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21. Cousas de que agora vos envergonhais; porque o fim delas é morte.

Ver 1:32 — "a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais cousas praticam."



22. Tendes o vosso fruto para a santificação.

"A recompensa que recebeis é a santificação" (RSV) — e este é, de fato, o assunto da presente seção da epístola (capítulos 6-8). Os que foram justificados estão agora sendo santificados; se um homem não está sendo santifiçado, não há razão para crer que foi justificado.



4. Livres da lei (7:1-25). (1) Analogia do casamento (7:1-6).

Podemos compreender bem a necessidade de sermos libertos do pecado, mas por que Paulo havia de estar tão preocupado com que nos libertássemos da lei? A lei é lei de Deus, proíbe o pecado, prescreve a jus­tiça. Mais que isso, os homens de Deus, do povo de Israel, em dias mais antigos, achavam que a lei era salvaguarda contra o pecado. "Grande paz têm os que amam a tua lei," diz um salmista; "para eles não há tropeço" (Sl 119:165). Outro podia dizer: "A lei do Senhor é perfeita, e restaura a alma" (Sl 19:7). AV diz: "... converte a alma".

Mas Paulo fala de modo diferente. Fala de sua própria experiência. Na lei de Deus propriamente dita ele não acha falta nenhuma: "a lei é santa; e o mandamento, santo ejustoe bom" (7:12). O que realmente está em falta é o conceito de religião como guarda da lei, a idéia de que pela penosa conformidade com um código de leis é possível adquirir mérito diante de Deus.

Quando Pedro, no Concilio de Jerusalém, descreveu a lei como "um jugo que nem nossos pais puderam suportar, nem nós", falava como típico membro das fileiras dos "soldados rasos" judeus, como um dos 'atnmê ha'ares. E estava pensando, provavelmente, não só na lei escrita, mas em sua ampliação oral transmitida mediante gerações de escribas. Desta tradição oral da lei diziam que Moisés a recebera no Sinai e "a entregou a Josué, Josué aos anciãos, os anciãos aos profetas, e os profetas aos 'homens da grande sinagoga' ". Simão, o Justo, um dos últimos sobreviventes da "grande sinagoga", entregou-a a Antígono de Soco, e depois deste foi entregue a quatro pares sucessivos de eruditos, cada um por vez, geração após geração, e depois foi recebida por Hillel e Shamai, fundadores das grandes escolas rabínicas que predominavam no tempo de Cristo e dos apóstolos.

Somente os que se dedicavam de todo o coração à guarda da lei, in­terpretada de acordo com "a tradição dos anciãos", tinham alguma es­perança de sucesso; mas para eles era uma verdadeira esperança. O jovem e rico advogado que disse a Jesus que tinha guardado todos os mandamentos desde os seus primeiros dias, não era mentiroso nem hipócrita (Lc 18:21). Quando Paulo, vinte e tantos anos depois de sua conversão, olha para trás, para sua anterior carreira de fariseu, e diz que fora "quanto à justiça que há na lei, irrepreensível" (Fp 3:6), fala em ter­mos de puro e simples fato. Contudo, ele encontrou em Cristo nova vida e novo poder, nova alegria e nova paz, tais como jamais conhecera, jun­tamente com uma "nova justiça" — "não (...) justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé" (Fp 3:9).

Mas nesta seção da Epístola aos Romanos ele nos fala mais clara­mente do que em nenhuma outra parte de como viu que a lei é inade­quada como meio para assegurar posição de justo diante de Deus. Eleja tinha feito alusão a isso antes: "pela lei", disse ele, "vem o pleno co­nhecimento do pecado" (3:20); "o pecado não terá domínio sobre vós", disse aos seus leitores cristãos, "pois não estais debaixo da lei, e, sim, da graça" (6:14). Mas o que é que o fato de não estarem debaixo da lei tinha de ver com sua liberdade do domínio do pecado? Se ele dissesse: "o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo do pecado..." poderíamos compreendê-lo mais facilmente, conquanto pudéssemos con­siderar tautológica a afirmação. Mas Paulo sabia o que queria dizer, e es­colheu com cuidado as palavras. Liberdade do pecado e liberdade da lei são coisas estreitamente interrelacionadas em sua experiência. Se no capítulo 6 ilustra a liberdade do pecado nos termos da relação entre um escravo e seu senhor, em 7:1-6 ilustra a liberdade da lei nos termos da relação entre uma esposa e seu esposo.

O casamento, diz ele, é uma relação que dura a vida inteira. Se durante a sua existência a mulher deixa o marido por outro homem, é es­tigmatizada como adúltera. Mas se ele morre, ela fica livre para tornar-se mulher de outro sem incorrer em má reputação. A morte desfaz o laço matrimonial — e a morte rompe a relação do homem com a lei. Quando Paulo aplica a analogia, tomamos consciência da situação inversa. O crente em Cristo é comparado com a esposa, e a lei é comparada com o marido, mas, ao passo que na ilustração foi o marido que morreu, na aplicação não é a lei que morre, mas o crente. O crente morreu com Cris­to — e todavia é ainda o crente que, não mais preso à lei, fica livre para unir-se a Cristo. Se, porém, colocarmos a coisa em termos mais simples, poderemos expressar de modo bem fácil o que Paulo quer dizer: como a morte desfaz o laço que une marido e mulher, assim a morte — a morte do crente com Cristo — desfaz o laço que o prendia ao jugo da lei, e agora está livre para entrar em união com Cristo. Sua anterior associação com a lei nào o ajudava a produzir os frutos da justiça, mas estes frutos são produzidos com abundância, agora que ele está unido a Cristo. O pecado e a morte foram o resultado de sua associação com a lei; ajustiça e a vida são o produto de sua nova associação; pois (como Paulo o coloca em outro lugar), "a letra mata, mas o espírito vivifica" (2 Co 3:6).

Tal atitude para com a lei deve ter parecido absurda a muitos dos seus leitores então (e tem parecido absurda a muitos dos seus leitores daquele tempo para cá). Mas Paulo prossegue em sua explicação à luz de sua própria experiência, e nos fornece um fragmento da sua autobio­grafia muitíssimo esclarecedor — parte no tempo pretérito, parte no presente.



  1. Falo aos que conhecem a lei.

Melhor, com NEB, "Estou falando aos que têm algum conhecimen­to da lei". É pouco importante para o presente estágio do argumento se a conheciam na forma da lei judaica ou da lei romana. Num ou noutro caso, o certo era que "uma pessoa está sujeita à lei enquanto está viva, e não depois disso" (NEB).

  1. A mulher casada está ligada pela lei ao marido, enquanto ele vive.

Em vez de "pela lei", é melhor ler (com RV, RSV, NEB) "por lei". Outra vez, a afirmação é verdadeira em termos gerais, quer se pense na lei judaica ou na romana.

A lei conjugai. AV: "A lei do seu marido". A lei (judaica ou romana) que ata a mulher ao seu marido e o torna seu senhor.

  1. Será considerada adúltera.

(Ver Mc 10:12.) O verbo grego usado aqui é o intransitivo chrê-matizõ, "ser publicamente conhecido como" (empregado em At 11:26 com relação ao fato de se dar o nome de "cristãos" aos discípulos de Jesus).

  1. Para pertencerdes a outro, a saber, aquele que ressuscitou dentre os mortos.

Desde que Cristo ressuscitou dentre os mortos, não morre mais (6:9). Portanto, esta nova relação matrimonial não será desfeita pela morte, como acontecia com a antiga.

E deste modo frutifiquemos para Deus. É um tanto forçado pensar que a metáfora do casamento está em prosseguimento aí, de modo que o "frutifiquemos" se refira a rebentos nascidos do novo casamento. O fruto, como o "fruto para a santificação" do versículo 22, é uma vida reta, caracterizada por aquelas "boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas" (Ef 2:10).

  1. Quando vivíamos segundo a carne.

AV: "Quando estávamos na carne." Quer dizer, quando ainda não éramos regenerados (ver p. 40).

As paixões pecaminosas postas em realce pela lei, operavam em nos­sos membros a fim de frutificarem para a morte. Isto é, "as paixões pecaminosas evocadas pela lei operavam em nossos corpos para darem fruto para a morte" (NEB). Como a lei pode evocar paixões pecaminosas transparece nos versículos 7-13. O fruto "para a morte" consiste da­quelas más obras cujo "fim" é morte, conforme 6:21.

  1. Agora, porém, libertados da lei, estamos mortos para aquilo a que es­távamos sujeitos.

AV: "Mas agora estamos libertados da lei, para que, sendo mortos naquilo pelo que estávamos retidos." Melhor: "... tendo morrido para aquilo pelo que estávamos retidos" (RV). Em virtude desta morte (morte com Cristo e morte para o pecado) é que fomos "libertados" (ou antes, para manter o sabor judicial da tradução da RV, fomos "desobrigados") da nossa antiga responsabilidade sob a lei.

Em novidade de espírito. Isto é, na vida nova que os crentes vivem "no Espírito". Quanto a esta frase, ver 8:9.

E não na caducidade da letra. A velha vida, a vida pré-cristã, para aqueles que, como Paulo, tinham sido criados como judeus praticantes, caracterizava-se pela submissão a um código externo. Mas agora o Es­pírito supre interiormente aquele princípio normativo que outrora a lei supria, e de modo imperfeito, exteriormente. Esta antítese entre "es­pírito" e "letra" aponta para a nova era como aquela na qual a nova aliança mencionada por Jeremias se concretiza (Jr 31:31ss.); Ver 8;4 (p. 131 e mais a p. 42 n. 14).

(2) O despertar da consciência (7:7-13).

Como então a lei se provou estímulo para pecar, na experiência pes­soal de Paulo?

Houve tempo, diz ele, em que não tinha nenhuma consciência do pecado. Nos seus primeiros tempos ele não conhecia bem a lei; levava uma vida livre de preocupação. Mas "sombras do cárcere começam a cerrar-se sobre o menino que cresce". Chegou o dia em que Paulo teve de assumir a obrigação de guardar a lei. A ocasião pode ter sido sua cerimônia de bar mitzwah,* ou o período imediatamente anterior ou pos­terior a ela. A obrigação de guardar a lei envolvia antes de tudo a obri­gação de saber e obedecer aos Dez Mandamentos. Ê matéria de co­nhecimento geral que as proibições tendem a despertar o desejo de fazer aquilo que é proibido. O fumante pode ignorar quanto deseja fumar até ver um letreiro que diz: "Não Fume".

Ali estavam, pois, os Dez Mandamentos, todos menos um carre­gados de proibição: "Não...". Paulo não se sentia grandemente tentado a cultuar uma imagem esculpida ou a cometer assassinato, adultério ou furto. O mandamento perturbador era o décimo, que se refere a uma atitude interior antes que a uma ação ou palavra exteriorizada. "Não cobiçarás" era a pedra de tropeço de Paulo. O mandamento em sua for­mulação veterotesstamentária específica certo número de objetos que o homem não deve cobiçar — a casa, a mulher, os servos, os animais, ou a propriedade do próximo em geral. Paulo não se sentia necessariamente impelido a cobiçar nada disso. O problema ia mais fundo. A cobiça em si é pecado; é na verdade um elemento básico na maioria das formas de pecado. Como Paulo o coloca em outro lugar (Cl 3:5), a cobiça não passa de idolatria. Pode ser um desejo ilícito; pode ser um desejo lícito em si, mas de tão egocêntrica intensidade que usurpa o lugar que somente Deus deve ocupar na alma humana.

"Assim", diz Paulo, "jamais eu teria vindo a saber o que é cobiça, senão pelo mandamento que diz: 'Não cobiçarás'. Mas esse mandamento proveu o pecado de uma cabeça de ponte da qual ele se lançou ao ataque contra mim, e como resultado fez com que nascessem em mim todas as espécies de cobiça. Sem a lei para movê-lo à vida, o pecado permaneceria adormecido; mas quando fiquei ciente da lei, o pecado saltou para a vida e me abateu. Aqui há de fato um paradoxo! A lei foi dada para que o homem a guardasse e vivesse; mas o que esta lei me trouxe foi a morte, não a vida."

Deve-se esclarecer que esta interpretação autobiográfica dos ver­sículos 7-13 (e também dos versículos subseqüentes) não conta com a .i aceitação geral hoje em dia, como antes. Um recente escritor fala dela como "relegada agora ao museu dos absurdos exegéticos". Mas é o modo mais natural de entender esta seção, e os argumentos contra ela não são concludentes. Paulo, naturalmente, não achava que sua experiência pes­soal era única; descreve-a aqui porque é verdadeira em maior ou menor grau com relação à raça humana. "Aqui a autobiografia de Paulo é a biografia de Todo-homem" (T. W. Manson). A cobiça, numa forma ou noutra, é comum à humanidade. E bem pode ser que aqui, como em 5:12ss., Paulo tem em mente a transgressão de Adão bem como a sua própria. A cobiça teve papel a desempenhar na queda de Adão. Quando Paulo fala do pecado como "enganando-o" ou "seduzindo-o" (versículo 11), somos levados a lembrar-nos da queixa de Eva em Gênesis 3:13: "A serpente me enganou e eu comi." Mas Paulo não teria feito de novo a narrativa da queda na primeira pessoa do singular se não a tivesse re­conhecido como autêntica descrição da sua própria experiência, como também da experiência da humanidade toda. Neste aspecto, pelo menos, ele reconhecia que era "o Adão da sua própria alma".'

7. Eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei.

Ver 3:20: "Pela lei vem o pleno conhecimento do pecado." Assim a função da lei é propedêutica. Revelando aos homens a sua pecamino-sidade e incapacidade, também lhes revela sua necessidade daquela libertação que somente a graça de Deus pode efetuar.

Não cobiçarás. (Êx 20:17; Dt 5:21.) É natural que os seres humanos queiram coisas. Quando chega a seu conhecimento que certas coisas por eles desejadas são-lhes proibidas por lei, a tendência é desejá-las muito mais, é pôr nelas o coração.

8. O pecado, tomando ocasião pelo mandamento.

Neste versículo e nos seguintes o pecado é personificado como um poderoso inimigo. A palavra traduzida por "ocasião" é aphormê, uma base para operações militares.

Despertou em mim toda sorte de concupiscência. "Concupiscência" aqui é simplesmente "cobiça" (RV, RSV). NEB diz: "toda espécie de maus desejos." C. K. Barrett mostra que a cobiça, quebra da lei, é a per­versão do amor, que é "o cumprimento da lei" (13:10).8

9. Outrora, sem a lei, eu vivia.

Adão não tinha consciência de nenhuma inclinação pecaminosa en­quanto sua obediência não foi submetida à prova pelo mandamento: "Não comerás". Mas Paulo compreende muito melhor a essência da narrativa da queda à luz de sua experiência pessoal.

Reviveu o pecado. Melhor: "O pecado surgiu para a vida" (NEB).

10. O mandamento que me fora para vida.

Referência a Levítico 18:5, citadoem 10:5(ver 2:13).



11. Enganou-me.

O verbo {exapataõ) é o mesmo usado em 2 Coríntios 11:3 ("a serpen­te enganou a Eva") e 1 Tm 2:14 ("a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão"); ver o verbo simples apatãõ em Gênesis 3:13, LXX. Mas o paralelo com a história da queda não deve ser acentuado em demasia, pois a doutrina de Paulo é de que a humanidade pecou "em Adão" e não em Eva, e em Gênesis 3, como se demonstra em 1 Timóteo 2:14, "não foi Adào que foi enganado" (NEB).

13. Acaso o bom se me tornou em morte?

Ver 2 Esdras1 9:36s.: "Pois nós que recebemos a lei e pecamos, pe­recemos, como também o nosso coração que a recebeu; contudo, a lei não perece, mas permanece em sua glória."



Pelo contrário, o pecado, para revelar-se como pecado, por meio de uma cousa boa, causou-me a morte. Isto é: não foi a lei, ordenada como foi para que o homem que lhe obedecesse vivesse por ela, que me trouxe para um estado de morte. A lei é boa; ela não poderia produzir este mau estado de coisas. Não. O vilão da peça é o pecado. O pecado agarrou a oportunidade que teve quando a lei me mostrou o que era certo e o que era errado, sem me dar poder para fazer o primeiro e evitar o último (poder que a lei jamais foi destinada a dar). O pecado forçou-me, contra o meu melhor juízo, a fazer o que a lei me mostrou que é errado, e assim me envolveu na condenação e na morte. E em conseqüência eu julguei, como doutro modo não teria feito, quão pecaminoso, quão contrário a Deus e à bondade, o pecado realmente é.

(3) O conflito interior (7:14-25).

Nesta seção Paulo continua falando na primeira pessoa do singular, mas deixa de usar o tempo pretérito e emprega o presente. Não só isso, mas aqui há uma tensão interior ausente dos versículos 7-13. Lá, o pe­cado o atacou de surpresa e o derrubou; aqui, ele opõe uma atroz resis­tência, mesmo que não consiga dobrar o inimigo. Lá, descreveu o que lhe sucedeu quando vivia nesta "era presente"; aqui, já chegou "a era por vir", embora a velha era não tenha terminado. Paulo é um homem que vive simultaneamente em dois planos, ardentemente ansioso por levar uma vida mantida no plano superior, mas tristemente ciente da força do pecado que nele habita e que persiste em empurrá-lo para baixo, para o plano inferior.

Numa preleção sobre a descrição que Paulo faz de si próprio como sendo "vendido sob o pecado", o Dr. Alexandre Whyte disse:

"Toda vez que meu atencioso livreiro me envia para exame outro novo comentário de Romanos, imediatamente o abro nocapítulo sete. Se o comentador exibe um homem de palha no ca­pítulo sete, imediatamente fecho o livro.

Devolvo-o de uma vez e digo: 'Não, obrigado. Esse homem não vale o meu dinheiro, ganho duramente.' "

Que é que ele queria dizer?

Isto: aquela aguda descrição que Paulo faz nos versículos 14-25 de alguém que ama a lei de Deus e deseja cumpri-la, mas é forçado por um poder mais forte do que ele a fazer coisas que detesta, não é um "ar­gumento abstrato, mas o eco da experiência pessoal de uma alma angus­tiada".9 Paulo mesmo sabe o que significa ser arrastado por um ca­minho pela lei de sua mente que aprova a vontade de.Deus, e por outro, pela lei do pecado e da morte.

O cristão vive, de fato, em dois mundos ao mesmo tempo, e em vista disso, vive num estado de tensão. Temporalmente, vive neste mundo; como homem de carne e ossos, está sujeito às condições da vida mortal; é "filho de Adão", como todos os seus companheiros de existência hu­mana, e com eles está sujeito à lei pela qual "em Adão todos morrem". Espiritualmente, porém,, passou da morte para a vida, do domínio das trevas para o reino da lu/.; participou da morte, do sepultamento e da res­surreição de Cristo, em que ressurgiu "para andar em novidade devida", como cidadão do novo mundo, membro da nova criação, já não mais "em Adão" mas "em Cristo".

Vai chegar o dia em que a presente ordem passará, quando uma nova era se estabelecerá em glória, e daí a tensão entre as duas eras será resolvida. Mas enquanto os cristãos vivem "entre os tempos", as palavras de Paulo noutra epístola mantêm sua plena significação: "a carne milita contra o Espírito, e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que porventura seja do vosso querer" (G15:17).10

Eis aqui, pois, o auto-retrato de um homem cônscio da presença e do poder do pecado em sua vida. Ê um tirano cujas ordens ele odeia e des­preza, mas contra cujo poder luta em vão. Quando se vê compelido por force majeure a obedecer aos ditames do tirano, não reconhece como seus os atos decorrentes; são totalmente opostos àquilo que ele quer fazer. O que ele deseja é praticar a lei de Deus. Deleita-se nela, reconhece que ela é "santa e justa e boa". Entretanto, por mais que deseje obedecer à lei de Deus, pelo poder maligno em seu interior é compelido a desobedecê-la. "Não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço."

Esta luta desigual contra "a lei do pecado que está nos meus mem­bros" (como lhe chama Paulo) tem sido a experiência real de tantos cristãos, que nío podemos afirmar confiantemente que Paulo não pode estar falando autobiograficamente aqui — e ainda no tempo verbal presente. Paulo pode rogar a seus amigos "pela mansidão e benignidade de Cristo" (2 Co 10:1); mas esta mansidão e benignidade vêm a ele naturalmente? Há boa razão para crer que um homem de zelo imperioso não achava coisa fácil "crucificar a carne" — para conseguir vitória sobre uma lín­gua precipitada, sobre um julgamento precoce, sobre um ressentimento causado por alguma intrusão na esfera do seu serviço apostólico. O homem que adotou como sua atividade diária disciplinar-se a fim de não ser desclassificado no concurso de santidade, o homem que prosseguia para o alvo da soberana, (ou ascensional) vocação de Deus em Cristo Jesus, sabia que por esse "prêmio imortal" teria de competir "não sem poeira e calor". Paulo dava-se tão constantemente a retratar o caminho da santidade como uma corrida para fazer, uma batalha para ser enfren­tada, que não nos é possível imaginar que a vitória lhe veio "de repente, num minuto".

Certo, mas a vitória lhe chegou. A presente passagem leva a um glorioso cântico de triunfo, embora comece com uma triste confissão de in­capacidade. A incapacidade persiste somente na medida em que "Eu mes­mo" — isto é, com minhas próprias forças — combato a batalha. Ao fazê-lo, diz o apóstolo, posso servir alei de Deus com o meu entendimento, mas o meu corpo pressurosamente continua prestando obediência à lei do pecado. Terei de experimentar sempre a derrota? Terei de levar sempre es­te pesadelo nas costas? Minha libertação não virá nunca? Graças a Deus virá, mediante Jesus Cristo nosso Senhor.u

14. Sou carnal, vendido à escravidão do pecado.

AV: "... vendido sob o pecado." A natureza que herdei "em Adão" acha incompatível a lei. A lei é "espiritual" porque é lei de Deus. Mas es­ta minha natureza não é espiritual (é "carnal", sarkinos), escravizada a um poder que a minha vontade repudia. Há algo no homem — mesmo no homem regenerado — que se opõe a Deus e procura ser independente dele. Este "algo" é o que Paulo aqui chama de "carne" (verificar o v. 18), presa da tirania do pecado que lhe é inerente. A frase "vendido à es­cravidão do pecado" é uma reminiscência de Sabedoria 1:4, onde se diz que a sabedoria não "habitará num corpo mantido como penhor pelo pecado" (RV).

15. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir.

AV: "Pois não consinto aquilo que faço." "Nem mesmo reconheço como sendo minhas as minhas próprias ações."



Pois não faço o que prefiro, e, sim, o que detesto. É costume citar como paralelos clássicos os seguintes ditos: quae nocuere sequor, fugiam quae profore credo, "Procuro as coisas que me fazem dano; fujo das que creio que me farão bem" (Horácio, Epístolas i. 8.11); video meliora proboque; deteriora sequor, "Vejo e aprovo a via melhor, mas sigo a pior" (frase de Ovídio, posta na boca de Medéia em Metamorfoses vii. 20s.); C. K. Barrett (ad loc.) anota um paralelo verbal ainda mais próximo que se acha em Epicteto, segundo o qual (ii. 26:4) o ladrão não faz o que deseja; mas Barrett também anota, e mui pertinentemente, que, nem Ovídio, nem Epicteto (nem Horácio, podemos acrescentar) dizem exatamente o que Paulo diz. Paulo tem dentro de si uma teste­munha independente, a voz da consciência (ver nota sobre 2:15, p. 75), a qual, condenando seu fracasso na guarda da lei, dá testemunho de que a lei é "santa, e justa, e boa".

17. 20. Quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim.

Mas tão logo minha consciência consinta nisso, já sou eu que o faço, muito embora não o fosse antes.

18. O querer o bem eslá em mim; não, porém, o efetuá-lo.

AV: "Está presente comigo o querer; mas não vejo como efetuar o bem." Acompanhe-se a redação de RV (semelhante à de AA): "Está presente comigo o querer, mas fazer o bem não está" (o texto mais bem documentado omite "vejo").

22. No tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus.

E portanto posso cantar: "Quanto amo a tua lei!" — e tudo mais que consta do Salmo 119. Todavia, não sou justificado por isso. O "homem interior" é o "novo homem" em Cristo que se renova de dia em dia, segundo a imagem do Criador (ver 2 Co 4:16; Cl 3:10).

23. A lei do pecado.

O princípio mau, a tirania do pecado na pessoa.

24. Desventurado homem que sou!

"Os crentes em Cristo são perfeitos quanto à sua justificação, mas a sua santificação apenas começou. Esta é uma obra progressiva. Quando creram em Cristo, sabiam muito pouco da fonte de corrupção que neles há. Quando Cristo se fez conhecido deles como seu Salvador, o Bem-amado de suas almas, a mente carnal parecia ter morrido, mas logo viram que não estava morta. Assim é que alguns vieram a experimentar mais aflições da alma depois da sua conversão do que quando foram des­pertados para o sentimento de sua condição de perdidos. "Desventurado homem que sou! quem me livrará do corpo desta morte?", é o clamor deles, até que sejam aperfeiçoados em santidade. Mas Aquele que co­meçou a boa obra neles a realizará até o dia de Jesus Cristo.'^

Quem me livram do corpo desta morte? Não faltam paralelos verbais desta exclamação na literatura clássica e alhures. Filo — discípulo mais fiel de Platão do que dos profetas — fala do corpo como "aquela com­posição de barro, aquela estátua modelada, aquela tão cerrada casa da alma que esta nunca põe de lado mas carrega como a um cadáver, do berço ao túmulo — que penosa carga!" (Da Agricultura, 25). Epicteto fala de si como "uma pobre alma algemada num cadáver" (fragmento 23). Alguns comentadores tentaram esclarecer as palavras de Paulo mediante referência ao relato que Virgílio fez do costume que Mezencio, rei dos etruscos, tinha de amarrar seus prisioneiros vivos em cadáveres em decomposição (Eneida viii, 485ss.). Mas Paulo não está pensando em corpo de carne e ossos; o mal estava arraigado mais profundamente. O "corpo desta morte", ou "este corpo da morte" (RSV), é, como "o corpo do pecado" (6:6), aquela herança da natureza humana sujeita à lei do pecado e da morte que ele compartilha com todos os filhos de Adão, aquela massa perditionis em que a velha criação, em sua totalidade, está envolvida, e da qual, por mais que queira e lute, não pode desembaraçar-se por seus próprios esforços.

25. Graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor.

É admirável encontrar esta expressão de arrebatamento triunfante mal saído o apóstolo do seu brado de angústia: "quem me livrará?" Eis a ta, porém: "Somente Deus, mediante Jesus Cristo nosso Senhor! Graças sejam dadasaDeus!" (NEB). Exatamente como esta libertação do pecado em nós pode ser conseguida, descreve-se de modo mais completo no ca­pítulo 8. Por ora, depois de sua breve indicação de que a situação não é desesperada, Paulo faz um retrospecto para resumir o dilema ético de 7:14-24.

De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne da lei do pecado. Não há por que con­siderar esta sentença como fora de lugar. Moffatt a coloca como um parêntese depois do versículo 23, dizendo que "parece ser sua posição original e lógica antes do clímax do versículo 24" — transposição que C. H. Dodd afirma que é "seguramente correta". G. Zuntz acha que "pode ser um acréscimo feito pelo próprio Paulo ou um resumo acrescentado por algum dos primeiros leitores; em qualquer forma, sua posição atual é imprópria e sugere que uma nota marginal foi inserida no texto" (The Text of the Epistles, p. 16). Contudo, a passagem aparece na posição atual em nossas mais antigas autoridades; e é um procedimento precário reordenar as palavras de Paulo no interesse de uma seqüência mais har­moniosa e lógica.

"Eu mesmo" (AV), autos egõ, é expressão enfática: sou "eu por mim mesmo" (AA "eu, de mim mesmo") que experimento esta derrota e frustração, mas "eu", como cristão, não sou deixado entregue a "mim mesmo": "a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus" veio habitar no meu ser interior, e Sua presença e poder fazem uma extraordinária diferença.

c. Livres da morte (8:1-39).

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