Dói mais do que você pensa



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Encontro26.07.2016
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Dói mais do que você pensa

Marque com um X as alternativas que são usadas na sua casa para dar um jeito naquele moleque que não obedece, que lhe responde... naquele menino que, afinal, precisa de limites:

* Palmadas e Puxões de orelhas

* Tapa na cabeça, tapa na bunda e tapa na cara

* Só uns tapinhas

* Murro, cascudos e beliscões

* Chinelada, surra de cinto e chute na bunda

* Xingamentos, humilhações, gritos e insultos

* Ameaça sexual, chantagem emocional

* Castigo físico

* Corte da mesada, quarto escuro, trancar no banheiro

* Não dar ouvidos

* A mão erguida

* O olhar fulminante

Muito bem, nada de “jujubas, caramelos, sunday de chocolate”, como canta Marisa Monte. O negócio é “palmada, cascudo, fica quieto menino!”. Se você andou marcando X na lista acima, não se sinta só, não pense que é só na sua casa: 42% dos hermanos peruanos, 67% dos venezuelanos, 45% dos uruguaios e 68% dos argentinos também ajudam a forjar crianças agressivas e deprimidas, que amanhã serão os adultos da guerra, da intolerância, do autoritarismo. E essas crianças vão castigar suas crianças e a gente vai seguindo com cara de quem não sabe por que é que assim caminha a humanidade... É a chamada “transmissão geracional da violência”.

É assim mundo afora. O Unicef aponta que, a cada ano, 275 milhões de meninos e meninas de todo mundo sofrem violência doméstica.

Pode ser que você volte à lista e pense “bom, na verdade aqui em casa só usamos umas formas mais lights, porque afinal de contas...”. É, né?! A maior parte das pessoas tem mesmo dificuldade em reconhecer tais atos como violência. Pais e mães acreditam que estão batendo para educar, acham que “crianças que não apanham ficam sem limites”, mas se esquecem que estão utilizando a mesma justificativa para conter ou punir a violência das crianças quando estas apresentam comportamento agressivo: a criança apanha porque bateu no irmão!

Essa contribuição negativa reforça a idéia de que a violência é um método educacional aceitável. Tanto as jovens vítimas quanto os agressores podem aceitar a violência física, sexual e psicológica como algo inevitável. E a disciplina cumprida mediante castigos físicos e humilhantes, intimidação e abuso sexual, com frequência é percebida como algo normal, especialmente quando não produz danos físicos “visíveis” ou imediatos.

Está postado aqui mesmo no blog um artigo de Cristovam Buarque - “Nós, escravocratas” - no qual o político-educador lembra que Joaquim Nabuco reconhecia que apesar da vitória conquistada (a abolição) “acabar com a escravidão não basta. É preciso acabar com a obra da escravidão”. No castigo contra crianças reflete-se de fato uma marca de nossa herança: a cultura da escravidão reforça a dinâmica de que a força pode disciplinar alguém que tenha menos poder e força física ou esteja em condição de dependência. Essa educação perpetua o ciclo da violência, pois as crianças acabam aprendendo que a violência é um meio justificável para a resolução de problemas.

Mas, como as crianças se sentem quando são castigadas? O que se passa com elas quando ficam presas em quartos escuros ou são humilhadas? Elas são capazes de entender por que os pais as agridem (mesmo quando dizem bater para educar)?

Um estudo realizado pelo Instituto Promundo (RJ) ouviu 600 pais e 65 crianças em três comunidades cariocas para compreender melhor como eles percebem o fenômeno dos castigos físicos e humilhantes. A maioria delas admitiu sentir medo, tristeza e raiva quando sujeitadas à punição física ou humilhante.


De novo, nada de jujubas e caramelos:

* Tristeza e infelicidade

* Depressão, dor

* Raiva e rejeição

* Menosprezo, marginalização

* Humilhação

* Impotência (não podem revidar)

Nas entrevistas, segundo informe da Agência de Notícias dos Direitos da Infância, “muitas crianças disseram ficar muito ressentidos nos momentos em que sentem que seus pais não os escutam nem levam seus desejos em consideração. Além de uma escuta atenta por parte de pai e mãe, muitos descreveram tentativas desesperadas de tentar se fazer ouvir pelos adultos”.

Sabe-se que o castigo físico, quando aplicado por um longo período, não surte mais o efeito desejado pelos adultos, ou seja, o comportamento infantil indesejado segue acontecendo. O que as crianças afirmam é que nem lembram o motivo pelo qual foram castigadas. Na verdade, as vítimas tendem a perder a concentração nos estudos e aumentam as possibilidades de se tornarem pessoas agressivas, competidoras e com predisposição a desenvolver, no futuro, relações violentas.

Estes sentimentos podem causar, segundo a Organização Pan-americana de Saúde, enfermidades importantes da idade adulta – entre elas a cardiopatia isquêmica, o câncer, doença pulmonar crônica, a síndrome do intestino irritável e a fibromialgia, além de transtornos psiquiátricos e comportamento suicida. Em alguns casos, levara criança para a rua e para as drogas.

Mesmo com recomendações da ONU e da OEA, há muita resistência no Brasil quanto à criação de lei específica para a punição do castigo físico e do tratamento humilhante contra crianças e adolescentes, na maior parte das vezes porque é um mito a “intromissão nos ambientes família e escola”. Pioneira, a Suécia tem legislação desde 1979. Aqui há um pacto de silêncio, que vem sendo quebrado por uma série de entidades reunidas em torno da Rede Não Bata, Eduque! (www.naobataeduque.org.br), entre eles o Instituto Promundo, a Fundação Xuxa Meneguel, Instituto Sedes Sapientae, o Unicef, a Save the Children e o Centro de Estudos da Violência da USP.

PUXÃO DE ORELHA NO CINEMA: a jornalista Maria do Rosário Caetano insiste em não fazer seu blog, mas transmite para uma infinita rede de loucos por cinema, por e-mail mesmo, um Almanaque de notícias. Vale pensar na pergunta que ela jogou no ar esta semana, até mesmo porque as bilheterias costumam ser muito boas: Por que se faz tão poucos filmes para crianças e jovens no Brasil?

FAÇA HUMOR: sorte sua leitor... Se o tempo é curto para ler, Claudius diz tudo com poucas palavras, cor e humor. Sorte minha que passo a fazer dupla com ele aqui, todo domingo.

 

Geraldinho Vieira é jornalista, professor da Fundación Nuevo Periodismo (Colômbia, entidade presidida por Gabriel García Márquez); consultor da Fundação Ford na área do direito à comunicação, vice-presidente da ANDI – Agência de Notícias dos Direitos da Infância e Instrutor da Oneness University (Índia).



Claudius é, entre outras coisas, um chargista que já fez o “circuito Elizabeth Arden da imprensa brasileira” (JB, Estadão, Folha e Globo)e teve atuações históricas em A Noite, O Diário Carioca e Correio da Manhã. Foi colaborador d'O Pif Paf e um dos fundadores d'O Pasquim. Atualmente, publica em Caros Amigos e faz charge editorial do Le Monde Diplomatique versão brasileira.

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