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10-12. Não há justo (...) não há quem faça o bem, não há nem um se­quer.

Citação do Salmo 14:1, 2, 3 (repetida no Salmo53:1, 2,3).

13. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua urdem engano.

Citação do Salmo 5:9.



Veneno de víbora está nos seus lábios. Citação do Salmo 140:3.

14. A boca eles a têm cheia de maldição e de amargura.

Citação do Salmo 10:7.

15-17. São os seus pés velozes para derramar sangue (...) desconheceram o caminho da paz.

Citação de Isaías 59:7.

18. Não há temor de Deus diante de seus olhos.

Citação do Salmo 36:1.

19. Tudo o que a lei diz.

A referência é às citações anteriores. Mas desde que nenhuma delas é tirada da Lei no sentido mais estrito (o Pentateuco) — são extraídas do Saltério, com uma exceção, que vem de Isaías — "lei" aqui deve referir-se às Escrituras hebraicas em geral. Ver p. 46.



20. Ninguém será justificado diante dele por obras da lei.

Ampliação e tradução livre do Salmo 143:2: "Não entres em juízo com o teu servo" (ver Salmo 51:4, cit. nov. 4 acima), "porque à tua vista não há justo nenhum vivente" (ou "nenhum vivente será justificado", AV). Ver Gálatas 2:16 ("o homem não é justificado por obras da lei"), 3:11 ("pela lei ninguém é justificado diante de Deus"). Paulo aduz a razão por que ninguém pode ser justificado à vista de Deus "por obras da lei"; é que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado. Este ponto é repetido e expandido em 50:20,7s7ss. Ver pp.49,104,119.


Notas
1. E. Brunner. The Medimor (1934), p.478.

  1. B. Gartner, The Areopagus Speech and Natural Revelation (Copenhagen, 1955), p.137.

  2. M. D. Hooker, "Adamin Romans i",NTS, VI(1959-60), p. 301.

4 Pode-se dizer o mesmo de "erro" em português. N. do Tradutor

5. Ver 3:5, 4:1, 6:1, 7:7, 8:31. 9:14, 30; e a frase parecida: "Tu, porém, me dirás" ou "Dirús, pois", em 9:19 c 11:19.



  1. Ver J. N. Sevenster, Paul and Seneca (Leiden, 1962).

  2. "Seneca saepe mister", diz Tertuliano ("Seneca, tantas vezes um dos nossos"). Sobre a Alma 20.

  3. G. Vermes, The Dead Sea Serolk in English, p, 114.

  4. Uma lista suplementar é dada em 9:4s.

  5. À primeira vista. N. do Tradutor.


3. O Meio de Alcançar a Justiça: Satisfeita a Necessidade Universal (3:21-5:21).

a. ÁprovisãodeDeus(3:21-31).

Mas agora abriu-se um novo caminho para a aceitação da parte de Deus, completamente diverso do caminho da obediência legal. Contudo, não se trata de um caminho moderno, idealizado por nós. Os escritos do Velho Testamento dão amplo e progressivo testemunho dele na Lei e nos Profetas. É o caminho da fé em Jesus Cristo, e está aberto para todo o que crê nele, tanto para o judeu como para o gentio. Já vimos que não existe diferença entre estas duas divisões da espécie humana, visto que tanto os judeus como os gentios pecaram e carecem da glória de Deus — o ver­dadeiro fim para o qual Deus os criou. Mas por este nove meio os judeus e os gentios podem ser postos em correta relação com Deus, podem ter a certeza de ser aceitos por Ele e de receber Seu perdão gratuito. Recebem-no gratuitamente, por Sua graça; recebem-no por causa da obra reden­tora realizada por Cristo. É Cristo que Deus expôs diante de nossos olhos como Aquele cuja morte sacrificial fez expiação de nossa culpa e retirou a iminente retribuição merecida por nossa rebelião contra Deus. O que Cris­to obteve para nós, podemos tornar efetivamente nosso pela fé.

Este é, pois, o modo pelo qual Deus demonstrou a Sua justiça — vindicou Seu caráter e dá um estado de justos a homens pecadores. Por isso Deus, em Sua paciente maneira de tratar os homens, pôde deixar de lado os pecados que eles cometeram antes da vinda de Cristo, em vez de exigir a punição total. Estava mostrando misericórdia para com eles com o propósito de demonstrar Sua justiça na presente época. Eesta demons­tração nos mostra como Ele continua sendo perfeitamente justo enquanto perdoa os que crêem em Jesus e os coloca na posição certa ante o tribunal divino.

Sendo assim, quem tem direito de gabar-se? Vai-se toda a base da jactância pela justiça pessoal — não pela lei das obras, mas pelo princípio da fé. Dado que judeus e gentios são igualmente justificados pela graça de Deus, sem qualquer mérito pessoal deles, ninguém pode dizer: "Fiz isto por meu próprio esforço." A conclusão do argumento de Paulo é que o homem é posto na posição certa à vista de Deus pela fé, inteiramente à parte das obras prescritas pela lei. Se a aceitação da parte de Deus só pudesse ser alcançada pela guarda da lei judaica, Deus seria num sentido especial o Deus dos judeus. Mas Ele é Deus dos gentios como o é dos judeus, pois no Evangelho um e o mesmo caminho da justiça está aberto para ambos. Deus aceita judeus em virtude da sua fé, e aceita gentios fundado exatamente na mesma base.

Para Paulo, a divisão entre judeus e gentios constituía a divisão básica da raça humana. Ele próprio era judeu de nascimento e de criação, e tinha sido instruído no sentido de considerar os não-judeus como pecadores ignorantes, carentes do.conhecimento da lei de Deus, in­dispensável para cpnseguir aceitação à Sua vista. E de fato, a divisão que separava judeus e gentios era uma das mais insanáveis do mundo antigo. Há outras brechas que talvez nos pareçam muito maiores hoje em dia — distanciamentos por questões de raça, de nacionalidade, de classe e de cor — cuja obstinada resistência nos apresenta problemas muito mais agudos do que a divisão de judeus e gentios. Mas o argumento de Paulo é tão válido à luz das divisões atuais como o era face às divisões dos seus dias. E seu argumento é: não há diferença entre ocidente e oriente, nem entre negro e branco, pois todos igualmente precisam da gratuita mi­sericórdia de Deus, e todos podem receber Sua misericórdia nos mesmos termos.

O poeta romano Horácio, traçando algumas linhas de orientação para os escritores de tragédias da sua época, critica aqueles que recorrem muito prontamente ao expediente de um deus ex machina para resolver os intrincados problemas desenrolados no transcurso do enredo. "Não introduza um deus no palco", diz ele, "a menos que o problema seja tal que mereça um deus para resolvê-lo" («ec deus intersit, nisi dignus vin-dice nodus inciderit).' Lutero tomou estas palavras e as aplicou ao perdão de pecados: aqui, disse ele, há um problema que precisa de Deus para ser resolvido (nodus Deo vindice dignus).2 Certo, pois o homem pecador não o pode resolver, embora precise desesperadamente de uma solução; o problema é dele; é ele que tem de ser perdoado. E o que Paulo nos diz aqui é que o problema foi dignamente solucionado pela graça de Deus, que apresen­tou Cristo como a solução, o meio para a obtenção do perdão, o fiador que garante a nossa aceitação por parte de Deus. Tudo o que se requer do pecador é que abrace pela fé aquilo que a graça de Deus supriu.

Pode-se perguntar, porém, se a lei de Deus não é anulada pelo prin­cípio da fé. Longe disso, diz Paulo. Por este princípio da fé a lei é man­tida de pé, o pecado é condenado, a justiça é vindicada, e se cumprem as Escrituras do Velho Testamento. Isto ele começa a demonstrar agora.

21. A justiça de Deus.

O meio estabelecido por Deus para obter-se a justiça ou justificação. Ver a citação de Lutero, p. 51.

22. Mediante a fé em Jesus Cristo.

(AA, RV, RSV, melhor do que AV, que diz: "Pela fé que é de Jesus Cristo." O genitivo "de Jesus Cristo" é objetivo.)

Para todos [e sobre todos] os que crêem. O texto mais bem creden­ciado omite a expressão que AA traz entre cochetes "e sobre todos". (VerRV,RSVeNEB.)

Não há diferença. Assim como aqui não há distinção entre judeus e gentios (ou entre quaisquer outras categorias em que se divide a hu­manidade) com relação ao pecado, assim em 10:12 "não há distinção" entre eles com relação à misericórdia de Deus.

23. Todos pecaram.

As duas palavras [pantes hêmarton) são idênticas às do fim de 5:12 mas, ao passo que lá o contexto sugere que a referência é à participação de todos na "desobediência do primeiro homem", aqui temos antes uma afirmação do fato de que todos os homens, como indivíduos, pecaram.

Carecem da glória de Deus. A interpretação tradicional de Isaías 43:7, "os criei para minha glória" (que se diz, no contexto, de "todos os que são chamados pelo meu nome"), aplica-o à humanidade em geral. Mediante o pecado o homem perde o ideal que Deus tinha em mira quan­do o trouxe à existência. Ver 5:2.

24. Sendo justificados gratuitamente por sua graça.

A esperança de Paulo, antes de se tornar cristão, era que por força de perseverar na observância da lei de Deus, ele poderia finalmente ser declarado justo por Deus quando se apresentasse diante do trono do juízo divino. Mas neste modo de obter-se a justiça à parte da lei, o processo é ao revés: Deus declara justo o homem no início do seu percurso, não no fim. Se o declara justo no início do seu percurso, não pode ser com base nas obras ainda não praticadas por ele. Esta justificação é, ao contrário, "um ato da livre graça de Deus, no qual Ele perdoa todos os nossos pecados, e nos aceita como justos diante de Si" {Breve Catecismo de Westminster, perg. 33).

E quando se chega à questão de sermos aceitos por Deus, quanto mais satisfatório é saber-nos "justificados gratuitamente por sua graça" do que esperarmos ser justificados pelas "obras da lei". Neste caso, nun­ca posso sentir-me realmente satisfeito como "tendo colado grau", de que meu comportamento foi suficientemente meritório para obter a apro­vação divina. Ainda que eu faça o meu melhor (e o problema é que nem sempre ajo assim), como posso ter certeza de que a minha melhor rea­lização se enquadra nas exigências de Deus? Pode ser que eu tenha esperança, mas certeza, nunca. Mas se Deus, por pura graça, me assegura que me aceita de antemão, e eu abraço alegremente esta segurança, então posso prosseguir para fazer a Sau vontade sem estar sempre me preo­cupando se a estou fazendo adequadamente ou não. De fato, até o final do capítulo serei um "servo inútil", mas sei em quem tenho crido:

"Ele me toma como Seu filho; não posso mais ter medo."

Em Isaías 40-55, a libertação dos israelitas do cativeiro da Babilônia é a "justificação" deles — e a de Deus. "Tão-somente no Senhor há jus­tiça e força" (Isaías 45:24, RV, AA), e Sua justiça e Sua força são de­monstradas na libertação de Seu povo: "Mas no Senhor será justificada toda a descendência de Israel, e nele se gloriará" (Isaías 45:25); "esta é a herança dos servos do Senhor, e a sua justiça, que é minha, diz o Senhor" (Isaías 54:17, AV). Por que a libertação deles é a sua justificação? Não tinham merecido o castigo do cativeiro? Sim. Jerusalém tinha recebido "em dobro da mão do Senhor, por todos os seus pecados" (Isaías 40:2). Mas a livre graça de Deus restaurou-os, e sua restauração era tanto a vitoriosa vindicação do nome de Deus entre as nações (Isaías 42:13, 48:9-11) como a salvação do Seu povo.



Mediante a redenção que há em Cristo Jesus. A redenção (apolu-trõsis3) é o ato de comprar um escravo cativo a fim de libertá-lo. Aqui também o misericordioso tratamento dado por Deus a Israel prove um lastro veterotestamentário para a linguagem de Paulo, quer pensemos na redenção de Israel da escravidão egípcia(Êx 15:13; Sl 77:14, 78:35), quer pensemos em sua posterior libertação do cativeiro babilonico (Is 41:14, 43:1). A graça de Deus que "justifica" os que crêem, manifestou-se ativamente na obra redentora de Cristo.

"Quando eu estava andando para cima e para baixo na casa, aquela palavra de Deus tornou posse do meu coração: Vós sois "jus­tificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus" (Rm 3:24). Mas oh! que reviravolta fez em mim! Agora estava como alguém desperto de um pesadelo e, ao ouvir esta sentença celestial, foi como se ouvisse esta exposição dela: Pecador, pensas que por causa dos teus pecados e fraquezas eu não posso sal­var a tua alma, porém eis que o meu Filho está junto a mim e é para ele que olho, não para ti, e tratarei contigo segundo a satisfação que ele me dá" (João Bunyan, Grace Abounding, §§ 257-258).

25. A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação.

Observe-se a pontuação mais precisa em RV comparada com AV: "a quem Deus propôs como propiciação, mediante a fé, por seu sangue". As duas frases, "mediante a fé" e "no seu sangue" são independentemente epexegéticas4 quanto a "propiciação". A palavra chave é "propiciação", tradução de hilastèrion em AV, RV e AA. Esta palavra pode ser tomada ou como o acusativo masculino singular do adjetivo hilastêrios ("pro-piciatório"), combinado com "a quem" (hon); ou, mais provavelmente, como o substantivo neutro hilastèrion, empregado na LXX para indicar "lugar de propiciação", "lugar onde os pecados são apagados". O uso mais comum que a LXX faz da palavra é como equivalente do heb. kap~ poreth, a lâmina de ouro ou "assento da misericórdia" que cobria a arca no santo dos santos (ocorre deste modo mais de 20 vezes no Pentateuco). Em Ezequiel 43:14ss. é usada (5 vezes) para traduzir o heb. 'azarah, a "borda" (assim RSV; AV e RV dizem "assento") ao redor das ofertas queimadas do templo de Ezequiel.

O substantivo hilastèrion relaciona-se com o verbo hilaskomai, que no grego pagão significa "aplacar" ou "tornar gracioso", mas que na LXX toma o sentido do heb. kipper ("fazer expiação") e termos cog-natos, entre os quais se inclui kapporeth, "assento da misericórdia", "lugar onde os pecados são expiados ou apagados". Tem-se feito objeção ao uso do verbo "propiciar" e do substantivo "propiciação", na tradução destas palavras gregas para o Novo Testamento em inglês (e em portu­guês) com base no fato de que estas palavras no inglês (e no português) dão a idéia de "aplacar" ou "apaziguar".5 Podemos comparar a fuga ao uso destes termos nesta passagem, em RSV ("a quem Deus propôs como expiação por seu sangue, a ser recebido pela fé") com NEB ("Deus desig­nou-o para ser o meio de expiar o pecado por sua morte sacrificial, que se efetiva pela fé"). Mas, se hilaskomai, hilastèrion e seus cognatos ad­quiriram novo significado do seu contexto bíblico, podemos esperar que, pelo seu uso prolongado as palavras "propiciar" e "propiciação" — no inglês e no português — adquiriram significado bíblico do mesmo modo. Em todo caso, a insistência de Paulo em que é Deus, e não o homem pecador, que providenciou este hilastèrion impede que seja mal com­preendido. De modo semelhante, o Velho Testamento atribui a iniciativa à graça de Deus, nesta questão: "Porque a vida da carne está no sangue. Eu vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação(heb. kipper; LXX exilaskomai) pelas vossas almas; porquanto é o sangue que fará expiação em virtude da vida" (Lv 17:11, RV e ÂA). Casualmente, é uma passagem do Velho Testamento como esta que explica o uso que Paulo faz da ex­pressão "seu sangue" no presente versículo e justifica a interpretação da mesma como "sua morte sacrificial".

Portanto, a morte de Cristo é o meio pelo qual Deus elimina o pe­cado do Seu povo — não simbolicamente, como no ritual de Levítico 16, em que figurava o assento da misericórdia material, mas realmente. E realmente em duplo sentido: o pecado foi removido não só da consciência do cristão — na qual pesava como carga insuportável — mas também foi removido da presença de Deus. Pode-se comparar isto com o modo pelo qual o escritor de Hebreus associa o sacrifício de Cristo ao cumprimento da profecia da nova aliança: "dos seus pecados e de suas iniqüidades não me lembrarei mais" (Hb 8:12, citando Jr 31:34).

Uma vez que façamos justiça à iniciativa da graça divina na eficácia do oferecimento voluntário que Cristo fez de Si mesmo, não há razão pela qual devamos excluir do sentido de hilastêrion o afastamento da ira divina no sentido de hilastêrion em 3:25. Paulo já dissera em 1:18 que "a ira de Deus (NEB, "retribuição divina") se revela do céu contra toda im-piedade e perversão (AV "e injustiça") dos homens". Então, como haverá de retirar-se esta "ira"? O hilastêrion que Deus providenciou em Cristo não só retira a impiedade e injustiça dos homens .como também, ao mesmo tempo, afasta a ira ou retribuição que é o resultado inevitável des­sas atitudes e ações num universo moral.

De modo geral, aqui parece melhor tomar hilastêrion como substan­tivo, aludindo ao assento da misericórdia como o lugar onde se fazia ex­piação nos dias do Velho Testamento, antes do cativeiro babilônico. Paulo "nos informa que em Cristo foi exposto como realidade aquilo que foi dado figuradamente aos judeus" (Calvino)."

O contraste entre o velho hilastêrion e o novo é indicado pelas pa­lavras "a quem Deus propôs". O velho hilastêrion ficava oculto atrás da cortina que separava o santo dos santos do santuário externo, e ninguém o via, exceto o sumo sacerdote, no dia da expiação anual. Mas em Cristo "o assento da misericórdia não fica mais guardado na reclusão sagrada do lugar santíssimo: foi trazido para o meio da desordem e confusão do mundo, e foi instalado diante do olhar das multidões hostis, desdenhosas ou indiferentes" (T. W. Manson). A frase mediante a fé mostra como apropriar-nos dos benefícios salvadores do assento da misericórdia do Evangelho. A frase no seu sangue não depende da/é, como AV dá a en­tender. Refere-se à morte sacrificial de Cristo como o meio pelo qual foi feita a única e eficaz expiação pelo pecado (ver 5:8s.: Cristo morreu "por nós, sendo nós ainda pecadores. (...) sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira").

Assim, Paulo serviu-se da linguagem do tribunal de justiça ("jus­tificados"), do mercado de escravos ("redenção") e do templo ("assento da misericórdia") para fazer justiça à plenitude do ato da graça de Deus em Cristo. Perdão, libertação, expiação — são postos ao alcance do homem pela livre iniciativa de Deus, e podem ser assimilados mediante a fé. E a fé, neste sentido, não é uma espécie de obra especialmente me-ritória à vista de Deus. É aquela singela e sincera atitude para com Deus que O acredita por Sua palavra e aceita Sua graça de bom grado e com gratidão.



Para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes (paresis, "tendo passado por alto") os pecados ante­riormente cometidos. Isto é, "para demonstrar que Deus não foi injusto quando não levou em conta os pecados cometidos nos dias anteriores, no período da Sua tolerância". A redenção realizada por Cristo tem eficácia retrospectiva, bem como prospectiva. Ele é o "assento da misericórdia" para a humanidade toda — "a propiciação pelos nossos pecados", como um escritor posterior do Novo Testamento o coloca (usando uma palavra do mesmo tronco de hilastêrion), "e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro" (1 Jo 2:2, RV, AA). Pode-se com­parar a descrição das eras anteriores a Cristo como o período da tolerân­cia de Deus, com a proclamação que Paulo fez aos atenienses: "não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém..." (At 17:30, RV, AA). Conquanto o problema de natureza moral aqui tratado talvez não seja tão óbvio para a mente moderna como era para a de Paulo, contudo, não levar em conta o mal praticado é um ato de tanta injustiça da parte de um juiz como o ato de condenar o inocente — e "o Juiz de toda a terra não fará o que é reto?"

26. Para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.

Na oferta que Cristo fez de Si mesmo, a justiça de Deus é vindicada e o pecador que crê é justificado. Pois Cristo ocupa uma posição singular como representante de Deus junto ao homem e representante do homem junto a Deus. Na qualidade de Homem representativo, Ele absorve o juízo a que ficou sujeito o pecado humano; como representante de Deus, Ele comunica aos homens a graça perdoadora de Deus. A frase "justo e o justificador" lembra Isaías 45:21 ("Deus justo e Salvador") e Zacarias 9:9 ("justo e Salvador", ou, apudkV, "justo, e tendo salvação").7

28. Independentemente das obras da lei.

Quer dizer, "sem as ações da lei" (AV) ou "à parte das obras da lei". Paulo não pretende dizer que não há necessidade de praticar as obras da lei. O que diz é que, mesmo quando o homem as pratica razoavelmente bem, não é por isso justificado à vista de Deus. Ele está retirando o chão de sob os pés daqueles que dizem: "Sempre faço o melhor que posso ... trato de levar vida decente ... dou mil gramas se me pedem um quilo, e que mais Deus pode esperar de mim?"

Lutero sublinha a expressão "pela fé, independentemente das obras da lei" acrescentando o advérbio "somente": "o homem é justificado somente pela fé, independentemente das obras da lei."8 Por este "acrés­cimo" ao texto alguns o criticaram severamente. Ele deu pouca impor­tância a tais críticos, os quais descreveu como "fazendo tremendo re­buliço porque a palavra sola, 'somente', não consta no texto de Paulo, e este acréscimo (...) à Palavra de Deus não deve ser tolerado". Mas como sentido que Lutero quis dar à palavra "somente", ela sintetiza com precisão o que Paulo quis dizer: é somente pela fé, e não por obras da lei, nem por quaisquer outros meios imaginários de justificação, que o ho­mem recebe o estado de justo que Deus outorga por Sua graça.9 Quando se capta isto, pode-se ver que os homens não têm base para felicitar-se quando observam o meio de salvação; é sola gratia, sola fide, soli Deo gloria ("somente pela graça, somente pela fé, somente a Deus seja a glória").

Não obstante, embora seja fato que os homens são, neste sentido, justificados somente pela fé, "a fé que justifica não está só". Ela é, como Paulo diz em Gálatas 5:6, "a fé que atua pelo amor" — e a maneira exata como ela atua vem exposta com pormenores práticos nos capítulos 12 a 15 desta epístola. Mas isto pertence a um estágio posterior da argumen­tação. Por ora, o importante é salientar que é pela fé, e não pelo que/az, que o homem recebe a graça justificadora de Deus.

31. Confirmamos a lei.

Se Paulo se tivesse expressado em hebraico, teria usado o verbo qiy-yem. Este é o verbo usado na freqüente afirmação rabínica de que Abraão "cumpriu a lei". Paulo bem podia ter em mente essa afirmação, de modo que continua argumentando que Abraão de fato cumpriu ou "estabeleceu" (confirmou) a lei, mas, segundo o testemunho da Escri­tura, estabeleceu-a por meio do dom da justiça pela fé — dom que re­cebeu de Deus.

b. Um precedente do Velho Testamento (4:1-25).

Paulo já tinha dito que esta "justiça de Deus à parte da lei" é cre­denciada pela Lei e os Profetas — i. e., pelo Velho Testamento. É preciso demonstrá-lo agora, e Paulo se dispõe a fazê-lo baseando-se principal­mente na história de Abraão, com uma olhada de relance na experiência de Davi.

De todos os justos de que fala o Velho Testamento, ninguém pôde sobrepujar Abraão — "Abraão, meu amigo", como lhe chama Deus em Isaías 41:8. O testemunho de Deus em favor de Abraão está registrado em Gênesis 26:5: "Abraão obedeceu à minha palavra, e guardou os meus mandamentos, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis". Então, que dizer de Abraão? Se são as obras praticadas pelo homem que o justificam diante de Deus, Abraão teria melhor possibilidade do que a maioria — e poderia candidatar-se a obter algum crédito por isso. Mas não é esse o meio divino. O meio divino está claramente indicado no registro de Gênesis 15:6: quando a promessa divina alcançou Abraão, a despeito da extrema impossibilidade do seu cumprimento por todas as considerações naturais, "ele creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça". Paulo já tinha usado esta afirmação como base de um argumen­to ad hominem às igrejas da Galácia, quando se dispunham a abandonar o princípio da fé pelo das obras da lei. Agora ele a emprega como texto de uma exposição mais sistemática do princípio da fé.

O fato de Deus aceitar a Abraão evidentemente não se baseava em suas obras, por boas que fossem. O argumento de Paulo não é apenas textual e verbal, dependendo de uma escolha de Gênesis 15:6 em pre­ferência a outros textos daqueles capítulos de Gênesis que podiam ter apontado para outra direção. Pois as boas obras praticadas por Abraão, sua obediência aos mandamentos divinos, eram fruto de sua incontes­tável fé em Deus. Se não tivesse crido primeiro nas promessas de Deus, nunca teria conduzido sua vida daí em diante à luz daquilo que sabia da vontade de Deus. Não. Quando Deus fez uma promessa a Abraão (cujo cumprimento, casualmente, enfeixava o Evangelho todo), ele simples­mente tomou Deus ao pé da letra, e agiu de acordo.

Agora, note a diferença, prossegue Paulo. Quando alguém trabalha por alguma recompensa, essa recompensa lhe cabe. Quando simplesmente põe sua confiança em Deus, é por pura graça que sua fé lhe é im­putada para justiça.

Tampouco Abraão é um exemplo isolado do princípio da justificação pela fé. Outro caso do Velho Testamento está bem ao alcance, na ex­periência de Davi. Paulo agora cita as palavras iniciais do Salmo 32 em que o salmista, com jubiloso alívio pela certeza do perdão divino, ex­clama:

"Bem-aventurado aquele cuja iniqüidade é perdoada, cujo peca­do é coberto.

Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não atribui iniqüi­dade."

Claramente, se vê aqui outra pessoa, de cujo pecado não se poderia duvidar, que, todavia, recebeu o perdão gratuito de Deus e que é de­clarada "sem culpa" diante do tribunal do Céu. E se examinarmos o res­tante do salmo para descobrir a base em que foi absolvido esse homem, veremos que ele simplesmente reconheceu sua culpa e recorreu com fé à misericórdia de Deus.

Retornando a Abraão, surge outra questão crucial. Que relação há — se é que há alguma — entre Abraão ser justificado pela fé e o rito da circuncisão? Para um judeu, este era um ponto de grande importância: a circuncisão era o sinal externo e visível da aliança de Deus com Abraão. Nenhum incircunciso podia pretender participar daquela aliança, de modo nenhum. Sustentava-se que a circuncisão dava aos judeus e aos gentios prosélitos'" direito a todos os privilégios da aliança, menos aos que, por voluntário repúdio aos mandamentos divinos, eram eliminados do povo da aliança. Portanto, pode-se imaginar um judeu replicando ao argumento de Paulo nesta passagem: "Admitindo-se que a fé que Abraão teve em Deus foi-lhe imputada para justiça, este princípio só se aplica a Abraão e aos seus descendentes circuncidados". Mas Paulo tem resposta pronta para isto. Qual era a condição de Abraão quando foi justificado pela fé? Era circunciso ou incircunciso? Só podia haver uma resposta: era incircunciso. A aliança da circuncisão não foi introduzida senão numa fase posterior da vida de Abraão (Gn 17:10ss.) — ao menos 14 anos mais tarde, segundo a cronologia de Gênesis." Quando afinal Abraão foi circuncidado, sua circuncisão foi apenas o selo externo daquele estado de justo que Deus lhe tinha conferido muito tempo antes, em virtude de sua fé. Fica mais que evidente que foi a fé, não a circuncisão, que Deus exigiu dele. Eis aí, pois, a esperança dos gentios: o caso de Abraão mostra que a questão de incircuncisão ou circuncisão é irrelevante para o estado do homem perante Deus.

Por conseguinte, Abraão é o verdadeiro pai de todos os que, como ele, crêem em Deus e levam a sério Sua palavra. É o pai dos crentes incir-cuncisos, pois ele próprio era incircunciso quando sua fé lhe foi imputada para justiça. É também o pai dos crentes circuncisos, não tanto com base na circuncisão deles, quanto com base em sua fé.

Se a circuncisão não tinha nada a ver com a justificação de Abraão por parte de Deus, com todas as bênçãos prometidas que a acompa­nharam, a lei tinha menos ainda a ver com isso. Pois, como Paulo in­dicara aos gálatas, a lei foi dada 430 anos depois da promessa feita por Deus a Abraão, e não podia invalidá-la, nem restringir seu escopo (Gl 3:17). Se, muito depois de ter sido feita, a promessa se tornasse condi­cionada à obediência a uma lei não mencionada nos seus termos origi­nais, toda a base da promessa seria anulada. A promessa foi promessa de bênção, e se cumpre no Evangelho. A lei mosaica de fato profere uma bênção sobre os que a cumprem, mas ao mesmo tempo invoca maldição sobre aqueles que a quebram. E em vista do fracasso universal quanto a guardar a lei, a maldição é mais proeminente e mais relevante do que a bênção: a lei suscita a ira (versículo 15). Uma tendência pecaminosa na verdade pode estar presente na ausência de qualquer lei. Requer-se, porém, uma promulgação legal para cristalizar aquela tendência numa transgressão ou quebra positiva da lei. E para cada transgressão a lei fixa uma pena adequada. Isso é inerente ao princípio de retribuição inse­parável da idéia de lei. A lei não necessita fixar prêmios para os que a guardam, mas necessariamente impõe penalidades para os que a que-brantam. Uma promessa graciosa como a que Deus fez a Abraão perten­ce a uma esfera totalmente diversa da esfera da lei.

Não. A justificação de Abraão e as bênçãos subordinadas fundavam-se em sua fé em Deus. Não foram ganhas por mérito ou esforço da parte dele (como seria se estivessem condicionadas à guarda da lei) mas, sim, dadas a ele pela graça de Deus. E o princípio sobre o qual Deus tratou as­sim de Abraão estende-se aos seus descendentes — não aos seus descen­dentes naturais como tais, pois estes se fizeram sujeitos às obrigações da lei, mas aos seus descendentes espirituais, que seguem o exemplo da fé própria de Abraão. Isto, diz Paulo, é o que Deus quis dizer quando lhe deu o nome de Abraão em lugar de Abrão, como se chamava antes, e dis­se: "por pai de numerosas nações te constituí". Estas abrangem todos — judeus e gentios igualmente — os que crêem em Deus. Abraão é o pai de todos os crentes.

Considere-se, também, a qualidade da fé que Abraão teve. Era fé no Deus que dá vida aos mortos, que chama as coisas não existentes como se existissem de fato — e ao agir assim, dá-lhes existência real. Quando Deus disse a Abraão que seus descendentes seriam numerosos como as estrelas, ele ainda não tinha filhos. Não só isso, mas tinha ultrapassado a idade em que razoavelmente um homem pode esperar vir a ser pai, e Sara, sua mulher, estava ainda mais seguramente além da fase da mater­nidade. Abraão não fechou os olhos para estas circunstâncias desfavo­ráveis. Levou-as todas em cuidadosa consideração. Mas quando pôs con­tra elas a promessa de Deus, viu que a certeza da capacidade e da von­tade de Deus de cumprir Sua promessa sobrepujava todas elas. Não ten­do nada em que apoiar-se senão a pura e simples palavra de Deus, ele confiou nela, face a todas as indicações adversas que o pressionavam de todos os lados. Na verdade, sua fé foi fortalecida pela própria força do obstáculo que jaziam em seu caminho. E sua fé ganhou-lhe o favor de Deus.

Agora, acrescenta Paulo, a afirmação de que a fé que Abraão teve lhe foi imputada para justiça não se aplica somente a Abraão. O prin­cípio que encerra vale para todos os crentes em Deus, e especialmente para os crentes em Deus como revelado no Evangelho — o Deus que res­suscitou a Jesus dos mortos. Jesus fora entregue à morte por causa dos pecados do Seu povo; mas Deus O ressuscitou para que lhe proporcionas­se sua justificação.

1. Que, pois, diremos ter alcançado Abraão ...?

A resposta, como Paulo continua a mostrar, é: "justificação me­diante a fé, pela graça de Deus."

Abraão, nosso pai ("antepassado", RV, RSV) segundo a carne. Em vista do qualificativo (ver 1:3, 9:3, 5), "nosso" eqüivale a "de nós, ju­deus". Noutro sentido (4:lls., 16s.), Abraão é o pai de todos os crentes, quer judeus quer gentios de nascimento.

3. Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça.

Quanto a uma citação e adaptação anterior de Gênesis 15:6, ver Gálatas 3:6.

5. Mas ao que (...) crê naquele que justifica ao ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça.

Abraão não era ímpio; era um homem de notável piedade e justiça. Mas o princípio pelo qual Abraão foi justificado, sendo tal que exclui a idéia de acumular méritos por obras de piedade e justiça, é um princípio igualmente válido para os ímpios, que não têm obras dessa natureza em que confiar. Assim o coletor de impostos da parábola voltou para casa "justificado", e não o fariseu^ não porque seu mérito fosse maior (era in-

comparavelmente menor) mas porque, percebendo a futilidade da con­fiança em si mesmo, confiou-se inteiramente à graça de Deus (Lc 18:9ss.)- A descrição de Deus como Aquele "que justifica ao ímpio" é tão paradoxal como espantosa — para não dizer chocante. No Velho Tes­tamento, a absolvição do culpado e a condenação do inocente são igual e repetidamente denunciadas como atos de juizes injustos. Na verdade, para a melhor orientação dos juizes na administração da justiça, o Deus de Israel se lhes oferece como exemplo. "Não justificarei o ímpio," diz Ele em Êxodo 23:7. Na versão da LXX, as palavras gregas usadas para comunicar o que Deus proíbe na lei são as mesmas que Paulo usa aqui para declarar o que Deus de fato faz no Evangelho. Não admira que tenha achado necessário sustentar acima que Deus, ao justificar peca­dores, contudo preserva imaculado o Seu caráter. Uma vez justificados, na verdade os ímpios deixam de ser ímpios, mas não são justificados com base em qualquer forma de correção dos seus caminhos que se pudesse prever. Se deixamos de avaliar o problema de cunho moral envolvido na graça perdoadora de Deus, talvez seja porque "ainda não consideramos quão grave é o pecado".n A solução do paradoxo é dada em 5:6.

6. Também (...) Davi.

O Salmo 32 é atribuído a Davi nos títulos do TM e da LXX. Há um elo formal que liga 32:1, 2, passagem citada nos versículos 7,8, e Gênesis 15:6, citado no versículo 3, no sentido de que o verbo "imputar" é co­mum a ambas as passagens. Na exegese rabínica, esse elo serviu para in­centivar a interpretação de uma passagem pela outra, segundo o prin­cípio chamado gezerah shawah ("categoria igual"). Paulo aqui emprega este princípio, mas o elo não é simplesmente formal: a não imputação de pecado, com que o salmista se regozija, importa em positiva imputação da justiça ou pronunciamento da absolvição, pois é impossível haver veredito de "sem provas" no tribunal de Deus.

11. O sinal da circuncisão.

Quer dizer, o sinal que consistia da circuncisão. A expressão "da circuncisão" representa no grego o "genitivo de definição". Em Gênesis 17:11 Deus diz a Abraão que a circuncisão é para marca ou "sinal de aliança entre mim e ti". A exegese de Paulo identifica esta aliança com a de Gênesis 15:18, na qual (pelo menos catorze anos antes de Abraão ter sido circuncidado) Deus mostrou a Abraão efetivamente como lhe im­putou sua fé para justiça. Assim, a circuncisão é tratada como selo sub­seqüente e externo àquele estado de justo que Abraão já possuía como dom de Deus. Não produziu aquele estado de justo, nem lhe acrescentou nada.

13. Que a Abraão (...) coube a promessa de ser herdeiro do mundo.

Isto não é citação de alguma promessa a Abraão registrada, mas uma interpretação daquelas promessas que fazem referência a "todas as famílias da terra" (Gn 12:3) e a "todas as nações da terra" (Gn 18:18, 22:18). Ao se delimitar a herança de Abraão em termos geográficos, situa-se entre o Egito e o Eufrates (Gn 15:18; ver também 13:14s.), mas no sentido espiritual e permanente em que as promessas a ele feitas são interpretadas no Novo Testamento, sua herança não pode confinar-se a tais fronteiras terrenas (ver Hb 11:10, RV: "ele procurava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e construtor").



Ou a sua descendência. A promessa a Abraão em Gênesis 12:3, "em ti serão benditas todas as famílias da terra" repete-se em Gênesis 22:18 nesta forma: "nela" (em tua descendência) "serão benditas todas as nações da terra." Em Gálatas 3 Paulo junta as duas formas da promessa e mostra como a palavra "descendência" (ou "semente") na segunda for­ma, sendo um coletivo singular, pode referir-se primariamente a Cristo (versículo 16) e, por conseqüência, também ao povo de Cristo (versículo 29). O ponto de que trata aqui, qualquer que seja a forma da promessa que considerarmos, é no sentido de que sua validade não tem relação alguma com a lei (que veio séculos mais tarde, como consta em Gl 3:17), nem com a justiça que depende da guarda da lei.

14. Se os da leiê que são os herdeiros, anula-se a fé.

Porque a herança prometida a Abraão passaria a depender então de um novo princípio, dependente das obras e não da fé.

E cancela-se a promessa. Porque se o seu cumprimento depende da guarda da lei, o fato de os homens serem incapazes de guardar a lei as­segurará que a promessa de fato jamais será cumprida.

15. Porque a lei suscita a ira.

Isto é, a lei inevitavelmente impõe penas pelo fracasso em guardá-la.

Mas onde não há lei, também não há transgressão. Aqui, como em 5:13 ("o pecado não é levado em conta quando não há lei"), Paulo parece estar enunciando uma conhecida máxima legal (como a máxima romana: nulla poena sine lege).

16. Essa é a razão por que provém da fé, para que seja segundo a graça.


Concisa afirmação do princípio de que aquilo que Deus dá por Sua livre graça, pode ser apropriado pelos homens somente mediante a fé. Ao contrário, o que é obtido pelas obras (não pela fé) é dado por questão de mérito (não de graça).

17. Por pai de muitas nações te constituí.

Em Gênesis 17:5, o hebraico diz literalmente: "Fiz de ti pai de uma multidão ('ab hamon) de nações", onde a primeira parte de hamon ("multidão") está ligada à última sílaba do novo nome, Abraão ('abhraham).

Perante aquele no qual creu. Estas palavras estão logicamente li­gadas à frase do versículo 16 que diz: "a fim de que seja firme a promessa para toda a descendência" — i. e., "a fim de que a promessa seja válida para toda a posteridade espiritual de Abraão (quer judeus quer gentios por nascimento natural) diante de Deus, em quem Abraão pôs sua con­fiança".

O Deus que vivifica os mortos. Esta é a designação geral de Deus na devoção judaica, mas aqui é usada com especial referência ao "seu próprio corpo" (de Abraão) "amortecido (...) e à idade avançada de Sara" (versículo 19).

E chama à existência as cousas que não existem. (AV: "E chama aquelas coisas que não são como se fossem.") A referência aqui é às "muitas nações" que descenderam de Abraão. Não somente não exis­tiam ainda, mas (visto que Abraão e Sara já tinham atingido avançada idade, sem filhos), nada parecia menos provável do que virem elas a existir algum dia. !

18. Assim será a tua descendência.

Citação de Gênesis 15:5, onde Deus diz a Abraão (embora este ainda não tivesse filhos) que os seus descendentes serão inumeráveis como as estrelas.

19. Embora levasse em conta o seu próprio corpo amortecido.

(AV: "Não levou em conta seu próprio corpo amortecido." A pa­lavra "não" deve ser omitida como texto tardio e inferior.) A questão é que Abraão de fato levou em conta todos os fatores importantes, incluin­do sua avançada idade e a alta dose de improbabilidade — por todos os critérios naturais de avaliação — de que viesse a ter um filho agora, quando seu corpo estava "amortecido" (assim o mesmo particípio, nenekrõmenos, é traduzido em Hb 11:12, com respeito a esta mesma situação). Todavia, havendo considerado estes fatores todos, concluiu que a certeza da promessa divina sobrepujava toda e qualquer impro­babilidade natural.

25. O qual foi entregue por causa das nossas transgressões.

Ê possível que isto seja uma citação de alguma primitiva confissão de fé. A linguagem parece basear-se em Isaías 53. O verbo "entregar-se" neste sentido (paradidõmi) ocorre duas vezes na versão que a LXX apresenta daquele capítulo: em Isaías 53:6 "o Senhor o entregou (o Servo Sofredor) por nossos pecados", e em Isaías 53:12 "por causa dos pecados deles, ele (o Servo) foi entregue". (Esta última sentença desvia-se con­sideravelmente do texto hebraico: "e pelos transgressores intercedeu". Ver a nota sobre 8:34, p. 146.) E^ste emprego do verbo com rela­ção a Jesus ser entregue à morte sugere que quando é empregado em 1 Coríntios 11:23, na narrativa que Paulo faz da instituição da eucaristia, o sentido não é bem como o dado por AV e AA: "na noite em que foi traído" (a saber, por Judas), mas, antes, "em que foi entregue" (a saber, por Deus).

Também se pode estabelecer uma analogia entre esta frase e o Tar-gum de Jonatã sobre Isaías 53:5, em que achamos uma frase em ara-maiço ('thmesar ba'awayathana) que, isoladamente, poderia ser tra­duzida "ele foi entregue por nossas iniqüidades". Contudo, no Targum não é o Messias-Servo que é o sujeito da sentença, e, sim, o templo: O Messias-Servo "edificará o santuário que foi profanado por nossas trans­gressões e entregue por nossas iniqüidades".



E ressuscitou por causa da nossa justificação. A preposição "por" (AV) em ambas as frases traduz dia ("por causa de", como diz AA). Cristo foi "entregue" para expiar os pecados do Seu povo e foi ressus­citado pelo poder divino para garantir a sua justificação. (Longe de nós interpretar as duas frases grosseiramente, sugerindo que a ressurreição de Cristo nada tem a ver com a expiação dos pecados do Seu povo e que Sua morte nada tem a ver com a sua justificação. Esta idéia é elimina­da por 5:9.)

c. As bênçãos que acompanham a justificação: paz, alegria, esperança (5:1-11).

Tendo exposto o meio usado por Deus para justificar os pecadores, e tendo estabelecido isto com base no precedente veterotestamentário, Paulo agora enumera as bênçãos que se acumulam para aqueles cuja fé lhes foi imputada para justiça. A primeira delas é paz com Deus. Homens e mulheres anteriormente em estado de rebelião contra Ele, agora estão reconciliados com Ele pela morte de Cristo. Como Paulo diz noutra epís­tola, o propósito de Deus era reconciliar "consigo mesmo todas as cousas" mas, preeminentemente, era reconciliar consigo aqueles que eram "estranhos e inimigos" dele "no entendimento" — ou "no coração" (Cl 1:20-22). E que de fato a morte de Cristo realizou esta reconciliação é matéria de nítida experiência nas vidas de sucessivas gerações de crentes. A reconciliação é algo que Deus já efetuou mediante a morte de Cristo, e os homens são convidados a aceitá-la, a desfrutá-la, para estar em paz com Deus.

Esta paz traz consigo livre acesso a Deus. Os ex-rebeldes não são apenas perdoados no sentido de que sua merecida punição recebeu indul­to, mas são colocados num lugar em que desfrutam de alto favor de Deus — "esta graça na qual estamos firmes". É mediante Cristo que eles en­traram neste estado de graça, e é também por meio dele que se alegram "na esperança da glória de Deus". Paz e alegria são bênçãos gêmeas do Evangelho. Nas palavras de um velho pregador escocês, "paz é alegria em repouso; alegria é paz a dançar".

Três objetos da alegria são mencionados neste parágrafo. O primeiro é nossa esperança da glória de Deus. Acerca desta glória vindoura haverá mais coisas para considerar quando chegarmos ao capítulo 8. Mas a glória de Deus é o fim para o qual Ele criou o homem, e é por meio da obra redentora de Cristo que este fim será atingido. Enquanto Seu povo permanecer em corpos mortais, ela continuará sendo uma esperança. Mas é uma esperança segura, uma esperança em que há certeza de cum­primento, porque os que a nutrem já receberam a garantia da sua rea­lização no dom do Espírito Santo, que enche os seus corações do amor de Deus.

O segundo objeto da alegria é inesperado: "também nos gloriamos nas próprias tribulaçôes" (versículo 3). Se isto nos parece estranho, lem­bremo-nos de que no Novo Testamento as aflições são vistas como a ex­periência normal do cristão. Os apóstolos exortavam os conversos "mos­trando que, através de muitas tribulaçôes, nos importa entrar no reino de Deus" (At 14:22). E quando a tribulação os acompanhava, como normal­mente sucedia, não podiam queixar-se de que não foram prevenidos. Mas as aflições e tribulaçôes não eram somente consideradas como um traço inevitável da sorte do cristão. Eram vistas como uma característica do verdadeiro cristianismo: eram um sinal de que Deus considerava os que as suportavam como dignos do Seu reino (ver 2 Ts 1:5). Além disso, produziam efeito moral salutar naqueles que as sofriam, pois os aju­davam a cultivar caráter paciente e constante, e quando essa paciência e essa constância estavam ligadas à fé cristã, a esperança cristã era ainda mais incentivada.

Acima de tudo, os crentes aprendiam a regozijar-se no próprio Deus (versículo 11). A esperança da glória era uma jubilosa esperança, e os que a conheciam porque sofriam provações e perseguições podiam alegrar-se no meio dos seus problemas, e até mesmo por causa deles. Mas nenhuma alegria é comparável à alegria que se acha em Deus mesmo — a alegria daqueles que fazem ecoar as palavras do salmista: "Deus (...) é a minha grande alegria" (Sl 43:4).

E por que não alegrar-se em Deus? Seu povo foi reconciliado com Ele pela morte de Cristo, e experimenta diária libertação do mal median­te a vida do Cristo ressurreto, enquanto que o fim para o qual olha con­fiante não é mais o derramamento da ira divina, mas o desvendar da glória divina. E dà primeira à última, atribui suas bênçãos ao amor de Deus. Foi por causa desse amor que Cristo entregou Sua vida pelos Seus enquanto estes eram fracos, pecadores e completamente destituídos de atrativos. O amor votado por homens e mulheres levá-los-á a morrerem por aqueles que são objetos naturais desse amor, não porém por aqueles que não são amados nem atraem o seu amor. Contudo, aí é que o amor de Deus brilha com a maior refulgência: Deus confirma Seu amor por nós no fato de que Cristo morreu por nós quando estávamos ainda em estado de rebelião contra Ele. Tão completa é a união do Pai e do Filho, que o sacrifício de um pode ser apresentado como prova do amor do outro. Na verdade, no Novo Testamento inteiro a morte de Cristo é a manifestação suprema do amor de Deus: "Nisto consiste o amor", diz João, "não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou, e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados" (1 Jo 4:10). Que per­versão do caráter divino perpetram aqueles que às vezes falam como se Cristo tivesse morrido pelos homens para fazer com que Deus os amasse! Aqui e em toda parte se ensina que a morte de Cristo produziu mudança na relação entre Deus e o homem. Mas mudança nenhuma estava envol­vida na realidade do amor de Deus.

Então, alegria, paz e esperança — fruto do Espírito — marcam a vida daqueles que foram justificados pela fé em Deus. Cancelou-se o réu culposo do passado, assegura-se a glória do futuro, e aqui e agora a presença e o poder do Espírito de Deus asseguram ao cristão toda a graça de que necessita para suportar a provação, resistir ao mal, e a viver como convém a alguém que Deus declarou justo.

1. Temos paz com Deus.

(Assim AV, RVmg., RSV, AAmg.; ver NEBmg.). RV, RSVmg, e A A dizem: "tenhamos paz com Deus". A questão é qual das duas formas devemos seguir — o indicativo echomen ("temos") ou o subjuntivo echõmen ("tenhamos"). Ambas estão bem documentadas, mas é mais forte a documentação em favor do subjuntivo (que aparece em primeira mão não somente nos códices alexandrinos Aleph e B, mas também no códice D e na Versão Latina) do que em favor do indicativo (para o qual o texto de Aleph e B foi corrigido por anotação posterior e que aparece no códice ocidental G). A variação da redação pode retroceder a um pri­mitivo estágio da transmissão do texto, anterior à publicação do Corpus Paulinum (ver pp. 23s.). A substituição de uma forma pela outra seria facilitada pelo fato de que, com um acento tônico forte na primeira sílaba (como no grego moderno), a distinção entre a vogai longa e a breve na segunda sílaba tende a desaparecer, de modo que as duas formas teriam pronúncia quase idêntica. No curso do ditado, portanto, quem ditava podia pretender uma forma e o escriba escrever outra.13 Não pode haver dúvida de que "temos paz com Deus" cabe melhor no argumento de Paulo (ver vesículo 11, RV: "recebemos agora a reconciliação"; AA: "acabamos agora de receber a reconciliação). Todavia, em vista da evidência textual, podemos aceitar o subjuntivo se o entendemos no sen­tido dado por NEB: "continuemos em paz com Deus."14

2. Por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes.

RVmg., RSV e NEB omitem "pela fé", ausente de certo número de antigas autoridades orientais e ocidentais. Mesmo que não esteja ex­plícita esta expressão, está implícita (ver 11:20, "mediante a fé estás fir­me"). Ver também Efésios 2:18: "por ele, ambos (tanto os crentes judeus como os crentes gentios) temos acesso ao Pai em um Espírito." "Acesso" denota o privilégio de aproximar-se ou ser introduzido à presença de al­guém de alta posição, especialmente uma personagem real ou divina. Aqui Cristo é visto como introduzindo os crentes em seu novo estado de graça e de aceitação diante de Deus (ver Ef 3:12).

E nos gloriamos na esperança da glória de Deus, glória da qual fomos destituídos pelo pecado (3:23). O verbo "gloriar-se" aqui e no ver­sículo 3, em sua forma kauchõmetha, pode ser indicativo ("nos gloria­mos") ou subjuntivo ("gloriemo-nos").

5. A esperança não confunde.

AV: "não envergonha". Ver Isaías 28:16, LXX (citado em 9:33, 10:11): "Todo aquele que nele crê não será envergonhado." Uma es­perança que não se realiza deixa envergonhada a pessoa, mas a que se baseia na promessa de Deus tem seu cumprimento garantido.

O amor de Deus (i. e., o amor que Deus nos tem) é. derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado. Esta referên­cia à obra do Espírito Santo no crente antecipa o relato mais completo dado no capítulo 8. A presente obra do Espírito é o penhor daquela glória pela qual o crente espera.

6. A seu tempo.

Isto ê, no tempo da maior necessidade, quando nada senão Sua morte poderia ajudar.

Cristo morreu pelos ímpios. Isto explica o paradoxo de 4:5, de que Deus "justifica ao ímpio".

7, 8. Poderá ser que por um bom alguém se anime a morrer. Mas (...) enquanto éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós (AV).

"Um bom homem" é literalmente "o bom homem" (RV, AA), onde o artigo definido indica um tipo particular de homem. Há pouca distin­ção entre "justo" e "bom" neste versículo. "Bom" traduz agathos, e não chrêstos ("bondoso"). Alguns preferem entender "bom" como neutro aqui, como se se referisse a uma boa causa em vez de a um bom homem. O argumento geral de Paulo é bem claro: "mesmo por alguém que é justo ou bom, dificilmente você acharia alguém disposto a dar a vida — bem, pode ser que algumas pessoas chegassem ao ponto de fazer isso — mas o amor de Deus se vê em Cristo âarSua vida por aqueles que não eram nem justos nem bons, senão ímpios pecadores."

9. Sendo justificados pelo seu sangue.

Seu "sangue", como em 3:25, indica a entrega de Sua vida como sacrifício; "pelo seu sangue" aqui é sinônimo de "mediante a morte do seu Filho" no versículo 10. Seremos por ele salvos da ira. Ver 1 Tessalonicenses 1:10, onde Jesus é chamado "nosso Libertador da ira vindoura" (AA: "Jesus, que nos livra da ira vindoura"). Em ambas as passagens é provável que se tenha em vista a manifestação do juízo do fim dos tempos. Ver também 1 Tessa­lonicenses 5:9: "Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo." Os que foram declarados justos por Deus podem já alegrar-se por sua libertação da ira divina.

10. Nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho.

Ver Colossenses l:21s.: "E a vós outros também que outrora éreis estranhos e inimigos no entendimento pelas vossas obras malignas, agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte." A hostilidade e a alienação que precisam ser removidas estão no homem, não em Deus. É Ele que toma a iniciativa, com boa vontade, providenciando "a redenção que é em Cristo Jesus".

Muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida. Esta afirmação reaparece expandida em 6:18ss. "Sua vida" é a vida da Sua ressurreição.


  1. Por intermédio de quem acabamos agora de receber a reconciliação.
    AV: "Por quem recebemos agora a reconciliação" — "atonement", expiação. Aqui "atonement" é usado em seu sentido etimológico de "at-one-ment", tornar "em um", i. e., unir, reconciliar. Tyndale parece ter sido o primeiro a empregar "atonement" neste sentido teológico. Mas es­ta palavra inglesa não tem mais este sentido. Portanto, traduza-se "reconciliação" (com RV, RSV e NEB), que é o equivalente próprio de katallage. Onde se menciona a reconciliação no Novo Testamento, Deus ou Cristo é sempre o Reconciliador, e o homem é o objeto (ou está entre os objetos) da reconciliação. Deus "nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo", e os homens são solicitados a que se reconciliem "com Deus" (2 Co 5:18, 20). A situação pode ser comparada com a de um rei a proclamar anistia para súditos rebeldes, instados a aceitarem seu perdão gratuito enquanto lhes é estendido. A aversão de Deus pelo pecado não O torna inimigo dos pecadores nem O leva a procurar o seu mal. Seu desejo é "que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade" (lTm 2:4).

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