Deu-nos o nome de maria



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DEU-NOS O NOME DE MARIA
Irmão Emili Turú

Superior geral


DEU-NOS O NOME DE MARIA

Dando-nos o nome de Maria, o Padre Champagnat quis que vivêssemos do seu espírito. (Constituições, 4)


Irmão Emili Turú

Superior geral


Tomo XXXII – Nº 1

2 de janeiro de 2012
Diretor: Irmão Alberto Ivan Ricica
Comissão de Comunicações:

Irmãos Antonio Ramalho, Alberto Ivan Ricica ; Luiz Da Rosa


Coordenação dos tradutores:

Irmão Josep Roura


Tradutores:

Português:

Irmão Salvador Durante



Francês:

Irmão Alain Delorme



Inglês:

Irmão Edward Clisby


Fotografia:

AMEstaún, Arquivos da Casa geral


Diagrama e fotolitos:

TIPOCROM, s.r.l.

Via A. Meucci 28,

00012 Guidonia

Roma (Itália)
Redação e Administração:

Piazzale Marcelino Champagnat, 2

C.P. 10250 – 00144 ROMA

Tel. (39) 06 54 51 71

Fax. (39) 06 54 517 217

E-mail: publica@fms.it

Web: www.champagnat.org
Edita:

Instituto dos Irmãos Maristas

Casa geral – Roma
Imprime:

C.S.C. GRAFICA, s.r.l.

Via A. Meucci 28,

00012 Guidonia

Roma (Itália)
Janeiro de 2012

Monograma de Maria esculpida em pedra, datada de 1824, hoje pode ser visto na verga de uma porta da casa de La Valla.


O QUE ESTÁ ACONTECENDO CONOSCO?
CHAMADOS A CONSTRUIR

O ROSTO MARIANO DA IGREJA
TRÊS ÍCONES PARA CARACTERIZAR UMA IGLEJA DE ROSTO MARIANO
Ícone da Visitação: a Igreja do avental

Ícone de Pentecostes: a fonte da aldeia

Ícone da Anunciação: a beleza salvará o mundo

MARIA,

AURORA DOS NOVOS TEMPOS

Esta Circular, de número 412 das escritas desde os inícios, situa-se numa tradição que remonta a São Marcelino Champagnat, cuja primeira Circular data de 1828. Desde então, com estilos próprios de cada pessoa e de cada época, encontramos, em milhares de páginas, notícias de família, informações, mandatos, recomendações, reflexões sobre nossa vida e missão... De qualquer maneira, são a expressão da vontade de construir uma família unida em torno do essencial.


Parece-me interessante constatar que a palavra Circular, além do significado que aqui lhe atribuímos, se refere também ao pertencente ou relativo ao círculo. Como sabemos, as mesas circulares foram poderoso símbolo de escuta e diálogo durante o nosso último Capítulo geral, que, pouco a pouco, foi se estendendo por todo o Instituto.
Oxalá as páginas seguintes sirvam para continuar construindo família e para manter um diálogo aberto e construtivo, como corresponsáveis que somos na missão que nos foi confiada.
O QUE ESTÁ ACONTECENDO CONOSCO?
Guia-me, Senhor, minha luz,

nas trevas que me rodeiam:

guia-me para frente!
A noite é escura e estou longe de casa:

Guia-me, Tu!

Dirige Tu meus passos!
Não Te peço ver claramente o horizonte distante:

basta-me avançar um pouco...


Nem sempre fui assim,

nem sempre Te pedi que me guiasses.

Eu mesmo gostava de escolher e organizar minha vida...

mas agora, guia-me Tu!


Gostava das luzes deslumbrantes

e, desprezando todo temor,

o orgulho guiava minha vontade:

Senhor, não recordes os anos passados...


Durante muito tempo tua paciência me esperou:

sem dúvida, Tu me guiarás por desertos e terrenos pantanosos,

por montes e torrentes,

até que a noite dê passagem ao amanhecer,

e me sorria, de madrugada, o rosto de Deus:

Teu Rosto, Senhor!


Henry Newman

Algumas semanas antes de pôr-me a escrever esta Circular, estive em Sevilha (Espanha). Sentado à mesa com os Irmãos de uma das comunidades presentes nessa cidade, mantivemos interessante diálogo a respeito de como víamos a situação do Instituto no momento atual e no futuro. É algo que vivi em muitos outros lugares do mundo, nos encontros com Irmãos, Leigos e Leigas.


Considero essas conversações como momentos privilegiados, já que nos obrigam a fazer uma síntese e a não ficar pela rama e, por outra parte, a gente sente que se constrói entre todos, visto que ninguém tem respostas definitivas.
Posso iniciar esta Circular como uma conversa? Talvez seja uma boa maneira de recolher temas que nos preocupam e abordá-los como faríamos num diálogo descontraído, com o desejo de iluminá-los um pouco mais.
O Instituto no seu contexto atual
Poderíamos dizer muitas coisas sobre a situação do Instituto hoje, mas se tivéssemos que escolher uma palavra para caracterizá-lo, qual seria?
A primeira que me vem à mente é fragilidade. Se olharmos os dados objetivos, algumas regiões do Instituto são frágeis porque a média de idade dos Irmãos é muito alta, e em outras partes, pelo contrário, porque é muito baixa. Mas também fragilidade no compromisso para sempre, que se rompe com facilidade. Fragilidade em muitas de nossas vidas pessoais ou comunitárias, como sinônimo de superficialidade e falta de raízes profundas.
Por outra parte, é verdade que participamos de um momento de crise que afeta a maior parte dos Institutos de Vida Consagrada, e que não é fácil situar-nos de maneira adequada, perante esta nova situação: isto nos torna mais frágeis.
De toda a maneira, penso que a fragilidade é uma característica de qualquer tipo de vida tal como a conhecemos: nasce, se desenvolve, morre... sempre tão frágil!
Creio que devemos ser muito gratos ao Senhor por tudo quanto realizou e continua realizando por meio do Instituto, apesar dessa fragilidade (talvez graças a ela!), como também por aqueles Irmãos que, graças à sua coerência e fidelidade, foram e continuam sendo autênticas colunas do Instituto, como dizia o Padre Champagnat.
O número de Irmãos se reduz: perto de uma centena a menos por ano... isso também seria fragilidade?
Parece-me que é preciso situar-se com humildade e abertura ante o Senhor da História, convencidos de que o Espírito Santo não deixou de agir, embora não o faça como teríamos imaginado. Um Irmão me contava que, durante seu tempo de noviciado, nos anos 60, fez uma projeção de crescimento do Instituto, baseando-se nos dados recolhidos desde a fundação: segundo a matemática, cresceríamos em número, ano após ano. Bem pouco tempo depois desse cálculo, a realidade contradisse a matemática!
Sim, provavelmente este também seja um sinal de fragilidade: é como a imagem de um barco no meio de um mar enraivecido, que não podemos controlar, e do qual vão baixando pessoas (mais do que aquelas que sobem), que respeitamos em sua liberdade. Se em algum momento acreditávamos que nosso barco era poderoso e invencível... a travessia nos ensinou que mais vale assumir a própria fragilidade e pôr-se confiadamente nas mãos d’Aquele que está no meio de nós e que, por vezes, parece estar dormindo em plena tempestade.
A que se deve essa diminuição numérica?
No passado foi por causa do grande número de Irmãos que deixavam o Instituto; hoje é, sobretudo, pelos que morrem: algumas Províncias têm média de idade muito elevada e, portanto, essa tendência continuará por alguns anos.
Contudo, continua sendo preocupante o número de Irmãos que pedem para não continuar entre nós como religiosos: nestes últimos anos, são quase tantos quanto os que fazem sua primeira profissão, senão mais.
Parece-me que muitas pessoas continuam dando muita importância aos números como critério de êxito evangélico...

É isso. E nossa linguagem reflete bem a mentalidade que há por trás. Por exemplo, algumas vezes escutei: “somos poucos”... Poderia aceitar que alguém dissesse que “somos menos que antes”, porque esse é um dado objetivo. Mas “poucos” é uma avaliação subjetiva, que reflete nosso desejo de ser “mais” ou “muitos”: Por quê? Para quê? Quem disse que há um número melhor do que outro para a eficácia evangélica? Ou será que temos saudades dos tempos passados? Poderia ser, talvez, que queiramos ser “mais” que outros?


Essas percepções subjetivas, amiúde inconscientes, só nos frustram e tiram energia, já que as coisas não vão como esperávamos. Em lugar de prestar atenção ao que está emergindo neste hoje de Deus, podemos ficar ancorados na nostalgia do passado, que distorce também nossa visão de futuro.
Vale a pena compreender que o ponto de referência para essas avaliações é o próprio eu e não são os critérios do Evangelho.
A tudo isso haveria que acrescentar que quando dizemos “somos poucos”, estamos falando apenas dos Irmãos, esquecendo o grande número de Leigos e Leigas que se identificam com o carisma e a missão maristas.
Com efeito, inclusive a afirmação somos menos que antes pode ser questionada, visto que nunca houve, como agora, tantos leigos e leigas que se sentem chamados a viver sua vocação cristã como maristas de Champagnat. De acordo com isso, o Instituto está diminuindo ou crescendo?
Isso não significa que, diante da crise vocacional para a vida religiosa que se vive em muitas regiões do Instituto, devamos cruzar os braços, aceitando que as coisas sejam assim e que pouco ou nada podemos fazer. Essa atitude, cômoda e talvez irresponsável, somente coloca os problemas fora de nós e parece que nos exime, por isso, do compromisso com uma pastoral vocacional séria, assim como da autocrítica perante a qualidade de nosso testemunho.
Algumas pessoas da Igreja, entre as quais alguns bispos, afirmam que agora é o tempo dos leigos e dos novos movimentos eclesiais, e que já passou o tempo da vida consagrada...
Na Igreja sempre deveria ser o tempo dos leigos, visto ser essa a condição da imensa maioria dos seguidores de Jesus, assim como o ponto de partida que todos compartimos. Também é verdade que, ultimamente, estão no auge os assim chamados novos movimentos, mas isso não significa que devam substituir as diversas formas de vida consagrada, algumas com mais de 1.500 anos de história.
Assim o que afirmava o Papa Bento XVI, em novembro de 2010, ao receber a União dos Superiores Gerais (USG): O momento atual apresenta, para não poucos Institutos, o dado da diminuição numérica, especialmente na Europa. As dificuldades, entretanto, não nos devem fazer esquecer que a vida consagrada tem sua origem no Senhor: Ele a quer, para a edificação e a santidade de sua Igreja, e por isso a Igreja mesma sempre a terá. Animo-os a caminhar na fé e na esperança, pedindo-lhes, ao mesmo tempo, um renovado compromisso na pastoral vocacional e na formação inicial e permanente.
A Igreja sempre necessitará do estímulo profético das comunidades de vida religiosa. E se algumas delas não cumprem sua função, deverão renovar-se em profundidade ou, simplesmente, desaparecer e ceder o passo a outras comunidades que aceitem viver responsavelmente esse encargo.
O tempo da vida religiosa não passou, e a nós corresponde demonstrá-lo com fatos.
Entretanto, os “Institutos de Irmãos” não parecem ter muita relevância no conjunto da Igreja.
Durante a audiência do Papa à USG, antes mencionada, coube-me saudá-lo pessoalmente, em nome dos Institutos de Irmãos. Num breve diálogo, sublinhou-me que considerava esses Institutos muito importantes para a comunidade eclesial. Pareceu-me que era muito mais que uma cortesia e que refletia uma convicção sua.
Entretanto, salta aos olhos que em nossa Igreja perdura uma estrutura muito clerical, o que significa que se minimiza a participação ativa na vida e no governo da Igreja dos que não são clérigos, relegando-os a serem observadores passivos ou, no máximo, colaboradores.
Frequentemente, perguntam-me com incredulidade por que entre nós não há sacerdotes. Não deixa de ser uma ironia que, no contexto da vida religiosa, que nasceu laical, os Institutos de Irmãos apareçam agora como uma exceção ou uma raridade, quase precisando justificar sua existência. Não caberia aos Institutos clericais explicar-nos como o ser religioso combina com o ser clérigo?
Esta situação não deveria desalentar-nos, mas estimular-nos. Num contexto clericalizado, nossa opção se torna profética.
Morrer para dar vida
Fragilidade, redução numérica, irrelevância... não parecem ser características muito estimulantes!
Talvez, poderíamos lê-las como um convite a irmos ao essencial de nossas vidas. O Ir. Seán, em sua última Circular, Em seus braços ou em seu coração, aborda este mesmo tema: Os períodos passados de mudanças significativas na vida religiosa nos deveriam ter ensinado que todo processo, em que o velho precisa morrer para dar lugar ao novo, exige pelo menos meio século para se efetivar. Qualquer grupo precisa de todo esse tempo para ‘desconstruir-se’, de modo que seus membros comecem a fazer-se as perguntas certas. E acrescenta: Talvez estejamos suficientemente ‘desconstruídos’ para prestar atenção, desta vez sim, ao que Deus espera do nosso modo de vida (p. 46-47).
Seria possível expressar com maior clareza o momento que estamos vivendo? O desafio, naturalmente, é o de não ficar lamentando as perdas, mas de abrir-se ao inesperado.
Esta parece uma lei de vida que vemos na natureza: podar para ter mais energia; enterrar-se para dar vida...
A renovação da casa de l’Hermitage me parece, nesse sentido, um sinal muito forte. O Sr. Joan Puig-Pey, arquiteto que dirigiu as obras, realizou um pequeno vídeo, com a ajuda de seu filho, no qual se fazia o percurso de um dia inteiro, concretamente em 23 de julho de 2009, quando os trabalhos estavam no auge. Impressionaram-me as imagens da noite, quando todos os trabalhadores já se haviam retirado: enquanto se contemplam as ruínas e a desolação de um edifício do qual restaram praticamente apenas as paredes externas, começa a tocar o Ave, verum Corpus (Salve, Corpo verdadeiro), com música de Mozart. Como sabemos, esse hino do século XIV foi composto para ser cantado durante a Eucaristia, no momento da elevação do Pão consagrado. O mesmo Sr. Joan disse que havia escolhido essa música porque teve a intuição de que aquele edifício, como o corpo do Senhor, através da morte, se converteria em pão de vida para os Maristas que, no futuro, dele se aproximassem.
Para mim esse símbolo pode aplicar-se não somente à casa de l’Hermitage, mas também ao Instituto inteiro. O hino repete o termo verdadeiro duas vezes, nos primeiros versos, sublinhando que se trata do mesmo Jesus Cristo em pessoa e de que o seu sofrimento era real e não imaginário. O que foi certo para o Senhor, não o será menos para nós. Mas ninguém gosta de passar pela noite da desolação, quando sentimos que tudo vem abaixo, e não temos nenhuma certeza de que o que virá vai ser melhor do que aquilo que já tínhamos.
No Instituto temos que aceitar que a morte faz parte da vida e que esse processo traz sofrimento verdadeiro. O que nos resultava familiar está desaparecendo e ainda não acabamos de ver com clareza em que consiste o novo.
Trata-se, então, de acolher com fé todo esse despojo, confiantes de que, misteriosamente, será fonte de vida.
Mais do que isso, trata-se também de colaborar com a ação do Espírito! Não se deve esperar que Ele faça todo o trabalho...
Já em 2001 dizia João Paulo II, dirigindo-se aos Capítulos gerais da Família Marista: Ao dirigir-se às pressas aos montes da Judeia para encontrar-se com sua prima Isabel, não nos ensina Maria a liberdade espiritual? Importa, com efeito, que não se deixem absorver unicamente pela gestão da herança recebida, mas que saibam discernir o que convém abandonar com espírito de pobreza, mas, sobretudo, com a liberdade evangélica que nos torna disponíveis aos chamados do Espírito. Ante a multiplicidade dos chamados, é preciso efetivamente uma autêntica liberdade para discernir as urgências.
O que é que o Capítulo geral XXI nos pediu? Exatamente como João Paulo II, oito anos antes: Sair depressa, com Maria, para uma nova terra! A palavra novo ou nova aparece muitas vezes no documento capitular: nova terra; nova época para o carisma marista; vida consagrada nova; novo modo de ser Irmão; nova relação entre Irmãos e leigos; maristas novos... Tanta insistência na novidade deve significar que não estamos satisfeitos com nossa realidade atual. Entretanto, dá a impressão de que, uma vez iluminados pelo Espírito e tendo visto claramente que é preciso dirigir-se para novas terras... – o que deixamos por escrito! - voltamos às nossas ocupações habituais como se nada houvesse acontecido!
Já sei que estou exagerando um pouco, porque também é certo que estamos caminhando em muitos aspectos; mas, me pergunto onde ficou o depressa do último Capítulo. Quando observo algumas decisões que tomamos como Conselho geral, me pergunto que conexão elas têm com nosso caminhar como Instituto para novas terras: Pode ser, inclusive, que estejamos a sabotar a nós mesmo, tomando decisões contrárias ao que proclamamos por escrito! É possível que isso ocorra também em nível de Conselhos provinciais ou em níveis mais locais ou também pessoais?
Estamos falando de um processo que se vive no Instituto, mas suponho que também poderíamos aplicá-lo à nossa vida pessoal.
O Instituto mudou muito desde a sua fundação, especialmente com o aggiornamento pedido pelo Vaticano II. Estruturalmente, mudamos mais e mais profundamente nos últimos 50 anos do que nos 140 anteriores. Ao mesmo tempo nossa maneira de pensar também foi modificada em muitos aspectos. Quanto à nossa conversão institucional... parece que vai um pouco mais lenta! E não há outro caminho para a conversão institucional que o da conversão pessoal, embora provavelmente ambas precisem uma da outra.
Conversão, nascer de novo (Jo 3, 7), significa aderir aos valores do Evangelho e, portanto, plenitude de vida e felicidade. Mas não é um caminho fácil: significa também renúncia, disciplina, mudança... morte! Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perde a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la (Mt 16, 25).
Emmanuel Mounier expressava-o assim: É preciso sofrer para que a verdade não se cristalize em doutrina, mas que nasça da carne.
Então, o que está acontecendo conosco?
Todos nós temos um sistema imune que resiste em mudar com todas as suas forças. Como disse Steve Jobs, em famoso discurso aos universitários de Stanford, quando já se lhe havia diagnosticado câncer: Ninguém gosta de morrer... mas a morte é nosso destino comum: ninguém escapará dela. E assim deve ser, porque a morte é o melhor invento da vida: é o agente de mudança da vida. Elimina o velho e dá lugar ao novo.
Quem de nós não sente profundas resistências perante as chamadas à conversão? Não intensifico minha oração pessoal, porque isso significaria mudar meus hábitos e rotinas, e vencer minha comodidade. Não me comprometo mais na comunidade, porque teria que superar o individualismo e, talvez, sacrificaria parte de minha liberdade. Não quero ir a um novo apostolado, porque já mudei bastante na vida e agora devo descansar um pouco... Você continua com sua própria lista? O que é que deve morrer em mim para que a novidade do Espírito possa florescer?
Maria, nossa fonte de renovação
Estamos onde estamos como Instituto e como pessoas; somos os que somos... Quem nos oferece uma visão que nos incentive a continuar construindo nosso futuro?
Durante o último Capítulo geral houve momentos em que sentimos intensamente a presença de Maria entre nós. Creio que avaliamos isso como um sinal de ternura e de acompanhamento d’Aquela que tudo fez entre nós.
Mas também se converteu em nossa fonte de inspiração: Sentimo-nos impulsionados por Deus a sair para uma nova terra, que favoreça o nascimento de uma nova época para o carisma marista. Isso exige que estejamos dispostos a mover-nos, a desprender-nos, a comprometer-nos num itinerário de conversão, tanto pessoal quanto institucional, nos próximos oito anos. Percorremos esse caminho com Maria, como guia e companheira. Sua fé e disponibilidade para com Deus nos encorajam a realizar esta peregrinação. (Capítulo geral XXI)
Já sabemos que o Ir. Seán dedicou a Maria sua última Circular, intitulando-a: Em seus braços ou em seu coração. Como ele mesmo disse, uma das finalidades do texto é que cheguemos a aceitar a Mãe do Senhor como autêntica fonte de renovação do Instituto hoje, e atuemos de modo que continue a sê-lo, nos anos vindouros. Ela esteve com Marcelino no início da vida marista; esteve com os Irmãos na crise de 1903, e estará ao nosso lado, hoje, como guia e companheira, ajudando-nos a realizar a viagem que nos levará ao futuro; para isso, basta que lho peçamos (p. 20).
Para mim é como se o Espírito nos dissesse: Não queríeis uma inspiração e um ponto de referência firme para vosso caminho? Pois aí o tendes: Maria! Poderia ser de outro modo entre nós, que levamos o seu nome?
A expressão “construir o rosto mariano da Igreja” faz parte dessa visão?
Nas palavras que pronunciei no final do Capítulo geral aludi a essa expressão, porque me pareceu muito sugestiva e em continuidade com a experiência vivida ao longo dessas semanas. Naqueles momentos eu estava ainda sob choque, assim que não a desenvolvi muito... Nas semanas seguintes, especialmente no trabalho com o Conselho geral, essa imagem se foi consolidando como princípio inspirador de nosso mandato.
Por outra parte, muitos Irmãos e leigos me comentaram que também para eles era uma imagem poderosa, e que a sentiam como muito inspiradora, em conexão com nossas origens e com o que estamos chamados a ser.

CHAMADOS A CONSTRUIR

O ROSTO MARIANO DA IGREJA
Cabe-lhes hoje manifestar de maneira original e específica a presença de Maria na vida da Igreja e dos homens, desenvolvendo para isso uma atitude mariana, que se caracteriza por uma disponibilidade alegre às chamadas do Espírito Santo, por uma confiança inquebrantável na Palavra do Senhor, por um caminhar espiritual em relação aos diferentes mistérios da vida de Cristo, e por uma atenção maternal às necessidades e aos sofrimentos dos homens, especialmente dos mais simples.
João Paulo II

aos Capítulos gerais da Família Marista, 2001


A expressão rosto mariano da Igreja nunca foi usada nas origens maristas. Apenas recentemente começou-se a usar, primeiro pelo teólogo jesuíta Hans Urs von Balthasar e, depois, inspirando-se nele ou citando-o diretamente, pelos Papas João Paulo II e Bento XVI.
Se hoje nós, como maristas, a fazemos nossa é porque sentimos que está em profunda conexão com nossas origens e porque cremos que sintetiza muito bem nossa missão na Igreja.

Que significa “rosto mariano da Igreja?”
Para captar bem o sentido daquilo que entendemos por rosto mariano da Igreja, provavelmente seja bom situar a expressão em seu contexto.
Von Balthasar se refere ao princípio mariano para descobrir a missão de Maria na origem da Igreja. Mas usa também outras expressões, como dimensão mariana, perfil mariano, rosto marian” ou aspecto mariano da Igreja, referindo-se às manifestações históricas da vida da Igreja derivadas das atitudes com que Maria responde à sua missão como crente e membro da comunidade eclesial. Falar, pois, de rosto mariano da Igreja é um convite a participar dessa experiência e missão de Maria.
O teólogo analisa quatro vias que propõe como arquétipos da vida da Igreja. Os caminhos percorridos pelos protagonistas dessas quatro histórias, que fizeram experiência do Senhor ressuscitado no seio de uma comunidade, podem ser percorridos por qualquer crente. Cita, em primeiro lugar, a experiência de Pedro, que descobre que Jesus, com quem conviveu durante anos, foi morto na cruz por seus concidadãos, mas Deus o ressuscitou. A convicção de sua fé servirá de confirmação e segurança da de seus irmãos. A história da fé de Pedro fundamenta a reflexão teológica do chamado princípio petrino.

A segunda história narra a experiência carismática da vida de Paulo, particularmente sua e que não pode ser identificada com a dos Doze. Dela nascem as reflexões fundadas no princípio paulino. A terceira é a experiência mística de João, que nos transmite aquilo que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e o que nossas mãos apalparam: a Palavra da Vida (1Jo 1, 1). É a chamada tradição joanina ou princípio joanino. Em outros lugares de suas obras, Von Balthasar propõe outros esquemas, um tanto mais complexos, incluindo também um quinto arquétipo jacobeo (de São Tiago). Finalmente, e poderíamos dizer em primeiro lugar, num nível muito mais profundo e mais próximo do centro, a experiência da Mãe do Senhor, experiência íntima e total, flui para a Igreja, a torna fértil, e fundamenta o princípio mariano.


O princípio mariano é, em distintos aspectos, mais fundamental que o princípio petrino. Assim o recolheu o Catecismo da Igreja Católica (773): a dimensão mariana da Igreja precede a sua dimensão petrina e o mesmo João Paulo II (1987): O perfil mariano é tão (se não mais) fundamental e característico da Igreja quanto o perfil apostólico e petrino, ao qual está profundamente unido. Isso significa, para todo o cristão, que ser crente é mais importante que o ministério que se desempenha na Igreja.
Em definitivo, a experiência mariana enlaça e vincula fé e visão, céu e terra, e supera a tensão entre a Igreja imaculada e a Igreja de pecadores. Porque Maria acreditou pela fé e pela fé concebeu (Santo Agostinho), é a primeira crente e a Mãe de Deus, sem que em Maria se possam separar a crente e a Mãe de Deus. Sua experiência de Cristo é espiritual e corporal ao mesmo tempo. Por isso não se pode saltar de uma Igreja visível, hierárquica, petrina, a uma Igreja invisível e espiritual na qual encontraríamos a dimensão mariana.
Portanto, esses diferentes caminhos não se opõem, mas se complementam. E creio que não seria correto enfrentar essas diferentes dimensões da Igreja e optar por uma Igreja de rosto mariano, em contraposição a uma Igreja petrina. É um argumento fácil, mas para nada construtivo.
Von Balthasar escreveu que quando se rechaça a dimensão mariana tudo se torna mais polêmico, mais crítico, mais amargo, menos amável, e acaba aborrecido, e as pessoas de missa fogem de uma Igreja assim. Mas seria toda uma ironia utilizar uma Igreja que se inspira em Maria como arma contra a hierarquia, convertendo a nós mesmos em mais críticos, mais amargos, menos amáveis... Não estamos, portanto, contra ninguém nem contra nada; em todo caso, a única coisa que poderia ficar em evidência é nossa própria incoerência em não viver os ideais que proclamamos.
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