Diálogos sobre o corpo* Celso Candido



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Encontro31.07.2016
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Diálogos sobre o corpo*

Celso Candido

Decifrar o enigma do Corpo, estabelecendo o diálogo como “método”, eis o que pretende o livro Diálogo sobre o Corpo, de Ivete Keil e Márcia Tiburi, publicado pela Escritos (2004). Aventura intelectual singular, de percurso difícil e contraditória.

De um lado, a aventura remonta à imortal tradição dialética socrática, a tradição – lamentavelmente perdida, diria Platão, desde a emergência e hegemonia da palavra escrita sofística – do diálogo público, da disputa pela conquista do prêmio máximo, a sabedoria, que constituía a aretê propriamente intelectual da antiga Atenas. Aqui o que importa é o que pode ser dito em um diálogo, a verdade sempre aberta do diálogo, e não no solilóquio do pensador isolado em seu gabinete: tipo sofístico que prevaleceu como arquétipo intelectual – e que ainda hoje faz sucesso em todas as partes – até pelo menos o advento do hipertexto eletrônico interativo. Porém, diferentemente daqueles homens antigos que se opunham em disputa em busca da verdadeira sabedoria, o diálogo estabelecido aqui é o colaborativo; mesmo quando é contraditório, trata-se sempre de tecer um diálogo em uma via de encontro, uma nova possibilidade de compreensão, uma síntese superior. Tampouco se trata da busca de uma via de consenso; ao contrário, luta-se para preservar e perseverar na diferença, como condição para o emergir das idéias. Às vezes, leves e esvoaçantes como Mercúrio, outras, concentradas e minuciosas como Vulcano – conforme Italo Calvino interpreta estes mitos latinos.

De outro lado, em oposição a uma idéia central presente nesta mesma tradição, o Corpo é elevado à categoria de questão filosófica da maior importância. O Corpo não é o princípio de todos os males, como pretendia o Sócrates platônico do Fédon. - Este “pecado socrático”, fez Nietzsche dizer que é com Sócrates que o começa a degeneração do “tipo homem”. “Sócrates, o primeiro grande decadente do Ocidente.” - Assim, na contra-mão cultural inaugurada por Nietzsche, o Corpo é o que deve ser afirmado, buscado, encontrado, entendido e compreendido.

Assim, se impõe a pergunta: O que é o Corpo¿ - O mais próximo e o mais estranho de nós mesmos.

Toda a história humana, toda a sociedade, toda a singularidade existencial é experimentada e vivida nos Corpos reais dos que vivem ou viveram. Mesmo a razão, os fantasmas, os desejos – outras formas tantas de dizer do Corpo. É como em Nietzsche, o “corpo é a grande razão”, o “corpo é o Eu”. Nada há além do Corpo, nem o bem nem o mal, nem o certo nem o errado, nem o Céu nem a Terra. Começa a ruir a Metafísica ocidental...

Se quisermos então saber do mundo humano, da sociedade, de nós mesmos, devemos olhar para os Corpos vividos, pois é no Corpo que se inscreve a história humana e a história de um único indivíduo.

A pergunta pelo Corpo é a pergunta pelos corpos vividos, porque é através deles que se pode dizer o que é o Corpo. O Corpo é então a história dos corpos, dos corpos “maiores” e “menores”, de reis e heróis, mas também de loucos e marginais. Dos bons e dos maus corpos. Dos bons e maus encontros produzidos e experimentados pelos corpos.

As autoras, então, se aventuram a perguntar, mais especificamente, o que é o corpo torturado¿ Que é o corpo do torturador¿ Que experiências subjetivas e intersubjetivas são vividas nesta relação entre torturado e torturador¿ Quem – o que – vive e morre¿

Destituído do próprio corpo, como o torturado poderá reencontrar-se em si mesmo, se o si mesmo é o corpo¿ Ausência de si, estranhamento de si, distância de si, é a realidade do corpo torturado.

É possível alguma dialética entre torturado e torturador¿ Nada que possa se chegar a qualquer idéia de nível superior, a qualquer síntese. Tudo é negação. Ausência absoluta de sentido. É o nada absoluto. Aqui impera apenas o ressentimento absoluto. Para o torturador o outro é uma ficção monstruosa, enquanto para o torturado o outro é uma realidade hedionda.

Que estas experiências, estas subjetividades hediondas dizem do humano¿ Qual a natureza do mal¿ Por que existe o mal¿ São os seres humanos bons por natureza¿ Ou a maldade habita como fantasma os corpos de homens e mulheres¿ É possível escapar do mal¿ da banalização do mal hoje em dia projetada por todos cantos do planeta...

Em questões deste teor, Ivete Keil e Márcia Tiburi vão tematizando os corpos e suas experiências. Daí o olhar transversal que ao longo do diálogo percorre o corpo do sádico e do criminoso; que se pensa a morte e a loucura do corpo; a exclusão social do corpo do louco, do doente, do leproso. Que se pergunta: qué o sofrimento do corpo¿ Mas também que é o corpo que dança, o corpo erótico, o corpo que engravida¿

As autoras revisitam Nietzsche, Sade, Adorno, Kafka, Artaud, entre outros; mas também perambulam pelos corpos “mortos-vivos” de Vampiros e monstruosos como o criado pelo Dr. Frankenstein. Estratégias usadas para inventariar o Corpo.

Trabalham ainda um dos mais difíceis conceitos elaborados por Guattari e Deleuze, o do Corpo sem Órgãos, onde o corpo propriamente deixa de ser simplesmente constituído por órgãos para ser intensidade, puro devir. Conceito que talvez a prática do canibalismo possa ajudar a explicitar; por que aí o que se come não são os órgãos ou a carne, mas mais propriamente o espírito do corpo.

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Ivete Keil e Márcia Tiburi, ainda na perspectiva do debate sobre o corpo, organizaram - participaram -uma coletânea de artigos publicada no livro O Corpo Torturado, também pela Escritos (2004). Desde a apresentação feita por Maria Rita Kehl, passando por artigos de renomados intelectuais nacionais e internacionais, tais como Georges Vigarello, Álvaro Valls, entre outros, o foco é explorar o Corpo torturado em suas dimensões ética, estética, histórica, cultural e política.



Este livro que é uma extensão do diálogo de Márcia e Ivete sobre o corpo e como um brinde amargo serve não apenas nos fazer lembrar do que não pode ser esquecido, a prática da tortura como prática desumana, inaceitável, intolerável – e que ainda hoje existe no mundo, mesmo que muitas vezes sob outras formas; serve não apenas para fazer com que as novas gerações celebrem com respeito e dignidade às gerações lutadoras que precederam e abriram o caminho para a “liberdade” que podem experimentar hoje. Serve também, principalmente, para mostrar que não é o ressentimento da dor sofrida que grita, fala e cria, mas a afirmação trágico-dionisíaca da própria vida, com todas as suas possíveis máscaras, inclusive a da dor.

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* Versão ligeiramente modificada do artigo publicado originalmente em ZH, (2004/).


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