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8. À influência de Romanos


No verão do ano 386 A. D., Aurélio Agostinho, natural de Tagaste, norte da África, então por dois anos professor de retórica em Milão, as­sentou-se a chorar no jardim do seu amigo Alípio, quase persuadido a começar vida nova, mas sem chegar à resolução final de romper com a vida que levava. Ali sentado, ouviu uma criança cantar numa casa vi­zinha: Tolle, lege! tolle, lege! ("Pega e lê! pega e lê!")1 Ao tomar o manuscrito que estava ao lado do amigo, seus olhos caíram nestas pa­lavras: "não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e nada disponhais para a carne, no tocante às suas concupiscências" (13:13, 14). "Não li mais nada", diz-nos ele, "e não precisei de coisa al­guma. Instantaneamente, ao terminar a sentença, uma clara luz inundou meu coração e todas as trevas da dúvida se desvaneceram."2 O que a igreja e o mundo devem a este influxo de luz que iluminou a mente de Agostinho quando leu essas palavras de Paulo, é algo que está além da nossa capacidade de avaliação.

Em novembro de 1515, Martinho Lutero, monge agostiniano e professor de teologia sagrada na Universidade de Wittenberg, começou a expor a Epístola de Paulo aos Romanos aos seus alunos, e continuou este curso até setembro seguinte. Conforme preparava as suas preleções, foi apreciando cada vez mais a centralidade da doutrina paulina da justi­ficação pela fé. "Ansiava muito por compreender a Epístola de Paulo aos Romanos", escreveu ele, "e nada me impedia o caminho, senão a expres­são: 'a justiça de Deus', porque a entendia como se referindo àquela jus­tiça pela qual Deus é justo e age com justiça quando pune os injustos. ... Noite e dia eu refletia até que ... captei a verdade de que a justiça de Deus é aquela justiça pela qual, mediante a graça e a pura misericórdia, Ele nos justifica pela fé. Daí por diante, senti-me renascer e atravessar os portais abertos do paraíso. Toda a Escritura ganhou novo significado e, ao passo que antes 'a justiça de Deus' me enchia de ódio, agora se me tor­nava indizivelmente bela e me enchia de maior amor. Esta passagem veio a ser para mim uma porta para o céu."3 As conseqüências desta nova com­preensão que Martinho Lutero obteve do estudo de Romanos tiveram grande repercussão na história.4

Na noite de 24 de maio de 1738, João Wesley visitou "de muito má vontade uma sociedade reunida na rua Aldersgate, onde alguém estava lendo o Prefácio de Lutero, da Epístola aos Romanos. Quando faltavam cerca de 15 para as nove horas," escreveu no seu diário, "enquanto ele estava descrevendo a mudança que Deus opera no coração pela fé em Cristo, senti meu coração aquecer-se estranhamente. Senti que confiava em Cristo, somente em Cristo, para a minha salvação. Foi-me dada a cer­teza de que Ele tinha levado embora os meus pecados, sim, os meus. E me salvou da lei do pecado e da morte."5 Esse momento crítico da vida de João Wesley6 foi o acontecimento que, mais que todos os outros, deu início ao Avivamento Evangélico do século 18.

Em agosto de 1918, Karl Barth, pastor em Safenwil, do Cantão de Aargau, na Suíça, publicou uma exposição da Epístola aos Romanos. "O leitor", diz ele no prefácio, "perceberá por si mesmo que foi escrito com um jubiloso sentimento de descoberta. A poderosa voz de Paulo era nova para mim. E se o era para mim, certamente o seria para muitos outros também. Entretanto, agora que terminei minha obra, vejo que resta muita coisa que ainda não ouvi..." Mas o que ouviu, escreveu — e a primeira edição do seu Rõmerbrief caiu "como uma granada no pátio de recreio dos teólogos".7 As repercussões daquela explosão estão conosco ainda.



Não é possível predizer o que pode acontecer quando as pessoas começam a estudar a Epístola aos Romanos. O que sucedeu com Agos­tinho, Lutero, Wesley e Barth acionou grandes movimentos espirituais que deixaram sua marca na história do mundo. Mas coisas parecidas com essas aconteceram muito mais vezes com pessoas bem comuns, quando as palavras desta epístola penetraram nelas com poder. Assim, aqueles que a leram até esse ponto, estejam preparados para as conse­qüências de prosseguirem na leitura. O leitor está avisado!

9. Sumário

Prólogo


Paulo aos cristãos de Roma. Saudações. Dou graças a Deus por tudo que tenho ouvido a respeito da sua fé, e constantemente me lembro de orar por vocês. Muitas vezes desejei fazer-lhes uma visita e finalmente, agora, deverei ter oportunidade de fazê-la. Pregar o Evangelho em Roma — esta é minha ambição.

A


  1. Não me envergonho nem um pouco do Evangelho — essa men­sagem que Deus usa eficazmente para a salvação de todos os que crêem. Esta é a mensagem que revela o modo usado por Deus para colocar homens e mulheres em correta relação com Ele pelo exercício da fé, segundo a declaração da Escritura: "Aquele que é justo pela fé, é que viverá."

  2. A necessidade de tal mensagem torna-se clara quando contem­plamos o mundo em que vive a humanidade. Não vemos apenas a re­tribuição divina aplicando-se aos pagãos, cuja errônea maneira de viver é fruto de idéias errôneas acerca de Deus. Vemos também a nação judaica, a despeito do seu conhecimento da lei de Deus e dos privilégios por ela desfrutados, deixando de guardar a lei que conhecia. Na verdade, a humanidade inteira, judeus e gentios igualmente, está moralmente falida perante Deus. Ninguém pode esperar ser declarado justo por Deus, com base em qualquer obra ou mérito seu. Se os homens hão de ser declarados justos por Deus, tem de ser por Sua graça. E Deus, em Sua graça, tornou possível a correção da relação do homem com Ele, graças à obra redentora de Cristo. Com base em Sua morte sacrificial, Cristo nos é apresentado como Aquele que fez plena expiação de nossos pecados. E pela fé podemos apropriar-nos dos benefícios de Sua obra expiatória. Assim Deus mantém a Sua justiça e, ao mesmo tempo, dá justiça a todos os crentes em Jesus, sejam judeus ou gentios. Deste modo, a lei de Deus é vindicada e se cumprem as Escri­turas Sagradas.

Considere Abraão, por exemplo. Verá que o modo pelo qual ele recebeu o favor de Deus foi este: "Abraão creu em Deus", diz a Escri­tura, "e isso lhe foi imputado para justiça." (Tão pouco é ele um caso isolado. Podemos ver o mesmo princípio em ação na experiência de Davi.) Anote mais isto: estas palavras sobre Abraão foram ditas quando ele era ainda incircunciso, demonstrando que este meio de justiça pela fé é para os gentios, bem como para os judeus. Abraão é, pois, o pai es­piritual de todos os crentes, independentemente de sua origem racial. E a afirmação sobre Abraão, de que sua fé foi imputada para justiça em favor dele, significa que, se crermos em Deus, cujo poder salvador foi revelado na morte e ressurreição de Cristo, esta fé nos será igualmente imputada para justiça.

Assim pois, pela fé recebemos o dom da justiça de Deus, e com esta podemos receber também paz, alegria e a esperança da glória. Desta maneira podemos suportar jovialmente as aflições, pois Deus é nossa alegria. Se o Seu amor, manifestado no sacrifício de Cristo, reconciliou-nos com Ele, muito mais a vida de Cristo ressurreto conseguirá a nossa salvação no dia do juízo final, Outrora participávamos de uma velha solidariedade no pecado e na morte, quando vivíamos "em Adão" e compartilhávamos os frutos da sua desobediência. Mas agora se dissolveu essa velha solidariedade, para ser substituída pela nova solidariedade na justiça e vida que temos "em Cris­to", os frutos de cuja obediência perfeita são partilhados por muitos. A lei de Moisés não tem nada a ver com esta mudança de estado. Aquela lei foi introduzida simplesmente para que a pecaminosidade dos homens fosse desmascarada. Mas a graça de Deus triunfou sobre o. pecado dos homens e agora reina de modo supremo.



4. Será que ouço alguém dizer: "Que o nosso pecado aumente, en­tão, para que a graça de Deus seja glorificada mais ainda"? Pereça tal pensamento! Pois "em Cristo" entramos em nova vida, e estamos mortos quanto à nossa antiga relação com o pecado. Esse foi, certamente, o sen­tido do nosso batismo. Podemos pensar no pecado como um dono de es­cravos, de quem nós costumávamos ser escravos. Um escravo está obrigado a obedecer às ordens do seu senhor. Mas, morrendo o escravo, as ordens do seu senhor não o afetam mais. Ou, mudando ligeiramente a figura, quando é comprado por um novo amo, o anterior perde a au­toridade sobre ele. Assim, o pecado já não tem nenhuma autoridade sobre você, pois agora você pertence a Deus, que o libertou da sua es­cravidão anterior. O pecado era um duro senhor que distribuía a morte como seu salário. Contrariamente, Deus dá aos Seus servos o dom gratuito da vida eterna em Cristo.

Assim também quanto aos velhos laços da obrigação legal. Os que viviam sob a lei estavam tão ligados a ela como uma esposa está ligada a seu marido. Mas assim como a morte rompe os laços matrimoniais, assim a morte do cristão com Cristo rompeu os laços que antes o prendiam à lei, e o tornou livre para unir-se a Cristo, A lei estimulava os próprios pecados que proibia; os que estão unidos a Cristo produzem os frutos da justiça e vida.

Sei do que falo quando digo que a lei estimula os mesmos pecados que proíbe. Foi o mandamento: "Não.cobiçarás" o primeiro a me dar in­formação do pecado da cobiça, e a me tentar a cometê-lo.

A culpa não é da lei. Ê da velha natureza corrupta que reage dessa forma à lei. E essa natureza ainda está presente, movendo guerra contra aqueles elementos que, em mim, reconhecem a nobreza da lei de Deus e desejam guardá-la. Mas a minha força é insuficiente para conseguir a vitória sobre a velha natureza, ou de impedi-la de forçar-me a fazer o que manda. Continuo de coração dividido, e derrotado na vida, enquanto não me apropriar, reconhecido, da vitória que é minha mediante Jesus Cristo, meu Senhor.

Aqueles que estão em Cristo recebem Seu Espírito, e o Espírito de Cristo faz operar um novo princípio — o princípio da vida — que neu­traliza o velho princípio do pecado e da morte. E aqueles cuja vida é dirigida pelo Espírito podem cumprir as exigências de Deus como nunca a lei os capacitara a fazê-lo. O Espírito capacita a nova natureza a triun­far sobre a velha. O Espírito mantém a nova vida em existência e em atividade aqui e agora, como também um dia transformará nossos corpos mortais em corpos imortais. O Espírito, dirigindo assim as nossas vidas, capacita-nos a viver como filhos de Deus, com plenos direitos desta fi­liação. Ele mesmo nos induz espontaneamente a tratar a Deus de "Pai". Vem o dia em que os filhos de Deus, libertados de tudo o que é mortal, serão exibidos ao universo com a glória para a qual foram criados. E nes­se dia toda a criação será liberta de sua frustração atual e participará da gloriosa liberdade dos filhos de Deus.

A criação anseia por esse dia, como nós também, más em meio às presentes restrições temos a ajuda e a intercessão do Espírito, e a se­gurança de que Ele coopera em todas as coisas para o nosso bem, visto que o nosso bem é o propósito de Deus. Seu propósito, que não pode falhar, é revestir de glória todos aqueles a quem dantes conheceu, pre­destinou, chamou e justificou.

Portanto, tenhamos ânimo; Deus está do nosso lado. Cristo é nosso onipotente Salvador, e do Seu amor nenhum poder, agora ou no além, poderá separar o Seu povo.

5. Todavia, em tudo isto, tenho uma incessante tristeza: os meus próprios compatriotas, da nação especialmente preparada para a vinda do Salvador e na- qual Ele nasceu, negaram-se a aceitá-lo.

Não é minha intenção dizer que as promessas de Deus a Israel fa­lharam. No transcurso da história, Ele fez recair Sua escolha em alguns e deixou de lado outros. E meus compatriotas conscientemente recusaram o meio de alcançar justiça pela fé, meio apresentado por Deus a eles, e preferiram seu próprio meio de alcançar justiça, pelo cumprimento da lei. Não se deram conta de que Cristo pôs fim ao cumprimento da lei como meio para a justiça. Os gentios escolheram o meio certo, ao passo que Israel o recusou.

Israel o recusou, digo eu, mas não todo o Israel. Assim como Deus tinha o Seu remanescente fiel em dias passados, tem em nossos dias um remanescente escolhido por Sua graça. E como então, o remanescente atual é uma promessa de coisas melhores por vir. A recusa de Israel e a conseqüente rejeição dele da parte de Deus são apenas temporárias. O fato de os gentios desfrutarem as bênçãos do Evangelho provocará ciúme nos meus compatriotas. Eles voltarão, abraçarão o Evangelho, e todo o Israel se alegrará com a salvação de Deus.

Você vê, o propósito final para a humanidade é que, sem distinção nenhuma, tanto Israel como os gentios usufruam essas bênçãos. Quão maravilhosa e sabiamente Deus encaminha a realização do Seu pro­pósito. A Ele seja dada glória eterna!

B


Em vista de tudo quanto Deus fez por vocês em Cristo, suas vidas devem ser postas ao serviço dele. Vocês são membros do corpo de Cristo. Tratem de desincumbir-se de suas respectivas funções para o bem-estar de todo o corpo. E em todas as suas relações uns para com os outros, mostrem a misericórdia perdoadora de Cristo.

Prestem toda a devida obediência às autoridades civis. Elas, a seu modo, são servas de Deus. Que a sua única dívida a outros seja a dívida do amor. E nos nefastos tempos que nos ameaçam, fiquem de espírito alerta e vivam como cristãos.

Mostrem grande cortesia e consideração a seus irmãos na fé cristã. Existem questões como dias especiais e certas espécies de comida em que nem todos os cristãos estão de acordo. A liberdade cristã é uma bela coisa, mas não deve ser pretendida à custa do amor cristão. Lembrem-se do exemplo de Cristo, de como Ele sempre tomava em consideração os interesses alheios antes dos dele próprio.

Epílogo


Escrevo-lhes como apóstolo entre os gentios. Dou a máxima impor­tância a este meu ministério. Este cumpre o propósito divino de comu­nicar bênção a todas as nações, propósito revelado nos escritos do Velho Testamento. Desempenhei este ministério de Jerusalém ao Ilírico, e agora me proponho repetir o programa na Espanha, e visitar vocês quando for para lá. Primeiro devo ir a Jerusalém com uma dádiva resultante da con­tribuição das igrejas gentilicas para socorrer os seus irmãos dali. Orem para que tudo corra bem quanto a isto.

Dêem calorosas boas vindas a Febe, portadora desta carta. Dêem minhas saudações a todos os meus amigos que estão com vocês. Cuidado com os que vêm com ensinos que provocam divisões. Mantenham a ex­celente reputação que gozam em todas as igrejas. Meus amigos daqui lhes mandam saudações. A graça de Cristo seja com vocês, e a Deus seja dada toda a glória.




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