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b. O moralista(2:l-16).

O estilo de Paulo é próprio para a forma de composição que os an­tigos chamavam de diatribe. Nesta, questões e objeções eram postas na boca de um crítico imaginário, para serem respondidas ou destruídas.

Quase podemos vê-lo, enquanto dita a carta a Tércio, pegar o in­divíduo complacente que está saboreando a exposição daqueles pecados que "não apelam para ele", e dizer-lhe que não é melhor do que ninguém. Paulo imagina uma interrupção feita por algum opositor, e se volta para refutar à objeção, primeiro admoestando-o com "Deus não o permita!" ("Nem pense nisso!"), e depois dando-lhe ponderada réplica. Inicia uma nova fase da sua argumentação com esta indagação retórica: "Que di­remos?"5

E o tempo todo o seu pensamento vai célere na frente de suas pa­lavras de modo que as palavras têm de saltar valas para alcançar o pen­samento. Mal podemos tentar imaginar como a pena de Tércio mantinha o ritmo das palavras do apóstolo. Não admira que, principalmente nos momentos mais ardentes, seu grego esteja cheio de falhas na construção, e de sentenças inacabadas.

Sabemos que existia outro lado do mundo pagâo do primeiro século além do que Paulo retratou nos parágrafos anteriores. Que dizer de homens como o ilustre contemporâneo de Paulo — Sêneca — o moralista estóico, o tutor de Nero?6 Seneca podia ter ouvido a acusação feita por Paulo e ter dito: "Sim, isso é perfeitamente verdadeiro quanto às grandes massas da humanidade, e dou meu apoio ao juízo que você emitiu sobre elas — mas naturalmente há outros que, como eu, deploram estas ten­dências tanto como você as deplora."

Paulo imagina alguém interferindo em termos como esses, e se dirige ao suposto opositor: "Meu bom senhor, julgando outros, você está-se jul­gando a si próprio, seja você quem for, pois em princípio você faz as mes­mas coisas que condena neles." E quão pertinente teria sido esta réplica a um homem como Seneca! Pois Seneca pôde escrever com tanta eficiência sobre o bom modo de viver, que houve cristãos posteriores que se orgu­lhavam de chamar-lhe "o nosso Seneca".7 Não se restringia a exaltar as grandes virtudes morais. Ele desmascarava a hipocrisia, apregoava a igualdade de todos os homens, reconhecia a penetrante natureza do mal ("todos os defeitos morais existem em todos os homens, embora não aconteça que todos os defeitos sejam proeminentes em cada homem), praticava e procurava inculcar o auto-exame diário, ridicularizava a idolatria vulgar, assumia o papel de guia moral. Muitas vezes, porém, tolerava em si mesmo defeitos não muito diferentes daqueles que con­denava em outros — sendo que o exemplo mais flagrante disto é sua conivência com Nero no assassinato de sua mãe Agripina.

Mesmo nesta seção do capítulo 2, e mais explicitamente do versículo 17 em diante, Paulo está pensando principalmente num crítico judeu. Denúncia da idolatria paga como a que encontramos no capítulo 1 era uma forma comum de propaganda judaica. Os judeus religiosos achavam amplo campo de ação para lançar juízo moral adverso sobre os seus vizinhos gentios.

De sua repetição da frase "do (ao) judeu primeiro, e também do (ao) grego" (ver 2:9, 10), em que ele salienta que os judeus são os primeiros a experimentarem o juízo de Deus, bem como os primeiros a receberem as boas-novas da Sua graça salvadora (1:16). Esta dúplice primazia do povo de Israel, na salvação e no juízo igualmente, foi ensinada pelos profetas nos dias antigos. Oito séculos antes que esta epístola fosse escrita, por exemplo, ouvimos a Palavra de Deus a Seu povo por meio de Amos: "De todas as famílias da terra somente a vós outros vos escolhi, portanto eu vos punirei por todas as vossas iniqüidades" (Am 3:2.)

Vimos como o Livro da Sabedoria ecoa no retrato descritivo da idolatria paga no capítulo 1. Do mesmo modo agora, aproveitando para tornar os judeus convictos de sua ruína moral, Paulo recorre a temas do mesmo livro. Conforme o autor de Sabedoria, Deus afligia os gentios (como os egípcios, opressores de Israel nos dias de Moisés) como um meio de fazer-lhes retribuição por sua iniqüidade, ao passo que as mesmas aflições tinham propósito terapêutico quando sobrevinham aos israelitas.

"Pois os provaste como o faz um pai ao admoestar, mas examinas os ímpios como o faz um rei severo ao condenar...

Assim, embora nos corrijas, castigas mil vezes mais os nossos ini­migos, de sorte que meditamos na tua bondade quando julgamos, e quando somos julgados podemos esperar misericórdia." (Sabedoria 11:10, 12:22.)

"Concordo", diz Paulo. "Fará bem em reconhecer a bondade de Deus para com você, apesar de toda a sua desobediência. Mas não per­cebe que a bondade divina é para dar-lhe oportunidade de arrepender-se? Cuidado! Não despreze a bondade de Deus, nem abuse da Sua mi­sericórdia. Se, em vez de arrepender-se, você mantiver o coração en­durecido e impenitente, fique certo de que estará reservando para si próprio um acúmulo da ira de Deus que se descarregará sobre você no dia do juízo."

Vindo o juízo divino, será absolutamente imparcial. Deus "retri­buirá a cada um segundo o seu procedimento" (2:6). Enquanto, para Paulo, o perdão e a vida eterna pertencem inteiramente à graça de Deus, o julgamento divino (conforme o ensino uniforme da Bíblia) é sempre feito de acordo com o que os homens fizeram. Cada fator material é tomado em consideração. Os homens terão de prestar contas do co­nhecimento da verdade que tenha estado ao alcance deles, e não do que tenha estado fora de alcance. Os judeus, diz ele, serão julgados com base na lei escrita, pois eles tiveram acesso àquela fonte de conhecimento de Deus. Os gentios serão julgados por outro critério, pois também entre eles Deus não se deixou ficar sem testemunho. Se o conhecimento do caráter de Deus lhes era possível através dos céus estrelados acima (ver 1:20), também lhes era acessível através da lei moral interior. Eles não tiveram a lei de Moisés, como os judeus, mas tinham a lei da consciência — o discernimento entre o certo e o errado — gravada em seus corações. Quando violam essa lei, diz Paulo, sabem que estão agindo mal, e por es­se conhecimento serão julgados no dia em que os mais íntimos segredos dos corações humanos serão trazidos à luz. Seja conhecida a vontade de Deus pela lei de Moisés ou pela voz da consciência, o conhecimento da Sua vontade não basta; fazer a Sua vontade é que conta.

4. A bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento.

Ver Sabedoria 11:23: "Tu tens compaixão de todos, porque tudo podes, e dissimulas os pecados dos homens para que se arrependam."

6. Retribuirá a cada um segundo o seu procedimento.

Ver Jo 34:11; Sl 62:12; Pv 24:12; Jr 10:10, 32:19, para verificar afir­mações deste princípio no Velho Testamento; ele se repete no Novo Tes­tamento em Mt 16:27; 1 Co 3:8; 2 Co 5:10; Ap 2:23, 20:12, 22:12. Ver também 14:12.


  1. Dará a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade.

Paulo não está ensinando salvação pelas obras aqui. Está salientan­do a imparcialidade de Deus com relação a judeus e gentios. Ver a confis­são repassada de surpresa que Pedro faz em At 10:34s.: "Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qual­quer nação" (entre gentios bem como entre judeus), "aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável." Deus mostrou Sua aceitação a Cornélio, a quem foram ditas estas palavras. Mostrou-a enviando-lhe Pedro com o Evangelho, para que ele e sua casa fossem salvos (At 11:14).

8. Aos facciosos.

Assim em RV, RSV. AV: "contenciosos". A tradução de NEB, "àqueles que são governados por ambição egoística", faz mais justiça ao sentido básico de eritheia, derivada de eriíhos ("mercenário"). Contudo, mesmo na antigüidade, seu sentido foi tendendo a assimilar-se ao dêem ("contenda", "facção").

11. Para com Deus não há acepção de pessoas.

"Acepção de pessoas" (literalmente "levantamento do rosto", prosõpolêmpsia) ê favoritismo ou parcialidade (ver Dt 10:17; 2 Cr 19:7; Jo 34:19; At 10:34; Gl 2:6; Ef 6:9; Cl 3:25; 1 Pe 1:17). Nosso Senhor afir­mou a mesma verdade quando disse do Pai celeste: "ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e vir chuvas sobre justos e injustos" (Mt 5:45).



12. Todos os que pecaram sem lei, também sem lei perecerão.

O pecado desenfreado leva à perdição de um modo ou de outro, mas os gentios não serão condenados por não cumprirem um código de leis que não lhes era acessível. Firma-se o princípio de que c« homens são jul­gados segundo a luz que tiveram, não segundo a luz que não tiveram.

13. Os que praticam a lei hão de ser justificados.

Talvez Paulo tenha em mente Lv 18:5: "Portanto os meus estatutos e os meus juízos guardareis; cumprindo os quais, o homem viverá por eles" — passagem que ele cita depois, em 10:5. O curso seguido por seu ar­gumento indica que, embora o homem fosse justificado se fosse pratican­te da lei, contudo, desde que ninguém a pratica perfeitamente, não há justificação desse modo. A antítese entre simplesmente ouvir a lei e praticá-la é desenvolvida em Tg 1:22-25. A expressão "os que praticam a lei" (ou "os cumpridores da lei") acha-se na literatura de Qumran. Ver acima, p.66.

15. Estes mostram a norma da lei gravada nos seus corações.

Paralelo verbal da profecia da nova aliança em Jr 31:33 (ver, p. 131), embora aqui Paulo não estej a pensando na nova aliança.



Testemunhando-lhes também a consciência. A palavra "consciên­cia" (suneidésis) não é comum no grego clássico. Pertencia ao vernáculo e alcançou categoria literária somente pouco tempo antes do princípio da era cristã. Significava "consciência de agir certo ou errado", mas Paulo a emprega no sentido de testemunha interior independente, que examina e julga a conduta do homem. Num cristão este exame e o julgamento são especialmente exatos porque a sua consciência é iluminada pelo Espírito Santo (ver 9:1).
c. O judeu (2:17-3:8)
(1) Privilégio traz responsabilidade (2:17-29).

Em 2:17 Paulo se dirige ao moralista definindo-o explicitamente como judeu. "Você tem o honroso nome de judeu", diz ele, "sua posse da lei dá-lhe confiança, gloria-se de que é ao Deus verdadeiro que você cul­tua e de que conhece a vontade dele." Talvez haja aqui mais um eco de Sabedoria:

"Pois mesmo se pecamos, somos teus,

conhecendo o teu poder;

mas não haveremos de pecar,

porque sabemos que somos considerados teus.

Pois conhecer-te é a justiça completa,

e conhecer o teu poder é a raiz da imortalidade."

(Sabedoria 15:2, 3.)

"Você aprova o caminho mais excelente", continua Paulo, "pois o aprendeu da lei. Considera-se mais instruído do que aqueles que são in­feriores por não terem a lei. Considera-se guia de cegos e instrutor de tolos.

"Mas por que não dar uma sincera olhada em você mesmo? Você não tem defeitos? Você conhece a lei, mas a guarda? Você diz: 'Não roubarás.' Mas não rouba nunca? Você diz: "Não adulterarás." Mas será que cumpre sempre esse mandamento? Você detesta ídolos, mas nunca rouba templos? Você se gloria na lei mas, de fato, sua desobediência à lei dá má fama entre os pagãos, a você e ao Deus que cultua.

"Ser judeu aproveitará ao homem diante de Deus, somente se cum­prir a lei. O judeu que quebra à lei não é melhor do que o gentio. E inversamente, o gentio que cumpre as exigências da lei é tão bom à vista de Deus como qualquer judeu que permanece na lei. Na verdade, o gentio que guarda a lei de Deus condenará o judeu que a quebra, não importa quão versado nas Escrituras esse judeu seja, não importa quão cano-nicamente se tenha processado a sua circuncisão. Você vê, não é questão de descendência natural e de sinal externo como a circuncisão. A palavra 'judeu' significa 'louvor', e o verdadeiro judeu é o homem cuja vida é dig­na de louvor pelos padrões de Deus, cujo coração é puro à vista de Deus, cuja circuncisão é a circuncisão interna, do coração. Este é judeu de ver­dade, digo eu — homem verdadeiramente digno de louvor — e seu louvor não é matéria de aplauso humano, mas da aprovação divina."

17. Se, porém tu que tens por sobrenome judeu.

AV: "Vê, tu és chamado judeu." Porém o texto mais bem creden­ciado diz: "mas se" (ei de), como AA, e não "vê" (ide). Ver RV, RSV.

18. Que conheces a sua vontade.

Lit. "conheces a vontade"; a vontade de Deus é "a vontade"par ex-cellence. Ver 1 Macabeus 3:60, RV: "seja qual for a vontade no céu, as­sim ele fará".



Aprovas as causas excelentes. A palavra diapheronta significa primariamente "coisas que diferem" e secundariamente "coisas que diferem de outras, sobrepujando-as", i. e., "coisas excelentes". AV, RV e RSV — como também AA — aceitam para esta passagem o último sen­tido. NEB prefere o primeiro sentido ("você está ciente das distinções morais"). A mesma frase aparece em Fp 1:10 (AV e AA: "para aprovar-des as cousas excelentes". NEB; "assim lhe dê o dom da discriminação correta").

20. A forma da sabedoria e da verdade.

AV: "A forma do conhecimento e da verdade." Ou seja, a formu­lação ou sistematização orgânica do conhecimento e da verdade.

22. Lhes roubas os templos?

AV: "Cometes sacrilégio?" Lit. "roubas templos". O verbo grego é hierosulêo. É difícil dizer o que Paulo tem em mente. Talvez se refira a algum incidente escandaloso, como o do ano 19 A. D., registrado por Josefo (Antigüidades 18:81ss.), quando quatro judeus de Roma, guiados por um que dizia ensinar a fé judaica a gentios interessados, persuadiram uma dama da nobreza romana, convertida ao judaísmo, a fazer uma generosa contribuição em favor do templo de Jerusalém, mas se apro­priaram da oferta para seu próprio uso. Quando o fato veio à luz, o im­perador Tibério expulsou de Roma todos os judeus ali residentes (ver p. 15). Um incidente como este dava má reputação ao nome de "judeu" entre os gentios.

24. Pois, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gen­tios por vossa causa,

(Ou "... por meio de vós", AV.) A referência é a Is 52:5: "o meu nome é blasfemado incessantemente todo dia" ("menosprezado", RSV). A triste situação dos judeus no exílio levava os gentios a falarem levia­namente do seu Deus, imaginando-O incapaz de socorrer Seu povo. Agora não se trata de desventura do povo de Deus, mas é o seu mau com­portamento que leva os gentios a concluírem que o Deus de tal povo não pode ser de muita valia. Os membros da comunidade de Qumran eram exortados a serem cuidadosos no trato com os gentios, "para que eles não blasfemem".8

25. A circuncisão tem valor se praticares a lei.

Ver Gálatas 5:3: "todo homem que se deixa circuncidar (...) está obrigado a guardar toda a lei." A circuncisão, realizada como exigência legal, coloca sobre o homem a responsabilidade de guardar o restante da lei, quer seja aceita mais tarde na vida, como no caso dos prosélitos (que é o que Pauio tem em vista em Gálatas), quer seja ministrada às crianças judaicas (que é o que tem em mente aqui). Visto como nenhuma classe de pessoas circuncidadas pode guardar completamente a lei, mas inevitavel­mente, acaba falhando no cumprimento de sua responsabilidade, Paulo acrescenta: Se é, porém, transgressor da lei, a tua circuncisão já se ton nou incircuncisão.

Esta lição já fora ensinada em parte por Jeremias: "Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que castigarei a todos os circuncidados mas ainda incircuncisos — o Egito, Judá, Edom, os filhos de Amom, Moabe — pois todas estas nações são incircuncisas, e toda a casa de Israel é incircuncisa de coração" (Jr 9:25s., RSV). Os vizinhos de Israel na maior parte praticavam a circuncisão (os filisteus eram uma notória exceção). Mas a circuncisão dos vizinhos de Israel não era sinal da aliança de Deus, como a circuncisão israelita pretendia ser. Todavia, se Israel e Judá se apar­tavam de Deus no coração, sua circuncisão física não era melhor do que a dos seus vizinhos, à vista de Deus: na medida em que houvesse qualquer interesse religioso, não era circuncisão nenhuma. Ver Deuteronômio 10:16: "circuncidai, pois, o vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz." Mas Paulo vai mais longe que Jeremias. Não somente re­conhece a circuncisão como incircuncisão, se desacompanhada da de­voção de coração; como também reconhece a incircuncisão como circun­cisão espiritual, se apesar disso se presta obediência a Deus.

27. E se aquele que é incircunciso por natureza, cumpre a lei, certamen­te ele te julgará a ti.

Quer dizer, as faltas de um judeu indigno serão realçadas pelo exemplo de um gentio que, não tendo nenhum dos privilégios caracterís­ticos dos judeus, não obstante agrada a Deus.

29. Cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus.

Os judeus derivaram seu nome de Judá, seu antepassado (heb. Yehudah) cujo nome no Velho Testamento se associa ao verbo yadah, "louvar". Ver as palavras de sua mãe quando ele nasceu: "Esta vez louvarei o Senhor" (Gn 29:35), e a bênção pronunciada por seu pai no leito de morte: "Judá, teus irmãos te louvarão" (Gn 49:8).



(2) Objeções respondidas (3:1-8).

Aqui Paulo imagina alguém interrompendo sua argumentação e dizendo: "Pois bem, se o que vale é ser judeu interiormente, se o que im­porta é a 'circuncisâo' do coração, há alguma vantagem em pertencer à nação judaica, ou em ser circuncidado fisicamente?" Podíamos esperar que Paulo respondesse a esta suposta interrogativa do modo mais ca­tegórico: "Absolutamente nenhuma!" Mas, para nossa grande surpresa, ele replica: "Muita, sob todos os aspectos." Decerto que é vantagem per­tencer à nação judaica. Pensemos em todos os privilégios9 assegurados por Deus àquela nação — privilégios de que as outras nações não par­ticipavam. Seria pedir demais a Paulo esperar que negasse sua herança dos antepassados, especialmente agora que ele tinha encontrado no Evangelho, ao qual sua vida estava dedicada, o cumprimento da antiga esperança de sua nação.

Entre os privilégios hereditários de Israel, Paulo reconhece como da maior importância o fato de que os israelitas eram os guardiães dos "oráculos de Deus". Ter o encargo da revelação da vontade e do pro­pósito de Deus era de fato uma alta honra. Mas se era alta honra, levava consigo uma grande responsabilidade. Se se mostrassem infiéis à con­fiança depositada neles, seu caso seria pior do que o das nações às quais Deus não se tinha revelado.

Era fato que Israel não se tinha mostrado fiel ao que lhe fora con­fiado. E isto poderia ter sido levantado como objeção a Paulo, quando ar­gumentava que era grande vantagem pertencer à nação que tinha re­cebido os oráculos de Deus. Mas sua réplica é que a infidelidade dos homens jamais altera a fidelidade de Deus, nem frustra o Seu propósito. A infidelidade dos homens simplesmente põe em relevo a verdade de Deus: Sua justiça é sempre vindicada em contraposição à injustiça deles.

Uma outra objeção é tratada a seguir. Alguém pode dizer: "Se a minha infidelidade põe a fidelidade de Deus em mais saliente relevo; se a minha injustiça estabelece a Sua justiça; por que deveria Ele achar falta em mim? Ele é quem leva vantagem com o meu pecado; por que Ele im­põe retribuição ao meu pecado?" Esta objeção parece tão estulta a Paulo que ele pede desculpas por mencioná-la. A resposta é simples: Deus é o Regente moral do universo, o Juiz de toda a terra. Como é que Ele po­deria exercer essa função, que é inseparável de Sua divindade, se não exigisse retribuição pelo pecado?

O suposto opositor, contudo, é persistente e repete seu argumento com palavras diferentes: "Se, por contraste, a minha falsidade faz a ver­dade de Deus brilhar com maior fulgor, ela redunda em Sua glória. En­tão, por que Ele insiste em me condenar como pecador? O fim é bom — a glória de Deus. Por que o meio — meu pecado — há de ser considerado errado? Não é certo que o fim justifica os meios?"

"Realmente", diz Paulo, "é precisamente à isso que alguns dizem que o meu Evangelho chega. Mas a acusação deles não é apenas um ul­traje. Condena-se a si mesma por ser uma contradição de termos." O Evangelho da justificação pela fé, sem as "obras da justiça", provoca sempre esta crítica. Mas a crítica é amplamente refutada pelo fato de que o mesmo Evangelho insiste inequivocamente em que os "frutos da jus­tiça" devem seguir-se à justificação.

4. Seja Deus verdadeiro, e mentiroso todo homem.

A segunda frase se pode considerar como eco do consternado clamor do salmista: "Todo homem é mentiroso" (Sl 116:11).. "Todo homem seja réu convicto de falsidade", diz Paulo, "em vez de impugnar a veracidade de Deus."

Para seres justificado nas tuas palavras, e venhas a vencer quando fores julgado. "Para que sejas vindicado quando falares, e ganhes a causa quando entrares em juízo" (krinesthai aqui deve ser tomado como voz média, e não voz passiva). A citação é do Salmo 51:4, onde TM diz sim­plesmente: "... quando julgas" (assim também AV, RV; ver RSV: "de modo que és justificado em tua sentença e inculpável em teu julgamen-to").

8. Pratiquemos males para que venham bens.

É fácil ver como o Evangelho podia ser mal compreendido como se estivesse ensinando isto. Aqueles que — judeus ou cristãos — conside­ravam a religião como se fosse essencialmente uma questão de lei (por mais liberalmente que se interpretasse "lei"), não podiam senão concluir que uma doutrina de justificação "sem as obras da lei" solaparia o lugar da lei na abordagem de Deus pelo homem, e com isto solaparia a religião e a moralidade.

A condenação destes é justa. Isto pode significar ou "Condenar homens como estes certamente não é injustiça" (NEB) ou "Um argumen­to como esse é condenado com total propriedade" (J. B. Phillips). Na AV ("Cuja condenação é justa"), o pronome relativo traduzido por "cuja" pode referir-se às pessoas que dizem tais coisas ou às coisas ditas por elas. Para encontrar a verdadeira resposta à acusação, ver 6:2ss. Sobre a palavra "condenação" (inglês, "damnation"), ver notas sobre 13:2,14:23 (pp. 192, 205).

d. Toda a humanidade achada culpada (3:9-20).

"Pois bem", prossegue o interlocutor, "você disse que é vantagem pertencer à nação judaica. Não se segue que somos superiores àqueles gentios que não têm os privilégios que temos?" "Decerto que não", res­ponde Paulo. "Podemos ter recebido vantagens maiores, mas na verdade não estamos em situação melhor do que a deles. Eles pecaram, é certo. Mas, e daí? Nós também pecamos. Todos os homens, tanto judeus como gentios, estão obrigados a confessar-se culpados perante o tribunal de Deus. As palavras da Escritura resumem bem a situação."

Aqui Paulo acrescenta uma corrente de seis citações do Velho Tes­tamento. Elas apresentam um resumo da pecaminosidade geral do homem. A corrente entra aqui para fixar uma situação já estabelecida por vários argumentos. Se as citações fossem examinadas uma por uma, seria necessário relacioná-las com os seus contextos históricos. Pelo menos algumas delas referiam-se a um ponto particular, e não universal. Mas o quadro geral que apresentam aqui arremata a causa que Paulo vem promovendo. E se ele imagina uma objeção a seu uso destas citações, a objeção não é que as desligou dos seus contextos históricos, mas que elas se referem somente aos ímpios gentios, não a Israel. "Não", replica Paulo, "estas citações são tiradas das Escrituras judaicas e, portanto, o povo que elas têm em vista em primeiro lugar é o povo judeu." O que está escrito na lei (que aqui significa a Bíblia hebraica completa) aplica-se naturalmente ao povo da lei. A lei expõe o pecado do homem, mas não faz nada para curá-lo. Então, os judeus, como também os gentios, têm de se confessar moralmente falidos. Se existe alguma esperança para qual­quer dos dois grupos, terá de ser achada na misericórdia de Deus, e não em alguma reivindicação que os homens ou as nações possam fazer-lhe. Em vista do fato do pecado universal, o caminho para a aceitação por parte de Deus em razão de nossas obras de justiça está fechado — e o aviso é perfeitamente claro: "Nesta direção não há nenhuma estrada".

9. Não, deforma nenhuma {oupantos).

Há uma colisão prima faciei0 entre a resposta de Paulo aqui a: "Temos nós (judeus) qualquer vantagem (sobre os gentios)?", e sua res­posta no versículo 2 a: "Qual é, pois, a vantagem do judeu?" — "Muita, sob todos os aspectos." Mas, "Muita, sob todos os aspectos" refere-se aos privilégios desfrutados pelos judeus como nação eleita; enquanto "Não, deforma nenhuma" relaciona-se com a posição deles diante de Deus. Com privilégios ou sem eles, judeus e gentios têm igual necessidade da graça divina.

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