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e. O propósito de Deus para a humanidade (11:30-36).

O propósito último de Deus para o mundo é revelado agora. É misericórdia tanto para judeus como para gentios. O remanescente fiel não foi escolhido pela graça de modo que o restante fosse destinado à perdição. Sua eleição é um sinal de que a misericórdia divina há de esten­der-se a todos, sem distinção (ver 8:19-21). Há um inconfundível univer­salismo na linguagem de Paulo aqui, conquanto seja um universalismo escatológico, e não atual, ou representativo, e não individual.20

"Todos pecaram e carecem da glória de Deus", Paulo já anunciara (3:23). Todos foram feitos réus convictos perante o tribunal de Deus. Ninguém, quer judeu, quer gentio, pode reclamar qualquer direito à Sua misericórdia. Se deve haver esperança para alguém, esta tem de depender explusivamente da graça de Deus. Mas a esperança é oferecida em medida ilimitada. O propósito de Deus ao encerrar judeus e gentios jun­tos num lugar onde a desobediência deles à Sua lei precisa ser reco­nhecida e trazida à luz, era dar Sua imerecida misericórdia igualmente a judeus e a gentios.

Aqui, pois, está a elevação do grandioso argumento de Paulo; eis aqui motivo para incessante louvor a Deus. A doxologia dos versículos 33-36 não arremata apenas os capítulos 9-11; ela conclui toda a argumen­tação dos capítulos 1-11: "Õ impenetrável riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os Seus decretos! Quão inescrutáveis os seus caminhos! Bem falou o profeta:

'Quem captou o desígnio do Senhor?

Quem do Seu conselho partilhou?

Quem algo Lhe deu primeiro a Ele,

que devesse ser-lhe devolvido?'

Dele todas as coisas procedem; por meio dele todas as coisas exis­tem; a Ele todas as coisas retornam: a Ele seja a glória por todos os sé­culos. Amém."

32. A fim de usar de misericórdia para com todos.

Isto é, a todos sem distinção, e não a todos sem exceção. Paulo não está pensando aqui naqueles que, como Faraó em 9:17, persistentemente recusam a misericórdia divina. "Não é sua intenção fazer um pronun­ciamento terminante acerca do destino final de cada ser humano indi­vidualmente considerado. Mas a esperança da humanidade é mais, e não menos, segura, porque tem suas raízes na verdade concernente a Deus, e não numa verdade concernente ao homem." (C. L.Barrett, adloc.)

34. Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? ou quem foi o seu con­selheiro?

Eco de Isaías 40:13: "Quem guiou o Espírito do Senhor? ou, como seu conselheiro, o ensinou?"

35. Ou quem primeiro lhe deu a ele para que lhe venha a ser restituído?

Eco de Jo 41:11: "Quem primeiro me deu a mim, para que eu haja de retribuir-lhe?"

Notas
1. Teodicéia, no sentido etimológico de justiça (ou justificação) de Deus. Termo criado por Leibniz para expressar a teologia natural como suficiente para provar a existência e a bondade de Deus. N. do Tradutor.

2. Título dado aos capítulos 9-11 no comentário de C. H. Dodd e em NEB. W. Man-son intitula-os de "A Justiça de Deus na História" (New Testament Essays in Memory ofT. W. Manson, p. 164) — que expõe ainda melhor a integração deles no tema central da epís­tola.



3. A conjetural correção de ho on para hon ho, como se a frase significasse "de quem (finalmente) é Deus ...", não tem muita coisa em seu favor.

  1. Grego: Bemati tou Theou ("tribunal de Daus"). N. do Tradutor.

  1. J. W. Burgon, The Revision Revised (1883), p. 214. Quanto à idéia de que aqui Paulo chama Cristo de "Deus", ver o comentário de A. Nygren, adloc; também I. Munck, Christus und Israel (Copenhagen, 1956), p. 29s.; O. Cullmann, TheChristology oftheNew Testamení (1959), p. 312s. Quanto à opinião alternativa, o comentário de C. H. Dodd, ad loc; V. Taylor, "Does the New Testament Call Jesus God?" ExT, LXXIII (1961-62), p.116ss.

  2. "Saved", "saving". N. do Tradutor.

  3. Ver nota sobre o versículo 3 (p. 150).

  4. Ver Ef 2:20. Ver também "The Côrner-Stòne of Scripture" em S. H. ooke, The Siege Perilovs, p. 235ss.

  5. Na literatura de Qumran, a comunidade de Qumran é identificada com esta pedra preciosa, angular (ver G. Vermes, The Dead Seu Scrolls in English, p. 38).

  6. Prsher, palavra hebraica que quer dizer "explicação", "interpretação".

  7. AA: "A indagação de unia boa consciência". Grego: eperõtema, que pode sig­nificar resposta, indagação, exigência. Calvino (s/comentário, in loco, adota o sentido de resposta ou testemunho.

  1. Verp. 180 n. 20.

  1. Ver J. R. Harris, "A factor of Old Testament influence in the New Testament", ExT, XXXVII (1925-26), p. 6ss.; B. Lindars, New Testament Apulogetic (1961), p. 244s.,258, 274.

  2. Quanto a uma citação em Qumran de Dt 32:28 contra Israel, ver G. Vermes, The Dead Sea Scrolls in English, p. 102.

  3. Uma palavra diferente (sklèntno) é empregada para indicar o endurecimento do coração de Faraó em 9:18, mas o sentido não difere muito do de põroõ aqui.

  4. Naturalmente, é possível interpretar as "primícias" do versículo 16 como referên­cia aos patriarcas, mas esta interpretação é menos verossímil.

  5. Pauline and Other Studies (1906), p. 223.

  6. Columella, De re rústica, v. 9.

  7. Assim A. Harnack, The Dule ofthe Acts and of lhe Synoptic Cospels (1911), p. 40-66; "o judeu nele", diz Harnack, "ainda era muito forte" (p. 61).

20. Universalismo esoatológico refere-se à esperança de que finalmente "os eleitos serão o mundo todo" (C. H. Spurgeon, citado em A. C. Benson, The Life ofEdward White Benson, ii, 1900, p. 276), que "no desenvolvimento da raça dos homens através de longas eras, o mundo alcançará afinal completa salvação, e nossos olhos se deliciarão com o glorioso espetáculo de um mundo salvo" (B. B. Warfield, Biblical and Theologica!Studies, Philadelphia, 1952, p. xxx). Universalismo representativo é a idéia de que "houve uma aceitação representativa do Evangelho por várias nações" (J. Munck, Paul and the Sal-vationofMankind, 1959,p. 278). Verpp. 136ss., 170,211.
B. MODO CRISTÃO DE VIVER (12:1-15:13). 1. Sacrifício Vivo (12:1, 2).

Em vista de tudo quanto Deus fez por Seu povo em Cristo, como Seu povo deve viver? Deve apresentai"-se a Deus como "sacrifício vivo", con­sagrado a Ele. Os sacrifícios de animais, oferecidos numa época anterior, tornaram-se obsoletos graças à oferta que Cristo fez de Si mesmo. Mas sempre há lugar para o serviço divino prestado por corações obedientes. Em vez de viverem pelos padrões de um mundo em desacordo com Deus, os crentes são exortados a deixar que a renovação das suas mentes, pelo poder do Espírito, transforme as suas vidas harmonizando-as com a von­tade de Deus.

A Bíblia nunca ensina uma doutrina para torná-la simplesmente conhecida. Mas ela é ensinada para que seja transferida para a prática. "Se sabeis estas cousas, bem-aventurados sois se as praticardes" (Jo 13:17). Daí, Paulo repetidamente apresenta uma exposição doutrinária, após uma exortação ética, interligando ambas, como aqui, pela conjiin-ção "pois" ou equivalente (ver Ef 4:1; Cl 3:5).

Além disso, é digno de nota que as admoestações éticas desta e doutras epístolas do Novo Testamento, quer sejam ou não de Paulo, têm forte semelhança com o ensino ético de Cristo registrado nos evangelhos. Na verdade, elas se baseiam na "lei de Cristo", como lhe chama Paulo (Gl 6:2; ver 1 Co9:21).

De maneira particular, pode-se traçar uma impressionante lista de paralelos entre 12:3-13:14 e o Sermão do Monte. Embora não existisse nesse tempo nenhum dos nossos evangelhos canônicos, o ensino de Cristo registrado neles era corrente nas igrejas — certamente em forma oral, e talvez também na forma de sumários escritos.

1. Que apresenteis os vossos corpos.

Ver 6:13, 19; o verbo grego aqui é o mesmo que ali é traduzido por "oferecer". Agora Paulo expõe com mais pormenores aquilo que está en­volvido em apresentar-se os cristãos a Deus para serem usados no Seu serviço.

Sacrifício vivo. A nova ordem tem os seus sacrifícios, que não consis­tem nas vidas de outrem, como os antigos sacrifícios de animais (ver Hb 13:15s.; lPe2:5).

O vosso culto racional. AV e RV: "O vosso serviço racional" ou "razoável". RVmg. e RSV traduzem: "Vosso culto espiritual"; NEB: "O culto oferecido pela mente e pelo coração" (mg: "O culto que vocês, como criaturas racionais, devem oferecer"). O substantivo é latreia, já usado em 9:4 com referência ao "serviço de Deus" (AV, RV) ou o "culto" (RSV, AA; ver NEB: "o culto do templo") instituído para os israelitas. O adjetivo é logikos (derivado de logos), que pode significar "razoável", "racional" (o serviço prestado por vidas obedientes é a única resposta razoável ou lógica à graça de Deus)' ou "espiritual", como em 1 Pedro 2:2, onde o "leite da palavra" (AV) é expressão traduzida mais apro­priadamente por "leite espiritual" em RV, RSV, NEB e AA. Aqui talvez seja preferível "culto espiritual", em contraste com as exterioridades do culto do templo de Israel.

2. E não vos conformeis com este século.

AV: ". . com este mundo". "Este século" (aiõn), como em 1 Corín-tios 1:20, 2:ó, 3:18; 2 Coríntios 4:4; Gálatas 1:4, distingue-se de "século vindouro" (como ocorre em Ef 1:21: "não só no presente século, mas também no vindouro"). Conquanto seja chamado "Este inundo perver­so" (ou "este presente século mau") (Gl 1:4, RVmg.), e seja dominado pelo "deus deste século" que cega a mente dos incrédulos (2Co4:4, RV­mg. e AA), ainda assim é possível às pessoas pertencer temporariamente a "este século" para viverem como herdeiros do século vindouro, da era de renovação e ressurreição. São aqueles sobre os quais "os fins dos séculos têm chegado" (RV, AA), para os quais, visto que são "uma nova criação" em Cristo, "as cousas antigas já passaram, eis que se fizeram novas" (2 Co 5:17, RSV). É pelo poder do Espírito neles, penhor da sua herança no século vindouro, que podem resistir à tendência de viverem ao nível "deste século".

Transformai-vos. O verbo grego é metamorphoõ, traduzido por "transfigurar-se" nas narrativas da transfiguração em Mateus 17:2; Marcos 9:2. O único outro lugar onde aparece no Novo Testamento é 2 Coríntios 3:18, referindo-se aos crentes "transformados" na imagem do Filho "de glória em glória" (ou "de um grau de glória a outro", RSV) pela operação do "Senhor, o Espírito" — passagem que é útil comentário a este.

2. A Vida Comum dos Cristãos (12:3-8).

A marca das obras das mãos de Deus é a diversidade, não a unifor­midade. Assim é com a natureza; é assim também com a graça, e em nenhum lugar mais do que na comunidade cristã. Nesta há muitos ho­mens e mulheres das mais diversas espécies de origem, ambiente, tem­peramento e capacidade. E não só isso, mas, desde que se tornaram cris­tãos, são também dotados por Deus de uma grande variedade de dons es­pirituais. Entretanto, graças a essa diversidade e por meio dela, todos podem cooperar para o bem do todo. Seja qual for a espécie de serviço que se deva prestar na igreja, que seja feito de coração e com fidelidade pelos qu& são qualificados por Deus, quer seja a profecia, o ensino, a exortação, a administração, as contribuições materiais, a visitação aos enfermos, quer a realização de qualquer outra classe de ministério.

Para ilustrar suas palavras, Paulo usa a figura do corpo humano, como já fizera em 1 Coríntios 12:12-27. Cada parte do corpo tem sua fun­ção característica a desempenhar e contudo, num corpo sadio, todas as partes funcionam harmoniosa e Ínterdependentemente para o bem do cor­po todo. Assim deve ser na igreja, que é o corpo de Cristo.

3. Pela graça que me foi dada.

Isto é, a "graça" ou o dom do apostolado(ver 1:5, 15:15). Conforme o versículo 6, cada membro da igreja recebeu uma "graça" especial neste sentido, a qual deve ser exercida para o benefício de todos.

A medida da fé. "Fé" aqui tem sentido bem diferente do que tem na primeira parte da epístola. Aqui indica o poder espiritual dado a cada cristão para o desempenho da sua responsabilidade especial. Ver "segun­do a proporção da fé" no versículo 6(NEB: "em proporção à fé que um homem tem").

5. Um só corpo em Cristo.

Compare-se isto com 1 Coríntios 12:27: "vós sois corpo de Cristo". Em 1 Coríntios e em Romanos o corpo humano é mencionado simples­mente como uma ilustração da vida corporificada dos cristãos, mas a idéia é levada muito mais longe em Colossenses e em Efésios. Nestas úl­timas epístolas dá-se ênfase à relação que a igreja, como corpo, mantém para com Cristo, como a Cabeça. Nelas não há possibilidade de um membro comum da igreja ser comparado com a cabeça, ou com uma parte da cabeça (como acontece em 1 Co 12:16s., 21). Nelas, ainda, deixa-se de falar do corpo como simples simile e se torna deveras o mais eficaz termo que o apóstolo pôde encontrar para exprimir o elo vital que une a vida dos crentes à vida da ressurreição de Cristo.2

8. Com liberalidade.

AV: "Com simplicidade". NEB: "De todo o seu coração".

O que preside. O exercício da administração na igreja é um dom tão verdadeiramente espiritual como qualquer dos outros mencionados.

Quem exerce misericórdia. NEB: "Se você dá socorro a outros que estão em aflição."

3. A Lei de Cristo (12:9-21).

As injunções nesta seção ao amor profundo, sincero e prático cons­tituem reminiscências em especial do Sermão do Monte. O amor, a solidariedade e a honra uns para com os outros dentro da fraternidade dos crentes são virtudes que se devem esperar, mas alguma coisa mais é exigida aqui — amor e perdão aos de fora da comunidade, e não menos aos que os perseguem e lhes desejam o mal.


  1. Sem hipocrisia.

AV: "Sem dissimulação". Grego, anupakritos, literalmente: "sem hipocrisia", como AA. (NEB: "Com toda sinceridade".)

10. Preferindo-se em honra uns aos outros.

Ver Fp 2:3: "Cada um considerando o outro melhor do que ele próprio" (RV). AA: "Considerando cada um os outros superiores a si mesmo."

11. Fervorosos de espírito.

A mesma expressão é usada com relação a Apoio em At 18:25. É dis­cutível se significa a mesma coisa nas duas passagens. Aqui RSV pro­vavelmente tem razão em entender que a referência é ao Espírito Santo: "Sejam ardorosos no Espírito".



Servindo ao Senhor. RVmg.: "Servindo à oportunidade", reproduz uma redação ocidental que substituiu o dativo kitriõ ("ao Senhor") por kuirô ("ao tempo", "à oportunidade").

  1. Abençoai aos que vos perseguem, abençoai, e não amaldiçoeis.

Ver Lucas 6:28: "Bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam". Mas há boas evidências antigas (inclusa a de P46) em favor da omissão do pronome "vos". Neste caso, os cristãos são exortados a rogar bênçãos para os perseguidores, sejam os cristãos vítimas da per­seguição, ou não. Quanto ao procedimento de Paulo nesta questão, ver 1 Coríntios4:12-13; Atos 28:19.

  1. Alegrai-vos com os que se alegram, e chorai com os que choram.
    Isto nada tem a ver com o ensino estóico, segundo o qual um impas­sível desapego era indispensável para se viver bem. Mas o ensino de Paulo coaduna-se com o procedimento de Cristo.

  2. Tende o mesmo sentimento uns para com os outros.

(Ver 15!5s.)- Ver também Filipenses 2:2ss., onde a exortação a "que penseis a mesma cousa" (que não é o mesmo que "concordar") é seguida por uma declaração do único modo pelo qual isso é possível no sentido cristão: "Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cris­to Jesus."

Em lugar de serdes orgulhosos. (...) AV: "Não tenhais em vista coisas altas." Ver versículo 3; também 11:20: "Não te ensoberbeças."

Condescendei com o que é humilde. AV: "Condescendei com ho­mens de posição inferior." NEB: "Andem com gente humilde."

Não sejais sábios aos vossos próprios olhos. Citação de Provérbios 3:7.



  1. Não torneis a ninguém mal por mal.

Ver Mateus 5:44: "Amai os vossos inimigos" (ver também 1 Pe 3:9).

Esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens. AV: "Pro­duzi coisas honestas à vista de todos os homens." NEB: "Que os seus ob­jetivos sejam tais que todos os homens considerem honrosos." Citação de Provérbios 3:4 (LXX).

19. Dai lugar à ira.

Dêem lugar a que a lei da retribuição divina opere no presente ou no "dia da ira" (2:5).

A mim me pertence a vingança; eu retribuirei. Citação de Deute-ronômio 32:35: "Minha é a vingança e retribuição" (assim TM; a LXX diz: "No dia da vingança eu retribuirei"). Esta forma do texto, que se acha também em Hebreus 10:30, aparece nos targuns aramaicos e provavelmente era de uso corrente numa versão grega não mais existente. O interesse da citação no presente contexto é que, desde que a vingança e a recompensa são uma prerrogativa de Deus, devem ser deixadas com Ele. Assim, na comunidade de Qumran a vingança particular era proibida com base em que, segundo Nautn 1:2, somente Deus "toma vin­gança contra os seus adversários, e reserva indignação para os seus inimigos".3


  1. Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de
    beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça.


Citação de Provérbios 25:21s. Paulo omite a frase final: "e o Senhor te recompensará". O sentido original da admoestação talvez fosse: "Trate o seu inimigo com bondade, pois isto aumentará a culpa dele; as­sim você conseguirá para ele um julgamento mais terrível, e para você uma recompensa melhor — da parte de Deus." Uma alternativa é enten­der que o provérbio se refere a um ritual egípcio no qual um homem dava pública evidência do seu arrependimento levando na cabeça uma bacia cheia de carvão em brasa.

De qualquer forma, colocando o provérbio neste contexto e omitindo a frase final, Paulo lhe dá um significado mais nobre: "Trate o seu inimigo com bondade, pois isto poderá fazê-lo envergonhar-se e poderá levá-lo ao arrependimento." Em outras palavras, o melhor modo de livrar-nos de um inimigo é torná-lo amigo, e assim vencer "o mal com o bem"(v.21).

4. O Cristão e o Estado (13:1-7).

A relação dos cristãos, quer como súditos individuais, quer unidos em corpo social na vida da igreja, com as autoridades governantes, estava destinada a tornar-se especialmente crítica dentro da década seguinte à produção desta epístola.

Enquanto a igreja era mormente composta de judeus, não faltavam problemas desta espécie, mas não eram tão graves como vieram a ser mais tarde. A posição dos judeus no Império Romano era regulamentada por uma série de editos imperiais. Na verdade, os judeus, como uma nação sujeita ao Império, gozavam de privilégios verdadeiramente excep­cionais. Sua religião estava legalmente registrada como religio licita, e suas várias práticas religiosas que os distinguia dos gentios eram-lhes autorizadas. Essas práticas podiam parecer absurdas e supersticiosas aos romanos, mas eram protegidas nada menos que por lei imperial. In­cluíam a lei do sábado, as leis que regiam a alimentação e a proibição de "imagens de escultura". A política imperial proibia os sucessivos gover­nadores da Judéia de levarem os estandartes militares, com imagens im­periais anexadas a eles, para dentro das muralhas da santa cidade de Jerusalém, pois isto era uma afronta às suscetibilidades religiosas dos judeus. Se pela lei judaica um gentio violava os átrios internos do templo de Jerusalém cometendo um sacrilégio passível de pena de morte, Roma confirmava a lei judaica sobre isso a ponto de ratificar a sentença de mor­te por tal violação, mesmo quando o transgressor fosse um cidadão ro­mano.

Durante a primeira geração posterior à morte de Cristo, a lei ro­mana, quando tomava conhecimento de cristãos em geral, tendia a con­siderá-los como uma variedade dos judeus. Quando os judeus de Corinto, em 51 A. D., acusaram Paulo perante Gálio, o novo procônsul da Acaia, afirmando que ele estava propagando uma religião ilegal, Gálio deu pouca atenção à denúncia (At 18:12ss.). Para ele, era tão evidente que Paulo era judeu, como o eram os seus acusadores. A contenda entre aquele e estes era, aos olhos de Gálio, uma divergência de interpretação de itens da lei, e ele não viera para a Acaia como procônsul para julgar questões dessa espécie.

A decisão de Gálio constituiu um precedente importante. Sim, pois uns dez anos mais tarde, Paulo se utilizou da proteção que aquele pre­cedente lhe dava em seu serviço apostólico, porquanto continuou a propagar a mensagem cristã, não só nas províncias do Império Romano, mas também na própria Roma(At28:30s.)-

Sua feliz experiência com a justiça romana sem dúvida refletiu em sua insistência aqui em que os magistrados, que ele chama de "ministros de Deus" (v. 6), "não são para temor quando se faz o bem, e, sim, quan­do se faz o mal" (v. 3). Todavia, os princípios lançados aqui eram válidos mesmo quando as "autoridades superiores" não eram tão be-névolas para com os cristãos como Gálio fora para com Paulo.

Há outro lado do quadro descritivo da relação do cristianismo com o estado. O cristianismo tinha começado com uma tremenda desvantagem aos olhos da lei romana pela simples razão de que o seu Fundador fora condenado e executado pela sentença de um magistrado romano. A acusação contra Ele foi resumida na inscrição gravada na cruz: "O rei dos judeus". O que quer que Jesus possa ter dito a Pilatos acerca da natureza da Sua Realeza, o único registro sobre Ele que a lei romana conhecia era que tinha dirigido um movimento que desafiava os direitos soberanos de César. Quando Tácito, muitos anos mais tarde, quer que os seus leitores saibam que espécie de gente eram os cristãos, acha suficiente dizer que "receberam o seu nome de Cristo, que foi executado sob o governo do procurador Pôncio Pilatos quando Tibério era imperador".4 Isto bastou para indicar o caráter deles. Quando os opositores de Paulo em Tessalônica quiseram causar-lhe e aos companheiros o máximo de problemas locais que pudessem, procuraram os magistrados civis e lhes deram esta informação: "Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui (...) Todos estes procedem contra os decretos de César, afirmando ser Jesus outro rei", ou "outro imperador" (ver At 17:6, 7). Foi uma representação sutilmente falsa da verdade, mas de fácil colorido pelo fato de que Jesus fora denunciado publicamente perante Pilatos, sob a acusação de que era um agitador e chefe de sedição, e que reclamava direitos reais.

Tampouco foi Tessalônica o único lugar onde irrompeu problema dessa natureza. Quase ao mesmo tempo, Roma teve tumultos provocados "pela instigação de Cresto";" e Alexandria talvez tenha sido cena de distúrbios semelhantes, mas não há pleno conhecimento dos fatos. Mes­mo os melhores amigos de Paulo não podiam deixar de admitir que a chegada dele numa cidade era quase sempre um sinal de rutura da paz. Sendo certo que Paulo não era responsável por isso, os guardiães da lei e da ordem naturalmente o notariam e tirariam suas próprias conclusões. Portanto, tornava-se ainda mais necessário que os cristãos tivessem es­pecial cuidado com seu comportamento público, não dando a seus de­tratores nenhum pretexto contra eles, e tratando de prestar a honra e a obediência devidas às autoridades. Na verdade, Jesus lhes tinha firmado um precedente nesta matéria, como em muitas outras mais, pois, con­quanto Suas palavras: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" (Mc 12:17) tenham sido ditas com referência a pagamento de im­postos, expressam um princípio de aplicação mais geral.

Paulo coloca a questão toda num nível bem alto. Deus é a fonte de toda autoridade, e os que exercem autoridade na terra o fazem por de­legação dele. Daí, desobedecer-lhes é desobedecer a Deus. O governo humano é ordenação divina, e os poderes de coerção e de exigência de serviços que ele exerce lhe foram confiados por Deus, para repressão do crime e incentivo à justiça. Então, os cristãos de todas as nações devem obedecer às leis, pagar as taxas e respeitar as autoridades — não porque será pior para eles se não o fizerem, mas porque é um modo de servir a Deus.

Mas, que fazer se as autoridades forem perversas? Que fazer se César pretender não só o que lhe pertence, mas também o que é de Deus? Paulo não trata dessa questão aqui, mas viria a ser uma questão infla­mada nas gerações seguintes. César ultrapassaria tanto os limites da jurisdição estabelecida por Deus para ele, que chegaria a exigir que lhe prestassem honras divinas e a mover guerra aos santos. Podemos reco­nhecer o magistrado de Paulo, "o ministro de Deus" para recompensa ou castigo, na "besta que sobe do abismo" mencionada por João, a qual recebe sua autoridade do grande dragão vermelho e a emprega para im­por culto universal a si própria e para exterminar todos os que lhe negam culto? Sim, podemos, pois o próprio Paulo previu precisamente esse desenvolvimento quando fosse retirada a repressão exercida pela lei (2 Ts 2:6ss.). "Sem justiça", dizia Agostinho, "que são os reinos, senão gran­des bandos de ladrões?"

Contudo, as evidências demonstram que, em face da grosseira provocação, os critãos mantinham sua apropriada lealdade ao estado, sem excluir Roma. "A paciência e a fé que é dos santos" suportam a fúria da perseguição. Quando os decretos do magistrado civil entram em con­flito com os mandamentos de Deus, aí, dizem os cristãos, "antes importa obedecer a Deus do que aos homens" (At 5:29); quando César reclama para si honras divinas, a resposta dos cristãos tem de ser "Não". Pois neste caso César (seja na forma de um ditador ou de uma democracia) es­tá indo além da autoridade que lhe foi delegada por Deus, e está invadin­do território alheio. Mas os cristãos bradarão "Não" às exigências nâo autorizadas de César muito mais eficientemente se se mostrarem prontos para dizer "Sim" a todas as suas exigências autorizadas.

Assim, alguns anos mais tarde, num documento escrito de Roma às vésperas de uma feroz perseguição, ouvimos um eco destas palavras de Paulo: "Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor; quer seja ao rei, como soberano; quer às autoridades como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores, como para louvor dos que pra­ticam o bem. (...) Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão, ou malfeit* r, ou como quem se intromete em negócio de outrem; mas, se sofrer como cristão, não se envergonhe disso, antes glorifique a Deus com esse nome" (1 Pe 2:13s., 4:15s.).

E mais tarde ainda, para o fim do primeiro século, um dirigente da igreja de Roma que se lembrava da ultrajante ferocidade da perseguição movida por Nero 30 anos antes, e tinha bem recente experiência da mal­dade de Domiciano, pôde orar nestes termos:

"Guia nossos passos para andarmos em santidade, justiça e sin­geleza de coração, e para fazermos coisas boas e aceitáveis à Tua vis­ta, e à vista dos que nos governam. Sim, Senhor, faze que o Teu ros­to brilhe em paz sobre nós, para o nosso bem, de modo que sejamos protegidos por Tua forte mão e sejamos libertados de todo pecado por Teu braço estendido. Livra-nos daqueles que nos odeiam sem motivo. Dá-nos concórdia e paz, a nós e a todos os que habitam na terra, como fizeste aos nossos pais quando clamaram a Ti com fé, fidelidade e santidade, enquanto prestarmos obediência ao Teu onipotente e excelso nome, e aos nossos legisladores e govenadores.

"Tu, ó Senhor e Mestre, deste-lhes autoridade para exercerem soberania mediante o Teu excelente e indescritível poder, para que nós, reconhecendo a glória e a honra que lhes deste, nos subme­tamos a eles, nào resistindo em nada à Tua vontade. Concede-lhes pois, ó Senhor, saúde, paz, concórdia e estabilidade, para que pos­sam exercer sem tropeços o governo de que os incumbiste. Pois Tu, ó celeste Senhor, Rei dos séculos, dás aos filhos dos homens glória e honra e poder sobre todas as coisas existentes na terra. Dirige, Senhor, o seu conselho conforme o que é bom e aceitável aos Teus olhos para que eles, administrando em paz, com brandura e pie­dosamente o poder que lhes confiaste, obtenham o Teu favor" (7 Clemente 60:2-61:2).

Seja que a oração da qual foram extraídas estas petições foi compos­ta pelo próprio Clemente ou era uma oração de uso geral na igreja de Roma, ela mostra quão efetivamente aquela igreja levou a sério os preceitos de Paulo sobre o dever dos cristãos para com as autoridades que haja,

1. Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores.

AV: "Toda alma esteja sujeita aos poderes superiores." "O capítulo treze da Epístola aos Romanos", diz J. W. Allen,6 "contém o que talvez constitua as palavras mais importantes já escritas na história do pen­samento político. Contudo (prossegue ele) seria grosseiro engano supor que os homens, em alguma época, tomaram de Paulo as suas opiniões políticas." Uns, porém, fizeram um esforço mais deliberado nesse sen­tido do que outros.

"Toda alma" (psuchê) significa simplesmente "toda pessoa". E que dizer dos "poderes superiores"? São poderes angélicos, ou poderes humanos, ou as duas coisas, poderes angélicos e humanos, conforme a argumentação de Oscar Cullmann?7 O conceito bíblico geral é que o poder secular é exercido pelas "hostes celestes" no céu, bem como pelos "reis da terra, na terra" (Is 24:21). É igualmente certo que o plural de exousia ("poder") é usado livremente por Paulo no sentido de potestades angélicas, quer benignas, quer malignas (ver 8:38; Cl 1:16, 2:10, 15; Ef 1:21, 3:10, 6:12). Pode-se comparar isto com o que ele tem para dizerem 1 Coríntios 2:8 a respeito dos "poderosos deste século" (AV: "príncipes — archontes — deste mundo"), que com toda a probabilidade incluem príncipes angélicos hostis como também magistrados humanos. Con­tudo, no presente contexto parece que os "poderes" são autoridades humanas, que usam "a espada" para castigo dos maus e proteção dos bons, que, portanto, exercem poder de mando e devem receber obediên­cia, e às quais é preciso pagar taxas e outros impostos adequados, jun­tamente com a competente reverência e honra. As referências de Paulo em outras passagens aos poderes angélicos estão muito longe de sugerir que os cristãos devem sujeitar-se a eles em algum sentido. Ao contrário, os cristãos foram libertos da sua jurisdição, estando unidos Àquele que é o Criador e o Chefe de todos aqueles poderes (Cl 1:16, 2:10), e vencedor sobre aqueles que mostram hostilidade para com Ele e para com o Seu povo(C12:15).

As autoridades que existem foram por ele instituídas. AV: "Os poderes que há são ordenados por Deus." Não há contradição entre este princípio e o argumento de 1 Coríntios 6:lss., onde os cristãos são dis­suadidos de processar ou denunciar uns aos outros nos tribunais secu­lares. Reconhecer as autoridades civis não influi no princípio de que é impróprio para os cristãos lavar roupa suja em público. E embora os magistrados civis sejam instituídos por Deus, sua autoridade civil não lhes confere nenhuma posição na igreja, nem que sejam cristãos (ver nota sobre o v. 4, abaixo).

2. Aquele que se opõe à autoridade, resiste à ordenação de Deus.

"Poucos dizeres do Novo Testamento sofreram tantos abusos como este", diz O. Cullmann (The State in the New Testament, p. 55s.). Ele pensa principalmente no abuso de justificar a submissão passiva aos ditames de governos totalitários. O contexto próximo, bem como o con­texto geral dos escritos apostólicos, esclarecem que o Estado tem direito de exigir obediência somente dentro dos limites dos propósitos para os quais foi instituído por Deus — em particular não só se pode, mas se deve resistir ao Estado quando este exige lealdade devida exclusiva­mente a Deus. "A obediência que o cristão deve ao Estado jamais ê ab­soluta mas, no máximo, é parcial e contingente. Segue-se que o cristão vive sempre numa tensão entre duas reivindicações rivais; que em certas circunstâncias a desobediência à ordem do Estado pode não somente ser um direito, mas também um dever. Esta sempre foi uma doutrina cristã clássica, desde que os apóstolos declararam que deviam obedecer a Deus antes que aos homens."8

Trarão sobre si mesmos condenação. Ver 3:8, 14:23, quanto à palavra condenação. Aqui ela significa "julgamento" (RV, RSV) ou "punição" (NEB).

3. Porque os magistrados não são para temor quando se faz o bem, e, sim, quando se faz o mal.

Quanto ao plural "boas obras" (AV), o peso das provas documentais favorece o singular (RV: "a boa obra"; RSV: "boa conduta"; NEB: "bom comportamento"). A tradução de Moffatt: "Os magistrados não são nenhum terror para o homem honesto", baseia-se na leitura de agathoergõ em lugar de agathõ ergo, substituição com fraco apoio mas atraente.

Faze o bem, e terás louvor dela. Ver 1 Pedro 3:13: "Quem é que vos há de maltratar, se fordes zelosos do que é bom?"

4. Vingador, para castigar o que pratica o mal.

Deste modo, q Estado recebe a incumbência de uma função ex­plicitamente proibida ao cristão (12:17, 19). O estado cristão de épocas posteriores está, naturalmente, fora da classe abrangida pela admoes-tação de Paulo, e não se dá nenhuma orientação expressa pela qual o magistrado cristão possa reconciliar o seu dever de, como cristão, "dar lugar à ira" com o seu dever de, como magistrado, "executar a ira". Isto não eqüivale a dizer que, desta e doutras passagens semelhantes, ele não possa extrair princípios que o guiem. Mas é evidente que Paulo divisa duas esferas completamente distintas de "serviço" a Deus. "A sanção dada pela Bíblia, aqui e em outras passagens, à enérgica repressão do mal embaraça muitos cristãos modernos, por causa da sua aparente con­tradição com o método do amor, dado por Cristo, e Seu preceito de não-resistência ao mal. Mas isto decorre de não se fazer distinção entre a preservação e a salvação do mundo. A verdade é que a Bíblia afirma, tan­to a Lei 'que suscita a ira' (AV: 'que opera a ira') (4:15), como 'a fé que atua pelo amor' (Gl 5:6): tanto a estranha obra de Cristo como Sua obra propriamente dita."*

6. Por esse motivo também pagais tributos.

Na AV, como em grego, pode-se entender isto como afirmação ou como imperativo. Provavelmente deve ser interpretado como afirmação. "É isto que os justifica por pagarem taxas a autoridades pagas (questão de consciência para muitos judeus, e talvez para muitos cristãos tam­bém), porque são servas de Deus ..."

Irineu {Contra Heresias v. 24:1) cita este versículo para provar que Paulo neste parágrafo se refere "não a poderes angélicos ou governantes invisíveis, como alguns (provavelmente gnósticos) se aventuram a dizer explicando a passagem, mas, sim, a autoridades humanas concretas".



São ministros de Deus. Grego, leitourgos, palavra que no Novo Tes­tamento e na literatura cristã primitiva se refere particularmente ao ser­viço religioso. Ver p. 210 n. 1.

7. Pagai a todos o que lhes é devido.

Possível eco das palavras de Jesus: "Dai (apodote, a mesma forma usada aqui) a César o que é de César" (Mc 12:17). Mas os versículos seguintes esclarecem que o dever da obediência às autoridades seculares é temporário, durante o presente período da "noite" (v. 12); naquele "dia" que está "próximo", uma nova ordem de governo será introduzida, quando "os santos hão de julgar o mundo" (1 Co 6:2). O Estado "pe­recerá" (nisto concordam Paulo e Karl Marx); "a cidade de Deus per­manece".

Tributo. RSV: "taxas".

imposto. AV, RSV, NEB: "direitos aduaneiros" (empregando diferentes palavras em inglês).

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