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(2) A glória por vir (8:18-30).

Mas a glória vindoura sobrepuja em muito a aflição do presente. A aflição é leve, temporária, comparada com a suprema e eterna glória. Deste modo Paulo, escrevendo contra um fundo de tribulação recente e (mesmo para ele) sem paralelo, tinha garantido a seus amigos de Corinto um ano ou dois antes, que "a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso21 de glória, acima de toda comparação" (2 Co 4:17). Não significa apenas que a glória é uma compensação para o sofrimento; mas ela de fato evolve do sofrimento. Há uma relação orgânica entre ambos para o crente em Cristo, tão certamente como houve para o seu Senhor.

Quando o dia de glória raiar, aquela glória se manifestará em escala universal no povo de Deus, o corpo de Cristo glorificado. Algo da glória é já visível: Paulo em outra parte vê um esplendor especial na igreja como a comunhão dos reconciliados, e pensa nela como sendo mostrada mesmo no tempo presente a seres celestiais como a obra-prima da reconciliação realizada por Deus: "Para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida agora dos principados e potestades nos lugares celestiais" (Ef 3:10). Mas aquilo que agora se vê de modo limitado e dis­torcido, se verá com perfeição quando o povo de Deus afinal atingir a meta que Ele sempre tivera em vista para os Seus — completa confor­midade com o Seu Filho glorificado.

Mas não são somente os cristãos que têm çsta esperança da glória. Toda a criação, diz Paulo, espera com ardente ansiedade pelo dia em que os filhos de Deus serão manifestados em glória. No presente, como o An­tigo Qoheleth" proclamava, "vaidade de vaidades" é a ordem que predomina em todas as coisas debaixo do céu. Mas esta vaidade — este estado de frustração e escravidão — é passageira. Justamente como o homem atualmente carece da glória de Deus, a criação como um todo não pode alcançar plenamente o fim para o qual foi trazida à existência. Como o homem, a criação precisa ser redimida porque, como o homem, a criação também está sujeita à queda.

Esta doutrina da queda cósmica está implícita no registro bíblico de Gênesis 3 (onde a terra recebe maldição por causa do homem) a Apo­calipse 22 (onde "nunca mais haverá qualquer maldição"); eé requerida por qualquer perspectiva do mundo que se empenhe por fazer justiça à doutrina bíblica da criação e aos fatos da vida como os conhecemos. O homem faz parte da natureza, e a "natureza" toda, da qual ele faz parte, foi criada boa, foi submetida à frustração e à futilidade pelo pecado, e finalmente, será redimida. Não é por acaso que a redenção da natureza é aqui vista como coincidindo com a redenção do corpo humano — a parte física do seu ser que o liga à criação material. O homem foi encarregado da criação "inferior" e a envolveu consigo quando caiu. Mediante a obra redentora do "segundo homem", rompe-se o vín­culo da queda, não somente para o homem, mas também para a criação que é dependente dele. Mesmo agora o homem, que pela exploração egoística pode transformar a boa terra numa bola de poeira, pode, graças ao desempenho de uma administração responsável, fazer com que o deserto floresça como um rosai. Qual há de ser, então, o efeito que uma humanidade completamente redimida produzirá na criação entregue aos seus cuidados? Quando Isaías anelava pela coexistência pacífica do lobo e do cordeiro na era messiânica, verbalizou sua esperança empregando linguagem poética, só que sua poesia não abriga nenhuma fraude pa­tética, mas algo muito mais bíblico e substancial:

"Não haverão de ferir,

nem destruir,

em todo o meu santo monte;

pois a terra se encherá

do conhecimento do Senhor,

como as águas cobrem o mar"

(Is 11:9, RSV).

O cristão não sustentará que, no presente, "tudo visa ao melhor no melhor de todos os mundos possíveis," nem escreverá que o mundo per­tence ao diabo.23 O mundo é de Deus, e Deus ainda será glorificado por todas as Suas obras. E quando Deus é glorificado, Suas criaturas são abençoadas.

Se as palavras significam alguma coisa, estas palavras de Paulo falam, não da aniquilação do atual universo físico no dia da revelação, para ser substituído por um universo completamente novo, mas da trans­formação do presente universo de modo que cumpra o propósito para o qual Deus o criou. Aqui temos de novo um eco da esperança veterotes-tamentária — a criação de novos céus e nova terra "nos quais habita jus­tiça" (2 Pe3:13, citando Is 65:17, 66:22; ver Ap 21:1).24 Mas a transfor­mação do universo depende de consumar-se a transformação do homem por obra da graça de Deus.

A graça de Deus já começou a trabalhar na vida dos justificados. Sua ação continuada recebe suficiente atestado do Espírito que neles habita, e é essa mesma graça que, no "dia de Jesus Cristo", levará à con­sumação a obra divina tão bem começada.

"A graça acabará todo o lavor,

até o dia eternal;

ela fixa no Céu a pedra final,

e merece louvor."

Mas a habitação do Espírito em nós não é somente evidência de que a graça de Deus age ininterruptamente conosco no presente; é garantia da glória vindoura — e além da garantia, é a primeira parcela da glória por vir. Não há descontinuidade entre o aqui e o além, no que concerne à obra que Deus está realizando no Seu povo e por ele.

Se a criação inanimada anseia cegamente pelo dia da sua libertação, a comunidade dos remidos, que vêem a glória a refulgir diante deles, tor­ce ansiosa e inteligentemente pela mesma consumação. Para eles é a "adoção" — quer dizer, o dia em que serão publica e universalmente reconhecidos como filhos de Deus. Também significa para eles "a reden­ção do corpo" — o dia da ressurreição, quando o atual corpo da hu­milhação será transformado tornando-se semelhante ao corpo glorificado de Cristo, ocasião em que a personalidade toda finalmente experimentará os benefícios da obra redentora do Senhor.

Esta é a esperança do povo de Deus — "Cristo em vós, a esperança da glória", segundo a colocação feita por Paulo noutra epístola (Cl 1:27). Esta esperança é elemento essencial da salvação dos filhos de Deus. Capacita-os a aceitarem as aflições do presente de modo que, por sua paciente perseverança, ganhem suas vidas. Ela é, juntamente com a fé e o amor, uma das sublimadoras graças que constituem as marcas distintivas do cristão.

Em todas as provações do presente, o Espírito ajuda também por Sua intercessão. As aspirações por santidade e glória que Ele faz surgir na vida dos crentes em Cristo são profundas demais para serem expressas adequadamente com palavras. Numa certa etapa da vida religiosa, a for­mulação correta das palavras é considerada essencial à eficácia da oração. Quando o espírito do homem está em mais estreita harmonia com o Espírito de Deus, as palavras podem não só mostrar-se inadequadas; como também prejudicar a oração. Mas Deus, perante quem os pen­samentos de todos os homens são como um livro aberto, reconhece na­queles "gemidos" não verbalizados que vêm do fundo dos corações do Seu povo, a voz do Espírito intercedendo pelos Seus em harmonia com a Sua vontade, e lhes responde acordemente.

Na verdade, a soberana graça de Deus coopera em todas as coisas para o bem do Seu povo, mesmo naquelas coisas que na hora causam tanta tristeza e perplexidade, e são duras de agüentar. "Sabemos" que é assim mesmo, diz o apóstolo, falando como alguém que provou esta ver­dade em sua experiência pessoal; vendo, por exemplo, que as durezas que enfrentou transformaram-se em elemento favorável ao progresso do Evangelho (Fp 1:12) e que suas mais dolorosas e desagradáveis provações eram meios pelos quais o poder de Cristo repousava sobre ele (2 Co 12:9ss.).

E agora Paulo deixa sua mente retroceder e avançar para observar todo o transcurso dos procedimentos de Deus para com o Seu povo. Antes da fundação do mundo, o Senhor conhecia os Seus e os preordenou — preordenou-os para o dia da redenção final, quando se harmonizariam com a imagem do Seu Filho. O próprio Filho de Deus "é a imagem do Deus invisível" (Cl 1:15; ver 2 Co 4:4). O fato de criar Deus o homem "à sua imagem" foi um passo inicial rumo à consecução do Seu antiqüíssimo propósito de ter criaturas Suas participando da Sua glória, tão plena­mente como é possível a seres criados participarem da glória do seu Criador. Quando a imagem de Deus na velha criação foi desfigurada pelo pecado, de modo que o homem como agora é carece da glória para a qual foi feito, o propósito de Deus não foi frustrado. Quando chegou o tempo oportuno, a imagem divina manifestou-se entre os homens pelo novo Homem, a cuja imagem os que se unem a Ele pela fé vão-se transforman­do progressivamente — de um grau de glória a outro — até o dia em que, para citar outro escritor do Novo Testamento, estarão em perfeita confor­midade com a Sua semelhança, porque O verão "como ele é"(l Jo 3:2).

18. Os sofrimentos do tempo presente não são para comparar com a~ glória por vir a ser revelada em nós.

Ver Lc 6:22s.: "Bem-aventurados sois quando os homens vos odiarem (...) Regozijai-vos naquele dia e exultai, porque grande é o vosso galardão no céu."

20. A criação está sujeita à vaidade.

AV: "A criatura foi feita sujeita à vaidade." Em acréscimo à idéia de futilidade ou frustração, "vaidade" (mataiotês), como em outro lugar na Bíblia grega (ver At 14:15), pode significar culto a falsos deuses; a criação foi escravizada a poderes malignos (ver 1 Co 12:2).

Por causa daquele que a sujeitou. A referência é com toda a pro­babilidade a Deus. Uma opinião de há muito propalada é a de que o texto fala de Adão, visto que o seu pecado trouxe a morte ao mundo e envolveu a terra na maldição sobrevinda. Mais recentemente, Karl Heim argu­mentou que o agente da sujeição é "o revolucionário poder do pecado (...) o poder satânico" que existia antes dos homens e os colocou "sob o seu fascínio com seus ardis tentadores".25 Mas isto se aproxima de um dualismo antipaulino e, em todo caso, não se pode dizer que esse poder sinistro sujeitou o mundo à frustração "na esperança" (v. 21).

21. A própria criação será redimida do cativeiro da corrupção.

"Porque" (AV, grego: hoti) talvez deva ser substituído pela conjun­ção "que" {that), tornando a sentença que ela ihtroduz diretamente subordinada à expressão "na esperança" que em AV consta do final do versículo 20: "na esperança de que a própria criação será redimida ..." (RV.comoAA).

Para a liberdade da glória dos filhos de Deus. AV: "gloriosa liber­dade". Quanto ao pensamento básico, ver Tiago 1:18: "Segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas."

22. Sabemos que toda a criação a um só tempo geme e suporta angústias


até agora.

Paulo talvez tivesse em mente a corrente expectação judaica das "dores de parto do Messias" — o período de angústia que introduziria a era messiânica (ver Mc 13:8, NEB: "começam as dores de parto da nova era"). Se é assim, ele considera toda a humanidade, e na verdade a criação inteira, como participando dessas dores de parto e ansiando pela alegria que se lhes seguirá.

23. As primícias do Espírito.

A habitação do Espírito em nós aqui e agora constitui as "primícias" (aparche), i. e., a "primeira prestação" ou a "entrada" na entrega da herança eterna da glória que aguarda os crentes em Cristo. Em 2 Corín-tios 1:22, 5:5eEfésios 1:14o mesmo ensinamento sobre o Espírito é dado pelo emprego de arrhabõn, "penhor" ou "garantia" (palavra empregada no grego moderno para o anel de noivado como penhor ou garantia do casamento que há de vir).

Tem-se dado a idéia de que alguns leitores da epístola podem ter in­ferido do uso que Paulo faz de aparchè nesta passagem, que a possessão do Espírito é a "cédula de identidade" do crente, uma vez que há MSS em papiro que dão evidência deste sentido da palavra. Embora não seja precisamente o que Paulo quer dizer aqui, aqueles leitores não estariam muito afastados da verdade se fizessem essa inferência, pois algo desta sorte é envolvido pelo "selar" no Espírito (ou com o Espírito), em Efésios 1:13, 4:30. Quanto a outro uso da figura aparchê, verll:16(pp. 175ss.).

Também nós (...) igualmente gememos em nosso íntimo. Ver 2 Conntios 5:2: "neste tabernáculo (i. e., corpo) gememos, aspirando por ser revestidos da nossa habitação celestial."

Aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo. A "adoção" aqui é a plena manifestação do estado dos crentes como filhos de Deus (ver versículos 14,15), seu ingresso na herança que lhes pertence em virtude desse estado. "A redenção do nosso corpo", a ressurreição, é tema sobre o qual Paulo recentemente se havia alongado em 2 Coríntios 4:7-5:10. A mesma anelada ocasião é denominada "o dia da redenção" em Efésios 4:30, onde se diz que os crentes em Cristo foram selados no (ou com) o Espírito em vista disso.

24.Pois o que alguém vê, como o espera?

Talvez devamos preferir a leitura mais curta de P46 e a primeira redação de B: "pois quem espera o que vê?"

25. Esperamos o que não vemos.

Ver 2 Coríntios 4:18: "Não atentando nós nas cousas que se vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas."

26. Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fra­


queza.

AV: "... nossas enfermidades." Leia-se o singular "enfermidade" (RV) ou "fraqueza" (RSV, NEB, AA).



O mesmo Espírito intercede por nós. Em AV ocorre o pronome pes­soal reflexivo neutro. Recomenda-se o pronome masculino, como consta em RV, RSV, NEB.26 Ver Efésios 6:18: "Com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito." Quando os crentes oram "no Es­pírito" , o próprio Espírito intercede em favor deles. (Ver p. 44.)

Com gemidos inexprimíveis. "Por meio de nossos gemidos inarti-culados (NEB). Pode-se incluir nessa expressão o falar a Deus no Espírito com "línguas" (1 Coríntios 14:2), mas ela abrange aqueles anelos e as­pirações que jorram das profundezas espirituais e que não podem ser aprisionados dentro das limitações das palavras de uso diário. James Montgomery captou bem o significado do que disse Paulo, quando es­creveu:

"A oração é desejo da alma,

quer expresso, quer não;

movimento de chamas ocultas,

que no peito estremecem.

A oração fardo é de um suspiro,

o cair de uma lágrima,

o relance do olhar para o alto,

quando só Deus está perto."

Em oração assim, é o Espírito em nós que ora, e Sua mente é lida de imediato pelo Pai, a quem a oração é dirigida. Além disso, esses "ge­midos inarticulados" não podem ser dissociados do gemer do versículo 23, com o qual os crentes (juntamente com toda a criação) anseiam pela vindoura glória da ressurreição, que consumará a resposta a todas as suas orações (ver p. 45 com n. 24).

28. Sabemos que todas as cousas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus.

"Sabemos" expressa o conhecimento da fé. Gramaticalmente, "todas as cousas" tanto pode ser sujeito como objeto do verbo "cooperam"; é mais provável que aqui seja objeto. Neste caso, o sujeito será "ele", que alguns textos antigos (incluso P46) tornam mais explícito pelo acréscimo de "Deus" no nominativo (acréscimo que torna excessivamen­te pesada a sentença). Assim RVmg. traduz: "Para os que amam a Deus, Deus faz com eles todas as cousas para o bem'-'. Na construção usada por RSV, "todas as cousas" entra como um acusativo adverbial, e se traduz assim: "Sabemos que em tudo Deus age para o bem com aqueles que o amam." NEB, contudo, revive uma antiga e atraente interpretação que em geral tem recebido pouca atenção dos tradutores e comentadores. Segundo essa interpretação, o sujeito do verbo cooperar é o sujeito do versículo anterior — o Espírito. Sua tradução é, pois: "... ele intercede pelo povo de Deus à maneira de Deus; e em tudo, como sabemos, ele coopera para o bem com aqueles que amam a Deus ..."" (Quanto às bênçãos preparadas para aqueles que amam a Deus, ver 1 Coríntios 2:9.) Daqueles que são chamados segundo o seu propósito. "Chamados", não no sentido geral em que "muitos são chamados, e poucos escolhi­dos"; mas no sentido daquela "vocação eficaz" que "é a obra do Espírito Santo, pela qual, convencendo-nos do nosso pecado, e da nossa miséria, iluminando nosso entendimento pelo conhecimento de Cristo, e renovan­do a nossa vontade nos persuade e habilita a abraçar Jesus Cristo, que nos é oferecido de graça no Evangelho" {Breve Catecismo de Westmins-ter, perg. 31). Ver 1:6 ("chamados para serdes de Jesus Cristo"; AV: "chamados de Jesus Cristo"), 1:7 ("chamados para serdes santos"), 9sll ("aquele que chama").

29. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.

O propósito da graça de Deus vem exposto nos versículos 29 e 30 por meio da proposição chamada "sorites", .na qual o predicado lógico de uma cláusula torna-se o sujeito lógico da seguinte. Aqui, a nova criação — uma comunidade de homens e mulheres conformes à imagem de Cris­to (que é, Ele próprio, "a imagem de Deus", 2 Co 4:4; Cl 1:15), é vista como sendo desde o princípio o objetivo da presciencia de Deus e de Sua misericórdia que se expressa na predestinação. Para os escritores do Novo Testamento, o cumprimento desse propósito está incluído nas palavras criadoras de Gênesis 1:26: "Façamos o homem à nossa imagem, confor­me a nossa semelhança." A velha criação é, por si mesma, insuficiente para tornar essa meta uma realidade: precisa da obra redentora de Cristo e da Sua conseqüente posição de Cabeça da nova criação, "a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos". Aquele que é "o primogênito de toda a criação" na velha ordem porque "tudo foi criado por meio dele e para ele", é também, pela ressurreição, a cabeça de uma nova ordem, "o princípio, o primogênito de entre os mortos" (Cl 1:15-18, RS-V, AA).

Com relação às palavras "aos que de antemão conheceu", têm aquela conotação da graça motivadora da eleição muitas vezes presente no verbo "conhecer", no Velho Testamento. Quando Deus toma conhe­cimento das pessoas desta maneira especial, faz recair nelas a Sua es­colha. Ver Amcjis 3:2 ("De todas as famílias da terra somente a vós outros vos conheci", AV); Oséias 13:5 ("Eu te conheci no deserto"). Podemos também usar para comparação a própria linguagem de Paulo em 1 Coríntios 8:3 ("Mas se alguém ama a Deus esse é conhecido por ele"); Gálatas 4:9 ("agora que conheceis a Deus, ou antes sendo conhecidos por Deus"). Este aspecto do conhecimento divino é também salientado no Regulamento da Comunidade, de Qumran: "Do Deus de Conhecimento provém tudo o que é e que será. Antes de existirem, Ele estabeleceu todo o desígnio para eles, e quando, conforme foi determinado para eles, vêm à existência, é de acordo com o Seu glorioso desígnio que eles realizam as suas obras."28

30. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou.

O povo de Deus responde pela fé ao Seu chamamento, e pela fé é justificado.

E aos que justificou, a esses também glorificou. A glorificaçào do povo de Deus é sua final e completa conformidade com a "imagem do seu Filho"; "quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então vós tam­bém sereis manifestados com ele, em glória" (Cl 3:4; ver 1 Jo 3:2). Então, é este o propósito da graça da predestinação de Deus — a criação de uma nova raça a manifestar a glória do seu Criador. Levou avante o Seu propósito chamando e justificando aqueles sobre os quais Ele fez recair a Sua escolha. "E aos que justificou, a esses também glorificou." O pré-conhecimento e a preordenação pertencem ao con­selho do Deus eterno; a vocação e a justificação ocorrem na experiência do Seu povo; mas a glória, no que concerne à sua experiência, jaz no futuro. Por que, pois, Paulo usa o mesmo tempo pretérito para este ato de Deus, como o faz com os outros? Talvez esteja imitando o uso hebraico do "pretérito profético", pelo qual um acontecimento predito é assi­nalado com tal certeza de cumprimento que é descrito como se já tivesse acontecido.29 Como fato da história, o povo de Deus ainda não foi glorificado. Contudo, no que se refere ao decreto divino, sua glória foi determinada desde toda a eternidade, e daí — "a esses também glori-ficou".

Por que será que Paulo aqui parte diretamente da justificação para a glorificação, sem nada dizer acerca da experiência cristã atual de san-tificação sob o poder do Espírito? Em parte é, sem dúvida, porque a glória vindoura estava em primeiro plano ha sua mente; mas ainda mais porque a diferença que há entre a santificação e a glória é apenas de grau, não de natureza. A santificação é a progressiva conformação à imagem de Cristo aqui e agora (ver 2 Co 3:18; Cl 3:10); a glória é a per­feita conformidade com a imagem de Cristo depois e além. A santificação é a glória iniciada; a glória é a santificação completada. Paulo anseia pela consumação da obra — consumação garantida por seu princípio: "aos que justificou, a esses também glorificou."



(3) A vitória da fé (8:31-39).

Poderia haver mais vigoroso incentivo à fé, do que a contemplação do propósito salvador de Deus para o Seu povo, movendo-se rumo à sua consumação colimada? Visto que Deus é a poderosa salvação dos Seus, que força poderá prevalecer contra eles? Visto que o Seu amor se ma­nifestou de modo supremo no sacrifício do Seu próprio Filho em favor deles, de que benefício haverá Deus de privá-los? Por um momento Paulo encara a situação em termos de um tribunal de justiça, a que o crente comparece para ser julgado. Mas quem ousará apres,entar-se como ad­vogado de acusação? O próprio Deus, o Juiz de todos, declarou sua ab­solvição e justificação; quem poderá questionar a Sua sentença? O acusador talvez não se aventure a aparecer, mas o conselho de defesa está presente e ativo: "É Cristo Jesus quem morreu, ou antes, quem ressus­citou, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós." E nada pode colocar-se entre Seu amor e Seu povo — nenhuma das provações e aflições que este tenha experimentado ou que possa experimentar ainda. Na luta espiritual, poderosas forças — sobrenaturais bem como naturais — estão dispostas em linha de combate contra o povo de Cristo, mas por meio deste ele as domina e permanece irrevogavelmente rodeado e for­talecido por Seu amor imutável.

32. Aquele que não poupou a seu próprio Filho.

Repetição de Gênesis 22:12, onde Deus diz a Abraão: "Não me negaste (LXX, "não poupaste", grego, pheidomai, como aqui) o filho, o teu único filho." A "sujeição de Isaque" (título tradicionalmente dado pelos judeus à narrativa de Gn 22) talvez desempenhe papel mais impor­tante no pensamento de Paulo sobre o sacrifício de Cristo do que parece à superfície.30 Na interpretação judaica, é tratado como exemplo clássico da eficácia redentora do martírio.



Porventura não nos dará graciosamente com ele todas as cousas? Ver Mateus 6:33: "Todas estas cousas vos serão acrescentadas.''

33,34. É Deus quem os justifica. Quem os condenará?

(Assim RV, AV: "Quem condena?".) Na linguagem forense desta passagem captamos um inconfundível eco do similar desafio do Servo do Senhor em Isaías 50:8s.: "Perto31 está o que me justifica; quem conten­derá comigo? Apresentemo-nos juntamente; quem é o meu adversário? Chegue-se para mim. Eis que o Senhor Deus me ajuda; quem há que me condene?" Boa ilustração veterotestamentária do texto é o silêncio de Satanás, principal acusador no tribunal celeste, quando Deus declara Sua aceitação do sumo sacerdote Josué (Zc 3: lss.).



34. O qual está à direita de Deus.

Repetição do Salmo 110:1: "Disse o Senhor ao meu Senhor: Assen­ta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés." Estas palavras, cuja interpretação messiânica era axiomática entre os judeus dos tempos de nosso Senhor (ver Mc 12:35-37), foram aplicadas a Jesus desde os primeiros dias da igreja, e formam o fundamento bíblico da doutrina de Sua exaltação e de Sua posição à direita do Pai — isto é, no lugar de supremacia sobre o universo.

"Mas um dia, quando passava pelo campo, sentindo alguns golpes na consciência, temendo que algo estivesse errado, de repente caiu sobre a minha alma esta sentença: A tua justiça está no céu. E quando pensava em sair, vi, com os olhos da alma, Jesus Cristo à direita de Deus. Eis ali, digo eu, a minha justiça. Deste modo, onde quer que eu estivesse e o que quer que fizesse, Deus não poderia dizer de mim: Ele carece da minha justiça; pois esta estava bem diante de mim. Além disso, vi também que não era a boa estrutura do meu coração que dava melhor qualidade à minha justiça, nem a minha má estrutura que tornava minha justiça pior. Pois a minha justiça era o próprio Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e para sem­pre" (João Bunyan, Grace Abounding, § 229).

E também intercede por nós. AV: "Quem também faz iníercessão por nós." Outro eco do quarto Cântico do Servo (Is 52:13-53:12): o Servo "pelos transgressores intercedeu" (Is 53:12). (Ver nota sobre Rm 4:25, pp. 96s.). O Targum de Jonatã fala do Messias-Servo como suplicando pelos transgressores não somente em Is 53:12 mas também nos versículos 4 e 11. Sendo assim, os crentes contam com um intercessor à direita de Deus, como contam com um intercessor aqui (versículo 27). Não é essa, porém, a significação de "também", que simplesmente serve para acentuar o relativo "quem" (AV).

36. Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia


todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro.

Citação do «Salmo 44:22, súplica a Deus por rápido socorro num tempo de dolorosa aflição para Israel.

37. Em todas estas cousas.

Talvez um hebraísmo, significando "a despeito de todas estas cousas", "por isso tudo".



Somos mais que vencedores. Grego hupernikõmen, "somos super-conquistadores".

38,39. Nem poderes.

O peso da evidência textual favorece a colocação desta frase depois de "nem do porvir" (como em A A),. Por outro lado, a probabilidade intrín­seca aponta como mais apropriada sua colocação depois de "nem prin-cipados" (como em AV). Em qualquer caso, principados e poderes são as forças do mal no universo, "as hostes espirituais da iniqüidade, nas re­giões celestes" de Efésios 6:12 (RV). (Nem todos os "principados e po­deres" são hostis; mas os que têm boa disposição não pretendem separar os crentes do amor de Cristo.) Nada do que existe nas expansões do es­paço ("nem altura, nem profundidade")32 ou no transcurso do tempo ("nem cousas do presente, nem do porvir")33 , nada do que existe em todo o universo de Deus ("nem qualquer outra criatura") pode separar os filhos de Deus do amor do Pai que lhes foi assegurado em Cristo.

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