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(1) A pedra de tropeço (9:30-33).

Tendo considerado o problema do ponto de vista da eleição divina, Paulo agora o considera do ponto de vista da responsabilidade humana.

Que aconteceu de fato? O Evangelho, com sua proclamação da "justiça" outorgada por Deus aos crentes, veio ao judeu primeiro, e também ao gentio. Mas foi aceito primeiro pelo gentio. Os gentios responderam agradecidamente à mensagem que lhes assegurava que seriam aceitos por Deus com base em sua fé, e isto lhes "foi imputado para justiça". Os judeus, como um todo, continuavam a seguir o caminho da justiça da lei, procurando ser aceitos por Deus com base em sua guarda da lei, e con­tudo jamais atingiram a meta. A razão era simples: estavam seguindo um caminho errado. A aceitação da parte de Deus era assegurada à fé, e não às obras impostas pela lei. Era uma lição deveras difícil para eles apren­derem que, apesar de todos os privilégios que tinham como israelitas, a justiça divina só poderia ser alcançada por eles do mesmo modo pelo qual foi aberta para aqueles forasteiros completos que eram os gentios, os quais tinham sido, durante séculos, mantidos isolados do conhecimento de Deus e Seus caminhos. Não admira que o Evangelho fosse uma pedra de tropeço para eles.

Mas o próprio fato de ser pedra de tropeço fora previsto. E aqui Paulo torna a citar Isaías, e dá uma versão conjunta de dois pronuncia­mentos proféticos — Isaías 8:14s. e 28:16s. — cujo denominador comum é uma' 'pedra1' assentada numa época de calamidade e juízo.

31. Buscava lei de justiça.

Isto é, uma lei pela conformidade com a qual os israelitas esperavam ser justificados perante Deus.



Não chegou a atingir essa lei (AV: "... de justiça"). O texto mais bem documentado omite "de justiça". O sentido é que as exigências da lei não eram satisfeitas por aqueles que seguiam o caminho da justiça da lei da mesma forma que o eram por aqueles que não andam "segundo a carne, mas segundo o Espírito" (8:4).

32. Como que das obras (AV: "pelas obras da lei"). Leia-se simplesmen­te "pelas obras" (RV).



Tropeçaram na pedra de tropeço. Em Isaías 8:7s. o profeta prediz como a invasão assíria devastará as terras de Israel como as águas de uma grande inundação. Mas haverá um lugar de refúgio das águas avassa­ladoras: Deus mesmo será um "santuário" para todos quantos ponham sua confiança nele, a Rocha sobre a qual estarão firmes. Mas os que não se confiam a Ele, mas põem sua confiança em outros poderes ou recursos, serão arrastados pela enchente contra esta Rocha e ficarão em ruínas. Para eles, muito longe de ser ela um lugar de refúgio, será um perigoso obstáculo, uma "pedra de tropeço" e uma "rocha de escândalo" ou"de ofensa". A passagem é citada com o mesmo fim em 1 Pedro 2:8, onde Cristo ê descrito como "pedra de tropeço e rocha de ofensa" para aqueles "que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram postos" (isto é, postos ou destinados pela palavra de Deus dita por intermédio de Isaías).

33. Como está escrito: Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e rocha de escândalo (AV: "... e rocha de ofensa").

Em Isaías 28:16, em meio à advertência sobre o iminente dilúvio oriundo da Assíria que varrerá de vez o "refúgio da mentira" no qual orei e o povo estão pondo a sua confiança, a palavra de Deus vem ao profeta: . "Eis que eu assentei em Sião uma pedra, pedra já provada, pedra pre­ciosa, angular,8 solidamente assentada; aquele que crer não foge" (ou melhor, "não ficará em pânico"). Esta pedra fundamental parece que é o remanescente justo,9 a esperança do futuro, encarnado pessoalmente no Príncipe da casa de Davi. Esta profecia é aqui apresentada conjuntamen­te com Isaías 8:14 (mencionada acima, na nota sobre o v. 32). A com­binação das duas passagens como uma profecia de Cristo e Sua salvação é lugar comum na apologética cristã primitiva, e é de fato pré-paulina. Vemo-las combinadas de modo semelhante em 1 Pedro 2:6-8, onde são vinculadas a uma terceira "pedra" testimonium — a pedra rejeitada do Salmo 118:22. (Em Lc 20:17s., a pedra rejeitada do salmo e a pedra de tropeço de Is 8:14 são associadas a outra "pedra" testimonium ainda — a pedra "cortada sem auxílio de mãos" que feriu a imagem do sonho de Nabucodonosor em Dn 2:34s.)

Aquele que nela crê não será confundido. Ver 10:11. Isaías 28:16 é citado aqui de acordo com a LXX. O sentido é que aqueles que confiam em Deus jamais precisarão temer que sua confiança nele venha a mos­trar-se infundada. Deus defende a fé que Seu povo deposita nele, de modo que não precisam ficar embaraçados por causa dele, nem mesmo quando os homens dizem: "Confiou sua causa ao Senhor; que ele o livre, que o salve, pois nele tem prazer!" (Sl 22:8, RSV). O texto hebraico todavia diz: "Aquele que crê não ficará aflito" (RSV); isto é, o homem que se firma no alicerce de Deus "mantém a cabeça fria quando todos à sua volta estão perdendo a cabeça e estão pondo a culpa nele"; não fica girando e rondando para cá e para lá, mas confia em Deus, certo de que o Seu propósito se cumprirá no tempo de Deus. Ê possível que os tradu­tores da LXX tenham lido no texto hebraico que tinham diante de si Io'yebosh ("não será confundido", ou "não ficará envergonhado") em vez de Io'yahish ("não se afligirá"), mas esta suposição não é indispen­sável.

(2) Os dois meios para a justiça (10:1-13).

Por tudo isso Paulo não deixará de orar pela salvação de Israel. Ele entende o estado mental dos israelitas muitíssimo bem: "Têm zelo por Deus, porém não com entendimento". Isso descreve com exatidão a sua própria atitude antes do encontro que teve com o Cristo ressurreto. Desse seu zelo ele fala noutro lugar: seu zelo pelas antigas tradições herdadas do seu povo o tinha impelido a tomar a dianteira dos seus contempo­râneos em sua dedicação ao estudo e à prática da religião judaica, e lhe forneceu a força motivadora para os seus enérgicos ataques à nascente igreja de Jerusalém (ver Gl l:13s.; Fp 3:6). Ele também tinha dado com os pés contra a pedra de tropeço, até que caíram as escamas dos seus olhos e sua vida recebeu nova orientação. Agora, sua ambição consu­midora era que Cristo fosse engrandecido em toda a sua vida e obra (ver Fpl:20).

E se isso aconteceu com ele, por que não podia acontecer com o seu povo? Certo, no presente não conheciam o meio divino de justificação, mas se empenhavam em estabelecer o deles. Contudo, como o próprio Paulo tinha visto que Cristo liqüidou com a lei, concebida como meio de aquisição de favor diante de Deus, assim poderia suceder com os seus patrícios, quando encontrassem também o caminho da fé.

Os dois caminhos — o da lei e o da fé — são ilustrados com citações do Pentateuco. A primeira é de Levítico 18:5: "Portanto os meus esta­tutos e os meus juízos guardareis; cumprindo os quais, o homem viverá por eles." Aí, diz Paulo, o princípio da justiça mediante alei está expres­so com clareza: o homem que faz estas coisas, obterá vida por fazê-las. "Que é que há de errado nisso?", poder-se-ia perguntar. Justamente isto, seria a resposta de Paulo, que ninguém conseguiu fazê-las perfeitamente e, portanto, ninguém conseguiu obter vida deste modo. Mesmo podendo descrever sua carreira anterior como, "quanto à justiça que há na lei, irrepreensível" (Fp 3:6), bem sabia que era irrepreensível somente aos olhos dos homens, mas não diante de Deus.

Para ilustrar a justiça que vem pela fé, Paulo vai a outro lugar do Pentateuco — à exortação de despedida de Moisés a Israel em Deute-ronômio 30 — e cita os versículos 11-14: "Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não é demasiado difícil, nem está longe de ti. Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga, e no-lo faça ouvir para que o cumpramos? Nem está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós além do mar, que no-lo traga, e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Pois esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a cumprires." Estas palavras Paulo as acha admiravelmente aplicáveis à linguagem da "justiça decorrente da fé", e faz ligeiro comentário delas neste sentido.

Esta é a substância do seu comentário: Deus trouxe até nós a Sua salvação, em Cristo. Não temos que "escalar os degraus dos céus" para procurá-la, pois Cristo desceu à terra com ela. Não precisamos "descer às profundezas" por ela, pois Cristo ressuscitou dos mortos para no-la as­segurar. Ela está aqui, presente e ao nosso alcance. O que somos cha­mados a fazer é aceitá-la pela/é que venha do coração — crer em nossos corações que Deus O ressuscitou dos mortos — e proclamá-lo como Senhor. A fé salvadora é fé na ressurreição: "Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé" (1 Co 15:17). E a confissão de Cristo é profissão pública: "Jesus é Senhor", sendo este o mais antigo — e suficiente — credo cris­tão.

Os que põem sua fé em Cristo para salvação, recebem como incen­tivo as palavras de segurança de Isaías 28:16 (já citadas em 9:33): os que se confiam a Cristo jamais ficarão "desapontados".

Esta justiça que Deus anuncia é aberta a todos os homens e mulheres de fé, sem distinção, sejam judeus ou gentios. Sua misericórdia salvadora é prodigalizada sem discriminação nem restrição: todos os que O in­vocam a recebem. Num estágio anterior da argumentação de Paulo, as palavras "não há diferença" (ou "distinção") soaram com um timbre de crueldade, porque tornavam o judeu e o gentio igualmente réus convictos de pecado contra Deus, e incapazes de ganharem a aceitação divina por seus esforços ou méritos pessoais. Agora as mesmas palavras ressoam com tons alegres porque proclamam tanto ao judeu como ao gentio que os por­tais da misericórdia de Deus estão abertos de par em par, podendo eles en­trar, e que o Seu perdão gratuito está assegurado em Cristo a todos os que o buscam pela fé.



  1. A favor deles.

Assim AA, RV, RSV. AV: "Por Israel."

  1. Lhes dou testemunho.

Melhor do que "Faço-os lembrar" (AV).

  1. Procurando estabelecer a sua própria justiça.

Ou "esforçando-se por estabelecer a sua própria justiça".

  1. O fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê.

"Cristo conclui a lei e traz justiça para todo aquele que tem fé" (NEB). A palavra "fim" (telos) tem duplo sentido; pode significar "alvo" ou "término". Por um lado, Cristo é a meta visada pela lei, no sentido de que Ele é a encarnaçâo da perfeita justiça, sendo que veio a "engrandecer a lei e fazê-la gloriosa" (ver Is 42:21); em Mateus 5:17 vemos estas pa­lavras do próprio Senhor Jesus: "Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir". E a lei é cumprida na vida daqueles que estão "em Cristo Jesus" (ver 8:3s.). Por outro lado (e esta é a ênfase primordial das palavras de Paulo), Cristo é a terminação da lei no sentido de que, com Ele, a velha ordem, da qual a lei fazia par­te, foi eliminada, para ser substituída pela nova ordem do Espírito. Nesta nova ordem, a vida e a justiça são acessíveis mediante a fé em Cristo; por­tanto, ninguém precisa tentar obter essas bênçãos por meio da lei. (Ver P-49.)

5. O homem que praticar a justiça decorrente da lei, viverá por ela.

Paulo já tinha citado Levítico 18:5 com finalidade semelhante em Gálatas 3:12, mostrando que "a lei não procede de fé"; ali o contraste bíblico é Habacuque 2:4: "o justo viverá pela fé".

6-8. Mas a justiça decorren te da fé assim diz....

Aqui o contraste bíblico de Levítico 18:5 é Deuteronômio 30:11-14. Mas em sua colocação primária, o significado da última é quase preci­samente o da primeira citação de Levítico 18:5. Ali os estatutos e juízos de Deus foram impostos aos hebreus para que os cumprissem e vivessem. Aqui, de modo semelhante, é a palavra do mandamento de Deus que é apresentada a cada um deles, "para a cumprires" (significativamente, Paulo omite esta última frase). E que praticar o mandamento era o ca- minho da vida é evidenciado pelas palavras de Moisés que se seguem imediatamente às recém-citadas: "Vê que proponho hoje avidaeobem, a morte e o mal; se guardares o mandamento, que hoje te ordeno, que ames ao Senhor teu Deus, andes nos seus caminhos, e guardes os seus man­damentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, então viverás e te multi-plicarás" (Dt 30:15s.). Dando por concedido que Deuteronômio está coberto por um fervor profético e, às vezes, quase evangélico, fervor não proeminente em Levítico — concedido também que no linguajar de Deuteronômio 30:11-14 ("na tua boca e no teu coração") há uma inte-rioridade que antecipa o pronunciamento profético de Jeremias sobre a "nova aliança" (Jr 31:33) — ainda assim para nós não é tão fácil, comoo foi para o apóstolo, traçar uma distinção entre o sentido de Levítico 18:5 e o de Deuteronômio 30:llss. Pode ser que Paulo já estivesse familiarizado com uma interpretação da passagem que lhe facilitou a aplicação dela ao Evangelho. Caso estivesse acostumado a ver nesta passagem uma referên-cia à sabedoria (é relacionada com a sabedoria em Baruque 3:29s.), então Paulo, para quem Cristo era a sabedoria de Deus (ver 1 Co 1:24, 30), poderia prontamente ter-lhe dado uma interpretação cristã.

Aqui está, pois, sua exposição da linguagem apropriada à justiça que é recebida pela fé (particularmente no esXWopesher'a que agora nos é familiar graças aos textos de Qumran: Não diga a si próprio: "Quem subirá ao céu?" — isto é, para trazer Cristo para baixo (como se Ele nunca se tivesse encarnado e nunca tivesse vivido na terra).



Não diga: "Quem descerá às maiores profundezas?" — Isto é, para trazê-lo de volta da morada dos mortos (como se Ele já não tivesse ressuscitado para uma vida nova).

Que se diz então? Isto!



A mensagem está bem perto de você, em sua língua, no seu coração — isto é, a mensagem da fé que proclamamos, que se você confessar com a sua língua que Jesus é Senhor, e crer no seu coração que Deus O ressuscitou dos mortos, você terá a salvação. É com o coração que os homens exercem a fé pela qual Deus os aceita como justos; é com a língua que fazem confissão e, assim, recebem a sal­vação.

9. Se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor.

AV: "... o Senhor Jesus". As últimas três palavras deviam ser co­locadas entre aspas. Ver NEB: "Se nos teus lábios estiver a confissão: 'Jesus é Senhor' ". Esta é a confissão (Kurios ISsous) que, como Paulo diz em 1 Coríntios 12:3, ninguém pode fazer senão "no Espírito Santo" (RV). Ver Filipenses 2:11, onde a confissão "Jesus Cristo é Senhor" eqüivale a reconhecer a suprema honra à qual Deus exaltou a Cristo (ver p. 152). Alguns comentadores entendem que se trata particular­mente da confissão do nome de Jesus Cristo diante dos magistrados (ver Lc 21:12-15; 1 Pe 3:13-16); mas se devemos pensar numa ocasião de des­tacada importância para se fazer essa confissão, talvez devamos achar mais provável aquela primeira confissão — "a resposta de uma boa cons­ciência" (1 Pe 3:21)" — feita no batismo cristão.

13. Todo aquele que invocar o nome do Senhor, será salvo.

Citação de Joel 2:32, onde a passagem se relaciona com o período das vésperas do "grande e terrível dia do Senhor" em que o Espírito de Deus há de se derramar sobre toda a carne. Compare-se isto com o uso que Pedro faz da mesma passagem bíblica para explicar os acontecimen­tos do dia de Pentecoste:' 'O que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel" (At 2:16).

(3) Proclamarão universal (10:14-21).

Daí surge a necessidade de proclamar o Evangelho no mundo in­teiro. Os homens são exortados a invocar o nome do Senhor e serem sal­vos. Mas não invocarão o Seu nome a menos que sejam movidos a crer nele, não crerão nele a menos que ouçam falar dele, não podem ouvir dele a menos que alguém lhes leve as novas, e ninguém pode levar as novas a menos que seja enviado para isso. O pregador é um "apóstolo" no sentido primário da palavra; é um arauto ou embaixador que transmite a men­sagem de alguém que o autorizou a entregá-la. Aqui Paulo engrandece o ofício do apóstolo ou evangelista. Por sua proclamação da anistia divina, Deus tem prazer em dar a compreender a Sua misericórdia aos que crêem na mensagem. Dos que levam estas alegres novas, o profeta falou séculos antes: "Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, que anuncia cousas boas, que faz ouvir a sal­vação, que diz a Sião: O teu Deus reina!" (Is 52:7; ver nota sobre 1:1, pp.59s.).

Como, porém, isso tudo se aplica ao problema da incredulidade judaica? A mensagem veio tanto a judeus como a gentios; de fato veio primeiro aos judeus. Mas os judeus (na maior parte) não lhe deram ouvidos. Bem, nem isso foi imprevisto, como se pode colher da inter­rogação de Isaías 53:1: "Quem creu em nossa pregação?" A significação destas palavras com relação ao Evangelho surge não só do contexto geral de Isaías 40-66, mas ainda mais do contexto particular do quarto Cântico do Servo (Is 52:13-53:12), que tanto contribuiu para a interpretação neotestamentária da paixão e da vitória de Jesus. Contudo, este versículo é citado noutra parte do Novo Testamento como uma das várias citações de Isaías empregadas para explicar a descrença de Israel.

Mas se o desapontado mensageiro pergunta: "Quem creu em nossa mensagem?", é evidente que a mensagem tinha por fim produzir fé. E é evidente que a própria mensagem, para ter autoridade, repousa na or­dem e comissão dada diretamente por Cristo.

Entretanto, não pode ser que (sugere um pesquisador interessado) nem todos do povo de Israel tenham ouvido a mensagem? A verdade é que ouviram, Paulo replica. O Evangelho foi levado a todos os lugares onde há uma comunidade judaica. Fala isto citando, com relação ao Evangelho, as palavras do Salmo 19 acerca da mensagem dos corpos celestes. Parece exagero usar dessa forma a linguagem da citação. Depois de tudo, o Evangelho não fora levado a todas as partes da terra, e nem sequer a todas as terras então conhecidas pelos habitantes do mundo greco-romano. Paulo estava ciente disso. Nessa mesma ocasião, ele estava planejando evangelizar a Espanha, província na qual ainda não era conhecido o nome de Cristo. Tudo que Paulo queria dizer era que, onde quer que houvesse judeus, o Evangelho fora pregado.

Bem, volta o inquiridor, segundo parece eles ouviram o Evangelho, mas talvez não o tenham compreendido. Não foi isso não, diz Paulo. Eles o compreenderam bem, mas recusaram obedecer. Mostraram inveja e in­dignação quando os gentios aceitaram a mensagem, mas eles mesmos não quiseram crer nela. Mas também isto cumpriu a palavra da profecia. No Cântico de Moisés (Dt 32), descrevem-se a desobediência e a in­gratidão de Israel. Deus acusa de idolatria os filhos de Israel (versículo 21):

"A zelos me provocaram com aquilo que não é Deus; com seus ídolos me provocaram à ira."

Então Deus pronuncia a sentença:

"Portanto eu os provocarei a zelos com aquele

que não é povo;

com louca nação os despertarei à ira."

Por Paulo — e com toda a probabilidade não só por ele — a lin­guagem desta sentença: "Eu os provocarei a zelos com aquele que não é povo", é interpretada como fazendo alusão ao mundo gentílico. Como Deus há de provocar Israel a zelos por meio de uma gente gentia que não é povo? Mostrando a Israel as bênçãos derramadas sobre os gentios quando estes abraçam Cristo pela fé. Deus não fala mais deles como não sendo "meu povo", mas lhes chama Seu povo. Provocado a zelos ao ver isso, Israel pergunta por que estas bênçãos não hão de pertencer-lhe, e com maior razão; e recebe a segurança de que lhe pertencerão, sobre a mesma base — fé em Cristo. Paulo desenvolve esta esperança no capítulo 11, mas resume esta fase da sua argumentação com o contraste entre duas passagens que aparecem justapostas em Isaías 65. O primeiro ver­sículo daquele capítulo é aplicado aos gentios, que depois de viverem séculos sem o conhecimento do verdadeiro Deus, voltaram-se para buscá-lo. Isaías, diz o apóstolo, vai ao cúmulo da ousadia quanto à linguagem que emprega com relação a eles, atribuindo a Deus estas palavras:

"Fui achado pelos que não me procuravam, revelei-me aos que não perguntavam por mim."

Mas o versículo seguinte aplica-se a Israel:

"Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente."

14. Como, porém, invocarão ...?

Mas o sujeito é indefinido (como em RSV, que diz: "Mas como os homens haverão de invocar...?").



15. Quão formosos são os pés dos que pregam o evangelho de paz e
trazem alegres novas de cousas boas!

A frase "que pregam o evangelho de paz" foi acrescentada ao texto de Paulo em MSS mais tardios (a começar de algumas testemunhas ocidentais) para dar conformidade com a citação de Isaías 52:7 (ver RV, RSV, NEB). Aqui Paulo dá sua própria versão grega do conteúdo subs­tancial do hebraico em vez de reproduzir a LXX, que obscurece o sentido deste versículo.

Em primeira instância, estas palavras se referem aos que levaram da Babilônia a Jerusalém as boas novas de que se haviam passado os dias do cativeiro e a restauração estava próxima. Mas no Novo Testamento, toda esta seção do livro de Isaías, do capítulo 40 em diante, é interpretada como falando da era do Evangelho. A libertação de Israel da Babilônia sob Ciro, como a libertação do Egito nos dias de Moisés, é tratada como a prefiguração da maior e perfeita libertação realizada por Cristo. A voz em Isaías 40:3 que clama pela preparação de uma vereda no deserto pela qual Deus leve Seu povo libertado de volta a Sião, vem a ser a voz de João Batista, convocando no deserto da Judéia um povo preparado para o Senhor; o "ano aceitável do Senhor" (Is 61:2) é proclamado por Jesus no princípio do Seu ministério na Galiléia; e outros exemplos mais do cum­primento desses capítulos aparecem nos versículos que se seguem.

16. Senhor, quem acreditou na nossa informação?

O vocativo "Senhor" é um acréscimo feito pela LXX. Em Isaías53:l a pergunta é feita por aqueles que ouvem o anúncio da exaltação do Servo Sofredor (ver o versículo imediatamente anterior, Is 52:15, citado abaixo, em 15:21). "Quem acreditaria no anúncio que ouvimos?", perguntam cheios de surpresa, quando rememoram a humilhação do Servo. O anún­cio, incorporado na mensagem do Evangelho, ainda é recebido com in­credulidade, Paulo diz — desta vez, não pelos reis e nações de que fala Isaías 52:15, mas pelo povo judeu em massa. Isaías 53:1 é citado em João 12:38 para explicar a razão por que o povo falhou, não crendo em Jesus como o Messias durante o Seu ministério em Jerusalém; forma par ali com a citação de Isaías 6:9, também amplamente divulgada nos pri­mitivos tempos cristãos como um testimonium predizendo a increduli­dade judaica (ver 11:8).

17. A fé vem pela pregação, e a pregação pela palavra de Cristo.

AV: "A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus." "Ouvir" é a mesma palavra "informação" (AV) que ocorre na citação de Isaías 53:1 no versículo anterior (grego: akoe); aqui ela indica a mensagem que é ouvida. Quanto à frase "palavra de Deus", a redação mais bem do­cumentada é "palavra de Cristo" (RV, NEB, AA), i. e., "a pregação de Cristo" (RSV), a mensagem do Evangelho, a qual leva os seus ouvintes a crerem.


  1. Por toda a terra se fez ouvir a sua voz, e as suas palavras até aos con­
    fins do mundo.


É desnecessário supor que Paulo considerava o Salmo 19:4 como predição da disseminação mundial do Evangelho. Ele quer dizer que a disseminação do Evangelho está-se tornando tão universal como a luz irradiada pelos corpos celestes. "A sua voz" (AV: "o seu som") segue a LXX contrariamente a "sua linha". Possivelmente os tradutores da LXX leram qolam ("sua voz") na cópia de que dispunham, em vez de qawwam ("sua linha"). Quanto ao "universalismo representativo"12 envolvido na citação, ver Colossenses l:5s. ("do evangelho, que chegou até vós; como também em todo o mundo"), 23 ("do evangelho (...) foi pregado a toda criatura debaixo do céu").

19. Já Moisés dissera.

A citação é tomada do Cântico de Moisés (Dt 32:21). Mas aqui Moisés representa Deus falando. O Cântico de Moisés deu aos cristãos primitivos um notável número de testimonia — geralmente, mas não ex­clusivamente, sobre o tema da incredulidade judaica (ver 1 Co 10:20, 22, eco de Dt 32:16s.; Fp 2:15, eco de Dt 32:5; Hb 1:6, citação de Dt 32:43, LXX).13 Os escritores posteriores das apologias anti-judaicas conside­ravam como ponto forte em sua argumentação o fato de que neste Cân­tico o próprio Moisés testifica contra os judeus (ver Justino, Diálogo com Trifo 20, 119, 130). Parece também que o Cântico desempenhou papel importante no pensamento teológico da comunidade de Qumran.14

Eu vos porei em ciúmes com um povo que não é nação. AV: "com aqueles que não são povo". Porque tinham provocado ciúmes em Deus cultuando um "não-deus" (hebraico Io '-'et), Deus os poria em ciúmes por meio de um "não-povo" (heb. lo'-'am). Significa que no transcurso da história Ele usou esta ou aquela nação gentílica como instrumento do Seu juízo sobre Israel — gente que os israelitas consideravam como "não-povo" no sentido de que não entrara no propósito da eleição divina para ser um povo nos termos em que Israel o era. Mas, à luz das passagens já citadas de Oséias (ver 9:25s.), Paulo reinterpreta essas palavras com referência à nova situação do Evangelho. Para alguém acostumado com a Bíblia dos hebreus, como Paulo estava, a comparação do lo'-'am de Moisés com o lo'-'ammi de Oséias (ver p. 159) vinha à lembrança pron­tamente (mais do que a alguém que dependesse exclusivamente da LXX).

Em que termos Paulo entendeu a provocação feita pelos gentios a Israel, levando-o a ter ciúme, vê-se abaixo em 11:11.



Com gente insensata eu vos provocarei à ira. Os gentios eram insen­satos (AV: "loucos") do ponto de vista judaico; no sentido de que es­tavam alienados do conhecimento de Deus.

20. E Isaías a mais se atreve.

Quer dizer, vai a extremos de ousadia, ainda além do ponto alcan­çado por Moisés, em sua afirmação do paradoxo de dar Deus Suas misericórdias pactuais aos que não eram Seu povo e não tinham direito àquelas misericórdias.

Fui achado pelos que não me procuravam. ... Em seu contexto original, estas palavras de Isaías 65:1 talvez se refiram a Israel em sua rebelião (ver RSV: "Eu estava pronto para ser procurado por aqueles que não perguntavam por mim. ..."); mas, da mesma forma como em sua aplicação da profecia de Oséias, Paulo reconhece aqui um princípio que, na situação dos seus dias, era aplicável aos gentios.

21. Quanto a Israel, porém, diz.

Se Paulo acha Isaías 65:1 aplicável ao fato de os gentios aceitarem avidamente o Evangelho, acha igualmente Isaías 65:2 aplicável ao fato de os judeus em geral o rejeitarem.

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