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O Pano De Fundo Do Missionário Itinerante

Paulo não precisava falar sobre aquilo que todos sabiam em suas cartas. Falar sobre a parte de sua vida pessoal que vamos abordar agora, era o mesmo que dizer que o Sol aparece de dia, e a Lua aparece à noite.

A conversão de Paulo e o seu profícuo Ministério são apenas o lado mais conhecido dele; mas sua vida pessoal, embora bem conhecida por todos na época em que viveu, foi perdida ao longo dos Séculos, de maneira que hoje temos uma idéia bem distorcida - ou, quem sabe, nenhuma idéia!!! — do que Paulo fazia para ganhar a vida. A maioria talvez imagine que Paulo vivia do sustento das Comunidades que fundou, o que seria muito justo, como o próprio Apóstolo admite; mas não era assim. Vamos entender rapidamente por que, e isto só nos fará admirar ainda mais este notável homem.

A conversão tirou Paulo da privilegiada posição que ocupava na sociedade, e o colocou em outra, bem inferior. Ao invés de empregador e dono de negócios, acabou ele mesmo sendo um assalariado, com aspecto de escravo. Quem trabalhava "com as próprias mãos" era o mais baixo nível do escalão social, coisa de escravos mesmo, o que garantia, inclusive, mão-de-obra mais barata. Costumava-se dizer, na época de Paulo, que numa oficina nada havia de bom a nenhum homem livre ou cidadão. "Por causa de Cristo, perdi tudo", disse Paulo certa vez aos Filipenses, mas não na base do queixume (Fp 3.8). Claro que ele tinha perdido seu círculo de amizades, e, depois, mais tarde, como Missionário Itinerante por mais de uma década, sem domicílio, não tinha como montar um negócio próprio e adquirir clientela fixa.

Ele poderia, sem nenhuma dúvida, ser sustentado pelas Comunidades, inclusive o eram vários de seus companheiros (1 Co 9.6-14). Mas Paulo não aceitou essa condição, ainda que reconhecesse que ele tinha o mesmo direito. A cultura grega incentivava o sonho de todo homem, que era viver uma vida tranqüila onde pudesse ocupar-se apenas dos estudos e da meditação; mas essa era um realidade para poucos.

Filósofos e Missionários itinerantes eram vistos de bom grado, pois espelhavam o sonho de todo o povo. Contudo, a grande massa da Sociedade urbana daquele tempo dentro do Império Romano era de escravos, pessoas pobres, assalariados, gente que "trabalhava com as próprias mãos" e passava necessidade. Um escravo jamais poderia sair de sua condição de escravo... era uma sina eterna. A grande massa da Sociedade jamais poderia realizar o "sonho grego", uma grande ilusão.

Paulo queria de fato anunciar o Evangelho a todos os Povos, até os confins da Terra, e pagou um preço alto, novamente, "ao fazer-se de tudo para com todos, com a intenção de com isso ganhar alguns". Ele rompeu com o sistema de trabalho da época, e como homem livre e cidadão que era, não podia alcançar aquela gente com a mesma eficácia se estivesse numa "posição de privilégio, superior". Quem de nós nunca se sentiu constrangido ao pregar o Evangelho a gente tão miserável, que parecia difícil saber o que dizer. Na favela, no Hospital, no meio dos que nada são... a qualquer momento, tem-se a impressão que esses judiados da vida poderiam nos dizer: "É muito fácil para você falar de Cristo... depois vai para sua caminha quente e não pensa no que vai ser do dia de amanhã, não sofre fome, frio, nem tem uma doença terrível e incurável. Por isso esse tal Jesus lhe serve tanto e lhe faz tão bem. Mas olhe para mim!"

O Evangelho e a Palavra de Cristo são de tal forma Poderosos e eficazes que, mesmo quando julgamos não ter nada a dizer diante de tanto sofrimento, e timidamente começamos a esboçar as Palavras de Vida, eles são acolhidos calorosamente. Pois estes que nada têm, percebem, pelo Poder do Espírito de Deus, a preciosidade do que significa Cristo neles! E um verdadeiro milagre!

Paulo com certeza já tinha experimentado isso. Mas ele queria mais. Se ele estivesse vivendo na mesma condição dos humildes, teria mais chance de ganhar os humildes! Ele apresenta um Evangelho que já se expressa no seu próprio estilo de vida, que Paulo define como sendo "digna de honra", e não algo que pareça estar além dos escravos e dos trabalhadores.

Paulo apresenta um novo sonho, um sonho real, que pode ser abraçado por qualquer um. E ele insiste: "Que seja para vocês uma questão de honra viver em paz, ocupando-se das suas próprias coisas e trabalhando com as próprias mãos, conforme recomendamos. Assim vocês levarão uma vida honrada aos olhos dos estranhos e não passarão mais necessidade de coisa alguma" (l Ts 4.11-12).

Esta carta aos Tessalonicenses é a mais antiga das cartas de Paulo, escrita durante a sua 2a Viagem. Enquanto escrevia isso, ele mesmo trabalhava na Oficina de Áquila (At 18.3). Assim, Paulo estava ensinando, pelo seu próprio exemplo, que ao invés de ficar olhando e cobiçando o que não se podia ter, correndo atrás do vento, do "sonho grego", impossível, e reclamando da vida e da "má sorte", podiam ocupar-se de suas coisas, trabalhar com dignidade e honradez, e isso faria com que nunca mais passassem necessidade, o que seria motivo de espanto não somente para os demais trabalhadores, mas até para os estranhos!

Nesse sentido Paulo demonstra uma sensibilidade social muito grande, um amor extremo pelo Evangelho e um respeito pelo Império, pois as autoridades também são instituídas por Deus. Ele não era um fomentador de revoluções, nem pretendia modificar o sistema vigente. Mas, através de Cristo, ensinou a como viver bem em Cristo, dentro do Império! Trabalhar com as mãos já não devia ser encarado como motivo de vergonha e revolta, mas podia ser a fonte de uma vida de paz, e que traria a eles todo o sustento de que necessitavam.

Embora Paulo ensinasse isso, era mais cômodo para quem tinha seu emprego fixo, e sua família. Ele mesmo, não podia fazer isso, vivendo como andarilho e de emprego em emprego. Isso não lhe garantiu uma vida nada fácil, muito ao contrário. Como cidadão e homem livre, fazia algo humilhante. Ele também escreveu isso, com uma ponta de seu característico sarcasmo e ironia quando se irava: "Será que foi um erro meu anunciar o Evangelho de graça, humilhando-me a mim mesmo para exaltar vocês?" (2 Co 11.7).

A Igreja de Corinto fez Paulo sofrer muito por causa de sua dura cerviz. Pelo menos, em Corinto estavam Priscila e Áquila! Teria sido peso demais para Paulo carregar sozinho....."Mesmo sendo livre, fiz-me escravo de todos" (1 Co 9.19). O salário de Paulo nas suas longas e infindáveis viagens e longa lista de empregos não deve ter sido alto, justamente pelo fato de estar sempre viajando.

Na maioria das cidades por onde passava, ele deve ter vivido de algum biscate conseguido nas Oficinas que ficavam perto dos Mercados. Tinha que "trabalhar de dia e de noite" para poder sobreviver sem depender de ninguém e sem ser pesado a ninguém (1 Ts 2.9; 2 Ts 3. 8). Ele fala do cansaço provocado pelo trabalho manual e das "vigílias" (horas extras), mas mesmo assim passava necessidades, sem dinheiro para comprar comida e roupa; viva quase como um indigente. É interessante que esse tipo de discurso seja quase sempre dirigido aos Coríntios e Tessalonicenses (1 Co 4.12; 2 Co 6.5, 11.27;2Co 11.9, 2 Co 6.10; 2 Co 11.27).

A única ajuda fraterna que Paulo aceitou receber foi da Comunidade de Filipos, onde estava Lídia (Fp 4.15; 2 Co 11.8-9). Paulo ensinava e pregava nas horas livres, isto é, nas suas horas de descanso. Em Éfeso, por exemplo, temos que Paulo ensinava diariamente numa escola de um homem chamado Tiranos (At 19.9); e uma tradição muito antiga informa que esse ensinamento era feito entre a 5a e a 10a hora, isto é, entre 11 da manhã e 4 da tarde, as horas de descanso de Paulo!

Este é o testemunho de vida de Paulo, o pano de fundo de toda a sua obra Missionária, fruto do seu amor pela Obra, mas também de uma direção pessoal. Assim como Paulo optou permanecer solteiro, e isso foi rhema para ele, o mesmo se dá com a questão do sustento. Deus nunca dá uma cruz maior do que se pode carregar. Paulo não é contra o casamento e muito menos contra que aqueles que pregam o Evangelho, possam (e devam) viver do Evangelho.

"Vocês sabem como devem imitar-nos: nós não ficamos sem fazer nada enquanto estivemos entre vocês, nem pedimos a ninguém o pão que comíamos; pelo contrário, trabalhamos com fadiga e esforço, noite e dia, para não sermos um peso a nenhum de vocês. Não porque não tivéssemos direito a isso, mas porque nós quisemos ser um exemplo para vocês imitarem. De fato, quando estávamos entre vocês demos esta norma: quem não quiser trabalhar, também não coma!" (2Ts 3.7-10; 1 Ts 2. 9). Nesta mesma linha, ele também escreve para a Comunidade de Corinto (1 Co 9. 14-15; 2 Co 11. 9)



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