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6. "Carne" e "Espírito" em Romanos

a. "Carne".-


Guilherme Tyndale dá o seguinte conselho ao leitor desta epístola: "Primeiro precisamos observar diligentemente a maneira de falar do apóstolo e, acima de todas as coisas, devemos procurar saber o que Paulo quer dizer com estas palavras — Lei, Pecado, Graça, Fé, Justiça, Carne, Espírito, e outras semelhantes — ou de outra forma, não adiantará fazer muitas leituras; será perda de tempo".

Dessas palavras, duas das mais importantes são os termos opostos "carne" e "espírito" que, no uso peculiar feito por Paulo, relacionam-se respectivamente com a velha ordem, suspensa por Cristo, e com a nova ordem inaugurada por Ele. A carne e o espírito laboram em incessante luta entre si dentro da cidadela da Alma Humana. Este conflito, nos ter­mos em que é descrito nos escritos de Paulo, não é o conflito entre a matéria e a mente, entre os elementos físicos e os racionais do homem, que encontramos na filosofia grega. O cenário que serve de fundo para o uso que Paulo faz destes termos é o Velho Testamento, embora o uso que o Velho Testamento faz deles seja estendido por Paulo ao longo de linhas que lhe são peculiares.'

No Velho Testamento, "carne" (hebraico, basar, she'er) é o material básico da vida humana (e animal). Deixando de lado as freqüentes ocorrências de "carne" no sentido de vida animal (e. g. Gn 6:19) ou carne dos animais que podiam servir de alimento (e. g. Êx. 12:8), observamos que, como "carne", os homens se distinguem dos deuses, que "não moram com os homens" (Dn 2:11). Quando Deus anuncia que limitará o tempo de duração da vida humana, diz: "Meu espírito não permanecerá para sempre no homem, pois ele é carne" (Gn 6:3, RSV). Na verdade, o homem é carne movida pelo espírito. "Toda a carne" {e. g. Gn 6:12; Is 40:5; Jl 2:28) significa "toda a humanidade" (quando o contexto não in­dica o sentido mais amplo de "toda a vida animal"). "Carne" pode denotar a natureza humana em sua fraqueza e mortalidade: "Lembra-se de que eles são carne" (Sl 78:39). Pode-se usar falando do corpo humano, como quando o homem é ensinado a banhar "o corpo (a carne) com água" (e. g. Lv 14:9), ou falando do homem mesmo, num sentido mais geral, como no Salmo 63:1, onde "meu corpo (minha carne) te almeja", é expressão sinônima da cláusula precedente: "a minha alma (heb. ne-phesh) tem sede de ti" (aí, "minha alma" e "minha carne" são pouco mais que modos alternativos de dizer "eu").

É contra este fundo do Velho Testamento, então, que devemos compreender o emprego paulino do termo (grego sarx), com referência mais particular à Epístola aos Romanos.



  1. Usa-se "carne" no sentido comum de carne corporal em 2:28, onde a "circuncisão" literal, "que é somente na carne" (ver Gn 17:11), é contrastada com a circuncisão espiritual do coração.

  2. Usa-se "carne" para designar descendência ou relação humana natural. Assim se diz em 1:3 — como em 9:15 — que Cristo é descenden­te de Davi "segundo a carne".2 Em 4:1 Abraão é chamado "nosso pai segundo a carne" (i. e., antepassado dos que são judeus de nascimento), enquanto que espiritualmente é o pai de todos os que crêem (4:11, 16). Seus descendentes por reprodução física são "filhos da carne", em con­traste com "os filhos da promessa" (9:8). Os judeus de nascimento são "compatriotas" de Paulo "segundo a carne" (9:3), ou simplesmente sua "carne" (11:14).3'4

  3. Usa-se "carne" no sentido de humanidade em 3:20: "ninguém (ou "nenhuma carne") será justificado diante dele por obras da lei." Este uso é comum no hebraico. Aqui vão exemplos extraídos do Velho Tes­tamento: "0 tu que escutas a oração, a ti virão todos os homens" (toda a carne), Salmo 65:2; "não há paz para ninguém" (para nenhuma carne), Jeremias 12:12. E podemos comparar isto com estas palavras do Senhor: "Não tivesse o Senhor abreviado aqueles dias, e ninguém (nenhuma car­
    ne) se salvaria" (Mc 13:20). Parece que Paulo gostava deste emprego da palavra. Embora em 3:20 esteja citando o Salmo 143:2, a palavra "car­ne" não aparece na passagem do Velho Testamento. Entretanto, ele a in­troduz não somente ali como também em Gálatas 2:16 (ver 1 Co 1:29: "a fim de que ninguém — nenhuma carne — se vanglorie na presença de Deus"). Ãs vezes a mesma idéia é expressa pela frase "carne e sangue" (e. g, Gl 1:16: "não consultei carne e sangue" — i. e. nenhum ser hu­mano).

4. Usa-se "carne" variadamente no sentido de natureza humana, como se segue:

  1. Natureza humana fraca. Em 6:19 Paulo explica seu argumento recorrendo a uma analogia extraída da vida diária "por causa da fra­queza de vossa carne". Por "carne" aí, ele se refere ao entendimento dos seus leitores. Outra vez, em 8:3, ele fala da lei como incapaz de produzir justiça "no que estava enferma pela carne" — i. e. a frágil natureza humana sobre a qual devia operar. (Encontra-se bom exemplo deste sen­tido de "carne" no dito de Jesus em Mt 26:41: "o espírito, na verdade, es­tá pronto, mas a carne é fraca".)

  2. A natureza humana de Cristo. A natureza humana de Cristo é algo que Ele compartilha com toda a espécie humana. Mas nossa carne é "carne pecaminosa", porque o pecado estabeleceu uma cabeça de ponte em nossa vida donde domina a situação. Cristo veio em carne verdadeira, mas não em "carne pecaminosa". O pecado foi incapaz de conseguir on­de firmar os pés em Sua vida. Portanto se afirma que Ele veio "em se­melhança de carne pecaminosa" (8:3). Vindo assim, Ele lidou com o pecado efetivamente em Sua humanidade: resistiu às suas tentativas para conseguir entrada em Sua vida e, quando em Sua morte apresentou aDeus Sua vida sem pecado como oferta pelo pecado, desse modo "con­denou Deus, na carne, o pecado" (8:3) — i. e. ratificou a sentença de morte lançada sobre o pecado por meio da encarnação, sacrifício e vitória do homem Cristo Jesus.

  3. A "velha natureza" no cristão. Quando Paulo fala de "minha carne", refere-se à sua inclinação pecaminosa herdada de Adão. Nela não há nada de bom (7:18); segundo ela, diz ele, "sou escravo... da lei do pecado" (7:25).5 Ela ainda está presente nele, muito embora cada vez mais enfraquecida — e isto apesar do fato de ter sido "crucificada".
    Compare-se Gálatas 5:24, "os que são de Cristo Jesus crucificaram a car­ne, com as suas paixões e concupiscências", com 6:6, "foi crucificado com ele (com Cristo) o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído". Este aparente paradoxo é do tipo que encontramos repetidamente nos escritos paulinos, nos quais os cristãos são exortados a cada passo a serem o que são — a serem na prática real e concreta o que são como membros de Cristo. Assim é que se diz que eles se despiram "do
    velho homem com os seus feitos" e se revestiram "do novo homem" (Cl 3:9s.), enquanto que em outras partes são admoestados a se despojarem "do velho homem" e a se revestirem "do novo homem" (Ef 4:22, 24). O velho homem é o que eram "em Adão"; o novo homem é o que são "em Cristo". Portanto, vestir-se do novo homem é vestir-se de Cristo e, en­quanto Paulo diz aos gálatas: "todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes" (Gl 3:27), diz aos romanos: "revesti-vos do Senhor Jesus Cristo" (Rm 13:14).

  4. Natureza humana não-regenerada. Conquanto "minha carne" esteja ainda presente em mim, eu não estou mais "na arne".6 Estar "na carne" é ser um não-regenerado, é estar ainda "em Adão", é estar num estado em que não se pode "agradar a Deus"

(8:8). Anteriormente os cristãos estavam "na carne" (7:5),7 mas agora não estão "na carne, mas no Espírito", se de fato o Espírito de Deus habita neles. E se não, eles não pertencem a Cristo (8:9).

  1. Portanto, desde que os cristãos já não estão "na carne", mas "no. Espírito", não devem viver mais "segundo a carne" — segundo o padrão de sua velha vida nào-regenerada" — mas "segundo o Espírito" (ver 8:4s., 12s.). Permutaram sua perspectiva não-regenerada ("a mente da carne" — os quais "cogitam das cousas da carne", AA), por uma pers­pectiva que pertence apropriadamente aos filhos de Deus (pela "mente do Espírito" — os quais cogitam "das cousas do Espírito", AA). E seu dever agora é nada dispor "para a carne, no tocante às soas concupiscências" (8:5-7; 13:14)".

  2. A carne está sujeita ao princípio do "pecado e da morte" (7:23; 8:2), e assim está sob sentença de morte, pois "em Adão todos morrem" (1 Co 15:22). "A mente da carne é morte"; "se viveis segundo a carne, certamente morrereis" (8:6, 13, RV). "Porque o que semeia para a sua própria carne, da carne colherá corrupção" — ou, na tradução da NEB, "Se ele lança a semente no solo da sua natureza inferior, terá colheita de corrupção" (Gl 6:8).

A carne, a natureza humana que temos "em Adão", está corrom­pida pelo pecado. Mas os pecados da carne ocupam galeria muito mais ampla no entender de Paulo do que tendem a ocupar na teologia moral cristã. Incluem os pecados especialmente associados ao corpo, mas in­cluem também pecados que talvez achássemos melhor classificar como pecados da mente. Assim, o catálogo das "obras da carne" que Paulo apresenta em Gálatas 5:19-21 abrange não somente a prostituição e for­mas correlatas de perversão sexual, juntamente com bebedices e gluto-narias, mas também feitiçarias, invejas, porfias, ambições egoístas e idolatria. A verdade é que o pecado, seja de que espécie for, é sempre obra da "carne".

Ãs vezes o vocábulo "corpo" é empregado em lugar de "carne". As­sim, as coisas chamadas "obras da carne" em Gálatas5:19, são chamadas "feitos do corpo" em 8:13 no mesmo sentido, igualmente compreensivo. Assim também "o corpo do pecado" (6:6) é sinônimo de "carne do pe­cado" (8:3, RVmg). Podemos comparar isto com "este corpo da morte" (RSV), a libertação do qual é procurada em 7:24. (Por outro lado, o "cor­po" de 8:10, "morto por causa do pecado ", é mais simplesmente este corpo mortal de carne e sangue.) Também podemos comparar com "os vossos membros que estão sobre a terra," '" em Colossenses 3:5, os quais devem ser tratados como estando mortos.''


b. "Espírito".


No Velho Testamento o termo "carne" é colocado antagonicamente a "espírito" (hebraico ruach, primariamente "vento" e então "vigor vital"). Isaías 31:3 é passagem clássica: "Pois os egípcios são homens e não Deus; os seus cavalos carne, e não espírito." Deus, por implicação, é Espírito (ver Jo 4:24). Não só isso, mas o Espírito de Deus pode dar ener­gia aos homens e comunicar-lhes força física, aptidão mental, ou com­preensão espiritual que doutro modo não obteriam. No homem, o espírito é seu alento, sua disposição, sua vitalidade. '2

Semelhantemente, nos escritos paulinos "carne" e "espírito" são termos opostos. Os crentes em Cristo não estão mais "na carne", mas "no Espírito" (8:9); não mais andam "segundo a carne, mas segundo o Espírito" (8:4); não produzem "as obras da carne", mas o "fruto do Es­pírito" (Gl 5:19, 22).

Ficamos em dificuldade por termos de escolher entre o "E" maiús­culo e o "e" minúsculo cada vez que escrevemos a palavra. Paulo não tinha este problema quando pronunciava a palavra grega pneuma ao ditar esta epístola, nem Tércio ao redigi-la.

Em Paulo, podemos distinguir os seguintes usos principais do termo "espirito":11

1. Aparte "espiritual ' da constituição humana. "Deus, a quem sir­vo em meu espírito", fala Paulo em 1:9. Com isto podemos comparar 7:6, onde os cristãos, não mais sob a lei, mas sob a graça, servem "em no­vidade de espírito e não na caducidade da letra" (que, contudo, vai além de 1:9 em suas implicações).'4 A circuncisão "no espírito, e não na letra" — i. e. a circuncisão ou purificação interior do coração, de que falavam os profetas (Jr 4:4, Dt 10:16) — é contrastada com a circuncisão literal da carne (2:29). Os cristãos são exortados a serem "fervorosos de espírito" (12:11). O espírito dos crentes em Cristo move-se em harmonia com o Es­pírito de. Deus (8:16).

Os outros escritores do Novo Testamento empregam o termo "es­pírito" mais ou menos como sinônimo de "alma". Isto ocorre, por exem­plo, nas palavras iniciais do Magnificat: "A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador" (Lc l:46s.). Ou podemos comparar as palavras de nosso Senhor em João 12:27, "Agora está angustiada a minha alma", com a afirmação do evangelista em João 13:21 de que se angustiou "Jesus em espírito". O próprio Paulo emprega "espírito" neste sentido mais geral quando indaga: "qual dos homens sabe as cousas do homem, senão o seu próprio espírito que nele está?" (1 Co 2:11). Mas na maior parte dos casos, "espírito" e "alma" não somente se distinguem entre si em Paulo, mas também se contras­tam: o "homem natural" é o homem "anímico" (psuchikos, depsuche, "alma"), em contraste com o "homem espiritual" (pneumatikos, de pneuma, "espírito")-I6 Em Paulo, talvez se possa descrever o espírito humano como o elemento que, no homem, pode ter consciência de Deus, elemento adormecido ou morto até receber o impulso vivificante do Es­pírito de Deus. Ou pode ser considerado como a "personalidade cristã" de "homens que, se se nos permite dizê-lo assim, não são vivos apenas, mas são cristãmente vivos" .'6



2. O Espírito de Deus, ou Espírito Santo. É chamado "Espírito de santidade" em 1:4, em relação à ressurreição de Cristo. Ver 8:11, ondeé chamado "Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos". Sob Sua iluminação, a consciência do homem dá testemunho verdadeiro (9:1). Na proclamação do Evangelho, Ele supre o poder necessário para tornar a mensagem eficiente nos ouvintes (15:19). Os que deste modo são trazidos à fé em Cristo são santificados "pelo Espírito Santo" (15:16). No coração dos que crêem no Evangelho, Ele derrama o amor de Deus (5:5; ver 15:30). E por Seu poder, ficam cheios de paz, alegria e esperança (14:17,15:13).

Uma vez que Deus se revelou em Cristo, o Espírito de Deus é o "Es­pírito de Cristo" (8:9). O Espírito comunica tão completamente a vida e o poder do Cristo redivivo e exaltado que, na prática, muitas vezes ambos parecem ser identificados (embora sejam distintos em princípio).'7 Por exemplo, as expressões "se de fato o Espírito de Deus habita em vós" (8:9) e "se porém, Cristo está em vós" (8:10) são praticamente sinônimas.

É no capítulo 8 que a natureza e as implicações da morada e da operação do Espírito Santo no cristão são expostas com maior clareza.18

(1) O Espírito comunica vida. Sua "lei" é a "lei da vida". Andar "segundo o Espírito" e assim cogitar "das cousas do Espírito" é viver19 (8:4, 5, 6,10), pois Ele capacita os crentes em Cristo a tratar "os feitos do corpo" — as práticas da velha existência não-regenerada — como coisas mortas, com mais nenhum poder em sua vida. Não pode haver verdadeira vida sem Ele: "se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele" (8:9). Estar "no Espírito" {en pneumatí) é o oposto de estar "na carne" (en sarki). E todos os crentes em Cristo são considerados como es­tando "no Espírito" (8:9). Então, na prática, estar "no Espírito" é estar "em Cristo" (ou "em Cristo Jesus"); assim, estar "no Espírito" não é questão individualista. Pois estar "em Cristo" é estar incorporado em Cristo, é ser membro de Cristo, e é ser co-membro de todos os outros que estão igualmente incorporados em Cristo (12:5). Esta nova solidariedade que os cristãos têm "em Cristo Jesus" (8:1) é, por conseguinte, a mesma coisa que Paulo em outras partes descreve como a "comunhão do Es­pírito" (Fp 2:1; ver 2 Co 13:14) ou como "a unidade do Espírito" (Ef 4:3).20



  1. O Espírito dá liberdade. Seja qual for a perspectiva em que se veja a escravidão espiritual dos homens — escravidão do pecado, es­cravidão da lei, escravidão da morte — é o Espírito que os liberta. É Ele que transmite aos que crêem o poder do Cristo ressurreto, pelo qual são "libertados do pecado" (6:18, 22). É Ele que os tira do cativeiro da lei, de modo que agora servem "em novidade de espírito e não na caducidade da letra" (7:6). É Ele que lhes dá o novo princípio "da vida em Cristo Jesus" que os liberta "da lei do pecado e da morte" (8:2). Em todos estes casos, temos ilustrações do princípio concisamente firmado em 2 Coríntios 3:17: "onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade".

  2. O Espírito supre as vidas dos "filhos de Deus" de poder diretivo (8:14). Ele é o "Espírito que nos torna filhos" (8:15, NEB), por cujo im­pulso os crentes em Cristo se aproximam de Deus como Seus filhos e Lhe chamam pelo mesmo nome familiar de "Pai" que Jesus usava ao Lhe falar.21

  3. O Espírito intercede pelo povo de Deus (8:26s.). Cristo o faz (8:34), mas enquanto que Cristo faz intercessão em Seu local de exal­tação, na presença de Deus, o Espírito intercede de dentro da vida dos cristãos, nos quais habita.22

  4. O Espírito é o instrumento de santificação agindo na vida dos cristãos. "Espírito" e "carne" estão em imorredoura oposição e travam perpétuo combate um contra o outro. Mas o Espírito é divinamente poderoso, e pode progressivamente pôr a "carne" fora de ação naquelas vidas já submissas ao Seu domínio e à Sua graça capacitadora. Não é uma doutrina de vida tranqüila que Paulo propõe: sabia que a sua própria vida espiritual era uma luta que haveria de prosseguir enquanto
    ele permanecesse no corpo mortal — luta, porém, em que a vitória e a glória final estavam asseguradas pelo Espírito. E na vida daqueles que Ele está preparando para a glória final, Sua obra correlata, realizada aqui e agora, é reproduzir em medida crescente a semelhança de Cris­to.23

(6) O Espírito é o penhor do futuro. Segundo a profecia do Velho Testamento, o derramamento do Espírito de Deus seria um sinal da proximidade do dia do Senhor (Jl 2:28-32). Esta profecia foi citada por Pedro quando o Espírito desceu sobre os discípulos de Jesus no dia de Pentecoste: "o que ocorre", disse ele, "é o que foi dito por intermédio do profeta" (At 2:16). O atual intervalo "entre os tempos" é num sentido peculiar a era do Espírito. Nesta era Ele não somente torna efetivo nos cristãos aquilo que Cristo realizou por eles, nem somente lhes transmite o poder do Senhor redivivo e exaltado, mas os capacita a viverem no presente usufruto da glória que ainda está para ser revelada.

O Espírito não somente supre vida aqui e agora apenas; Sua presen­ça garante a ressurreição para a vida num dia que ainda virá a raiar. As­sim a vida da era por vir, "a vida eterna", é transmitida aos cristãos como o atual "dom gratuito de Deus (...) em Cristo Jesus nosso Senhor" (6:23) como um adiantamento, por assim dizer, da vindoura ressurreição para a vida que se seguirá à redenção do corpo (8:23).

O Espírito não somente capacita os cristãos aqui e agora a con­cretizarem sua prerrogativa como "filhos de Deus emancipados, em caminho da santidade";25 é também um adiantamento daquela "li­berdade da glória dos filhos de Deus" que, de acordo com 8:21, é ansio­samente esperada, não só por eles mas também por toda a criação. A libertação do cativeiro — libertação que já começaram a desfrutar no Espírito — será então consumada. A "adoção" (8:23) que se realizará plenamente com a ressurreição é já antecipada com o auxílio do "Espírito de adoção" (8:15). E a glória da completa conformidade com a imagem do Filho de Deus, para o que eles foram predestinados (8:29), será o pleno florescimento daquela obra santificadora na qual o Espírito está empenhado até agora na vida deles. A habitação do Espírito é assim apresentada em termos de "escatologia proléptica".26 Ele é "as primícias" da salvação final (8:23),27 o imediato "pagamento à vista" daquela herança inconcebivelmente rica preparada por Deus para aqueles que O amam.
Notas

1. Excelente estudo destes termos é dado por E. Schweizer no Theologisches Wõrter-bucli zum Nenen Testumrnt, artigos sobre piieuma (vol. VI, 1959), sarx e soma (vol. VII, l%0— ). Parte do primeiro artigo apareceu em inglês como The Spirit ofGod (Bible Key Words, 1960).

2.Nestes dois lugares, mormente no primeiro, "carne" indica não só a descendência natural, mas também o estado da existência de nosso Senhor antes de Ele ser glorilieado (verpp.60, 151).

3."Carne" aparece neste sentido no Velho Testamento como, por exemplo, quando Abimeleque diz aos seus concidadãos de Siquém; "Lembrai-vos também de que sou osso vosso e carne vossa" (Jz 9:2).

4.Rm 11:14 — AÂ: "meu povo". No original grego: mou ten sarku. N. do Tradutor.

5. Os cristãos de Corinlo, embora habitados coletiva e individualmente pelo Espírito de Deus (1 Co 3:1o; 6:19), eram "carnais" (grego sarkinos, sarkikos), e não espirituais (1 Co3:lss.).



6. Em Gl 2:20 ("esse viver que agora tenho na carne"), "na carne" significa "no corpo mortal". A expressão é idêntica (grego en surki), mas o sentido é completamente diverso do sentido discutido acima.

  1. Grego: eu tesurki. N. do Tradutor.

  2. Uma importante ocorrência desta expressão "segundo a carne" ou "conforme a carne" (grego kala surku) está em 2 Co 5:16: "Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos a Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo." Estas palavras são com tanta freqüência mal aplicadas, que vale a pena salientar aqui que Paulo não está condenando qualquer interesse pela vida terrena de Cristo nesse ponto, nem está sugerindo que o companheirismo dos outros após­tolos com Cristo durante Seu ministério já não tinha nenhuma importância, bem como nenhuma vantagem religiosa. O que ele faz é contrastar sua atual estimativa de Cristo com a que fazia antes de se converter, como bem esclarece NEB: "Portanto, para nós. os padrões do mundo já não valem mais nada em nossa avaliação de qualquer homem. Se alguma vez influíram em nossa compreensão de Cristo, agora não influem mais." É à luz da exaltação de Cristo, e da nova criação inaugurada por Sua vitória sobre a morte, que Seu ministério terreno deve ser avaliado. Mas à luz disso, a importância do Seu ministério terreno é au­mentada, não diminuída.

  3. Ver Gl 5:16: "Andai no Espírito, e jamais satisfareis àconcupiscência da carne."

  1. Grego: Ia mele tu epi les f>es. N. do Tradutor.

  1. O que Paulo diz acerca da "carne", no sentido de natureza humana não regenerada, não se deve entender como aplicável ao corpo físico. Da "carne" neste sentido ele não tem nada de bom jjara dizer. Mas o corpo do cristão, conquanto outrora usado pelo poder dominador do pecado como instrumento da iniqüidade (6:13), pode ser apresentado a Deus como "sacrifício vivo", fazendo a Sua vontade (12:1), é habitado pelo Espírito Santo (8:11; ver 1 Co 6:19), e um dia será redimido da mortalidade e revestido de glória (8:23; ver Fp 3:21). Paulo não compartilha da aversão dos filósofos gregos pelo corpo como cadeia ou presídio da alma.

  2. Ver A. R. Johnson, The Vitalily of lhe Individual in lhe Thought of Ancient Israel (1449), p. 2oss.

  3. Entre outros usos, não relacionados abaixo, há alguns casos em que a palavra ocorre indicando "seres de espírito" ou "poderes espirituais" como "o espírito do mundo" (1 Co 2:12), o "espírito que agora atua nos filhos da desobediência" (Ef 2;2), ou os espíritos (nem sempre o Espírito de Deus) por cuja inspiração falam os profetas (1 Co 12:10); ou in­dicando uma disposição pessoal, e. g., um "espírito de entorpecimento" (11:8).

  4. Ver p. 119. Ver 2 Co 3:6, onde Paulo e seus colegas são "ministros de uma no­va aliança, não da letra,v mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica". A alusão à nova aliança de Jr 31:31ss., explícita em 2 Co 3:(>, está implícita em outros lugares onde "letra" e "espírito" são postos em contraste do mesmo modo. Ver nota sobre 8:4 p. 13.1).

  1. 1 Co 2:14s. Ver. para comparar, a distinção em 1 Co 15:44ss., entre o presente corpo mortal, que é "corpo natural" ("anímico", soma psuchikon), e o corpo da ressur­reição, que é "corpo espiritual" (somapneumatikon).

  1. W. Barclay, Flesh andSpirit (1962), p. 14.

  1. Ver 1 Co 15:45; 2 Co 3:17. N. Q. Hamilton fala desta identificação do Espírito com o Senhor assunto, como "dinâmica" mas não "ontológica" (The Holy Spirit and Eschatology in Paul, 1957, p. 6).

  2. Ver G. Smeaton, The Doctrine of the Holy Spirit (1882; reimpresso em 1958), p.71ss.; E. F. Kevan, The Saving Workof the Holy Spirit (1953).

  1. Ver Gl 6:8: "o que semeia para o Espírito, do Espírito colherá vida eterna",

  2. Isto fica posto fora de dúvida por sua afirmação em 1 Co 12:13; "em um só Es­pírito, todos nós fomos batizados em um corpo".

  3. Ver Gl 4:6: "porque vós sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai" (ver p. 135).

  4. Esla atribuição de um ministério intercessório tanto ao Cristo exaltado como ao Espírito que em nós habita, tem paralelo no duplo emprego do termo "paráclito" ou "ad­vogado" nos escritos joaninos: "Jesus Cristo, o justo" é o "Advogado" do Seu povo "junto ao Pai" (1 Jo 2:1), e o Espírito Santo é "outro (...) Advogado" (Jo 14:16, NEB), enviado pelo Pai para estar com os crentes em Cristo.

  5. Ver2Co3:18.

  6. Este corpo da ressurreição, redimido, é descrito por Paulo em 1 Co 15:44 como "corpo espiritual" — isto é, corpo completamente dominado e dirigido pelo Espírito. Em 2 Co 5:5, o atual dom do Espírito é "o penhor" do dia vindouro em que os cristãos serão "revestidos" da sua "habitação celestial", e em que "o mortal" será "absorvido pela vida". Esta frase (da qual W. B. Neatby disse que "o gênio peculiar do cristianismo poucas vezes recebeu expressão mais admirável") é oriunda de Memoir of Anthonv Norris Greves3 (1869), p. 418.

  7. Ver G. Vos, "The Eschatological Aspect of the Pauline Conception of the Spirit", Princeton Seminary Biblical and Theological Studies (Nova York, 1912), p. 209ss.; "The Pauline Eschatology" (1952).

  8. Ver Gl 5;5: "pelo Espírito, aguardamos a esperança da justiça que provém da fé". Assim, em Ef 1:13, 14 se di/. que os cristãos foram "selados com o Santo Espírito da pro­messa, o qual é o penhor da nossa herança até ao resgate da sua propriedade".



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