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As Perseguições, Acusações E Prisões Do Apóstolo

Tirando a briga eterna por causa da Lei e da circuncisão, dos falsos irmãos e de todos os que contra ele se puseram, houve alguns momentos mais críticos na vida de Paulo. Ele teve conflitos e sofreu perseguições desde o dia de sua conversão até o último dia de vida. Mas os conflitos diretos com o Império Romano foram complicados. Paulo teve problemas com tudo o que dizia respeito ao Império: com a Guarda, com a Justiça, com a Opinião Pública, com a Ideologia e Religião Oficial, com as Instituições e Autoridades, com grupos de interesses opostos.

Todo esse conjunto chegou a ser mobilizado contra Paulo, tanto pelos Judeus quanto pelos Gentios, várias vezes e em diversos lugares. Ele mesmo discursa a respeito: "Dos Judeus recebi cinco vezes os 40 golpes menos 1. Fui flagelado 3 vezes; 1 vez fui apedrejado" (2 Co 11.25). Uma vez, para defender-se dos Judeus, Paulo fez uso destas Instituições, pois ainda era Cidadão Romano e apelou para César (At 25.6-12); duas outras vezes foram essas mesmas Instituições que salvaram Paulo da sua morte certa em Jerusalém (At 21.31-32, 23.12-24).

Os Atos relacionam melhor os dados e informam onde e como aconteceram essas perseguições:


- Damasco: vigiam as portas da cidade para matá-lo (At 9. 23-24) - Jerusalém: helenistas querem matá-lo (At 9.29)

- Chipre: o Mago procura afastar o Cônsul de Paulo (At 13.8)

- Antioquia: mulheres piedosas e os chefes da cidade são instigados contra Paulo (At 13.50)

- Icônio: conspiração de Judeus e Gentios, de comum acordo com os chefes da cidade (At 14. 5)

- Listra: Judeus instigam as multidões contra Paulo (At 14. 19)

- Filipos: a multidão leva os "pretores" da cidade a torturá-lo, com Silas (At 16.22)

- Tessalônica: indivíduos perversos conseguem uma assembléia do Povo contra Paulo (At 17.5-9)

- Beréia: os Judeus agitam a multidão contra Paulo (At 17. 13)

- Corinto: Judeus levam Paulo até o tribunal (At 18.12)

- Éfeso: os ourives amotinam toda a cidade (At 19.23- 40) - Jerusalém: a multidão amotinada na praça do Templo avança sobre Paulo para matá-lo (At 21.27-30)


Quanto às acusações e prisões:

- Filipos (At 16.23) - provocar desordem, pregar costumes Judeus

- Jerusalém (At 21.33) - ensinar contra o Povo, a Lei e o Templo

- Cesaréia (At 23.23,29) - o oficial Romano não via nenhum crime contra o Império, e os Judeus diziam que Paulo era uma peste, provocava conflitos entre os Judeus do mundo inteiro, era líder da seita dos nazireus e tentou profanar o Templo (At 24.5)

- Roma (At 28.20,30)

- Éfeso (1 Co 15.32; 2 Co 1.8-9)

- Além disso, teve que comparecer a vários tribunais: em Corinto (At 18.12); em Jerusalém (At 22.30); em Cesaréia (At 24.1-2). Os crimes para tentar condenar Paulo foram: desordem, contra Roma, contra o Povo Judeu, contra a Lei e o Templo, provocar conflitos entre os Judeus, profanar o Templo, misturar culturas, introduzindo gregos no Templo, ser uma peste, liderar nova seita.

Isso era pura conveniência; o próprio Império, quando inquirido a respeito, reconheceu que Paulo não tinha crime nem merecia a morte (At 23.29). Tratava-se apenas de uma questão religiosa, assunto com que o Império não costumava a envolver-se (At 18.15).

Apesar disso, apesar desta constatação, apesar de Paulo não ter nunca cometido crime algum, nem ser subversivo, o conflito entre os Cristãos e o Império cresce progressivamente. Nunca Paulo instigou o Povo contra o pagamento dos tributos e taxas, nem contra a escravidão, nem contra o serviço militar. Ao invés disso, ele pedia que a Comunidade de Roma obedecesse às autoridades constituídas. Em nenhuma carta há menção a qualquer conflito aberto com o Império. Então... que aconteceu??? Qual o verdadeiro motivo do conflito crescente dos Cristãos e do Império Romano que acabou culminando na morte do Apóstolo Paulo?

Lucas escreveu os Atos nos anos 80, justamente depois da violenta perseguição de Nero aos Cristãos. Ele recolheu ciados suficientes para provar que os Cristãos não representavam nenhum perigo para o Império, nem mereciam condenação. Pena que Paulo já tivesse entregue sua vida pela causa há muitos anos....

Impressiona a quantidade de fatos que Lucas ajuntou:

- O Oficial Romano de Chipre abraçou a Fé (At 13.12)

- O Oficial de Corinto não quis condenar os Cristãos (At 18.14-17)

- Os Pretores de Filipos reconheceram que a prisão e açoitamento de Paulo foi um engano (At 16.35-40)

- Autoridades de Éfeso absolveram Paulo, dizendo que subversivo era quem o tinha prendido (At 19.40)

- Dois Militares Romanos reconhecem que Paulo não é subversivo (At 21.38, 23.29)

- O Governador Romano da Palestina reconhece que Paulo não tem crime (At 25.25-26, 26.32)
Apesar de toda a boa vontade de alguns dos representantes do Império Romano.... não foi possível provar que Paulo era inocente. A história contada no Livro de Atos é uma semente viva do que viria logo a seguir: a futura perseguição do Império contra os Cristãos, e a facilidade com que este foi usado contra os que defendiam a Justiça e a Verdade.

• Quais Os Verdadeiros Motivos De Atrito Com O Império Romano?



As causa reais só apareceram na prática e ao longo dos anos. Em nome do Evangelho, mesmo sem perceber, Paulo propõe um sistema e modo de vida completamente contrário ao que se vivia em Roma: um tipo de convivência entre os seres humanos, em que deve estar superado todo e qualquer jugo de dominação por parte de um sobre outro. Veja como ele escreve: "Já não pode haver diferença entre Judeu e Grego, escravo e livre, homem e mulher, Grego e Bárbaro" (Gl. 3.28; Cl 3.11; 1 Co 12.13).

Isto é, qualquer dominação, seja de religião, classe social, sexo ou raça não combinava com as Comunidades de Cristo. Se fosse somente uma Comunidade... ou se fosse somente um fogo de palha.... mas muitas Comunidades nestes termos não deixam de ser um fator profundamente subversivo dentro do Império.

Por sinal, quando um Sistema de Governo sobrevive graças à prática da "impiedade e injustiça, que abafam a Verdade" (Rm 1.18)... (Paulo, Paulo, como que você escreve isso e manda para Roma???!!). Você não era tolo, nem ignorante; sabia muito bem como as coisas funcionavam social, econômica e politicamente no seu tempo. Tomou tantas decisões arriscadas ao longo da sua vida! Ao optar pela classe pobre e trabalhadora, você expôs como proposta de vida algo contrário à ideologia dominante; teve uma visão crítica da situação moral e social, o que expressou na sua carta aos Romanos; era justamente essa percepção de que o sistema injusto e repressor produzia esses males sociais e morais; mesmo assim, para você, a ressurreição de Cristo era sinal de que o futuro já tinha chegado, não?

A vinda definitiva do Reino era somente uma questão de tempo. Pena que nós, pequenos diante da Onisciência de Deus, não tenhamos como compreender o Kairós!... Sei que sua experiência com Cristo relativizou todo o resto; só Cristo era absoluto, e a Sua Palavra. Por isso entendo seu entusiasmo e animação com aquela utopia: uma Comunidade sem nenhum tipo de dominação, onde todos tivessem seus direitos assegurados mediante o cumprimento dos deveres. Sei - entendi, enfim - como você pensava.

Acreditava de coração na Universalidade da Promessa e do Amor de Deus; era só questão de tempo. Em Abraão seriam benditas todas as famílias da Terra! E maravilhoso perceber como estava acontecendo, e como você tinha o privilégio de estar participando disso. A sua consciência estava muito clara que a todos os Povos devia ser anunciado o Evangelho. Por isso podia dizer: "Vivemos como indigentes e, não obstante, enriquecendo a muitos; como nada tendo, embora tudo possuamos"; "Aprendi a adaptar-me às necessidades; sei viver modestamente, e sei também como haver-me na abundância; estou acostumado com toda e qualquer situação; viver saciado e passar fome; ter abundância e sofre necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece" (2 Co 6.10; Fp 4.11-13). "se temos comida e roupa, estejamos contentes", "O tempo se fez curto. Aqueles que compram, sejam como se não comprassem; os que usam deste mundo, como se não usassem plenamente. Pois passa a figura deste mundo". "Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho" (1 Tm 6.8; 1 Co 7.29-31; 1 Co 9.16).

E toda a sabedoria que tinha aprendido com o Mestre Gamaliel, pôs a serviço de entender e repensar a História do seu Povo e de Deus, e tudo que sabia colocou debaixo de nova interpretação. Tudo tomou um sentido novo pelos olhos de Jesus, vivo neles e na Comunidade.

Não posso me igualar a alguém como este Apóstolo, mas se tivéssemos uma dúzia como ele....

É claro que cedo ou tarde, os que lutam pela Verdade e pela Justiça, muito menores em poder e número, pagarão caro. O fato é que Paulo NÃO adaptou o Evangelho à eficiência da organização do Império Romano.

Ao longo dos anos, a liberdade impregnada nos Cristãos, por causa da ressurreição prometida por Cristo, deu aos pobres do Império uma força que o sistema de escravidão não conseguia mais abafar. Isso não era nada bom para Roma! O Diabo foi batendo em pontos nevrálgicos, ano após ano, para cutucar o Império! E veja outro pormenor; se é algo isolado, quem se importa? Mas de repente, muita gente crê num Deus único, não reverencia e exclui a divindade de outros deuses, e portanto faz do Imperador um homem comum. Ui! Desastre iminente!

Em suma, a semente que os Cristãos plantavam era profundamente subversiva, ainda que nenhum deles fosse de fato subversivo, mas é claro que o Evangelho de Cristo não combinava em nada com o que estava em vigência no Império. Essa semente carregava dentro de si um modo de viver e conviver, e uma concepção de Deus completamente opostos a tudo no Império.

Em Éfeso (At 19.8-40), por exemplo, apareceu uma amostra do que estava acontecendo, apesar de todo o controle. Os pobres, como formigas, trabalhando por baixo, abalaram o sistema na base. Graças à pregação constante de vários anos, "todos os habitantes da Ásia, Judeus e Gregos, puderam ouvir a Palavra do Senhor (...), e descobriram que os deuses fabricados pela mão humana não são deuses" (At 19.10, 26). Em duas palavras: descobriram a falsidade do Sistema. Ui, ui, ui! Agora.... pegou!

Nosso Deus é um Deus de Paz.. Mas o conflito e a aflição existem enquanto estamos neste Mundo. E preciso aprender a beber da Fonte de Água Viva, para podermos transformar o conflito em fonte de fé, esperança e amor. Paulo viveu sua vida em totalidade dentro do sistema conflitivo: primeiro, consigo mesmo, pois o resultado da conversão não se dá do dia para a noite, mas é um processo longo; na verdade, a vida inteira podemos nos permitir crescer e aprender com Deus e com nossos erros; por isso, como tudo era novo, e Paulo era pioneiro, pisava lugares que nunca ninguém pisou e fazia o que ninguém ainda tinha feito... lógico! Havia muitos conflitos internos: com seu próprio despreparo, a falta de experiência, a dificuldade de transformar o ambiente Judaico em algo acolhedor para os Gentios, a adequação da mensagem - rural — às grandes metrópoles do Império, pois lhes parecia algo muito estranho e de difícil aceitação;

Depois, vieram os conflitos com os Judeus que queriam fazer o mesmo que Paulo fez antes de se converter; com os Gentios que entraram na Igreja; com os "falsos irmãos"; com amigos (Estêvão, Barnabé, Pedro); com a religiosidade popular manipulada pelo Império; com a mentalidade e cultura diferente dos Gregos, o que se expressou particularmente na Comunidade de Corinto, a que mais criou problemas, pensando que podiam julgar tudo conforme bem entendiam (foi a contragosto que Paulo teve que criticá-los em vários pontos); com seus "irmãos de raça e sangue", Judeus convertidos, problema que não podia ser resolvido pois não podia Paulo mudar o Evangelho... isso tem um peso indescritível! Não há o que fazer a não ser agüentar o peso e não quebrar. E trágico! E, por fim, conflito com o Império Romano, o que o levou à morte.

Foi enfrentando com coragem e bom ânimo essa vida conflitiva que o Apóstolo Paulo cresceu, do "menor dos Apóstolos", até o "Maior dos Apóstolos". Cresceu na vivência do Evangelho e atingiu grande maturidade, concedida a poucos. Tirou muitas lições dos seus fracassos a partir do momento em que os reconheceu e assumiu como fracassos, e não relativizou nem se justificou. Observe um interessante episódio, que seria até cômico se não fosse tão "trágico" para Paulo.

É certo que Paulo era um homem inteligente, bem acima da média, provavelmente, e confiava em sua oratória e argumentos de persuasão. Confiou mais nisso do que no Poder de Deus. Aconteceu durante a 2a Viagem Missionária.

Ele vinha de uma verdadeira maratona pela Ásia Menor e Macedônia. Tinha fundado várias Comunidades, mas em quase todas essas cidades (Galácia, Filipos, Tessalônica, Beréia) foi perseguido e torturado; teve que fugir várias vezes, mas nada foi capaz de desanimá-lo. Então chegou, sozinho, a Atenas. Ali, passeando pelas ruas, sentiu o conflito: ficou revoltado ao ver a cidade cheia de ídolos, altares de todos os tamanhos em todos os cantos. E... inclusive um altar "ao deus desconhecido", tal o receio que tinham de terem-se esquecido de alguma divindade não conhecida (At 17.23).

Na praça do mercado, Paulo, um "mosquito" solitário tentou começar a sua pregação e anunciar alguma coisa do Evangelho, mas a dificuldade de comunicação era grande; pensaram que Paulo estivesse a anunciar um novo casal de deuses: Jesus e Anástasis (Anástasis significa Ressurreição, imagine!) (At 17.18). Convidado a expor suas idéias no Areópago - afinal, gregos adoram filosofar - todo feliz e com grande expectativa, Paulo preparou seu discurso cheio de bons e irrefutáveis argumentos, chegando a citar alguns poetas gregos (At 17.19-31). Paulo deu algumas voltas, falou de Jesus sem citar seu nome; e não falou da cruz, só da ressurreição. Ao chegar nesse ponto... "infeliz homem que sou... droga, droga, droga"... os ouvintes se desinteressaram. Zombando dele, interromperam a sessão, chamaram-no de "Periquito"... "Vamos deixar o resto para a próxima!" (At 17.32). Poucos acreditaram, o resultado foi fraco, o contrário das outras vezes. Na realidade, um verdadeiro fracasso...!

Paulo pensava em poder, talvez, derrubar sozinho e pela sua convincente argumentação, o sistema de Religião Pagão, convertendo-o pela força dos seus argumentos. Belo erro! Montou um discursos baseado nas leis da oratória que muito dominava e da sabedoria que não lhe faltava como homem culto. Belo erro! Erro bem comum, creio que todos nós já fizemos isso, não é mesmo?! Bem diferente do resultado que o pescador Pedro, iletrado, que mal sabia falar direito ou assinar o nome teve, logo após a experiência do Pentecostes; 3000 convertidos!!!

Claro que as circunstâncias eram outras, mas Paulo definitivamente usou o caminho errado. Experimentou a total inutilidade de seus argumentos. Repito: foi um fracasso! O sistema sequer se abalou um milímetro, ninguém sequer se interessou. Paulo experimentava, a duras penas, seus próprios limites e aprendia na prática, mais uma vez, que "sem Ele... nada se faz"!. O Senhor permite o fracasso muitas vezes para que, se percebermos nosso erro, sejamos transformados e cresçamos. Se insistirmos no erro, estagnamos. Ficamos ali, à beira do caminho, sendo testados vez após vez, até que aprendamos o que Deus quer. Sem isso, sem apreender cada lição a seu tempo, não há como continuar a caminhada!

Paulo, em sua pretensão e afoiteza, em vez de derrubar o inimigo, ele mesmo foi derrubado. Sua reação foi estranha. O incansável e inabalável Paulo, que parecia ter sempre uma força invencível para superar QUALQUER CONTRATEMPO, inclusive prisão e tortura, desta vez amoleceu. Como Elias, sua vontade era de que a terra o tragasse.

Todo Líder passa por isso de vez em quando, por um abatimento intenso, um esgotamento espiritual, emocional e físico. Mas, nesse caso, creio que Paulo resolveu fazer fora do tempo o que o Senhor não lhe ordenara. Veja bem, ele indiretamente foi confrontar Principados que reinavam havia séculos na região, a quem tinham sido abertos Portais Dimensionais, assim, desse jeito meio louco... levou um rebote daqueles! Saiu de Atenas e foi para Corinto (At 18.1), onde, no próprio dizer dele, chegou "cheio de fraqueza, receio e tremor" (1 Co 2.3). Bem característico do ataque demoníaco pesado: cansaço inexplicável, acima do normal, medos infundados, quase terrores, a sensação horrível de que tudo pode dar errado a qualquer momento e acabar em desgraça.

Os tremores e sacolejos do corpo podem bem ser decorrentes do terror imposto pelos demônios nas emoções e no físico; mas poderia ser também uma enfermidade física, como febre, por exemplo, também causada por demônios. Foi uma retaliação bastante intensa, e Paulo literalmente desabou, entrou quase em depressão por causa de um sermão fracassado.

Mais tarde, Paulo conta aos Coríntios como chegou por lá, vindo de Atenas, e, com grandiosa humildade, descreve a todos a lição que tirou do seu fracasso, pois uma vez escrita a carta, era ela do conhecimento de todos na Comunidade (coisa bem pouco comum hoje em dia, onde os Líderes fazem de tudo para esconder seus erros, admiti-los, por medo de perderem o prestígio:

"Irmãos, eu mesmo, quando fui ao encontro de vocês, não me apresentei com o prestígio da oratória ou da sabedoria, para anunciar-lhes o mistério de Deus. Entre vocês, eu não quis saber de outra coisa a não ser de Jesus Cristo, e Jesus Crucificado. Estive no meio de vocês cheio de fraqueza, receio e tremor; minha palavra e minha pregação não tinham brilho nem artifício para seduzir os ouvintes, mas a demonstração residia no Poder do Espírito, para que vocês acreditassem, não por causa da sabedoria dos homens, mas por causa do Poder de Deus" (1 Co 2.1-5).


Não parece um Paulo bem diferente? Bem diferente do que discursava no areópago em Atenas? Que bom que aprendeu logo a lição! Em vez de ser ele a causa da conversão de quem quer que seja, a causa da conversão -como ele faz questão de deixar claro - é Deus em Pessoa, por meio do Seu Espírito. Dentro do próprio fracasso, clareou a Luz: ele experimentou a força e a sabedoria de Deus, que residem e se manifestam na loucura e escândalo da Cruz (1 Co 1.21-25). E, em Atenas, ele sequer tinha mencionado o Nome de Jesus, e muito menos citado a Cruz.....

Assim acontece conosco muitas vezes, com todos os verdadeiros servos de Deus. Muitas vezes só percebemos um problema interno quando este se evidencia por meio de um problema externo. O tratamento de Deus e o processo de transformação pessoal requerem esses momentos de "queda", de "fracasso"... então, se ao invés de nos revoltarmos, relativizarmos, irando-nos e insistindo no erro, pararmos para consultar o Senhor de coração realmente aberto e de fato disposto em conhecer a verdade a nosso respeito, nossas limitações podem ser transformadas em grandes potenciais. Foi vivendo quedas e aparentes fracassos que Paulo descobriu que "quando sou fraco, então é que sou forte".

Como já dissemos, a conversão é um processo dinâmico e permanente, que se vai realizando ao longo dos anos e da vida (se assim o permitirmos).Veja nosso exemplo em Atenas, e o mal que isso causou a Paulo; assim como a Luz que o derrubou na estrada de Damasco, produzindo um doloroso nascimento para uma nova realidade, essas mesmas quedas e cegueiras momentâneas continuavam acontecendo na vida do Apóstolo.

Naquele tempo longínquo, Ananias chegou e trouxe a luz de volta. Depois do fracasso em Atenas quem o ajudou a reencontrar o ânimo foi Timóteo que veio de Tessalônica com boas notícias, e ajudou Paulo a novamente, com coragem, "dedicar-se inteiramente à Palavra" (At 18.5). Mas... o que estamos querendo dizer, na prática?

Que só quando caímos percebemos onde e como temos de ser mais fortes, só quando erramos e notamos as conseqüências desastrosas conseguimos perceber onde está o erro. Sem a queda, sem a conseqüência do erro, sem o fracasso... como mudar? Como crescer? O doente só toma remédio se souber que está doente... o mesmo se dá conosco... só mudamos de direção quando Deus nos permite perceber que estamos na direção errada.

Não se trata de punição ou disciplina, são coisas diferentes. A disciplina vem para aquele que, mesmo caindo muitas vezes não se amolda, não se dobra, não ouve, insiste no erro. Mas a queda é um processo natural na vida de todos nós; mas especialmente aquele que é Líder tem que ser aperfeiçoado de maneira especial, porque seu trabalho e chamado são diferentes e ele será cobrado de tudo que fizer, a Deus prestará contas. Então... se cair.... levante! E veja o que essa queda lhe ensina.

Paulo foi profundamente humilhado, ridicularizado e fracassou na sua tentativa de fazer os atenienses se interessarem pelo Evangelho. QUEDA! No meio do problema externo, Paulo viveu um problema pessoal que estava escondido dentro dele; havia uma limitação na sua maneira de anunciar o Evangelho porque ele ainda confiava mais na oratória do que no Poder de Deus; diante daqueles homens tão cultos, que tantos grandes filósofos legaram para a Humanidade e que tanto apreciavam a oratória, talvez fosse melhor adequar a mensagem ao jeito grego de ver a vida.... e não era isso que Deus queria de Paulo, não foi isso que ele aprendeu e experimentou de Cristo!

O problema de fora fez aflorar o problema de dentro, e Paulo aprendeu que nunca mais queria saber de nada, a não ser de Cristo, Cristo crucificado. Em Atenas, ele tinha escondido sua própria fraqueza e medo atrás da força dos argumentos, da sabedoria e da oratória. Mas aprendeu.

Entendeu. É precisamente através de uma vivência saudável de todos esses problemas, grandes e pequenos, que Deus continua falando a Paulo... e a nós.

Teimar com Deus é "jogada furada". Essa é a maneira errada de vivenciar a queda e o problema. Claro que nos entristecemos, nos sentimos abatidos, desgostosos... mas uma vez passando a frustração e a raiva normal de todo ser humano, pois não sejamos hipócritas de dizer que não nos frustramos e enraivecemos quando as coisas dão errado, por favor!

Não estamos aqui para isso! É normal, sim, é esperado...! Mas aí, o inevitável... o latejar do Amor no coração é maior, e olhamos para o Pai... talvez ainda um tantinho emburrados, um tantinho entristecidos, ansiando por uma resposta que acalme o nosso coração que somente deseja agradar ao Dele...

"Pai, me diga... o que foi que fiz de errado? Me ensine a fazer o certo da próxima vez...": isso é o que chamo de vivência saudável do problema! E veja, mais uma vez... não sejamos hipócritas! Pode ser que tenhamos "sorte" de cair somente uma vez no mesmo buraco, no mesmo erro; mas pode ser que, mesmo tendo entendido a questão e desejando de fato mudar e acertar, ainda não sejamos capazes. Então... não há outro caminho senão o das lágrimas de petição e súplica, o do arrependimento e da oração constante, até VENCER!!! Temos de resistir, e persistir, como Paulo fez, até o sangue!

Aprenda, aprenda essa lição, guarde com cuidado no fundo do seu coração: você só pode ensinar o que aprendeu... só pode fazer alguém enxergar até onde você já enxergou. Senão, é pura aula teórica, puro conceito, não é fruto da Fonte de Água Viva que todos nós que estamos em Cristo, verdadeiramente, temos dentro de nós. Essa Fonte tem que fluir, como Cristo disse, que "Rios de Água Viva fluiriam do nosso interior". Esse fluir é que transforma a oratória em Palavra de impacto, a sabedoria humana em Poder de Deus, e os nossos métodos calculados em bombásticas manifestações do Espírito. O que realmente vale é a nova criatura!

Entretanto, dentro de nós existem ainda muitos obstáculos, muitas pedras, muitas barragens que impedem o livre fluir da Água. E grande parte do terreno da nossa vida fica sem ser inundado por essa Água Viva, pois a fonte está obstruída. Mas eis que de repente os terremotos da caminhada, os vendavais poderosos, as quedas e dores que vêm da parte do Altíssimo derrubam as pedras, quebram as fortalezas das barragens, desobstruem a saída da Fonte... e a Água, antes parada, estagnada, já cheirando mal e sem vida em si mesma, jorra abundantemente!!!! A posição anterior das pedras, das barragens, dos canais de curso d'água que foram cuidadosamente colocados e montados durante anos perde seu sentido completamente. E o milagre do novo ser em Cristo!

Fácil de falar... mas isso é para os fortes e corajosos, os que correm a corrida até o fim e alcançam a coroa, sem desistir! "Sim, porque a mim me parece que Deus nos pôs a nós, os Apóstolos, em último lugar, como se fôssemos condenados à morte; porque nos tornamos espetáculo para o Mundo, tanto a anjos quanto a homens. Nós somos loucos por causa de Cristo, e vós, sábios em Cristo; nós, fracos, e vós, fortes; vós, nobres, e nós, desprezíveis. Até a presente hora sofremos fome e sede e nudez; e somos esbofeteados, e não temos morada certa, e nos afadigamos, trabalhando com as nossas próprias mãos. Quando somos injuriados, bendizemos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados, procuramos conciliação; até agora, temos chegado a ser considerados lixo do mundo, o esterco do Universo!" (1 Co 4.9-13).

É fácil de ler... quando não é na nossa pele! Um homem do quilate de Paulo foi considerado por tantos como esterco e lixo! E o Pai nos pergunta, não a todos, mas a alguns: "Você paga o preço, meu filho, minha filha amada? Por Amor a Mim?".

O desabafo de Paulo fala por si. Ele aprendeu, e pouco se importava em ser julgado, com o que pensavam sobre ele... importava o que DEUS pensava dele! Seu sarcasmo era recurso de retórica eficaz quando queria abrir mais depressa os olhos e ouvidos dos ouvintes. Ele queria, não envergonhá-los diante de seus erros, como diz em seguida, mas abalar-lhes a justiça própria e fazê-los olhar na direção CERTA! Pois Paulo os amava como pai, uma vez que "pelo Evangelho, vos gerei em Cristo Jesus. Admoesto-vos, portanto, a que sejais meus imitadores (1 Co 4.15-16). As duas lutas eram importantes... tanto a luta da grande caminhada do Evangelho de Deus no Mundo, como a sua luta interior, pessoal. Uma coisa completava a outra.

Quantos dos Coríntios realmente o ouviram naquela ocasião, e, arrependendo-se, cumpriram seu destino espiritual? Deixaram a Fonte jorrar? Foram transformados de fato?

"E você? Você está ouvindo?"

O chamado não é para todos, mas Jesus insiste:

"Filho amado, tu me amas?"

"Filha amada, tu me amas?"

"Filhos e filhas amadas, vós me amais? Vozes que clamam no deserto, preparai o Meu Caminho, endireitai as Minhas Veredas..." Aqueles que esperam no Senhor renovarão as suas forças, subirão com asas como de águias, correrão, e não se cansarão; caminharão, e não se fatigarão...

Como Paulo conseguia "não quebrar", em meio a tantos conflitos? Onde e como encontrava meios para se refazer? Ele foi capaz de criar em si mesmo um espaço onde encontrava paz e refrigério, águas de descanso e pastos verdes... isso é fruto de um contato íntimo, profundo e constante com o Pai. Não um contato teórico e fruto de divagações em idéias, mas um contato real. "Eu te amo, ó Senhor, força minha. O Senhor é a minha rocha, a minha cidadela, o meu libertador; o meu Deus, o meu rochedo em que me refugio; o meu escudo, a força da minha salvação, o meu baluarte" (Sl 18.1-2).

Aquilo que Davi aprendeu, Paulo também aprendeu. Ele é a Fonte de todo Consolo e Poder e Amor; pelas Suas Promessas, vivemos; e da esperança tiramos força, e por meio da fé, conquistamos; amanhecemos e vivemos, fortes, inabaláveis... por causa, simplesmente, da Sua presença constante, real, permanente; da Sua Voz penetrante que nunca se cala; e do Seu amor, que nos aninha e aconchega. Ser humano algum poderia substituí-Lo, o Lírio dos Vales, a Rosa de Sarom, o Amor da nossa vida...

Se fosse apenas algo teórico, não resistiria na hora crítica, ao julgamento, às perdas e perseguições. As nossas certezas estão baseadas em algo bem mais sólido e forte do que tudo isso. E Deus sabe recompensar os Seus. Tenho certeza que Paulo, quando escreveu da prisão "Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a Fé", ele tinha dentro de si uma inequívoca certeza de que não teria escolhido outro caminho na vida!



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