Diocese de nova friburgo rj



Baixar 121.12 Kb.
Encontro30.07.2016
Tamanho121.12 Kb.
DIOCESE DE NOVA FRIBURGO – RJ

SEMINÁRIO DIOCESANO IMACULADA CONCEIÇÃO

TÓPICOS DE LITERATURA E CULTURA

Prof. Ivo da Costa do Rosário




Periodização da Literatura
Literatura Portuguesa
A literatura portuguesa, que abrange já oito séculos de produção, pode ser dividida em três longos espaços de tempo, acompanhando as grandes transformações vividas pela Europa: Era Medieval, Era Clássica, Era Romântica ou Moderna. Essas três grandes eras apresentam-se subdivididas em fases menores, chamadas escolas literárias ou estilos de época.





Estilos de época

Produção literária

Panorama mundial

Datação

Era Medieval

Trovadorismo

Cantigas de amor, de amigo, de maldizer, de escárnio

* Feudalismo

* Teocentrismo

* Primeiras universidades




1189 (?)

Humanismo

* Historiografia de Fernão Lopes

* Teatro de Gil Vicente


* Crise do feudalismo

* Comércio

* Antropocentrismo




1434

Era Clássica

Quinhentismo ou Classicismo

* Sá de Miranda

* Camões

* Renascimento

* Capitalismo mercantil

* Reforma Protestante


1527

Seiscentismo ou Barroco

* Literatura dos padres

* Pe. Antônio Vieira


* Mercantilismo

* Contra-Reforma


1580

Setecentismo ou Arcadismo

* Literatura neoclássica

* Arcádias

* Bocage


* Iluminismo

* Revolução Industrial

* Revolução Francesa


1756

Era Romântica

Romantismo

* Almeida Garret

* Alexandre Herculano

* Camilo Castelo Branco


* Liberalismo burguês

* Guerras napoleônicas



1825

Realismo

* Questão Coimbrã

* Antero de Quental

* Eça de Queiroz

* Socialismo

* Positivismo

* Evolucionismo

* 2ª Revolução Industrial


1865

Simbolismo

* Decadentismo

* Eugênio de Castro

* Antônio Nobre

* Camilo Pessanha



* Pré-Guerra

* Freud e a psicanálise

* Vanguardas artísticas


1890

Modernismo

* Revista Orpheu

* Fernando Pessoa

* Mário de Sá-Carneiro

* 1ª Guerra Mundial

* Revolução Russa

* Nazi-fascismo

* 2ª Guerra Mundial

* Guerra Fria




1915



Literatura Brasileira
A literatura brasileira tem sua história dividida em duas grandes eras, que acompanham a evolução política e econômica do país, a Era Colonial e a Era Nacional, separadas por um período de transição, que corresponde à emancipação política do Brasil. Vejamos:





Estilos de época

Panorama mundial

Panorama brasileiro

Datação

Era Colonial

Quinhentismo

* Grandes Navegações

* Companhia de Jesus (Jesuítas)


* Literatura Informativa

* Literatura dos Jesuítas



1500

Seiscentismo ou Barroco

* Contra-Reforma

* Portugal sob domínio espanhol


* Invasões holandesas

* Grupo Baiano



1601

Setecentismo ou Arcadismo

* Iluminismo

* Revolução Industrial

* Revolução Francesa

* Independência dos EUA



* Ciclo da mineração

* Inconfidência Mineira

* Grupo Mineiro


1768




Período de Transição

* Guerras Napoleônicas

* Corte portuguesa no Rio de Janeiro

* Independência

* Regências


1808

Era Romântica

Romantismo

* Burguesia no poder

* 2º Império

* Guerra do Paraguai

* Lutas abolicionistas


1836

Realismo/

Naturalismo


* Socialismo

* Positivismo

* Evolucionismo

* 2ª Revolução Industrial

* Lutas antiburguesas




* Abolição

* República

* Romance realista

* Romance naturalista

* Poesia parnasiana


1881

Simbolismo/

Pré-Modernismo


* Pré-Guerra

* Freud e a psicanálise

* Vanguardas artísticas

* 1ª Guerra Mundial

* Revolução Russa




* Governo de Floriano

* Revolta da Armada

* Revolta de Canudos


1893

Modernismo

* Nazismo

* Fascismo

* 2ª Guerra Mundial

* Guerra Fria


* Ditadura de Vargas

* Semana de Arte Moderna

* As gerações modernistas


1922



TROVADORISMO
Embora Portugal tivesse conhecido, na primeira época medieval, manifestações literárias na prosa e no teatro, foi a poesia que alcançou grande popularidade, tanto entre os nobres das cortes quanto entre as pessoas comuns do povo.

Uma das razões dessa predominância foi o fato de a escrita ser pouco difundida na época, o que favorecia a difusão da poesia, que era memorizada e transmitida oralmente. Os poemas eram sempre cantados e acompanhados de instrumentos musicais e de dança e, por esse motivo, foram denominados cantigas. Os autores dessas cantigas eram trovadores (pessoas que faziam trovas, rimas), originando o nome Trovadorismo. Esses poetas geralmente pertenciam à nobreza ou ao clero e, além da letra, criavam também a música das composições que executavam para o seleto público das cortes. Entre as camadas populares, quem cantava e executava as canções, mas não as criava, eram os jograis.

As cantigas chegaram até nós por meio dos cancioneiros, coletâncas (reuniões) de poemas de vários tipos, produzidos por muitos autores. Os cancioneiros mais importantes são o Cancioneiro da Ajuda, compilado provavelmente no século XIII; o Cancioneiro da Vaticana, provavelmente compilado no século XV; e o Cancioneiro da Biblioteca Nacional ou Cancioneiro Colocci-Brancutti, compilado possivelmente no século XIV.

Tradicionalmente se tem apontado a Cantiga da Ribeirinha ou Cantiga da Guarvaia, de Paio Soares de Taveirós, de 1189 ou 1198, como a cantiga mais antiga de que se tem registro.

As cantigas foram cultivadas tanto no gênero lírico quanto no satírico. Dependendo de algumas características que apresentam - como o eu lírico, o assunto, a estrutura, a linguagem, etc. -, elas podem ser organizadas em quatro tipos. No gênero lírico: cantigas de amigo e cantigas de amor; no gênero satírico: cantigas de escárnio e cantigas de maldizer.



CANTIGAS DO TROVADORISMO

LÍRICAS

SATÍRICAS

DE AMOR

DE AMIGO

DE ESCÁRNIO

DE MALDIZER

  • amor do trovador pela mulher amada;

  • mulher idealizada;

  • contemplação platônica;

  • uso de “meu senhor”;

  • sofrimento por amor;

  • vassalagem amorosa;

  • amor cortês;

  • estribrilho ou refrão.




  • O trovador coloca-se no lugar da mulher que sofre pelo amado que partiu;

  • mulher concreta-real;

  • conversa com a natureza;

  • popular - mulher camponesa;

  • uso do termo “amigo” =  namorado, amante, marido;

  • paralelismo e refrão.




  • referências indiretas;

  • ironia;

  • ambigüidade (vocabulário de duplo sentido);

  • não se revela o nome da pessoa satirizada.




  • sátira direta;

  • maledicência;

  • uso de palavras obscenas ou de conteúdo erótico;

  • citação nominal da pessoa satirizada.






Canção da Ribeirinha
Segundo consta, esta cantiga teria sido inspirada em dona Maria Pais Ribeiro, a Ribeirinha, mulher muito cobiçada e que se tornou amante de D. Sancho, o segundo rei de Portugal. A seguir, transcrevemos a cantiga da forma como foi escrita. Veja, à direita, uma interpretação verso a verso.


No mundo non me sei parelha,

mentre me for' como me vai,

ca ja inoiro por vós - e ai

mia senhor branca e vermelha,

queredes que vos retraia

quando vos eu vi en saia!

Mao dia me levantei,

que vos enton non vi fea!


E, mia senhor, des aquel di', ai!

me foi a mi muin mal,

e vós, filha de don Paai

Moniz, e ben vos semelha

d'aver eu por vós guarvaia,

pois eu, mia senhor, d'alfaia

nunca de vós ouve nem ei

valia d'ua correa.

(Paio Soares de Taveirós)
No mundo ninguém se assemelha a mim (parelha: semelhante)

enquanto a minha vida continuar como vai

porque morro por vós, e ai

minha senhora de pele alva e faces rosadas,

quereis que vos descreva (retrate)

quando vos eu vi sem manto (saia: roupa íntima)

Maldito dia! me levantei

que não vos vi feia (ou seja, a viu mais bela)


E, minha senhora, desde aquele dia, ai

tudo me foi muito mal

e vós, filha de don Pai

Moniz, e bem vos parece

de ter eu por vós guarvaia (guarvaia: roupa luxuosa)

pois eu, minha senhora, como mimo (ou prova de amor)

de vós nunca recebi

algo, mesmo que sem valor. (correa: coisa sem valor)


Leia, como exemplo, outra cantiga, escrita por D. Dinis, rei de Portugal que viveu entre 1261 e 1325.




Perguntar-vos quero por Deus,

Senhor fremosa, que vos fez

mesurada e de bon prez,

que pecados foron os meus

que nunca tevestes por ben

de nunca mi fazerdes ben.


Pero sempre vos soub' amar,

des aquel dia que vos vi,

mays que os meus olhos en mi,

e assy o quis Deus guisar,

que nunca tevestes por ben

de nunca mi fazerdes ben.


Des que vos vi, sempr' o mayor

ben que vos podia querer

vos quigi, a todo meu poder,

e pero quis Nostro Senhor

que nunca tevestes por ben

de nunca mi fazerdes ben.


Mays, senhor, ainda con ben

se cobraria ben por ben.


Vocabulário
senhor: senhora.
Fremosa: formosa, bonita.
mesurada; comedida.
bon prez: honrada.
foron: foram.
pero: já que, porém,
des: desde.
mays: mais.
Mi: mim.
auy: assim.
guisar: decidir, preparar.
quigi: dei, dediquei.
a todo meu poder: de todo meu coração.

* Leia, a seguir, uma cantiga de amigo do trovador Fernando Esguio, que viveu entre os séculos XIII e XIV.




Vaiamos, irmãa, vaiamos dormir

(en) nas ribas do lago, u eu andar vi

a las aves meu amigo.
Vaiamos, irmãa, vaiamos folgar

nas ribas do lago, u eu vi andar

a las aves meu amigo.
En nas ribas do lago, u eu andar vi,

arco na mãao as aves ferir,

a las aves meu amigo.

En nas ribas do lago, u eu vi andar,

arco na mãao a las aves tirar,

a las aves meu amigo.


Seu arco na mãao as aves ferir,

a las que cantavam leixa-las guarir,

a las aves meu amigo.
Seu arco na mãao as aves tirar,

a las que cantavam non nas quer matar,

a las aves meu amigo.
Vocabulário:
amigo: namorado.

folgar: descansar, divertir-se.

vaiamos: vamos.

u: onde.

tirar: atirar.

leixa-las guarir:deixava-as salvar-se.

irmãa: irmã.

1. Na cantiga, quem fala (o eu lírico) é uma moça que se dirige a uma irmã, fazendo-lhe um convite.


a) Que tipo de convite é feito?

b) O lugar aonde pretende ir é um ambiente rural ou urbano?


2. Na época, era comum as pessoas irem à beira do lago, nas tardes quentes, para refrescar-se. Nessa cantiga, entretanto, é possível depreender outro interesse por parte do eu lírico. Interprete: qual é esse interesse?
3. Ao referir-se ao namorado, o eu lírico destaca as qualidades da pessoa amada, especialmente sua bondade. Explique: em que consiste essa bondade?
4. As cantigas de amigo, em grande parte, apresentam uma estrutura paralelística, isto é, uma construção formal baseada na repetição parcial ou total de versos. Observe que a 1ª e a 2ª estrofes são quase idênticas, com a diferença da troca de dormir (1º verso da 1ª estrofe) por folgar (1º verso da 2ª estrofe). Essas repetições, que se chamam paralelismo de par de estrofes, também ocorrem entre os pares seguintes de estrofes? Justifique com partes do próprio texto.
5. A repetição constante de versos confere maior ritmo e musicalidade ao texto. Por outro lado, confere também:
a) maior profundidade de idéias e sentimentos.

b) maior superficialidade de idéias e sentimentos.



Cantigas de escárnio
A cantiga de escárnio apresenta críticas sutis e bem-humoradas acerca de uma pessoa que é facilmente reconhecível pelos demais elementos da sociedade.

Há também cantigas de escárnio em que o poeta satiriza a obra de outro trovador. Vejamos um exemplo de cantiga de escárnio.




Pero me vós, donzela, mal queredes,

por que vos amo, conselhar-vos-ei

que, pois vos vós entoucar non sabedes,

que façades quanto vos eu direi:

buscades quen vos entouque melhor

e vos correja, polo meu amor,

as feituras e o cós que avedes.
Vocabulário:
entoucar- pentear ou colocar touca.

correja: corrija.

feituras do cós: formas do corpo.

avedes: tereis, havereis.




Cantigas de maldizer
Faz-se na cantiga de maldizer, uma crítica pesada, com intenção de ofender a pessoa ridicularizada. Há o uso de palavras grosseiras (palavrões, inclusive) e cita-se o nome ou o cargo da pessoa sobre quem se faz a crítica. Leia este exemplo:


Meu senhor arcebispo, and'eu escomungado,

Porque fiz lealdade; enganou-m'i o pecado.

Soltade-m’, ai, senhor,

e jurarei, mandado, que seja traedor.


Se traiçon fezesse, nunca vo-la diria;

mais fiz lealdade, vel por Sancta Maria,

Soltade-m’, ai, senhor,

e jurarei, mandado, que seja traedor.


Per mia malaventura tive un castelo en Souza

e dei-o a seu don’, e tenho que fiz gran cousa:

Soltade-m’, ai, senhor,

e jurarei, mandado, que seja traedor.


Por meus negros pecados, tive un castelo forte

e dei-o a seu don', e ei medo da morte.

Soltade-m’, ai, senhor,

e jurarei, mandado, que seja traedor.


Vocabulário:
arcebispo: arcebispo de Braga.

porque fiz lealdade: porque me mantive fiel ao juramento (fala o alcaide do castelo).

enganou-m'i o pecado: o demônio tentou-me.

vel: ai!


soltade-m': libertai-me da excomunhão.

mandado: obediente.

Sousa: local do qual derivou o nome de uma família importante.

don: D. Sancho II.

tenho que fiz gran cousa: creio que cometi pecado.

Nessa cantiga, o eu lírico é um homem que pergunta à mulher amada por que ela não corresponde a seus sentimentos. Teria ele infringido alguma regra do jogo amoroso? O texto assume, assim, uma nítida intenção argumentativa, já que o desejo do eu lírico é convencer a mulher amada a aceitar seu amor.



Cantiga, de D. Dinis


Un tal ome* sei eu, ai ben-talhada*,

que por vós ten a sa* morte chegada;

vedes quen é seed'en nembrada*;

eu, mia dona.


Un tal ome sei eu que preto* sente

de si morte chegada certamente;

vedes quen é e venha-vos em mente*:

eu, mia dona.


Un tal ome sei eu: aquest'oíde*:

que por vós morr'* e vo-lo en partide*;

vedes quen é e non xe vos obride*:

eu, mia dona.


Vocabulário:
amo: homem.

ben-talhado: bem-feita, formosa.

sa: sua.

seed'en nembrado: não vos esqueçais; lembrai-vos.

preto: perto.

venho-vos em mente: tende em mente; lembrai-vos

aquest'oíde: ouvi isto; a expressão tem a função de chamar a atenção da mulher.

morr': morre.

vo-lo en partide: vós o afustais de vós, no sentido de “deixá-lo partir”, “afastar-se”.

nom xe vos obride: não vos esqueçais dele.



* Escreva (1) para cantiga de amor e (2) para cantiga de amigo:




( ) eu-lírico masculino

( ) amor platônico

( ) mulher socialmente superior

( ) eu-lírico feminino

( ) temática variada

( ) linguagem mais simples

( ) busca de musicalidade

( ) cantigas de maestria, sem refrão

( ) cantigas com paralelismo

( ) cantigas de refrão

( ) mulher casada

( ) composições com diálogos

( ) vassalagem amorosa

( ) relação amorosa verdadeira


* Leia:
“Ai, flores, ai flores do verde ramo

se sabedes1 novas do meu amado?

Ai, Deus, e u2 é?


# Os versos acima pertencem a uma cantiga de _______________, característica do Trovadorismo Português, estética literária dos séculos XII, XIIIe XIV.
* Amor, desamor e ciúme; freqüente inspiração na vida popular, bem como a exploração do eu feminino indicam cantigas de:
( ) amigo

( ) amor e amigo

( ) amor

( ) escárnio

( ) maldizer
* Leia os textos a seguir:



Textos 1:

Vi eu, mia madr’, andar 


as barcas eno mar: 
e moiro-me d’amor.

 

Fui eu, madre, veer 


as barcas eno ler (1): 
e moiro-me d’amor.

As barcas eno mar 


a foi-las aguardar: 
e moiro-me d’amor

 

As barcas eno ler 


E foi-las atender (2)  
e moiro-me d’amor
E foi-las aguardar 
e non o pud’achar: 
e moiro-me d’amor.

      (Nuno Fernandes Torneol)

   1. praia; 

2. esperar.
 


Texto 2:
Ai, dona fea, foste-vos queixar 
porque vos nunca louv’-en meu trobar 
mais ora quero fazer un cantar 
en que vos loarei toda via (1), 
e vedes como vos quero loar
dona fea, velha e sandia (2). 
Ai dona fea! se Deus me perdon! 
e pois havedes tan gran coraçon 
que vos eu loe en esta razon (3), 
vos quero já loar toda via, 
e vedes qual será a loaçon: 
dona fea, velha e sandia! 

Dona fea, nunca vos eu loei 


en meu trobar, pero (4) muito trobei; 
mais ora já um bom cantar farei 
en que vos loarei toda via; 
e direi-vos como vos loarei: 
dona fea, velha e sandia!
        (João Garcia de Guilhade)
1. para sempre;

2. louca, demente;  

3. que eu a louve por este motivo;
4. porém, todavia.

     Tradução do texto 2:
Ai, dona feia, foste-vos queixar

      que nunca vos louvo em meu cantar;

      mas agora quero fazer um cantar

      em que vos louvares de qualquer modo;

      e vede como quero vos louvar

      dona feia, velha e maluca!


      Dona feia, que Deus me perdoe,

      pois tendes tão grande desejo

      de que eu vos louve, por este motivo

      quero vos louvar já de qualquer modo;

      e vede qual será a louvação:

      dona feia, velha e maluca!


      Dona feia, eu nunca vos louvei

      em meu trovar, embora tenha trovado muito;

      mas agora já farei um bom cantar;

      em que vos louvarei de qualquer modo;

      e vos direi como vos louvarei:

      dona feia, velha e maluca!







* Classifique as duas cantigas acima;

 

II. Leia a cantiga a seguir


 

“Rui Queimado morreu con amor


en seus cantares, por Sancta Maria
por  ua dona que gran ben queria,
e, por se meter por mais trovador,
porque lh’ela non quis [o] ben fazer(1),
fez - s’el  en seus cantares morrer,
mas ressurgiu depois ao tercer dia!

Esto fez el por ua sa senhor


que quer gran ben, e mais vos en diria:
porque cuida que faz i maestria (2),
enos cantares que fez sabor(3)
de morrer i e desi d’ar viver (4);
esto faz el que x’o pode fazer,
mas outr’omem per ren non [n] o faria.

E non há já de sa morte pavor,


senon sa morte mais la temeria,
mas sabede ben, per sa sabedoria,
que viverá, des quando morto for
e faz - (s’) en seu cantar morte prender,
desi ar viver: vede que poder
que lhi Deus deu, mas que non cuidaria.

E, si mi Deus a mim desse poder,


qual oi’el há, pois morrer, de viver,
jamais morte nunca temeria.
 

1. porque ela não lhe quis atender as súplicas;


2. porque ele imagina que tem talento;
3. a gosto, satisfeito;
4. de aí morrer e, mais tarde, reviver.

 




1) A cantiga anterior é de autoria de Pedro Maria Burgalês. Por suas características e conteúdo, ela é uma cantiga:
a) de amigo;
b) de escárnio;
c) de amor;
d) de maldizer;
e) n.d.a.
2) Fazem parte da prosa trovadoresca em Portugal:

a) as hagiografias e as cantigas de maldizer;


b) os livros de linhagem e os cronicões;
c) as novelas de cavalaria e os romances;
d) os cronicões e as crônicas;
e) os livros de linhagem e os sonetos.
3) Assinale a alternativa incorreta:

a) Na cantiga de amigo, o “eu-lírico” feminino lamenta a ausência do amigo distante;


b) Na cantiga de escárnio, a sátira é feita indiretamente e usam-se a ironia e as ambigüidades;
c) Na cantiga de maldizer, o erotismo pode estar presente;
d) Na cantiga de amor, o apelo erótico é purificado e ocorre a idealização do amor;
e) Na cantiga de amigo, usa-se o refrão, mas não existe paralelismo.

 

4) Classifique as cantigas abaixo:




     Ondas do mar de Vigo,

      se vistes meu amigo?

      E ai Deus, se verra cedo!

      Ondas do mar levado,

      se vistes meu amado?

      E ai Deus, se verra cedo!

      Se vistes meu amigo,

      o por que eu sospiro?

      E ai Deus, se verra cedo!

      Se vistes meu amado,

      por que ei gram coidado?

      E ai Deus, se verra cedo!


      Ondas do mar de Vigo,

      acaso vistes meu amigo?

      Queira Deus que ele venha cedo!

      Ondas do mar agitado,

      acaso vistes meu amado?

      Queira Deus que ele venha cedo!

      Acaso vistes meu amigo

      aquele por quem suspiro?

      Queira Deus que ele venha cedo!

      Acaso vistes meu amado,

      por quem tenho grande cuidado (preocupado) ?

      Queira Deus que ele venha cedo!



*********************************





Ai flores, ai flores do verde pino,

se sabedes novass do meu amigo!

Ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,

se sabedes novas do meu amado!

Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,

aquel que lmentiu do que pôs comigo!

Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado,

aquel que mentiu do que mi á jurado!

Ai Deus, e u é?
- Vós me preguntades polo voss’amado,

e eu bem vos digo que é san’e vivo.

Ai Deus, e u é?

Vós me preguntades polo voss’amado,

e eu bem vos digo que é viv’e sano.

Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é san’e vivo

e seera vosc’ant’o prazo saído.

Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é viv’e sano



e seera vosc’ant’o prazo passado.

Ai Deus, e u é?


     


Explicações
      pino: pinheiro

      novas: notícias

      e u é?: e onde ele está?

      do que pôs comigo: sobre aquilo que combinou comigo (isto é, o encontro sob os pinheiros)

      preguntades: perguntais

      polo: pelo

      que é san’e vivo: que está são (com saúde e vivo)

      e seera vosc’ant’o prazo saído (passado): e estará convosco antes de terminar o prazo combinado




Quer’eu em maneira de proença!

      fazer agora um cantar d’amor

      e querrei muit’i loar lmia senhor

      a que prez nem fremosura nom fal,

      nem bondade; e mais vos direi ém:

      tanto a fez Deus comprida de bem

      que mais que todas las do mundo val.

      Ca mia senhor quizo Deus fazer tal,

      quando a faz, que a fez sabedord

      e todo bem e de mui gram valor,

      e com tod’est[o] é mui comunal

      ali u deve; er deu-lhi bom sém,

      e desi nom lhi fez pouco de bem

      quando nom quis lh’outra

      foss’igual

      Ca mia senhor nunca Deus pôs mal,

      mais pôs i prez e beldad’e loor

      e falar mui bem, e riir melhor

      que outra molher; desi é leal

      muit’, e por esto nom sei oj’eu quem

      possa compridamente no seu bem

      falar, ca nom á, tra-lo seu bem, al.

      Quero à moda provençal

      fazer agora um cantar de amor,

      e quererei muito aí louvar minha senhora

      a quem honra nem formosura não faltam

      nem bondade; e mais vos direi sobre ela:

      Deus a fez tão cheia de qualidades

      que ela mais que todas do mundo.

      Pois Deus quis fazer minha senhora de tal modo

      quando a fez, que a fez conhecedorad

      e todo bem e de muito grande valor,

      e além de tudo isto é muito sociável

      quando deve; também deu-lhe bom senso,

      e desde então lhe fez pouco bem

      impedindo que nenhuma outra fosse igual a ela

      Porque em minha senhora nunca Deus pôs mal,

      mas pôs nela honra e beleza e mérito

      e capacidade de falar bem, e de rir melhor

      que outra mulher também é muito leal

      e por isto não sei hoje quem

      possa cabalmente falar no seu próprio bem

      pois não há outro bem, para além do seu.

********************************************




   

   De vós, senhor, quer’eu dizer verdade

      e nom ja sobr’[o] amor que vos ei:

      senhor, bem [moor] é vossa torpicidade

      de quantas outras eno mundo sei;

      assi de fea come de maldade

      nom vos vence oje senom filha dum rei

      [Eu] nom vos amo nem me perderei,

      u vos nom vir, por vós de soidade[...]
      Sobre vós, senhora, eu quero dizer verdade

      e não já sobre o amor ue tenho por vós:

      senhora, bem maior é vossa estupidez

      do que a de quantas outras conheço no mundo

      tanto na feiúra quanto na maldade

      não vos vence hoje senão a filha de um rei

      Eu não vos amo nem me perderei

      de saudade por vós, quando não vos vir.




1 Sabedes = sabeis

2 u = onde


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal