Diana Palmer Série Homens do Texas 41



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Impiedoso

— Jason Pendleton e Gracie Marsh —


(Heartless)

Diana Palmer

Série Homens do Texas 41

Quando era adolescente, Gracie adorava seu meio-irmão, Jason, um jovem vaqueiro forte e calado que saiu de casa cedo para buscar sua fortuna. Embora Gracie não o visse há anos, quando sua mãe faleceu, Jason assegurou que Gracie seria cuidada. Agora, rico proprietário da fazenda Comanche Wells, Jason finalmente voltou para casa, e descobriu que a menininha que ele conhecia está completamente crescida.

Quando um momento de paixão desenfreada resulta em um beijo, Jason percebe que está apaixonando-se por Gracie. Mas Gracie guarda um vergonhoso segredo que a deixa profundamente com medo do amor. Ofendido por sua rejeição, Jason vai embora, pronto para pôr o passado—e a única mulher que ele não pode ter—para trás mais uma vez.

Gracie pensa que perdeu Jason para sempre. Mas quando o perigo ameaça a sua vida e ao rancho, ela apenas pode esperar que o seu homem do Texas venha para casa salvá-la, apesar de seus segredos—e tomar o controle de Comanche Wells, e de seu coração, de uma vez por todas.

Para o Departamento Artístico: seu belo trabalho na capa me ajudou muito.

Eu valorizo sua criatividade e dedicação.

Obrigada do fundo de meu coração…



Diana Palmer
Capítulo 1
O celular de Gracie Marsh tocou exibindo o tema do mais novo filme de ficção científica. Ela pulou, e a terra do jardim que limpava sujou o impecável suéter amarelo.

— Oh, droga — ela murmurou, secando as mãos no jeans velho antes de procurar o aparelho barulhento no bolso.

— De onde vem essa música? — A senhora Harcourt, governanta da casa, perguntou da varanda, onde plantava flores em um vaso.

— É o meu celular, senhora Harcourt — Gracie esclareceu — Provavelmente seja Jason… Alô? — ela arfou.

Houve um silêncio divertido.

— Não me diga — disse a voz profunda e máscula — Que você está até o pescoço de sujeira e agora seu bolso e seu celular também estão.

Ela sorriu apesar de sua frustração. Seu meio-irmão a conhecia melhor do que ninguém.

— Sim — ela admitiu.

— Eu xingaria.

— Eu disse “droga” — ela respondeu.

Ele suspirou.

— Eu tenho que lhe dar umas palmadas, Gracie. Algumas situações exigem algo mais elegante e discreto do que “droga”.

— Você é experiente — ela devolveu, recordando que ele falava duas línguas fluentemente — Especialmente quando um dos vaqueiros faz algo que você não gosta — ela franziu a testa — Onde você está?

— No rancho — ele disse.

O rancho era sua propriedade em Comanche Wells, onde ele criava gado Santa Gertrudes e uma marca nova de sementes japonesas que era a base para o famoso carne Kobe. Jason Pendleton tinha milhões, mas ele raramente ficava na mansão da família em San Antonio, onde Grace passava a maior parte de seu tempo. Jason só aparecia lá a negócios, mas seu coração estava no rancho Santa Gertrudes. A maior parte do ano ele vivia lá. Ele podia lidar com os negócios internacionais, promover encontros, dirigir corporações enormes e organizar festas incríveis, com a ajuda de Gracie com anfitriã. Mas a maior parte do tempo ele estava em casa vestindo jeans, botas e chapéu, trabalhando com o gado.

— Por que você ligou? — ela perguntou — Você precisa de alguém para lhe ajudar na marcação do gado? — ela provocou, já que ele lhe havia ensinado a fazer isso — e muitas outras coisas — com o passar dos anos. Ela se sentia tão bem no rancho quanto ele.

— Estação errada — ele respondeu — Nós marcamos as crias na primavera. É final de agosto. Quase outono.

Ela franziu a testa.

— Então o que você está fazendo?

— Recolhendo os animais, praticamente. Mas nesse exato momento eu estou me preparando para ir a um leilão em San Antonio — ele disse — Eles tem alguns novilhos Santa Gertrudes que eu quero — ele acrescentou, se referindo à criação nativa de gado que fora encontrada no famoso King Ranch próximo a costa do Texas — Criaremos as novilhas para que elas possam parir na próxima primavera.

— Oh — ela tentou recordar o que aquilo queria dizer.

Ele suspirou alto.

— Novilhas são vacas jovens que ainda não se reproduziram — ele explicou novamente — Elas vão substituir as vacas que eu tive que vender, pois não dariam cria neste ano.

— Desculpe — ela murmurou, não querendo enfatizar seus problemas de memória. Ela esquecia coisas, tropeçava em degraus, sentia tonturas nos lugares mais inesperados. Havia uma razão física para aqueles lapsos, que ela nunca dividira com Jason, não desde que ela e sua mãe haviam se mudado para a casa dele e de seu pai há quase doze anos atrás. Sua mãe desejava freneticamente esconder o passado, fazendo Gracie jurar silêncio. Cynthia Marsh havia dito a todo mundo que Graciela era sua enteada, não sua filha de verdade, para que nenhuma investigação sobre o passado de Graciela fornecesse informações sobre sua filha, ela e seu último marido que pudessem prejudicar o lugar de Graciela na família Pendleton. O pai de Graciela, um viúvo com uma filha jovem, havia morrido na guerra do Golfo, Cynthia enfatizava várias e várias vezes. Não era a verdade, claro. A verdade era mais traumatizante.

— Um dia você aprende tudo — ele disse brandamente. Era muito paciente com ela, como ninguém nunca havia sido.

— Por que você está ligando se não precisa de uma ajuda extra no rancho? — ela perguntou alegremente.

— Eu achei que você gostaria de ir ao leilão comigo — ele disse confortavelmente — Eu lhe pago um almoço quando terminar.

Ela sorriu.

— Eu adoraria.

Ela não gostou só da companhia, como adorou a atmosfera no leilão. Estava sempre lotado, sempre divertido. Ela adorava ouvir a voz do leiloeiro quando ele impulsionava os compradores a pagar mais e mais caro pelas variedades de gado. Ela gostava dos outros vaqueiros que apareciam por lá, muitos de Comanche Wells, assim como de Jacobsville, que ficava a poucos quilômetros de Comanche Wells. Havia um grupo seleto de rancheiros leias ao meio-ambiente ao qual Jason pertencia. Eles plantavam velhas gramíneas que faziam bem a terra, ainda providenciavam habitats aos animais selvagens, usavam métodos modernos de procriação que não faziam mal a ecologia, e tratavam muito bem o gado puro-sangue. Esses vaqueiros nunca usavam hormônios de crescimento e apenas usavam os antibióticos necessários, mais particularmente aqueles que preveniam problemas pulmonares bovinos. Não usavam pesticidas perigosos para controlar ervas daninha e pestes. Cy Parks havia introduzido a idéia de usar insetos predadores para controlar as pestes. A ausência de substancias venenosas nas plantas ajudava no crescimento das colônias de abelhas, que eram essenciais na polinização de grãos e na colheita de sementes.

Nenhum dos grupos ecológicos do distrito Jacobs criava gado de corte; eles eram todos produtores de rebanhos e jovens touros campeões, vacas e novilhos, que eles vendiam para melhora do rebanho. Isso fazia com que eles criassem problemas com produtores de carne que queriam um lucro mais rápido. Houvera um número notável de brigas em conferências de gados no último ano. Jason havia se envolvido em uma delas. Gracie havia lhe retirado da cadeia, gargalhando quando o vira desgrenhado, sangrando e sorrindo como um felino quando o tiraram da cela. Ele amava uma boa briga.

— Eu disse que lhe pego em vinte minutos — repetiu, porque ela não o respondera.

— Ok. O que eu devo vestir?

— Jeans e camiseta — ele disse — Se nós usarmos roupas caras o preço vai subir em vinte dólares por cabeça antes que eu sente. Eu não quero ser reconhecido.

— Grande chance se nós aparecermos em seu Jaguar — ela zombou.

— Eu vou com uma das caminhonetes do rancho e vestirei roupas de trabalho — ele devolveu.

— Tudo bem. Eu termino de cuidar das minhas flores depois.

— Como se nós já não tivéssemos um grande número de bolbos no jardim. Você está preparando o solo para plantar mais nesse outono, não está? — ele murmurou — E aposto que você fez a senhora Harcourt ajudar com a varanda.

Ele a conhecia muito bem.

— São só amores-perfeitos — elas só duraram até o outono. Eu não irei plantas bolbos até outubro. Mas os bolbos são lindos na primavera, Jason — ela se defendeu.

— Por que eu pago um jardineiro para fazer o serviço externo? — ele grunhiu.

— Porque ele faz o serviço pesado que eu e a senhora Harcourt não conseguimos — ela disse calma — Eu vou desligar agora.

— Não me deixe esperando — ele disse — Nós mal chegaremos a tempo. Eu tive um pequeno acidente.

— Você se machucou? — ela exclamou.

Houve uma pausa delicada.

— Não — ele disse suavemente — Eu não. Um dos meus vaqueiros foi pisado por um touro. Quebrou o pé, mas ele ficará bem.

Ela soltou o ar que estivera prendendo. Jason era sua vida. Ele não sabia como ela se sentia em relação a ele. De qualquer maneira era impossível. Ela nunca poderia fazer aquelas coisas que as mulheres modernas faziam com os homens. Ela recordava sua mãe saindo do banheiro, o sangue ensopando sua camisola…

Fez uma careta.

— Eu achei que você tivesse contratado um homem para ir a leilões locais comprar gado representando o rancho.

— Eu contratei. Mas ouvi coisas sobre ele que não gostei. Ele deve estar nesse leilão. Eu mesmo posso afirmar.

— Ele irá lhe reconhecer.

— Nas roupas de trabalho? Muito difícil! Além disso, ele só me viu uma vez, atrás de uma mesa.

— Você é quem sabe. Estarei pronta.

Melhor que esteja, ou eu mesmo lhe vestirei — ele avisou.

— Jason!

Mas ele já desligara.

Ela levantou, colocando sua pá de jardinagem de lado.

— Senhora Harcourt, nós precisamos dizer ao Manuel que termine esses canteiros para mim — ela disse enquanto subia os degraus — Jason vai me levar a um leilão.

— Tudo bem, querida — a velha mulher disse com um sorriso. Ela era alta, caminhava calmamente, tinha olhos negros e um sorriso amável. Ela começara a trabalhar para a família antes de Jason nascer e era considerada um membro da mesma. Ela e a empregada, Dilly, e o chofer, John, eram todos parte da família. Haviam outros empregados que trabalhavam meio período, mas os mais antigos trabalhavam em período integral.

Gracie adorava viver no grande estado de San Antonio. A equipe ocasionalmente ia para Comanche Wells passar poucas semanas, especialmente quando Jason tinha companhia. Mesmo assim, não era a mesma sociedade local que ele convidava para a mansão de San Antonio. Geralmente eram líderes mundiais que precisavam de uma pausa no estressante cotidiano que possuíam, políticos de alto calão fugindo de escândalos, até mesmo um bilionário que queria privacidade por alguns dias. Jason escolhia seus amigos pelo caráter, não pela riqueza. Era uma das muitas coisas que Gracie amava nele. Tinha um grande coração e um ombro amigo para as pessoas que precisavam. Fazia caridades. Mas não parecia o tipo de homem de fácil aproximação.

Ele era introvertido. Era difícil para ele se relacionar com as pessoas. Conseqüentemente ele era intimidador para muitos convidados, que o achavam difícil em conversas particulares. Apenas com Gracie ele podia relaxar e ser ele mesmo. Era, pelo que ela considerava, um problema de confiança. Ele se sentia seguro com ela, como ela se sentia com ele.

Que pena, dissera sua amiga Barbara, dona de uma lanchonete em Jacobsville, que Jason e Gracie fossem irmãos, quando eles tinham tanto em comum. Gracie a lembrara de que não havia relação de sangue. O pai de Jason casara com a mãe de Gracie, que morrera semanas depois em um acidente de carro. Myron Pendleton ficara com Gracie, que não possuía nenhum outro parente vivo, e logo lhe deu outra meia-irmã, Gloryanne Barnes — agora senhora Rodrigo Ramirez — quando casara com a mãe de Glory, Beverly, meses depois. Glory e Gracie possuíam mais em comum do que as pessoas sabiam. Elas eram melhores amigas. Eram as duas contra o mundo quando estavam na escola, porque ambas possuíam cicatrizes de suas infâncias e não se sentiam confortáveis com garotos. Elas raramente namoravam. Eram alvos de brincadeiras maldosas, que Jason rapidamente e eficientemente interrompera. Mesmo hoje, Glory era a irmã que Gracie não tinha.

Ela tomou banho e secou o cabelo, vestiu um jeans com rosas bordadas em uma perna, e uma camiseta rosa. Impulsivamente escovou os longos cabelos loiros e o trançou. Sorriu para si mesma com os olhos cinza brilhando. Tinha uma pele suave com radiante maciez. Não era bonita, mas era atraente, em seu modo tímido. Franziu a testa, imaginando se era apropriado usar tranças com sua idade. Às vezes fazia coisas que pareciam estranhas para as outras pessoas. O pequeno problema em seu cérebro fizera muito dano a seu ego.

Bem, era muito tarde para se preocupar com isso agora. Colocou o casaco e vestiu as botas. O som de uma buzina atravessou a porta de entrada. Jason, impaciente como sempre.

Desceu as escadas, quase tropeçando, e lembrou de que deixara o celular em seu quarto. Hesitou. Desistiu, Jason tinha o dele. Continuou descendo as escadas em direção a porta.

— Não voltarei para o almoço — gritou.

— Tudo bem, querida — a senhora Harcourt gritou de volta.

Jason estava tamborilando o dedo no volante. Ele a observou enquanto descia os degraus da elegante mansão e corria pela entrada circular até chegar à caminhonete onde ele esperava com a porta aberta.

Ela sentou ao lado dele e bateu a porta.

— Eu sei, eu sei, estou atrasada, mas precisei tomar um banho — disse enquanto colocava o cinto de segurança — Eu não podia sair com o cabelo sujo!

Ele a observou por baixo da aba de seu Stetson. Não sorriu, mas seus olhos sim.

Ele vestia jeans também, uma jaqueta de couro velha e botas marrons cheias de manchas. A camiseta estava desbotada. Apesar da limpeza imaculada de suas belas e cuidadas mãos, parecia um vaqueiro pobre e trabalhador.

Céus, ele era sexy, ela pensou enquanto lhe lançava um olhar superficial. Alto e com ombros largos, com o físico de um ator de Hollywood, cabelo escuro em um corte convencional, a pele bronzeada que era um legado, assim como os olhos negros, de um avô espanhol. Não era convencionalmente belo, mas tinha um rosto másculo, magro e quadrado, com olhos profundos e bochechas altas, uma boca tão sensual que fazia Gracie estremecer. Ele nunca a beijara. Bem, não do modo que um homem beija uma mulher. Eles não tinham aquele tipo de relacionamento. Nem ele era um mulherengo. Ele tinha mulheres, certamente, ela sabia. Mas ele nunca as trazia em casa.

— Perdida nos pensamentos, docinho? — ele perguntou, sorrindo para ela.

— Eu estava pensando em quão belo você é — ela deixou escapar, e em seguida corou e riu nervosamente — Desculpe. Minha boca e meu cérebro estão desconectados.

Ele não sorriu. Seus olhos deslizaram pelo rosto dela e voltaram para a estrada.

— Você não é má, criança.

Ela brincou com o cinto de segurança.

— Alguém de Jacobsville irá nesse leilão?

— Cy Parks, J. D. Langley e Leo Hart — ele disse — Os Hart estão atrás de outro touro japonês para a carne Kobe. Eles estão instalando novos programas de procriação.

— Não me diga que Leo vai a um leilão de gados? — ela exclamou.

Ele riu.


— Não completamente. Mas quando consideramos como a carne japonesa vende, não é surpresa. É macia, magra e agrada aos compradores. Nós estamos em um mercado altamente consumidor, buscando novos métodos de produção e técnicas de venda para aumentar o número de vendas.

— Você não faz parte de um comitê com a associação de criadores de gado?

— Fazia. Tive que parar. Esse maldito negócio alemão está acabando comigo.

Ela recordou que ele estava lidando com uma nova companhia de computadores com negócios em Berlin que produzia um novo tipo de chip. As negociações já estavam em sua terceira semana enquanto os donos se reuniam para saber se iriam ou não aceitar o valor que Jason oferecia. Eventualmente ele precisava viajar para se reunir com eles pessoalmente, porque o homem que era responsável havia se demitido. A esposa dele era inglesa e ele queria se mudar para Londres. Jason teria que substituí-lo, mas não havia tempo para isso agora. Era uma negociação muito delicada para se trazer um estranho. Jason teria que fazer o serviço.

— Você pode mandar Grange para a Alemanha e deixá-lo lidar com eles por você — ela murmurou com um sorriso maquiavélico, nomeando seu mais novo supervisor. Grange havia trabalhado para os Ballenger, mas Jason gostava dele e o contrata por um salário maior. Grange provara ser esforçado. Seu passado militar o tornara um perfeito supervisor. O major do exército não tinha problemas em dar ordens.

Ele fez uma careta.

— Grange negocia como um militar. Você sabe que eles não o deixarão entrar no país com armas.

— Grange é grande o suficiente para intimidar os negociantes sem armas.

Ele lançou-lhe um olhar frio. Ele não gostava do modo como ela falava de Grange. Não gostava do interesse de Grange nela. Não que ele se importasse. Ele só queria ter certeza de que Grange estivesse sempre ocupado quando Gracie visitasse o rancho. Seus olhos passearam pelo corpo suave vestindo jeans e camiseta. Sua mão se contraiu violentamente sobre o volante. Gracie não percebeu. Ela sorria para um grupo de crianças que brincava no jardim de uma velha casa na beira da estrada.
O SALÃO ONDE OCORRERIA O LEILÃO ESTAVA CHEIO. Gracie caminhou atrás de Jason, parando quando ele parava para falar com criadores de gado. O leiloeiro observou Jason quando ele entrou e eles se cumprimentaram. Ela não viu criadores de gado de Jacobsville, mas havia uma pequena multidão. Eles deviam estar do outro lado do salão. Os únicos lugares livres eram ao lado de uma parede, mas ele não se importava.

Ele cumprimentou educadamente um estranho criador de gado vestindo um terno caro e botas polidas. O homem o olhava com notável desgosto, observando as roupas de vaqueiro trabalhador, completo com botas velhas, casaco manchado e camiseta desbotada.

— Ótimo dia para compras — Jason disse cordialmente.

O homem sorriu tolamente.

— Para aqueles que podem comprar algo, com certeza. Você trabalha para um rancho local? — ele acrescentou, lançando um olhar depreciativo a Jason — Eles não devem pagar muito bem — ele virou-se novamente.

Gracie notou a troca e sorriu para Jason, mas ele não devolveu o sorriso. Seus olhos estavam furiosos. Eles sentaram e esperaram que o barulho cessasse para que o leilão pudesse começar.

Ela inclinou-se na direção de Jason.

— Quem é ele? — ela sussurrou, indicando o homem na fileira em frente a deles.

Ele não respondeu. Ao invés disso, fez um gesto na direção do leiloeiro que segurava o microfone.

Ele deu boas vindas aos criadores, agradeceu pelas presenças e começou com um lote de Black Angus. Jason encostou-se, apenas observando, quando as propostas começaram.

Gracie adorava ir nesses leilões com ele. Era uma das memórias mais agradáveis de sua adolescência, caminhar com ele através dos salões e aprender sobre o negócio. Isso o irritara no começo, e então o divertira. Finalmente ele entendera que não era o negócio que a agradava, mas o prazer de sua companhia. Ela era quieta, até mesmo fria, com os garotos de sua idade e homens de qualquer idade, mas adorava Jason e demonstrava. Os anos passaram, e ela ganhou um apelido — a sombra de Jason. Ele parecia não se importar. Glory nunca se importara muito com o gado, mas Gracie sempre se sentira fascinada por ele. Mesmo agora, ele raramente chamava outra pessoa que não fosse Gracie para acompanhá-lo em leilões, comprar novos equipamentos ou até mesmo dar uma volta pela propriedade. Um solitário na maior parte do tempo, ele se sentia extremamente confortável com ela.

Ela estudou o programa e bateu levemente na mão dele. Ele observou o que ela apontava no programa e concordou.

Era o próximo lote, uma consignação de novilhas puro-sangue Santa Gertrudes. Jason tinha novilhas substituidores, como qualquer criador possuía, contra abates necessários após a estação de procriação. Mas essas jovens fêmeas eram excepcionais. Elas eram de uma divisão do King Ranch, com linhas sanguíneas raras. Jason queria melhorar seu estoque de novilhas. Era uma barganha no preço.

O leiloeiro nomeou o produto e abriu a sessão. O rancheiro a sua frente levantou a mão e aceitou o preço. Houve um aumento no preço base em dez dólares por cabeça. Jason aguçou os ouvidos. O preço pulou em vinte dólares por cabeça.

— Eu disse a você que eles sabiam que eu viria — o criador na fileira seguinte disse satisfeito — Eu não disse que os preços saltariam quando eu começasse a oferta?

Jason não disse uma palavra. Mas seus olhos estavam friamente divertidos. O vaqueiro a sua frente aumentou a oferta em dez dólares, Jason dobrou. O preço subiu em cem, quinhentos, mil, dois mil.

— Quem diabos está ofertando contra mim? — o vaqueiro a sua rente murmurou irritado para sua companhia, olhando em volta — Ninguém aqui parece ser capaz de comprar um grupo de gado, muito menos puro-sangue Santa Gertrudes.

— Oferte mais — seu companheiro sugeriu.

— Você está louco? — o homem grunhiu — Eu estou no meu limite. Eu queria entrar em contato com meu chefe, mas ele não está no escritório. Ele não ficará feliz quando souber que alguém superou minha oferta por essas novilhas. Ele estava louco por elas.

O leiloeiro ofertou novamente. O vaqueiro ficou mudo, fumegando. Jason aguçou os ouvidos.

A oferta foi feita uma, duas, três vezes, e o leiloeiro bateu o martelo e gritou “Vendido!”

Ele não nomeou o comprador, como Jason havia concordado antes do início do leilão. Ele tinha o cheque de Jason e sabia onde, e como entregar a consignação. Jason e Gracie levantaram e caminharam para fora do salão. O vaqueiro que estava na frente deles saiu também, discando números em seu celular. Ele caminhou na direção de Jason e colidiu com ele.

— Olhe por onde diabos você anda, certo? — o homem grasniu para Jason e continuou andando.

Jason observou o homem com retribuição nos olhos escuros. Mas depois de um minuto ele se mexeu confortavelmente e encarou Gracie.

— Está com fome?

— Eu poderia comer um boi — ela murmurou com os olhos brilhando — Até mesmo um Santa Gertrudes.

— Barbaridade — ele soluçou — Vamos.

Ele dirigia uma das caminhonetes do rancho. Elas eram boas, mas não as topo de linha. Ele cortava gastos onde podia. O vaqueiro irritado e seu companheiro entraram em um carro de luxo e foram embora. Era um belo carro. Mas não era da mesma linha que o jaguar de Jason.

— Eu espero que nós não entremos na frente daquele vaqueiro — ela murmurou — Ele está com um problemão.

— Ele resolve isso logo — Jason disse facilmente.

— Legal da parte dele vir até aqui e mostrar como os verdadeiros criadores de gado se vestem — Gracie disse enquanto entrava na caminhonete e colocava o cinto. Lançou um olhar aguçado na direção dele — Você nos desgraçou, se vestindo assim para um leilão!

— Fale por você — ele devolveu enquanto ligava o motor — Você também não está a rainha do baile.

— Eu estou confortável — ela disse — Você disse que não era para colocar algo caro.

Seus olhos escuros encontraram o dela e lançaram-lhe um olhar que fez seu corpo ferve.

— Você ficaria bela em um saco de farinha, querida — ele disse solenemente — Mas eu gosto da trança.

Ela riu nervosamente, piscando rápido.

— Elas são muito infantis para mim, mas eu não consegui dar um jeito no meu cabelo hoje de manhã.

— Eu gosto.

Ele entrou na estrada e dirigiu até um restaurante próximo, estacionando ao lado. Ele e Gracie pisaram na varanda no mesmo momento em que o carro de luxo parou no estacionamento.

Jason lançou-lhe um olhar divertido.

— Bem, ele tem bom gosto para comidas.

— Eu aposto que alguém disse a ele que era um bom lugar para comer — ele devolveu.

A garçonete mostrou uma mesa a eles no momento em que o vaqueiro e seu companheiro entraram no lugar.

— Olha o que o gato arrastou — Cy Parks zombou enquanto Jason e Gracie sentavam-se à mesa em frente a dele.

— Olhe quem está falando, Parks — Jason devolveu.

— Como está Lisa? — Gracie perguntou.

Cy piscou duas vezes — Grávida — ele disse com um sorriso de orelha a orelha — Está quase chegando.

— Nossa — Gracie disse suavemente — Parabéns.

— Nosso filho precisa de um companheiro — ele explicou. Ele observou enquanto J. D. Langley, Harley Fowler, que era capataz de Cy, e Leo Hart voltavam para sua mesa com pratos cheios de salada. Lançou um olhar zombeteiro a eles — Salada! Bom Deus, eu nunca achei que veria o dia em que rancheiros sentassem com pratos de comida para coelho!

— Nós nos associamos ao comitê do verde — Leo zombou — Olá, Jason. Gracie. Vieram ao leilão?

— Sim — Jason respondeu — Nós não o vimos lá.

— Nós estávamos do outro lado do salão — J. D. murmurou, olhando na direção da mesa onde o vaqueiro e seu companheiro sentavam — Evitando a praga em ternos caros.

— Quem é ele? — Gracie perguntou.

Harley Fowler sorriu para ela.

— Você deveria saber.

— Eu? — ela exclamou confusa — Eu o conheço?

— Bem, o senhor Pendleton deve conhecê-lo — Harley acrescentou.

Jason lançou um olhar zombeteiro a Harley.

— O senhor Pendleton era meu pai.

Harley corou.

— Desculpe.

— Ele não gosta de cerimônias — Gracie disse ao jovem homem sorrindo — Nós não jogamos esse tipo de jogo.

— O inferno que não — Jason disse, e seus olhos brilharam enquanto o vaqueiro caminhava na direção deles. Seu corpo ficou tenso.

— Jason — Gracie disse suavemente. Ela não queria uma briga, e Jason tinha o pavio curto. O rancheiro já o deixara louco.

— Se não é a sociedade de Jacobsville — o visitante disse com um sorriso sarcástico — Os rancheiros que criam gado como animais de estimação, em pessoa.

Jason encostou-se na cadeira, esticando as pernas.

— Não há nada mal em tratar gado de maneira decente — ele disse deliberadamente.

O homem lançou-lhe um olhar desdenhoso.

— Desculpe, mas eu não me lembro de ter pedido sua opinião. Você pode trabalhar com gado, filho, mas tenho certeza de que você não conhece nenhum. Agora por que você não cuida da sua vida e deixa os criadores de gado conversar?

Os olhos escuros pousaram nele com uma frieza capaz de congelar um homem.

— Você não conseguiu aquele lote de novilhas Santa Gertrudes, conseguiu? — Cy Parks disse calmo.

O homem fez uma careta.

— Roubaram de mim. Eu sei que você deu o lance maior.

— Não. Não fui eu. Eu consegui os bezerros Santa Gertrudes — Os olhos verdes de Cy se estreitaram — Eu soube que seu chefe lhe mandou lá para conseguir as novilhas.

O lábio do homem curvou-se.

— Me mandou lá com metade do dinheiro necessário para comprá-los — ele disse furioso — E me disse para não oferecer mais. Inferno de homem. Eu aposto que ele não conseguiria distinguir uma novilha de um bezerro, sentado em seu escritório e dizendo aos criadores de gado como comprar gado!

Cy o estudou friamente.

— Essa atitude não vai levá-lo longe na associação Pendleton.

— Não é minha culpa se o chefe não sabe comprar gado. Eu terei que educá-lo.

Houve uma pausa coletiva na respiração da mesa. Além disso, as sobrancelhas de Jason se arquearam. Ele começava a gostar da cena.

— Você sabe quem superou minha oferta naquelas novilhas? — o homem perguntou curioso.

Todos na mesa de Cy apontaram para Jason Pendleton. Gracie também.

O visitante virou-se na direção do homem que passara o dia depreciando. Jason tirou o chapéu e deslizou os olhos pelo rosto chocado do homem.

— Você comprou aquelas novilhas? Com o quê? — o rancheiro arrogante exclamou. Ele observou Gracie — Você não parece o tipo de homem que pode comprar uma vaca doente, e sua namorada com certeza não tem dinheiro. Então você trabalha para quem?

Jason não gostou do comentário sobre Gracie. Sua diversão se tornou puro desgosto.

— Eu lhe faço a mesma pergunta — ele disse friamente.

— Eu trabalho para a organização Pendleton — o homem disse.

Jason o encarou.

— Não trabalha mais.

— E quem você pensa que é para me dizer isso? — o homem exigiu.

Os olhos de Jason brilharam para ele.

— Jason Pendleton.

O rancheiro encarou o pobre vaqueiro com descrédito. Mas então, em sua mente, recordou a pintura no escritório da corporação Pendleton, acima da lareira. O homem no retrato era a cópia do homem em sua frente.

— Você é o senhor… Senhor Pendleton? — ele indagou, ficando roxo — Eu não o reconheci!

Jason brincava com seu copo de café. Seus olhos fixaram-se no homem.

— Pena — ele murmurou.

O outro vaqueiro pareceu perder a dignidade e arrogância em um minuto.

— Eu não sabia… — ele murmurou.

— Obviamente — Jason disse brusco — Eu queria ver como você operava antes de aceitá-lo como meu representante. Boa idéia. Você gosta de depreciar as pessoas, não? Bem, você não fará isso na minha empresa. Pegue o seu cheque no escritório. Eu tenho que dizer as palavras?

A boca do rancheiro entreabriu-se.

— Você não pode fazer isso comigo! Inferno, ninguém pode despedir um homem por perder uma compra…! — ele começou insolente.

Jason ficou em pé. Ele era um palmo mais alto que o homem e parecia perigoso. Os homens na mesa ao lado ficaram tensos.

— Eu disse — Jason disse em um tom lento e perigoso — pegue o seu cheque — Suas mãos se fecharam ao lado do corpo.

O companheiro do rancheiro percebeu e segurou o braço do amigo, quase o empurrando. Ele sabia coisas sobre o temperamento de Jason Pendleton que o amigo obviamente não.

Gracie segurou a mão de Jason gentilmente. Ele olhou-a e se acalmou um pouco enquanto sentava novamente. Mas observava claramente o outro homem. O companheiro do rancheiro falava fervorosamente e indicava Jason Pendleton. O rancheiro olhou na direção dos criadores de Jacobsville e fez uma carranca. Mas ele não ia até uma mesa — na verdade saía do restaurante.

— Quem é ele? — ela perguntou.

— Ele é, melhor, ele era — Jason respondeu com puro desdém — o homem que eu contratei recentemente para ir a leilões por mim. Barker. Eu te falei sobre ele, que ele estava se aparecendo por aí. Foi bom eu checá-lo. Ele nos custaria negócios, com aquela atitude. Eu não gosto de homens que julgam as pessoas pela aparência. Riqueza não mede o caráter.

— Então é por isso que você estava ofertando tão alto contra ele.

— Eu tive que empurrar para ver como ele reagia. O leiloeiro sabia o que eu estava fazendo, então eu não terei que pagar o preço mais alto. Eu fiz um trato com ele antes do leilão.

Gracie torceu os lábios e assoviou.

— Oh, menino.

— Eu aposto que não é o que Barker está falando nesse momento — Harley disse com satisfação — E é isso o que você ganha por julgar as pessoas pela aparência. Nada mal em vestir roupas confortáveis — ele lançou um sorriso a Jason e voltou sua atenção para Gracie — Eu não acredito que você sair com capatazes de rancho, senhorita Gracie, mas se você sair, eu adoraria levá-la ao Shea e mostrar quão bem eu posso valsar…

Ele parou porque Jason o encarava, com um olhar mais frio do que o qual lançara para o vaqueiro pomposo.

— Oh, desculpe, é melhor eu terminar meu almoço e voltar ao trabalho — Harley disse com um sorriso envergonhado, voltando sua atenção ao prato.

Gracie encarava Jason, que só voltou ao normal com a chegada do garçom com suas saladas e bebidas.

— O que foi aquilo? — ela perguntou hesitante quando eles voltaram para a caminhonete.

— Barker? — ele perguntou distraído.

— Não. Harley.

A mandíbula dele contraiu-se.

— Harley é um menino.

Ela ficou desconcertada.

— Ele é um bom menino — protestou.

Ele não disse uma palavra.

Ela mexeu-se no assento, a testa franzida. Jason estava muito estranho ultimamente. Não entendia porque havia tanta raiva se remoendo dentro dele. Provavelmente ele ainda estava com raiva daquele homem, Barker, e era melhor deixá-lo com seus próprios pensamentos.

Jason estava estranhamente calado durante a viagem de volta, deixando o rádio ligado entre eles enquanto dirigia. Sua atitude em relação a Harley a confundira. Não era do feitio dele ser rude com assistentes, especialmente vaqueiros, e já deixara obvio que não gostava de homens que depreciavam os pobres. Ele não conhecia Harley muito bem, mas parecia gostar do jovem rapaz. Ou pelo menos, parecia até hoje. Era como se ele estivesse com ciúme do interesse do rapaz a respeito de Gracie. Isso era estúpido, claro. Ele era carinhoso com ela, mas não havia nada fora do comum em seu comportamento. Era apenas um pensamento bobo. Ela fez uma careta, ao imaginar como reagiria se Jason a tratasse como se fosse seu amante. Amor era uma coisa. Sexo… bem, era aterrorizante. Ela não tinha certeza de que poderia fazer isso. Nem mesmo com Jason, e ele vinha sendo o único homem em sua vida e em seu coração durante anos.

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