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Romanos e o Corpo Paulino



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3. Romanos e o Corpo Paulino

"Carta de Paulo aos Romanos — e a Outros" é o título sugerido para esta epístola por T. W. Manson.1 Pois há boas razões para crer que, em adição à cópia da carta levada a Roma, foram feitas outras cópias mais, enviadas a outras igrejas. Uma das coisas que apontam para isso é a evidência textual do fim do capítulo 15 (ver p. 27), que indica que havia em circulação na antigüidade uma edição da carta à qual faltava o capítulo 16. Este capítulo, com suas saudações pessoais, teria valor apenas para uma igreja. É possível que Paulo mesmo tenha sido o res­ponsável pelo despacho de cópias a várias igrejas — não somente porque o conteúdo da maior parte da carta era de interesse e importância para os cristãos em geral, mas também (quem sabe) porque sua apreensão acerca do que o esperava em Jerusalém (ver 15:31) o moveu a deixar esta ex­posição do Evangelho aos cuidados das igrejas gentílicas como uma es­pécie de "testamento".2

O exemplar mandado para Roma certamente foi guardado como tesouro na igreja daquela cidade, e sobreviveu à perseguição de 64 A. D. Por volta do ano 96 A. D., Clemente "secretário estrangeiro" da igreja romana, mostra-se bem familiarizado com a Epístola aos Romanos. A linguagem desta reaparece repetidamente como um eco na carta que Clemente enviou aquele ano, em nome da igreja romana, à igreja de Corinto. A maneira pela qual repete a linguagem de Romanos dá idéia de que a sabia de cor. É possível que a epístola fosse lida regularmente nas reuniões da igreja romana desde quando foi recebida. É preciso aduzir que, embora Clemente esteja familiarizado com a linguagem da epístola, não parece ter captado seu significado tão completamente como era de esperar. Mas Clemente não está de modo algum sozinho quanto a isso entre os leitores desta epístola!

Pela carta de Clemente se vê claramente que por volta de 96 A. D. algumas cartas de Paulo tinham começado a circular em outros lugares além daqueles para onde foram inicialmente enviadas.3 Clemente, por exemplo, conhece e cita 1 Coríntios. E não muitos anos depois, um anônimo benfeitor de todas as eras subseqüentes transcreveu pelo menos dez cartas paulinas num códice do qual foram feitos muitos exemplares para uso em muitas partes do mundo cristão." Desde o começo do segundo século, as cartas de Paulo circulavam como uma coleção — o corpus Paulinum — e não isoladamente.5 Os escritores do segundo século — tanto os ortodoxos como os heterodoxos — que se referem às cartas paulinas, conheciam-nas na forma de um corpo de escritos.

Um desses escritores — da variedade heterodoxa — foi Márcion, natural do Ponto, na Ãsia Menor, Márcion foi para Roma por volta do ano 140 A. D. e poucos anos mais tarde publicou um cânon da Escritura Sagrada. O autor rejeitava a autoridade do Velho Testamento e susten­tava que Paulo fora o único apóstolo de Jesus que se mantivera fiel, sendo que os demais haviam corrompido o ensino de Cristo com misturas ju­daizantes. Seu cânon refletia suas idéias peculiares. Consistia de duas partes — o Euangelion, edição do Evangelho de Lucas que começava com as palavras: "No ano 15 de Tibério César, Jesus desceu a Cafarnaum" (ver Lc 3:1; 4:31); e o Apostolikon, que abrangia dez das epístolas paulinas (excluídas as cartas a Timóteo e a Tito).

Gálatas, objeto da predileção natural de Márcion por causa de sua ênfase anti-judaizante, ocupava o primeiro lugar no Apostolikon de Már­cion. As outras epístolas vinham depois em ordem descendente, segundo a extensão. As epístolas "duplas" (isto é, as duas aos Coríntios e as duas aos Tessalonicenses) foram, para aquele fim, consideradas, cada par, como uma única epístola. Assim, Romanos vinha depois de Coríntios. E junto a cada uma das epístolas vinha um prefácio. O de Romanos diz o seguinte: "Os romanos vivem na região da Itália. Já tinham sido visitados por falsos apóstolos, sendo induzidos a reconhecerem a autoridade da Lei e dos Profetas, com o pretexto do nome do Senhor Jesus Cristo. O após­tolo, escrevendo-lhes de Atenas, os chama de volta à verdadeira fé carac­terística do Evangelho''.

Esta não é uma inferência que se poderia deduzir naturalmente da argumentação de Paulo. Márcion, porém, assumia pressuposições na abordagem das epístolas e as afirmava categoricamente. Onde ele encon­trava, nas epístolas, afirmações contrárias a essas pressuposições, con­cluía que o texto apostólico fora adulterado por escribas judaizantes, e fazia emendas para ajeitá-las ao seu modo de entender (ver pp. 26ss.). E a influência do cânon de Márcion foi tanta — chegando a ultrapassar os limites dos seus seguidores — que muitos MSS "ortodoxos" das epístolas paulinas contêm os prefácios marcionitas.

O mais antigo MS de epístolas paulinas que chegou até nós, datado do fim do século segundo, contém o mais curto corpus Paulinum, consis­tindo de dez epístolas, juntamente com a Epístola aos Hebreus. Este MS (o papiro 46, um dos papiros bíblicos de Chester Beatty) provém do Egito, e no Egito (diferentemente do que ocorria em Roma) Hebreus era considerada epístola paulina já em 180 A. D. No P 46 (como lhe cha­maremos daqui por diante), Romanos vem em primeiro lugar.

Romanos ocupa o último lugar entre as epístolas paulinas enviadas a igrejas noutro documento dos últimos anos do segundo século — o "Cânon Muratori", uma lista de livros do Novo Testamento reconhecidos em Roma. Esta lista credencia o corpus Paulinum mais longo, de treze cartas, pois em seguida às cartas a igrejas, acrescenta as enviadas a pes­soas individualmente — não só Filemom, mas também Timóteo e Tito.

Na ordem em que finalmente se fixou, Romanos tem lugar de honra entre as epístolas paulinas. Historicamente, isto se dá evidentemente por­que ela é a epístola mais comprida. Mas há uma validade ingênita na con­cessão desta posição de primazia à epístola que, acima de todas as outras, merece o título de "Evangelho Segundo Paulo".


Notas
1. Studies in the Gospels and Epistles, p. 225ss.

2. Outra idéia, mas muito menos provável, é a de que a Epístola aos Romanos como a conhecemos foi expandida partindo de uma epístola geral anterior "escrita por Paulo, ao mesmo tempo em que escreveu aos gálatas, às igrejas mistas surgidas ao redor de Antioquia e além, na Ãsia Menor" (K. Lake, Earlier Epistles of St. Paul, 1914, p. 363; ver F. C. Burkitt, Christian Beginnings, 1924, p. 126ss.).

3. O próprio Paulo deu alguns passos iniciais para assegurar isto; ver suas orientações em Cl 4:16 para que os colossenses e os laodicenses permutassem as cartas recebidas dele. Sua Carta aos Gálatas foi enviada a diversas igrejas (Gl 6:11 implica em que originalmente um único MS passou de igreja em igreja, em vez de cada igreja receber um diferente; mas algumas igrejas teriam feito cópias para si, antes de passá-lo adiante). A Epístola aos "Efésios" foi feita para desempenhar a função de carta circular e provavelmente foi despachada em certo número de exemplares logo de início.

4. Ver G. Zuntz, The Text of the Epistles (1954), p. 14ss., 276ss. O Dr. Zuntz dá razões para o pensamento de que o corpo de escritos foi compilado e publicado em Alexan­dria, desde que dá sinais de "dependência dos métodos acadêmicos alexandrinos de edi­toração" (op. cit., p. 278). Uma opinião amplamente dominante é a de que ele foi compilado em Éfeso (ver E. J. Goodspeed, Introduction to the New Testament, Chicago, 1937, p. 217ss.; L. L. Milton, The Formation of the Pauline Corpus of Letters, 1955, p. 44ss.); um romântico embelezamento desta opinião é a tese de J. Knox de que o principal fator na obra de compilação do corpo foi Onésimo, ex-escravo de Filemom e agora (c. 100 A. D.) bispo de Éfeso (Philemon Among the Letters of Paul, Chicago, 1935).

5. Provavelmente havia coleções "regionais" mais antigas, como uma coleção das car­tas enviadas à província da Ásia (Efésios, Colossenses e Filemom) e das enviadas à Macedônia (1 e 2 Tessalonicenses e Filipenses).






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