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"Experimentei a espada do velho Godofredo num Muçulmano e dividi-o em dois como uma rosquinha. (...) E se eu tivesse um cemitério haveria de destruir todos os infiéis de Jerusalém! Limpei o sangue da espada e devolvi-a ao padre; não queria que o sangue novo apagasse aquelas manchas sagradas que um dia haviam roseado o seu brilho (...)"

Do mesmo modo, tampouco é difícil compreender o esforço extra exigido para o soldado Muçulmano que defendia seu território e fé nativas. Afinal, como sabemos, Jerusalém é sagrada para Cristãos, Muçulmanos e Judeus. Assim como hoje onde os sinos que dobram para as Nonas se misturam com o grito do Moesin, chamando para a prece, e o canto do Judeu Ortodoxo... onde a Mesquita de Ornar está unida por tijolo e argamassa à Igreja do Santo Sepulcro, e não distante do Muro Ocidental... a cidade velha vive nos sonhos e imaginação de todos os seus participantes. A vibração desses sentimentos por Jerusalém, para tomá-la ou defendê-la para a Fé, aumenta a ferocidade do conflito. Essas paixões que vigoraram outrora não são menos vibrantes e coloridas hoje.

Enfim, a 3a Cruzada foi Guerra Santa no mais violento grau. Inevitavelmente, teve muita coisa de profano, na verdade, sacrílego mesmo. A sede de saque, as efusões de ganância, a luta e matança por si mesmas... sim, assim foi. Tudo em nome da Religião. Em nome de "Cristo"! Ali a tão conhecida Guerra Santa ainda estava na infância, mas praticada no auge da ferocidade.

E assim é uma ironia do destino que hoje, de fato, a palavra Jirad leve tanto medo ao coração de muitos Ocidentais e Governos Ocidentais, que a associam com o Terrorismo e fanatismo Islâmicos. Mas observe, por definição, Jirad é um conceito defensivo condicionado à provocação de um agressor não-crente (não-islâmico). No Alcorão, o fiel é chamado a "combater pela causa de Deus aqueles que vos combatem; mas não os provoqueis porque Deus não estima os agressores" (2:190). "Dessa luta de ação defensiva advirão grandes recompensas no céu".

Mas a verdade é que nada há na História Islâmica que rivalize com o terror das Cruzadas, ou o fanatismo Cristão demonstrado na Inquisição. Na longa lista de atrocidades cometidas contra Judeus, Mulheres, Muçulmanos e Grupos Étnicos, os Historiadores citam especificamente as Cruzadas. No quesito "desculpas religiosas", as Cruzadas receberam posição semelhante ao Holocausto.

Voltando ao assunto.... que era...? Sim, esse mesmo, ainda as Cruzadas.

Na Quarta Cruzada, o interesse comercial já predominava. Foi convocada pelo Papa, e os nobres atenderam ao apelo Papal, pois o "rótulo" era religioso - ótima desculpa! - mas o interesse... monetário!!! Não havia dinheiro para o transporte dos Cruzados, e um acordo com Veneza resolveu o impasse. Os soldados pagariam parte das despesas em dinheiro e o resto com 50% do que conquistassem.

Como não tivessem o dinheiro para a primeira parte do pagamento, os venezianos propuseram um trabalho militar "extra" como quitação da dívida: a ocupação de Zara, cidade que, embora Cristã, era rival de Veneza.

Também foi introduzido outro ingrediente no meio: um príncipe Bizantino (Império Romano Oriental, Império Bizantino) fez uma proposta sedutora ao Papa, convocador da Cruzada: prometeu colocar a Igreja Oriental sob a autoridade dele, Papa, caso os Cruzados o ajudassem a depor o usurpador que ocupara o Trono de seu pai...!!!

Com tanta confusão e interesses paralelos, a Cruzada era mera justificativa para os fins, e embora tivesse (mais uma vez) o objetivo de libertar Jerusalém, jamais chegou ao seu destino. Depois de acabar com Zara e derrubar o usurpador em Constantinopla, os Cruzados já estavam insatisfeitos com as promessas não cumpridas, resolveram, eles próprios assumir, em 1204, o governo Bizantino. Daí nasceu o Império Latino de Constantinopla, que durou até 1261.

Um dos Líderes desta 4a Cruzada, Simon Montefort, tinha um caráter muito feroz. Ele cortou os lábios e o nariz de uma fileira de prisioneiros e cegou a todos, exceto um, ao qual deixou um olho para que lhe fosse permitido guiar a longa fila pelos vales para exibirem-se como "conseqüências da heresia".

A 5 a Cruzada, desta vez contra o Egito, malogrou (1218-1221).

A 6a foi conduzida pelo Imperador do Sacro Império e limitou-se à fracassada negociação com o Sultão Egípcio, que tinha por objetivo a restituição de Jerusalém, Belém e Nazaré.

A 7a (1248-49) e a 8a (1270) foram comandadas pelo Rei Luís IX da França. Na 7a, atacou o Egito, mas foi derrotado e feito prisioneiro. Foi libertado depois do pagamento de resgate.

Na 8a, decidiu novamente atacar o Egito, mas morreu vitimado pela peste depois de desembarcar em Cartago, Norte da África.

Como você pode ver, ao longo de quase 200 anos, todas as expedições foram um fracasso, excetuando a primeira, que só obteve êxito devido à desunião no Mundo Árabe, como dissemos antes. Mas aqui no nosso Mundo Ocidental ficou no inconsciente coletivo a idéia poética de que os Cavaleiros Cruzados, os "Soldados de Deus", estavam a levar a salvação a povos pagãos e "libertando" a Terra Santa. Só serviu mesmo para banhar de sangue a História!...

Somente interesses políticos e econômicos por trás dos Religiosos, uma vez que, a partir do Século XII, a Europa foi se tornando politicamente dividida em grandes Monarquias, mas estava economicamente unificada pelo Mercado. (Foi somente no século XIII que as Cruzadas começaram a ser chamadas de Cruzadas; antes disso eram nomeadas como Peregrinação, ou Guerra Santa).

Na Idade Média, os Cruzados alcançaram indulgência plena por sua participação nas Guerras Santas; além disso, várias outras indulgências foram acrescentadas: além da remissão dos pecados do passado, presente e futuro, as dívidas seriam suspensas. A venda de indulgências era fonte de lucro para a Igreja, por isso, de cidade em cidade encorajavam a Nobreza a unir-se à Guerra Santa.

Já soldados mercenários, que nada faziam sem serem pagos, que andavam pelas estradas e viviam para momentos de prazer, cruelmente impiedosos e sem medo da morte, eram ideais para tropas de choque. Tão sedentos de sangue eram eles que inspiravam medo até naqueles que os pagavam pelo serviço prestado...

Embora as "Cruzadas" estejam praticamente em 100% associadas a "Muçulmanos", a verdade é que não apenas existiram as Grandes Cruzadas; elas foram permeadas por uma série de outros eventos de menor porte. Um dos massacres pelo qual as Cruzadas são responsáveis, foi a matança dos Valdenses, um dos primeiros grupos organizados a serem atormentados pela Igreja (1170).

Não deixava de ser um grupo "protestante", ainda que a Reforma levaria Séculos para acontecer, fundado na região francesa de Vaud.

Repudiavam a riqueza esnobe da Igreja, vestindo-se com simplicidade; ministravam a Ceia e o Batismo; tinham seu próprio clero. O fundador da seita era um Comerciante que acreditava que todos os homens tinham o direito de possuir a sua própria Bíblia, traduzida na sua língua, e que ela era a autoridade máxima e final para a fé e para a vida.

Tal liberdade não era permitida pela Igreja Católica, uma vez que não havia submissão ao Papa nem aos seus ensinos. Os Valdenses possuíam a Bíblia traduzida em sua língua materna, o que facilitou a pregação.

Na escuridão das cavernas, cada versículo era cuidadosamente copiado, lido e ensinado. Talvez tenham sido eles os primeiros a organizar-se como uma nova Igreja (muito antes da Reforma) e enviarem Missionários para outras regiões da França e Itália. Tudo com muito sacrifício e implacável perseguição.

Os Líderes Romanos deram um "basta!", e organizaram uma Cruzada contra esse povo, destruindo-o.

Outro exemplo importante aconteceu também no final do Século XII e início do XIII, na cidade de Albi, sul da França. Católicos e Cátaros a princípio conviviam pacificamente numa região particularmente boa e bonita para se viver. Homens da cidade e do interior se misturavam, burgueses, cavaleiros e nobres compartilhavam seu gosto pelo luxo e decoro.

Os trovadores traziam encantamento à cidade. Os Cátaros eram simples nas suas organizações eclesiásticas, sem construções monumentais para administrar e manter. Havia as "Casas para Boas Moças", espécie de diaconisas a serviço de Deus, e ali se reuniam os Cátaros. Do mesmo modo, havia as "Casas dos bons Homens". Os Cátaros do Sul da França consideravam que um Deus Bom não poderia ter criado o Diabo. Embora se considerassem Cristãos, esse dualismo levava a uma crença em dois criadores, e não um só. O Catarismo cria que suas almas foram roubadas do paraíso pelo Diabo e aprisionadas em seus corpos. Isso implicava travar uma guerra constante com a carne.

Essas crenças levaram a um conflito direto com a Igreja Católica Romana. O fanatismo desta culminou num desastre. De um lado, a certeza sádica de que o Diabo era o senhor dos Cátaros, contrapondo-se, por parte destes, de que seus oponentes é que eram servos de Satã.

O Catarismo tinha crescido e se espalhado por todo o leste Europeu, atacando a falsa moralidade e impiedade do Clero Católico. A despeito de execuções ocasionais, onde 1163 hereges foram queimados (observe como Cruzadas e Inquisição se sobrepõem, unindo suas forças na tentativa de "acabar com o Mal"), no ano de 1165 havia tantos "Cátaros suspeitos" que a Igreja Católica decidiu desafiar seus Líderes em debate.

Aconteceu em Albi, e foi depois desta reunião que todos os Cátaros passaram a ser conhecidos como "Albigenses", mesmo aqueles que moravam longe de Albi. Houve ali uma alta audiência Católica, mas os Cátaros não se retrataram; ao invés disso, acusaram os Bispos e Abades presentes, sem nem se importarem com a presença da irmã do Rei da França.

Em 1207, o Papa Inocêncio III organizou uma Cruzada contra esta comunidade, que estava "debaixo de perversão vigorosa, devendo essas sujeiras prejudiciais serem esmagadas. A força da madeira prevalecerá; onde a gentileza e a bênção não foram capazes de alcançar nada, a vara deve ser usada". Então, a terra ao redor de Toulouse, na França, conhecida como o País dos Cátaros, foi sede de uma carnificina; a crença dos Cátaros de que a criação do Mundo era do Diabo fez com que fossem considerados seus adoradores.

Em 1209, 100.000 Cruzados se agruparam para expulsar Satanás do sul da França e marcharam pelo vale para tomar a terra. Quando as defesas da cidade foram derrubadas e aconteceu a invasão, alguém perguntou: "Como saber quem é Cátaro e quem não é?". Dizem que o Papa respondeu: "Matem todos, Deus conhece os seus!".

Os soldados de Deus aniquilaram completamente os Cátaros... e os Católicos que lá viviam, "deixando os homens com as tripas para fora e muitas mulheres e moças nuas e frias". Foi o primeiro genocídio Europeu. A heresia dos Cátaros morreu, mas deixou os Cristãos mais convencidos ainda de que o Diabo espreitava em cada esquina.

Entretanto, a fase mais tenebrosa da Europa estava ainda por vir. Depois das Cruzadas, o maior terror da Europa tinha o nome de Inquisição.

A histeria coletiva, associada à manipulação política desses temores nos bastidores da vida religiosa, acabaram por levar milhões de pessoas a arder nas fogueiras da Inquisição. A Inquisição durou Séculos, e... era o jeito misericordioso" da Igreja salvar a alma daqueles que tinham se deixado seduzir pelo Diabo e suas artimanhas.

O que era a Inquisição?

Foi uma Instituição Judicial - só que composta por Tribunal Eclesiástico - criada para localizar, processar e sentenciar pessoas culpadas de Heresia. Em suma, punir crimes contra a fé Católica. No apogeu da influência Maligna neste Mundo (pelo menos, assim consideravam), veio a caça às Bruxas. O Diabo foi vital para isso; é praticamente impossível imaginar outro fenômeno local com tanto poder de influência que pudesse produzir tal efeito. O Diabo foi o bode expiatório universal, mesmo porque o fenômeno da Inquisição não foi isolado.

A Inquisição durou Séculos, muito mais tempo do que as Cruzadas, desde o Século XII e XIII podemos encontrar resquícios da carnificina até meados do Século XIX!!!

Cabia aos Bispos, no entanto, assumir a direção moral da Sociedade e aquietar os abusos; como os ricos insensatos que exploravam os pobres, usando de violência. Segundo o pensamento da Idade Média, a liberdade de fazer o mal deveria ser coibida pelos que dominavam.

Conseqüentemente, os Reis e os Bispos, usavam de sua autoridade para, pelo terror e pelo amor, atuarem para impor a justiça e preservar a ordem. Porém... quem mandava mais? O Rei ou o Bispo? Na opinião Medieval, cabia aos Reis submeterem-se aos Bispos.

Somente nos últimos Séculos da Idade Média essa Ordem Social começou a ser transformada de maneira sólida. A realeza, até então inexpressiva no Sistema Feudal (ordem social que foi gerada lentamente depois da queda do Império Romano Ocidental, caracterizada pela exploração camponesa pelos Nobres, que estava apoiada no sistema de Suserania e Vassalagem sendo, portanto, uma forma de fragmentação do Poder Monárquico - querendo saber mais, olhe o apêndice no final do livro), começou a ganhar expressão por volta do Século XIII.

A França forneceu um exemplo clássico deste desenvolvimento. A Monarquia Francesa se fortaleceu até atingir, no Século XVII (Idade Moderna), o seu apogeu com Luís XIV - o modelo do Rei absolutista. Sua origem remonta aos meados de 987 a 1328, durante uma Dinastia cujos Reis tinham como Vassalos duques e condes mais poderosos do que eles próprios (por causa do sistema de Vassalagem).

Esse quadro começou a ser revertido pelo Rei Filipe Augusto (1180 - 1223) e o poder real atingiu, dentro ainda da Idade Média, o seu ponto mais alto com Filipe, o Belo (1285- 1314). Ao longo deste período, por meio de guerras e casamentos, os Reis da França praticamente unificaram o seu território. O poderio da França ficou patente quando Filipe, o Belo, depois de enfrentar e derrotar o Papa Bonifácio VIII (1294 - 1303), transferiu a sede do Papado para a cidade francesa de Avignon. Essa vitória assinalou uma importante reviravolta, ao firmar a supremacia do poder temporal sobre o espiritual!

Na Inglaterra, o fortalecimento do poder real vinha acontecendo, mas perdeu impulso no Reinado de João I, um colecionador de fracassos. Foi excomungado, sofreu uma derrota contra o Rei Francês Filipe Augusto (1214) e, retornando à Inglaterra, foi recepcionado por uma revolta dos Nobres que impuseram severos limites ao seu poder por meio da Magna Carta (1215).

Esse importante documento não foi progressista nem fruto de espírito moderno, mas visava o restabelecimento do Sistema Feudal e dos privilégios da Nobreza e do Clero. Um ponto positivo foi a limitação do poder real na cobrança de impostos. Algumas taxas só poderiam ser recolhidas com o consentimento de uma assembléia composta por Bispos e Nobres.

Mesmo com todas essas dificuldades, a Monarquia Inglesa conseguiu avançar e se firmar como entidade política. Não poderia ser de outro modo, pois o desenvolvimento do Comércio e das cidades, assim com o abrandamento da servidão, estava exigindo naturalmente uma autoridade superior à dos senhores locais. Na verdade, as Monarquias Feudais caminhavam para a Unificação Territorial, o que levaria à constituição das Nações.

O Sistema Feudal foi colocado em xeque por uma crise de grandes proporções. A fome, a guerra e a peste. O vigor do Feudalismo foi acompanhado - e depois ultrapassado - por um crescimento populacional que acabou conduzindo a Europa a outro patamar demográfico, que desestabilizou a estrutura produtiva Feudal. A melhoria das condições de trabalho no campo que o Feudalismo gerou também contribuiu para melhorar a expectativa de vida. E de repente, havia gente demais!

Para agravar a situação, chuvas torrenciais de 1315 a 1318 foram responsáveis por más colheitas durante três anos seguidos. A dimensão da catástrofe pode ser avaliada pelo seu impacto na cidade de Ypres, em Flandres, cuja documentação a respeito - uma raridade - foi preservada. De maio a outubro de 1316, quase 3000 pessoas foram sepultadas por inanição. A cidade tinha apenas 20.000 habitantes.

Houve uma crise monetária nesse período, o que afetou seriamente o setor mercantil, em plena expansão por causa das rotas comerciais do Mediterrâneo e também as terrestres. O volume de transações comerciais aumentou por causa do dinamismo da economia, mas a oferta de moedas e metais preciosos continuava insuficiente, causando aguda escassez de moeda no mercado.

Tudo isso aumentou o problema que o setor rural - Feudalismo - já vivia. Filipe o Belo, da França, tentou dar solução ao problema, misturando outros metais ao ouro e à prata; mas essa adulteração no valor do dinheiro fez com que a inflação tomasse conta da economia (alta incontrolável de preços).

Desde 1320 a fome causou séria retração demográfica. A procura por alimentos, portanto, diminuiu, mas isso não foi solução, como você possa vir a pensar. Houve queda nos preços dos produtos agrícolas, o que afetou as rendas dos grandes senhores de terra, já que os produtos manufaturados que vinham das cidades e eles consumiam mantiveram seu preço, ou foram elevados.

Os senhores reagiram ao caos provocado pela queda em seus rendimentos e qualidade de vida. Sendo eles, por definição, homens guerreiros, trataram de recompor seus ganhos da forma que lhes era familiar: mediante rapinagem e violência. As Guerras Feudais se sucederam e se multiplicaram no Século XIV.

A mais violenta, célebre e prolongada foi a "Guerra dos Cem Anos", entre a França e a Inglaterra, no período de 1337 1475 ("virou" para a Idade Moderna). O termo é um pouco impróprio e foi introduzido por Historiadores do Século XIX. Esta Guerra se desenrolou inteiramente em território Francês e as batalhas foram de pequena monta, entremeadas por períodos de paz e tréguas.

De qualquer modo, essas guerras tiveram origem em período de crises e dificuldades, e os Senhores Feudais estavam profundamente abalados. Em declínio, muitos procuravam outras fontes rentáveis, como a Guerra, ou o Banditismo, formando companhias de Mercenários e colocando-se a serviço de Reis e de Cidades. Outro motivo para as guerras deviam-se à sucessão do Trono da França, disputado também pela Inglaterra na pessoa de Eduardo III, uma vez que não havia sucessores homens para o lugar.

Essa época assistiu também a uma das mais graves rebeliões de camponeses franceses, a Jacquerie (1358). Foi num momento em que a Inglaterra sobrepujava a França, e durou apenas alguns dias. O ressentimento represado contra os senhores explodiu, devido às pilhagens dos soldados ingleses.

A desmoralização da Nobreza e Monarquia Francesas resultou numa das maiores rebeliões camponesas da Idade Média. Esse conflito longo, cruel e devastador só encerrou-se em 1475 pelo Tratado de Picquigni, por intermédio do qual, a preço altíssimo, a França reconquistou seus territórios, o que resultou, afinal, em vitória Francesa.

Foi durante a Guerra dos Cem Anos que surgiu uma das mais populares figuras da história da França, Joana D'Arc, jovem camponesa que, à frente de um exército, conseguiu evitar a tomada da cidade de Orleans pelos Ingleses. Depois, acusada de heresia, morreu sacrificada na Fogueira, em Rouen.

Não bastassem a fome e as guerras, as epidemias contribuíram para fazer do Século XIV uma das fases mais sombrias do Ocidente Europeu. Assíduas, endêmicas, decorrentes em grande parte da desnutrição, ainda assim nenhuma conseguiu igualar-se à Peste Negra que, vinda do Oriente, espalhou-se calamitosamente, eliminando cerca de um terço da População Européia!!!

Vinda da Criméia pelo Mar Negro até os Bálcãs, a peste passou como um tufão pela Itália, Espanha e Portugal; atravessou a França, a Inglaterra e os Países Baixos; percorreu a Alemanha, a Escandinávia e a Rússia. Ainda que os flagelos da fome e da guerra tenham sido resolvidos mais rapidamente, a Peste Negra — que se apresentou sob duas formas, a pulmonar e a bubônica - foi um dos grandes flagelos da Humanidade, e por 400 anos (1348 - 1720) assolou a Europa, concomitantemente a outras doenças contagiosas. Seu desenrolar e conseqüências causaram profundas marcas na mentalidade Medieval, influindo não só na configuração física da população como no seu comportamento.

Por alguns foi comparada à praga que assolara o Egito; por outros, ao próprio cavaleiro do Apocalipse, ou um novo Dilúvio. Outros ainda achavam que tudo podia ter partido de pessoas que intencionalmente desejavam causar o Mal, e portanto deveriam ser contidas. Essas concepções também se manifestaram na Arte e no meio Eclesiástico.

Religiosos viam no flagelo a Ira Divina que punia o pecado dos Homens; os Artistas o concebiam na forma de flechas vindas do Céu de modo tão fulminante que ninguém, rico ou pobre, fraco ou poderoso, poderia escapar.

Mesmo assim, é claro que as camadas inferiores da Sociedade sofreram muito mais, não só pelas precárias condições de higiene como pela dificuldade de abandonar os locais atingidos pela doença.

O número de seitas autoflagelantes aumentou bastante, pois esses grupos procuravam encontrar nesse processo de penitência o remédio para conter a Epidemia. As tensões sociais cresceram, explodindo no ódio contra os ricos e contra as minorias, particularmente Judeus e leprosos, acusados de envenenarem, pelo contato, a água de rios e poços.

Seja como for, pelas transformações sociais e psicológicas provocadas no Homem ocidental, e pelas suas conseqüências, a peste, conforme salientam os Historiadores, foi "uma grande personagem da História".

Perceba que todos os assuntos que estamos tratando não podem ser literalmente separados uns dos outros, pois assim é a História: multifacetada. E os eventos que decorrem uns dos outros estão em íntima associação. Nada pode ser estudado ou compreendido isoladamente porque estão acontecendo, muitas vezes, ao mesmo tempo!

Por esse motivo, depois desta contextualização terrível do que acontecia na Europa econômica e politicamente, voltemos ao aspecto religioso: à Inquisição... e às Bruxas. Como identificar uma Bruxa, pelos preceitos da Idade Média?

Acabamos de citar Joana d'Arc (1412-1431) dentro do que comentamos sobre a Guerra dos Cem Anos... mas ela morreu como herege. Em que — ela foi mais importante para a História? A "Heroína da França", por causa de suas ousadas atitudes, foi acusada de Feiticeira, falsa Profeta, invocadora de espíritos malignos, idólatra maldita e amaldiçoada, sediciosa, perturbadora da paz do País, incitadora de guerras, sequiosa de sangue, mágica, cruel, apóstata, cismática e herege.

Vítima de uma traição, ela foi feita prisioneira e entregue ao Tribunal da Inquisição para ser julgada. Por ela, "Deus tinha sido ofendido sem medida, a fé excessivamente afrontada, e a Igreja desonrada". Foi queimada em praça pública. Cada um que julgue por si.

Uma espécie de "Manual" foi concebido para o estudo das técnicas de identificação de Bruxas e de como fazê-las confessar Heresias. Era uma poderosa mistura de ideologias com superstições e fantasias que tinham por objetivo dar dicas de como localizar o Diabo.

Expressavam idéias como a de que as Bruxas causavam malefícios ou danos por meios ocultos. Por exemplo, através de Vodu: alfinetadas em bonecos de pano que simbolizavam a vítima. Mais adiante, criou-se uma nova dimensão do problema ao afirmar-se que, na verdade, esse poder dado às Bruxas era decorrente de pactos feitos com o Diabo (lembra-se do Fausto?).

Fazer sexo com Satanás era uma das maneiras de abrir a porta para adquirir poderes, espalhando o caos e a morte. O tal manual - o Malleus — resgata claramente a idéia da mulher sendo inferior ao homem, e portanto muito mais sujeita a ser seduzida pelo Diabo, o que introduz a idéia sexual à teoria.

Hoje vemos que tal Livro é uma interessante prova de um pensamento que vigorou durante Séculos. Mais tarde, foi atacado por muitos escritores, uma vez que suas idéias não produziram nenhum resultado real, apenas um massacre em massa. Mas, ironicamente, era encarado como a "Misericórdia da Tortura", já que a confissão e a morte expurgariam o pecado!

Observe que a Inquisição estendeu-se pelo final da Idade Média alcançando a Era Moderna. Uma coisa se interpenetra na outra, não é porque a Idade das Trevas finalmente chega ao fim que imediatamente tudo muda. Tudo é fruto de um processo. E ainda que pensemos em Bruxas e horrores como fazendo parte da Idade Média, a era Moderna ainda foi visitada por estes fantasmas.

Os Teólogos desejariam fazer do Diabo uma figura real e poderosa, mas de certo modo, era politicamente incorreto - especialmente naquele momento, e dentro daquele contexto - atribuir poder em demasia a ele; quer dizer, ele não poderia ter poder algum, não lhe seria permitido ser o verdadeiro rival de Deus. Quem acreditasse realmente nisso poderia ir parar na fogueira ao lado das Bruxas. Então, elas foram muito úteis, claro, pois criavam a noção de uma aliança maligna, contrária à Igreja e a Deus, o que era poderoso o bastante para explicar o mal que estava sendo causado contra vidas humanas.

Até então, a Bruxaria mal era prevista pela Lei Medieval, sendo algo de cunho particular da Igreja, controlada pelo Papa e pelos que nomeava como Inquisidores. Monges Dominicanos e Agostinianos.

Mas em 1252, o Papa Inocêncio IV publicou um documento intitulado Ad Exstirpanda, em que vociferou: "Os hereges devem ser esmagados como serpentes diabólicas". As autoridades civis, sob ameaça de excomunhão no caso de recusa, eram ordenadas a queimar os hereges. O Ad Exstirpanda foi renovado e reforçado por vários Papas, nos anos seguintes.

As confissões pessoais foram o meio principal de condenar as Bruxas dentro do Sistema Legal do Continente, e já não como algo de exclusiva incumbência da Igreja (!!!!): sem confissão não há como provar o crime.

Os acusados de Heresia eram obrigados a concordar com as acusações, tornando-se, assim, seus próprios acusadores. O depoimento de duas testemunhas bastava como prova de culpabilidade (é fácil notar que histórias de encontros noturnos onde se faziam orgias e se planejavam o mal de pessoas estavam presentes em muitas acusações a Judeus, leprosos e hereges, muito antes de serem usadas contra as Bruxas).

Para conseguir a confissão, institui-se a prática da tortura, autorizada por Inocêncio IV, para obter a verdade dos suspeitos. Caso o Herege se apresentasse por vontade própria, os castigos seriam menores. Os castigos e sentenças se proclamavam, em cerimônia pública, no fim do processo (Auto-de-Fé). Podiam ser desde uma peregrinação, um suplício, uma multa, o confisco das propriedades, detenção, prisão perpétua ou morte. Claro que o que geralmente acontecia era a morte.

Havia muitas formas de tortura, um verdadeiro arsenal de terrores. A manjedoura, para deslocar juntas do corpo; arrancamento das unhas; ferro em brasa em diversas partes do corpo; rolamento do corpo sobre lâminas afiadas; as "botas espanholas", que esmagavam as pernas e os pés; a "donzela de ferro", pequeno compartimento em forma do corpo humano, aparelhado com facas que dilaceravam o corpo da vítima ao ser fechado; suspensão violenta do corpo, pelo pés ou mãos às costas, para deslocamento das juntas; chumbo derretido no ouvido ou na boca; arrancamento dos olhos; açoites com crueldade; engolir pedaços do próprio corpo, excrementos e urina; violências sexuais; o "balcão de estiramento", que desmembrava o corpo das vítimas; esmagamento lento da cabeça da vítima, dentre outras formas de tortura.

Além desta submissão quase ininterrupta a jogos emocionais e mentais indescritíveis, interrogatórios intermináveis e repetitivos, privação de alimento e dores terríveis, as Bruxas podiam também ser despidas (independente do frio que faz nestes países da Europa), e vigiadas dia e noite, aprisionadas numa cela completamente vazia. Poderia durar três dias e três noites. Quando a mulher começava a cochilar, de terror e pura exaustão, entravam e impediam-na de dormir, obrigando-a a andar dentro da cela. A privação de sono, nessas condições, tem poderes indescritíveis, podendo levar à loucura.

As confissões podiam levar dias e dias, só encerravam se a vítima desmaiasse. Como não podiam "repetir a tortura", o fato de haver o desmaio e a tortura continuar depois, era apenas uma "continuidade", e não uma nova tortura. Que pesadelo.......!!!

Depois de acusados, os hereges tinham pouca chance de sobrevivência. O processo era sumário: rápido, sem formalidades, sem direito de defesa.

Quer dizer... que se podia fazer a não ser dizer o que eles queriam?!... Que escapatória havia? A única solução era confessar. Diante de tal estresse físico, emocional e mental, simplesmente confessar qualquer coisa: voar noite adentro para participar de orgias, matar pessoas por meio de Bruxarias absurdas, freqüentar os Sabás. Aliás, o Sabá só podia ser entendido como a negação absoluta do Cristianismo e dos Países Católicos; em vez de adorar a Deus você reza ao Diabo e faz coisas horríveis. Isto em todos os sentidos, o que não é humanamente compreensível.

Mas, Historicamente falando, os detalhes do Sabá existiam apenas na imaginação popular; tão absurdo era que admitia-se fazer parte de uma alucinação coletiva.

Além de condenar a Bruxa em questão, as confissões tinham por objetivo também levantar seus "cúmplices", para "facilitar o trabalho". E muito fácil de entender que as mulheres torturadas, depois de certo tempo, incriminavam quem quer que fosse, inclusive pessoas da família, como mãe e irmãs (que muito provavelmente eram tão inocentes quanto quem estava sendo torturada). As novas vítimas, uma vez denunciadas, eram submetidas ao mesmo processo injusto e indecentemente cruel.

Claro que o Deus de Amor que conhecemos jamais agiria de tal maneira. Boa estratégia do inimigo, porque conseguiu fazer com que o grande "Mandante" destes assassinatos em massa fosse o Senhor. O Diabo era a vitima !

A Bruxa típica era, em geral, uma pessoa comum. Indisposições com os vizinhos, ou com a Comunidade, ou com a Igreja, por mais tolas que fossem, acabavam criando fofocas e boatos. Fofocas e boatos sobre Bruxas e Demônios eram freqüentes, e todo aquele que por algum motivo destoasse, logo a má fama corria, muitas vezes até lentamente; quer dizer... a pessoa logo era "transformada" em Bruxa.

Na Inglaterra, achava-se que o Diabo poderia se mostrar como um animal doméstico, e a mulher o deixava sugar sangue de uma "teta escondida", e este era o sinal do pacto. Durante o processo de Inquisição, estas tais "tetas" eram absurdamente procuradas no corpo da mulher, ao mesmo tempo em que ela era, dia após dia, brutalmente induzida a dizer onde estavam escondidas. Cito este disparate absurdo para que você veja o tamanho do absurdo, que não tem jeito melhor de explicar a não ser dizendo que era mesmo um absurdo!!!. Um negócio sem o mínimo fundamento!!

Quanto às execuções públicas, ainda que se fizessem "em nome de Deus", e com a intenção de "salvar a alma arrependida", é claro quem foi o verdadeiro autor de tudo isso. Na Inglaterra, elas eram enforcadas como criminosas. No Continente, eram queimadas, depois de estranguladas.

Se, porventura, não conseguissem a confissão, a pessoa morria como Herege, e, então, não era estrangulada antes, mas morria lentamente na fogueira. Podia-se chegar ao cúmulo de usar lenha úmida, e o fogo não era suficiente para matar rapidamente...

Mas a Inquisição não aconteceu somente contra as Bruxas. E também não foi somente em um país da Europa.

O Massacre da Espanha foi dirigido por Tomás de Torquemada (1420 - 1498), espanhol, nomeado para o cargo de Grande-Inquisidor pelo Papa Sisto IV. Ele dirigiu o Tribunal do Santo Ofício durante 14 anos e tornou-se um dos mais famosos Inquisidores, célebre pelo fanatismo e crueldade. De mãos dadas com os Reis Católicos, expulsou da Espanha os Judeus por Edito Real em 1492 (já dentro da Era Moderna).

Os Judeus tiveram prazo de quatro meses para se retirarem do país sem levar dinheiro, ouro ou prata. É acusado de ter condenado à fogueira mais de 10.000 pessoas, e cerca de 100.000 foram encarceradas, banidas ou perderam suas terras. A Inquisição Espanhola que, como as Inquisições de muitos países Europeus, já vinha acontecendo há mais de um Século, formalizou-se um pouco antes deste absurdo cometido contra os Judeus, em 1478, através de um decreto dos Reis Fernando V e Isabel I. Este tinha o objetivo de se ocupar do "problema" dos Judeus e, mais tarde, dos Muçulmanos convertidos ao Cristianismo.

A Inquisição Espanhola foi um poderoso instrumento nas mãos do Estado, servindo mais a este do que a Igreja. Tornou-se, também, conhecida pela crueldade e obscurantismo. O Dominicano Tomás de Torquemada executou milhares de supostos Hereges. A Inquisição acabou na Espanha somente em 1843 (metade do Século XIX)!!!

Portugal repetiu o mesmo processo de violência Inquisitorial. Os Judeus espanhóis, fugindo da perseguição e da morte que os ameaçava na Espanha, atravessaram a fronteira após pagarem, por cabeça, uma soma em dinheiro ao Rei D. Manuel I. Mais tarde, estes Judeus foram submetidos ao Batismo forçado e as crianças separadas de seus pais e levadas para os arquipélagos de Açores e Madeira para, junto a casais católicos, crescerem na Fé Cristã....

Portugal instalou seu Tribunal do Santo Ofício no Rossio, em Lisboa, em 1536. As perseguições foram de tal magnitude que o comércio e a indústria na Espanha e em Portugal ficaram praticamente paralisados. As execuções públicas eram conhecidas como "autos-de-fé", e os Portugueses triunfalmente encerraram os seres humanos na fogueira.

Se o acusado, antes de o fogo ser aceso, confessasse sua culpa, era garroteado (estrangulado) para não ser queimado vivo. Mesmo assim, as chamas cumpriam seu papel de acabar de purgar os pecados e o fogo era aceso para consumir o corpo.

Até meados do Século XVIII, a Inquisição funcionou em Portugal, mantendo a penalização de matar, garroteado ou queimado, os suspeitos de serem Judaizantes ou Heréticos. Até 1732, o número de sentenciados atingiu mais de 23.000, e 1.554 condenados à morte. Na Torre do Tombo, em Lisboa, estão registrados mais de 36.000 processos. Daí porque os 4.500 processos liberados pelo Vaticano recentemente não contam toda a história da desumana Inquisição.

Em 1542, alarmado pela difusão do Protestantismo, o Papa Paulo III recrudesceu a Inquisição e estabeleceu o Tribunal do Santo Ofício (na prática, era a mesma coisa: acabar com a heresia).

Por exemplo, o Massacre de São Bartolomeu foi contra os Protestantes (apelidados de Huguenotes). Com a concordância do Papa Gregório XIII, o Rei da França Carlos IX eliminou em poucos dias milhares de Huguenotes. A matança iniciou-se na noite de 24 de agosto de 1572, em Paris, e se estendeu a todas as cidades onde se encontravam Protestantes.

Foram martirizados cerca de 70.000 neste conflito, e "quando a notícia chegou a Roma, a alegria do Clero não teve limites. O Cardeal de Lorena recompensou o mensageiro com mil coroas e o canhão de Santo Ângelo ribombou; os sinos dobraram em todos os campanários; o Papa, acompanhado dos Cardeais, foi à Igreja de São Luís em procissão, e ali o Cardeal de Lorena cantou o Te Deum, dando "graças a Deus e a São Luís". Na noite de 24 de agosto, foi assassinado um dos Líderes do Protestantismo, e sua cabeça enviada ao Papa Gregório III.

Calcula-se que a Inquisição, que pode ser considerada um Movimento Fundamentalista Cristão, matou milhões na Europa... conta-se que num único dia podiam ser mortos até 100.000 hereges. A lista de mártires parece não ter fim!

A Igreja Católica estava disposta a vigiar e manter sob seu domínio todo o universo do pensamento Humano. Qualquer um que ousasse defender suas idéias - científicas, religiosas, sociais, ou de qualquer espécie -, e isso fosse considerado em desacordo com a interpretação da Igreja, a pessoa tornava-se uma herética. Por esse crime, era julgado e condenado.

Pelo modo cruel como milhares perderam a vida, pelos meios indescritíveis com que foram subjugados, torturados e literalmente assassinados... pelos milhares que perderam a vida nas Cruzadas... os Historiadores não vacilam em afirmar que o Santo Ofício (a Inquisição) e as Cruzadas foram crimes contra a Humanidade!!!

E isso a Igreja não poderá apagar dos seus anais.

A Igreja Católica Apostólica Romana apenas no final do Século XX resolveu abrir os arquivos do Santo Ofício e colocá-los à disposição dos pesquisadores. Nestes arquivos, conforme noticiado constam 4.500 obras que relatam fatos dos Séculos de Inquisição. A abertura destes documentos é de muita valia para os pesquisadores, interessados em conhecer melhor a chacina que levou milhões à morte.

Todavia, até então tudo tinha ficado guardado a sete chaves... os processos, os métodos de tortura... mesmo que aquilo que foi liberado não se traduza na realidade, isso não impediu que o Mundo tomasse conhecimento dos crimes Inquisitoriais. A História não pôde ser apagada.

A Era Moderna: o começo da Era Moderna na Europa chama a atenção imediatamente pelo surgimento de uma nova Cultura, o Renascimento.

Porém, repare... surgiu algo novo, só que havia ainda as marcas, os resquícios da Idade Média. Ou seja, ainda era uma Sociedade que nutria um enorme medo do Diabo. Esse momento psicológico ficou marcado nos versos da Divina Comédia, de Dante Alighieri, escritos no Século XIV.

Também a Arte Renascentista pintou em cores fortes o Inferno e seus horrores. Especialmente porque o período da Peste Negra perduraria ainda durante muito tempo, e a convivência com a morte e a desgraça era cotidiana.

Quando caiu o Império Romano do Oriente (1453), e a tomada de Constantinopla assinalou o final da Idade Média, em algum momento percebeu-se que as guerras já não eram tão lucrativas.

Antes, as guerras tinham uma função política que propiciava aos Reis dividir com seus guerreiros os despojos do inimigo, e por intermédio desta "generosidade" reafirmar a autoridade de chefe-guerreiro.

Os povos conquistados passavam a pagar tributos ao conquistador, e isso aumentava não só os grandes Impérios como aumentava os benefícios das vitórias militares. Os guerreiros eram considerados como hoje em dia o são os Empresários, desfrutando posição social muito boa. Assim foi durante a Antigüidade e a Idade Média.

Mas quando começou a Idade Moderna, esse padrão começou a mudar, tendo início uma forma inédita, na História da Humanidade, de desenvolvimento Esse padrão desembocaria futuramente na Sociedade Capitalista atual - comandada por Empresários e não por Aristocracias Guerreiras e pela Igreja.

No Capitalismo, a Guerra ficou subordinada ao Comércio, e suas raízes aconteceram nessa transição de Idade Média para Moderna. As Cruzadas, no final da Idade Média começaram movidas por fé... passaram para uma seqüência de conquistas e, por fim, interesses comerciais. As Expansões Ultramarinas também vieram para fortalecer os vínculos comerciais.

Portugal conquistou Ceuta (1415); a Nobreza defendia a conquista do Marrocos, e os comerciantes já queriam uma expansão marítima para o Sul. Com Dom João II (1481 - 1491), Portugal entrou no apogeu da política comercial e marítima, e a Nobreza foi ferramenta abatida. Mais até do que o final das Cruzadas, a Expansão Ultramarina assinala o momento histórico em que os comerciantes suplantam os guerreiros.

De resto, vieram as colonizações. Como os povos da Antigüidade ficaram conhecidos por sua agressividade expansionista, na América o fenômeno não foi muito diferente

Os Espanhóis (1492 -1572) dizimaram Incas, Maias e Astecas que estavam, então, também em processo de expansão entre eles, os mais fortes dominando os mais fracos. Havia muito ouro dentre esses Povos, cidades magníficas e ricas. A coisa foi mais ou menos assim: "Gostei do que vocês têm... acho que vou ficar com tudo". Foi uma carnificina indizível, marcada pela crueldade dos conquistadores que não tinham realmente que prestar contas a ninguém dos estupros, dos assassinatos, da humilhação da pilhagem, da ganância pessoal que os motivava.

Os Portugueses foram os primeiros Europeus a colonizar regiões tão distintas como o Brasil, Moçambique e Macau; a organizar expedições para regiões ricas como Malaca (atual Malásia) ou às Ilhas de Especiarias, as Moluscas; a erigir fortalezas nos mais diferentes locais do Globo, como Calicute e Pernambuco; a enviar Missionários a países do Extremo Oriente.

O apoio da Monarquia foi fundamental, pois o Império Colonial Português resultou, basicamente, da união dos esforços da Coroa, dos Comerciantes e da Igreja Católica.



Os três grupos tinham interesses econômicos no empreendimento, pois iriam lucrar com as navegações e conquistas. Os Reis e Comerciantes queriam anexar novas terras e povos, a Igreja queria "evangelizar pagãos e infiéis". Os recursos obtidos de cada viagem — como escravos, pimenta, ouro — ajudavam a financiar novas viagens.

A colonização da América criou um importante ponto de apoio para as atividades na Europa. O modelo colonial português se caracterizou pelo escravismo colonial, que resultou da combinação entre economia açucareira, tráfico negreiro e pacto colonial (Monopólio).

A produção açucareira do Brasil, por exemplo, somente era comercializada com Portugal, e deles compravam produtos manufaturados. Quer dizer, Portugal tinha exclusividade tanto para compra quanto para venda. O desenvolvimento urbano entrou em nova Era.

A consolidação da classe rica dos Comerciantes, conhecida como Burguesia, foi um importante fator da Era Moderna. O jogo de compra-e-venda gera a concorrência entre os agentes econômicos, concorrência inteiramente baseada no interesse comercial de cada um. O Comércio é uma atividade que divide as pessoas, transformando-as em concorrentes. É isso que, em grande parte, gerou o moderno individualismo.

De outro lado, o fato de cada um precisar confiar na própria iniciativa e criatividade, sem desviar a atenção da realidade concreta, calculando riscos e lucros, estimulou o comportamento racional. O uso da experiência e de cálculos matemáticos na procura da Verdade tinha estreita relação com a crescente realidade da vida econômica.

E veio o Renascimento - já citado. Um dos seus cernes foi o Humanismo, cuja verdadeira base está no antropocentrismo, isto é, a valorização do ser humano. Esta foi a característica que começou a se opor ao Teocentrismo Medieval. Mas apesar dos Humanistas serem antropocêntricos, não quer dizer que fossem ateus; continuavam Cristãos. Mas ao se afastarem um pouco da Religião os Humanistas fizeram da capacidade de conhecer pela razão uma das qualidades mais elevadas do homem. A fim de poder empregar e desenvolver a inteligência humana, defenderam o livre exame dos textos sagrados, inclusive da própria Bíblia.

O espírito investigativo impulsionou o pensamento científico. Calcado na experiência e na demonstração matemática, foi isso que colocou Leonardo da Vinci na origem da Ciência Moderna:

"Minhas idéias nasceram da pura e simples experiência, que é verdadeira mestra (...). A experiência é a única intérprete da Natureza: é preciso, pois, consultá-la sempre e variá-la de mil maneiras (...). Sem experiência não há certeza (...). Antes de formular uma regra geral, repita a experiência e veja se os resultados são constantes (...). Nenhuma investigação humana pode se chamar de verdadeira Ciência, se ela não passa pelas demonstrações matemáticas".

Um pequeno aparte: na expressão do pensamento de da Vinci, no seu método de trabalho, e por sua linha de raciocínio, vemos como isso também serve indiretamente para nós, Cristãos... quantas vezes fazemos das "experiências pessoais" doutrinas a serem ensinadas como regra geral, e nos comportamos como "donos da Verdade", incorrendo em erro e levando muitos pelo falso caminho? Podemos aprender, sim, com o modelo de raciocínio destes Cientistas, que tinham mais interesse no descobrimento da Verdade do que simplesmente em "ter razão", provando que eram "melhores do que os outros".

Da Vinci, ao lado do polonês Copérnico (1470 -1543) e do italiano Galileu Galilei foram os precursores da Ciência Moderna. Os três ficaram famosos por terem estabelecido, contra a vontade da Igreja, a Teoria Heliocêntrica (a Terra gira em torno do Sol, não é o centro do Universo), em contraposição à Teoria Geocêntrica (a Terra é o centro de tudo, tudo gira em torno dela).

Mesmo assim, Galileu quase foi parar na fogueira da Inquisição. Por fim, teve também enorme importância para o estabelecimento da Ciência Moderna o inglês Isaac Newton (1642 - 1727), que coroou o trabalho de seus antecessores com a Lei da Gravitação Universal.

Em linhas gerais, as realizações artísticas (que agora tinham duas características importantes: a naturalidade e a humanidade) e intelectuais do Renascimento contribuíram poderosamente para emancipar a Cultura da tutela eclesiástica, do domínio e interesses da Igreja.

O Renascimento foi um importante elo no processo de libertação da Razão, completamente tolhida durante quase mil anos pelo regime imposto na Idade Média. Essa libertação culminou na Filosofia Iluminista e na constituição da Sociedade Burguesa e Capitalista; isso foi fruto da nova "experiência social" experimentada a partir do Renascimento, um universo novo em cujo centro se encontrava o ser humano, e não Deus.

Não se negava que Deus tivesse criado a Natureza e os Homens. Mas o que importava agora era a compreensão racional tanto da Natureza quanto da Sociedade. Essa mudança de perspectiva fez toda a diferença, porque não é errado - em si mesmo — procurar o por quê das coisas, uma vez que Deus nos fez dotados de inteligência.

A língua foi algo que mudou um pouco também nesta época. Os escritores Medievais exprimiam-se em Latim - a língua falada pelos antigos Romanos e que a Igreja preservou como idioma oficial. Petrarca, autor de "Cancioneiro", a mais apreciada de suas obras, a qual reúne 366 poemas, fez dele o primeiro poeta lírico moderno, mas é preciso mencionar que sua obra foi escrita em italiano, algo inédito! "A Divina Comédia", de Dante, seguiu o mesmo caminho, sendo por isso considerada vulgar.

O Latim continuou sendo a língua adotada pela Igreja, bem como pelos intelectuais. Era o idioma nobre, em contraposição às línguas faladas no dia-a-dia, pelo povo, como o italiano, o francês, o português etc...: as línguas vulgares.

Tanto Dante quanto Petrarca valorizaram a língua vulgar, fazendo do italiano uma língua literária. Isso quer dizer que qualquer um, alfabetizado, poderia ter acesso a obras e conhecimentos antes completamente inacessíveis. Isso, sem dúvida, era mais uma pequena "paulada" na soberania da Igreja.

Também contribuiu para a transformação do italiano em linguagem literária o escritor G. Boccaccio, autor de "Decamerão", um livro com cem histórias que se tornou modelo da prosa italiana. Logo o uso e a valorização da linguagem vulgar difundiram-se por toda a Europa; foi nesta língua que produziu suas obras o autor Shakespeare (Inglaterra: 1564—1616), considerado um dos maiores dramaturgos de todos os tempos, mas que foi desprezado por seus contemporâneos uma vez que suas obras foram consideradas "vulgares" demais. Bem, que se há de fazer, né? Assim foi com tantos artistas que morreram na miséria e somente depois foram projetados como ícones, sublimes, perfeitos, avançados para a época etc... etc... etc...

Shakespeare escreveu, dentre outras, as famosas "Romeu e Julieta", "Hamlet" e "Macbeth". Cervantes (Espanha: 1547 - 1616), é autor da obra-prima Dom Quixote; Rabelais (França: 1494 - 1553) escreveu Gargântua e Pantagruel; todos eles também difundiram o italiano para uso da obra literária. No Século XVI, a Itália nos deu um pensador político de grande importância: Maquiavel (1466 -1527), autor da célebre obra "O Príncipe", em que a arte de governar é considerada sob a ótica puramente humana.

E até engraçado pensar como isso aconteceu, uma vez que a Itália era muito mais uma mera "posição Geográfica" do que um País, pois desde o Século XI da Idade Média ela era composta por uma multidão de cidades-Estado independentes - com o Estado da Igreja - e assim continuou até o Século XIX.

Mas na época do Renascimento, algumas destas cidades-Estado destacaram-se pela sua riqueza e pela proteção que dispensava aos artistas e intelectuais. Foi assim com Florença, Milão e Veneza. Florença se converteu no principal centro renascentista e nela trabalharam os mais célebres e artistas e intelectuais da época, como o já citado Da Vinci, mas também os artistas plásticos Michelangelo e Rafael que trabalharam para os Papas na pintura religiosa e deixaram aquele legado para a Humanidade!

Fora da Itália, brilhava o Humanismo Cristão do Holandês Erasmo de Roterdã (1466 -1536), autor de "O Elogio da Loucura", obra na qual são satirizados os abusos cometidos pelos clérigos em nome da Igreja. Na Inglaterra, Thomas Morus se consagrava com "A Utopia", na qual ele descreve uma Sociedade Imaginária, fraterna e sem desigualdades.

A difusão dos valores do Renascimento em muito se deve à invenção da Imprensa. Na época dos copistas Medievais, uma obra demorava muito para ser reproduzida, mas a partir da invenção da prensa com tipos móveis ,essa tarefa ficou muito mais facilitada. Isso deu impulso à produção e divulgação dos Conhecimentos Humanos. Dá até um alívio pensar que aquela "Era das Trevas" estava terminando...

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