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d. O propósito de Deus para Israel (11:1-29). (1) A alienação de Israel não é final (11:1-16).

Israel podia ser "um povo rebelde e contradizente", mas Deus nâo os proscrevera agora mais fortemente do que o fizera em dias anteriores, quando rejeitava a palavra divina mediante Moisés e os profetas. "Aos que de antemão conheceu, também os predestinou" é um princípio não omitido no caso de Israel. Como nos tempos do Velho Testamento, assim também nos tempos apostólicos, o propósito de Deus na escolha do Seu povo era salvaguardado por Sua preservação de um remanescente fiel. Na época de Elias, num período em que a apostasia nacional assumira as dimensões de um desmoronamento, havia uma pequena minoria fiel de sete mil que negou culto a Baal; e assim havia nos dias de Paulo uma pequena minoria fiel que não rejeitara o Evangelho. Paulo devia saber, pois era um deles. Sua descendência de Abraão por meio de um dos filhos de Israel estava bem estabelecida, e contudo era crente em Jesus, como o eram muitos outros dos seus compatriotas "segundo a carne". Consti­tuíam um remanescente fiel, escolhido pela graça de Deus, e sua existên­cia era, em si mesma, uma prova de que Deus não abandonara a Israel, nem renunciara ao Seu propósito para ele. Mesmo que Israel em massa tivesse falhado em alcançar Seu propósito, o remanescente eleito o cum­priria. A cegueira que afetava a maioria fora prevista por Deus (aqui se aduzem mais três testimonia, em acréscimo ao testimonium da "pedra" composta de 9:33 — um de Isaías, um de Deuteronômio e um do Sal-tério). Mas esta condição não deveria ser permanente.

Israel tinha tropeçado, mas não caíra a ponto de não poder levantar-se mais. Por seu tropeção, as bênçãos do Evangelho foram estendidas mais imediatamente aos gentios. Em Atos dos Apóstolos, a recusa re­petida da comunidade judaica, de um lugar ou de outro, em aceitar a sal­vação oferecida é que dá ocasião aos apóstolos para a apresentarem diretamente aos gentios. "Cumpria que a vós outros em primeiro lugar fosse pregada a palavra de Deus", disseram Paulo e Barnabé aos judeus de Antioquia da Pisídia; "mas, posto que a rejeitais e a vós mesmos vos julgais indignos da vida eterna, eis aí que nos volvemos para os gentios" (At 13:46; ver 28:28). Se os judeus tivessem aceitadoo Evangelho, teriam o privilégio de torná-lo conhecido aos gentios; como aconteceu porém, os gentios o ouviram sem a instrumentalidade deles. Mas se o tropeção de Israel dera ocasião a muitas bênçãos para os gentios, que haveria de sig­nificar o despertamento e restauração de Israel senão uma verdadeira ressurreição!

Paulo se dirige então mais pessoalmente aos gentios, dentre os seus leitores, que talvez se inclinassem a ter em pouca conta os seus irmãos judeus, e a não ter a mínima consideração por aqueles judeus que não aceitaram o Evangelho. "Sou judeu de nascimento", diz ele, "sou o após­tolo dos gentios, e tenho em mui alta conta a honra da minha missão. Faço isso não somente por amor dos gentios a quem levo o Evangelho, mas também por amor dos meus irmãos judeus. Quero incitá-los ao ciúme, quando virem os gentios entrando no pleno gozo das bênçãos do Evangelho. Quero fazer com que digam: 'Por que os gentios deveriam ter todas estas bênçãos? Por que nós não deveríamos partilhar delas?' Bem pode ser que falem assim, pois estas bênçãos são o cumprimento da es­perança dos seus antepassados; eles estão ligados pela fé ao seu próprio Messias. E quando por fim Israel como um todo for estimulado a reivin­dicar o Messias com todas as bênçãos que Ele traz, as palavras não podem descrever a bênção que a sua conversão representará para o mun­do."

Esta consumação não é um sonho ocioso, sustenta Paulo; tem a garantia do indefectível propósito de Deus. O primeiro pão da fornada já foi apresentado a Deus, e sua consagração significa que toda a fornada é santa para Ele. "A raiz da árvore é santa, e os ramos participam inevi­tavelmente da sua santidade."

1. Terá Deus, porventura, rejeitado o seu povo?

Esta interrogação (estruturada em grego de molde a requerer a res­posta "Não"), e a afirmação do versículo 2: "Deus não rejeitou o seu povo...", são um eco da terminologia empregada na LXX para o Salmo 94:14: "O Senhor não rejeitarão seu povo" (ver 1 Sm 12:22).

Da descendência de Abraão. AV: "Da semente de Abraão." Aqui a frase é usada tanto no sentido natural como no sentido espiritual (ver 2 Co 11:22).

Da tribo de Benjamim. (Ver Fp 3:5.) É uma "coincidência não proposital" entre as epístolas paulinas e Atos que, enquanto somente pelas primeiras ficamos sabendo que Paulo era da tribo de Benjamim, somente este nos informa que o nome judaico dele era Saulo (AV: "Saul"). Não é surpreendente que pais que eram descendentes da tribo de Benjamim e acariciavam altas ambições para seu filho recém-nascido lhe dessem o nome do mais ilustre membro daquela tribo, na história de Israel — "Saul, filho de Quis, da tribo de Benjamim" (para citar a re­ferência feita pelo próprio Paulo ao primeiro rei de Israel, em At 13:21, RV).

2, 3. Ou não sabeis o que a Escritura refere.

A referência aqui é a 1 Reis 19:10, 14, onde quem fala é de fato Elias.

A respeito de Elias. Leia-se "em Elias", pois parece que "Elias" ali é o título daquela seção dos livros de Reis (talvez 1 Rs 17:1—2 Rs 2:18) de onde foi tirada a citação (ver Mc 12:26, onde "no trecho referente à sar-ça", AV: "em a sarça", significa: "na seção do livro de Êxodo intitulada 'A Sarça' ").

4. A resposta divina.

AV: "A resposta de Deus." Grego: chrêmatismos, empregado para significar uma resposta divina, como o verbo transitivo chrêmatizõ (ver Mt 2:12, 22; Lc 2:26; Hb 8:5, 11:7, 12:25).

Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram joelhos. ... Citação de 1 Rs 19:18, mais próxima do texto hebraico do que da LXX (que diz: "Tu reservarás ...") — embora não haja nada no texto hebraico (nem na LXX) correspondente a "para mim". A melhor tradução do tex­to hebraico é com o verbo no futuro: "Contudo, deixarei. ..." (RV; ver RSV) — sendo a referência ao remanescente de apenas sete mil que sobreviveriam à matança que seria feita pelas espadas de Hazael, Jeú e Eliseud Rs 19:17).

Diante de Baal. AV: "À imagem de Baal." Como AV o demonstra por meio de itálicos, não há nenhuma palavra no texto grego (nem no texto hebraico subjacente) correspondente a "imagem". Os tradutores a introduziram numa tentativa de fazer justiça ao estranho fenômeno de o substantivo masculino Baal vir precedido da forma feminina do artigo definido (te). Esta redação de 1 Rs 19:18 não se acha nos MSS da LXX existentes, mas evidentemente reflete um texto hebraico em que o nome idolátrico de Baal era marcado para ser substituído (pelo menos nas leituras em público) pelo substantivo feminino bosheth, "vergonha".

6. E se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça.

AV acrescenta: "Mas se é pelas obras, então não é mais graça; do contrário, as obras já não são obras." Esta intrusão no argumento de Paulo não faz parte do texto original (ver RV, RSV, NEB). Provavelmen­te foi escrita como nota marginal por algum escriba ou leitor que achava que podia estabelecer o inverso do princípio firmado na primeira metade do versículo, e depois foi incluída no texto por engano.


  1. E os mais foram endurecidos (assim em RV e RSV; AV: "foram cegados").

O verbo gregopõroõ significa "endurecer" ou "tornar insensível", e não "cegar" (ver o substantivo põrõsis no versículo 25, traduzido por "cegueira" em AV, NEB, e por endurecimento" em RV, RSV, AA). No idioma inglês moderno (como em português) o termo "cegueira" é li­vremente empregado para indicar insensibilidade moral. Daí NEB: "Os mais foram tornados cegos para a verdade." Se se perguntar quem os tor­nou cegos, o versículo 8 dá clara resposta. Não é a primeira vez nesta epístola (ver 1:21, 9:17s.)15 que Paulo diz que tal insensibilidade moral é infligida por Deus como penalidade judicial pela recusa em dar ouvidos à palavra divina.

  1. Deus lhes deu espírito de entorpecimento, olhos para não ver e ou­ vidos para não ouvir, até ao dia de hoje.

Citação de Isaías 29:10 ("O Senhor derramou sobre vós o espírito de profundo sono, e fechou os vossos olhos") e Deuteronômio 29:4 ("O Senhor não vos deu coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até ao dia de hoje"). A referência a olhos que não vêem e a ouvidos que não ouvem é reminiscência também de Isaías 6:9s. ("Ouvi, ouvi, e não entendais; vede, vede, mas não percebais"), usado pelos quatro evangelistas como um testimonium do fracasso dos judeus não reconhecendo Jesus como o Messias (Mt 13:14s.; Mc 4:12; Lc 8:10; Jo 12:40; ver também At 28:26s.). (Ver nota sobre 10:16, p. 169.)

A palavra traduzida por "entorpecimento" em AA, "sonolência" em AV e "torpor" em RV e RSV, ékatanuxis (assim em Is 29:10, LXX), que significa literalmente "picada" ou "ferroada", e daí vem a ser usada também com referência ao entorpecimento resultante de certas espécies de picada (NEB acordemente traduz: "entorpecimento de espírito").

Não há boa razão para o fato de AV colocar todo este versículo, menos as três últimas palavras, entre parênteses. "Até ao dia de hoje" é parte da citação de Deuteronômio 29:4.

9. Ediz Davi: Torne-se-lhes a mesa em laço e armadilha...

Os versículos 9 e 10 foram tomados do Salmo 69:22s. (LXX). Este salmo era de uso generalizado na igreja, desde os seus primeiros dias, como um testimonium do ministério, e principalmente da paixão de Cristo (ver a alusão ao versículo 4 em Jo 15:25; ao v. 9 em Jo 2:17 e 15:3; ao v. 21 em Mt 27:48). Se quem fala no salmo é Cristo, aqueles contra os quais são apresentadas queixas, são interpretados como Seus inimigos (ver a aplicação do versículo 25 a Judas Iscariotes em Atos 1:20). Obser­vemos a repetição do tema dos olhos que não vêem (v. 10, citando o Sl 69:23); aqui jãz a principal relevância da citação para o presente ar­gumento de Paulo — a "cegueira" temporária que dominou Israel, com a exceção do remanescente crente.

11. Pela sua transgressão veio a salvação aos gentios, para pô-los em


ciúmes.

Esta é a interpretação que Paulo dá das palavras do Cântico de Moisés (Dt 32:21) já citadas em 10:19. É pela bênção que dá àqueles que antes eram "não-povo" com relação a Ele, pela salvação que "uma nação insensata" recebeu por sua pronta aceitação do Evangelho, que Deus provocará ciúmes em Israel.

12. Quanto mais a sua plenitude?

A "plenitude" (plêrõma) dos judeus deve ser entendida no mesmo sentido da "plenitude" dos gentios (v. 25). A conversão do mundo gen-tílico em larga escala deve seguir-se da conversão em larga escala de Israel (ver v. 26).

15. Vida dentre os mortos.

O sentido talvez seja que a conversão de Israel será precursora imediata da ressurreição, para coincidir com a parousia de Cristo (ver a nota sobre 11:26,pp. 179s.).



16. Se forem santas as primícias da massa, igualmente o será a sua
totalidade.

A alusão é provavelmente a Números 15:17-21, onde os israelitas recebem ordem para oferecer a Deus um bolo feito com massa de farinha da primeira colheita, de trigo recém-trilhado na eira. A apresentação desse bolo a Deus santifica a fornada toda. Em 1 Coríntios 15:23, onde se fala de "Cristo, as primícias", embora a palavra (grego: aparche) seja a mesma, a alusão é mais ao feixe dos primeiros produtos da colheita de cevada que devia ser "movido" diante do Senhor no domingo seguinte à Páscoa, consagrando assim toda a colheita (Lv 23:10s.)- Aqui as "pri-mícias" abrangem, com toda a probabilidade, aqueles judeus de nas­cimento que, como Paulo, aceitaram a Jesus como Messias e Senhor.



Se for santa a raiz, também os ramos o serão. Mudando a metáfora, Paulo diz agora que, como uma árvore é, toda ela, de um só caráter, a santidade da raiz santifica os ramos. É natural dar à "raiz" o mesmo sen­tido de "primícias", mas se a figura da raiz e dos ramos for independen­te, devemos pensar nos patriarcas como constituindo a raiz da árvore cujos ramos são os israelitas da era cristã. Isso estaria de acordo com a descrição posterior que Paulo faz de Israel como "amados por causa dos patriarcas" (versículo 28). Ê possível que haja uma transição de pen­samento aqui, quando Paulo passa de uma figura a outra.10

(2) A parábola da oliveira (11:17-24).

A referência à raiz e aos ramos leva Paulo a desenvolver sua parábola da oliveira — parábola freqüentemente citada contra ele para mostrar que era um típico habitante de cidade, não afeito aos mais elementares fenômenos do campo. Pois um jardineiro não faz enxerto de uma fruteira silvestre numa fruteira cultivada; é um renovo ou broto tirado de uma ár­vore cultivada que deve ser enxertado no tronco de uma planta da mesma espécie. Sir William Ramsay, com efeito, citaTeobaldo Fischer, que teria dito que era costume na Palestina, há 60 anos, "revigorar uma oliveira que já está cessando de frutificar, enxertando nela um broto de oliveira silvestre, e assim a seiva da árvore enobrece este broto selvagem, e a ár­vore recomeça a dar fruto".17 Um processo parecido era comum nos tempos romanos. Columella, contemporâneo de Paulo, evidencia isso pois, segundo ele, quando uma oliveira está produzindo mal, faz-se nela o enxerto de uma oliveira silvestre, o que dá novo vigor à árvore.18

De qualquer forma, a parábola de Paulo é clara. Eis duas oliveiras — uma cultivada e a outra silvestre. Esta produzia frutas pobres, com pouco óleo; a primeira normalmente produzia bons frutos. A oliveira é Israel, o povo de Deus; a oliveira silvestre é o mundo gentílico. Mas a oliveira foi-se enfraquecendo e ficando improdutiva. Portanto, os ramos velhos foram cortados e foi feito um enxerto da oliveira silvestre. "A poda dos ramos velhos era necessária para permitir que o ar e a luz atingissem o enxerto, e também para impedir que a vitalidade da árvore se difundis-se demais por um grande número de galhos" (W. M. Ramsay, op. cit., p. 224). O enxerto tirado da oliveira silvestre é a soma total dos crentes gen­tios, agora incorporados no povo de Deus; os galhos velhos cortados são os judeus que rejeitaram o Evangelho.

É-nos dito que esse enxerto incomum afeta o renovo enxertado e o tronco que o recebeu. O tronco velho é revigorado pelo enxerto novo e, por seu turno, o enxerto novo, alimentado pela seiva do tronco da oli­veira, pode produzir frutos que a oliveira silvestre jamais poderia pro­duzir.

Os cristãos gentios não se devem render à tentação de mostrar des­dém aos judeus. Não fora a graça de Deus que os enxertou no Seu povo e fez deles "concidadãos dos santos" (Ef 2:19), teriam permanecido para sempre sem vida e sem frutos. A nova vida que os capacita a produzir frutos para Deus é a vida do velho tronco de Israel, no qual foram enxer­tados. Israel não lhes deve nada; eles são devedores a Israel. E se re­plicam que ao menos são melhores do que os judeus descrentes, ramos cortados, são exortados a aprender a salutar lição dada pela remoção daqueles ramos velhos. Por que foram cortados? Por causa da incre­dulidade. E se um espírito de orgulho levar o renovo enxertado — a igreja gentílica — a esquecer que a sua segurança está na graça divina e a per-mutar a sua fé em Deus pela confiança em si mesmo, sofrerá o mesmo destino dos ramos velhos: será cortado também. Pela fé se adquire e se mantém a relação de membro do verdadeiro povo de Deus; pela incre­dulidade esse bem é confiscado. Este princípio, afirma Paulo, é aplicado sem parcialidade, tanto a gentios como a judeus. Por outro lado — e aqui os processos práticos de enxertar certamente são deixados para trás, por amor dos fatos espirituais que a parábola visa a ilustrar — se os judeus que pela descrença perderam sua posição de membros do verdadeiro Israel vierem afinal a crer em Cristo, serão incorporados de novo no povo de Deus. Se os ramos velhos que tinham sido cortados fossem uma vez mais enxertados na árvore de origem e tornassem a produzir fruto, seria um milagre sem precedentes na esfera natural. Igualmente, a reincor-poração da nação judaica no povo de Deus quando a incredulidade é substituída pela fé, seria um milagre na esfera espiritual. Mas, diz o após­tolo, é um milagre que Deus vai realizar.

20. Mediante a fé estás firme.

AV: "Pela fé". "Pela fé" é enfático: "pela fé você mantém o seu lugar"(NEB). Ver5:2(p. 100).

22. Mas para contigo, a bondade de Deus.

A expressão "de Deus", que consta do texto grego, falta em AV. (RSV: "bondade de Deus"; NEB: "bondade divina".) Ver 2:4.

Se nela permaneceres; doutra sorte também tu serás cortado. Em AV aparece aqui o qualificativo divino da referida bondade: "Se permaneceres em sua bondade." Em todo o Novo Testamento a continui­dade é o teste da realidade. A perseverança dos santos é doutrina fir­memente alicerçada no ensino do Novo Testamento (e não menos no en­sino paulino). Mas o seu corolário é que são os santos que perseveram. Desde que "mediante a fé estás firme" (v. 20), é salutar exercício atender à injunção de Paulo aos cristãos de Corinto: "Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé" (2 Co 13:5).

24. Contra a natureza.

É possível que Paulo tenha pensado em desarmar por antecipação a crítica mostrando que está ciente do caráter antinatural da espécie par­ticular de enxerto aqui descrita. Mas ele não tem necessidade de ir além de dizer que o próprio processo de enxerto é que é "contra a natureza" — idéia comum aos antigos.

(3) A restauração de Israel (11:25-29).

Aqui está o mistério do propósito de Deus para Israel — propósito anteriormente oculto mas agora tornado conhecido. A cegueira de Israel é apenas parcial (pois alguns israelitas já foram iluminados), e apenas temporária, com um exame da bênção dos gentios. No que concerne à proclamação do Evangelho, a ordem é: "Ao judeu primeiro." No que concerne à recepção do Evangelho, a ordem é: "Pelo gentio primeiro, e depois pelo judeu." Quando se completasse o número total dos gentios cristãos — consumação que o próprio apostolado de Paulo estava tornan­do mais próxima — então, todo o Israel, não um remanescente fiel mas a nação como um todo, veria a salvação de Deus. Se o tropeção temporário de Israel foi predito profeticamente, também o foi a sua restauração úl­tima e permanente (Is 59:20s. e Jr 31:33 são citados com este fim). A nova aliança não se completará enquanto não abranger o povo da velha alian­ça. Temporariamente alienado, para vantagem dos gentios, Israel é eter­namente objeto do amor eletivo de Deus porque as Suas promessas uma vez feitas aos patriarcas, não podem ser revogadas.

Já se levantou a objeção de que Paulo aqui deixa o seu patriotismo anular a sua lógica.'9 Ele acentuou mais de uma vez na epístola que a descendência natural dos patriarcas não é o que importa, aos olhos de Deus, e agora diz que, por causa das promessas feitas por Deus aos patriarcas, os seus descendentes naturais têm de ser restaurados à relação pactuai com Ele. Talvez bastasse dizer: "O coração tem suas razões ..."; mas aqui há mais que isso para se dizer. Paulo tinha compreensão da graça de Deus mais profunda e mais clara do que os seus críticos. Se a graça de Deus operasse de acordo com a lógica estrita, a perspectiva seria medonha tanto para os judeus como para os gentios.

Um ponto mais: em tudo que Paulo diz sobre a restauração de Israel a Deus, não diz nada sobre a restauração de um reino davídico terreno, nada diz sobre algum restabelecimento nacional na terra de Israel. O que divisou para o seu povo foi algo infinitamente melhor.

25. Não quero (...) que ignoreis este mistério.

Pela palavra "mistério" provavelmente Paulo quer dizer que aquilo que se segue é uma nova revelação recebida por ele (ver 1 Co 15:51; Cl l:26s.). O princípio do remanescente referido nos versículos 1-7 era as­sunto de antiga revelação profética. Que "todo o Israel" ainda seria salvo era uma nova revelação, transmitida por intermédio de Paulo. Ele tem sido acusado de querer comer o seu pedaço de bolo e ao mesmo tempo conservá-lo, ou seja, de consolar-se com a idéia de "um remanescente segundo a eleição da graça" e ao mesmo tempo insistir na total restau­ração de Israel. Mas se a sua pretensão de ter recebido uma nova reve­lação for encarada com seriedade, não será razoável censurá-lo. Além disso, mesmo na profecia do Velho Testamento, o remanescente do an­tigo Israel era, ao mesmo tempo, o núcleo do novo Israel. E assim aqui também: a existência do remanescente que crê é a garantia da salvação final de "todo o Israel".



Até que haja entrado a plenitude dos gentios. Ver 15:16 ("oferta dos gentios", AV) e 15:18 ("obediência dos gentios", RV) — expressões praticamente sinônimas da presente. A introdução da "plenitude" ou da plena completação (plêrõma) dos gentios deve seguir-se da "plenitude" dos judeus (v. 12).

26. E assim todo o Israel será salvo.

É impossível sustentar uma exegese que tome "Israel" aqui em sen­tido diferente de "Israel" no versículo 25: "Veio endurecimento (ou "cegueira") em parte a Israel". Quanto ao argumento de que Paulo não diz: "e então todo o Israel será salvo", mas, "e assim todo o Israel será salvo" (como se a colheita do número completo dos gentios fosse só por si a salvação de todo o Israel), basta apontar para o bem fundamentado emprego do grego houtõs ("assim", "desta forma") em sentido temporal. "Todo o Israel" é expressão que aparece repetidamente na literatura judaica, onde não significa necessariamente "todo judeu sem uma única exceção", mas, "Israel como um todo". Assim, "todo o Israel tem um quinhão na era por vir", diz o tratado do Mishnah sobre o Sinedrim (X. 1), e passa imediatamente a mencionar os israelitas que não têm quinhão nela.

Virá de Sião o Libertador; ele apartará de Jacó as iniqüidades. Citação de Isaías 59:20: "E ele virá a Sião como Redentor, para aqueles de Jacó que se voltarem da transgressão" (RSV). O texto de Paulo se har­moniza com a LXX, exceto em que a LXX diz: "por amor de Sião", e não: "de Sião". Seja qual for a forma do texto adotada, a referência é à manifestação a Israel do seu divino Redentor — manifestação que em sua mente Paulo bem pode ter identificado com a parousia de Cristo. Ver nota sobre o versículo 15 (p. 175). Ãs vezes se dá uma interpretação pa­recida a Atos 3:19-21 e 2 Coríntios 3:16.

27. Esta é a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados.


Em suas poucas palavras iniciais, Paulo continua a citação de Isaías

59 (o versículo 21 diz: "Quanto a mim, esta é a minha aliança com eles, diz o Senhor"), mas então passa para a promessa da nova aliança regis­trada em Jeremias 31:33: "Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel (...) perdoarei as suas iniqüidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei" (ver notas sobre 7:6, p. 119e8:4, p. 131).



28. Quanto ao evangelho, são eles inimigos por vossa causa.

A presente alienação de Deus, da parte dos israelitas, deu ocasião para vocês, gentios, abraçarem as bênçãos do Evangelho e se reconci­liarem com Deus.



Quanto, porém, à eleição, amados por causa dos patriarcas. Estas palavras têm sido interpretadas em termos dos "méritos dos pais" (hebraico zekhuth ha'aboth) — doutrina judaica de que a justiça dos patriarcas constitui um depósito de méritos creditados na conta dos seus descendentes. Mas não é isto que Paulo quer dizer aqui. Toda a argu­mentação desta epístola é contrária a essa concepção de mérito (ver 4:2). O que quer dizer é que as promessas feitas por Deus aos patriarcas quan­do os chamou, são asseguradas aos seus descendentes, não com base nos méritos, mas com base na fidelidade de Deus para com a Sua palavra.
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