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8. Cristo e os Gentios (15:7-13).

Assim, pois, diz o apóstolo, sigam o exemplo de Cristo que nos acolheu sem discriminação, e abram as portas uns para os outros, sem discriminação.

O que quero dizer é isto, continua ele: Cristo não veio para receber serviço, mas para prestá-lo — primeiro aos judeus, para cumprir ás promessas que Deus fizera aos antepassados deles, e depois aos gentis, - para que estes também glorificassem a Deus por Sua misericórdia. Mas se a dádiva do Evangelho aos judeus cumpriu as promessas do Velho Tes­tamento, o mesmo se pode dizer da evangelização e da conversão dos gentios. E Paulo acrescenta uma cadeia de testimonia do Velho Testa­mento em que os gentios são apresentados como louvando o Deus de Israel e colocando sua esperança no Messias de Israel.

A maneira pela qual Deus daria aos gentios crentes a bênção e a ex­tensão desta — a bênção da sua incorporação ao lado dos judeus na comunidade do povo de Deus — podia ser um mistério mantido oculto desde as mais primitivas gerações até virem a ser uma realidade mediante o ministério de Paulo (Cl l:25ss.; Ef 3:2ss.). Mas o fato de que os gentios seriam abençoados pelo Evangelho, Paulo vê como algo claramente predito nos tempos do Velho Testamento. Isto significa que ele via o seu ministério como um meio empregado por Deus para o cumprimento de Suas promessas aos gentios.

Unia oração para que tivessem abundante alegria e paz, fé e es­perança, conclui esta divisão da epístola — divisão que apresenta o modo cristão de viver.

7. Portanto, acolhei-vos uns aos outros.

Assim RSV. (AV: "... recebei uns aos outros".) A idéia é: recebam os seus irmãos em Cristo em seus corações e em seus lares. Se o exemplo de Cristo for seguido, como Paulo ordena, a acolhida será sem reservas, e Deus será glorificado pelo amor mútuo e pela bondade mútua dos que são o Seu povo. É possível que Paulo esteja pensando especialmente — embora de modo nenhum exclusivamente — na prática irrestrita da comunhão entre os cristãos judeus e gentios.

Como também Cristo nos acolheu. Há boa evidência textual em favor de "vos" (humas) contrariamente a "nos" (hêmas); ver RV, RSV (NEB, seguindo o texto de Nestle-Kilpatrick, diz "nos"). "Esta é a razão por que eles devem permanecer unidos, e não desprezar-se uns aos outros, porquanto Cristo não desprezou nenhum deles." '5 (Calvino.)

8. Cristo.

Assim também RV, RSV e NEB, e assim deve ser, ao contrário de AV, que diz: "JesusCristo".

Foi constituído ministro da circuncisão. Ver NEB: "Fez-se servo do povo judeu." Segundo o próprio testemunho de Cristo, durante o Seu ministério terreno não foi "enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt 15:24). O substantivo traduzido por "ministro" é diakonos. Podemos comparar isto com as palavras de Cristo (AV): "O Filho do homem não veio para ser 'ministrado' {diakonêthênai), mas para 'minis­trar' (diakonêsai)" (Mc 10:45), e: "No meio de vós, eu sou como quem serve" (Lc 22:27).

Em prol da verdade de Deus. Isto é, "para manter a verdade de Deus concretizando as promessas por Ele feitas aos patriarcas" (NEB).

9. Por isso eu te glorificarei entre os gentios, e cantarei louvores ao teu


mone.

Quanto à primeira parte do versículo, AV diz: "Por esta causa eu te confessarei"; RV diz: "... dar-te-ei louvor". Citação do Salmo 18:49, on­de Davi, tendo incluído nações não-israelitas em seu império, conta-as como pertencentes agora à herança do Deus de Israel. Quanto à apli­cação cristã desta idéia, ver a citação que Tiago faz de Amos 9:lis. (LXX) no Concilio de Jerusalém (At 15:16s.).



10. Alegrai-vos, ó gentios, com o seu povo.

Citação do Cântico de Moisés, Deuteronômio 32:43. (Compare-se esta com outras citações anteriores deste Cântico em 10:19, 11:11, 12:19.)

11. Louvai ao Senhor, vós todos os gentios, e todos os povos o louvem.
(Observe-se o plural povos, grego laoi). Citação do Salmo 117:1, em

que o mundo todo é instado a louvar ao Deus de Israel por Seu constante amor e fidelidade.



  1. Haverá a raiz de Jessé, aquele que se levanta para governar os gen­
    tios; nele os gentios esperarão.


AV: "confiarão"; RV: "esperarão", como AA. Citação de Isaías 11:10, onde o "rebento do tronco de Jessé" (Is 11:1, RSV), i. e., o Mes­sias que há de vir da linhagem de Davi, "se firmará como estandarte dos povos; todas as nações o procurarão" (RSV).

13. E o Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer.


O titulo "Deus da esperança" talvez tenha sido sugerido pelas

palavras de Isaías 11:10 citadas no versículo anterior (AA e RV). Ver 14:17, em que se mencionam a paz e a alegria, ou gozo, como bênçãos do reino de Deus. Porque Deus é "o Deus da esperança" — o Deus que nos dá esperança nele mesmo — os crentes já podem desfrutar estas bênçãos. Para que sejais ricos de esperança no poder do Espírito Santo. Uma vez mais, é o Espírito que capacita os crentes em Cristo a experimen­tarem nesta vida as bênçãos da vida por vir. O grande objetivo da sua es­perança é a glória de Deus (5:2).


EPÍLOGO (15:14-16:27) a. Narrativa pessoal (15:14-33).
Paulo assegura aos cristãos de Roma que o ensino dado em sua carta não era porque os imaginava incapazes de ensinar-se uns aos outros. Ele está bem cônscio da qualidade moral e espiritual deles. O que escreveu é mais recordação do que já sabem, do que instrução elementar sobre o cristianismo. Além disso, conquanto não tenha sido ele o fundador da igreja deles, é o apóstolo dos gentios, e é nesta capacidade que lhes es­creveu. Paulo vê seu apostolado como um serviço sacerdotal, e vê os gen­tios que se converteram por meio dele como a oferta agradável que ele apresenta a Deus.

Nesta altura, Paulo já exercera seu apostolado por bem mais de vinte anos, e embora sua missão não estivesse completa ainda, não tinha razão nenhuma, ao olhar aqueles anos passados, para sentir-se insatisfeito com a obra realizada por Cristo por intermédio dele. Pregara o Evangelho de Jerusalém até aos limites do Ilírico. Nas principais cidades às margens das vias mais importantes das províncias da Síria-Cilícia, de Chipre, da Galácia, da Ásia, da Macedônia e da Acaia havia comunidades de cren­tes em Cristo para testemunharem da atividade apostólica de Paulo. Em toda parte seu objetivo fora pregar o Evangelho onde não tinha sido pregado ainda, e agora que tinha completado sua obra no oriente, olhava para o ocidente e se propunha a evangelizar a Espanha. Sua viagem à Es­panha lhe daria oportunidade de realizar seu desejo de há muito acalen­tado de ver Roma, e ansiava por reunir-se com os cristãos na capital e por reanimar-se mediante a comunhão com eles.

Todavia, tinha de ir primeiro a Jerusalém. A coleta para a igreja de Jerusalém que, já fazia alguns anos, ele organizara nas suas igrejas gen-tílicas, estava pronta para ser levada aos seus beneficiários, e Paulo ofereceu-se para acompanhar os representantes nomeados pelas igrejas para entregar suas ofertas.

Só depois que o seu ministério no Egeu fosse desse modo "selado", iria para a Espanha, aproveitando visitar Roma na viagem. Paulo já falara aos romanos do seu ardente desejo de pregar o Evangelho na ci­dade deles e de ver algum fruto do seu trabalho apostólico lá, e agora fala da sua confiança em que sua visita será acompanhada por grande bênção sobre a sua pregação do Evangelho. Por enquanto, pede as suas orações. Não tinha ilusões sobre o problema que talvez tivesse de enfrentar em Jerusalém. E quanto necessitava das orações deles para que se visse "livre dos rebeldes (AV: "dos que não crêem") que vivem na Judéia", eviden­cia-se pela narrativa de Atos 21:27ss. Talvez até desconfiasse da acolhida que ele e seus companheiros gentios poderiam receber da igreja de Je­rusalém e do modo como a dádiva que levavam seria aceita. Seja como for, pede aos romanos que orem para que a oferta seja aceita. Aqui a narrativa de Atos (21:17ss.) esclarece bem — quanto mais porque se trata de uma passagem "nós" — que Paulo e os representantes enviados en­contraram cordial acolhida quando visitaram Tiago e seus colegas de presbiterato. Mas é igualmente claro que Tiago e os presbíteros ficaram preocupados com a reação dos membros da sua igreja — muitos milhares de elementos vigorosos, e todos zelosos partidários da lei — em vista das informações ali chegadas a respeito dos ensinos e da prática de Paulo nas terras da Dispersão. Em seu afã por apaziguar os "soldados rasos", sugeriram a Paulo uma linha de ação que, ao se completar, levou à sua prisão, perseguição, apelo para César, e finalmente sua ida a Roma em circunstâncias bem diversas das que divisava quando escreveu esta epís­tola.

15. Entretanto.

Assim RV, RSV, NEB. AV acrescenta indevidamente a palavra "ir­mãos".

Vos escrevi em parte mais ousadamente, como para vos trazer isto de novo à memória. NEB: "Escrevi para refrescar sua memória, e em al­gumas partes escrevi um tanto ousadamente" — em vista do fato de que a igreja de Roma não era sua lavoura.

16. Para que eu seja ministro de Cristo Jesus entre os gentios, no sagrado


encargo de anunciar o evangelho de Deus, de modo que a oferta deles seja
aceitável.

Há nessas frases densa linguagem do culto: Paulo é um leitourgos;' sua proclamação do Evangelho é um "serviço sacerdotal" (hierourgeõ); seus conversos gentios são a oferenda que ele apresenta a Deus.



Santificada pelo Espírito Santo. Havia alguns, sem dúvida, que sus­tentavam que os gentios convertidos por meio de Paulo eram "impuros" porque não foram circuncidados. A tais caviladores a réplica de Paulo é que esses conversos eram "limpos" porque foram santificados pelo Es­pírito Santo que viera habitar neles (ver v. 19: "pelo poder do Espírito Santo"; AV: "do Espírito de Deus"). "Nós somos a (verdadeira) circun-cisâo", disse ele noutro lugar, "nós que prestamos culto pelo Espírito de Deus, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não temos confiança na carne" (Fp 3:3, RV). Os judaizantes, que se gloriavam na carne (i. e., nos privilégios vinculados ao nascimento judaico e à lei judaica), eram menos santificados que os gentios que aprenderam a orgulhar-se em Cristo somente (ver 8:8). Semelhantemente, Pedro, no Concilio de Je­rusalém, lembra aos judeus que eram seus irmãos em Cristo, como Deus dera o Espírito Santo aos gentios quando estes ouviram o Evangelho, "concedendo o Espírito Santo a eles, como também a nós nos concedera. E não estabeleceu distinção alguma entre nós e eles, purificando-lhes pela fé os corações" (At 15:8s.).

19. Desde Jerusalém.

Paulo começou sua carreira de pregador cristão em Damasco e no território circunvizinho da Arábia dos nabateus (At 9:19ss.; Gl 1:17). Seu ministério de amplitude mais extensa na qualidade de apóstolo dos gen-tios tinha base em Antioquia (At ll:25ss., 13:lss.). Então, por que deve ele mencionar aqui Jerusalém como o ponto de partida do seu ministério? Pode-se supor que talvez tenha em mente alguma ocasião particular, como a visão descrita por ele em Atos 22:17-21 ou (menos provavelmente) a entrevista de reconhecimento com os líderes de Jerusalém que relata em Gálatas 2:1-10. Mas é mais provável que mencione Jerusalém como o ponto de partida e como a metrópole do movimento cristão em termos gerais (ver Lc 24:47; At 1:4, 8; 8:14; 11:22; 15:2).

E circunvizinhanças, até ao Ilírico. Não há menção do Ilírico (a província romana que margeava a costa leste do Mar Adriático) em Atos nem em qualquer das epístolas paulinas até este ponto. Mas o intervalo entre o fim do ministério de Paulo em Éfeso e o início de sua última viagem a Jerusalém foi provavelmente maior do que se poderia inferir de uma casual leitura de Atos, onde se comprime em meia dúzia de versí­culos (At 20:1-6). Há razão para se pensar que Paulo cruzou o mar para a Macedônia no verão ou no outono de 55 A. D. (ver 2 Co 2:12s.) e passou os seguintes quinze a dezoito meses na Macedônia e na Acaia. Deve ter sido dentro deste período que atravessou a Macedônia de leste a oeste seguindo a Estrada Egnácia, até à fronteira do Ilírico, possivelmente penetrando o Ilírico e pregando o Evangelho ali, pois essa viagem não se ajusta bem a seu itinerário em nenhuma ocasião anterior.

Tenho divulgado o evangelho de Cristo. AV: "Preguei completa­mente". Tradução literal: "Completei o evangelho de Cristo" (ver NEB: "Completei a pregação do evangelho de Cristo"). Fizera isto pregando o Evangelho em todas as províncias existentes dentro dos limites men­cionados (não a cada indivíduo), e com isso se desobrigara da sua comis­são apostólica naquela parte do mundo gentílico.

20. Para não edificar sobre fundamento alheio.

Sua norma era, porém, como o declara em 1 Co 3:10: "Lancei o fun­damento como prudente construtor; e outro edifica sobre ele." Ver p. 14.


  1. Hão de vê-lo aqueles que não tiveram noticia dele, e compreendê-lo
    os que nada tinham ouvido a seu respeito.


Citação de Isaías 52:15 (LXX). O texto hebraico (traduzido na RSV: "Pois aquilo que não lhes foi contado verão, e aquilo que não ouviram compreenderão") refere-se à surpresa das nações e seus reis quando virem a exaltação do Servo Sofredor que antes desprezaram. A versão grega, contudo, presta-se bem à presente declaração de Paulo, de sua política pioneira na pregação do Evangelho. Já tivemos ampla evidência do modo pelo qual toda esta seção do livro de Isaías serviu como fonte de tesíimonia do Evangelho (ver pp. 34, 169).

24. Estarei convosco.

AV: "Virei a vós." Esta frase ê acréscimo posterior, sem dúvida com o fim de amenizar a quebra abrupta que se dá na construção do texto original (ver RV: o inglês da RSV e da NEB, e o português da AA é mais suave do que o grego de Paulo).

25. A serviço dos santos.

AV: "Para ministrar aos santos." Os membros da igreja de Jeru­salém são "os santos" par excellence (ver v. 31; 1 Co 16:1; 2 Co 8:4; 9:1, 12). Mas os que se converteram por meio de Paulo e outros cristãos gen-tios se tomaram seus "concidadãos" (Ef 2:19). Assim, ele insiste em referir-se sis'ematicamente a eles também como "santos", o povo santo de Deus. O verbo "ministrar" em grego aqui é diakoneõ (ver 12:7, 15:8, 16:1).

Mais pormenores acerca dessa coleta são fornecidos em outras par­tes da correspondência existente de Paulo, especialmente em 1 Coríntios 16:1-4 e 2 Coríntios 8, 9. Era evidentemente um empreendimento ao qual Paulo dava alta importância.

Por uma razão, como ele diz aos romanos, era um meio de levar os cristãos gentios a compreenderem sua dívida a Jerusalém. De Jerusalém é que o Evangelho se propagara, primeiro às províncias adjacentes à Judéia (tais como a Síria, com Antioquia, às margens do Orontes, como sua capital), e depois a territórios mais distantes (como os que Paulo es-tivera evangeliz.ando nos dez anos anteriores). Era uma pequena devo­lução que as igrejas gentílicaseram convidadas a fazer em reconhecimen­to à sua dívida, se solicitadas a contribuir para atendimento às neces­sidades materiais da igreja-mãe da cristandade.

Por outra razão, Paulo divisou nisso um meio de consolidar a co­munhão que se devia manter entre Jerusalém e as igrejas gentílicas. Ele estava bem cônscio de que muitos irmãos de Jerusalém, dos mais rigo­rosos, olhavam com grave suspeita para a sua missão entre os gentios, en­quanto que alguns iam mais longe, a ponto de considerar-se no dever de conquistar os conversos do apóstolo, levando-os a romper sua lealdade a ele aderindo a uma concepção da fé e vida cristã mais de acordo com a que prevalecia entre os crentes comuns de Jerusalém. Mesmo quando as coisas não chegassem a este extremo, a divisão entre Jerusalém e as igrejas gentílicas não podia fazer bem à causa de Cristo, e nada poderia sobrepujá-la senão um generoso gesto de amor fraternal.

A coleta em favor de Jerusalém não assinalou nenhuma inovação na política, da parte de Paulo. Onze anos antes ele e Barnabé tinham levado uma dádiva parecida feita pelos cristãos de Antioquia da Síria à igreja de Jerusalém numa época de fome/ Nessa ocasião, quando os dois tiveram um encontro com as "colunas" da igreja de Jerusalém, esta reconheceu espontaneamente que Barnabé e Paulo tinham sido chamados para a obra de evangelização dos gentios, mas lhes recomendou que se lembrassem dos "pobres" (ver nota sobre o v. 26); e de fato, diz Paulo quando relata es­te incidente, foi "o que também me esforceipor fazer".3

Aqui na verdade surge a questão se Paulo e os líderes de Jerusalém entendiam a contribuição no mesmo sentido. Para o apóstolo Paulo, era um gesto espontâneo de amor fraternal, um sinal da reação agradecida dos seus conversos à graça de Deus que lhes trouxera a salvação. Mas aos olhos dos líderes de Jerusalém talvez fosse uma forma de tributo, um dever a que estariam sujeitas as igrejas-f ilhas para com sua mãe, algo comparável ao meio siclo pago anualmente pelos judeus do mundo inteiro para a manutenção do templo de Jerusalém e seus serviços.

Todavia, aos olhos de Paulo era tudo o que foi dito, e mais. Não era apenas o reconhecimento demonstrado pelos cristãos gentios de seu débito espiritual para com Jerusalém. Nem era apenas um vínculo de comunhão e amor fraterno. Era o clímax do ministério de Paulo no Egeu e um ato de culto e dedicação a Deus antes de partir para o ocidente. Era, de fato, o sinal externo e visível daquela "apresentação dos gentios como oferta" que coroou o seu serviço sacerdotal como apóstolo de Jesus Cris­to. Por isso chegara a dar tanta importância ao fato de acompanhar pes­soalmente os delegados gentios a Jerusalém, para apresentar ali esta ofer­ta a Deus, talvez por um ato de culto realizado no mesmo lugar do templo onde outrora Cristo lhe aparecera e o enviara "para longe aos gentios" (At 22:21).

26. Aprouve à Macedônia e à Acaia.

Paulo menciona aqui os cristãos dessas duas províncias provavel­mente porque passara vários meses em estreito contato com eles. Mas temos o seu próprio testemunho em 1 Coríntios 16:1 de que tinha or­ganizado uma coleta semelhante nas igrejas da Galácia, e a presença de Tíquico e Trófimo ao lado dele nessa ocasião (At 20:4; ver 21:29) indica que as igrejas de Éfeso e doutras cidades da província da Ásia também tinham partilhado deste serviço.



Em benefício dos pobres dentre os santos que vivem em Jerusalém. AV: "Os santos pobres", mas a tradução de AA é literal aí. De fato, os crentes de Jerusalém, segundo parece, referiam-se a si mesmos como "os pobres" — ver Gálatas 2:10: "Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres [ptõchoi, como aqui) — e esta designação, em sua forma hebraica 'ebyonim, sobreviveu entre os cristãos judeus de épocas posteriores conhecidos como ebionitas. É desnecessário supor, com K. Holl,4 que Paulo emprega esta expressão para encobrir seu embaraço an­te o fato de que a coleta se destinava à igreja de Jerusalém como um todo; a freqüência com que fala da "coleta para os santos" não dá a impressão de que teve qualquer embaraço quanto a isso.

27. Isto lhes pareceu bem, e mesmo lhes são devedores.

A contribuição era um gesto voluntário da parte das igrejas gentí-licas; contudo era o reconhecimento de uma dívida — dívida moral, porém; não legal.

Devem também servi-los com bens materiais. A idéia de que não era uma simples coleta beneficente, mas um tributo que a igreja-màe tinha todo o direito de esperar dos cristãos gentios,5 pode representar muito bem a atitude da igreja de Jerusalém, mas não a de Paulo. Isto se eviden­cia pelos termos com que fala dela às igrejas contribuintes; é um ato de graça, e não de obrigação formal da parte delas (ver 2 Co 8:6-9). Bem pode ser também que, por esse sinal material da graça de Deus entre os gentios, esperasse mais particularmente estimular aquela salutar "emulação" de que fala em 11:14.*" O verbo "servir" aqui ("servi-los") é leitourgeõ (ver o substantivo leitourgos no v. 16). Em 2 Coríntios 9:12 a coleta é chamada leitourgia (AV e A A: "serviço") — palavra da qual "liturgia" (em português) é derivada.

28. Havendo-lhe consignado este fruto.

NEB: "E entreguei o produto com meu próprio selo." Paulo em­prega uma expressão formal do comércio. Contudo, talvez não devamos pensar no selo pessoal de Paulo, mas no selo do Espírito; é a conclusiva confirmação da obra do Espírito entre os gentios (ver v. 16).

29. Na plenitude da bênção de Cristo.

Assim RV etc. AV acrescenta indevidamente "do evangelho" ("... da bênção do evangelho de Cristo").

30. Rogo-vos, pois, irmãos.

Acompanhando P46 e B, talvez devamos omitir "irmãos".

Amor do Espírito. Isto é, o amor que o Espírito Santo infunde e mantém (ver 5:5).

33. E o Deus düpaz seja com todos vós. Amém.

O título "Deus da paz" reaparece em 16:20. Quanto à prova de que uma primitiva edição da epístola concluía com esta bênção, ver a In­trodução, p. 27.

b. Saudações a vários amigos (16:1-16).

A carta, quando terminada, foi evidentemente levada ao seu destino por Febe, uma senhora cristã que tinha mesmo de viajar para lá. Paulo aproveita a oportunidade para recomendá-la à hospitalidade e à co­munhão dos cristãos a quem está escrevendo. Esta palavra de recomen­dação é seguida de uma lista de saudações pessoais a certo número de pessoas mencionadas nome por nome.

Tem sido muito difundida a afirmação de que este capítulo final foi endereçado a Êfeso, e não a Roma — que Febe estava ligada a Éfeso e que os amigos aos quais Paulo envia saudações viviam em Éfeso.

É altamente improvável que uma carta destinada à igreja de Éfeso tenha sido de algum modo anexada a uma carta endereçada a Roma. Seja como for, "uma carta consistindo quase inteiramente de saudações pode ser inteligível numa época de cartões postais ilustrados; para qual­quer período anterior é uma monstruosidade" (Hans Lietzmann). Mas esta objeção não vai contra a idéia de que Paulo enviou uma cópia desta epístola a seus amigos de Éfeso (como o pode ter feito a outras comu­nidades cristãs),7 e lhe acrescentou um apêndice com certo número de saudações pessoais.

Mas "possessão vale por nove pontos da lei", e desde que este ca­pítulo vem no fim de uma carta manifestamente destinada aos cristãos de Roma, é natural supor que este capítulo visava a eles também, a menos que se aduzam razões de muito peso em contrário.

Quais são, pois, os principais argumentos para defender a tese de que o capítulo 16 se destinava a Éfeso?

(1) Neste capítulo Paulo envia saudações pessoais a 26 indivíduos e a 5 famílias ou "lares-igrejas". Será possível que ele conhecesse tanta gente de uma cidade que nunca tinha visitado? Pensamos, ao contrário, numa das cidades com as quais estava familiarizado. Corinto não entra em cena porque a carta foi escrita de lá. Mas Éfeso (onde recentemente passara dois anos e meio) é por certo indicada, especialmente pelas duas razões seguintes.

(2) As primeiras pessoas a quem Paulo envia saudações aqui são os seus amigos Priscila e Aqüila. Da última vez que ouvimos falar deles, quer era Atos (18:26), quer na correspondência de Paulo (1 Co 16:19),8 residiam em Éfeso, onde tinharri uma igreja em sua casa, como aqui. Na ausência de qualquer alusão contrária, podemos presumir que ainda es­tavam em Éfeso.



  1. A próxima pessoa a ser saudada por nome é Epêneto, "primícias da Ãsia (não "Acaia" como diz AV), para Cristo". A primeira pessoa a converter-se por meio de Paulo na província da Ãsia, naturalmente deve ser procurada em Éfeso, não em Roma.

  2. Outro argumento, baseado na admoestaçâo registrada nos ver­sículos 17-20, é considerado mais adiante (pp. 223ss.).

Que se pode dizer agora a favor da igreja de Roma como destinatária deste capítulo, além e acima da pressuposição inicial de que foi enviado às mesmas pessoas às quais foi dirigido o restante da carta à qual está ligado?

(1) Tal lista de saudações seria excepcional numa carta escrita a uma igreja que Paulo conhecesse bem. Se este capítulo teve Éfeso por destino, podemos visionar a ocasião em que foi lido em voz alta numa reunião da igreja. Os presentes teriam ouvido a leitura de 26 saudações dirigidas a pessoas do seu meio. Mas Paulo certamente conhecia mais de 26 mem­bros de uma igreja em cujo seio passara longo tempo. Que pensariam os demais? Cada um deles decerto perguntaria: "Por que me deixou fora?" Mas numa carta escrita para uma igreja que não conhecia pessoalmente, Paulo bem podia mandar saudações a amigos que encontrara em outros lugares no transcurso do seu serviço apostólico, agora residentes em Roma. Se os mencionasse nome por nome, os outros membros da igreja não se sentiriam ofendidos por serem omitidos, porque não esperariam ser incluídos. Na Epístola aos Colossenses, também escrita a uma igreja que Paulo nunca tinha visitado, saudações semelhantes são enviadas a uns poucos indivíduos — somente alguns, porque Colossos ficava fora das rotas mais batidas e longe de alguma localidade da importância de Roma. Roma, porém, era a capital do mundo. Todos os caminhos le­vavam a Roma, e não é surpreendente que muita gente que Paulo co­nhecera em outros lugares, nesse meio tempo tivesse ido para Roma. Em particular, a morte do imperador Cláudio em outubro de 54 A. D. talvez tenha significado, para todos os efeitos práticos, a revogação do seu edito, passado cinco anos antes, expulsando de Roma os judeus. Se houve um regresso geral de judeus a Roma por volta dessa ocasião, certamente havia cristãos judeus entre eles. Priscila e Áquila, compelidos a deixarem Roma por causa do edito de 49 A. D. (At 18:2), bem podem ter retornado em 54 A. D. ou pouco depois, deixando talvez procuradores a cargo das filiais da sua indústria de tendas de Corinto e de Éfeso (como possivel­mente haviam feito com sua filial de Roma quando tiveram de sair da capital). Negociantes como Priscila e Áquila não passavam muito tempo num lugar naqueles dias. Daí, não era improvável nem incomum se mudarem eles para cá e para lá, entre Roma, Corinto e Éfeso.^



  1. Certo número dos nomes que constam dos versículos 7-15 tem documentação mais forte pró Roma do que para Éfeso 10 Isto se deve em grande medida ao muito maior número de inscrições acessíveis de Roma do que de Éfeso. E em todo caso, na maior parte a documentação é boa em favor dos nomes, não das pessoas. Dão-se pormenores nas notas de rodapé, e o leitor pode avaliar por si mesmo a documentação. Talvez o argumento mais forte venha em favor dos membros da "casa de Nar­ciso", no versículo 11. Sabemos da existência de uma "casa de Narciso" em Roma justamente naquele tempo. O nome Rufo (v. 13) era mais
    comum em Roma do que em Éfeso, mas se era o Rufo de Marcos 15:21, provavelmente não foi em Roma que recebeu seu nome. Entretanto, o Rufo de Marcos 15:21 era evidentemente bem conhecido na igreja ro­mana. Não podemos dizer que não havia um Rufo na igreja, mas não sabemos se havia. Tendo em vista o conjunto de dados, o estudo destes nomes faz a balança da probabilidade pender em favor de Roma.

  2. "As igrejas de Cristo" que enviam suas saudações aos leitores — no versículo 16 — seriam as igrejas gentílicas cujos representantes se es­tavam juntando a Paulo nessa mesma ocasião para levar as contribuições de suas igrejas a Jerusalém." Seria uma idéia particularmente feliz enviar saudações destas igrejas a Roma. Decerto se podia dizer que seria uma idéia igualmente feliz enviar saudações das igrejas a Éfeso, mas, vis­to que Éfeso era uma das igrejas representadas — por Trófimo e possivel­mente Tíquico (At 20:4) — não havia o mesmo propósito em enviar-lhe saudações.

1. A nossa irmãFebe, que está servindo à igreja de Cencréia.

AV: "serva". Evidentemente Febe (RV, RSV, NEB) estava prestes a partir de viagem para o local'para onde Paulo estava enviando estas saudações, e pode ter recebido a incumbência de levar a carta que as con­tém. Cencréia (RV, RSV, NEB) era um dos dois portos marítimos de Corinto, situado no Golfo Sarônico (ver At 18:18). A igreja dali talvez fosse filha da igreja metropolitana de Corinto. A palavra "serva" é diakonos (RVmg., RSV, "diaconisa"; NEB, "uma irmã em Cristo que desempenha ofício na congregação de Cencréia"). 1 Timóteo 3:11 sugere a idéia de que os deveres de um diakonos podiam ser cumpridos por homens e mulheres. Nesta passagem, "suas esposas" (AV, NEB), com maior probabilidade, deve-se traduzir por "mulheres" (RV, AA), i. e., "mulheres diaconisas" (ver RSV, "as mulheres"; NEBmg., "diaconi-sas").

2. Para que a recebais no Senhor, i. e., como irmã em Cristo.

Os cristãos em viagem nos dias da igreja primitiva podiam contar sempre com a hospitalidade dos seus irmãos em Cristo onde quer que houvesse uma igreja (ver 15:7).



Protetora de muitos, e de mim inclusive. Quanto à espécie de ajuda que ela deu a.Paulo, só podemos fazer conjeturas. Provavelmente Febe era em Cencréia o que Lídia era em Filipos.

3. Saudai a Priscila e a Aqüila.



Leia-se "Prisca" (RV, RSV, NEB), em vez de "Priscila". Paulo lhe chama Prisca (ver 1 Co 16:19, RV; 2 Tm4:19) enquanto que Lucas lhe dá o nome em sua forma um tanto mais familiar, que é Priscila (ver At 18:2, 18, 26). "Lucas normalmente emprega a linguagem da conversação, em que as formas diminutivas eram usuais; deste modo, sempre fala em Priscila, Sópatro e Silas, ao passo que Paulo fala em Prisca, Sosípatro e Silvano.'"2 Tanto Lucas como Paulo geralmente colocam Prisca (Pris­cila) antes de Áquila, seu marido. Talvez se deva ao fato de ela ter per­sonalidade mais marcante, embora alguns tenham inferido que pertencia a uma classe social superior à dele. Talvez ela pertencesse por nascimento ou por manumissão à gens Prisca, uma família da nobreza romana, enquanto que ele era judeu do Ponto, na Ãsia Menor Setentrional. Ver pp. 16,216.

  1. Os quais pela minha vida arriscaram as suas próprias cabeças, i. e.,
    "arriscaram as suas próprias vidas". Sobre a ocasião em que Priscila e Áquila fizeram isto, só podemos especular. Pode ter sido durante uma das fases críticas do ministério de Paulo em Éfeso.

  2. Primícias da Ásia, para Cristo.

AV: "da Acaia". Leia-se, porém, Ásia, o que é favorecido pelo texto mais bem documentado. O "Texto Recebido" foi influenciado aqui por 1 Coríntios 16:15 onde, contudo, "a casa de Estéfanas" — uma família de Corinto — é que "é as primícias da Acaia".

  1. Saudai a Mar^a, que muito trabalhou por vós.

AV diz: "por nós", mas o melhor texto diz: "por vós" (RV, RSV, NEB, como AA). Isso tem levado a pensar que a igreja de Éfeso era a des­tinatária destas saudações. Sim, porque Paulo podia saber quem rea­lizara notáveis serviços naquela igreja, mas como poderia saber quem havia trabalhado muito pelos cristãos da capital? Decerto contava com algumas fontes de informação acerca da igreja de Roma (ver l:8s.). Se Maria se ligara àquela igreja nos primeiros dias desta, Priscila e Áquila a conheceram. Mas só podemos especular a respeito. Esta á a única re­ferência que temos à Maria de que trata a presente passagem (uma das seis mulheres com esse nome no Novo Testamento).

  1. Saudaia Andrônico e a Júnias.

É impossível decidir se o segundo nome é feminino, Júnia (como em AV), ou masculino, Júnias (como em AA, RV, RSV, NEB). Nada sa­bemos destes dois à parte da referência que Paulo faz a eles aqui. Mas es­ta referência nos desperta o desejo de saber mais. Evidentemente eram cristãos judeus (não é preciso entender mais que isto da expressão "meus parentes"; tinham sido companheiros de Paulo em uma das freqüentes prisões que sofreu (2 Co 11:23) — onde, não podemos saber. Certamente não em Filipos; muito possivelmente em Éfeso. Além disso, eram "no­táveis entre os apóstolos", o que provavelmente significa não somente que eram bem conhecidos dos apóstolos, mas que eram apóstolos eles pró­prios (num sentido mais amplo da palavra), e eminentes como tais. E já fazia muito tempo que eram cristãos, desde antes da conversão de Paulo. Sendo esse o caso, bem podem estar incluídos entre os helenistas de Atos 6:1 (seus nomes sugerem que eram helenistas, e não "hebreus"). Pode ser que tenham tido direito ao apostolado com base no fato de terem visto o Cristo ressurreto.

  1. Amplíato.

AV: "Amplias", forma abreviada. Mas "Amplíato" é a forma preferida aqui; assim em RV, RSV, NEB, como em AA. Nome comum nas inscrições romanas do período, e é encontrado repetidamente como nome de membros da casa imperial. Um ramo da gens Aureiia o usava como cognome. Cristãos pertencentes a este ramo da família estão sepul­tados em um dos mais antigos cemitérios cristãos de Roma, o Cemitério de Domitila, iniciado no final do século primeiro (ver nota sobre o v. 15, p. 222). Um túmulo daquele cemitério, decorado com pinturas num estilo muito primitivo, tem a inscrição AMPL1 AT em unciais do primeiro século ou do começo do segundo.

  1. Urbano.

Urbanus ("pertencente à urbs" ou "cidade" — i. e., Roma), nome por sua própria natureza particularmente comum em Roma.

Estáquis. Este nome, que significa "espiga", não é comum. Numa ou duas vezes que ocorre está associado à casa imperial.

  1. Apeles.

Nome tão comum entre os judeus de Roma, que chegou a ser usado por Horácio como típico nome judeu — "credut Iudaeus Apella" {Sátira i. 5.100). Um notável vulto chamado Apeles foi o ator trágico de Ascalon a quem, certa vez, o imperador Gaio deu mostras de favor (Filo, Em­baixada a Gaio, 203-206). Acha-se em inscrições romanas, tanto em relação a elementos da família imperial como a outros.

Os da casa de Aristóbulo. Não se pode determinar com precisão quem é este Aristóbulo. Lightfoot sugere sua identificação com um irmão de Herodes Agripa I, que morava em Roma como cidadão particular e, como seu irmão, desfrutava da amizade de Cláudio. Caso tivesse legado seus bens ao imperador, os seus escravos e libertos ter-se-iam distinguido doutros membros dacasa imperial como Aristobuliani (equivalente latino da expressão paulina: hoi ek tõn Aristoboulou). Ã luz desta identificação de Aristóbulo com um membro da família de Herodes, conforme a suges­tão de Lightfoot, será por mera coincidência que na lista de Paulo o nome seguinte é Herodião?



  1. Herodião.

Talvez membro dos Aristobuliani, que Paulo conhecia pessoalmen­te; "meu parente" (ver v. 7) talvez o assinale simplesmente como sendo judeu de nascimento.

Os da casa de Narciso. Calvino e outros identificam este Narciso com Tibério Cláudio Narciso, rico súdito do imperador Tibério, homem de muita influência durante o domínio de Cláudio, mas executado por or­dem de Agripina, mãe de Nero, logo depois do acesso deste ao poder, em 54 A. D. Confiscados os seus bens, os seus escravos se tornariam pro­priedade imperial e se distinguiriam doutros grupos da casa imperial pela designação de Narcissiani. Se é válida esta identificação, esta saudação era dirigida aos cristãos que havia entre os Narcissiani. Mas não temos meios de averiguar como Paulo conhecera os cristãos pertencentes aos Narcissiani ou como ouvira falar deles.

  1. Trifena e Trifosa.

Provavelmente parentas próximas ou irmãs, e muito possivelmente gêmeas, caso em que não era incomum dar nomes derivados da mesma raiz. Dos dois nomes, Trifosa, é o que se acha com maior freqüência, mas ambos ocorrem em inscrições ligadas ou não à casa imperial. Contudo, estes nomes têm associações com a Anatólia. Trifena aparece na obra fic­tícia do segundo século, Atos de Paulo, como o nome da rainha que mos­trou bondade com Tecla, em Antioquia da Pisídia (esta rainha foi per­sonagem histórica, sobrinha-neta do imperador Cláudio).

Pérside. Este nome (que significa "mulher persa") aparece em ins­crições gregas e latinas de Roma e doutros lugares como o de uma escrava ou liberta, mas sem conexão com a casa imperial.

  1. Rufo.

Este nome, que significa "vermelho", "ruivo" (palavra de origem itálica, e não latina), era tão comum em Roma e na Itália, que não ha­veria boa razão para questionar se era de lá, exceto por dois pontos: primeiro, a menção de Rufo em Marcos 15:21 como um dos dois filhos de Simào Cireneu; segundo, a intrigante referência à mãe deste Rufo como sendo a mãe de Paulo também (AV). Escrevendo o seu evangelho em primeiro lugar para os cristãos de Roma (conforme tradição do segundo século), Marcos identifica Simão Cireneu para os seus leitores 30 anos depois do incidente em que Simâo figurava. E ao identificá-lo, diz, em outras palavras: "Vocês saberão quem é o Simão a que me refiro quando lhes disser que era o pai de Alexandre e de Rufo." Havia, pojs, um Rufo bem conhecido em Roma por volta de 60 A. D., e é tentador identificá-lo com o Rufo, eleito no Senhor, mencionado por Paulo ("um proeminente seguidor do Senhor", NEB). (O grego eklektos, "escolhido" — AA: "eleito" — naturalmente adquire o sentido de "excelente" e, daí, de "proeminente".)

Mas se este Rufo era o filho de Simâo Cireneu, quando foi que sua mãe se mostrou mãe de Paulo? Não podemos ter certeza, porém se pode aventurar a suposição de que foi na época em que Barnabé foi a Tarso buscar Paulo para fazer dele seu colega no ministério que exercia em An­tioquia da Síria (At ll:25s.). Simeão, que tinha por sobrenome Niger ("de pele escura"), um dos mestres da igreja dali (At 13:1), tem sido identificado com Simão Cireneu. Se Paulo se hospedou com ele, podemos bem visualizar a esposa de Simeão (ou Simão) fazendo o papel de mãe para o seu hóspede deserdado. (Poderia um pai de pele escura ter um filho ruivo? Isto não é impossível.)

14. Hermas.

Abreviação de algum destes nomes: Hermágoras, Hermógenes e Hermódoro. Nome bem comum. Um par de gerações mais tarde seria o nome de um cristão de Roma (um escravo) que escreveu O Pastor.



Pátrobas. Abreviação de Patróbio. Nome de um rico oficial liberto de Nero. Lightfoot opina que o Pátrobas de Paulo "podia muito bem ter sido um dependente deste poderoso liberto" (Philippians, p. 177).

Hermes. Como nome do deus da boa sorte, era extremamente co­mum como nome de escravo.

(Em AA, apud texto grego de Nestle, a ordem em que aparecem os nomes de Hermas e de Hermes é invertida. Aqui seguimos AV.)

15. Filólofjo eJúlia.

Talvez marido e mulher (menos provavelmente irmão e irmã). Júlia é nome que sugere algum tipo de associação com a casa imperial. O nome Filólogo aparece mais de uma vez em conexão com a casa imperial.



Nereu. A tradição eclesiástica romana, abrangendo o período que vai até o quarto século, associa Nereu (e um seu companheiro chamado Aquileu) a Flávia Domitila, dama cristã da casa imperial banida para a ilha de Pandatéria, longe da costa da Campânia, por seu tio Domiciano, em 95 A. D., solta depois da morte deste no ano seguinte. O nome dela foi imortalizado como nome do "Cemitério de Domitila" (ver nota sobre ov.8,p.220).

Olirnpas. Forma abreviada de Olimpiodoro.

16. Saudai-vos uns aos outros com ósculo santo.

(Ver 1 Co 16:20; 2 Co 13:12; 1Ts5:26; 1 Pe 5:14.) O "beijo de paz", que até hoje desempenha um papel na liturgia da Igreja Oriental, é men­cionado pela primeira vez como característica normal do culto cristão na Primeira Apologia, 65, de Justino Mártir ("quando paramos de orar, saudamo-nos uns aos outros com um beijo").

O nome de Pedro está notavelmente ausente da lista daqueles aos quais são enviadas as saudações. Se for aceita a idéia de que estas sau­dações foram destinadas a Roma, a ausência do nome de Pedro sugere que ele não estava em Roma nessa ocasião.



Todas as igrejas de Cristo vos saúdam. Assim também RV, RSV, NEB. AV omite indevidamente a palavra "todas". Esta sentença, como se tem dito, constitui forte argumento em favor da tese de que Roma é a destinatária destas saudações. Por que Paulo mandaria saudações de todas as igrejas a uma igreja à qual estava enviando uma carta comum? Mas numa ocasião em que estava concluindo uma importante fase do seu ministério, é bem possível que mandasse saudações de todas as igrejas ligadas àquela fase do seu ministério a uma igreja que, não somente ocupava uma posição única no mundo (como acontecia com a igreja de Roma), mas também, na intenção de Paulo, devia desempenhar impor­tante papel no início de uma nova fase do seu ministério.u

c. Exortação final (16:17-20).

Esta passagem admonitória difere do restante da epístola, tanto em conteúdo como em estilo. Aqui Paulo se afasta da sua política de não se dirigir à igreja romana com o tom da autoridade apostólica usado por ele ao escrever às igrejas que ele fundou. Além disso, as dissensões referidas neste parágrafo não correspondem a coisa alguma da vida da igreja romana que se pudesse recolher de outras partes da epístola. Em outras partes da epístola, a única possibilidade de tensão no seio da igreja a que se faz alusão é a que poderia surgir se os membros gentílicos da igreja começassem a assumir um ar de superioridade sobre seus irmãos de origem judaica (ll:13ss.). Por outro lado, a admoestação deste parágrafo tem pontos de afinidade com as palavras de exortação e de prognósticos dirigidas por Paulo aos presbíteros da igreja de Éfeso em Atos 20:28ss. Servem para comparação as dissensões e os falsos ensinos em Éfeso men­cionados nas duas epístolas a Timóteo (para não falar da heresia que, segundo a Epístola aos Colossenses, estava encontrando guarida entre os cristãos doutra região da província da Ãsia). Isto, acrescentado aos ar­gumentos baseados nas saudações precedentes, se supõe que aponta Éfeso, e não Roma, como a destinatária deste capítulo.14

Doutro lado, não seria de admirar se, após longo esforço por conter-se ao dirigir-se a uma igreja não fundada por ele, Paulo afinal rompesse numa urgente advertência quanto a certos criadores de problemas de uma classe que ele conhecia muito bem nas igrejas dele. Da descrição que faz deles, é evidente que se refere a "maus obreiros" como os que denun­cia em Filipenses 3:18s. O ensino deles era de evidente tendência anti-nomista, e possivelmente trazendo as marcas de um gnosticismo inci­piente. Era tão contrário ao ensino que os cristãos de Roma tinham recebido dos fundadores e líderes da obra local, como o era ao ensino de Paulo, e estava fadado a levar à divisão e à dissensão onde quer que fosse introduzido. Mais para o início da epístola, Paulo dera ênfase às exigên­cias éticas do Evangelho em termos que bem podiam dirigir-se a gente como essa (ver 3:8, 6:lss., 12:lss.)- Se tinha motivo para crer que a igreja de Roma corria o risco de receber as atenções deles, como acontecera com as igrejas que fundara, sem dúvida se sentia compelido por seu senso de dever a adverti-la claramente contra os mesmos. Contudo, era tal a re­putação de fidelidade ao Evangelho que a igreja romana gozava, que bas­tava uma breve advertência contra aqueles semeadores de discórdia. A discórdia era obra de Satanás, mas se os cristãos romanos mantivessem à distância esses causadores de problemas e seu ensino, Deus, que é "o Deus da paz" e não da discórdia (ver 1 Co 14:33), lhes daria a vitória sobre Satanás e sobre todas as suas obras.



  1. Cristo nosso Senhor.

AV: "Nosso Senhor Jesus Cristo". Leia-se, porém, "nosso Senhor Cristo" (RV, RSV), ou "Cristo nosso Senhor" (NEB, AA).

Esses tais ... servem ... a seu próprio ventre. Ver Filipenses 3:19, on­de Paulo adverte os cristãos filipenses contra homens dos quais diz: "o deus deles é o ventre." Em ambos os lugares é provável que a referência seja aos antinomistas que faziam do Evangelho um pretexto para a satis­fação dos spus apetites (ver 6:1).

  1. (Juero que sejais sábios para o bem e símplicespara o mal.

Ver Mateus 10:16: "Sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas" (em grego se usam os mesmos adjetivos, sophos e ukeraios, nos dois lugares). Outra exortação paulina parecida é: "Na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens ama­durecidos"; AV: "Na malícia sede crianças, mas no entendimento sede homens" (1 Co 14:20).

  1. O Deus da paz.

Título que se repete da bênção de 15:33 (ver também a bênção de Hb 13:20). É particularmente apropriado aqui, visto que Satanás é o autor da discórdia.

Em breve esmagará debaixo dos vossos pés a Satanás. Eco de Gê­nesis 3:15, onde Deus declara que a semente da mulher esmagará a cabeça da serpente. O povo de Cristo recebe um quinhão da Sua vitória.

A graça de nosso Senhor Jesus seja convosco. Assim RV, RSV e NEB. AV indevidamente diz: "Nosso Senhor Jesus Cristo" e acrescenta "Amém" ao final da bênção.

d. Saudações enviadas pelos companheiros de Paulo (16:21-23/24).

Paulo manda saudações de vários amigos que estão com ele na ocasião em que escreve, incluindo-se Timóteo, seu fidus Achates;15 Gaio, seu hospedeiro; e Tércio, seu amanuense, que escreve sua saudação na primeira pessoa do singular.

21. Timóteo.

Natural de Listra, convertido por meio de Paulo, foi escolhido por este para assistente e companheiro em seu ministério apostólico (At 16:1-3). Paulo encontrou nele um colega com peculiar afinidade. Dele disse o apóstolo: "Esteve a meu lado no serviço do Evangelho como um filho sob as ordens do pai" (Fp 2:20-22, NEB). De acordo com Atos 20:4, estava na companhia de Paulo, juntamente com outros, às vésperas da sua par­tida para Jerusalém.



Lúcio. Se a expressão "meus parentes" se refere aos três nomes que a precedem, Lúcio é cristão judeu. Dificilmente se pode comprovar a identificação dele com Lúcio de Cirene (At 13:1). Que dizer, então, da identificação dele com Lucas, o médico (opinião defendida por A. Deiss-mann e negada por H. J. Cadbury)? O autor de Atos (ou, de qualquer forma, o autor das passagens "nós""1 ) estava com Paulo nessa ocasião (At 20:5ss.), mas não menciona Lúcio na lista dos companheiros de Paulo em sua viagem (At 20:4). Lucas era um cristão gentio (como se vê em Cl 4:14 à luz de Cl 4:10s., com o apoio das evidências internas dos seus es­critos); mas nesta passagem seria possível colocar pontuação depois de Lúcio, deixando só Jasom e Sosípatro qualificados como "parentes" de Paulo. Nos três lugares em que Paulo com certeza fala de Lucas (Cl 4:14; Fm 24; 2 Tm 4:11), chama-lhe Lucas (Loukas), mas existe boa evidência de que se usava "Lucas" como equivalente de "Lúcio". A questão fica por decidir-se.

Jasom. Talvez o Jasom que foi o hospedeiro de Paulo em sua pri­meira visita a Tessalônica (At 17:6, 7, 9). Todavia, não está arrolado como um dos delegados tessalonicenses entre os companheiros de Paulo em At 20:4.

Sosípatro. Provavelmente o "Sosípatro de Beréia, filho de Pirro" que, de acordo com Atos 20:4, também acompanhava Paulo nessa ocasião. Sobre a preferência de Paulo pelo nome mais formal, ver nota sobre 16:3(p. 218).

22. Eu, Tércio, que escrevi esta epístola.

Não é mencionado em nenhuma outra parte do Novo Testamento. Ao que parece, Paulo normalmente empregava amanuenses para redi­girem as suas cartas, mas este é o único que se nos tornou conhecido de nome. Seja que tenha enviado suas saudações pessoalmente, por sua própria iniciativa, seja que o tenha feito à sugestão de Paulo, certamente Paulo o aprovaria nisso. Talvez fosse um amanuense profissional, visto que Romanos é bem mais formal que a maior parte das cartas paulinas. Mas evidentemente era cristão, dado que envia suas saudações "no Senhor". Noutras ocasiões, um dos companheiros do apóstolo (como Timóteo, a julgar pela freqüência com que seu nome é acrescentado ao de Paulo no sobrescrito das cartas) pode ter-lhe servido de amanuense.

23. Saúda-vos Gaio, meu hospedeiro e de toda a igreja.

Há muito que dizer em favor da identificação de Gaio com o Tício Justo de Atos 18:7 (assim AÀ, RSV E NEB, acertadamente; AV omite in­devidamente o nome Tício), que estendeu a hospitalidade da sua casa a Paulo e à nascente igreja de Corinto quando expulsos da sinagoga vi­zinha. "Gaio Tício Justo" seria, neste caso, o nome completo dele (prenome, nome gentílico e cognome) como cidadão romano (cidadão da colônia romana de Corinto).17

Erasto, tesoureiro da cidade (de Corinto). Este Erasto foi identificado com o oficial civil desse nome mencionado numa inscrição latina num bloco de mármore, de calçamento, descoberto em Corinto em 1929 por membros da Escola Americana de Estudos Clássicos em Atenas. A ins­crição diz: ERASTVS PRO: AED: S: P: STRAVIT" ("Erasto, comis­sário das obras públicas, fez este calçamento às suas custas"). O cal­çamento pertence ao primeiro século A. D., e bem pode ter sido cons­truído pelo amigo de Paulo. Contudo, os ofícios públicos não são os mes­mos. Em grego, o comissário das obras públicas, ou "aedile", é cha­mado agoranomos, ao passo que o tesoureiro da cidade (como nesta pas­sagem) é oikonomos tès poléõs. Se lidamos com o mesmo Erasto, é de supor que ele fora promovido do ofício inferior de "aedile" ao de te­soureiro da cidade no tempo em que Paulo escreveu esta epístola. (Se, ao contrário, alguém preferir supor que ele foi rebaixado do ofício superior ao inferior por haver professado a fé cristã, não há nenhuma prova contra esta suposição!) Não há bom motivo para identificar este Erasto com o de Atos 19:22 ou de 2 Timóteo 4:20; o nome era bastante comum.

O irmão Quarto. Lit., "Quarto o irmão" (RV). Aliás, desconhecido. Talvez "irmão" signifique "irmão no Senhor", "irmão em Cristo". Mas, neste caso, por que é particularizado recebendo designação comum a todos eles? Se a palavra significa "irmão carnal", de quem era irmão? De Erasto, visto que seu nome o precede imediatamente? Ou, desde que Quartus é a palavra latina para "quarto", e Tertius para "terceiro", seria demasiado artificial pensar nele como irmão de Tércio, nascido em se­guida a ele?

24. [A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Amém.]

Esta bênção provavelmente não faz parte do texto original, razão por que AA a coloca entre colchetes. Os documentos ocidentais a têm aqui, em vez de em 16:20. O texto bizantino (do qual provêm o Texto Recebido ê A V) adota a bênção ocidental aqui em acréscimo à bênção anterior, que aparece em 16:20. Alguns documentos trazem a bênção no final da doxologia (depois do v. 27).

e. Doxologia (16:25-27).

As várias posições desta doxologia em nossos testemunhos do texto de Romanos foram discutidas na Introdução (pp. 26ss.)- Mas sua loca­lização original não é a única questão que se tem levantado quanto a ela. Harnack18 defendeu a idéia de que, em sua forma atual, representa uma ampliação ortodoxa de uma doxologia marcionita mais curta:

"Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho, conforme a revelação do mistério guardado em silêncio nos tempos eternos, e que agora se tornou manifesto, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para a obediência da fé; ao único Deus sábio, por meio de Jesus Cristo, a quem seja a glória para sempre. Amém."

Este, supôs ele (e outros que o seguiram" ), é um parágrafo acres­centado pelos seguidores de Márcion como conclusão da epístola.

Na verdade, não temos nenhum MS nem qualquer outra evidência objetiva em favor desse mais breve texto original da doxologia. Contudo, tem-se explicado que as frases que, na hipótese de Harnack, são acrés­cimos ortodoxos à redação original, são ligadas a ela desajeitadamente,20 especialmente a referência às "escrituras proféticas" (v. 26). Certamente esta referência tem de ser reconhecida como acréscimo ortodoxo, se é que a doxologia é originalmente marcionita. Sim, pois "as escrituras pro­féticas" (AV: "as escrituras dos profetas") não desempenhavam parte al­guma no esquema de Márcion. Mas na ausência de evidência indepen­dente em favor de um texto mais curto da doxolQgia, o ônus da prova pousa na idéia de que ela não faz parte do texto apostólico. Se é mar­cionita, não pode ser atribuída a Márcion propriamente dito. Orígenes, como já vimos (pp. 26s.), diz explicitamente que a edição da epístola lan­çada por Márcion não continha a doxologia (e tudo mais que vem em seguida a 14:23).

Por outro lado, há na doxologia um reconhecível eco dos temas dominantes na saudação de abertura; em particular, a menção das "es­crituras proféticas" evoca "o qual foi por Deus outrora prometido por in­termédio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras" (1:2), e "foi dado a conhecer (...) para a obediência por fé, entre todas as nações" é prati­camente uma repetição de "para a obediência por fé, entre todos os gen­tios"; AV: "entre todas as nações" (1:5). Este término da epístola baten­do na mesma tecla batida no início dela faz pensar no próprio autor.21

25. Segundo o meu evangelho.

Ver 2:16 (e 2Tm 2:8).

E a pregação de Jesus Cristo. Esta frase é sinônima de "meu evan­gelho". "Pregação" traduz o grego kêrugma, a mensagem proclamada (como em 1 Co 1:21). O tema da mensagem é Jesus Cristo.

Conforme a revelação do mistério. Quanto a "mistério" (que no Novo Testamento normalmente significa um segredo outrora mantido oculto, mas agora divulgado), ver 11:25. Mas aqui o "mistério" é o "mis­tério de Cristo", de Colossenses 4:3, onde Paulo fala de si como estando "algemado" por causa desse mistério.

25, 26. Guardado em silêncio nos tempos eternos, e que agora se tornou manifesto (...) e/oi dado a conhecer (...) entre todas as nuções.

Ver Colossenses l:26s.; Efésios 3:3ss., onde o mistério tem especial referência ao apostolado de Paulo entre os gentios, por meio do qual os crentes gentios (como co-herdeiros com os crentes judeus) estavam incor­porados em Cristo — um derramamento da bênção divina numa escala não observada no Velho Testamento.

26. Por meio das escrituras proféticas.

Harnack considerava esta frase como um acréscimo ortodoxo a uma doxologia marcionita — e mal feito, pois se o mistério estivera "guardado em silêncio nos tempos eternos" (RV: "através dos tempos eternos", v. 25) e somente agora se tornou manifesto, como poderia ter-se tornado conhecido por meio dos escritos dos profetas? Harnack não foi o único a reconhcer esta dificuldade; mas sua solução não é a única possível. "Em­bora os profetas tivessem anteriormente ensinado tudo o que Cristo e os apóstolos explicaram, ensinaram-no com tanta obscuridade, em com­paração com a brilhante clareza da luz do Evangelho, que não precisamos ficar surpresos se se nos diz que estas coisas, agora reveladas, estavam ocultas" (Calvino). Paulo e seus colegas de apostolado faziam intenso uso das "escrituras proféticas" em sua pregação do Evangelho. Mas foi somente à luz da nova revelação em Cristo que puderam compreender e expor essas escrituras (ver 1 Pe 1:10-12).

27. Ao Deus único e sábio seja dada glória, por meio de Jesus Cristo,
pelos séculos dos séculos. Amém.

AV: "A Deus, o único sábio, seja a glória, por meio de Jesus Cristo, para sempre. Amém." O texto mais bem credenciado é o que RV segue: "Ao único e sábio Deus, por meio de Jesus Cristo, a quem seja a glória para sempre. Amém." Esta redação envolve um anacoluto, que bem pode servir como a rubrica pessoal de Paulo. O hábito de Paulo, de autenticar suas cartas colocando sua assinatura no fim (ver 2 Ts 3:17; 1 Co 16:21, etc.) não é seguido aqui; mas a autoria da Epístola aos Ro­manos não é posta em dúvida.

A nota anexada em AV ("Escrita em Corinto aos romanos ...") não faz parte do texto original.

O prólogo de William Tyndale, da Epístola aos Romanos, termina com a seguinte admoestaçào:



"Agora, leitor, vai e age de acordo com a ordem do escrito de Paulo. Primeiro, contempla-te diligentemente na lei de Deus, e vê ali a tua justa condenação. Segundo, volta os olhos para Cristo, e vê ali a extraordinária misericórdia do teu bondosíssimo e amorosíssimo Pai. Terceiro, lembra-te de que Cristo não fez esta expiação para que voltasses a provocar a ira de Deus. Nem morreu ele por teus pecados para que continuasses vivendo neles. Nem te purificou para que voltasses (como um porco) para o teu antigo lamaçal, mas, sim, para que fosses uma nova criatura e vivesses nova vida, segundo a vontade de Deus, e não segundo a vontade da carne. Sê diligente, pois, para não suceder que, por tua negligência e ingratidão, venhas a perder de novo este favor .e esta misericórdia."
Notas
1. Ver 13:6. No Novo Testamento a palavra sempre indica serviço religioso e, às vezes, serviço sacerdotal, como quando Cristo é descrito em Hb 8:2 como "leitourgos do santuário e do verdadeiro tabernáculo" (ver 15:27).

  1. Al 11:30, 12:25.

  2. G12:10.

  3. GesammelteAfsiitze, ü(Tiibingen, 1928), p. 58.

  4. Ver K. Holl, op. cil., p. 44-67.

  5. Ver J. Munck, Paul and lhe Salvation ofMankind, p. 303.

  6. Quanto à prova de que foram enviadas cópias a outros lugares além de Roma, ver pp. 18ss.

  7. Em2Tm 4:19. talvez estejam também em Éfeso, mas é incerto.

  8. Não se pode ficar muito no argumento pró Roma como o lugar onde Priscilla e Àqüila passaram os seus dias finais, argumento às vezes baseado no Cemitério de Priscila. Este é um local muito antigo usado pelos cristãos para sepultamento dos seus mortos, situado jun­to da Via Salaria, em Roma. Presume-se que recebeu o nome da proprietária do terreno, mas não há evidências que justifiquem identificá-la com a Priscila do Novo Testamento. Tudo o que podemos dizer é que as duas senhoras talvez, pertencessem à mesma família (a gens Prisca). Este cemitério contém uma cripta pertencente a uma família da nobreza romana cujos membros tinham o nome de Acilius Glabrio. Todavia, não há boa razão para associar o nomen gentile Acilius (Aquilius) com Áqüila. Nosso Áquila, judeu natural do
    Ponto, certamente não pertencia à nobreza romana. Um membro da família de Acilius es­tava entre as pessoas executadas pelo imperador Domiciano em 95 A. D., acusadas de en­ volvimento numa mistura de "ateísmo" e apego a costumes judaicos, o que freqüentemente tem sido interpretado como referência ao cristianismo (ver Dio Cassius, História, Epítome 67.14).

  9. A prova é muito bem apresentada por J. B. Lightfootem The Epistle to thePhilippians (1868), p. 171ss., em seu excurso sobre a "Casa de César". Aceitando a proveniência romana de Filipenses, o bispo Lightfoot coligiu todas as provas que pôde achar, de 16:8-15 e de material epigráfico e literário extrabíblico, com o possível apoio da identidade de alguns dos "santos (...) da casa de César" mencionados em Fp 4:22. Esta documentação, no que interessa a Rm 16, vem resumida, pelo que vale quanto aos nomes individuais, nas seguin­tes notas sobre os vs. 8-15.

  10. As igrejas mencionadas em At 20:4 são Beréia, Tessalônica, Derbe (ou, de acordo com o texto ocidental, Dobero, na Macedônia); e as igrejas da Ãsia. Filipos foi provavel­mente representada por Lucas, e Corinto era a igreja com a qual Paulo estava na ocasião em que escreveu a carta.

  11. W. M. Rajnsay, St. Paul the Traveller and Roman Citizen (1942), p. 268.

  1. Ver K. Holl, Gesummelte Aufsiitze, ii. p. 47, n." 2.

  1. O argumento em favor da tese de que o cap. 16 se destinava a Éfeso é apresentado de modo muitíssimo persuasivo por T. W. Manson (Studies in lhe Gtispels and Epistks, 1962, p. 234ss.); em favor de Roma como a destinatária, por C. H. Dodd (The Epistle to lhe Romans. 1932, p. xviiss.).

  2. "O fiel Acate". Virgílio fala assim de Acate, o mais fiel companheiro de Enéias (Eneida, VI, 158). Exemplo clássico de amizade. N. do Tradutor.

  3. Uma e a mesma pessoa era minha firme opinião.

  4. Ver W. M. Ramsay. Piclures of the Apostolic Church (1910). p. 205; E. J. Goods-peed, "GaiusTitiusJustus",./»!, LXIX (1950), p. 382s.

  5. Em Sitzuniishcricht der preii.ssischen AkaJcmie der Wissenschuften (1919), p. 531ss., reimpresso em Studieti zur Gfschichlc dcs Nenen Tvstumetus und der Alteti Kirchc (Berlim c Leipzig, 1931), p. 184ss.

  6. Ver G. Zuntz, The Text oflhe Epistlcs (1954). p. 227s.

  7. Calvino observa que "Paulo fez um longo período introduzindo muitas idéias numa única senlenea, e complicou este período iazendo-lhe uma recomposição gramati­cal".

  8. Vale a pena considerar se a doxologia não podia ser um acréscimo autobiográfico de Paulo à epístola, depois de Tércio a ter lido toda para ele. Ver H. C. G. Moule, 77a' Epistle to lhe Ramans (1.893), p. 435ss.
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