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5. Amor e Dever (13:8-10).

Que a sua única dívida a outrem seja a dívida do amor. Quem paga esse débito cumpre a lei. A citação de Levítico 19:18, "Amarás ao teu próximo como a ti mesmo", como um sumário dos mandamentos, intro­duz Paulo diretamente na tradição de Jesus, que colocou estas palavras como o segundo grande mandamento ao lado de "Amarás o Senhor teu Deus ..." (Dt 6:5), "o grande e primeiro mandamento", acrescentando: "Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas" (Mt 22:37-40; ver Mc 12:28-34). Paulo menciona o segundo aqui, e não o primeiro, porque a questão imediata relaciona-se com os deveres do cristão para com o seu próximo — tema dominante dos mandamentos da segunda tábua do Decálogo. Estes mandamentos nos proíbem prejudicar o nosso próximo de qualquer modo. Visto que o amor nunca prejudica a outros, o amor cumpre a lei.



  1. Quem ama ao próximo, tem cumprido a lei.

"Próximo", AV: "um outro", é literalmente: "o outro" (i. e., o próximo de alguém). É muito possível traduzir assim esta sentença: "Aquele que ama, tem cumprido a outra lei" — a "outra lei" sendo, nes­te caso, o "segundo" mandamento de Mateus 22:39 e Marcos 12:31: "Amarás ao teu próximo como a ti mesmo." Contudo, é preferível a tradução que consta do texto, e a referência é, em todo caso, ao man­damento que Jesus citou como "o segundo" que é semelhante ao pri­meiro.

  1. Não adulterará^, não maturás, nãofurtarás, não cobiçarás.

Sétimo, sexto, oitavo e décimo mandamentos do Decálogo (Êx 20:13-15, 17; Dt 5:17-19, 21). AV acrescenta o nono mandamento: "Não dirás falso testemunho" (Êx 20:16; Dt 5:20), mas não consta das me­lhores autoridades quanto à presente passagem (ver RV, RSV, NEB).

Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Comparar com Gálatas 5:14: "Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo." Em Tiago 2:8 este mandamento é chamado "a lei regia" ("a soberana lei firmada na Escritura", NEB).

  1. O cumprimento da lei é o amor.

"Cumprimento" é o grego plêrõma, palavra com ampla gama de significados (em outras partes desta epístola traduzida por "plenitude"; ver 11:12, 25; 15:29).

6. A Vida Cristã em Dias de Crise (13:11-14).

Paulo reconhecia a natureza crítica dos tempos. Não tinha ilusões sobre a continuidade de sua presente oportunidade de pregar o Evangelho sem obstáculo e sem embaraço, mas estava determinado a explorá-la ao máximo enquanto durasse. Embora não empregue mais as figuras apocalípticas de 2 Tessalonicenses 2:1-12, sabe que a repressão exercida sobre as submersas forças das trevas e da desordem pode ser retirada de um momento a outro. Portanto, os cristãos devem estar alerta. Mas a prospectiva deve enchê-los de ânimo, não de desespero: "Ao começarem estas cousas a suceder, exultai e erguei as vossas cabeças; porque a vossa redenção se aproxima" (Lc 21:28). E Paulo faz ecoa seu Senhor: "A nos­sa salvação está agora mais perto do que quando no princípio cremos." Os fatos acontecidos em 64 e 66 A. D. — o início da perseguição imperial dos cristãos e a eclosão da revolta dos judeus, que haveria de findar-se com o colapso da Segunda Comunidade Judaica — já projetavam as suas sombras. Que esses fatos não seriam precursores imediatos do segundo advento e da salvação final de todos os crentes em Cristo era algo que Paulo não podia prever. Se o conhecimento desse dia e hora foi negado até mesmo ao Filho do homem, quanto mais a um dos Seus servos! Mas as palavras de Jesus: "Aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo" (Mc 13:13), concretizaram-se na experiência do Seu povo que passou incólume por aquelas crises como o tem feito em outras crises daquele tempo em diante. Com a aflição vem o meio de escape; "Aqui es­tá a fé e a paciência dos santos"), Ap 14:12.

Enquanto isso, os filhos da luz devem viver em prontidão para o dia da visitação, abjurando todas as "obras das trevas". Em outras partes Paulo fala de revestir-se "do novo homem" (Ef 4:24; Cl 3:10); aqui, mais diretamente, ele ordena aos seus leitores que se revistam "do Senhor Jesus Cristo". As graças cristãs, as "armas da luz", que ele os exorta a arvorar em vez de gratificar os desejos da natureza inferior — que são, senão aquelas graças expostas com harmônica perfeição em Jesus Cristo? O conhecimento que Paulo tinha do Jesus histórico e seu interesse por Ele eram muito maiores do que o admitem aqueles que interpretam mal as suas palavras sobre não conhecer a Cristo "segundo a carne" 10 , negando que Paulo tivesse esse conhecimento ou interesse. Pois quando ele passa a enumerar pormenorizadamente as graças com as quais deseja que seus amigos de Roma e alhures "se revistam", são as graças que caracteri­zaram Cristo na terra.

11. Já é hora de vos despertardes do sono.

O ensino apostólico prescrevia constantemente o dever da vigilância espiritual; ver 1 Tessalonicenses 5:4ss.

A nossa salvação está agora mais perto do que quando no princípio cremos. "Salvação" aqui é vista em sua consumação futura. É "a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo" que os crentes aguardam, conforme 8:23; considere-se a "salvação preparada para revelar-se no último tem­po" para a qual são guardados, conforme 1 Pedro 1:5. A realização final desta salvação coincide com a manifestação de Cristo em glória (ver Hb 9:28).

12. As obras das trevas (...) as armas da luz.

Ver NEB: "Lancemos fora, pois, as obras das trevas e vistamos nos­sa armadura como soldados da luz." A antítese entre a luz e as trevas acha-se repetidamente nos escritos de Paulo (ver 2 Co 6:14; Ef 5:8; Cl 1:12; 1 Ts 5:4), como também nos de João. É um dos mais evidentes pon­tos de contato entre o Novo Testamento e os textos de Qumran, onde todos os homens sào governados ou pelo Príncipe da Luz ou pelo Anjo das Trevas, e o grande conflito dos tempos finais é denominado "a guerra dos filhos da luz contra os filhos das trevas"." As "armas da luz" (AV: "ar­madura da luz") são descritas com mais minúcias em 1 Tessalonicenses 5:8eEfésios 6:13-17.

13. Não em impudicícias e dissoluções.

NEB: "Nenhuma devassidão ou vício."

14. Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo.

Os ensinamentos práticos dados aos conversos cristãos dos tempos primitivos (ver p. 115), pelo que parece, eram formulados, para fa­cilitar a memorização, com o suo de deixas, das quais uma era "reves­tir-se" ou "vestir". Eram exortados a "vestir" as virtudes cristãs como vestiam roupas (ver Cl 3:12). E como estas virtudes eram, todas elas, as­pectos do novo caráter cristão que tinham recebido na conversão, podia-se-lhes dizer que vestissem o "novo homem" (Ef 4:24), ou que vivessem à semelhança daqueles que o vestiram de uma vez por todas (Cl 3:10). Des­de que este "novo homem" era o caráter de Cristo reproduzido em Seu povo, era simples transição dizer: "Todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes" (ou "vos vestistes"), Gálatas 3:27, ou, como aqui, exortar os crentes a "vestir-se" ou "revestir-se" de Cristo no sentido de manifestarem exteriormente aquilo que já tinham experimen­tado interiormente. Embora Paulo não conhecesse os evangelhos escritos que temos no Novo Testamento, é digno de nota que quando recomenda aos seus leitores as qualidades que os evangelistas atribuem a nosso Senhor, ele o faz dizendo-lhes que "se vistam" do Senhor Jesus Cristo.

E nada disponhais para a carne, no tocante às suas concupiscências. AV: "E não façais provisão para a carne, para satisfazer as suas concupiscências." (Ver 6:12) Foram as palavras dos versículos 13 e 14 que acenderam uma chama de amor celestial no coração de Agostinho (ver p.51).

7. Liberdade Cristã e Amor Cristão (14:1-15:6).

a. Liberdade cristã (14:1-12).

Paulo desfrutou plenamente sua liberdade cristã. Jamais houve um cristão mais emancipado das inibições e tabus anticristãos. Era eman­cipado tão completamente da escravidão espiritual, que nem sequer era§ escravo da sua emancipação. Adaptava-se ao modo de viver dos judeus quando se achava numa sociedade judaica, com tão boa disposição como se adaptava ao modo de vida dos gentios quando vivia entre eles. Os in­teresses do Evangelho e o supremo bem-estar dos homens e mulheres eram considerações da mais alta importância para ele, e lhes subordinava tudo mais.

Mas sabia muito bem que muitos outros cristãos não eram eman­cipados tão completamente como ele, e insistia em que fossem tratados com delicadeza. Um cristão podia, em muitos aspectos, ter "fé" fraca, imatura e carente de instrução. Mas devia ser bem recebido, com aco­lhida calorosa, como cristão, e não ser logo desafiado a debater questões sobre aquelas áreas da vida em que não era emancipado ainda.

Paulo menciona duas áreas da vida em que isso era suscetível de acontecer, e depois se estende a respeito de uma delas. Uma era a co­mida; a outra era a observância religiosa de certos dias. Alguns cristãos (como o próprio Paulo) não tinham dor de consciência quanto a comer qualquer espécie de alimento; outros tinham escrúpulos acerca de certos tipos de comida. Uns (outra vez como Paulo) não faziam distinção entre dias mais ou menos sagrados, considerando todo dia como "santo ao Senhor"; outros achavam que alguns dias eram mais santos do que outros. Que se deve fazer quando cristãos de tão diversas convicções se acham na mesma comunidade? Devem pôr-se a malhar os pontos em questão, cada lado determinado a converter o outro? Não, diz o apóstolo. Cada qual os resolva em sua mente e em sua consciência. Aquele que des­fruta maior liberdade não deve menosprezar o outro julgando-o espi­ritualmente imaturo. Quem tem escrúpulos de consciência não deve criticar o seu irmão na fé por praticar o que aquele não pratica. Cada cristão é servo de Cristo, e a Cristo é que terá que prestar contas, aqui e no porvir. Cristo morreu, e é o Senhor dos mortos; Cristo vive, e é o Senhor dos que vivem.

Um cristão não deve julgar outro — pode-se ouvir aqui o eco das palavras de nosso Senhor: "Não julgueis, para que não sejais julgados"? — pois é no tribunal de Deus que teremos todos de comparecer para prestar contas e receber a devida paga.

Com estas palavras, Paulo insiste inflexivelmente no princípio da liberdade cristã. "O cristão é o mais livre senhor de todos, não sujeito a ninguém." (Lutero.) 12

1. Não, porém, para discutir opiniões.

AV: "Não para discussões duvidosas". NEB: "Sem tentar resolver pontos duvidosos."

2. O débil come legumes.

AV: "Outro, que é fraco, alimenta-se de legumes." Por princípios vegetarianos ou, mais provavelmente, a fim de evitar comer carne de animais que tinham sido consagrados a deuses pagãos, ou não foram abatidos de acordo com as normas judaicas (verDn 1:8,12). Ver também pp. 201 ss.

4. Quem és tu que julgas o servo alheio? para o seu próprio senhor está


em pé ou cai.

Ver Mateus 7:1; Lucas 6:37; e as palavras do próprio Paulo em 1 Coríntios 4:3ss.: "A mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós, ou por tribunal humano; nem eu tão pouco julgo a mim mesmo (...) quem me julga é o Senhor. Portanto, nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor. ..."Na presente passagem, a palavra traduzida por "ser­vo" éoikelês, "servo doméstico", não doulos, "escravo".

5. Outro julga iguais todos os dias.

Não há nenhuma palavra no texto grego para "iguais", posto que acrescentada aqui por RV, RSV, NEB, bem como por AV e AA para completar o sentido. Não significa necessariamente que esse "outro" considera todos os dias como profanos; talvez signifique que trata todos os dias como devendo igualmente ser dedicados ao serviço de Deus — e esta era certamente a atitude de Paulo.

6. Quem distingue entre dia e dia, para o Senhor o faz; e quem come,
para o Senhor come.

Portanto, "ninguém ... vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados" (Cl 2:16).

AV acrescenta: "Quem não distingue entre dia e dia, para o Senhor não o faz." Estas palavras, não obstante façam parte do espírito do seu contexto, não constam do texto original. Localizaram-se nos MSS mais tardios e no "Texto Recebido" para estabelecer equilíbrio com a passagem que vem logo depois do versículo: "quem não come, para o Senhor não come. ..."

7. Nenhum de nós vive para si mesmo.

O que Paulo quer dizer, como o demonstra o versículo 8, é que cada cristão vive sua vida à vista de Cristo, e como Seu servo. Mas o sentido comum dado às palavras, quando citadas fora do seu contexto, segue-se como um corolário: que a vida de cada cristão influi nos seus irmãos em Cristo e nos seus semelhantes e, portanto, este deve tomar em conside­ração a sua responsabilidade para com eles, e não consultar só aos seus próprios interesses.

9. Cristo morreu e ressurgiu.

AV: "Cristo morreu, e ressuscitou, e reviveu." A redação mais bem documentada diz simplesmente: "Cristo morreu e viveu" (i. e., viveu de novo); ver RV, RSV, NEB. Em virtude de Sua morte, Ele é Senhor dos mortos; em virtude de Sua ressurreição, é Senhor dos que vivem.

10. Por que julgas a teu irmão?

Não há pecado que os cristãos — especialmente os cristãos "ar­dorosos" — sejam mais propensos a cometer do que o de criticar os outros. As palavras do apóstolo têm intenção séria. "Não deve o homem pôr a mão na boca antes de criticar os seus irmãos? Quando lançamos julgamentos apressados, mal informados, sem amor e sem generosidade, por certo esquecemos que, se falamos mal deles, ao mesmo tempo fa­lamos mal do Senhor cujo nome eles levam" (H. St. John). Portanto, "não nos julguemos mais uns aos outros" (v. 13).

Todos compareceremos perante o tribunal de Deus. AV: "... peran­te o tribunal de Cristo." Mas a redação melhor credenciada diz: "... perante o tribunal (grego, bêma) de Deus", como AA (ver RV, RSV, NEB). Mas a redação da AV vai até à primeira metade do segundo século sendo certificada por Policarpo e Márcion.


  1. Por minha vida, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho,
    e toda língua dará louvores a Deus.


Assim RSV. AV: "... e toda língua confessará a Deus." Citação de Isaías 45:23: "Por mim mesmo tenho jurado; ... 'Diante de mim se dobrará todo joelho, e jurará toda língua'." Paulo aplica a mesma pas­sagem a Cristo em Filipenses 2: lOs.

b. Amor cristão (14:13-23).

Martinho Lutero, que começa o seu tratado Da Liberdade do Cristão com as palavras acima citadas ("O cristão é o mais livre senhor de todos, não sujeito a ninguém"), prossegue dizendo na sentença seguinte; "O cristão é o mais dócil servo de todos, sujeito a todos."13 Lutero nunca foí seguidor mais fiel de Paulo — e do Senhor de Paulo e dele — do que na justaposição destas duas afirmações.

Tendo Paulo afirmado inflexivelmente a liberdade do cristão, põe-se a demonstrar como se pode e se deve estabelecer limite voluntário a esta liberdade. Ao fazê-lo, amplia a exposição de um dos assuntos que usara para ilustrar a sua afirmação da liberdade cristã — o assunto relacionado com a comida.

A questão de quais os tipos de comida que se podiam e não se po­diam comer agitou a igreja primitiva de várias maneiras. Uma destas maneiras afetou mais particularmente os cristãos judeus. As leis judaicas sobre a alimentação, que tinham sido observadas pela nação desde os seus primeiros dias, eram um dos principais traços que distinguiam os judeus de seus vizinhos gentios. Não somente se proibia absolutamente comer carne de certos animais; o sangue de todos os animais era abso­lutamente proibido, e os animais "limpos" abatidos para alimento ti­nham de ser mortos de modo que o sangue fosse totalmente drenado. Des­de que nunca se poderia ten certeza de que a carne de que se alimentavam os não-judeus estava livre de toda suspeita de ilegalidade num aspecto ou noutro, para um judeu era impossível partilhar de uma refeição com um gentio. Na verdade, era muito difícil um judeu rigoroso compartilhar de uma refeição com outro judeu suspeito de relaxamento nestas questões.

Em memorável ocasião, Jesus ab-rogou as leis sobre alimentos declarando "limpas" todas as espécies de alimento (Mc 7:19). Pedro, na visão que teve em Jope, no teto da casa de Simão, o curtidor, aprendeu a não considerar impura coisa alguma ou pessoa alguma que Deus tivesse declarado limpa, e graças à lição aprendida, consentiu quase imedia­tamente em visitar o gentio Cornélio, em Cesaréia, e aceitar sua hospi­talidade. Mas ia demorar muito a chegar o dia em que a maior parte dos cristãos judeus pensaria em seguir o exemplo dele. Certa ocasião, quando Pedro residia em Antioquia e desfrutava de irrestrita comunhão com os cristãos gentios de lá, um ou mais visitantes procedentes da igreja de Jerusalém chamaram-no e o persuadiram a retirar-se da mesa da co­munhão com os gentios e passar a comer somente com os judeus. Seu exemplo começou a ter efeito devastador; mesmo um homem tão liberal como Barnabé se dispôs a segui-lo. Paulo acusou publicamente a Pedro de "representar" — de fazer um papel que não correspondia às suas con­vicções últimas (Gl 2:11-14). Quando, pouco depois, o Concilio de Je­rusalém concordou em que os gentios fossem admitidos à comunhão da igreja, como os judeus, com base na fé em Cristo, foi acrescentada a con­dição de que os conversos gentios se abstivessem de alimentos ofensivos aos seus irmãos judeus e se ajustassem às leis matrimoniais judaicas (At 15:20, 29). Tem-se difundido muito a opinião de que jamais Paulo po­deria ter tomado parte na decisão acordada (como a narrativa de Atos declara que sim), porque entrava em conflito com os seus princípios sobre a liberdade cristã, e em particular com o seu princípio de que os conver­sos gentios estavam livres das obrigações da lei judaica. Mas isso não é bem certo. Sempre que os princípios que considerava básicos estavam em jogo, Paulo era inflexível; mas quando eles estavam protegidos, Paulo era o mais conciliador dos homens. Neste caso, uma vez estabelecido o prin­cípio de que os gentios tinham direito de ser arrolados como membros da igreja, sendo para isso suficiente a base da fé em Cristo, ele próprio seria o primeiro a lembrar aos gentios a sabedoria em colocar limites voluntá­rios à sua liberdade para manterem comunhão com seus irmãos judeus de nascimento, dos quais não se poderia esperar que todos tivessem enten­dimento tão completamente emancipado como Paulo tinha. Se os cristãos gentios, principalmente os que conviviam com cristãos judeus, com bon­dade se refreassem de tomar alimentos que os seus irmãos judeus pudes-pudessem achar odiosos, a comunhão dos dois grupos seria fomentada. E o fato é que as cláusulas sobre alimentos estabelecidas pelo Concilio de Jerusalém conservavam sua validade em alguns setores da igreja durante muitas gerações.'4

Uma das cláusulas sobre alimentação do Concilio de Jerusalém or­denava a abstenção de carne de animais previamente oferecidos em sacrifício a ídolos. Esta questão foi levantada num ambiente rodeado de paganismo; Paulo tratara disso com alguns pormenores em sua corres­pondência com a igreja de Corinto, alguns membros da qual lhe tinham pedido orientação sobre o assunto (1 Co8:l-13, 10:19-33).

Comprar carne de açougue em cidades pagas como Corinto e Roma representava um problema de consciência para alguns cristãos. Grande parte da carne exposta para venda no mercado provinha de animais an­teriormente sacrificados a alguma divindade paga. A divindade paga recebia sua porção simbólica; o restante da carne podia ser vendido pelas autoridades do templo aos comerciantes da venda a varejo, e é possível que muitos consumidores pagãos estivessem dispostos a pagar um pouco mais pela carne porque tinha sido "consagrada" a alguma divindade. Entre os cristãos havia alguns que possuíam consciência robusta e enten­diam que a carne não melhorava nem piorava por sua associação com a divindade paga. Sentiam-se muito bem ao comê-la. Outros não se sentiam muito bem, achando que de algum modo a carne fora "infeccio-nada" por sua associação com ídolos.

Ao emitir seu julgamento aos coríntios sobre esta questão, Paulo se nivela, por um lado, com os que entendiam que não havia nenhuma realidade substancial nas divindades pagas, e que o cristão tinha perfeita liberdade de comer dessa carne. Mas o entendimento não é tudo; as exigências do amor deviam ser levadas em consideração. Ele mesmo es­tava pronto a renunciar à sua liberdade se, ao insistir nela, desse mau exemplo a um irmão em Cristo de consciência mais fraca. Se um cristão que achava errado comer carne dada a ídolos fosse incentivado pelo exemplo de seu irmão mais forte a comer dessa carne, o resultante prejuízo à sua consciência seria posto na conta da falta de caridade e de consideração do outro.

Mas parece ter-se levantado em Corinto um aspecto da questão mais sério do que os atos de comprar e comer carne de animais consagrados a ídolos. Transparece de 1 Coríntios 8:10 que alguns membros da igreja de Corinto ficavam muito contentes quando recebiam convites de amigos pagãos para freqüentar banquetes em templos pagãos. Nesses banquetes, não era só a carne que era dedicada a um falso deus; tudo na ocasião era expressamente organizado sob os auspícios desse deus. Poderia um cris­tão, que se assentava à mesa do Senhor, sentir-se igualmente em casa à mesa de um ídolo que, se representava alguma coisa afinal, representava um demônio? Os ultra-libertinos poderiam argumentar que todas as coisas eram lícitas; mas Paulo lhes recordava que nem todas eram úteis, e nem todas edificavam um sólido caráter cristão, quer nos participantes, quer naqueles cujas vidas podiam ser influenciadas pelo seu exemplo. Se, por outro lado, o convite era para participar de uma refeição numa re­sidência particular, o caso era diferente: o cristão estava livre para ir e comer o que servissem, sem fazer perguntas. Mas se via que sua atitude face à carne que fora dedicada a ídolos passava a ser um teste da ge-nuinidade do seu cristianismo, faria bem em deixar de comê-la. A glória de Deus e o bem-estar espiritual dos outros devem constituir os principais pontos de consideração quanto a comer e beber, e quanto a tudo mais.

Questões de consciência em relação a estas matérias estavam sujeitas a levantar-se também em Roma, como acontecera em Corinto. A igreja de Roma, incluindo cristãos judeus e gentios, podia desintegrar-se ra­pidamente se alguns grupos insistissem em exercer plenamente sua liber­dade cristã sem dar a mínima consideração aos escrúpulos de outros. Se, por outro lado, aqueles cujas consciências se haviam emancipado por completo quanto a isso, restringissem voluntariamente sua liberdade no interesse de outros que não tinham alcançado o mesmo estágio de ma­turidade espiritual, a igreja se tornaria uma perfeita escola do amor cris­tão. Foi a isto que Paulo instou com os cristãos de Roma, e o testemunho da história mostra que aprenderam bem a lição.

O bem conhecido exemplo do próprio Paulo deve ter acrescentado grande peso à sua exortação. "Sendo livre de todos", disse ele em outro lugar, "fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número pos­sível" (1 Co 9:19). Com toda a sua emancipação,'estava pronto para res­tringir sua liberdade sem limites se seu irmão mais fraco recebesse al­guma ajuda com isso. Considerava todas as espécies de comida como kosher ("certas", "lícitas"), mas se o seu exemplo, ao comer certas es­pécies de comida, ia prejudicar alguém, ele as evitaria. A comida é um meio para um fim, não um fim em si mesma. Um tipo de comida serve tanto como outro qualquer, e seria uma pena fazer atrofiar-se uma alma em crescimento, atrofiar-se o desenvolvimento da obra de Deus, por uma coisa tão sem importância como um tipo particular de comida. Não é de comida e bebida que o reino de Deus se ocupa, mas de justiça, paz e alegria no Espírito. Deve-se fazer com que a questão de comida e bebida seja subserviente àquelas coisas que são realmente importantes.

É bom ser forte na fé; é bom ser emancipado de consciência. Mas os. cristãos não são indivíduos isolados, cada qual vivendo para si; são mem­bros de uma comunidade, e é responsabilidade de todos — mormente dos membros mais fortes e mais maduros — promover o bem-estar da co­munidade.

13. Não nos julguemos mais uns aos outros; pelo contrário, tomai o propósito de ...

AV: "Não nos julguemos ... mas julgai ..." Na primeira frase, "jul­gar" significa "criticar" (exercer juízo crítico); na segunda, significa "decidir". Em grego (krinõ), como em inglês (e em português) a mesma palavra tem os dois sentidos.



Tomai o propósito de não pordes tropeço ou escândalo a vosso ir­mão. A espécie de pedra de tropeço ou impedimento que Paulo tem em mente é o exemplo que poderia levar outra pessoa a pecar. Um cristão vem a "tropeçar" (v. 21) se, ao seguir o exemplo de um cristão mais emancipado, faz alguma coisa que a sua consciência não aprova real­mente. Como conseqüência, a vida espiritual sofrerá grave dano. Seria melhor que o cristão mais emancipado auxiliasse o seu irmão "mais fraco" a ter uma consciência mais esclarecida; mas este é um processo que não pode ser apressado.

14. Eu sei, e disso estou persuadido no Senhor Jesus, que nenhuma cousa é de si mesma impura.

Provavelmente Paulo sabia do pronunciamento do nosso Senhor sobre este assunto, registrado para nós em Marcos 7:14-19.

Salvo para aquele que assim a considera; para esse é impura. Este modo de compreender a questão, completamente de acordo com o ensino de Cristo (Mc 7:20-23), tem implicações de grande alcance. O pecado, a corrupção moral, o mundanismo — e assim por diante — localizam-se na mente das pessoas, e não nos objetos materiais. Ver Tito 1:15.

15. Por causa da tua comida não faças perecer aquele.

RSV: "... não deixe que o que você come arruine aquele ..."; NEB: "Não leve desgraça a um homem com aquilo que você come ..."

A favor de quem Cristo morreu. A medida divina do valor de um ser humano.

16. não seja, pois, vituperado o vosso bem.

NEB: "O que para você é uma coisa boa, não se torne ocasião para conversação caluniosa."

17. O reino de Deus não é comida, nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria.

Ver Mateus 6:31 ("Não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos?") Mateus 5:6, 9, 10, 12 ("Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça. ... Bem-aventurados os pacificadores. ... Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. ... Regozijai-vos e exultai ..."). Um interessante paralelo da construção deste versículo é-nos dado em 1 Coríntios 4:20: "O reino de Deus consiste, não em palavra, mas em poder" (sendo que o "poder" é, naturalmente, o do Espírito Santo).

No Espírito Santo. Como no capítulo 8, o Espírito Santo leva os crentes ao usufruto, aqui e agora, dos benefícios da herança vindoura. Para o apóstolo, "o reino de Deus" (em distinção do presente reino de Cristo) é a futura herança do povo de Deus (ver 1 Co 6:9s., 15:50; Gl 5:21; Ef 5:5; 1 Ts 2:12; 2 Ts 1:5); mas "no Espírito Santo" as bênçãos da herança futura já podem ser desfrutadas.

19. Seguimos as cousas (...) da edificação de uns para com os outros.

"Edificar outro" é edificar-lhe uma personalidade cristã estável, e assim (quando todos estivermos envolvidos nesta atividade) "edificar a vida comum" (NEB).

20. E mau para o homem o comer com escândalo.

AV: "É mau para o homem que come com ofensa." NhB: "Tudo é mau para o homem que, pelo que come, faz outro cair." Isto é coisa bem diferente de "fazer ofensa" no sentido moderno.

21. [Ou se ofender, ou se enfraquecer].

Estas palavras estão ausentes do texto mais bem credenciado (razão por que AA as coloca entre colchetes). Originalmente é possível que fos­sem glosas marginais sobre o verbo "tropeçar" que as precede.

22. A fé que tens.

AV: "Tens fé?" "Fé", neste sentido, é uma firme e inteligente con­vicção perante Deus, de que se está fazendo o que é certo, a antítese de sentir-se alguém auto-condenado naquilo que se permite a si mesmo fazer.

23. Aquele que tem dúvidas, é condenado, se comer.

"Condenar" aqui significa que o homem que faz algo acerca do que sua consciência fica intranqüila, está condenado em seu coração e contrai sentimento de culpa; o homem que faz algo sabendo que é lícito e correto, faz isso "de fé". Há saudável significação no incidente apócrifo inserido no Codex Bezae em seguida a Lucas 6:4, que conta como o nosso Senhor, "vendo um homem a trabalhar no sábado, disse-lhe: 'Homem, se deveras sabes o que estás fazendo, és bem-aventurado; mas se não sabes, és mal­dito e transgressor da lei' ".

E tudo o que não provém de fé é pecado. NEB: "Porque a sua ação não provém da sua convicção." Quanto à prova de que uma edição primitiva da epístola termina aqui, ver a Introdução, pp. 26-28.

c. O exemplo de Cristo (15:1-6).

Paulo conclui suas palavras sobre a liberdade cristã e sobre o amor cristão aduzindo o exemplo de Cristo. Quem estava mais livre de tabus e inibiçôes do que Ele? Contudo, quem cuidou mais de tolerar as fraquezas alheias? É bem fácil para um homem cuja consciência vê com absoluta clareza algum curso de ação, estalar os dedos para os que o criticam e dizer: "Farei o que me agrada." Tem todo o direito de fazê-lo, mas não é este o modo de agir de Cristo. O modo de agir de Cristo é considerar os outros primeiro, consultar os interesses deles e ajudá-los quanto possível. "Nem mesmo Cristo agradou-se a Si próprio"; se o tivesse feito, poder-se-ia perguntar em que aspecto Sua vida e Seu ministério teriam seguido curso diferente daquele que seguiram. Mas o sentido é que Cristo não pôs em primeiro lugar os Seus próprios interesses e o Seu próprio bem-estar (ver Fp 2:5ss.). Cristo colocou os interesses dos outros antes dos dele, mas talvez Paulo queira dizer aqui que Cristo colocou a vontade de Deus antes de tudo mais; esta idéia é sugerida pela citação do Salmo 69:9.

As palavras que se seguem à citação encarnam um princípio presente em todo o Novo Testamento, onde quer que o Velho Testamento seja citado ou mencionado. As lições sobre a tolerância que os escritos do Velho Testamento inculcam, e o estímulo que dão à fidelidade, cons­tituem forte incentivo ao sustento da esperança cristã. Paulo apresenta-lhes também um forte incentivo ao fortalecimento da união fraternal, e ora para que o Deus que ensina a Seu povo a tolerância e os supre de ânimo, através destes escritos lhes assegure unidade no entendimento, de modo que Ele seja glorificado pelo testemunho unido dado por eles.



  1. Ora, nós que somos fortes, devemos suportar as debilidades dos fracos.

Ver Gálatas 6:Is.: "Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós que sois espirituais, corrigi-o, com o espírito de brandura. (...) Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo."

  1. Cada um de nós agrade ao próximo no que é bom para edificação.

NEB: "... pense no que é para o seu bem e edifique a vida comum." (Ver 14:19; Fp 2:3s.)

  1. As injúrias dos que te ultrajavam, caíram sobre mim.

Citação do Salmo 69:9. Este salmo de aflição, como vimos (ver nota sobre Ils9s., p. 175), cedo foi interpretado na igreja como uma profecia da paixão e da retribuição de Cristo alcançando os Seus perseguidores. Visto que o salmo é dirigido a Deus, estas palavras implicam em que Jesus su­portou injúrias e insultos por Sua fidelidade a Deus, sendo que podia tê-lo evitado escolhendo um caminho mais fácil.

  1. Pois tudo quanto outrorafoi escrito, para o nosso ensino foi escrito.

Compare-se com a afirmação do mesmo princípio em 1 Coríntios 10:6, 11. As Escrituras (aqui, naturalmente, as Escrituras do Velho Tes­tamento) dão ampla evidência da fidelidade de Deus, principalmente quando lidas à luz do cumprimento delas feito por Cristo; daí, os leitores dessas Escrituras são incentivados a pôr sua confiança no Senhor e a es­perar pacientemente por Ele.

5. O mesmo sentir de uns para com os outros, segundo Cristo Jesus.





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