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Paulo

Para compreender melhor os escritos de Paulo, é importante conhecer o próprio Paulo. Quem foi ele, como ele viveu, que curso teve sua vida, e, depois de convertido, como foi o sei Ministério. Senão, as cartas tornam-se muito impessoais, e a grande maioria não encontra como aplicá-las em sua vida. Na verdade, não há por que ler as cartas de Paulo apenas para conhecer os problemas daquela época, mas para lança luz às nossas vidas, hoje!

Esse termo "Hoje" é o que urge em nosso ouvidos.

Hoje, dentro e fora da Igreja, a vida não é fácil e muitas vezes o que está escrito nas cartas de Paulo não nos serve para superar o dia-a-dia, não nos dá força para atravessar o deserto. As motivações para ir em frente pelo caminho de Deus não são fortes o suficiente para desbancar e derrotar os empecilhos que se nos interpõem a toda volta. O que mais impressiona em Paulo é sua coragem e determinação inabaláveis, a ousadia com que enfrentava todos os problemas e vivia o Evangelho. Terá sido ele um super Herói da Fé, impossível de ser imitado?

Hoje muitos acham difícil, senão impossível, conciliar a vida secular e o anúncio do Evangelho. Paulo fez isso. Hoje, os conflitos são muitos... como vivê-los sem perder o amor pelo Evangelho, a Fé, a Esperança e a Paz? Hoje, como combinar o Cristianismo e a Política? Hoje, religiosos podem subir nos púlpitos, e bradar como Profetas, mas depois voltam para suas casas, onde não falta comida... o mesmo não acontece com os leigos que dependem de empregos e este - muitas vezes - falta. Como continuar bradando como Profeta?

Às vezes é preciso escolher entre a família e o trabalho de Cristo, o trabalho da Comunidade. E quando se é acusado, e não há ninguém que o defenda? Como "adaptar" o Evangelho àqueles que são de outra cultura, como os orientais, os muçulmanos, os próprios Judeus de hoje? Os que sofrem nas ruas, em abandono, ou nos Hospitais, com doenças incuráveis? O Evangelho das Boas Novas que foi pregado antes, ainda deve ser o Evangelho das Boas Novas capaz de transformar vidas. Qualquer vida!

Paulo assim fez e viveu tudo isso, e muito mais... novamente pergunto: era ele um Super-herói da Fé, ou pode ser imitado por aqueles que tenham o mesmo chamado que ele, nos dias de hoje? É fácil dizer que Paulo viveu como viveu porque "era naquele tempo"! E hoje é diferente. Terá então o Evangelho mudado, e as direções que encontramos nas cartas de Paulo simplesmente têm se tornado um tipo de Romance Histórico, tão-somente, consultado apenas quando convém? Mais precisamente na hora de exortar alguém, mas nunca para realmente moldar vidas segundo o que ali está escrito?

Em suma, podemos ou não ver as cartas de Paulo como escritos literais para nossos dias, excetuando tão-somente o que era fruto da cultura da época, e não o que é espiritual e serve para todos nós.... ainda Hoje?


• O Nascimento E A Juventude De Saulo

Vamos conhecer um pouco do homem chamado Saulo. Talvez, ao fazermos isso, possamos encontrar nele muitas coisas que existem em nós mesmos. Talvez possamos encontrar a mesma Fonte de força, fé, esperança, determinação e honra que marcaram a vida deste homem de Deus. Antes de ser alguém "chamado" pelo Senhor, Saulo foi uma pessoa comum. Exatamente como todos nós somos.

A Bíblia fala pouco sobre o primeiro período da Vida de Paulo (Paulo é a versão grega do Nome Saulo, preferido por ele). A maior parte das informações vem de outros escritos da época, tanto judaicos quanto gregos e romanos. Paulo nasceu e se criou em Tarso, região da Cílicia, na Ásia Menor, onde hoje é a atual Turquia.

Era uma grande cidade, e bonita, podia ter cerca de 300.000 habitantes segundo o cálculo de alguns estudiosos. Imagine esse ambiente cheio de gente, de casas, muitas ruas, muitos entretenimentos, muito barulho. Tarso era um importante centro de cultura e comércio, tendo um porto muito ativo no Mar Mediterrâneo. A estrada que fazia conexão entre o Ocidente e o Oriente também passava por ali.

Você pode se perguntar como que alguém igual a Paulo, judeu, nasce na Ásia Menor. Na verdade, desde a época de Esdras, os Judeus passavam pela Diáspora, ou seja uma dispersão por todo o território do Império Romano. Em quase todas as cidades do Império havia bairros e comunidades Judaicas, cada uma com sua Sinagoga e sua própria organização comunitária. Ainda assim havia uma intensa comunicação entre Jerusalém e essas cidades da dispersão, que continuavam sendo judaicas praticantes. Paulo mesmo dizia: "Todos os Judeus sabem como foi minha vida desde a juventude e como, desde o início, vivi no meio do povo e em Jerusalém" - At 26.4.

De fato, Paulo teve seu ensino básico em Tarso. Como todos os meninos Judeus da época, ele recebeu educação na casa dos Pais, na Sinagoga e na escola ligada à Sinagoga. Paulo foi criado numa família Judaica dentro das exigências da Lei e das "Tradições Paternas".

A preocupação maior dos Judeus da Diáspora era a Observância da Lei. Não participavam dos Cultos ao Imperador, não serviam o Exército e não trabalhavam em dia de Sábado. Paulo nasceu e cresceu nesse ambiente protegido do bairro e da comunidade Judaica, tanto é que tinha dois nomes, Saulo, seu nome Hebreu, e Paulo, nome greco-romano para usar na grande cidade grega que fervilhava à sua volta.

Na sua formação básica em Tarso, onde aprendeu a ler e escrever, estudar a Lei de Deus e a história do Povo, assimilou tradições religiosas, aprendeu as orações - sobretudo os Salmos. O método não deixava de ser bem grego, pelas perguntas e respostas, repetindo e decorando, sob disciplina e convivência com os demais alunos e mestres. Fora isso, Paulo foi depois para Jerusalém receber sua Formação Superior, coisa que não era privilégio de todos.

Estudou com Gamaliel, Mestre da Lei e acatado por todo o Povo - At 22. 3 - e aprendeu a Torá, cujos estudos freqüentes faziam com que se conhecesse tudo de memória. Aprendeu a Tradição dos Antigos, que se dividia em duas partes: a primeira ensinava como viver a vida de acordo com a Lei de Deus (Halaká), compreendendo costumes e Leis complementares reconhecidas como tais pelas autoridades competentes.

A mais comum e mais escrita era a dos Fariseus. Paulo viria a se formar na Tradição dos Fariseus. Por isso os chamamos de "Doutores da Lei"; esse conhecimento equivalia a uma espécie de "faculdade". A Segunda parte da Tradição dos Antigos era a Hagadá, que não tinha aprovação oficial das autoridades por ser uma interpretação mais livre, algo como "aprender a ler a vida à luz da Lei de Deus". O jeito de ler as histórias do seu Povo levava o aluno a ter uma compreensão mais pessoal dela, levando-o a ler sua própria história e descobrir nela os apelos de Deus. A última matéria importante que Paulo estudou era a Midrash, que significa "Busca". Ensinava as regras e o jeito de buscar sentido na Sagrada Escritura para a vida do Povo e das pessoas; isto é, descobrir que "a janela do texto, por onde se vê o passado do Povo, é também o espelho por onde se vê o hoje do mesmo Povo".

Fica bem claro que o ambiente de vida de Paulo foi totalmente urbano, bem diferente do de Jesus, por exemplo. Suas metáforas são, na maioria das vezes, ligadas a esse ambiente. Tarso, por seu tamanho, certamente tinha seu estádio e a cada quatro anos havia jogos de atletismo. Sem dúvida, Paulo, como jovem, gostava e assistia aos jogos. Mais tarde, em suas cartas, fará uso de analogias da sua juventude para comparar com certas exigências fundamentais do Evangelho e do Seguidor de Cristo: "ganhar a coroa", "perseguir o alvo", "alcançar o prêmio", "lutar sem dar soco inútil no ar", "correr na direção certa"; fala do atleta como quem conhece o esforço e a disciplina dos mesmos.

Como você vê, Paulo era uma pessoa comum, que foi privilegiado nos estudos, pois sua família pôde conceder-lhe isso. Sabemos que Paulo era "Fabricante de Tendas", e teve ter aprendido a profissão com o Pai. Mas, ao que parece, não para exercê-la, mas para cuidar dos negócio da família. O pai de Paulo deveria ser bastante abastado financeiramente.

Paulo faz questão, em certo momento de sua vida, de dizer que era "Cidadão Romano", e para um Judeu tornar-se cidadão romano era preciso muito, muito dinheiro. Isso talvez queira dizer que o pai ou o avô de Paulo conseguiu apropriar-se da cidadania romana a ponto de poder passá-la aos seus filhos e netos. Isso requeria "vultosa soma de dinheiro" - At 22: 29.

Paulo vivia, então, como cidadão romano e, portanto, era membro oficial da cidade e podia participar de suas Assembléias do Povo onde se discutia tudo sobre a vida e organização das Pólis (cidades) Romanas. Embora fossem nomeadas como "Assembléias do Povo", somente fazia parte delas uma pequena elite de cidadãos, e não o povo em geral.

Quanto aos Judeus em geral, que viviam nas comunidades espalhadas pelo Império, politicamente falando, seus maiores objetivos eram lutar para fazer prevalecer seus direitos junto ao Governo do Império; pleiteavam, através de "associações", a integração como cidadãos (assim teriam isenção de certas taxas e impostos), bem como liberdade religiosa.

Não sabemos ao certo como o cidadão Paulo de Tarso participava da vida política de sua cidade ou nas associações dos Judeus. Mas sabemos que ele participava ativamente na vida de sua Comunidade, logo apresentando seu caráter de Líder. Foi testemunho oficial na execução de Estêvão (At 7.58); foi Emissário do Sinédrio para Damasco (At 9.2; 22.5; 26.12). Alguns estudiosos acham que Paulo chegou a ser membro do Sinédrio, isto é, do Supremo Tribunal da Comunidade Judaica em Jerusalém.

Em suma: Cidadão Romano, Cidadão de Tarso (At 21. 39), aluno de Gamaliel, teve Formação Superior, Líder nato, membro ativo da Comunidade, provavelmente herdaria os negócios do Pai. Todas essas qualidades e títulos enquadram Paulo entre a elite da Sociedade do seu tempo, tanto por formação quanto por posse e liderança. Sem dúvida, ele tinha um futuro promissor e brilhante pela frente.

Mas Paulo deveria ter um diferencial em inteligência, em princípios, em dinamismo, em ativismo... como ele mesmo diz, muito mais tarde, aos Gálatas, não para enobrecer-se, mas para explicar que a tudo isso deixou imediatamente por causa de Cristo:

"Na minha Nação, quanto ao Judaísmo, avantajava-me a muitos da minha idade, sendo extremamente zeloso das tradições de meus pais" (Gl 1.14-15). Realmente, como homem de Fé, Paulo sempre foi um Judeu praticante, irrepreensível, e cuidadoso observante da Lei.

A base da Religiosidade Judaica estava na Aliança feita com Deus. Ela tinha, essencialmente, dois aspectos: o primeiro era a questão desta Aliança ser eternamente "Grátis", pela Graça, pois foi o Senhor quem escolheu seu Povo, sem que eles nada tenham feito para merecer essa Eleição. O segundo aspecto da Aliança tinha a ver com o homem, e era a observância da Lei. Em alguns momentos da História, por causa da Graça, os homens caíam em desleixo e num ritualismo vazio, pois "Deus faz tudo".

No tempo de Paulo, entretanto, o cerne da religiosidade judaica estava na Observância. Esqueciam-se da Graça e da Misericórdia, fazendo com Deus um relacionamento quase comercial. Por conseguinte, quanto mais rígida a observância da lei, mais perto estavam de conseguir - e ter garantida – a Justiça. Cada vez mais surgiam movimentos Reformistas da lei que pregavam a rígida observância, dentre estes, estavam os Zelotes e os Fariseus. Paulo era Fariseu (Fp 3.5).

Na prática, talvez bem no fundo do seu coração, o futuro Apóstolo observava uma contradição. Conforme escreveria mais tarde, já quando convertido, o fato inequívoco de "querer fazer o bem estava nele, mas não poder de realizá-lo; o bem que ele gostaria de fazer, não o faz, mas o mal que repudia, esse o faz....". Talvez Paulo estivesse vivendo em conflitos no seu íntimo.

Não raro a mudança em nossas vidas é precedida por uma crise; a crise não é agradável e a mudança envolve muitas perdas. Paulo percebia que, apesar de todo o seu estudo e todo o seu esforço, não conseguia cumprir a Lei. Sem cumpri-la, não alcançava a almejada Justiça, não era justificado... o que estava havendo de errado? Por que o Senhor tinha proposto uma Aliança impossível de ser cumprida??? Com quem conversar, onde tirar as dúvidas de algo que parecia sem solução?! Era uma dolorosa experiência com a própria fraqueza, mas talvez nem todos estivessem assim preocupados, uma vez que tinham os melhores lugares e os privilégios na Sociedade.

O Apóstolo Pedro, muito embora fosse simples e iletrado pescador, muito diferente do erudito Paulo de Tarso, observou a mesma coisa: a observância da Lei é um peso "que nem nosso pais, nem nós mesmos, pudemos suportar" (At 15.10). Sabemos que o objetivo da Lei era salientar o pecado, e fazer com que o ser humano percebesse finalmente que nunca conseguiria ocupar o lugar desejado por Deus pela mera observância de exigências. Não está dentro do homem a capacitação para tal. E talvez Paulo já tivesse percebido e entendido isso; mas guardou para si mesmo. Ainda não tinha chegado o momento de entender essa realidade...

O testemunho de Estêvão, que ele presenciou pessoalmente, deve tê-lo impactado bastante, pois, depois do seu discurso, Estêvão claramente "pôs os pingos nos is", acusando os Judeus de cegueira e surdez diante da Palavra de Deus manifestada em Jesus, literalmente chamando-os de traidores e assassinos. Condenar Jesus era o mesmo que condenar Moisés! O Sinédrio realmente devia estar de cabelos em pé com o desenrolar das coisas depois da morte de Jesus. Esperando pôr fim àquele incômodo, agora havia cada vez mais homens que operavam sinais, que pregavam com coragem e sem cessar a mesma Palavra de Cristo. Como acabar com aquela raça??!!

Quanto a Estêvão, sua morte foi muito covarde, pois subornaram homens para que o acusassem de falar contra Moisés e a Lei. Por isso, foi preso e levado ao Sinédrio. Ali, falsas testemunhas continuaram com a mesma acusação. Estêvão fez um longo discurso, mostrando seu conhecimento da História, mas diante de algozes que já "rilhavam os dentes", deixou de ser diplomático. A reação foi bastante violenta. Cheio do Espírito, Estêvão diz "ver os Céus abertos, e o Filho do Homem à direita de Deus", mas os do Sinédrio tapam seus ouvidos e o arrastam para fora da cidade (At 7.56-57). Imagine a cena deplorável! Homens poderosos levando aos trancos e barrancos um pobre Cristão, um homem sozinho.

Ao ter a visão dos Céus abertos, isso significava que Estêvão estava sendo acolhido por Deus, estava indo para o lugar dos Justos. No momento de sua morte, Estêvão - muito provavelmente colega de estudos de Paulo - tinha a Justiça que Paulo não possuía, e isto sem observar a Lei. Jesus, morto por suas "Heresias", ocupava lugar de honra ao lado de Deus. Acolhendo Jesus, e acolhendo Estêvão, Deus condenava o Tribunal, condenava o próprio Paulo. O testemunho de Estêvão e sua intrepidez e coragem não foram tão à toa assim. Paulo talvez não tenha conseguido tirar aquilo da cabeça tão cedo. Ele ficou ali, observando, consentindo naquela morte brutal e injusta.

Talvez servindo de arauto aos que passavam, dizendo o motivo da morte daquele homem. Mas... que homem daria seu sangue por uma causa louca...? E se ele, Paulo, estivesse errado? Estêvão ocupava um lugar que ele, por intermédio de todo esforço para observar a Lei, não tinha ainda conseguido nem sabia se um dia o seria capaz de ter!

A partir daí, Paulo passou a perseguir os Cristãos. Mas a verdade é que talvez quisesse fazer calar a voz da sua própria consciência. Era difícil admitir que ele, Fariseu, Cidadão Romano, letrado, culto, endinheirado... pudesse não ter aquilo que pessoas bem mais simples aparentemente estavam conseguindo ter: serem justificados diante de Deus! E sem cumprir a Lei.

A entrada de Jesus em sua vida modificou a situação cômoda, e o que era lucro se tornou perda... mais uma vez na história dos grandes homens de Deus... por causa de Cristo, por causa do chamado de Liderança, ele perdeu tudo (Fp 3.7-8).

Quando ia para Damasco, aos 28 anos de idade, Paulo teve uma experiência que foi como um "divisor de águas" na sua vida. Não foi uma experiência pacífica e suave, muito ao contrário, violenta e inesperada. Deus conhecia o caráter e a personalidade de Paulo; ele precisava que seu mundinho fosse completamente quebrado de uma só vez! Gozando de poder e prestígio, Paulo liderava a perseguição dos Cristãos até a Síria, distante cerca de 200 km, cerca de sete dias de viagem! (At. 9.1-2; 26.9-12).

E não liderava porque tinha sido incumbido, mas por livre decisão, pois a Bíblia diz que Paulo "respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao Sumo Sacerdote e lhe pediu cartas para as Sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho, assim homens como mulheres, os levasse presos para Jerusalém.

Daí, todos conhecemos a história; de repente, Paulo encontrou-se sozinho, caído por terra, envolvido por uma luz tão forte que o cegou, e aquela voz... aquela voz...! Voz que toda a comitiva ouviu, mas não viu de quem poderia ser.

"Saulo, Saulo por que me persegues?".

O impacto foi tão grande que Paulo já se refere ao dono da voz como "Senhor":

"Quem és tu, Senhor?".

"Eu sou Jesus (...).

Como Jeremias, Paulo podia dizer que Deus o seduzira, e ele se deixou seduzir; "dominaste-me, e me derrubaste" (Jr 20.7). A imagem de um vendaval nos vem à mente! Um vendaval no corpo, nas emoções, na mente, no coração... algo tão intenso, tão forte, tão marcante que a cegueira posterior certamente foi algo de somenos. A luz que o envolveu nos remete ao Profeta Ezequiel, que caiu por terra ao ver a Glória de Yahweh (Ez 1.27-28).

O grande homem agora teve que ser guiado pela mão, como um deficiente, como um bebê, para Damasco, conforme Jesus lhes dissera. Três dias de cegueira, sem comer nem beber. Estes talvez tenham algum simbolismo com três dias de morte e, por fim, a ressurreição.

Paulo se refere a si mesmo como "um aborto". O aborto é o nascimento de uma criança morta, que vem fora, geralmente, por expulsão do útero da mãe. A figura de linguagem tenta dar algum sentido de como Paulo foi expulso do seu Mundo, dos seus ideais, das suas crenças, das suas credenciais e, de repente, como um aborto permaneceu três dias. Morto.

Bem mais pra frente, na sua carta aos Filipenses, ele usa o termo "apanhado por Deus" (Fp 3.12). Isso nos remete a uma imagem de laço... aliás, várias foram as figuras de linguagem empregadas para descrever a conversão de Saulo de Tarso: como que tomado por um vendaval, foi derrubado, laçado, apanhado, manietado, sem visão alguma, mais parecia aborto.... completamente perdido. As imagens falam por si mesmas, não? Tinha que ser assim. Foi como laçar um boi no pasto! Na Sua Poderosa Onisciência, Deus decidiu tomar um dos maiores Opositores do Cristianismo e transformá-lo no seu maior defensor!

Paulo tinha que se ver totalmente caído no chão, sem socorro de ninguém, sem visão alguma. Contudo, ao invés do pranto e do desespero, ele esperou. Esperou, porque no meio de todo esse turbilhão, aquela voz ecoava.... ecoava... ecoava... "Eu sou Jesus, a quem tu persegues". Jesus (At 9.1-9)

A presença de Jesus o acalmou. No meio da crise e do desmoronamento do seu Mundo, no meio dos escombros de morte... estava Ele, ali, em pé: Jesus! Aquele mesmo que causara a ruptura na vida de Paulo seria o responsável pela continuidade. Já nada seria como antes. Deus lhe havia mostrado e impregnado Seu Amor, de maneira sobrenatural, a ponto de aquele único incidente mudar para sempre o rumo de Saulo de Tarso. E a revelação do Deus Vivo, e de Jesus como seu filho, veio quando Paulo ainda era perseguidor, blasfemo e insolente (1 Tm 1.13; 1 Co 15.9; Gl 1.13; Rm 5.7-8; 2 Co 5.19).

Depois daquele episódio, Paulo já não mais conseguiria confiar em nada daquilo que ele fazia por Deus, mas no que Deus faria por ele! Por isso... esperou.

Adoro quando Deus é tão específico como foi naquele momento, chamando seu servo Ananias! Deu o endereço completo e o nome de Saulo, seu apelido, e disse-lhe o que estava ele fazendo naquele momento. Orando. E, em visão, tinha visto um homem chamado Ananias impor-lhe as mãos para que recuperasse a vista. Ananias reclamou um pouco, alegando a quantidade de males que Paulo tinha causado aos santos em Jerusalém, e agora vinha fazer o mesmo em Damasco.

"Vai", respondeu o Senhor, "Porque este é para Mim um instrumento escolhido para levar Meu Nome perante os Gentios e Reis, bem como perante os filhos de Israel; pois Eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo Meu Nome" (At 9.10-16).

Bem... o chamado de Paulo foi diferente, pouco comum... e Paulo aceitou o chamado. Foi batizado imediatamente. Ele sabia, depois do ocorrido na estrada para Damasco, que nunca mais seria o mesmo. Imagino Paulo contando à família e às autoridades Judaicas sua nova decisão: tornar-se um Cristão.

Daqui por diante, a Graça e o Amor de Deus darão rumo à vida de Paulo, sustentando-o nas crises que virão em seguida. Essa nova certeza, fonte da sua espiritualidade, faz brotar em Paulo um nova energia, para cumprir seu destino conforme Deus determinara. Sentindo-se, enfim, justificado, agora podia deixar de preocupar-se consigo mesmo e servir aos outros através da prática do amor, que é "a plenitude da Lei" (Rm 13.10; Gl 5.14).

Observe que Paulo não "trocou de Deus", Ele continuou fiel ao seu Deus e ao seu Povo, pois tinha entendido o "sim" de Deus na figura de Jesus para todas as antigas promessas feitas a eles.

Depois do episódio em Damasco, que foi a conversão de Paulo, houve um lento e longo processo de Treinamento e Maturação. Deus não apenas queria que Paulo parasse de perseguir os Cristãos; Ele queria que Paulo levasse as Boas Novas como Apóstolo de Deus na Terra. Se assim não fosse, Paulo poderia muito tranqüilamente ter voltado para sua casa, casado, tido filhos etc... mas não era isso que estava destinado a ele.

Portanto, começou um forjar de Deus todo especial na vida dele, até que estivesse pronto para começar e cumprir sua Missão. Assim foi com Moisés, assim foi com Davi... assim será com os verdadeiros Líderes do nosso tempo. Ninguém sai por aí, seja lá para exercer a Missão que for, sem antes ter passado pelo treinamento. Era necessário que Paulo viesse não somente a aprender novas Verdades, mas a apreendê-las como quem as viveu pessoalmente, e não como alguém que ouviu falar.

Todo treinamento é longo, muitas vezes doloroso, cheios de decisões difíceis a serem tomadas nas encruzilhadas do caminho, do deserto, na solidão das cavernas e no meio das lágrimas, nos vales de tentação, nas acusações injustas, na perseguição do Inimigo. Não há como se tornar um Líder sem passar pelos Vales, os Mares, as Montanhas, os Furacões, as Neblinas e a Solidão do Treinamento. Esta é a maneira de Deus forjar homens fortes, segundo o Seu Coração, e que possam vencer quando as verdadeira batalhas se fizerem presentes.

O aprendizado não se dá do dia para a noite; erramos e caímos muitas vezes até que as Verdades de Deus sejam completamente introjetadas em nós e em nossas vidas de forma que não precisamos mais pensar para agir de acordo com elas. Já faz parte do nosso ser. Embora o Evangelho de Lucas narre a conversão repentina de Paulo, nada fala dos 13 anos seguintes, período de silêncio.

O que Deus fez na vida de Paulo neste tempo, para que depois ele se tornasse o que se tornou, o maior Apóstolo dos Gentios? As cartas, quando falam dele pessoalmente, ou quando Paulo faz algum comentário sobre sua própria pessoa, indiretamente nos mostram que tipos de Verdade ele assumiu como fazendo parte integralmente do seu ser.

Não sabemos exatamente como foi o treinamento de Paulo, pois a Bíblia também não fala sobre esse período da vida dele. Mas, mais tarde, pelos seus escritos e suas atitudes, por frases soltas que ele libera sobre si mesmo em suas cartas, podemos depreender algo daquilo que lhe foi incutido e assimilado durante o treinamento.



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