Diaconia e profecia



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Diaconia e profecia

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Sebastião Armando Gameleira Soares

Em geral, quando falamos de diaconia ou serviço, queremos referir-nos ao ministério da Igreja relativo às necessidades humanas materiais, promocionais, de assistência ou de solidariedade. A diaconia seria o serviço da Igreja no campo sócio-político-cultural. Hoje, particularmente, esse ministério poderia resumir-se em três palavras: assistência social, solidariedade, ações de transformação.


Ora, o termo "diaconia" deriva do Novo Testamento. É importante em nossa meditação voltarmos ao seu significado.
1. Diaconia é um ministério específico
Nos escritos do NT, diaconia (serviço, servir) significa, às vezes, um serviço concreto, material, prestado a determinada pessoa (cf. Mc 15,41; 2Tm 1,18); designa, particularmente, o serviço em vista de garantir o alimento, a sobrevivência, o "serviço à mesa" (cf. Mc 1,31; At 6.2); e até, bem concretamente, a contribuição financeira em favor de pessoas necessitadas: o exemplo clássico é a coleta feita por Paulo em favor dos santos de Jerusalém (cf. 2Cor 8,19; Rm 15,25).
Daí, progressivamente, o termo passa a designar um ofício particular na comunidade, um ministério específico, elencado entre os demais carismas, como se vê em Rm 12,7, ao lado do dom da profecia, do de ensino, do de exortação, do de partilha, do de presidência: "se o dom é o serviço, que se exerça no serviço". Chega-se, assim, a falar de diácono e de diaconisa como figura ministerial particular na Igreja (Fl 1,1; 1Tm 3,8ss.; Rm 16,1).
Sabemos que, no século II, se fala de diáconos associados ao bispo e encarnando na comunidade a figura de Jesus Servidor, ao lado do bispo, expressão de Deus Pai, e do Conselho dos Presbíteros, que representa o colégio dos apóstolos (cf. Inácio de Antioquia). Na prática da Igreja antiga, diáconos e diaconisas são encarregados, em nome da Igreja, de prestar socorro aos pobres e abandonados, de levar-lhes o consolo da Igreja como resposta a suas necessidades e de trazer para o interior da Igreja o lamento dos pobres, para despertar sua consciência e ação. Essa tarefa de mão dupla se reflete nas funções que o diácono tem na liturgia: servir à mesa no sacramento do corpo de Cristo, como expressão de seu serviço às necessidades (partilha) do Corpo vivo de Cristo; interceder, trazer diante de Deus as necessidades do povo; proclamar o evangelho, as exigências do evangelho; enviar a comunidade ao mundo para aí operar o serviço de Deus. Na linguagem de hoje, diríamos que o ofício do diácono é expressar e tornar efetiva a relação entre Igreja e mundo, entre liturgia e serviço, entre a comunidade e o movimento popular, entre a Igreja e as necessidades e entidades da chamada sociedade civil.
2. Diaconia é a identidade da Igreja
Mas o NT também nos indica outra direção. Diaconia não é apenas um certo setor da atividade da Igreja. Diaconia é a própria identidade da Igreja. A Igreja não apenas exerce diaconia, ela se define e se identifica pela diaconia: a Igreja de Jesus ou é diaconia, ou não é Igreja de Jesus.
Para começar, é pela diaconia que Jesus se define a si mesmo em Mc 10,45: "O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e entregar a sua vida pela multidão." E o seu testamento, na última ceia, foi o gesto típico da diaconia: lavar os pés (Jo 13,1-15). Por isso, Paulo vai designar a Jesus como "diácono dos circuncisos", enquanto veio "cumprir as promessas feitas aos pais" (Rm 15,8). Isto é, toda a missão de Jesus é diaconia.
Por isso, Jesus Servo é contemplado como princípio e paradigma (modelo) de toda a missão de seus discípulos e discípulas: Mc 10,43-45; Lc 22,26s. e Jo 12,25s.: seguir a Jesus é servir (cf. Mc 9,33-37). O serviço é, assim, a própria identidade do discipulado. Não é que se é discípulo(a) e, por conseqüência, se exerce o serviço. Não. É-se discípulo na medida em que se é servidor. Discípulo equivale a diácono, a servidor.
A partir daí, compreende-se por que Paulo vai dizer que salvação é diaconia de Deus mediante o Cristo (2Cor 3,7-9) e mediante seus enviados (2Cor 5,18-20): a diaconia da reconciliação. Toda a missão em vista da salvação do mundo é diaconia. E a salvação equivale, no NT, à "nova criação", à transformação (cf. Rm 8). Particularmente em 2Cor, epístola em que Paulo desenvolveu seu pensamento sobre o ministério cristão, encontramos a clara identificação entre diaconia e missão cristã como tal: somos diáconos, servos e servas, da nova aliança (3,6), da justiça de Deus (11,15), de Cristo (11,23; cf. Cl 1,17), de Deus (6,4). Em Cl 1,25 diz-se que o apóstolo é servo da comunidade da Igreja. Ao contrário do que pensavam os gregos da condição dos homens livres, a glória do ministério cristão é a própria condição de serviço (cf. 2Cor 3,8), pois é identificação ao Cristo (cf. Mc 10,43-45; Lc 12,37). Na verdade, a imagem básica para refletir sobre Jesus no NT foi a figura do servo, a partir dos Cânticos do Servo Oprimido e Vitorioso, segundo a profecia de Isaías. Conforme o AT, servo de Deus é alguém que pertence radicalmente a Deus e a Ele se entrega totalmente, e por Ele sente-se protegido e amparado. Por isso, ser servo equivale a permanecer em constante adoração (por isso, também o culto é chamado de "serviço a Deus"), mas também "servir a Deus" é obedecer-lhe em todos os atos da vida humana, a começar do cultivo da terra para sobreviver. "Servir a Deus" é tanto o culto como o trabalho. Jesus é, antes de qualquer outro título cristológico, o servo de Deus por excelência: At 3,13 - a catequese presente nos evangelhos se faz toda ela sobre o paradigma do SERVO, completamente devotado a instaurar o reinado de Deus.
Assim são apresentadas a vocação e missão de Jesus no batismo e na transfiguração: Is 42. Sua tarefa é assumir a missão do profeta-servo, conforme Is 61, como nos diz Lucas no discurso programático na sinagoga de Nazaré (Lc 4,16ss.). Para Mateus, toda a ação de Jesus de restaurar a vida e a dignidade de pessoas necessitadas e humilhadas é a do servo que "leva nossas enfermidades e carrega nossas dores" (Is 53,4). É assim que Ele se levanta como luz a brilhar para quem está esmagado em regiões de trevas (Is 8,23-9,1; 49,1-7). Toda a caminhada de subida a Jerusalém se inspira na figura do servo, e isso é dito de três modos, fundamentalmente: entregar a própria vida, acolher os pequeninos e tornar-se como eles, aceitar fazer comunidade com os pobres. Finalmente, há o texto clássico de Fl 2,5-11, texto eminentemente pascal: ser servo, obediente até a morte de cruz, é a identidade de Jesus, e é a condição que "convém a quem está em Cristo Jesus". A ressurreição é a confirmação por parte de Deus de que o caminho da restauração - nós diríamos hoje, da humanização - é o caminho do servo.
Por isso, toda tarefa de dedicação ao evangelho é diaconia, desde a proclamação missionária até a edificação da comunidade: é o "Serviço do Evangelho" (cf. 2Cor 4,1; 5,18; Cl 1,23; Rm 11,13). Quem se entrega à proclamação do evangelho é diácono, servo(a) (1Cor 3,5; 2Tm 4,5.11). Os Atos dos Apóstolos insistem em designar a proclamação do evangelho como diaconia: 6,4; 20,24; 21,19.

O objetivo da "Diaconia do Evangelho" é criar koinonia, comunhão, solidariedade comunitária. É edificar a Igreja como Corpo de Cristo no mundo. Daí por que o gesto da mesa comum, da "Ceia do Senhor", onde Cristo se faz presente no lava-pés e na partilha e entrega do pão que dá vida ao Corpo, é o símbolo central da Igreja. É seu anúncio profético.


O que é a realidade da Igreja, senão a diversidade dos dons (carismas) do mesmo Espírito? E todos os dons são concedidos em vista do proveito comum: os diversos dons se constituem em diversos "ministérios". Paulo usa aqui o termo "diversidade de diaconias" (1Cor 12,4-44). Em Rm 12,3-13, fala-se da diaconia como de um ministério particular (v. 7), mas, ao mesmo tempo, diz-se que todos os dons têm de ser entregues em proveito de todos, "cada qual considerando a outrem como mais digno de honra", em tudo "servindo o Senhor". O mesmo se acha em 1Pd 4,7-11: "Conforme o dom que cada qual recebeu, consagrai-vos ao serviço uns dos outros" (v. 10). Ou seja, a diaconia, o serviço é a própria identidade da Igreja. Igreja é troca de serviços recíprocos, pois aí todos somos radicalmente servos e servas. É sintomático que todas as tarefas sejam designadas como ministérios.
Há um texto particularmente importante: Ef 4,1-16. Ao falar da diversidade dos dons/ministérios, diz-se que a finalidade de qualquer ministério específico é "aperfeiçoar os santos em vista do ministério, para a edificação do Corpo de Cristo" (v. 12). Isto que dizer que qualquer ministério particular tem em vista exercitar, manifestar e levar ao amadurecimento aquilo que nos identifica como seguidores e seguidoras de Jesus: nossa condição de SERVIÇO, esta é a identidade dos santos. A Igreja toda é como sacramento - sinal e instrumento - da diaconia de Cristo. A Igreja toda é povo sacerdotal encarregado de proclamar, através de tudo o que faz, o poder transformador de Deus, encarregado da "diaconia do evangelho" (cf. 1Pd 2,9-10).
Daí por que não existe na Igreja evangelização, de um lado, e diaconia, de outro. Tudo na Igreja é diaconia, desde o culto até o serviço social. Pois o culto não é a tarefa específica da Igreja, é só uma de suas diaconias, a diaconia religiosa, prestada à humanidade porque a humanidade é religiosa, tem necessidades religiosas a que a Igreja também é chamada a responder, pois trata-se de necessidade humana. (E o culto tem de ser diaconal também enquanto só tem sentido se prepara a comunidade para o exercício da diaconia no mundo.) E tudo na Igreja tem de ser ato de evangelização, desde a proclamação explícita da palavra do evangelho até qualquer serviço social. Cabe a frase de Francisco de Assis: "Evangeliza constantemente, e fala se necessário."
A missão de Jesus é declarar por gestos e palavras a boa nova do reino de Deus entre nós. Mas o evangelho não é uma vaga e genérica boa notícia. De acordo com os textos do profeta Isaías, nos quais os evangelistas se inspiram (cf. Mc 1,1-3), evangelho é a boa notícia da vitória de Deus, que afirma sua realeza e soberania, mediante eventos históricos de libertação do seu povo (cf. Is 40,9-11; 52,7-12; 61,1-9). Não é por acaso que os evangelistas iniciam sua narrativa da práxis de Jesus aludindo à proclamação do Ano Jubilar, ano do perdão das dívidas e da restituição das terras. Trata-se do evento "evangelho" (cf. Mc 1,4; Lc 4,16-21). Isto é, trata-se de proclamar a boa nova mediante a práxis (ações e palavras) do reino de Deus. Se Deus intervém pela proclamação profética declarando a presença de seu reino entre nós, sua Palavra é simultaneamente exigência de mudança de vida (cf. Lc 3,10-18), conversão, isto é, mudança de mentalidade e de prática concreta que, por sua vez, se tornam anúncio e sinais da novidade transformadora do evangelho. Prossegue, assim, aquilo que "Jesus principiou a fazer e a ensinar" (At 1,1).
3. Missão, evangelização, diaconia
Missão é, antes de tudo, o ato de Deus de enviar a Si mesmo. Dizia Santo Irineu, no século II, que a Palavra e o Espírito são como braços de Deus para realizar no mundo os seus propósitos. Deus envia o seu Filho e o Espírito para operar a Criação, a Redenção e a Santificação. E assim Deus Se comunica a Si mesmo. Os teólogos costumam dizer que a Trindade imanente (Deus em sua vida íntima) é a mesma Trindade econômica (Deus revelado a nós na "economia" da salvação), isto é, Deus vem a nosso encontro sem intermediários, através de Jesus e do Espírito de Jesus, que são pessoas divinas "procedentes do Pai", e revelando-se a Si mesmas. Em Jesus, como dizia Santo Atanásio, Deus nos eleva a participar de sua vida divina, porque Ele próprio assume nossa natureza, mediante o envio do Verbo que é Deus. Diz-nos Isaías: "Em todas as suas agruras, não foi um mensageiro ou um anjo, mas sua própria face que os salvou" (63,9). Ao enviar a Moisés para libertar seu povo, é o próprio Deus quem está "descendo" (cf. Ex 3,7ss.). Isaías tem a "terrível" experiência de ir em nome de Deus: "Quem irá por nós?" (Is 6,8.) Na boca de Jeremias estão impressas as próprias palavras que Deus quer pronunciar (cf. Jr 1), e Ezequiel só poderá falar depois de engolir o rolo das palavras divinas (cf. Ez 3). "Pela mão de Ageu" são as próprias palavras de Deus que nos chegam (cf. Ag 1,1). A missão é "missio Dei" e, por isso, ato de Deus.

Missão é também a consciência subjetiva de ser enviado. A Igreja é um povo que se sente enviado ao mundo em nome de Deus, e nela cada pessoa se move a partir da mesma experiência. Missão é experiência subjetiva de sentir-se chamado(a) e enviado(a): é vocação e envio. Disso especialmente Jeremias nos fala de maneira tão candente em suas "confissões": "Seduziste-me, Senhor..." (cf. Jr 20,7ss.). Jesus se sente "o enviado do Pai". E Paulo é o "apóstolo" por excelência (cf. Gl 1,15). Diz-nos Jesus: "Assim como o Pai me enviou, eu vos envio a vós" (Jo 20,21).


É dessa experiência radical e transformadora que brota nossa espiritualidade. É o Espírito de Deus que se derrama como unção de óleo e em nós imprime os motivos de viver: a filiação (cf. Gl 4,6) e a missão (cf. Lc 4,16ss.). Por isso, com base no ensinamento das Escrituras, temos de dizer que as duas marcas de nossa espiritualidade missionária são mística e profecia. É o que nos distingue dos "filhos do diabo" (cf. Mc 3,22-30), marcados pelo "espírito do mundo" (Jo 6,51): "Oferecei vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual. E não vos conformeis com o sistema deste mundo, mas transformai-vos..." (Rm 12,1-2). A meditação de Paulo em Filipenses e 2 Coríntios pode ser excelente guia para alimentar nossa espiritualidade missionária. Nosso modelo é o Cristo em sua perfeita união com o Pai e inteiramente entregue ao trabalho de restaurar a obra de Deus, como se nos revela na profunda meditação que é o 4º Evangelho. E Jesus nos remete à Santíssima Trindade como princípio e modelo de nossa vida e ação (cf. Jo 14,17). Nossa vida mística tem de transbordar em amor sem limites, como Deus, que "ama tanto o mundo a ponto de entregar o seu próprio Filho unigênito" (Jo 3,16). Na autêntica mística cristã, não há concorrência de dois amores. Se nos entregamos verdadeiramente a Deus, Ele, em sua perfeita liberdade, nos devolve a nós mesmos(as) e às outras pessoas (cf. 1Jo 3,10; 4,7-5,4; Gl 5,14). O divino nos faz humanos(as), como aconteceu com Jesus: porque era de condição divina, esvaziou-se a si mesmo, foi em tudo achado em forma humana, chegando a assumir a condição de servo, fazendo-se em tudo obediente até à morte e morte de cruz (cf. Fl 2,5-11; Hb 4,14-16). Sua glória é a perfeição de sua obra, liberta e completa (cf. Rm 8). Nosso amor a Deus é maravilhosamente transfigurado pelo Espírito de Deus em amor de Deus em nós. "Caridade", mais que o amor a Deus, é amor de Deus derramado em nossos corações, para que, por nós, as pessoas se sintam amadas por Deus. Nossa tarefa é sermos sinais (sacramentos) do carinho de Deus por sua obra que é o mundo criado em sua integralidade material-espiritual.
Eis por que EVANGELIZAR, mais que falar sobre o evangelho, é ser sinal vivo da boa nova. É para isso que somos enviados(as).
Às vezes se fala de missão como se fosse a tarefa da Igreja e, pior ainda, uma de suas tarefas, a principal, decerto. Ora, como vimos, missão é o ato divino de enviar e nossa consciência subjetiva de sermos pessoas enviadas. Nossa tarefa é, de fato, evangelizar, proclamar a boa notícia. Essa é a única tarefa da Igreja. Não se trata de evangelizar e, além disso, fazer outras coisas. Não, a Igreja é enviada somente a evangelizar. Através de tudo o que é, de tudo o que faz e de tudo o que diz, destina-se a ser "sinal elevado entre as nações" para revelar a presença do reino de Deus no coração da história humana (cf. Lc 17,21). "Evangeliza sempre e em toda parte, e fala se necessário", dizia Francisco de Assis. "Evangelismo" pode até significar a proclamação do Reino por palavras explícitas acerca de Jesus como nosso único Senhor e Salvador. Mas o processo de anúncio do Reino vai muito além disso, como se pode ver claramente na descrição magistral do processo de evangelização que se faz no cap. 9 do Evangelho segundo João. Anunciamos por obras e por palavras. As palavras só têm sentido se chamam a atenção para interpretar corretamente os sinais, e os sinais são eloqüentes, são gestos que falam e revelam a presença carinhosa de Deus a restaurar sua obra. Foi assim que Jesus falou da tarefa para a qual tinha sido enviado e ungido: são, antes de tudo, os sinais do Reino que revelam que Deus está presente e atuante em nosso meio: "Ide e anunciai a João o que vistes e ouvistes..." (Lc 7,22-23; 4,16ss.).
Para a Comunhão Anglicana hoje é muito claro que só há processo de evangelização quando a ação da Igreja está caracterizada por cinco marcas ou cinco balões que simultaneamente a carregam no "vendaval" do Espírito: proclamar as boas novas do Reino; ensinar, batizar e nutrir as pessoas que se aproximam da fé; exercer serviço de amor a quem está em necessidade; lutar para transformar as estruturas injustas da sociedade; trabalhar em favor da vida e da conservação e renovação dos recursos da terra. Na perspectiva das Escrituras, temos de compreender que em todas as cinco dimensões está contida a "proclamação das boas novas do Reino". Do contrário, Jesus não teria privilegiado a prática concreta (cf. Mt 7,21). De acordo com o Evangelho de Marcos, é, antes de tudo, por sua prática que Jesus ensina (cf. 1,21-28). Ele mesmo e sua ação são o enigma, a parábola que deve ser interpretada, pois o Reino não se revela principalmente pelo que diz, mas pelo que é e faz: Jesus não só fala do Reino, Ele mesmo é a presença do Reino (cf. Mc 1,1; 8,38; 10,29; 13,9.13), pelos gestos que faz: "Se eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente é chegado a vós o reino de Deus." (Lc 11,20.)
O termo "evangelizar" chega aos evangelistas pelo profeta Isaías. Aí significa proclamar a alvissareira notícia de que Deus está afirmando a sua soberana realeza através de grande vitória sobre os poderes opressores do império do mundo: são os sinais da libertação do povo que indicam que Deus está finalmente reinando (cf. Is 40,9-11; 52,7-12; 61,1-3). Na perspectiva da profecia do exílio, o Senhor se revela mediante os acontecimentos que manifestam sua presença viva e atuante no meio de seu povo: "Por isso mesmo (os acontecimentos anunciados) o meu povo conhecerá o meu nome, por isso mesmo ele saberá, naquele dia, que eu sou o que diz: Eis-me aqui." (Is 52,6.) "Eis-me aqui" é clara alusão ao nome próprio de Deus "YHWH", isto é, "o-que-está-aí", tão ressaltado no livro de Apocalipse (cf. Ap 21,3). Deus se revela presente por seus atos poderosos de salvação. Evangelizar é, antes de tudo, dar sinais concretos reveladores da presença carinhosa de Deus em meio a seu povo, como Pastor e Juiz.
Infelizmente, a proclamação da boa nova da salvação é sempre, ao mesmo tempo, má notícia para quem não se dispõe a escutar a mensagem e mudar de vida. Jesus fala disso com muita clareza. "Quem faz o mal odeia a luz", isto é, quem está "acostumado" com uma prática negativa, habituado a conviver com as trevas, foge naturalmente da luz, sua maneira de viver impede de caminhar em direção à luminosidade da fé (cf. Jo 3,19-21). A semente da palavra de Deus pode até não germinar, embora tenha em si mesma eficácia; tudo depende do terreno. Este pode facilitar, dificultar ou até impedir o crescimento da Palavra (cf. Mc 4). Pode-se ouvir e não compreender, a boa notícia pode até causar o efeito contrário ao que se intenciona, pode causar fechamento e reação negativa, pois quem a ouve pode sentir-se julgado (cf. Mc 4,11-12; Is 6,9-10; Jo 12,44-50). Jesus define sua atuação no mundo como um momento de discernimento: "Para que os que não vêem, vejam, e os que vêem, tornem-se cegos" (Jo 9,39). Por isso, proclama a bem-aventurança de uns e a maldição de outros (cf. Lc 6,20-26).
O serviço ou diaconia não deve ser entendido como alguma outra tarefa, como se além de evangelização houvesse ainda que exercer a diaconia. Não se trata de evangelizar e também servir. Diaconia não é tarefa, pois nossa única tarefa é evangelizar, proclamar o evangelho por obras e palavras. DIACONIA é método, é o caminho obrigatório da Igreja de Jesus em tudo o que faz, pois Jesus é o Servo por excelência. Somos enviados(as) (MISSÃO) a evangelizar (TAREFA) mediante o serviço (MÉTODO).
Por conseguinte, diaconia não é apenas o serviço social e político prestado pela Igreja à sociedade. Diaconia tem de ser tudo na Igreja. Não é um setor; é, antes, a totalidade de seu jeito de ser em tudo o que faz. A liturgia é a diaconia religiosa através da qual a Igreja responde à necessidade humana de representar e "dramatizar" a relação com o Mistério da vida. Por ela as pessoas, em comunidade, são ajudadas a celebrar os feitos de Deus na história e vão educando os próprios olhos para contemplar na atualidade de sua vida e da vida do mundo os sinais da presença e da ação de Deus. O "ministerium Verbi" é a diaconia da Palavra pela qual se exercem a instrução e o ensino. Pelo estudo e pela meditação as pessoas vão assimilando a longa tradição da fé e, pelo contacto com o testemunho da experiência de nossos antepassados, vão aprendendo os critérios de escuta de Deus. Particularmente o serviço de leitura e estudo bíblico é decisivo para que as pessoas vão percebendo por onde Deus costuma passar e por onde costuma caminhar quem escuta Sua voz. Finalmente, a diaconia sócio-política leva a Igreja enquanto comunidade a transbordar para a sociedade que a cerca.
Ao pensar em diaconia sócio-política, poderíamos, quem sabe, distinguir dois aspectos. Edificar-se como comunhão é para a Igreja viver a experiência de solidariedade que já é por si mesma projeto para o mundo. A vida comunitária já é proclamação viva da boa nova, primeira dimensão do ministério da reconciliação (cf. 2Cor 5,16-21). É como se surgisse entre nós, espontaneamente, a pergunta: se é possível para nós, não seria também possível para o mundo? Essa pergunta nos impele à segunda dimensão do ministério da reconciliação: a solidariedade com as dores do mundo, que deve ser tão profunda e tão lúcida a ponto de provocar em nós a pergunta pelas causas dessas dores. Ou seja, nossa sensibilidade social nos deve conduzir à análise política, daí à luta pela transformação das estruturas injustas da sociedade. Também isto, conforme o consenso da Comunhão Anglicana, é dimensão intrínseca da evangelização. E a análise política, que é antes de tudo crítica da economia, tem de alargar-se ao horizonte da ecologia, isto é, à manutenção da vida e renovação dos recursos da Terra, criação de Deus.
No campo da ação social, não basta à Igreja "fazer o bem". O evangelho exige que todo o bem que a Igreja faz seja veículo de proclamação da boa nova, comunicação dos valores do Reino. E só é evangelizadora a ação que provoca a experiência da dignidade da filiação divina, o que em termos políticos se traduz como experiência da cidadania, como se vê particularmente em Gálatas e em Efésios. Não é permitido à Igreja "ação de assistência", só "ação de solidariedade", pois só esta última é virtualmente evangelizadora. Isto é, não basta fazer algum bem. Só são sinais do Reino os gestos pelos quais nos tornamos um só corpo (sócios) com as pessoas necessitadas. A diferença está toda no método. É assim que Jesus faz unindo seu corpo ao da sogra de Simão (cf. Mc 1,29-31), ao do homem da mão aleijada (cf. Mc 3,1-6), ao do leproso (cf. Mc 1,40-45), ao da hemorroíssa (cf. Mc 5,25-34). Ao paralítico, excluído da casa, ele chama "filho" (cf. Mc 2,1-12). O toque corporal vem expressar justamente a atitude de solidariedade de Jesus com as pessoas necessitadas. Talvez o episódio do leproso seja o mais eloqüente: Jesus, "movido de compaixão", toca no homem "impuro", isto é, excluído e marginalizado, une seu corpo ao dele e assume sua condição, pois, como os leprosos, já não pode entrar nas cidades, mas permanece em lugares retirados... Só a ação de solidariedade, por provocar igualdade e partilha, manifesta adequadamente o amor e possibilita a liberdade, os dois eixos da antropologia cristã; só ela revela a Trindade ao possibilitar a experiência da dignidade humana, cujo fundamento último é a condição de filho e filha de Deus; finalmente, só ela anuncia a Ressurreição, pois baseia-se na fé em que algo novo pode ser criado, mesmo a partir do que parece morto e do "lixo" do mundo (cf. 1Cor 1-3).

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