Dialética hegeliana, dialética marxista, dialética negativa Aula 3



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Dialética hegeliana, dialética marxista, dialética negativa

Aula 3

Na aula de hoje, gostaria de discutir o conceito hegeliano de temporalidade. Chave para a compreensão da natureza do movimento dialético, o conceito de temporalidade é pensado a partir de suas articulações com a noção de historicidade. O que nos lembra como, para pensadores do porte de Hegel e Marx, a história aparecia como a destinação necessária da consciência não apenas por ela ser o campo no qual se daria a compreensão do sentido das ações dos indivíduos com suas determinações causais a serem reconstruídas, mas sobretudo por ela impedir o isolamento da consciência na figura do indivíduo atomizado, construindo identidades coletivas ao mostrar como a essência da consciência encontra-se na reconciliação de seu ser com um tempo social rememorado. Através da história, ser e tempo se reconciliariam no interior de uma memória social que deveria ser assumida reflexivamente por todo sujeito em suas ações. Memória que seria a essência orgânica do corpo político, condição para que ele existisse nas ações de cada indivíduo, como se tal corpo fosse sobretudo um modo de apropriação do tempo, de construção de relações de remissão no interior de um campo temporal contínuo capaz de colocar momentos dispersos em sincronia a partir das pressões do presente.

Deste momento em diante, a consciência não podia mais ser, como ela era para Descartes, simplesmente o nome do ato de reflexão através do qual posso apreender as operações de meu próprio pensamento. Ato através do qual poderia encontrar as operações de meu pensar quando me volto para mim mesmo no interior de um tempo sem história, tempo instantâneo e pontilhista que dura o momento de uma enunciação, como vemos na segunda meditação cartesiana1. A partir de então, a consciência será fundamentalmente “consciência histórica”, ou seja, modo de atualização de um complexo de relações que parecem se articular a partir de uma unidade em progresso. É este caráter vetorial de um tempo que dá a impressão de progredir e acelerar em direção a um encontro consigo mesmo que forneceria ao corpo político sua consistência.
Spinoza, esperança e contingência
Mas o advento de tal corpo foi, na maioria dos casos, dependente da circulação de um afeto que ganhou dimensões políticas decisivas, a saber, a esperança. É a esperança que sustentará tal corpo social por vir, que produzirá sua ossatura. Pois esperança é, acima de tudo, uma forma de ser afetado pelo tempo, afeto indissociável do que poderíamos chamar de “temporalidade da expectativa”2. Ela é um modo de síntese do tempo que partilha com outro afeto, a saber, o medo, uma relação com o que teóricos da história chamarão de “horizonte de expectativa”3.

Vem de Spinoza essa compreensão de medo e esperança como relações ao tempo de valência invertida: “a esperança é uma alegria instável, surgida da ideia de uma coisa futura ou passada, de cuja realização temos alguma dúvida. O medo é uma tristeza instável, surgida da ideia de uma coisa futura ou passada, de cuja realização temos alguma dúvida”4. Pois se medo é a expectativa de um dano futuro que nos coloca em risco, esperança é expectativa da iminência de um acontecimento que nos colocaria no tempo providencial da imanência enfim desprovida de antagonismos insuperáveis. Imanência própria à expectativa da concórdia da multiplicidade no seio da comunidade. No entanto, se o medo é fonte da servidão política por ser: “o que origina, conserva e alimenta a superstição”5 da qual se serve o poder de estado para impedir o exercício do desejo e da potência de cada um como direito natural, a esperança mostrará seus limites por perpetuar um “fantasma encarnado da imaginação impotente”6 aprisionada nas cadeias da espera. Neste sentido, ganha importância uma afirmação como:


Supõe-se que quem está apegado à esperança, e tem dúvida sobre a realização de uma coisa, imagina algo que exclui a existência da coisa futura e, portanto, desta maneira, entristece-se. Como consequência, enquanto está apegado à esperança, tem medo de que a coisa não se realize. Quem, contrariamente, tem medo, isto é, quem tem dúvida sobre a realização de uma coisa que odeia, também imagina algo que exclui a existência dessa coisa e, portanto, alegra-se. E, como consequência, dessa maneira, tem esperança de que essa coisa não se realize7.
A compreensão precisa de Spinoza sobre a impossibilidade de haver esperança sem medo, assim como medo sem esperança, vem da natureza linear do tempo submetido a uma estrutura de expectativas. A interversão da esperança em medo é afecção necessária de um tempo pensado sob o paradigma da linearidade. Pois expectativa é abertura em relação a possíveis, realização iminente de possíveis que não são necessários no momento de sua enunciação e projeção pelos sujeitos. Há uma distância linear, uma relação descontínua de sucessão entre a localização temporal na qual o possível torna-se efetivo e esta na qual ele é inicialmente enunciado como possibilidade. Esta temporalidade linear não pode escapar da aporia própria à “ideia de uma coisa futura ou passada, de cuja realização temos alguma dúvida”. Pois a ideia de uma coisa futura ou passada é ideia de uma ausência, de uma não-presença atual, ideia do que nos afeta inicialmente pela sua distância. Por ter sido uma coisa gerada na distância, por ter sido enunciado na ausência, a realização do possível nunca poderá superar por completo a condição do que pode a qualquer momento não mais ser, voltar a sua condição inicial de não-ser. O que passou uma vez pode passar novamente: esta é regra fundamental da descontinuidade pontilhista do tempo linear. Por isto, este tempo só poderá ser o tempo da ânsia.

Devemos falar em “tempo da ânsia” porque ele será assombrado pela possibilidade de dominar a contingência e, com isto, garantir as condições de possibilidade para a realização da ideia de uma coisa futura ou passada, quando for objeto de esperança, ou seu afastamento, quando for objeto de medo. Talvez por isto Spinoza contraponha a esperança e o medo a afetos mais fortes como o contentamento e a segurança (securitas). “Se, desses afetos, excluímos a dúvida”, dirá Spinoza, “a esperança torna-se segurança”8. O que lhe leva a afirmar que o fim último do Estado deve ser: “libertar o indivíduo do medo a fim de que ele viva, tanto quanto possível, em segurança, isto é, a fim de que mantenha da melhor maneira, sem prejuízo para si ou para outros, o seu direito natural a existir e a agir”9. Desparecido o medo e a esperança, ficamos enfim sob a jurisdição de nós mesmo, ficamos livres e seguros.

Compreendida neste contexto como: “alegria nascida de uma coisa passada ou futura da qual foi afastada toda causa de dúvida”10, a segurança pressupõe ausência de dúvida que só pode aparecer quando: “a contingência é dobrada por nosso poder sobre as circunstâncias”11. Ou seja, se a segurança é o afeto mais forte capaz de superar o medo e a esperança, ele só se afirma quando a ação que se desdobra na temporalidade for capaz de controlar a violência da contingência. Ela é o resultado de duas operações centrais: a moderação das paixões em relação aos bens incertos da fortuna, ou seja, o controle dos que “desejam sem medida” (cupiant sino modo), e a conservação e ampliação das circunstâncias que estão sob nosso poder, o que fornece: “os instrumentos de estabilização da temporalidade, ou seja, instituições políticas que estão e permanecem em poder dos cidadãos e da coletividade”12. Segurança é, assim, indissociável da maneira com que o corpo político, pensado como multitude, desarma a sujeição produzida pelos afetos de medo e esperança, enfrentando a contingência através da partilha entre aquilo que não pode ser submetido ao engenho humano e aquilo que pode a ele ser submetido através da institucionalização das condições que permitem à esta mesma multitude a estabilização da temporalidade. Daí uma afirmação clara como: “quanto mais nos esforçamos por viver sob a condição da razão, tanto mais nos esforçamos por depender menos da esperança e por nos livrar do medo, por dominar, o quanto pudermos, o acaso (fortunae), e por dirigir nossas ações de acordo com o conselho seguro da razão”13.

Notemos como o tempo aparece assim como a potência fundamental do que nos desampara. Medo e desamparo são, em seu sentido mais profundo, afetos produzidos pela expectativa de amparo diante da temporalidade produzida por uma contingência que nos despossui de nossa condição de legisladores de nós mesmos. Mas que a contingência apareça aqui como problema central da dinâmica política dos afetos, eis algo necessário para uma filosofia que não terá medo de afirmar: “nada existe na natureza das coisas que seja contingente”14, já que tudo seria determinado, pela necessidade da natureza divina, não apenas a existir, mas a existir e a operar de uma maneira definida, só havendo determinação necessária. A noção de contingência seria, na verdade, expressão de uma : “deficiência de nosso conhecimento”15 que, ou não compreende a ordem das causas, ou não percebe como a essência em questão comporta contradição e que, por isto, sua existência é impossível. Por isto, só a imaginação faz com que consideremos as coisas como contingentes. Do ponto de vista da razão, as relações são sempre necessárias16.

Este esvaziamento da dignidade ontológica da contingência leva a razão a perceber as coisas sob a perspectiva da eternidade, já que: “os fundamentos da razão são noções que explicam o que é comum a todas as coisas e que não explicam a essência de nenhuma coisa singular; portanto, essas noções devem ser concebidas sem qualquer relação com o tempo, mas sob uma certa perspectiva da eternidade”17. É pela recusa da temporalidade que o comum se desvela, que ele se apresenta como: “totalidade infinita imóvel de coisas singulares em movimento”18. E se Spinoza afirma que o amor excessivo por coisas que estão sujeitas a variações e da qual nunca podemos dispor (possumus) só pode ser fonte de infortúnio, a razão nos leva a ideias claras e distintas de afetos, colocando-nos mais próximo do conhecimento de Deus: “conhecimento que gera um amor por uma coisa imutável e eterna, e da qual podemos realmente dispor”19.
Um devir sem tempo
Tais proposições não deixarão de ter consequências políticas claras. Pois é um verdadeiro devir sem tempo que a razão, segundo Spinoza, nos propõe. Há devir porque a vida política conhece movimento e processo, haja vista a compreensão anti-contratualista de que leis e acordos que se demonstraram necessários sejam abandonados por não serem mais úteis. Ou seja, viver de acordo com a razão não implica eternidade das instituições e normas. “Um pacto não pode ter qualquer força a não ser em função de sua utilidade e, desaparecida esta, imediatamente o pacto fica abolido e sem eficácia”20. No entanto, há de se tirar as consequências de não ser a partir da contingência que se cria, mas contra ela. Pois isto significa: a política em Spinoza desconhece a necessidade de integrar o reconhecimento do caráter impredicável da contingência como motor contínuo da transformação política, já que a contingência só poderia produzir todas as paixões que mobilizam a imaginação a criar suas fantasias de amparo. O que nos permite afirmar para Spinoza a política é forma humana de esvaziar o tempo.

Podemos falar nesta função da política como esvaziamento porque, para haver tempo, faz-se necessário que as mudanças sejam impredicáveis, que as transformações não sejam o efeito imanente de uma causa eternamente presente. Para haver tempo em um sentido estrito, não basta que fatos ocorram, que corpos entrem em movimento permitindo-me perceber um estado anterior e outro posterior, que devires se desdobrem de uma causa imanente retroativamente apreensível. Faz-se necessário que o modo estrutural de compreensão das relações também obedeça a mudanças e rupturas, tendo uma gênese e um perecimento advindo do impacto da contingência como acontecimento. A ideia, tão bem sintetizada por Kant, de que as coisas passam dentro do tempo enquanto o tempo como forma não passa esconde a crença equivocada de que a forma do tempo não estaria submetida a mudanças, que ela não teria gênese nem esgotamento. Isto significa pensar o tempo como totalidade imóvel devido à estabilidade formal do que permite a intelecção genérica do devir. Se o tempo é uma totalidade imóvel, então tudo o que ocorre em seu interior, todos seus devires, todos os ritmos de suas sucessões, só podem ser, em seu nível formal, expressão de tal imobilidade. Por mais que coisas singulares se transformem, elas apenas desdobrarão os possíveis de uma totalidade formalmente já assegurada em sua eternidade. Por isto, pensar a mudança fundadora da experiência temporal sob a forma da “sucessão de determinações opostas”21, como o faz Kant seguindo uma tradição aristotélica, será pensar o movimento a partir da estabilidade do princípio de contagem aplicado ao que se sucede, como Aristóteles que falava do tempo como: “o número do movimento segundo o anterior-posterior”22. É esta estabilidade que se expressa em afirmações como: “Toda mudança só é possível por uma ação contínua da causalidade”23.

De certa forma, podemos dizer que é isto o que acontece em Spinoza, para quem todas as relações, temporais ou não, devem ser pensadas sob a estabilidade estrutural da causalidade e seu desvelamento retroativo imanente da univocidade da substância ou, ainda, da conveniência (convenientiam) entre ideia e ideado24. Isto implica afirmar que o modo da causalidade com suas ordens e sua constituição de relações necessárias não mudará com o tempo, não será afetado por ele, não perderá sua centralidade na determinação das relações e dos argumentos que a razão reconhece como legítimos. Muito diferente seria se as coisas singulares modificassem em continuidade a totalidade, operando mutações qualitativas na forma do tempo. Neste caso, como veremos mais a frente, não teríamos apenas tempo formal, mas um regime muito específico de tempo concreto. Por isto, é correto dizer que a imanência própria ao governo da multitude é um devir sem tempo. É este devir sem tempo que aparece como contraposição ao tempo linear do medo e da esperança. A sua maneira, este devir sem tempo trará ainda outra consequência política importante por fundamentar o horizonte de concórdia prometido pela paz social.

Neste ponto, podemos medir a distância que separa Spinoza e Hegel.


A crítica da duração
No tempo, costuma-se dizer, tudo nasce e perece. Quando dele é abstraído tudo, a saber, o que preenche o tempo, assim como o que preenche o espaço, então resta o tempo vazio, como resta o espaço vazio, ou seja, estas abstrações da exterioridade estão postas e representadas como se fossem algo para si. Mas no tempo não nasce e perece tudo, antes o próprio tempo é o devir, o nascer e o perecer, a abstração existente, Cronos que tudo engendra e destrói seus filhos25.
É claro aqui como Hegel recusa a noção de que haveria uma pura forma do tempo, assim como uma pura forma do espaço, estabelecidas como condição geral de possibilidade para o movimento e a mudança. Tomadas como formas puras da intuição, tempo e espaço são, segundo Hegel, abstrações da exterioridade ou, se quisermos pecar por certo anacronismo, são reificações. Não pode haver dedução transcendental das categorias de tempo e espaço, o que não é de se estranhar para uma filosofia na qual: “toda constituição transcendental é uma instituição social”26. O que aparentemente é confirmado quando Hegel afirma que a temporalidade (Zeitliche) é uma determinação objetiva das coisas, e não uma determinação subjetiva do sujeito que as apreende. “O processo das próprias coisas efetivas produz o tempo”27 (macht also der Zeit), isto não apenas no sentido da mudança que percebemos nas coisas, sua geração e destruição, nos revelar a existência do tempo, um topos clássico que insiste como, se as coisas não mudassem nem se movessem, não seria para nós possível perceber o tempo que passa. Se devemos afirmar que o processo das próprias coisas efetivas produz o tempo é por tal processo concreto fazer o tempo nascer e perecer, modificar seu modo de passagem, paralisá-lo ou acelerá-lo, tirá-lo, por exemplo, do regime da sucessão para colocá-lo no interior de uma dinâmica de simultaneidades. O tempo é engendrado pelo processo das coisas porque o próprio tempo é uma processualidade formalmente cambiante. Há uma plasticidade fundamental do tempo, o que talvez nos explique porque Hegel se vê na necessidade de afirmar que o próprio tempo é o devir, o nascer e o perecer. Problema de plasticidade cuja centralidade não deve nos estranhar, já que é o problema da estrutura de um tempo em revolução que se coloca no centro da reflexão filosófica de Hegel. Se é fato que: “a Revolução Francesa permanecerá o centro decisivo da filosofia hegeliana: o evento que cristaliza a intemporalidade da experiência histórica”28 há de se lembrar que um tempo em revolução é, no seu ponto de vista estrutural, tempo que abandonou a ilusão da estaticidade de suas determinações formais, que engendra outras categorias de movimento e mudança a partir do processo efetivo das coisas.

Mas se assim for, o que dizer desta tendência muda da dialética hegeliana em procurar superar o tempo em direção à eternidade do conceito; movimento que, ao menos exteriormente, parece recuperar a defesa spinozista de que a razão concebe necessariamente sob a perspectiva da eternidade? Pois não é possível esquecer como Hegel afirma claramente: “o próprio tempo é eterno em seu conceito”, assim como ele não temerá construir uma aparente oposição entre tempo e conceito já presente em célebre passagem do capítulo final da Fenomenologia do Espírito:


O tempo é o próprio conceito que é aí e que é representado pela consciência como intuição vazia. Por isto, o Espírito se apresenta (erscheint) necessariamente no tempo, e ele se apresenta no tempo enquanto não apreende seu puro conceito; o que significa, enquanto não elimina (tilgen) o tempo. O tempo é a intuição exterior do puro Si não apreendido pelo Si, ele é apenas o conceito intuído. Quando o conceito se auto-apreende, ele supera (aufheben) sua forma temporal (Zeitform), conceitua o intuir e é intuição conceituada e conceituante29.
Notemos, no entanto, a especificidade desta eternidade do conceito. Duas características devem nos chamar a atenção, a saber, a distinção entre eternidade e duração, assim como a definição da eternidade como “presente absoluto”30. Sobre a primeira característica, Hegel dirá: “a duração é por isto distinta da eternidade, pois ela é apenas a superação (Aufhebung) relativa do tempo. Mas a eternidade é infinita, ou seja, não relativa, um duração em si refletida”31. A duração é apenas uma superação relativa do tempo porque a eternidade não pressupõe estaticidade ou permanência. Se Hegel afirma que na auto-apreensão do conceito ocorre a superação do tempo, há de se lembrar que algo da inquietude do tempo é conservada pelo eterno movimento do conceito.

A este respeito, não é mero acaso a insistência na desqualificação da permanência própria às reflexões hegelianas sobre o tempo e a história. Basta lembrarmos do sentido de uma afirmação como: “Os Persas são o primeiro povo histórico, porque a Pérsia é o primeiro império que desapareceu (Persienist das erste Reich, das vergangen ist)”32 deixando atrás de si ruínas. Esta frase de Hegel diz muito a respeito daquilo que ele realmente entende por “progresso” no interior de sua filosofia da história. O progresso é a consciência de um tempo que não está mais submetido à simples repetição, mas que está submetido ao desaparecimento. “Progresso” não diz respeito, inicialmente, a uma destinação, mas a uma certa forma de pensar a origem. Pois, sob o progresso, a origem é o que, desde o início, aparece marcada pela impossibilidade de permanecer. “Origem” é, na verdade, o nome que damos à consciência da impossibilidade de permanecer em uma estaticidade silenciosa. Por isto, a verdadeira origem, esta que aparece na Pérsia, é caracterizada por um espaço pleno de ruínas, por uma mistura entre tempo e fogo que tudo consome.

O ato de desaparecer é assim compreendido como a conseqüência inicial da história. Colocação importante por nos lembrar que as ruínas deixadas pelo movimento histórico são, na verdade, modos de manifestação do Espírito em sua potência de irrealização. Se os persas são o primeiro povo histórico é porque eles se deixam animar pela inquietude e negatividade de um universal que arruína as determinações particulares. Notemos como este desaparecimento não é a afirmação sem falhas da necessidade de uma superação em direção a perfectibilidade. Na verdade, há uma pulsação contínua de desaparecimento no interior da história. Esta pulsação contínua faz parte, de certa forma, do próprio telos da história. Assim, ela realiza sua finalidade quando este movimento ganha perenidade, quando ele não é mais vivenciado como perda irreparável, mas quando a desaparição, paradoxalmente, nos abre para uma nova forma de presença, liberada do paradigma da presença das coisas no espaço. O que explica porque Hegel dirá: “ Deve-se inicialmente descartar o preconceito segundo o qual a duração seria mais valiosa do que a desaparição” . Só as coisas que tem a força de desaparecer permitem que se manifeste um Espírito que só constrói destruindo continuamente suas determinações finitas.

Isto fica claro se fizermos uma leitura atenta do capítulo dedicado ao Espírito na Fenomenologia do Espírito. Lá vemos como a história do Espírito é um peculiar movimento de explicitação das rupturas e insuficiências. Não por acaso, o Espírito hegeliano se manifesta através de figuras como Antígona (com sua exposição da desagregação da substância normativa da polis), o sobrinho de Rameau (com sua exposição da desagregação da substância normativa do ancien régime), o jacobinismo (com sua afirmação de uma liberdade meramente negativa) e a bela alma (com sua exposição trágica dos limites da moralidade). Se elas desempenham papéis centrais na narrativa da história do Espírito é porque tal narrativa é fascinada pelos momentos no quais o próprio ato de narrar depara-se com sua impossibilidade, depara-se com a desagregação da língua, com a violência seca de uma morte indiferente e com o impasse sobre a norma. Neste sentido, vale a compreensão de Gérard Lebrun:


Se somos assegurados de que o progresso não é repetitivo, mas explicitador, é porque o Espírito não se produz produzindo formações finitas mas, ao contrário, recusando-as uma após outra. Não é a potência dos impérios, mas sua morte que dá razão à história (...) do ponto de vista da história do mundo, os estados são apenas momentos evanescentes33.
A temporalidade concreta
Se a eternidade do conceito não se confunde com a duração, então há de se perguntar sobre como devemos compreender seu presente absoluto, tão bem descrito em passagens como: “A eternidade não está nem antes nem depois do tempo, nem antes da criação do mundo, nem depois do mundo passar. A eternidade é o presente absoluto, o agora sem antes e depois”34. De fato, o tempo, enquanto aquilo que não sendo, é, e enquanto aquilo que sendo, não é, ignora a presença absoluta, tal como poderíamos encontrá-la, por exemplo, no tempo instantaneista cartesiano, este sim um tempo de pura presença por desconhecer potência e ser plenamente ato. Mas uma eternidade que supera o tempo, conservando-o, ou seja, recusando uma negação simples do tempo e de suas latências, também não poderá estabelecer o presente absoluto como presença absoluta. Presente absoluto é tempo sem expectativa, sem medo nem esperança por não ter mais elevado a contingência à processo que pode quebrar a imanência com a eternidade. Presente absoluto não é tempo da pura presença, que implicaria absorção integral do instante sobre si mesmo. Presente absoluto é a expressão da temporalidade concreta, expressão de como: “o presente concreto é resultado do passado e está prenhe de futuro”35, temporalidade que é a produção do processo concreto das coisas. Podemos procurar compreender sua estrutura se partimos de uma importante afirmação de Hegel:
A vida do espírito presente é um círculo de degraus que, por um lado, permanecem simultâneos (nebeneinander) e apenas por outro lado aparecem como passados. Os momentos que o espírito parece ter atrás de si, ele também os tem em sua profundidade presente36.
O presente como um círculo de degraus que aparecem, ao mesmo tempo, como simultâneos e como passados. Momentos que estão, ao mesmo tempo, atrás e presentes. Como vemos, trata-se de uma experiência temporal contraditória para a perspectiva do entendimento, mas que pode ser compreendida se lembrarmos como o conceito, enquanto expressão da eternidade, é uma forma de movimento que faz todos os processos desconexos se transfigurarem em momentos de uma unidade que não existia até então, ou seja, que é criada a posteriori mas (e este é o ponto fundamental) só pode ser criada porque coloca radicalmente em cheque a forma da unidade e da ligação tal como até então vigorou. O que não poderia ser diferente já que o conceito não é expressão de uma substância ontologicamente assegurada em sua eternidade, mas um operador de adequação pragmática. Por ser um operador pragmático, ele pode produzir performativamente formas de síntese completamente novas, implodindo as impossibilidades da linguagem com a força da confissão de outra língua que nasce. O conceito obriga o mundo a falar outra língua.

Nesta sua força de colocar em simultaneidade o que até então era radicalmente disjunto, de criar a contemporaneidade do não-contemporâneo, o conceito pode instaurar o tempo de um presente absoluto no qual não há mais nada a esperar. Mas não haver nada mais a esperar não significa que, a partir de agora, acontecimentos serão desprovidos de história ou a história será desprovida de acontecimentos. Não há nada mais a esperar porque os impossíveis podem agora se tornar possíveis, já que relações contraditórias foram reconstruídas no interior de um mesmo processo em curso. Neste sentido, podemos lembrar do que está pressuposto na própria construção hegeliana do conceito de “história universal”, desta história que é o progresso na consciência da liberdade.

Aceitar que exista algo como uma “história universal”, parece implicar que a multiplicidade de experiências históricas e temporais devam se submeter a uma medida única de tempo. Como dirá Koselleck, trata-se da consequência necessária da definição da história como “coletivo singular”. Definição que teria permitido que: “se atribuísse à história aquela força que reside no interior de cada acontecimento que afeta a humanidade, aquele poder que a tudo reúne e impulsiona por meio de um plano, oculto ou manifesto, um poder frente ao qual o homem pôde acreditar-se responsável ou mesmo em cujo nome pôde acreditar estar agindo”37. Parece ser de fato algo desta natureza que Hegel teria em mente ao falar do espírito do mundo como “alma interior de todos os indivíduos”, como um corpo social unificado na multiplicidade de seus espaços nacionais pelas mãos de plano que é a versão secularizada da Providência.

No entanto, a figura do círculo de degraus, ao mesmo tempo, simultâneos e passados não permite pensar unificações temporais redutíveis a um plano geral unívoco a partir do qual todos os devires se extrairiam. Melhor pensar no advento de um tempo definido como a relação entre tempos que são incomensuráveis sem serem indiferentes entre si, o que não é sem relação com o fato dos espaços nacionais animados pelo espírito do mundo não poderem, por sua vez, ser submetidos a um plano comum de paz eterna sem darem lugar a decisões soberanas marcadas pela contingência. Os espaços nacionais que compõem a história universal entram em relação sem garantia alguma de paz e estabilidade38.

Da mesma forma, tempos incomensuráveis mas não indiferentes interpenetram-se em um processo contínuo de mutação. Algo muito diferente da universalidade produzida pelo primado do tempo homogêneo, mensurável e abstrato da produção capitalista global, tão bem descrita por Marx. Neste sentido, falar em “história universal” implica simplesmente defender que temporalidades incomensuráveis não são indiferentes. Tal interpenetração de temporalidades incomensuráveis significa abertura constante àquilo que não se submete à forma previamente estabilizada do tempo, o que faz da totalidade representada pela história universal, do presente absoluto que ela instaura, uma processualidade em contínua reordenação, por acontecimentos contingentes, da forma das séries de elementos anteriormente postos em relação. Daí sua plasticidade cambiante.

Neste sentido, podemos dizer que as relações entre os momentos obedecem a um processo de transfiguração da contingência em necessidade, que não implica negação simples da contingência. Em Hegel, a contingência não é vista como fruto de um “defeito de nosso conhecimento”, mas é integrada como momento de um processo de constituição da necessidade a partir de uma historicidade retroativa. Hegel determina a contingência como uma “necessidade exterior”39, já que é acontecimento que aparece como causado por outra coisa que si mesmo, não se integrando na imanência de uma “necessidade interior” que põe suas próprias circunstâncias. No entanto, esta exterioridade não é um erro a respeito do qual devemos abstratamente negar, mas um momento necessário resultante do fato da imanência não estar imediatamente posta, dela ser construída retroativamente a partir da liberalidade da razão em procurar integrar retroativamente o que se produziu a partir de acontecimentos contingentes.

Tal liberalidade exige, no limite, pensar a totalidade posta pela história universal como um sistema aberto ao desequilíbrio periódico, pois a integração contínua de novos acontecimentos inicialmente experimentados como contingentes e indeterminados reconfigura o sentido dos demais anteriormente dispostos. Se quisermos, podemos afirmar que um belo exemplo deste movimento é a maneira com que Hegel lembra que o Espírito pode “desfazer o acontecido” (ungeschehen machen kann40) reabsorvendo o fato em uma nova significação. É só em uma totalidade pensada como processualidade em plasticidade formal contínua que o acontecido pode ser desfeito e que as feridas do Espírito podem ser curadas sem deixar cicatrizes41. Neste ponto, é difícil não concordar mais uma vez com Lebrun, para quem: “Se a História progride é para olhar para trás; se é progressão de uma linha de sentido é por retrospecção (...) a ‘Necessidade-Providência’ hegeliana é tão pouco autoritária que mais parece aprender, com o curso do mundo, o que eram os seus desígnios”42.

Por outro lado, isto pode nos explicar porque não há tempo formal nem mero devir sem tempo em Hegel, mas uma espécie muito específica de temporalidade concreta. Pois não se trata de definir as formas gerais da experiência do tempo com sua normatividade imanente limitadora dos modos possíveis de experiência da consciência. Trata-se de explicar como as formas temporais são empiricamente engendradas e modificadas através da interpenetração contínua e da integração retroativa de temporalidades descontínuas que foram, por sua vez, produzidas pelo “processo das coisas efetivas”. O tempo não aparece assim como uma normatividade transcendental. Ele é um campo de relações plasticamente reconfigurado ( nas suas dimensões de passado, presente e futuro) a partir do impacto de acontecimentos inicialmente contingentes.


Glorificar o existente
Mas voltemos a esta força do Espírito de “desfazer o acontecido” pois ela pode nos fornecer mais orientações sobre o que está em jogo no conceito de presente absoluto. Muitas vezes pareceu, com tal força, estarmos diante da defesa de uma teoria do fato consumado que transfigura as violências do passado em necessidades no caminho de realização da universalidade normativa de um Espírito que conta a história a partir da perspectiva de quem está a: “deificar aquilo que é”43. A confiança no Espírito seria a senha para um certo quietismo em relação ao presente. Melhor seria definir o espírito do mundo: “objeto digno de definição, como catástrofe permanente”44, ou seja, consciência desperta do que foi necessário perder, e do que ainda é necessário, no interior do processo histórico de racionalização social. Pois pode parecer que uma filosofia a procura de explicar como os “homens históricos” [geschichtlichen Menschen], ou ainda, os “indivíduos da história mundial” [welthistorischen Individuen] serão aqueles cujos fins particulares não são postos apenas como fins particulares, mas que submeteram tais fins à transfiguração, permitindo que eles contenham a “vontade do espírito do mundo” [Wille des weltgeistes] só poderia nos levar a alguma forma de justificação do curso do mundo, como temia Adorno em sua Dialética negativa, repetindo uma crítica já feita por Nietzsche em sua Segunda consideração intempestiva45 e por Marx quando acusa Hegel de “glorificar o existente”46. Pois sendo a vontade do Espírito do mundo aquilo que se manifesta através do querer dos homens históricos, então como escapar da impressão de que, retroativamente, a filosofia hegeliana da história constrói a universalidade a partir daquelas particularidades que conseguiram vencer as batalhas da história? Como dirá Nietzsche: “quem aprendeu inicialmente a se curvar e a inclinar a cabeça diante do ‘poder da história’ acaba, por último, dizendo ‘sim’ a todo poder”47.

Escapa-se desta impressão, entretanto, explorando melhor duas características fundamentais da ação histórica em Hegel, a saber, sua natureza inconsciente e sua força de recuperar o que parecia perdido, de reativar oportunidades perdidas que pareciam petrificadas, isto através da reabertura do que está em jogo no presente. Sobre este segundo ponto, lembremos como, quando o Espírito sobe à cena e narra a história, sua prosa é radicalmente distinta da prosa dos indivíduos que testemunham fatos. Primeiro porque o Espírito não testemunha; ele totaliza processos revendo o que se passou às costas da consciência. Ele é a coruja de Minerva que rememora, que só alcança voo depois do ocorrido. Uma totalização que não é mera recontagem, redescrição, mas construção performativa do que, até então, não existia. Pois um relato não é apenas uma relato. Ele é uma decisão a respeito do que terá visibilidade e será percebido daqui para a frente, por isto as acusações que vem na filosofia hegeliana uma forma de “passadismo” erram completamente de alvo.



A este respeito, lembremos de, por exemplo, Vittorio Hösle, para quem o passadismo de Hegel mostraria como: “filosofia é recordação, olhar retrospectivo ao passado, não prolepse e projeto do que há de vir, do que há de se tornar realidade, E, na medida em que o que deve ser não está ainda realizado, não pode interessar à filosofia; ela apenas deve compreender o que é e o que foi. A pergunta kantiana “Que devo fazer?” não tem, assim, nenhum lugar dentro do sistema hegeliano. Uma resposta a ela poderia no melhor dos casos rezar assim: “Reconheça o racional na realidade””48. Nada mais distante da perspectiva que gostaria de defender, pois tal posição pressupõe que “recordar” equivale a redescobrir fatos que foram arquivados na memória social. Se é verdade que, para Hegel, filosofia é recordação, vale lembrar que todo ato de rememoração é uma reinscrição do que ocorreu a partir das pressões do presente49. Rememorar é ainda agir, e não simplesmente chegar depois que a realidade já perdeu a sua força. Antes, é mostrar como o passado está em perpétua reconfiguração, redefinindo continuamente as possibilidades do presente e futuro. Neste sentido, ignorar a força de decisão da descrição do passado é operar com a ficção da história como um quadro estável “do que realmente ocorreu”, “wie es eigentlich gewesen”, como dizia Ranke. No entanto, seremos mais fieis a Hegel se afirmarmos que o passado é o que está perpetuamente ocorrendo, pois ele não é composto de uma sucessão de instantes que são desconexos entre si. Ele é composto por momentos em retroação.
O trabalho de luto do conceito e seus fantasmas
Podemos compreender melhor esta força performativa da rememoração se explorarmos a maneira com que a narrativa da história em Hegel se assemelha, em certos pontos importantes, à elaboração de um trabalho de luto50, fato difícil de negligenciar em alguém que descreve a sequência de experiências da consciência em direção ao saber absoluto como um “caminho do desespero”. Neste sentido, talvez não haja momento mais claro do que esta passagem canônica de A razão na história:
Tudo parece passar, nada permanecer. Todo viajante já sentiu tal melancolia. Quem esteve diante das ruínas de Cartago, Palmira, Persépolis, Roma sem entregar-se a observações sobre a transitoriedade dos impérios e dos homens, sem cobrir-se de tristeza por um vida passada, forte e rica?51.
De novo, as ruínas; cuja descoberta aparece agora inicialmente como signo de melancolia. Uma melancolia que parece expressar fixação em uma passado arruinado que aparentemente poderia ter sido outro, deveria ter permanecido em seu esplendor. Fixação que desqualifica o existente por ele pretensamente não estar à altura das promessas que as ruinas das grandes conquistas um dia enunciaram. O que poderia esta melancolia produzir além do circuito da perda e da reparação, além da crença de que a transitoriedade nos revela o sofrimento de nossa vulnerabilidade extrema diante da contingência e do gosto amargo do presente? Ainda mais se lembrarmos que: “a história universal não é o lugar de felicidade”. Posição melancólica na qual a rejeição do existente (o que poderia ter sido o presente se Cartago, Palmira, Roma não tivessem tal destino?) pode facilmente se transmutar em acomodação conformista com o que é.

Mas é para nos livrar da fixação melancólica no passado, abrindo uma processualidade retroativa, que o conceito trabalhará. Daí porque, no mesmo trecho, Hegel, não deixará de dizer: “Mas a esta categoria da mudança liga-se igualmente a um outro lado, que da morte emerge nova vida”. É importante lembrar, no entanto, como tal trabalho de luto não opera por mera substituição do objeto perdido através do deslocamento da libido. Dar a tal deslocamento o estatuto de uma substituição equivaleria a colocar os objetos em um regime de intercambialidade estrutural, regime no interior do qual a falta produzida pelo objeto perdido poderia ser suplementada em sua integralidade pela construção de um objeto substituto a ocupar seu lugar. Um mundo de balcão de trocas sem prazo de vencimento. Se, como diz Freud, o homem não abandona antigas posições da libido mesmo quando um substituto lhe acena é porque não se trata simplesmente de substituição. O tempo do luto não é o tempo da reversibilidade absoluta. O desamparo que a perda do objeto produz não é simplesmente revertida. Por isto, vincular o luto a uma operação de esquecimento seria elevar a lobotomia a ideal de vida.

Nem substituição, nem esquecimento, o luto não significa deixar de amar objetos perdidos. A respeito do luto, Freud fala de um tempo de latência no qual: “uma a uma, as lembranças e expectativas pelas quais a libido se ligava ao objeto são focalizadas e superinvestidas e nelas se realiza o desligamento da libido”52. Tal desligamento não é um esquecimento, mas uma “operação de compromisso” a respeito da qual Freud não diz muito, da mesma forma como não diz muito a propósito de um processo estruturalmente semelhante ao luto, a saber, a sublimação. Talvez seja o caso de afirmar que tal operação de compromisso própria ao trabalho de luto é indissociável da abertura a um forma de existência entre a presença e a ausência, entre a permanência e a duração. Uma existência espectral que, longe de ser um flerte com o irreal, é existência objetiva do que habita em um espaço que força as determinações presentes através de ressonâncias temporais53.

Como Derrida compreendeu bem, a respeito de Marx: “A semântica do Gespenst assombra a semântica do Geist54. Esta proximidade, à sua maneria, vale também para Hegel. Pois a existência do Espírito é descritível apenas em uma linguagem de espectros que animam os vivos, que dão à realidade uma espessura espectral pois é vida daquilo que, nos objetos mortos, nunca estava destinado à desaparição, vida do que ainda pulsa tomando o espírito de outros objetos em uma metamorfose contínua. Metamorfose que Hegel não temeu em encontrar sua primeira elaboração imperfeita na representação oriental da transmigração das almas (Seelenwanderung)55. Nada melhor que o Espírito hegeliano mostra, mesmo que Derrida não queira aceitar, como:


Se há algo como a espectralidade, há razão para duvidar desta ordem asseguradora de presentes e sobretudo desta fronteira entre o presente, a realidade atual ou o presente do presente a tudo o que podemos lhe opor: a ausência, a não-presença, a inefetividade, a inatualidade, a virtualidade ou mesmo o simulacro em geral, etc. Há de se duvidar inicialmente da contemporaneidade a si do presente. Antes de saber se podemos diferenciar o espectro do passado e este do futuro, do presente passado e do presente futuro, faz-se necessário talvez perguntar se o efeito de espectralidade não consistiria em desmontar tal oposição, mesmo tal dialética, entre o presente efetivo e seu outro56.

Derrida não percebeu como é através deste efeito de espectralidade que , em Hegel, desaparece a desaparição, é assim que o Espírito se afirma como processo de conversão absoluta da violência das perdas e separações em ampliação do presente. Pois esse espaço de metamorfoses produzido pelo luto é uma figura privilegiada da linguagem de temporalidades múltiplas que se interpenetram. Por isto, podemos dizer que o trabalho de luto não é construção de processos de substituição próprias a uma lógica compensatória. Ele é produção de uma temporalidade que pode se dispor em um presente absoluto. Não se trata assim de justificar a realidade mas, de certa forma, desrealizá-la mostrando como os espectros do passado ainda estão vivos e prontos a habitarem outros corpos, a abrirem outras potencialidades.



Por isto, o trabalho de luto do conceito nunca poderia ser compreendido como uma astuta operação de resignação, como várias vezes foi sugerido, de Marx até Deleuze. Ele é uso da força do desamparo na dissolução dos bloqueios do presente, na transformação concreta da experiência do tempo a fim de produzir uma forma inaudita de confiança e abertura. É tendo isto em vista que podemos compreender os parágrafos finais da Fenomenologia do Espírito, dedicados ao saber absoluto, estes que, ao falarem da história como devir do Espírito, afirmam:
Este devir apresenta uma sucessão de espíritos e um movimento lento, uma galeria de imagens na qual cada uma dotada com toda a riqueza do Espírito e ele se move de forma tão lenta para que o Si possa assimilar e penetrar toda riqueza de sua substância. Como a realização do Espírito consiste em saber integralmente o que ele é, saber sua substância, este saber é seu ir-para-si (In-sich-gehen) através do qual o Espírito deixa sua existência (Dasein) e transfere sua figura (Gestalt) à rememoração. Em seu ir-para-si, o Espírito é absorvido pela noite da consciência-de-si, mais sua existência desaparecida conserva-se nele, e sua existência superada (aufgehobne) – esta precedente, mas que renasceu pelo saber – é a nova existência, um novo mundo e uma nova figura do Espírito. Nela, o Espírito deve recomeçar naturalmente (unbefangen) em sua imediatez desde o início e daí recuperar novamente sua grandeza, como se todo precedente fosse para ele perdido e ele nada houvesse aprendido da experiência dos espíritos anteriores. Mas a rememoração (Erinnerung) lhes conservou; ela é o interior e, na verdade, a forma mais elevada da substância. Se este espírito recomeça sua formação desde o início, como se partisse apenas de si, é na verdade de um nível mais elevado que ele começa57.
Sim, a história é uma rememoração na qual as formações do Espírito passam como uma galeria de imagens diante das quais é necessário demorar-se, passar mais de uma vez, como quem está diante da perlaboração de um luto. Desta forma, o Espírito transfere a existência à rememoração. No entanto, tal transferência é bastante singular por parecer inicialmente um esquecimento, por nos fazer adentrar na noite da consciência de si. Pois o Espírito recomeça como se nada houvesse aprendido, como se houvesse tudo perdido, desamparado por ter tudo perdido. Mas tal perda total é uma necessidade, pois ela significa simplesmente que este “novo mundo”, que esta “nova existência” é resultado da força do Espírito em abrir novos começos com a naturalidade de quem nada tem mais a carregar nas costas, com a naturalidade de quem cura suas feridas sem deixar cicatrizes, desfazendo o acontecido. Ao agir como se houvesse esquecido, o Espírito pode reencontrar as experiências passadas em uma forma mais elevada, retomá-las de um ponto mais avançado, pois ele perceberá que simplesmente deixou a profundidade inconsciente das experiências agirem através de seus gestos, deixou seus espectros habitarem seus gestos. Nunca se perde nada, apenas se termina um mundo que já não pode mais ser sustentado, que já deu tudo o que podia dar, para que outro mundo comece, reconfigurando o tempo das experiências passadas em outro campo de existência, em outro modo de existência. Assim, o Espírito reencontra o destino produtivo das experiências que o desampararam. Nenhum passadismo, nenhuma glorificação do existente. Apenas a crença de que nenhum fato poderá nos fazer perder, de uma vez por todas, a possibilidade de recomeçar. Pois:
O cosmo, o mesmo para todos, não o fez nenhum dos deuses nem nenhum dos homens, mas sempre foi, é e será fogo sempre vivo, acendendo-se segundo medidas e segundo medidas apagando-se58.


1 Ver, a este propósito as relações entre criação contínua e tempo descontínuo em WAHL, Jean; Du rôle de l’idée d’instant dans la philosophie de Descartes, Paris: Alcan, 1920.

2 A este respeito, ver BODEI, Remo; Geometria delle passioni: paura, speranza, felicitá, op. cit., pp. 72-82

3 KOSELLECK, idem, pp. 306-327

4 SPINOZA, Bento; Etica, op. cit., p. 243

5 SPINOZA, Bento; Tratado teológico-político, Lisboa: Imprensa Nacional, 1988, p. 112

6 BODEI, Remo; idem, p. 78

7 SPINOZA, Bento; Ética, op. cit., pp. 243-245

8 SPINOZA, Bento; Ética, op, cit. p. 187.

9 SPINOZA, Bento; Tratado teológico-político, op. cit,. p. 367

10 SPINOZA, Bento; Etica, op. cit., p. 245

11 CHAUÍ, Marilena; idem, op. cit., p. 191

12 Idem, p. 172

13 Idem, p. 321

14 Idem, p. 53

15 Idem, p. 57

16 “É da natureza da razão perceber as coisas verdadeiramente, a saber, como são em si mesmas, isto é, não como contingentes, mas como necessárias” (idem, p. 139)

17 Idem, p. 141

18 BADIOU, Alain; L’être et l’évènement, Paris: Seuil, 1982, p. 135

19 SPINOZA, Bento; Ética, op. cit., p. 389

20 SPINOZA, Bento; Tratado teológico-político, op. cit., p. 312

21 KANT, Immanuel; Crítica da razão pura, Lisboa: Calouste Gulbenkian, B 291/ A461

22 ARISTÓTELES, Physique – livres I-IV, Paris: Belles Lettres, 2012, 219b

23 ARANTES, Paulo; Hegel: a ordem do tempo, São Paulo: Hucitec, 2000, p. 114

24 SPINOZA, Bento; Ética, op. cit., p. 79

25 HEGEL, G.W.F.; Enzyklopädie, op. cit., par. 258

26 BRANDOM, Robert; Tales of the mighty dead,

27 HEGEL, G.W.F.; idem, par. 258

28 COMAY, Rebecca; Mourning sickness: Hegel and the french revolution, Stanford University Press, 2010, p. 5

29 HEGEL, G.W.F.; Phänomenologie des Geistes, Hambrugo: Felix Meiner, 1988, p. 324

30 HEGEL, G.W.F.; Enzyklopädie, op. cit., par. 247

31 Idem, par. 259

32 HEGEL, G.W.F.; Vorlesungenüber die Philosophie der Geschichte, p. 215

33LEBRUN, Gérard ; L’envers de la dialectique, Paris : Gallimard, 2007, p. 33

34 HEGEL, G.W.F.; Enzyklopädie, op. cit., par. 247

35 HEGEL,G.W.F.; Enzyklopädie, op. cit., par. 259

36 HEGEL, G.W.F.’ Vorlesungen über die Philosophie der Geschichte, op. cit., p. `104

37 KOSELLECK, idem, p. 52

38 Cf. a conhecida crítica de Hegel à paz eterna de Kant em HEGEL, G.W.F.; Grundlinien der Philosophie des Recht, Frankfurt: Suhrkamp, 1986, par. 333

39 HEGEL, Vorlesungen über die Philosophie der Weltgeschichte – Band 1: Die Vernunft in der Geschichte, op. cit., p. 29

40 HEGEL, Fenomenologia do Espírito II, Petrópolis: Vozes, 1991, p. 139 .

41 “As feridas do espírito são curadas sem deixar cicatrizes. O fato não é o imperecível, mas é reabsorvido pelo espírito dentro de si; o que desvanece imediatamente é o lado da singularidade (Einzelnheit) que, seja como intenção, seja como negatividade e limite próprio ao existente, está presente no fato” (idem, p. 140 – tradução modificada)

42 LEBRUN, O avesso da dialética, São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p. 34-6.

43 ADORNO, Theodor; Dialética negativa, op. cit., p. 252

44 Idem, p. 266

45 “Chamou-se, com escárnio, esta história compreendida hegelianamente o caminhar de Deus sobre a terra; mas um Deus criado por sua vez através da história. Todavia este Deus se tornou transparente e compreensível para si mesmo no interior da caixa craniana de Hegel e galgou todos os degraus dialeticamente possíveis de seu vir a ser até a sua auto-revelação: de modo que, para Hegel, o ponto culminante e o ponto final do processo do mundo se confundiriam com a sua própria existência berlinense” (NIETZSCHE, Friedrich; Segunda consideração intempestiva, Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003, p. 72)

46 MARX, Karl; O Capital- volume I, São Paulo: Boitempo, p. 91

47 Idem, p. 73

48 HÖSLE, Vittorio; O sistema de Hegel: O idealismo da subjetividade e o problema da intersubjetividade, Belo Horizonte: Loyola, 2006, p. 468.

49 Desenvolvi este ponto em SAFATLE, Vladimir; Grande Hotel Abismo, São Paulo: Martins Fontes, 2012

50 Sobre este tema ver, por exemplo, COMAY, Rebecca; Mourning sickness, op. cit.; ARANTES, Paulo; Hegel: a ordem do tempo, op. cit., e LEBRUN, Gérard; L’envers de la dialectique, op. cit..

51 HEGEL, G.W.F.; Vorlesungen über die Philosophie der Weltgeschichte – Band 1: Die Vernunft in der Geschchte, op. cit., p. 35

52 FREUD, Sigmund; Luto e melancolia, São Paulo: Cosac e Naify, 2011, p. 49

53 Ver, por exemplo, os ensaios de Jeanne Marie Gagnebin sobre a “experiência liminar” em GAGNEBIN, Jeanne Marie; Limiar, aura e rememoração: ensaios sobre Walter Benjamin, São Paulo: Editora 34, 2014

54 DERRIDA, Jacques; Spectres de Marx, Paris: Galilée, 1993, p. 175

55 HEGEL, G.W.F.; Vorlesungen über die Philosophie der Weltgeschichte, op. cit., p. 35

56 DERRIDA, Jacques; idem, p. 72

57 HEGEL, G.W.F.; Phänomenologie des Geistes,

58 HERÁCLITO; Fragmentos contextualizados, Rio de Janeiro: Odysseu, 2012, p. 135


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