deve ao fato de que ambos permitem uma avaliação da situação municipal permitindo a realização de comparações e têm como objetivo informar a sociedade e orientar os governos nas suas políticas socioeconômicas. O primeiro foi construído com base nos trabalhos de Amartya Sen (1981, 1985) para servir de base empírica aos Relatórios de Desenvolvimento Humano (RDH) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O segundo é um desdobramento do IDH, elaborado pela Fundação de Economia e Estatística (FEE/RS), tem por objetivo mensurar e acompanhar o nível de desenvolvimento nos Coredes e municípios do Estado do Rio Grande do Sul.

Além desta parte introdutória, discute-se no texto o conceito de desenvolvimento humano, dos índices de desenvolvimento humano IDH, IDH-M, IDESE (seção 1) e o conceito de estrutura fundiária (seção 2). As seções seguintes apresentam a metodologia utilizada na realização das correlações e a discussão dos dados gerados. Por fim, são apresentadas algumas considerações.


1 O desenvolvimento humano segundo a perspectiva de Amartya Sen
O desenvolvimento humano é explorado neste artigo segundo a perspectiva de Amartya Sen de expansão da liberdade de agência das pessoas e não apenas do seu bem-estar. Por muito tempo o desenvolvimento humano foi avaliado por meio da medida de bem-estar que tem como background o utilitarismo como teoria moral5. No entanto, essa teoria tem o problema de considerar uma base informacional monista, ou seja, a única informação utilizada (métrica) é a utilidade econômica.

Como a utilidade de uma ação ou estado proporcionada para uma pessoa é difícil de ser definida e comparada, além de denotar apenas um único aspecto valorativo da vida da pessoa, Sen enfatiza a necessidade de uma base informacional mais ampla que não considere apenas a utilidade em si mesma6.

Ao ressaltar a estreiteza da base informacional da teoria de bem-estar tradicional, Sen (2000) sugere em sua abordagem normativa que as comparações deveriam ser realizadas no âmbito dos funcionamentos e capacitações individuais. Ou seja, os funcionamentos que as pessoas realizam e o conjunto deles que formam suas capacitações:

O conceito de “funcionamentos”, que tem raízes distintamente aristotélicas, reflete várias coisas que uma pessoa pode considerar valioso fazer ou ser. Os funcionamentos valorizados podem variar dos elementares, como ser adequadamente nutrido e livre de doenças evitáveis, a atividades ou estados pessoais muito complexos, como poder participar da vida da comunidade e ter respeito próprio (Sen, 2000, p. 95).

A “capacitação” de uma pessoa consiste nas combinações alternativas de funcionamentos cuja realização é factível para ela. Portanto, a capacidade é um tipo de liberdade: a liberdade substantiva de realizar combinações alternativas de funcionamentos (ou, menos formalmente expresso, a liberdade para ter estilos de vida diversos) (Sen, 2000, p. 95).

A abordagem da capacitação avalia as oportunidades da pessoa em termos de sua habilidade atual de atingir os vários funcionamentos como parte do viver (Sen, 1993, p. 30). A expansão da base informacional é necessária para que se deixe de avaliar e comparar as pessoas por meio de uma única informação de difícil comparação e se passe a considerar, além do aspecto de bem-estar, o aspecto de agência.

Sen (1985), portanto, quer deixar claro que qualquer pessoa pode ser entendida segundo o aspecto de bem-estar (mais restrito) e segundo o aspecto de agência (mais amplo). Destaca que é preciso compreender que as pessoas possuem níveis de bem-estar diferenciados e nem todas são agentes de seu desenvolvimento. Assim, os aspectos correspondem a uma noção de liberdade diferente. Por exemplo, se uma pessoa se sente mal ao saber que outra pessoa está sendo torturada,  ela estará agindo conforme o aspecto de bem-estar, ou seja, ela se sente mal ao saber da tortura, o bem-estar dela é afetado por isso. No entanto, se o conhecimento da tortura não a fizer sentir mal, mas mesmo assim ela acha que é errado e deseja (escolhe) fazer alguma coisa, estará agindo sob o aspecto de agência, ou seja, mesmo que o bem-estar não tenha sido atingido, ela escolhe tomar alguma atitude porque considera a tortura errada.

O desenvolvimento humano, deste modo, pode ser entendido como a liberdade de escolha de uma pessoa entre os diferentes tipos de vida que ela tem razão em valorizar7. Essa perspectiva não corresponde unicamente ao aumento da riqueza. A riqueza, segundo Sen (2000), não é desejável por si mesma, pois não se busca riqueza por ela mesma, mas sim para adquirir ou realizar algo. Esse argumento é herança do pensamento Aristotélico de que “a vida empenhada no ganho é uma vida imposta, e evidentemente a riqueza não é o bem que buscamos, sendo ela apenas útil e no interesse de outra coisa” (Sen, 1999b, p. 19). Ela é considerada um meio para se obter mais liberdade, ou seja, determina as condições e a qualidade de vida das pessoas. Portanto “o crescimento econômico não pode sensatamente ser considerado um fim em si mesmo. O desenvolvimento tem de estar relacionado, sobretudo, com a melhoria da vida que levamos e das liberdades que desfrutamos” (Sen, 2000, p. 29).

Entretanto, Sen (2000) afirma que não se pode desconsiderar a importância do mecanismo de mercado para as pessoas e para o crescimento econômico, pois como “observou Adam Smith, a liberdade de troca e transação é ela própria uma parte essencial das liberdades básicas que as pessoas têm razão para valorizar” e “negar às pessoas as oportunidades econômicas e as consequências favoráveis que os mercados oferecem e sustentam pode resultar em privações” (Sen, 2000, p. 21-41). O crescimento econômico pode resultar no aumento da riqueza das pessoas e, portanto, na expansão dos padrões de vida das mesmas.

Os estudos de Sen serviram de base para a construção do índice de desenvolvimento humano (IDH). Esse índice é utilizado nos Relatórios de Desenvolvimento Humano (RDH) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). No ano da criação do índice o PNUD conceituou o desenvolvimento humano como

[...] um processo de alargamento das escolhas das pessoas. Em princípio essas escolhas são infinitas e variam no tempo. Mas independentemente do nível de renda, as três escolhas essenciais se resumem à capacidade para ter uma vida longa e saudável, adquirir conhecimentos e ter acesso aos recursos necessários a um padrão de vida adequado. O desenvolvimento humano, contudo, não acaba aí. As pessoas também dão grande valor à liberdade política, econômica e social, à oportunidade de ser criativo e produtivo, ao respeito próprio e aos direitos humanos garantidos (PNUD, 1990 apud Rolim, 2005, p. 5).

Sen (1999a) destaca no seu A Decade of Human Development o rápido reconhecimento internacional do RDH, pois muitos estudos foram feitos para destacar a importância de se avaliar o desenvolvimento humano por meio de informações pluralistas, mas nenhum havia levado tão pouco tempo para ser reconhecido. Argumenta que:

It is incredibly important to identify the basic comprehension of social evaluation and assessment that makes the enterprise, of human development what it is, and which is captured however imperfectly in these reports and analyses. The issue of plurality and openness to multiple concerns is quite central to the, success of the exercise (Sen, 1999a, p. ?).

Entretanto, uma das dificuldades encontradas no IDH é a impossibilidade de ele ser calculado para um grupo de pessoas. Com o objetivo de suprir esta e outras deficiências do índice, em 1996 as equipes da Fundação João Pinheiro (FJP) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) desenvolveram o índice de desenvolvimento humano municipal (IDH-M).

O IDH também serviu de base para criação do índice de desenvolvimento socioeconômico (IDESE) pela Fundação de Economia e Estatística (FEE) para o acompanhamento do desenvolvimento das diferentes regiões no Rio Grande do Sul. Os índices IDH-M e o IDESE e seus indicadores serão conceituados a seguir.

Cabe ressaltar ainda que as medidas de desenvolvimento humano citadas impulsionaram a criação de diferentes medidas multidimensionais8 que contemplam outros aspectos da vida das pessoas e que se tornaram importantes instrumentos informativos na elaboração de políticas públicas. Com o mesmo objetivo foram criadas medidas que visam a análise do desenvolvimento no espaço rural9.


1.1 Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M)
Em 1990 o economista paquistanês Mahbub ul Haq, com a participação de Amartya Sen, criou o índice de desenvolvimento humano (IDH). O índice é uma medida sintética que busca uma análise mais próxima das condiçoes reais de vida e privações das pessoas. Tem como objetivo padronizar a avaliação da medida do bem-estar e tornar possível a comparação entre determinadas regiões geográficas, como estados e países. Para isso é “construído a partir de indicadores que estão disponíveis globalmente usando uma metodologia que seja simples e transparente.” (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 2007, p. 227).

O espaço informacional que utiliza na avaliação do desenvolvimento humano é expandido, pois engloba três dimensões e quatro indicadores (medidas) que, segundo o RDH (2007), são: 1) “possuir uma vida longa e saudável” medida pela esperança de vida ao nascer; 2) “nível de conhecimentos” medida pela taxa de alfabetização de adultos (com ponderação de dois terços) e taxa de escolarização bruta combinada do ensino básico, secundário e superior (com ponderação de um terço); e 3) “nível de vida digno” medido pelo PIB per capita (PPC em USD).

O cálculo do IDH consiste na síntese dos índices das dimensões e é expresso em valores entre 0 (nenhum desenvolvimento humano) e 1 (total desenvolvimento). É preciso criar um índice para cada uma das três dimensões antes da síntese e isso é feito através da fórmula: índice de dimensão igual ao valor efetivo menos o valor mínimo dividido pelo valor máximo diminuído do valor mínimo. Além disso, cada dimensão possui valores máximos e mínimos (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 2007).

Depois de calculados os índices de cada dimensão o IDH é obtido com a média simples entre eles. Aplicada a média entre os índices e encontrado um dado valor, pode-se classificar esse valor do IDH da seguinte maneira (Santos, 2007; Rolim, 2005): baixo desenvolvimento humano (0,0 ≤ IDH < 0,5); médio desenvolvimento humano (0,5 ≤ IDH < 0,8); e alto desenvolvimento humano (0,8 ≤ IDH ≤ 1,0).

Sen afirmou que o sucesso do IDH se deu em razão da insistência de Mahbub em crirar uma medida que não fosse apenas um complemento do PIB, mas “que servisse também para ampliar o interesse público nas outras variáveis plenamente analisadas no Relatório de Desenvolvimento Humano” (Sen apud Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 1999, p. 3). Assim o índice tem um espaço informacional pluralista e, segundo ele, “não se refere exclusivamente à opulência econômica” isso porque dentro dos limites das três dimensões “o IDH tem contribuído para ampliar significativamente a atenção empírica dedicada à avaliação dos processos de desenvolvimento” (Sen apud Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 1999, p. 3).

Com isso o IDH se tornou uma poderosa ferramenta de avaliação do desenvolvimento humano mundial por possibilitar a constante discussão sobre o assunto e a comparação do índice entre países e regiões geográficas. É utilizado por muitos governos como base para políticas públicas.

No entanto, segundo Barros, Carvalho e Franco (2003), o IDH apresenta três limitações: (a) a seleção dos indicadores que compõem as dimensões e a definição de seus pesos foram determinados implicitamente, não refletindo, portanto, as preferências sociais; (b) a desagregabilidade do índice que não pode ser calculado para um grupo de pessoas como uma família ou por gênero e raça; e (c) dificuldade de agregação do IDH, onde o índice de um país não pode ser encontrado através da média ponderada dos índices dos seus estados.

Com o intuito de suprir uma das limitações do IDH, a desagregabilidade, em 1996 o Instituto Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e a Fundação João Pinheiro de Minas Gerais “fizeram uma adaptação da metodologia do IDH e calcularam índices a um nível territorial mais desagregado que o nacional” (Rolim, 2005, p. 11) e criaram o índice de desenvolvimento humano municipal (IDH-M). Esse índice pode ser calculado para um grupo de pessoas como uma família ou mulheres, o que não era possível antes.

O IDH-M segue a mesma metodologia do que o IDH. No entanto algumas alterações tiveram de ser feitas para que fosse possível torná-lo um índice desagregado. As principais alterações realizadas foram: i) a substituição do PIB per capita pela renda familiar per capita média e ii) a taxa combinada de matrícula pelo número médio de anos de estudo da população adulta (25 anos ou mais) (Santos, 2007). O cálculo desse índice está publicado no Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil (2003) do PNUD (Rolim, 2005).

Além de servir de base para o IDH-M, o IDH também possibilitou a criação de outro índice que se baseia na sua forma de cálculo, o índice de desenvolvimento socioeconômico (IDESE). Este índice será apresentado na seção seguinte.


1.2 Índice de desenvolvimento socioeconômico (IDESE)
A Fundação de Economia e Estatística (FEE) criou o índice de desenvolvimento socioeconômico (IDESE) com o objetivo de medir o desenvolvimento humano do Rio Grande do Sul, seus municípios e Coredes. Elaborado com base no IDH, o IDESE é um índice sintético e teve seu cálculo e apresentação publicados pela FEE no Documento n° 58 do ano de 2003 entitulado “Índice de Desenvolvimento Socioeconômico do RS (IDESE) — 1991-00”.

O IDESE abrange um conjunto de quatro dimensões sociais e econômicos classificados em: educação, renda, saneamento e domicílios e saúde, que contemplam 12 indicadores (FEE, 2003): a) taxa de abandono no ensino fundamental; b) taxa de reprovação no ensino fundamental; c) taxa de atendimento no ensino médio; d) taxa de analfabetismo de pessoas de 15 anos de idade; e) geração de renda – PIBpc; f) apropriação de renda - VABpc do comércio e alojamento e alimentação; g) percentual de domicílios abastecidos com água: rede geral; h) percentual de domicílios atendidos com esgoto sanitário: rede geral de esgoto ou pluvial; i) média de moradores por domicílio; j) percentual de crianças com baixo peso ao nascer; ii) taxa de mortalidade de menores de 5 anos; e k) esperança de vida ao nascer. Os dados utilizados no cálculo do IDESE têm como fonte: Secretaria da Educação do RS, IBGE, FEE, Datasus, Ministério da Saúde e ONU/IDH.

No IDESE, “para cada uma das variáveis componentes dos blocos, é calculado um índice, entre zero (nenhum desenvolvimento) e um (desenvolvimento total), que indica a posição relativa dos municípios e das regiões” (FEE, 2003, p. 7). Assim, com base em parâmetros internacionais que visam facilitar a comparação ao IDH, são fixados valores máximos (1) e mínimos (0) de cada variável. Para cada dimensão é calculado um índice através de uma média ponderada dos índices de cada um dos indicadores. O IDESE é o resultado da agregação dos índices das dimensões.

Portanto, assim como no IDH, as unidades geográficas podem ser classificadas pelos índices (construídos dessa forma) em três grupos: baixo desenvolvimento humano, médio desenvolvimento humano e alto desenvolvimento humano.

O IDESE teve seu espaço informacional expandido em relação ao IDH-M por incluir a dimensão condições de saneamento e habitação e por aumentar o número de indicadores utilizados. Pode ser usado como base pelos governantes gaúchos para a elaboração de políticas públicas que visem melhorar a qualidade de vida da população.
2 Estrutura Fundiária
A organização e a distribuição das propriedades rurais, em termos de quantidade e de tamanho, em qualquer território recebe o nome de estrutura fundiária. No Brasil existe uma grande disparidade quanto à distribuição de terras, uma vez que uma restrita parcela da população brasileira detém um grande percentual das áreas rurais do país, enquanto uma significativa porção da população tem pouca ou nenhuma propriedade. A estrutura fundiária brasileira esteve sempre associada à política agrícola do país com incentivos para os mais favorecidos. A realização da reforma agrária enfrentou a dificuldade da dualidade das figuras sociais, onde as pessoas que tinham o poder eram também as grandes proprietárias da terra.

O Estatuto da Terra foi criado pela Lei 4504 de 30 de Novembro de 1964. Pode ser considerada a primeira proposta articulada de reforma agrária, feita por um governo, na história do Brasil. Porém, ao invés de proporcionar a divisão da propriedade, o capitalismo impulsionado pelo regime militar brasileiro (1964-1984) promoveu a modernização do latifúndio, via crédito rural abundante e subsidiado. O crédito e o estímulo à cultura da soja – necessários para a geração de excedentes exportáveis - propiciou a incorporação das pequenas propriedades rurais pelas médias e grandes.

Nesse período, a economia brasileira conviveu com o chamado "milagre brasileiro", que gerou a urbanização e a industrialização sem a necessidade de promover a divisão na posse da terra. Dessa forma, o projeto de reforma agrária foi esquecido e a herança da concentração da terra e da renda permaneceu intocada.

O Estatuto da Terra, por sua vez, permitiu o dimensionamento das propriedades rurais no Brasil. A partir da efetivação do Módulo Rural, as propriedades passaram a ser classificadas em:

a) módulo rural, o imóvel rural "que, direta e pessoalmente explorado pelo agricultor e sua família, lhes absorva toda a força de trabalho, garantindo-lhes a subsistência e o progresso social e econômico, com área máxima fixada para cada região e tipo de exploração, e eventualmente trabalho com ajuda de terceiros";

b) empresa rural, o imóvel que, tendo a extensão correspondente de um até seiscentos módulos, seja explorado "econômica e racionalmente", tendo cerca de 50% de sua área aproveitada;

c) latifúndio por exploração é o imóvel que, tendo as dimensões equivalentes a de um até seiscentos módulos, "seja mantido inexplorado em relação às possibilidades físicas, econômicas e sociais do meio, com fins especulativos, ou seja, deficiente ou inadequadamente explorado";

d) latifúndio por dimensão é o imóvel que, explorado, racionalmente ou não, possui dimensão superior a 600 módulos da região em que se situa;

e) minifúndio é o imóvel de extensão inferior a um módulo10.

Em um estudo chamado “A Reconcentração Fundiária” Silva e Hoffmann (1980) afirmaram que uma reconcentração da propriedade da terra na agricultura brasileira significa “mais conflitos pela terra; aceleração do êxodo rural; multiplicação dos bóias-frias e dos desempregados; enfim, uma reconcentração de renda, de poder e de direitos nas mãos de um grupo cada vez menor de privilegiados” (p. 11).

Ramos (2001) destaca que principalmente nos países subdesenvolvidos a discussão das relações entre a propriedade e a utilização dos elementos da produção precisa ser feita. Isso porque a terra tem funções não só econômicas, mas também vitais, pois “dá estabilidade à vida do homem; é o local da sua habitação, é a condição da sua segurança física, é a paisagem e as estações do ano” (Polanyi, 1980 apud Ramos, 2001, p. 142).

Segundo Cuéllar (1997 apud Ramos, 2001, p. 145) “a maioria da população pobre do mundo ainda vive em áreas rurais, algumas das quais ambientalmente frágeis, e dependente de recursos naturais sobre os quais tem pouco controle”. A concentração fundiária “manteve e mesmo ampliou a fome e a pobreza, a exclusão e a desigualdade social” (Ramos, 2001, p. 151).

A luta contra a pobreza deve ser política. A diversificada cultura local (Verde, 2004) e a natureza precisam ser consideradas para que uma política seja eficiente, pois as condições naturais ou os elementos não controláveis pelo homem exercem interferência no meio que “pode causar tanto o empobrecimento quanto enriquecimento “injustos”, e dizem respeito a rigidez do ciclo produtivo, à territorialidade da produção (locais apropriados), à sazonalidade, aos excessos e insuficiências das colheitas” (Ramos, 2001, p. 148).

Nessa breve discussão sobre a organização e distribuição de terra, ressalta-se que a estrutura fundiária do Rio Grande do Sul se diferencia de acordo com a região, alternando predomínio de grandes e médias propriedades com médias e pequenas unidades de produção.

Dada a diversidade nesses indicadores, seria conveniente adotar, por exemplo, intervalos para o tamanho das propriedades rurais no RS como o apresentado no Atlas Socioeconômico gaúcho, como descrito a seguir.

Do total dos estabelecimentos do Estado 85,71% possuem menos de 50 hectares, ocupando 24,36% da área utilizada pela agropecuária. As propriedades com mais de 500 hectares representam 1,83% dos estabelecimentos, ocupando 41,66% da área rural. As propriedades entre 50 e 500 ha representam 12,46% do número total de estabelecimentos ocupando 33,98% do total da área. Deve-se ressaltar que o limite entre minifúndio e latifúndio varia de acordo com a região e, normalmente, nas regiões da Campanha e da Fronteira Oeste, onde os solos são mais frágeis, necessita-se de áreas maiores para obter viabilidade na produção.”(Atlas Socioeconômico do RS).

Quando se analisa as microrregiões de Carazinho e Frederico Westphalen (ver gráfico 1 abaixo), existe uma maior incidência de estabelecimentos de até 50 ha, com valores superiores a média estadual, 89,28% e 94,86% respectivamente. As propriedades com mais de 500 hectares representam 1,01% e 0,14% dos estabelecimentos. Já as propriedades com 50 a menos de 500 ha representam 8,66% e 3,41% dos estabelecimentos. Verifica-se uma predominância de propriedades com até 50 ha na microrregião de Frederico Wesphalen.

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