Disciplina Atenção à Saúde da Comunidade II 2010 tema I as visitas domiciliares e a atençÃO À saúde da comunidade a prática das visitas domiciliares vem sendo adotada há vários séculos pelos serviços de saúde, sendo já consolidada em alguns países, como a



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Disciplina Atenção à Saúde da Comunidade II - 2010

TEMA I
AS VISITAS DOMICILIARES E A ATENÇÃO À SAÚDE DA COMUNIDADE
A prática das visitas domiciliares vem sendo adotada há vários séculos pelos serviços de saúde, sendo já consolidada em alguns países, como a Inglaterra, onde os médicos generalistas realizam cerca de 25 visitas semanais (OLIVEIRA e BERGER, 1996*

A visitação como instrumento de controle dos profissionais de saúde sobre as pessoas e grupos esteve bastante presente na história da Saúde Pública brasileira. Os profissionais da saúde exerciam um papel policialesco e eram justificadamente chamados de Polícia Sanitária: invadiam casas, apartavam os membros das famílias, queimavam móveis, isolavam as pessoas e embora tivessem grande poder não geraram uma outra consciência sanitária e nem outros protagonismos sociais em prol da cidadania, base para uma vida digna e saudável.

As práticas de controle dos profissionais de saúde sobre as pessoas muitas vezes ainda permanece, contemporaneamente, embora possa assumir formas mais sutis. Alguns exemplos podem ser lembrados: valer-se do espaço de maior privacidade das pessoas, que é sua residência, para saber se o paciente vai ou não à consulta, se toma os remédios, se cumpre as prescrições, faz a dieta, leva o filho ao retorno, usa preservtivo, tem criadouro de Aedes. Da mesma forma essas práticas continuam não gerando boas parcerias, não criam uma nova consciência e nem um novo projeto de vida que enfrente as dificuldades a serem superadas.

O Sistema Único de Saúde, e em especial a Atenção Básica, cuja principal estratégia de implantação é a Saúde da Família, tem conferido à atividade de visitação domiciliar um papel de especial importância, ao valorizar o conhecimento do território e dos grupos sociais ali presentes, com suas dinâmicas sociais, seus recursos, potencialidades e dificuldades, como fatores determinantes da saúde dessas pessoas.

O SUS, para viabilizar seus princípios éticos de equidade, integralidade e universalidade adotou como princípios operacionais a valorização das especificidades locais para o planejamento ascendente, a educação em saúde, a participação da comunidade, aspectos que requerem um profundo conhecimento do território e dos seus sujeitos sociais: as famílias.

As visitas domiciliares cumprem, assim, um importante papel nesse novo modelo de assistência, que busca ser mais resolutivo e humanizado.

Todos os membros da equipe de Atenção Básica/Estratégia de Saúde da Família, que são os serviços de saúde a que estarão vinculados os acadêmicos para o desenvolvimento dessa disciplina - Atenção à Saúde da Comunidade II- realizam esta atividade, ou seja, ela não é exclusiva do Agente Comunitário como muitos pensam. É importante que todos os profissionais com diferentes formações a realizem para que as visões sobre as famílias e sobre o próprio território possam se complementar, formar um todo e contribuir para a construção de um projeto terapêutico singular, adequado àquela família, com sua história, necessidades, capacidades, valores e referências sócio-culturais.

A visita domiciliar pode ter várias finalidades, como:

- estimular a participação das pessoas em atividades de diversas naturezas, desde as mais restritas e individuais, quanto as mais amplas e coletivas;

- identificar recursos presentes na família e na comunidade;

- conhecer todos os membros da família (e não se restringir só àqueles que freqüentam a unidade de saúde), seus hábitos, estilos de vida, crenças, valores e como isso é traduzido no jeito cotidiano de encarar a saúde ou mesmo aderir a orientações dos profissionais, por exemplo: “será que as orientações que damos fazem sentido para eles?”

- conhecer as necessidades das pessoas e grupos;

- acompanhar e orientar processos terapêuticos;

- realizar ações educativas;

- mobilizar recursos existentes em prol da resolução de problemas ou necessidades identificadas, dentro ou fora do setor Saúde;

- promover maior vínculo entre a comunidade e a equipe de saúde. Enfim, conhecer a pessoa, seu grupo familiar dentro de seu contexto social mais amplo.

O domicílio é um espaço de maior domínio dos cidadãos moradores e não da equipe de saúde, ao contrário do que a unidade de saúde geralmente é. Na unidade de saúde tradicional os profissionais dizem quando e como se relacionar: definem unilateralmente as regras, impõem condições, abrem ou fecham as portas e as oportunidades. No domicílio, têm que pedir licença e se adequar às regras do morador. É importante viver essa relação invertida, talvez para que possa, no processo, gerar a compreensão de que equipe e cidadãos usuários podem só têm a ganhar sendo mutuamente receptivos, abertos, francos e parceiros solidários da construção desse bem social de tão grande valor, chamado saúde.

Para que a visita domiciliar seja realizada com sucesso, ela requer um bom planejamento. São sugeridos os seguintes passos:

1. Ter um diagnóstico da situação da pessoa ou família a ser visitada, identificando os problemas centrais e prioritários, que podem ser de diversas ordens: clínicos, sociais ou epidemiológicos.

2. Identificar a natureza dos problemas e necessidades: são eles de ordem individual, familiar ou da comunidade?

3. Elaborar um plano de atividades, incluindo:

- Que profissionais seriam os mais indicados para ajudar nesse tipo de dificuldade?

- Quantos?

- Que recursos materiais seriam necessários? A quem recorrer para provê-los?

- Que recursos da comunidade eu precisaria e poderia dispor?

- Avaliar se a visita cumpriu seus objetivos e por que.

- Registrar essas informações, de forma a compartilhá-las com outros profissionais

da equipe, para que possam se valer delas para os próximos passos a serem

tomados.

A comunicação verbal e não verbal tem uma importância muito especial na realização de uma visita domiciliar, pois envolve interação entre pessoas. Para isso, a observação de alguns aspectos pode ajudar:

- Identificar-se ao chegar ao local;

- Usar trajes adequados, preferentemente um jaleco com crachá e ter o aspecto pessoal bem cuidado;

- Sem invadir a privacidade das pessoas, considerar que tem um trabalho a ser feito e que precisa ser acolhido;

- Demonstrar interesse em ajudar, disponibilidade para escutar, capacidade de compreender, sem julgar, a situação vivenciada pelas pessoas ou pelas famílias;

- Observar posturas corporais, silêncios, choros e buscar seus significados;

Estar preparado, também, para certas dificuldades, como:

- o endereço não existir;

- a pessoa ter se mudado;

- encontrar a casa vazia;

- a pessoa não poder nos receber naquele momento;

- as demandas serem muitas e gerar um sentimento de impotência;

- as demandas serem muitas e gerar um sentimento de onipotência;

Para isso é importante considerar que contamos com uma equipe de profissionais de saúde para nos apoiar, com quem poderemos compartilhar idéias, preocupações, criar possibilidades e soluções. Por outro lado, lembrar que todos lidamos com limites e que mudanças dependerão não só de nós, mas também da disponibilidade das outras pessoas envolvidas para quererem mudar.

Janeiro de 2010

Apostilado por Maria do Carmo Caccia-Bava, para a disciplina ASC II.


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