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(1) Vida no Espírito (8:1-17)



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(1) Vida no Espírito (8:1-17).

"A carne milita contra o Espírito, e o Espírito contra a carne, por­que são opostos entre si; para que não façais o que porventura seja do vosso querei" (AV: "... de modo que não podeis fazer as coisas que gos-taríeis de fazer"). Estas palavras de Gálatas 5:17 já foram citadas como um sumário da situação que Paulo descreve mais extensamente e em ter­mos mais vividos e pessoais em 7:14-25. Mas imediatamente antes dessas palavras ele tinha dito: "Andai no Espírito, e jamais satisfareis à con-cupiscencia da carne" (Gl 5:16). A réplica desta exortação jaz diante de nós em 8:1-17. Não foi feita menção alguma do Espírito Santo no ca­pítulo 7, mas Ele ocupa o capítulo 8, que descreve a vida vitoriosa e cheia de esperança vivida por aqueles que não andam "segundo a carne, mas segundo o Espírito (8:4), aqueles "Que estão em Cristo Jesus" (8í1).

Enquanto se esforçam por fazer a guerra a suas expensas, lutam numa batalha perdida. Quando utilizam os recursos de poder e vida que lhes pertencem "em Cristo", são mais que vencedores. Portanto, não há mais motivo para que aqueles que estão "em Cristo Jesus" devam con­tinuar levando uma vida de servidão, obrigados a pôr em execução os ditames da tirânica lei do pecado e da morte. Cristo habita neles por Seu Espírito, e Seu Espírito infunde neles um novo princípio — a lei da vida — que é mais forte do que a força do pecado neles, e os liberta da tirania deste.

Sob a velha ordem era simplesmente impossível fazer a vontade de Deus, e se a velha ordem ainda domina a vida dos homens, fazer a von­tade de Deus continua sendo uma impossibilidade. Mas aqueles cuja vida é dominada e dirigida pelo Espírito, que seguem os Seus impulsos, fazem de coração a vontade de Deus. O espírito deles, anteriormente morto e insensível, está agora imbuído da vida comunicada pelo Espírito de Deus. Seu corpo pode por algum tempo ainda estar sujeito à lei da morte que resulta da entrada do pecado no mundo. Mas a palavra final permanece com o Espírito da vida.

Pois não somente o Espírito mantém a vida e o poder no espírito dos crentes aqui e agora. Sua presença neles é prova de que seus corpos, ain­da sujeitos à mortalidade, ressurgirão para uma nova vida, como se deu com o corpo de Cristo. O corpo não está excluído dos benefícios da re­denção obtida por Cristo. Paulo já utilizara este fato num apelo dirigido aos membros da igreja de Corinto para considerarem os seus corpos e suas ações corporais com espírito de responsabilidade cristã: "fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo"13 (1 Co 6:20). Assim o apóstolo lembra que as notificações de uma imorta­lidade vindoura são conferidas pelo Espírito ainda neste período de mor­talidade: este é um dos muitos modos pelos quais a presença do Espírito neste tempo é as primicias de uma herança de glória que ainda está para concretizar-se. Se aqueles que continuam em conformidade com a velha ordem trazem dentro de si a sentença de morte, os que consideram a velha ordem como pertencente ao passado morto e seguem a orientação do Espírito de Deus têm a segurança de que a vida imortal já começou neles. Na verdade, o fato de que respondem positivamente à direção do Espírito de Deus é prova evidente de que são filhos de Deus.

Para o apóstolo Paulo, a direção do Espírito não é questão de impul­sos esporádicos, mas é a experiência habitual do crente em Cristo; é o próprio princípio de liberdade da vida cristã. "Se sois guiados pelo Es­pírito, não estais sob a lei." (Gl 5:18.) A velha escravidão da lei foi abolida; o Espírito introduz os crentes numa nova relação como filhos de Deus, nas­cidos livres. É o incentivo do Espírito que leva os cristãos a se dirigirem es­pontaneamente a Deus como seu Pai, usando a mesma expressão que Jesus usou ao falar com Deus como Seu Pai — expressão própria para a atmos­fera íntima da afeição familiar. Não admira que numa passagem parecida, em Gálatas, Paulo diga que "enviou Deus" aos corações do Seu povo "o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai" (Gl 4:6). Em outras palavras, eles receberam o mesmo Espírito que desceu com poder sobre Jesus quan­do este foi batizado (Mc 1:10), que O levou ao deserto (Mc 1:12), que Lhe deu energia para realizar Suas poderosas obras (Mt 12:28) e que deu alento a toda a Sua obra e ministério (Mc 1:8; Lc 4:14,18).

Assim o Espírito de Deus e o espírito do cristão testificam concor-demente o fato de que este é filho de Deus. Além disso, os filhos de Deus são Seus herdeiros — herdeiros daquela glória que pertence a Cristo por direito único, e que pela graça Ele comparte com Seus "irmãos" que, portanto, são co-herdeiros com Ele. Os que na presente vida experimen­tam a comunhão do Seu sofrimento podem aguardar a comunhão da Sua glória. "Sofrimento agora, glória depois", é o tema que ocorre repetidamente no Novo Testamento e corresponde às realidades da vida cristã primitiva. "Através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus", disseram Paulo e Barnabé aos que se converteram por meio deles no sul da Galácia (At 14:22), e a mesma exortação se repetia a cada nova comunidade cristã que se formava, e era logo confirmada pela experiên­cia. "Se sofremos, também reinaremos com ele" (2 Tm 2:12, AV), sig­nifica a reprodução nas vidas dos cristãos, do modelo perfeitamente exemplificado em seu Mestre e Senhor, que por divina necessidade pas­sou por sofrimentos, e assim entrou em Sua glória (Lc 24:26; 1 Pe 1:11, 5:1).

1. Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.

Se "condenação" fosse simplesmente o oposto de "justificação", Paulo estaria dizendo que aqueles que estão em Cristo Jesus estão jus­tificados; mas este estágio da argumentação foi alcançado em 3:21. A palavra katakrima não significa "provavelmente 'condenação', mas a punição que se segue à sentença" (Arndt-Gingrich) — em outras pa­lavras, "trabalhos forçados". Não há razão por que aqueles que estão "em Cristo Jesus" devam continuar fazendo trabalhos forçados penais, como se nunca tivessem sido perdoados e como se nunca tivessem sido libertados da prisão do pecado.

"Em Cristo Jesus" (ou "em Cristo" ou "no Senhor") é a descrição que Paulo faz da nova ordem na qual homens e mulheres são introdu­zidos pela fé em Cristo. O batismo cristão é batismo "em Cristo". Pela união com Cristo pela fé, Seu povo é visto como tendo morrido com Cris­to, tendo sido sepultados com Ele e como tendo ressuscitado com Ele. Não são mais eles que vivem, mas Cristo vive neles. A vida em comum no corpo de Cristo é a vida da ressurreição de Cristo partilhada com Seu povo. Se de um ponto de vista Ele vive neles, doutro eles vivem nele. O conceito veterotestamentário de "personalidade incorporada" estava ain­da vivo e prontamente utilizável para o pensamento e para a linguagem de um homem como Paulo. Nos termos desse conceito, não era difícil para sua mente mover-se para trás e para diante entre Cristo em Sua Pes­soa e Cristo como personalidade incorporada, abrangendo o Cristo agora exaltado à destra de Deus e Seu povo que participa da Sua vida. "Estar 'em Cristo' é ser membro da igreja; naturalmente, não é ter o nome nos róis, mas ser num sentido real um membro ou órgão do corpo de Cristo, dependente dele, submisso à Sua vontade, dedicado a Seus fins.14

O acréscimo que não andam segundo a carne, e o acréscimo ainda mais tardio mas segundo o Espírito (AV) não fazem parte do texto original do versículo 1 (ver RV, RSV, NEB, AA), mas foram introduzidos sob a influência do versículo 4, local que lhes cabe apropriadamente.

2. A lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te livrou.

AV: "... me fez livre." Comparar com 2Coríntios3:17: "onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade" e com Gálatas 5:13: "fostes cha­mados à liberdade". Neste passo, "Lei" provavelmente significa "prin­cípio" (ver p. 46). Ê a "lei do Espírito" em contraste com a "lei do pecado que está nos meus membros" (7s23); é a "lei da vida" em contras­te com a "lei da morte". Talvez seja melhor tomar os dois genitivos "do Espírito" e "da vida" como igualmente dependentes de "lei": a lei do Es­pírito e a lei da vida. O Espírito, "por Suas influências determinantes, produz ação dirigida sem o uso de nenhum código" ,15

à parte da menção antecipadora do Espírito em 5:5, onde se diz que Sua vinda inunda do amor de Deus os corações dos crentes (e da breve referência em 1:4 ao "espírito de santidade" em conexão com o fato de haver Cristo ressuscitado dos mortos), este é o primeiro lugar, nesta epís­tola, onde o Espírito de Deus penetra na argumentação. Não é acidental que, com Sua entrada, não se fale mais em fracasso. O conflito entre as duas naturezas prossegue, mas onde o Espírito Santo tem o domínio e a direção, a velha natureza é compelida a recuar.

A redação de AA ("te livrou"), em vez de "me fez livre" (AV), tem a seu favor umas 80 autoridades (inclusas as testemunhas orientais Aleph e B e a testemunha ocidental G), seguidas pelo texto de Nestle-Küpatrick. (NEB: "te libertou").

3. Em semelhança de carne pecaminosa.

Lit.: "Em semelhança de carne de pecado." As palavras foram es­colhidas cuidadosamente. "Em semelhança de carne" é expressão que, isoladamente, seria docética. A essência da mensagem apostólica é que o Filho de Deus veio "em carne", e não meramente "em semelhança de carne". Paulo podia ter dito simplesmente "em carne", mas quis salien­tar que a carne humana foi a esfera em que o pecado conquistou um pon­to de apoio e dominou a situação até aproximar-se a graça de Deus. Por isso não diz simplesmente "carne", mas "carne pecaminosa" ("carne de pecado"). Mas dizer que o Filho de Deus veio "em carne pecaminosa" implicaria em que havia pecado nele, ao passo que (como o coloca Paulo em outro lugar), Ele "não conheceu pecado" (2 Co 5:21). Daí é descrito como sendo enviado "em semelhança de carne pecaminosa".

No tocante ao pecado. AV: "pelo pecado". Grego: peri hamartias ("pelo pecado") é a frase normalmente usada na LXX para traduzir o hebraico hatta'th, "oferta pelo pecado",'6 e essa é sua força aqui. Daí RV acertadamente traduz: "como oferta pelo pecado" (ver NEB: "como sacrifício pelo pecado"). Esta é provavelmente a significação dominante de "pecado" também em 2 Coríntios 5:21, onde se diz que Cristo foi feito "pecado por nós" (embora aqui se use o simples substantivo harmartia, e não a expressão peri hamartias, usada em 8:3).

Condenou Deus, na carne, o pecado. Isto é, na carne de Cristo, em Sua natureza humana, foi dada a sentença sobre o pecado, e foi exe­cutada. Portanto, para os que estão unidos a Cristo, o poder do pecado foi destruído (ver 6:6s.).

4. Afim de que o preceito daleise cumprisse em nós.

AV: "Para que a justiça da lei ..." A "justa exigência" da lei é re­sumida em 13:9 no mandamento único: "Amarás ao teu próximo como a ti mesmo." A palavra grega é dikaioma, usada aqui, como em 2:26 (quanto a outros sentidos, ver p. 108, n. 21.). Temos aqui o cumprimento da profecia de Jeremias sobre a nova aliança (citada parcial­mente em 11:27), sob a qual, disse Deus: "Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles" (Jr 31:33s.). Ver a profecia paralela, em Ezequiel 36:26s., onde Deus diz: "Dar-vos-ei coração novo, e porei dentro em vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro em vós o meu Es­pírito, e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis." Os escritores do Novo Testamento reconhecem no Evangelho o cumprimento dessas profecias antigas.

A santidade cristã não consiste de penosa conformidade com pre­ceitos particulares de um código externo de leis. Ê antes uma questão de o Espírito Santo produzir Seu fruto na vida do crente, reproduzindo aquelas graças que só se viram com perfeição na vida de Cristo. A lei prescrevia uma vida de santidade, mas era incapaz de produzir tal vida, porque o material humano no qual tinha de trabalhar era inadequado. Porém, o que a lei foi impotente para fazer, Deus fez. Agora que o próprio Filho de Deus, enviado à terra "em semelhança de carne pe­caminosa", entregou Sua vida como oferta pelo pecado em benefício do Seu povo, o pecado recebeu sentença de morte. Não achou onde firmar os pés na vida de Jesus; foi efetivamente vencido em Sua morte; e os frutos daquela vitória se fizeram bons, agora, para todos quantos estão "nele" ("em Cristo"). Tudo o que a lei exigia com vistas à conformidade com a vontade de Deus, realiza-se agora nas vidas daqueles que são dominados e dirigidos pelo Espírito Santo, e são libertados da escravidão da velha ordem. Os mandamentos de Deus transformaram-se em meios divinos para capacitar os crentes.

"Laborar e correr me manda a lei,

contudo, não me dá nem pés nem mãos.

Mas o Evangelho traz melhores novas.

Convida-me a voar, e asas me dá."

"A graça foi dada", diz Agostinho, "para.que se cumprisse a lei."17

"Somente depois que a nova criação veio à luz, pela morte e res­surreição de Cristo, é que se tornou possível a Deus enviar o Espírito do Seu Filho aos corações dos homens perdidos e desamparados; e com o Espírito vieram vida, liberdade e poder. Os que vivem pelo Espírito, como Paulo diz, produzem os frutos do Espírito. A videira não produz uvas por um decreto do governo; elas são o fruto da vida da videira; assim a conduta que se harmoniza com o padrão do Reino não é produzida por nenhuma exigência, nem mesmo de Deus, mas é o fruto daquela natureza divina que Deus dá como resultado daquilo que Ele fez em Cristo e por meio de Cristo."18



Que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Ver Gálatas 5:25: "Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito" (também Gl 5:16, citado na p. 127). À primeira vista é difícil decidir se "espírito" (pneuma) deve receber inicial maiúscula ou não, aqui. Quando se usa "espírito" em contraste com "carne", podia ser natural supor que a referência é ao espírito humano. Todavia, no ar­gumento subseqüente a palavra claramente se refere com tanta freqüên­cia ao Espírito de Deus, que é melhor tomá-la como se referindo a Ele sempre (mesmo quando aparece em antítese com "carne", como acon­tece aqui e no versículo 9), exceto quando o contexto elimina este sig­nificado. O espírito humano não é excluído, porém, onde se deve com­preender a palavra como designativo do Espírito divino. Para o apóstolo Paulo, o espírito humano está adormecido ou morto enquanto não é trazido à vida pelo Espírito de Deus. Daí, andar "segundo o pneuma" implica na ação do espírito humano em resposta à orientação do Espírito divino.

5. Os que se inclinam para a carne cogitam das cousas da carne; mas os


que se inclinam para o Espírito, das cousas do Espírito.

AV: "Os que andam segundo a carne, atendem às coisas da carne; mas os que andam segundo o Espírito, às coisas do Espírito." Ver Gálatas 5:17 (citado nas pp. 123-127).

6. O pendor da carne (...) o do Espírito.

Lit., "A mente da carne (...) a mente do espírito." Compare-se com a antítese que se acha em Gálatas 5:19ss. entre "as obras da carne" e "o fruto do Espírito".

9. Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.

"Se um homem não possui o Espírito de Cristo, não é cristão" (NEB). Visto que somente o Espírito coloca os homens em viva relação com Cristo, não pode haver tal relação com Cristo independentemente do Espírito.

10. Se, porém. Cristo está em vós, o corpo, na verdade, esta morto por
causa do pecado.

É melhor traduzir a sentença que começa com "o corpo, na ver­dade" como sentença subordinada. A verdadeira apódose da oração con­dicional "se, porém, Cristo está em vós" é "o espírito (AV: "o Espírito) é vida por causa da justiça". Ver RSV, NEB. Esta versão traduz: "Mas se Cristo habita em vocês, então, conquanto o corpo seja uma coisa morta porque vocês pecaram, o espírito é vida porque vocês foram justificados." "O corpo (...) está morto" no sentido de que é "mortal", "sujeito à mor­te."



Mas o espírito é vida por causa da justiça. Trata-se do Espírito de Deus (AV) ou do espírito humano do crente (RV, RSV, NEB, AA)? A afirmação é verdadeira, seja qual for a interpretação escolhida, mas Paulo queria referir-se a um deles, qual? Em vista do sentido depneuma nos versículos imediatamente anteriores e seguintes, provavelmente se referia ao Espírito de Deus. Portanto, podemos parafrasear assim a sua afirmação: "Se Cristo habita em vocês, então, embora o seu corpo esteja ainda sujeito àquela morte temporal que é conseqüência do pecado, o Es­pírito que fez morada em vocês, o Espírito vivo e vivificante, dá-lhes aquela vida eterna que é conseqüência da justificação" (ver 5:18: "jus­tificação que dá vida"; AV: "justificação da vida").

11. Esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos, vivi-


ficará também os vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito que em
vós habita.

Ver 1 Coríntios 6:14; 2 Coríntios 4:14; 1 Tessalonicenses 4:14, onde a ressurreição dos crentes é semelhantemente feita dependente da ressurreição de Cristo (ver nota sobre 1:4, p. 60s.). Aqui, contudo, a relação do Espírito com a ressurreição é salientada como não o é naquelas pas­sagens anteriores. Ver, porém, 2 Coríntios 5:5: "Foi o próprio Deus quem nos preparou para isto (o revestimento do corpo celestial), outorgando-nos o penhor do Espírito.



  1. Se pelo Espírito mortificardes os feitos do corpo.
    "Mortificardes" é equivalente a "considerai-vos mortos" (6:11). Ao

passo que em 6:11 os crentes são exortados a se considerarem mortos com relação ao pecado, aqui se lhes diz que considerem as suas práticas pecaminosas anteriores como mortas com relação a eles próprios (ver também Cl 3:5s.). Podemos comparar isto com Gálatas 5:24: "Os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupis-cências", e com o linguajar mais vigoroso de nosso Senhor sobre arran­car o olhoe cortara mão ou o pé que leva a pessoa a pecar (Mt 5:29s.; Mc 9:43ss.).

  1. Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.
    Ver Gálatas 5:18: "Se sois guiados pelo Espírito, não estais sob a

lei." Em Gálatas 3:23-4:7 Paulo contrasta a anterior servidão de escravos ("sob a tutela da lei") com a nova liberdade de filhos, a cujos corações Deus enviou "o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai".

  1. Não recebestes o espírito de escravidão para viverdes outra vez
    atemorizados, mas recehestes o espírito de adoção.


AV: "... o Espírito de adoção." Comparar com 1 Coríntios 2:12: "Nós não temos recebido o espírito do mundo, e, sim, o Espírito que vem de Deus" (AV: "... o espírito queé de Deus"); 2Timóteo 1:7: "Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de mode­ração." "Eis aí uma bela cadeia de versículos que refletem experiência, todos amoldados na mesma forma, construídos segundo o mesmo modelo, primeiro com os elementos negativos, depois com os positivos; de um lado, escravidão, mundanismo e medo; de outro lado, filiação, dons espirituais, poder, amor, e senso comum santifiçado."19

O Espírito de adoção (AV) é assim chamado porque os que são guiados pelo Espírito de Deus é que são filhos de Deus (versículo 14). "O Espírito de adoção" ou de filiação (huiothesia) ê, em outras palavras, o Espírito que torna os crentes filhos de Deus e os capacita a chamarem a Deus seu Pai. Em Gálatas 4:6 eles são capacitados a fazê-lo pelo "Es­pírito de seu Filho", pois quando os crentes se dirigem a Deus usando o mesmo nome usado por Jesus, é evidente que Seu Espírito está neles agora. O termo "adoção" pode soar com certo artificialismo aos nossos ouvidos. Mas no primeiro século A. D., um filho adotivo era um filho es­colhido deliberadamente por seu pai adotivo para perpetuar seu nome e herdar seus bens. Sua condição não era nem um pouco inferior à de um filho segundo as leis comuns da natureza, e bem podia desfrutar da afeição paterna o mais completamente e reproduzir o mais dignamente a per­sonalidade do pai.

Aba, Pai. Esta frase ocorre em outros dois lugares do Novo Tes­tamento — em Marcos 14:36 e Gálatas 4:6 (ver notas logo acima, pp. 128-134). Em grego é Abba, ho pater, em que ho pater ("o Pai") sim­plesmente indica o significado da palavra não-grega Abba. Abba é palavra aramaica (no "estado enfático") que veio a ser usada pelos judeus (e até hoje é usada pelas famílias que falam o hebraico) como o termo familiar com o qual os filhos se dirigem ao seu pai. Marcos 14:36 apresenta Jesus fazendo uso desse termo na oração que fez no Getsêmani. A importância disto jaz no fato de que Abba não era, e não é, o termo usado pelos judeus ao se dirigirem a Deus como seu Pai. Mas o fato de que esta palavra aramaica se introduziu no vocabulário litúrgico das igrejas gentílicas indica enfaticamente que ela era usada desse modo por Jesus, e Marcos 14:36 o confirma. Há boa base para supor também que, quando Jesus ensinou Seus discípulos a começarem suas orações com: "Pai, santificado seja o teu nome" (RV, AA), a palavra que usou para "Pai" foi Abba. Isto explica suficientemente a passagem do termo aramaico para o uso dos cristãos de língua grega.

Sobre Abba, Pai diz Lutero: "Esta é uma palavra tão pequenina, e no entanto abrange todas as coisas. A boca não fala assim, mas o afeto do coração fala desse modo. Ainda que eu seja oprimido pela angústia e terror de todo lado, e pareça estar abandonado e ter sido totalmente ex­pulso da Tua presença, contudo sou Teu filho, e Tu és meu Pai, por amor de Cristo: sou amado por causa do Amado. Por conseguinte, esta pe­quena palavra, Pai, concebida efetivamente no coração, sobrepuja toda a eloqüência de Demóstenes, de Cícero, e dos mais eloqüentes retóricos que já houve no mundo. Esta matéria não se expressa com palavras, mas com gemidos, gemidos que não podem ser proferidos com palavras ou com oratória, pois nenhuma língua os pode expressar" (sobre Gl 4:6, tra­dução de Middleton).

16. Filhos de Deus.

A palavra aqui é tekna, "crianças", e não huioi, "filhos" como no versículo 14. Mas o curso da argumentação esclarece perfeitamente que Paulo está usando os dois substantivos, um pelo outro. Em Gálatas 3:23-4:7 ele, na verdade, faz distinção entre o período da infância, quando os seus leitores estavam sob a tutela da lei, e a obtenção do seu estado de responsabilidade como filhos (huioi) de Deus, agora que foi introduzido o Evangelho. Mas seu estado anterior é classificado com o termo nêpioi ("bebês"), e não tekna ("crianças")- Em parte alguma do Novo Tes­tamento se pode fazer distinção válida entre ser "crianças {tekna) de Deus" e ser "filhos (huioi) de Deus". Nos escritos joaninos esta relação é sempre comunicada pela palavra tekna (ver Jo 1:12; 1 Jo 3:ls.), reservan-do-se a palavra huios para Cristo como o Filho de Deus.

17. Ora, se somos filhos, somos também herdeiros.

Ver Gálatas 4:7: "De sorte que já não és escravo (grego doutos, "es­cravo"), porém filho; e, sendo filho, também herdeiro por Deus." (AV: "... herdeiro de Deus mediante Cristo.") "A crise daquilo que é deno­minado conversão de João Wesley veio quando, em suas próprias pa­lavras, 'trocou a fé própria de servo pela de filho' ".20

Herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo. São co-herdeiros com Cristo porque a glória que herdarão pela graça é a glória que de direito Lhe pertence (ver Jo 17:22-24).

Se com ele sofrermos, para que também com ele sejamos glorifi-cados. O sofrimento é o necessário prelúdio da glória. Assim, quando Paulo diz (2 Co 4:16) que "mesmo que o nosso homem exterior se cor­rompa (AV: "pereça"), contudo o nosso homem interior se renova de dia em dia", ele quer dizer que as mesmas aflições e privações que destroem o "homem exterior" constituem o meio que o Espírito de Deus emprega para renovar o "homem interior" mais e mais, até que por fim o "homem exterior" desaparece completamente e o "homem interior" se forma plenamente segundo a imagem de Cristo. Ver 2 Coríntios 4:10: "Levando sempre no corpo o morrer de Jesus para que também a sua vida se ma­nifeste em nosso corpo."




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