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d. A velha e a nova solidariedade (5:12-21)



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d. A velha e a nova solidariedade (5:12-21).

A representação de Cristo como o "último Adão", em contrapartida ao "primeiro Adão", é traço proeminente da cristologia de Paulo. Ela não lhe é peculiar dentre os escritores do Novo Testamento, e talvez não tenha sido produzida originariamente por ele, mas ele a desenvolve mais completamente do que qualquer outro, principalmente nesta seção de Romanos e em sua discussão da ressurreição em 1 Coríntios 15:22, 45-49.

A idéia do homem de Deus como aquele que cumpre o propósito de Deus é freqüente no Velho Testamento. Ê "o homem da tua mão direita, (...) o filho do homem que tornaste forte para ti", por cuja prosperidade e vitória se oferece oração no Salmo 80:17. Quando um homem falha na realização do propósito de Deus (como, de um modo ou de outro, todos fazem), Deus levanta outro para tomar-lhe o lugar — Josué para subs­tituir Moisés, Davi para substituir Saul, Eliseu para substituir Elias. Mas quem poderia tomar o lugar de Adão? Somente alguém que fosse capaz de desfazer os efeitos do pecado de Adão e de se fazer o iniciador de uma nova humanidade. A Bíblia — como também, na verdade, a história do mundo — sabe de um único homem que possui as necessárias qualifi­cações. Cristo (na tradução que Carlyle fez do hino de Lutero) se destaca como "o Homem Exato por Deus oferecido."

E aos que Ele colocou em reta relação com Deus, a velha solida­riedade do pecado e da morte, que tinham por sua associação com o primeiro Adão, abriu passo para uma nova solidariedade: a da justiça e da vida, pela associação com o "último Adão".

Paulo arremata seu argumento até aqui traçando um paralelo e uma antítese entre Adão e Cristo. Para ele, Adão é uma "figura" — contrapar­tida ou tipo — de Cristo. Como a morte entrou no mundo por meio da desobediência de Adão, assim a nova vida entra por meio da obediência de Cristo. Como o pecado de Adão envolve em culpa sua descendência, assim a justiça de Cristo é creditada em favor do Seu povo.

Para o apóstolo, Adão era sem dúvida um indivíduo histórico, o primeiro homem. Mas era mais: era o que seu nome significa em hebraico — "humanidade". A humanidade inteira é vista como tendo original­mente pecado em Adão. Na narrativa da queda, em Gênesis 3, "toda a história humana está comprimida". Seus incidentes são reeditados na vida da raça e, na verdade, em alguma extensão, na vida de cada membro da raça.

Paulo era inteiramente versado no conceito hebraico de persona­lidade corporificada e seu pensamento podia facilmente oscilar, por um lado, entre o primeiro Adão e a humanidade pecadora, e por outro lado, entre Cristo, "o segundo homem", e a comunidade dos redimidos. E com muita propriedade o faz. Nossa solidariedade com os nossos semelhantes é uma realidade que tendemos a negligenciar na afirmação da nossa in­dependência individual. "Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte do todo. Se um bloco de terra é arrastado pelas águas, o território fica diminuído, seja a Europa, ou um promontório ou a fazenda dos teus amigos. A morte de cada ser humano me diminui, porque estou envolvido na humanidade. Portanto, nunca mande perguntar por quem os sinos dobram: dobram por ti." As palavras de John Donne, muitas vezes citadas, expressam uma verdade permanente. Porque vivemos em corpos separados, in-clinamo-nos a pensar que todos os outros aspectos da nossa personali­dade são igualmente separados e encerrados em si, mas não é assim. Contudo, aqui se distinguem duas espécies diferentes de solidariedade. Uma nova criação veio à luz: a velha "solidariedade com Adão" no pecado e na morte rompeu-se para ser substituída pela nova "solida­riedade em Cristo" na graça e na vida. Todavia, o rompimento não se dá por um corte nítido e bem delineado. No presente, há um envoltório cobrindo ambas. "Assim como em Adão todos morrem" aplica-se, na es­fera física, aos crentes, do mesmo modo como "assim em Cristo todos viverão" se lhes aplica, enquajito durar esta vida mortal. Mas aqui e agora eles têm, de fato, a segurança de que, porquanto estão "em Cris­to", "viverão" verdadeiramente porque aqui e agora, mediante a fé nele, receberam de Deus aquela justificação que traz a vida como seu séquito. "Diante de Deus", dizia Thomas Goodwin que, no século dezessete, foi presidente do 'Magdalen College', em Oxford, "há dois homens — Adão e Jesus Cristo — e todos os outros homens estão pendurados nos cinturões deles dois."

A obediência de Cristo à qual o Seu povo deve sua justificação e sua esperança da vida eterna não deve ser tida como limitada à Sua morte. Sua morte é vista aqui como coroa e ponto culminante daquela "obediên­cia ativa" que caracterizou Sua vida durante todo o seu transcurso. Foi uma vida perfeitamente justa que Ele entregou à morte para o bem do Seu povo. A vida justa, em si, não teria satisfeito à necessidade humana, se não tivesse levado sua obediência até o ponto de sofrer a morte "e mor­te de cruz". Mas nem Sua morte teria satisfeito à necessidade humana, se a vida que Ele ofereceu não fosse perfeita. A linguagem empregada por Paulo aqui é um eco das palavras do "Cântico do Servo": "o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos (lit., "fará justos a muitos"), porque as iniqüidades deles levará sobre si" (Is 53:11).

Assim, se à queda de Adão colocou toda a sua posteridade sob o domínio da morte, a obediência de Cristo introduziu triunfalmente uma nova raça nos domínios da graça e da vida.

"Mas", dirá alguém, "em toda essa discussão acerca de Adão e Cristo, você não se esqueceu de Moisés? Onde é que ele entra? Não é cer­to que a introdução da lei entre Adão e Cristo significa que existem três eras, inauguradas respectivamente por Adão, Moisés e Cristo, e não apenas duas, inauguradas respectivamente por Adão e Cristo?"

"Não", diz Paulo. "A lei não tem significação permanente na his­tória da redenção. Ela foi introduzida como medida temporária para um propósito prático. O pecado esteve presente no mundo desde a queda de Adão, mas o propósito da lei era trazer o pecado à plena luz do dia, para que o pecado pudesse ser reconhecido mais claramente por aquilo que realmente é. Mais que isso: a lei de fato tinha como efeito o aumento do volume do pecado abertamente praticado no mundo. Não é apenas que na presença de leis específicas o pecado toma a forma de transgressões específicas daquelas leis; a presença da lei pode estimular positivamente o pecado, como uma proibição pode tentar as pessoas a fazerem o que é proibido, ao passo que podia ser que nunca tivessem pensado em fazê-lo se a sua atenção não fosse chamada para a ordem de proibição." Paulo aqui demonstra segura compreensão da natureza humana. Há algo substancialmente real na história da velha senhora que se opunha à recitação dos Dez Mandamentos na igreja "porque põem idéias demais na cabeça da gente".

Mas a lei não introduziu nenhum novo princípio na situação. Ela simplesmente revelou mais completamente o princípio do pecado que já estava presente. O Evangelho, por outro lado, introduziu um princípio totalmente novo — o princípio da graça de Deus. Por mais depressa que a operação da lei estimule o pecado e o faça crescer, mais depressa ainda a graça de Deus cresce e tira a carga do pecado acumulada.1S

12. Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte.

Este "um só homem" é Adão. A referência é à narrativa da queda em Gênesis 3. Ver Sabedoria 2:23s.:

"Deus criou o homem para a incorrupção,

e o fez à imagem da sua eternidade,

mas pela inveja do diabo a morte entrou no mundo

e os que pertencem ao partido dele a experimentam."

A mesma tecla é tocada pelo brado registrado em 2Esdras 7:118: "Ó Adão, que fizeste? Pois embora sejas tu quem pecou, a queda não foi só tua, mas também nossa, que somos teus descendentes." Caracteristi-camente, Ben Sirac tira uma lição moral misógina da narrativa: "O pecado começou com uma mulher, e por causa dela todos morremos" (Eclesiástico 25:24; ver p. 122). Entretanto, nenhum desses escritores vê coisa alguma da significação mais profunda da queda do homem agora desvendada por Paulo.

A morte passou a todos os homens porque todos pecaram. Traduza-se, com RSV: "e assim a morte se espalhou a todos os homens porque todos os homens pecaram" — pecaram, quer dizer, em Adão, e não sub­seqüentemente, imitando o pecado de Adão, que é o sentido das palavras de Romanos 3:23 (e confira o versículo 14, abaixo).16 A construção e o pensamento subjacente têm paralelo em 2 Coríntios 5:14 (RSV): "Um morreu por todos, logo todos morreram" — onde, contudo, está o efeito racial da morte de Cristo, não do pecado de Adão, que Paulo tem em vis­ta. Não é simplesmente porque Adão é o ancestral da humanidade que se diz que todos pecaram no pecado dele (doutra forma, poder-se-ia ar­gumentar que, uma vez que Abraão creu em Deus, todos os seus descen­dentes estão automaticamente envolvidos em sua fé17); é porque Adão é a humanidade. Embora a tradução da Vulgata de "porque" (grego eph'hõ) por "em quem" (latim in quo) possa ser uma tradução errônea, é interpretação certa.18

Paulo não conclui sua sentença com o termo "assim" para combinar com a expressão "assim como" do versículo 12. Sua referência à morte como propagada a todos os homens por causa do pecado, leva-o a in­troduzir o longo parêntese dos versículos 13-17, e quando termina, em vez de entrar com a frase principal esperada pelo leitor, repete a expres­são "assim como" do versículo 12 com palavras diferentes no versículo 18, e põe em seguida à nova expressão "assim como" a expressão "assim também", para contrabalançar. Uma apódose em termos correlativos à expressão "assim como" do versículo 12 poderia ser verbalizada mais ou menos assim: "assim também por um só homem o meio de justiça de Deus foi introduzido, e pela justiça a vida."

13. Até ao regime da lei havia pecado no mundo.

Uma vez que o pecado conseguiu entrada na família humana, seguiu-se a morte. A sentença passada contra Adão, "no dia em que dela co-meres, certamente morrerás" (Gn 2:17), foi executada em seus descen­dentes, embora — enquanto não foi dada a lei — não houvesse um man­damento positivo a ser transgredido, como havia para Adão.



Mas o pecado não é levado em conta quando não há lei. (Ver 4:15) Apesar disso, o pecado penetrava tudo, e tinha efeito mortal, mesmo na ausência de qualquer mandamento positivo incluindo penalidade. O pecado se manifesta na forma de transgressões específicas quando há mandamentos específicos sujeitos a serem transgredidos. A tradição judaica tardia considerava os mandamentos dados a Noé em Gênesis 9:1-7 como leis obrigatórias para todos os gentios, mas não sabemos se Paulo era dessa opinião.

14. O qualprefigurava aquele que havia de vir.

Isto é, Adão, o primeiro homem, é uma contrapartida ou "tipo" (tupos) de Cristo, que Paulo alhures chama de "o último Adão" e "o segundo homem" (1 Co 15:45, 47). É notável que o único personagem do Velho Testamento a ser chamado explicitamente de "tipo" de Cristo no Novo Testamento é Adão.19 E essa conexão é pertinente, ainda que a relação tipológica entre eles seja de contraste antes que de semelhança: no pensamento de Paulo, Cristo substitui o primeiro homem como o arquétipo e representante de uma nova humanidade:

15. Se pela ofensa de um só, morreram muitos, muito mais a graça de
Deus (...) foi abundante sobre muitos.

Por "muitos" a RV acertadamente traduz "os muitos" em ambas as frases (ver versículo 19), "os muitos" sendo a grande massa da huma­nidade (como o duplo "todos" em 1 Co 15:22). Ver também 11:32 (pp. 180s.). Uma inferência natural destas palavras é "que a graça ob­tida por Cristo pertence a maior número de pessoas do que a condenação contraída pelo primeiro homem". Esta colocação é de Calvino — a qual pode surpreender aqueles que imaginam que ele divisava os eleitos como constituindo uma pequena minoria. Calvino de fato sabia de alguns que viam os eleitos como minoria e que, por conseguinte, argumentavam que Paulo estava aqui "meramente debatendo um ponto", e achou que não havia como reprovar o argumento deles. Contudo, o raciocínio pessoal de Calvino foi "que, se a queda de Adão teve como efeito produzir a ruína de muitos, a graça de Deus é muito mais eficaz no benefício feito a muitos, desde que Cristo é, reconhecidamente, muito mais poderoso para salvar do que Adão o era para arruinar."

Na afirmação de que a graça de Deus foi mais abundante para "os muitos" (RV), a expressão "os muitos" é provavelmente um eco deli­berado de Isaías 53:11, onde o Servo do Senhor justifica "os muitos" (TM, LXX). Daí "os muitos" também se usa a modo de equilíbrio, na primeira parte do versículo, com referência àqueles que morreram em Adão. Compare-se também com a dupla ocorrência de "os muitos" no versículo 19 (RV), onde "por meio da obediência de um só muitos se tor­narão justos" é ainda com maior clareza uma repetição de Isaías 53:11.20

16. O dom, entretanto, não é como no caso em que somente um pecou.(...)

O livre dom não está na mesma escala em que está o efeito do pecado de Adão. Pela ação de um pecador, passou-se sentença de condenação. Mas o livre dom, dado depois de muitas repetições do primeiro pecado, tem origem na inversão que Deus faz do julgamento adverso e Sua con­cessão de um estado justo a muitos pecadores.

17. O dom da justiça, i. e., o dom da justificação, da justiça que Deus con­fere aos crentes.



Reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo. Quando reina a morte, os homens são suas desamparadas vítimas; quando Cristo reina, os homens partilham da vida da Sua ressurreição e da glória da Sua realeza (ver 8:17).

18. Por uma só ofensa (...) por um só ato de justiça.

(AV: "Pela ofensa de um (...) pelajustiçadeum.") RV faz tradução parecida com a de AA: "por um delito (...) porum ato de justiça." Isso é gramaticalmente permissível, como o é a tradução de AV, mas esta faz melhor paralelo com o versículo 19: "pela desobediência de um só ho­mem (...) por meio da obediência de um só." A "justiça de um" é es­tritamente o "ato de justiça de um" (dikaiõma,21 com sentido diferente daquele que tem no versículo 16), como contrastado com o "ato de trans­gressão (ou ofensa) de um". O "ato de justiça" é o ato de coroamento da obediência de Cristo durante toda a Sua vida (versículo 19), quando Ele entregou Sua vida.

Para a justificação que dá vida. Visto que Paulo empregou dikaiõma nesta sentença com o sentido de "ato de justiça", não o volta a empregar (como o fez no versículo 16) no sentido de "justificação", mas emprega dikaiõsis, que já tinha usado neste sentido em 4:25. "Justificação da vida" (AV) é justificação que leva à vida (ver AA) exatamente como a condenação leva à morte.

19. Como pela desobediência de um só homem muitos se tornaram


pecadores, assim também por meio da obediência de um só muitos se tor­
narão justos.

Em lugar de "muitos" leia-se "os muitos" (como se lê em RV e NEB); ver versículo 15. "Õ doce permuta, ó inescrutável criação, ó benefícios não procurados, que o pecado de muitos seja posto fora do al­cance da vista e seja lançado sobre um Homem Justo, e a justiça de um justifique muitos pecadores!" {Epístola a Diogneto IX. 5). Sua obediên­cia conseguiu mais do que Abraão jamais poderia ter conseguido; por Sua paixão e triunfo, conquistou o direito e o poder de fazer bater em retirada as forças cósmicas hostis — de "restabelecer a situação cós­mica", como o coloca C. K. Barrett22 — e assegurar ao Seu povo par­ticipação em Sua vitória.

20. Sobreveio a lei (pareiserchomai, "juntou-se a", RV; "introduziu-se neste processo", NEB) para que avultasse a ofensa. Ver Gálatas 3:17: "Qual, pois, a razão de ser da lei? Foi adicionada por causa das trans­gressões ("para tornar o delito em ofensa legal", NEB), até que viesse o descendente ("a semente", AV) a quem se fez a promessa." Neste sentido a lei é uma dispensação parentetica no transcurso dos procedimentos de Deus para com a humanidade.

Notas


  1. Horácio, Ars Poética, 191.

  2. Devo a citação de Lutero a T. R. Glover, Jesus in the Experience ofMen (1921), p.72.

  3. 3. VerE. K. Simpson, Words Worth Weighingin the Greek New Testament (1946), p. 8s. Na LXX este vocábulo e seus cognatos são usados muitas vezes referindo-se à redenção feita por alguém que está especialmente obrigado a fazê-lo devido a seu parentesco ou a al­guma relação semelhante, com a pessoa redimida — redenção feita por um go 'ei, para usar a palavra hebraica (e. g., Lv 25:47-49).

  4. Apostas(porepexegese. aposição). N. do Tradutor.

  5. Ver C. H. Dodd, ad loc.; também em The Bible and lhe Gn-eks (1935), p. 82ss.; para a defesa da tradução "propiciação", ver L. Morris, The Apostolic Preaching of lhe Cross (1955), p.l25ss.

  6. Ver a Nova Tradução de J. N. Darby: "a quem Deus propôs um assento da mise­ricórdia." Para ver um forte argumento em favor desta interpretação, consultar T. W. Manson, "Hilastêrion", JTS, XLVI (1945), p. lss. Ver também E. K. Simpson. Words Worth Weighing in the Greek New Teslament, p. lOss.; W. D. Davies, Paul and Rabbink Judaism (1948), p. 237ss. Contra esta interpretação, ver G. A. Deissmann, Encychpaedia Bíblica, 111(1902), eols. 3033-3035 (s. y. "Mercy Seat").

  7. R. St. J. Parry (Cambridge Greek Testament, 1912, adloc.) traduz assim a frase de Paulo: "justo até quando justifica aquele que tem fé em Jesus". R. V. G. Tasker aprova esta tradução porque expõe a tensão entre a justiça e a misericórdia de Deus envolvida no mis­tério da expiação ("The Doctrine of Justification by Faith in the Epistle to the Romans",EQ, XXIV, 1952, p. 37ss, principalmente p. 43s.).

  8. "So halten wir nun dafür, dass der Mensch gerecht werde ohne des Gesetzes Werke, allein durch den Glauben." Um uso de "fé" paralelo a este — com o sentido de "fé somen­te" — é fornecido por Diógenes Laércio em W, Bauer, Griechisch-Deutsches Worterbuchzu den Schriften des NTs$(Berlim, 1958), s. v.pistis.

  9. Ver a tradução de RVmg. e NEB em G12:16: "mas somente mediante a fé em Jesus Cristo". Ver p. 35 n. 17.

  10. Mesmo os prosélitos. que podiam considerar-se filhos adotivos de Abraão, não tinham permissão de chamar-lhe "nosso pai"; na liturgia da sinagoga eles chamavam os patriarcas de "seus pais", ao passo que os judeus de nascimento lhes chamavam "nossos pais".

  11. Treze anos depois do nascimento de Ismael (Gn 17:25; comparar 17:1. 24 com 16:16). E a seqüência da narrativa de Gênesis implica em que a concepção de Ismael (Gn16.3s.) foi a seqüela da promessa de Gn 15:4, de que Abraão teria um filho dele mesmo que seria seu herdeiro.

  12. Ver as palavras de Anselmo a Boso em Cur Deus Homo 1:21: "nondum consi-derasti quanti ponderis sit peccatum.

13. Este não é o único lugar em Romanos em que precisamente esta espécie de varian­te textual aparece, embora seja este o único lugar em que ela afeta substancialmente o sentido. Por exemplo, em 6:2 temos, contra o futuro do indicativo de zesomen ("viveremos?"),

como redação variante em muitos MSS o aoristo subjuntivozêsõmen ("hajamos de viver?").

14. Vera versão de J. B. Phillips; "captemos o fato de que temos paz com Deus".

15. Duas recentes monografias sobre Rm 5:12-21 são a de K. Barth, Christ and Adam (trad. inglesa, 1956) e a de J. Murray, The Imputation of Adam's Sin (Grand Rapids, 1959). O professor Murray dedica também o Apêndice D do seu comentário de Romanos, I (p. 384ss.) a uma hábil crítica a "Karl Barth sobre Romanos 5". Outra notável crítica da monografia de Barth, numa perspectativa bem distante da do prof. Murray, é o ensaio de R. Bultmann, "Adão e Cristo conforme Romanos 5", em Current Issues in New Testament Inlerprelalion, ed. W. Klassen e G. F. Snyder (1962), p. 143ss. Ver também as preleções Hewett, de G. K. Barrett, From Firsl Adam to Last: A Study in Pauline Theology (1962).



  1. A afirmação de 2 Baruque 54:19: "todo homem foi o Adão da sua própria alma",josto que interessante antecipação do ensino de Pelágio, não pode ser usada para ilustrar o argumento de Paulo aqui (ver, porém, p. 121).

  2. Verp.92.

  3. "Portanto, é melhor tomar o eph 'hõ (Velha Latina in quo) como expondo a velha solidariedade corporificada na culpa humana — 'todos pecaram em Adão' " (W. Mansonem New Testament Essays in Memory of T. W. Manson, p. 159).

  4. Ver Leslie C. Allen, "Isaías 53:11 e seus Ecos", em Vox Evangélica: Biblical and Hisiarkal Essays by Members ofthe Faculty ofLondon Bible College (1962), p. 24ss.

  5. Esta palavra é usada também em 1:32 (do justo juízo de Deus), em 2:26 e 8:4 (das justas exigências ou normas da lei), em 5:16 (da justificação).

  6. From First Adam to Last, p. 93.


4. O Meio para a Santidade (6:1-8:39).

a. Livres do pecado (6l-23).

(1) Objeção por hipótese (6:1, 2). "Bem", alguém poderia dizer, "se a graça foi mais abundante do que o pecado, por que não continuarmos pecando para dar à graça divina a oportunidade de se tornar abundante ao máximo?"

Esta não é uma objeção inteiramente hipotética pois, de fato, sem­pre tem havido gente que insiste em que este é o corolário do ensino de Paulo sobre a justificação pela fé. E desafortunadamente, em cada ge­ração, gente que se apresenta como justificada pela fé age de molde a em­prestar colorido àquela crítica. A obra "Private Memoris and Confessions of a Justified Sinner (1824), de James Hogg, dá-nos um notável exemplo literário desse antinomismo deliberado. Um notável exemplo histórico pode-se ver no monge russo Rasputin, o gênio mau da família Romanov em seus últimos anos de poder. Rasputin ensinava e exemplificava a doutrina da salvação mediante repetidas experiências de pecado e ar­rependimento. Sustentava que, como os que pecam mais requerem mais perdão, o pecador que continua a pecar despreocupadamente desfruta, cada vez que se arrepende, maior porção da graça perdoadora do que qualquer pecador comum. Os fichários de muitos curas da alma1 re­velariam que este ponto de vista é mais comum do que geralmente se per­cebe, mesmo quando não é expresso e praticado tão ruidosamente como o fazia Rasputin.

Alguns dos convertidos por meio de Paulo deranl-lhe muito motivo para preocupação precisamente sobre este ponto. Já era bastante ruim ver os seus oponentes teológicos fazendo falsa representação do seu Evan­gelho como sendo equivalente a "Pratiquemos inales para que venham bens" (3:8). A coisa era pior ainda quando os seus conversos se punham a agir como se o Evangelho lhes desse licença para fazerem o que bem en­tendessem. A correspondência de Paulo com os coríntios mostra quantos problemas os seus conversos lhe deram quanto a isso. Vê-se claramente que alguns deles imaginavam que as irregularidades sexuais, por exem­plo, eram questões de diminuta importância. Dos termos em que se dirige à igreja de Corinto, no sentido de que eliminasse da comunhão o homem que estava vivendo em união incestuosa, vê-se que alguns mem­bros da igreja, longe de expressarem qualquer desaprovação desse escan­daloso estado de coisas, achavam-no antes uma bela afirmação de liber­dade cristã (1 Co 5). Não admira que outros cristãos sustentassem que o único modo de inculcar os princípios de uma sadia moralidade em gente assim era exigir que guardassem a lei de Moisés — na verdade, impor-lhes a lei como condição de salvação, além e acima da exigência da fé em Cristo. Mas a experiência pessoal de Paulo lhe tinha ensinado que toda a guarda da lei do mundo não pôde trazer-lhe a segurança do perdão e a paz com Deus, ao passo que a fé em Cristo deu-lhe isso de uma vez. Jamais poderia considerar o legalismo como remédio para a libertina­gem. Sabia de um meio mais excelente. Quando um homem rendia sua vida ao Cristo ressurreto e ao poder do Seu Espírito, seu ser interior pas­sava por uma transformação radical, tomava lugar uma nova criação. Esse homem recebia uma nova natureza que se deleitava em produzir es­pontaneamente o fruto do Espírito, aquelas graças que só Cristo manifes­tava com perfeição. Para muita gente isso parecia impraticavelmente otimista (e assim parece a muitos ainda), mas Paulo confiava no Espírito de Cristo presente nos seus conversos e, afinal de contas, sua confiança foi justificada, embora tendo de suportar muitos desapontamentos desanimadores causados por seus filhos espirituais até que finalmente pudesse ver "Cristo formado" neles (Gl 4:19).

Na divisão da Epístola aos Romanos em que acabamos de entrar, vemo-lo expondo extensamente este ensino em réplica ao argumento de que realmente se deve continuar pecando para que a graça de Deus seja mais abundante.2

(2) O significado do batismo (6:3-14). "Quem quer que possa ar­gumentar deste jeito", diz Paulo, "mostra que não começou a compreen­der o Evangelho. A vida no pecado não pode coexistir com a morte para o pecado." Mas que se quer dizer por esta "morte para o pecado"?

"Ouçam", diz ele; "vocês não se lembram do que aconteceu quando foram batizados?" Desta e doutras referências ao batismo nos escritos de Paulo, é certo que ele não considerava o batismo como um "extra op-tatiyo" na vida cristã, e que não teria pensado no fenômeno de um "cren­te não batizado".3 Podemos concordar ou não com Paulo, mas devemos ser justos para com ele, deixando-o defender e ensinar suas próprias crenças, e não torcê-las para fazê-las amoldar-se àquilo que nós prefe­rimos que ele tivesse dito. (Isto se aplica a muitos outros assuntos, além da doutrina batismal de Paulo.)

Nos tempos apostólicos é claro que o batismo seguia-se imediata­mente à confissão de fé em Cristo. Os repetidos relatos de batismos em Atos dão-nos abundante prova disto. O incidente dos doze discípulos de Hfeso (At 19:1-7) é exceção que confirma a regra. Na verdade, a fé em Cristo e o batismo eram experiências não muito distintas entre si, como partes de um todo uno. No batismo, a fé em Cristo era elemento essencial pois, sem ela, a aplicação de água, mesmo acompanhada pelas palavras adequadas, não seria batismo.

Mas, que sucedia quando os crentes recebiam o batismo? Isto, diz Paulo: Sua vida anterior acabou-se; teve começo nova vida. Foram de fato "enterrados" com Cristo quando imergiram na água batismal, como sinal de que morreram no que concerne à sua vida antiga; ressuscitaram com Cristo quando saíram da água, como sinal de que receberam nova vida, que era nada menos do que a participação na vida da ressurreição de Cristo. "Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante?" Mas como podiam, se a vida que agora viviam, mesmo en­quanto ainda num corpo mortal, era a vida que passaram a ter pela união com o Cristo redivivo? A própria idéia era uma contradição em termos.

Entretanto, como funciona na prática? "Submetam-se a Deus", é o que Paulo diz; "apresentem a Ele os seus corpos como instrumentos para a execução da Sua vontade. Antes vocês eram escravos do pecado, mas suas velhas relações com o pecado foram rompidas — e rompidas irre-vogavelmente, pela morte. Que morte? Sua morte com Cristo. Agora que estão unidos a Ele pela fé, a morte dele passou a ser de vocês; o seu "velho ego" foi "crucificado" na cruz de Cristo. Como vocês, Cristo tinha que ver com o pecado. Tinha que ver com o pecado como Aquele que devia levá-lo sobre Si; vocês tinham que ver com o pecado como pecadores. Como portador dos pecados do Seu povo, Cristo morreu, mas agora Ele vive a vida da Sua ressurreição. Já não leva os pecados do Seu povo. Havendo morrido uma vez pelos pecados do Seu povo, ressuscitou dos mortos, e agora a morte não o pode tocar mais. Se vocês se considerarem como tendo morrido com Ele em Sua morte, e tendo ressuscitado com Ele em Sua ressurreição para uma nova vida, o pecado não mais terá domínio sobre vocês.

"Vocês vivem agora sob o regime da graça, e a graça não estimula o pecado, como o faz a lei. A graça os liberta do pecado e os capacita a triunfar sobre ele. Como, então, podem pensar em continuar pecando, justamente porque vivem sob o regime da graça e não da lei? Quem quer que fale desse modo não tem nem a mais remota suspeita de qual é o sig­nificado da graça divina."

3. Batizados em Cristo Jesus.

Ver Gálatas 3:27: "Todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes" (ou "vestistes", AV) — i. e., fostes incorporados nele, vos tornastes membros do Seu corpo (ver 1 Co 12:13), e assim, por vossa união com Ele pela fé, compartilhastes daquelas experiências que historicamente Lhe pertenciam, Sua crucificacão e sepultamento, Sua ressurreição e exaltação. Mais luz sobre a doutrina paulina do batismo é lançada por 1 Corintios 10:2, onde se diz que os israelitas, que saíam do Egito, foram "todos batizados, assim na nuvem, como no mar, com res­peito a Moisés". Portanto, o batismo sela o êxodo do crente, sua liber­tação da escravidão do pecado.

4. Sepultado com ele na morte pelo batismo.

Ver Colossenses 2:12: "sepultados juntamente com ele no batismo". O sepultamento sela a morte; assim o batismo do cristão é um sepul­tamento simbólico em que a velha ordem da vida chega ao fim, para ser substituída pela nova ordem da vida em Cristo.



Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai. "Glória" aqui é mais especialmente o poder glorioso de Deus — "a eficácia da for­ça do seu poder; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos" (Ef 1:19s.; ver Cl 2:12).

6. Foi crucificado com ele o nosso velho homem.

"O homem que outrora éramos foi crucificado com Cristo" (NEB). Esta "crucifbcão" não é uma experiência do presente, mas um aconte­cimento passado, expresso pelo tempo verbal aoristo, em grego. Os que estão unidos pela fé a Cristo são considerados como tendo sido crucifi­cados com Ele quando foi crucificado. Ver Gálatas 2:19, 20: "Estou crucificado (tempo perfeito, em grego) com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na car­ne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim." Semelhantemente, em Gálatas 6:14 Paulo fala da "cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado (verbo no perfeito) para mim, e eu para o mundo". Nestas duas passagens de Gálatas o tempo perfeito indica um estado presente produzido pelo acon­tecimento passado de 6:6. Além disso, em Gálatas 6:14 há provavelmente um olhar de relance num sentido alternativo do verbo "crucificar" {stauroõ), a saber, "cercar", "isolar". Deste modo, as palavras de Paulo podem também implicar em: "essa cruz constitui permanente barreira entre o mundo e mim, e entre mim e o mundo." Quanto ao "velho ho­mem", ver Colossenses 3:9 e Efésios 4:22 citados nap. 39. Ele pertence ao "mundo perverso" do qual a morte de Cristo livra o Seu povo (Gl 1:4, RS-V).

Para que o corpo do pecado seja destruído. "Para a destruição do ser pessoal pecaminoso" (NEB), i. e., para que a "carne", a natureza não regenerada com sua tendência para rebaixar-se, o "velho Adão", em que o pecado achava cúmplice fácil, ficasse inoperante. Este "corpo do pecado" é mais que uma questão individual; é, antes, aquela velha so­lidariedade no pecado e na morte de que todos participam "em Adão",mas que foi desfeita pela morte de Cristo, visando à criação da nova solidariedade na justiça e na vida, da qual todos os crentes se tornam partícipes "em Cristo". Não é o corpo humano, no sentido comum, que deve ser destruído ou posto fora de ação. O batismo não produz este efeito. Com a frase "corpo do pecado", compare-se "corpo desta morte" em 7:24 e "carne pecaminosa" em 8:3.

7. Quem morreu, justificado está do pecado.

(AV: "Aquele que está morto, está livre do pecado." Mas AA oferece tradução literal — tradução que aparece parafraseada em NEB: "um morto não é mais responsável por seu pecado". A morte paga todos os débitos, de sorte que o homem que morreu com Cristo vê apagado o seu registro na lousa, e está pronto para começar vida nova com Cristo, livre do vínculo com o passado.

10. De uma vez para sempre morreu para o pecado.

(AV: "morreu para o pecado uma vez".) Com AA, RVmg., RSV e NEB dizem: "de uma vez para sempre". A palavra grega é ephapax, em­pregada repetidamente em Hebreus para salientar o caráter final do sacrifício de Cristo. Em Sua morte, tratou do pecado eficaz e concluden-temente, obtendo uma vitória "que não requer segundo combate, e não deixa segundo adversário".

11. Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos


para Deus em Cristo Jesus.

Em outras palavras, vivam como se já tivessem entrado na vida da ressurreição. Esta "consideração" não é um exercício inútil, mas, sim, moralmente frutífero, porquanto o Espírito Santo veio tornar efetivo nos crentes aquilo que Cristo fez por eles, e capacitá-los a tornar-se na ex­periência diária — na medida do possível nas atuais condições de mor­talidade — o que já são "em Cristo" e o que virão a ser plenamente na vida resultante da ressurreição. Este é o assunto de 8:1-27.



Em Cristo Jesus. AV diz: "mediante Jesus Cristo, nosso Senhor". Leia-se, porém, simplesmente "em Cristo Jesus", como diz A A (a frase adicional "nosso Senhor" deve ter achado meio de chegar aí através de textos mais recentes, sob a influência de 5:21, 6:23).

12. De maneira que obedeçais às suas paixões.

AV: "Para que lhe obedeçais nas paixões daquele." Os textos mais bem documentados omitem "lhe ... nas". Ver 13:14.

14. O pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e, sim, da graça.

A lei exigia obediência, mas a graça dá poder para obedecer. Daí a graça rompe o domínio do pecado, coisa que a lei não era capaz de fazer. Verp.131.

(3) Analogia do mercado de escravos (6:15-23).

Paulo usa então a analogia do mercado de escravos para ilustrar o ponto que focaliza. Um escravo é obrigado a obedecer a seu amo. Mas há um ponto além do qual este não tem autoridade sobre aquele — e esse ponto é a morte. Quando o escravo está morto, seu amo poderá continuar dando ordens ao cadáver até ficar com a cara azul, mas o cadáver não lhe dará atenção. "Outrora", diz Paulo, "vocês eram escravos do pecado. O pecado era o seu senhor, e vocês eram forçados a fazer todas as coisas ruins que o pecado lhes ordenava; não tinham forças para dizer 'Não'. Mas agora que morreram, quanto à sua relação com o pecado, não precisam mais prestar atenção nas ordens do pecado.

"Ou, em outra colocação, o antigo dono do escravo não tem mais autoridade sobre ele, se passou a ser propriedade de outro. Foi o que lhes aconteceu. Vocês se transferiram do serviço que prestavam ao pecado para o serviço a Deus. Suas atividades agora consistem em fazer o que Deus quer, nào o que o pecado manda. Há grande diferença entre a es­pécie de coisas que farão como servos de Deus e a espécie de coisas que costumavam fazer como servos do pecado. E a diferença entre ambas as espécies de serviço nào é só de natureza; também é grande a diferença en­tre os fins dessas formas de serviço. O pecado paga salário aos seus servos e o salário é a morte. Deus nos dá, não salário, mas algo melhor e muito mais generoso: por Sua graça Ele dá a vida eterna como livre dom



  • a vida eterna que nos pertence por nossa união com Cristo."

Que achamos deste argumento? É uma ficção com pretensa base na lei, uma exortação a que nos impulsionemos uns aos outros para um novo começo, uma louvável resolução de que agiremos melhor no futuro? "Considerem-se mortos com relação ao pecado, mas vivos numa nova relação com Deus em virtude da sua incorporação em Cristo", diz o após­tolo (versículo 11). Trata-se apenas de boa disposição da vontade ou de um esforço da imaginação? Não, não é. É algo que comprovou sua realidade na vida de muitos, e estes não têm dificuldade para compreen­der o que Paulo quer dizer. Pois o Deus de quem ele fala é o Deus vivente, e quando os homens e mulheres se apresentam a Ele, para serem usados para o Seu serviço, Ele os aceita como Seus servos e lhes dá poder para fazerem a Sua vontade. O Cristo de quem Paulo fala é o Cristo que ver­dadeiramente morreu e ressuscitou, e que "destrói o poder do pecado cancelado" nas vidas daqueles que põem nele sua confiança.

15. Havemos de pecar porque não estamos debaixo da lei, e, sim, da graça ?

Este é o mesmo argumento antinomiano do versículo 1, com uma forma de linguagem ligeiramente diversa, sugerida pelo versículo 14. O homem que está "debaixo da graça" ê que participa da vida de Cristo. Assim como a vida de Cristo era e é caracterizada por espontânea e alegre obediência à vontade do Pai, assim a vida dos que estão "em Cristo" será caracterizada pela mesma obediência. "Ame a Deus e faça o que quiser" é máxima que, naqueles que têm o amor de Deus derramado em seus corações pelo Espírito Santo, só pode resultar em fazerem eles as coisas que agradam a Deus. Fazer do estar "debaixo da graça" uma des­culpa para pecar é sinal de que aquele que a usa não está realmente "debaixo da graça", de modo algum.

16. Desse mesmo a quem obedeceis sois servos.

"A quem" em inglês — "to whom" (AV) — é tradução ultra-literal do dativo grego. "Vocês são escravos do senhor a quem obedecem"

(NEB).


17. Mas graças a Deus porque, outrora escravos do pecado, contudo...

(AV: "Mas graças a Deus, que vós éreis servos do pecado, mas ..." Lendo-se esta redação em voz alta, a ênfase deve recair no verbo "éreis" — como se se dissesse: Graças a Deus que isso é agora uma coisa do pas­sado). É bom seguir a tradução de RV: "Mas graças a Deus que, ao passo que éreis servos do pecado, vos tornastes obedientes ..."



Viestes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes en­tregues. AV: "Obedecestes de coração à forma de doutrina que vos foi entregue." A "forma de doutrina" ou "padrão de ensino" (NEB) é provavelmente o sumário da ética cristã, fundamentado no ensino de Cristo, normalmente ministrado aos conversos na igreja primitiva para mostrar-lhes o modo de vida que daí por diante deviam seguir. É o corpo de ensinamentos que Paulo chama aqui e ali de "a tradição" ou "as tradições" (ver 1 Co 11:2; 2 Ts 2:15, 3:6) — sendo que o substantivo paradosis) é cognato do verbo traduzido por entregar (paradidõmi). .Pode-se inferir de vários sumários deste ensino nas epístolas que num período primitivo ele era organizado em forma catequética.4 Mas o "padrão de ensino" incorporava-se em Cristo mesmo, a quem eles agora pertenciam. (Ver também pp. 196s.)

18. Uma vez libertados do pecado.

Isto é, tendo sido libertados da tirania do pecado; não "justificados" do pecado como no versículo 7.

19. Falo como homem, por causa da fraqueza da vossa carne.

Isto é, estou usando uma analogia humana, ou um modo humano de falar (ver 1 Co 15:32) para socorrer a fraqueza do vosso entendimento (verp.39).

Da maldade para a maldade. Isto é, "para iniqüidade cada vez maior" (RSV).

20.Estáveis isentos (oüforros) em relação à justiça.

Isto é, o pecado, e não a justiça, era então o senhor deles.




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