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O Sacro Império encontrava-se ameaçado pela chegada dos Lombardos, que já haviam fundado seu Reino no Norte da Itália em 568. A Igreja solicitou a ajuda de Pepino através do Papa Estevão II (752 — 757), pois não podiam contar com a ajuda de Constantinopla. Pepino entrou na Itália e expulsou os Lombardos do Norte, doando à Igreja o território recuperado. Dessa concessão territorial nasceram os Estados da Igreja, cuja extinção somente ocorreria em 1870, com a unificação da Itália!!! Ainda em benefício da Igreja, Pepino transformou em lei a doação do dízimo (!!!!!), antes feita espontaneamente. Realmente... que precinho simbólico!

Carlos Magno completou a obra do pai derrotando e aprisionando o rei Lombardo, e confirmando a doação de terras. Tudo foi feito por solicitação do Papa Adriano I. Então Carlos Magno cruzou os Alpes e em pouco tempo anexou o território Lombardo aos seus domínios, após cercar a capital deles. Proclamou-se Rei da Itália e do Papa recebeu o título de "Patrício dos Romanos", que o tornava protetor da cidade eterna, Roma... nada de novo...rios de sangue e luta por poder!

Pouco antes de investir contra os Lombardos, Carlos Magno já havia começado a conquista da Germânia; depois de pôr fim à independência da Baviera, ele voltou-se contra os Saxões, derrotando-os em 777. Os Saxões se revoltaram, mas a conquista definitiva de Carlos Magno deu-se em 803.

Com algumas exceções (como o fracasso em reconquistar a Espanha Muçulmana, massacrando parte de seu exército), os domínios territoriais de Carlos Magno praticamente reconstituíram o antigo Império Romano (cuja queda, como já vimos, foi em 476). Essa proeza não passou despercebida à Igreja.

No Natal do ano 800, Carlos Magno foi coroado Imperador pelo Papa Leão III, quando se encontrava em Roma. Sempre, sempre artimanhas políticas, não deixe de perceber... mais tarde verá a verdadeira razão oculta por trás de cada episódio importante da História.

Com a coroação de Carlos Magno foi retomada, no Ocidente, a tradição do Império Universal antes representado pelos Romanos. Mas agora havia uma diferença crucial: o poder Universal tinha de se dividir em dois - o Imperial e o Papal.

Teoricamente, nenhuma autoridade em assunto espiritual podia ser superior à do Papa; da mesma forma, em assuntos políticos, o Imperador era soberano absoluto. Na prática, porém, a realidade era bem outra......a relação entre esses poderes poderia tender a ser problemática.

Contudo, o Império fundado por Carlos Magno não estava destinado a durar. O sistema administrativo era rudimentar e ineficiente diante de um território tão grande. O Imperador deslocava-se por todo o território, dividido em dezenas de condados administrados por um Conde (nobre de confiança do Imperador) que tinha direito a uma porcentagem dos impostos imperiais. Imagine só!...

Devido à distância e precários meios de comunicação, os Condes governavam como se o Imperador não existisse. Claro. Os Condes eram fiscalizados por agentes imperiais (pelo menos, essa era a tentativa), em pares, um membro do Clero e o outro laico.

Anualmente o Imperador reunia-se com os nobres para tomar medidas necessárias para evitar tal descentralização de poder do Império. A impossibilidade de recolher impostos substanciais (naturalmente havia desvio) fez com que ficasse impossível manter um Exército permanente. Até Carlos Magno vivia das rendas de seus próprios domínios, que eram grandes, mas insuficientes para financiar a administração de um imenso território.

Como se vê... estavam desprovidos de uma estrutura administrativa compatível com a extensão do Estado Imperial. Depois da morte de Carlos Magno em 814, foi sucedido por Luís, o fervoroso, que deixou-se dominar pelas autoridades religiosas. Isso causou mais ainda o enfraquecimento do poder Imperial. Os três filhos dele lutaram pelo domínio do Império, dois contra um.

Este último, derrotado, aceitou dividir o Império. Claro que logo os ataques vieram, tal a fragilidade reinante. A vulnerabilidade desses Reinos foi aproveitada pelos Escandinavos (também conhecidos como Vikings ou Normandos), Húngaros, Sarracenos (Muçulmanos da África do Norte) e Eslavos. Pilhavam povoados e roubavam principalmente Abadias ricas, e às vezes, cidades.

O seu raio de ação era bastante extenso: os Suecos (Varegues) entraram na Rússia, onde fundaram o primeiro Estado Russo, o Estado de Kiev; os Noruegueses se concentraram na Irlanda e os Dinamarqueses, litoral da França e Inglaterra, alcançando também Espanha e Itália. No início do século IX, os Normandos dedicavam-se às pilhagens. No século X, muitas dessas áreas foram reconquistadas pelos Cristãos, que ainda eram uma Monarquia independente, restando apenas um grupo de Normandos muito poderoso que se fixou no curso inferior do Sena (896), dando origem à Normandia.

Esse grupo, o mais influente dentre os escandinavos, conquistou a Inglaterra, o sul da Itália e a Sicília (que antes eram dominados pelos Muçulmanos). Enquanto os ataques Normandos vinham do norte, os Muçulmanos (sarracenos) devastavam o litoral da Itália. Do leste, por terra, chegavam os Húngaros, ameaçando a Alemanha e o sul da França. Por fim, estabeleceram-se no que seria a Hungria. Por último, os eslavos, provenientes da planície russa atacaram as fronteiras orientais da Alemanha. A esse grupo étnico pertencem Poloneses, Tchecos, Croatas, Sérvios e Russos.

Essas invasões do século IX detonaram o Império Carolíngio em decomposição. O sonho Imperial renasceu em 962, quando um soberano alemão, Oto I, assumiu a coroa daquele que veio a ser conhecido como o Sacro Império Romano-Germânico, pois Oto foi coroado Imperador pelo Papa João XII.

Tendo sua sede na Áustria, o Sacro Império foi o sucessor do Império Carolíngio e estendeu seu domínio sobre a Itália. Por esse motivo, esteve sempre em conflito com o Papa, disputando com ele a hegemonia Italiana.

Impressionante como depois de tudo isso a Igreja e o Papa continuavam existindo... e reinando! Precisamos entender como isso foi possível...

Fica muito claro que os objetivos da Igreja não se limitavam à divisão do poder espiritual com o secular: não estava muito a fim de dividir o Poder com o Sacro Império Romano-Germânico. Era mais interessante modelar toda a esfera secular à sua moda, e mantê-la sob seu controle. Movida por estes espíritos, procurou trazer não somente os Reis, mas também a nobreza para sua esfera de influência.

Uma boa estratégia foi incorporar ao Cristianismo algo "bem Bíblico"...(ou melhor, "bem pagão"...) que era ver o Rei como "ungido do Senhor". Então, com esta estratégia, ao se ungirem os Reis Germânicos, o prestígio religioso destes pagãos ficava preservado, facilitando a incorporação dos seus Reinos à Cristandade. E, ainda por cima, os Reis passavam a depender da Igreja para a sua sagração.

Mas havia de se convencer o Exército Germânico também... por meio do Ritual da Cavalaria, inspirada nos costumes germânicos de promoção dos jovens a Guerreiros, quando ganhavam um escudo e uma lança de um Chefe Militar, a Igreja instituiu esta Cerimônia da Sagração de Cavaleiros que se tornou base das relações vassálicas.

Daquele que se sagrava Cavaleiro exigia-se, como principal virtude, a lealdade para com o seu senhor; mas o Cavaleiro verdadeiramente virtuoso deveria ser também defensor da Igreja, dos órfãos, das viúvas e dos pobres. A Cavalaria tornou-se uma Instituição Feudal expressiva nos Séculos XI e XII. E importante lembrar que o momento áureo da Cavalaria coincide aproximadamente com o período das Cruzadas contra os Muçulmanos, momento em que os Cavaleiros desempenharam papel significativo.

Como vemos, a Igreja agia politicamente para atingir objetivos religiosos. O confronto entre o Papa e o Patriarca de Constantinopla, por exemplo, tinha todas as características de uma luta de poder. A Igreja nunca hesitou em intervir no Mundo profano; sacralizava as relações políticas e ia em frente, tornando-se, assim, fator imprescindível - que beleza! - de legitimidade. Como no caso da sagração dos Reis ou da Cavalaria! Transformava-se, deste modo, um categoria social numa espécie de ordem religiosa (e sem nenhum peso na consciência...). Isso porque cada Sociedade cria para si mesma uma representação do Mundo.

Hoje, em nosso tempo, praticamente tudo passa pelo crivo da Razão e da Ciência. Mas essa não era a realidade dos homens medievais; eles viviam no Mundo da Fé, dos Dogmas, ou seja, as verdades eram absolutas e indiscutíveis, e os ensinamentos que tinham importância e legitimidade eram os do Novo Testamento (claro que "interpretados à Moda Medieval"). As verdades emanavam de Deus, e vinham por meio de revelações; portanto, a verdade revelada não passava pela aceitação da Razão. Era porque era! E o Mundo Medieval fez da crença no Cristianismo o seu objetivo central.

Uma reação à aculturação da Igreja em relação ao Mundo foi o Monasticismo, onde Monges e eremitas seguiam para os desertos do Egito, vivendo em cavernas e tentando levar uma vida santa. Uma enorme gama de discípulos foi atraída por esse modo de vida e o Monasticismo desenvolveu-se em diversas regiões, ao ramificar-se do Egito.

Depois de 200 anos, começaram a surgir ordens Monásticas específicas, como os Beneditinos. Ao longo da Idade Média, outras surgiram (Carmelitas - 1154; Franciscanos - 1209; Dominicanos - 1215; Agostinianos - 1256; Jesuítas - 1540), atravessaram a Idade Média e algumas sobrevivem até hoje.

Cada uma delas tinha suas regras, princípios e prioridades específicas, sendo mais ou menos rígidas. Note que tantas diferenças naturalmente são disparatadas, porque se fizessem exatamente o que Cristo disse, não haveria o por quê de tantas diferenças... é o mesmo que acontece com a Igreja Protestante da nossa época...

Mas, voltando ao curso da nossa narrativa da Idade Média...

Não poderíamos deixar de citar o período das Missões, que começou logo depois da conversão dos Francos no final do Século V, e estendeu-se por toda a Gália, província que passou a ser chamada de França. O Cristianismo chegou à Inglaterra através de soldados Cristãos do Império Romano. Monges levaram o Evangelho à Irlanda, Escócia e Alemanha.

Da Inglaterra saíram muitos Missionários para o Mundo. Repare, então, que enquanto se formava o Sacro Império Romano, o Império Carolíngio, e o Sacro Império Romano-Germânico, durante estes séculos de brigas e conquistas e invasões Bárbaras e disputas entre o Poder secular e o Papado, as Missões estavam acontecendo em paralelo. Repare também que o Cristianismo que se propagava era contaminado e bem diferente daquele do I Século.

A Igreja lutava pela sua independência, e o Império, por outro lado, aproveitava qualquer oportunidade de enfiar o nariz nos negócios da Igreja. Em torno do ano 1000, o Cristianismo espalhou-se como fogo em rastro de pólvora, como incêndio pela Europa inteira, chegando mesmo às fronteiras da Rússia. Quando chegou à América, principalmente pelos jesuítas, a obra Missionária foi conduzida como na Europa. O Catolicismo espalhou-se por todo o sul e sudoeste da América do Norte e por quase todo o Hemisfério Sul.

Algumas crenças foram muito importantes nesta época. Delas partiu toda a violência e atitudes indizíveis da Igreja Católica Apostólica Romana. A brutalidade foi real, a violência legitimada a partir do momento em que a Igreja e o Estado concordaram em atacar aqueles que eram encarados como discípulos do Diabo. As Missões foram relativamente pacíficas enquanto o Cristianismo era aceito sem maiores delongas. Mas, de repente, encontraram um impasse daqueles...

Imagine qual...? Muçulmanos! O conflito com o Islamismo começou nesta época. Neste momento, a face do Diabo era morena e de barba, induzindo ainda mais ao confronto. Foi aí que se deu o período das Cruzadas, para enfrentar e rechaçar o ataque Islâmico. Vê? Como essa briga é antiga?

E por falar em Diabo... onde e como ficou ele nesta história toda? Na verdade, conforme explica a Professora de História da Religião da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, Elaine Pagels, esse comportamento Cristão, em duas palavras, pode ser traduzido assim: "Satanás é o Inimigo; é todo aquele que não concorda conosco". E, de fato... assim aconteceu. Sob a aparência de levar a salvação aos perdidos, a Religião Católica perdeu-se em si mesma, e, sem prumo algum, baseada em doutrinas distorcidas, matou e lavou de sangue a História, em nome de Deus.

Combatendo o Diabo e seus representantes na terra, a carnificina resultante mergulhou a Europa Ocidental em uma Sociedade aprisionada pelo ódio e pelo medo. Devemos também nos lembrar da condição da Europa na época após a queda do Império Romano; no Século V, a Europa tinha poucos centros de Civilização, havia muita fome e doenças, e a fé era a única maneira de lidar com as forças do Mal. A Europa assemelhava-se a um país de Terceiro Mundo.

Acreditando que os seres humanos, no fundo, são criaturas irracionais, não somos capazes de manter em ordem a nossa psique, emoções, medos e neuroses subordinados à razão pura, e o que aconteceu foi justamente isso: a Europa lançou sobre quem pôde as suas fobias e terrores. A mesma perseguição sofrida pelos Cristãos dos três primeiros Séculos foi imposta aos outros - em maior escala! Quer dizer: Satanás nunca esteve tão em alta quanto na Idade Média.

Cria-se na existência dos pactos feitos com o Diabo em troca de fortuna, poder, conhecimento. O famoso relato do poeta e escritor alemão Goethe, Doutor Fausto, de 1833, é baseado na história de Johannes Faustus, de Heidelberg (1480 -1540), pouco depois do final da Idade Média. Goethe conta a história do sábio que compactua com Satanás e lhe vende a alma em troca de conhecimento, poder e mulheres.

E por falar em mulheres... acreditava-se também que elas poderiam ser possuídas por Demônios durante o sono por Demônios chamados Íncubus. Os homens por sua vez, eram tentados e atacados por Demônios de forma feminina, os Súcubus. O sexo tornou-se a principal armadilha do Diabo para conduzir os homens à perdição.

Daí vem a mais comum representação do Diabo, na qual aparece com patas de bode e chifres, alusão à imagem de Pan, divindade Greco-romana que se divertia em orgias, tendo o sexo associado ao Diabo sempre um aspecto violento e "pouco natural" (dado o que se admitia como "natural" na Idade Média...). O pouco natural, vamos balizar um pouco a questão, é decorrente de uma distorção do sexo: quando é praticado com animais ou crianças; entre indivíduos do mesmo sexo; grupais; ou com conotações humilhantes ou torturantes para o parceiro. Mesmo assim, não seria somente isso que a Igreja havia de condenar, é óbvio...

Aliás, fora sua inclinação natural pelo poder, a Igreja (e, conseqüentemente, as pessoas em geral) aceitava a existência da possessão diabólica; portanto, o Exorcismo era prática comum. Veja que a "possessão" é uma crença totalmente nova; até então não tinha aparecido no Antigo Testamento nem em qualquer outra Obra Literária anterior ao Judaísmo. Catástrofes, doenças e morte eram manifestações do Mal, mas não uma atividade direta do Demônio na pessoa.

O primeiro Concilio que assumiu uma atitude solene e decidida sobre a questão do Diabo foi o Concilio de Praga (Portugal), em 561, para posicionar-se diante de uma vertente que dizia que o Diabo não tinha sido criado por Deus. A igreja então afirmou que Deus criou anjos perfeitos que, segundo seu próprio livre-arbítrio, rebelaram-se.

Mais tarde, outras afirmações foram consolidadas sobre a origem, obras e tentações demoníacas. Por isso o Exorcismo só poderia ser visto e praticado dentro do contexto da Igreja e pelos Sacerdotes da Igreja. Embora pareça incompatível e paradoxal com essa mentalidade, a verdade é que a relação entre Razão e Fé tornou-se o tema central de toda Filosofia Medieval que nasceu no Século XI.

Por exemplo, alunos de escolas Medievais tanto recitavam os Salmos quanto aprendiam a lógica Aristotélica. No século XIII, as coisas se complicaram com a disseminação de obras de filósofos Árabes da Espanha. Isso trouxe ameaças ao Cristianismo, uma vez que a Filosofia Aristotélica era incompatível com a Fé, pois concebia o Universo como realidade incriada e não possuía o conceito de alma imortal. Já a Filosofia Árabe acreditava em "níveis de conhecimento" - o literal e o Oculto -, destinado a pessoas de maior ou menor inteligência. Portanto os conhecimentos não eram todos equivalentes; havia uma hierarquia, na qual o conhecimento Filosófico era tido como o mais elevado. Essa linha de pensamento, embora atraísse alguns Cristãos, foi prontamente combatida.

Coube a São Tomás de Aquino (1225 - 1274) reconciliar de maneira equilibrada a Fé e a Razão. Mesmo assim, o domínio da Razão foi diminuindo cada vez mais na Idade Média, invertendo a tradição da Antigüidade Clássica. A supremacia da Fé e do conhecimento revelado foi se estabelecendo em detrimento da compreensão intelectual e da Razão. E o mesmo que dizer que o Sagrado se impôs ao Secular.

As Escolas eram bem divididas, e a concepção de ensino era Aristocrática, ou seja: já separava as artes manuais das intelectuais, ficando as primeiras para os mais pobres, como servos e plebeus.

As Escolas Monásticas, no campo, aceitavam como alunos apenas os Monges. As Escolas Catedralícias, nas cidades, no Século XII, estavam em ampla ascensão, mas enfrentavam o problema de ter mais alunos que professores. Isso porque (para variar) a formação do professor era monopolizada pelo Bispado, que controlava as "licenças de ensino", sem as quais ninguém estava autorizado a exercer o Magistério.

Não havia interesse por parte da Igreja em ampliar a rede de ensino. E perigoso abrir as mentes das pessoas, mesmo dentro de todo aquele monopólio. No Século XIII, vieram as Universidades, como fusão de várias escolas já existentes. Resistiram à interferência, quer dos bispos, quer do patriciado, e acabaram reconhecidas como corporações autônomas.

Mesmo assim, neste período em que começou a abrir-se um mínimo espaço para a Razão, o Diabo ainda era considerado responsável por toda sorte de males físicos e enfermidades. Os próprios médicos, não conseguindo chegar a um diagnóstico, imediatamente atribuíam o caso aos poderes demoníacos.

Particularmente, a possessão demoníaca era, segundo a crença popular, atribuída aos Demônios que entravam por orifícios do corpo da pessoa. Em suma, o Diabo era conhecido por sua habilidade em ocultar-se sob uma enorme gama de disfarces!

Voltemos à História.

Como dissemos, diante do "empecilho" Muçulmano, chegou o período das Cruzadas, em 1095, que não tinham um cerne tão "pacífico" quanto as Missões. Estendeu-se por um período de 200 anos, desencadeando um frenesi de ódio e violência sem precedentes até então. Em 1100, a Europa, apesar de sempre ter sido uma Sociedade perseguidora, agora seria dominada por outro tipo de terror.

O Diabo estava em toda parte! E a Igreja, que pregava um Deus que amava tanto a Humanidade, a ponto de dar seu Filho em sacrifício para livrá-la do pecado, da morte e do Diabo, acabou criando um inferno na Terra, que pode ser comparado ao Holocausto de Hitler!

Uma série de expedições Cristãs empreendidas contra os Muçulmanos foi o que nós mais comumente nos lembramos como tendo sido as Cruzadas. E, realmente, foi a parte mais importante do Movimento. A primeira delas foi uma investida contra Jerusalém, na intenção de libertar o Santo Sepulcro - o túmulo de Cristo.

E foi a única "bem- sucedida" no sentido de que conseguiu tomar Jerusalém, e com isso inundar de sangue Muçulmano e Judeu as ruas da cidade velha até a altura dos tornozelos. Mas não teve a participação de nenhum Rei. Quatro anos depois, o Papa recebeu a notícia de que "Jerusalém tinha sido libertada". Mas, depois, os Muçulmanos reconquistaram parte de Jerusalém (1144). Por sinal, o domínio Islâmico era muito amplo: todo o centro-sul da Espanha, a Sicília, Palma e outras ilhotas do Mediterrâneo, o Norte da África, a região da Mesopotâmia e o Oriente Médio...

Observamos uma evolução das Cruzadas à Terra Santa. A primeira tinha realmente fervor religioso; mas só obteve êxito por causa da desestabilização no Mundo Árabe. Porém, depois da reconquista dos Muçulmanos, foi organizada uma segunda Cruzada, agora pelas maiores potências da época: Luís VII , Rei da França, e Conrado III, do Sacro Império. Nela já predominava o espírito guerreiro motivado por conquistas. Mas o saldo foi decepção. Com pesadas perdas, os Monarcas regressaram à Europa.

Quarenta anos depois do fracasso, o Imperador do Sacro Império partiu para o Oriente, mas morreu afogado. Com ele estavam dois grandes Líderes, o Rei da França, Filipe Augusto, e Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra.

O objetivo era reconquistar Jerusalém, tomada pelo hábil chefe Muçulmano Saladino, que em 1187 reuniu sob seu poder vasto território que ia do Egito à Síria. O pensamento por trás desta 3a Cruzada também era a ganância pelas conquistas e o poder que isso gerava, e não mais a fé.

Mas novamente os Cruzados foram derrotados. A unificação exatamente de Egito e Síria traduziu-se no impasse, apesar deste ter sido o maior esforço militar da Idade Média, levando ao ápice a fúria de todo o Movimento Cruzado e colocando frente a frente duas das mais notáveis e fascinantes figuras: Saladino, Sultão do Egito, Síria Árabe e Mesopotâmia... e Ricardo Coração de Leão.

Fazendo um pequeno aparte para rememorar este momento, coloquemos alguns adendos. Esse confronto de gigantes ainda ressoa na História e na Política Modernas do Oriente Médio de hoje. Na verdade, sua ressonância é bastante ampla. Nos conflitos entre Cristãos e Muçulmanos, onde quer que se dêem no Mundo, da Bósnia a Kosovo, Chechênia, Líbano, Malásia ou Indonésia, ainda hoje Saladino continua sendo um grande Herói do Mundo Islâmico.

Foi ele quem reuniu os Árabes, quem derrotou os Cruzados, retomou Jerusalém e expulsou os invasores Europeus das terras Árabes. Na luta que parece interminável dos Muçulmanos de hoje para reafirmar a natureza essencialmente Islâmica da Palestina, Saladino continua vivo, vibrante como símbolo de esperança e tema de Mito.

Em Damasco, no Cairo, em Hamã ou na Jerusalém Oriental, pode-se, ainda hoje, ouvir falar de Saladino, pois as antigas lembranças são fundamentais para a sensibilidade Árabe e sua ideologia de libertação. Nas barras da pequena e mal iluminada cela da cidade velha de Jerusalém, onde ele viveu em condições humildes após suas conquistas grandiosas, lê-se a inscrição:

"Alá, Maomé, Saladino. Deus, Profeta, Libertador"!

Veja como é forte a ligação deste personagem com o deus e o profeta Muçulmanos. O Mundo Árabe parece que vive eternamente na espera de um "outro Saladino". Na prece de sexta-feira, de canto a canto no Mundo Árabe não é incomum ouvir-se a súplica para que alguém como ele venha libertar Jerusalém.....

A vitória total de Saladino contra os Cruzados na Batalha de Hattin é tida hoje como símbolo imperecível do triunfo Árabe sobre a interferência Ocidental. Em Damasco, perto da estrada de Souq-al-hamadi-ya, ao centro há uma heróica estátua eqüestre de Saladino que enfeita a principal praça da cidade. Assim, acredita-se que Saladino virá de novo algum dia... e algum dia haverá de novo uma segunda Batalha de Hattin.

Já com o personagem Ricardo Coração de Leão, embora famoso, a coisa é diferente. Seu legado não é menos vibrante, mas de natureza um tanto diversa. Ele foi uma brilhante mente militar e um temível general que compreendeu as estratégias e as táticas de grandes forças de maneira muito à frente do seu tempo. Não tinha rival em bravura e arrojo, mesmo tendo fracassado na Cruzada. Sua volta da Terra Santa e captura na Áustria tem o sabor homérico de Odisseu. Ricardo é lembrado pela bravata, astúcia, e extravagância; mas não por misericórdia ou moderação.

Apesar das motivações erradas, há de se imaginar o que não sentia o Guerreiro Cruzado ao percorrer a Terra pisada por Jesus, o que sem dúvida afetava a motivação para combater, e, conseqüentemente, matar... esse era o Cristianismo!

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