Discurso de boas vindas aos participantes do encontro de ex-alunos em comemoração aos 40 anos do Instituto de Biologia, no dia 10 de novembro de 2007



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Discurso de boas vindas aos participantes do encontro de ex-alunos em comemoração aos 40 anos do Instituto de Biologia, no dia 10 de novembro de 2007
Prof. Angelo Luiz Cortelazzo

Turma de 80 e Professor do Depto. De Biologia Celular


Prezado Prof. Mohamed, Pró-Reitor de Extensão da Unicamp,

Prezado Prof. Paulo Mazzafera, Diretor do Instituto de Biologia,

Prezada Profa. Shirlei Recco-Pimentel, Diretora Associada do IB

Meus queridos amigos da biologia, seus acompanhantes, amigos, filhos, agregados...


Hoje é um dia especial. Um dia feliz e cheio de emoções!

Inicialmente, gostaria de dizer que foi com muito orgulho, honra e alegria que recebi, e aceitei, o convite para ser o porta-voz de boas vindas a todos os ex-alunos da Biologia, como eu. Agradeço a comissão organizadora pela lembrança, em especial a Profa. Dra. Marlene Aparecia Schiavinatto. É... agora, muitos de nós somos assim tratados! Parabenizo também a Diretoria do Instituto pela iniciativa.

Hoje temos aqui os veteranos de todos, o pessoal da primeira turma iniciada em 1971, até calouros recentes de turmas formadas agora, no século XXI !!

Não vou confiar na lista de presenças! Vou fazer a chamada nominal, que hoje pode ser feita por décadas:

Turmas da década de 70 se manifestem!?

Turmas da década de 80!?

Turmas da década de 90!?

Turmas do século XXI!?

É... a saudade aumenta em escala linear, proporcional ao tempo de formatura...

Muitas águas rolaram... Do barracão que hoje abriga a Diretoria Geral da Administração, próximo à Reitoria, e que tem muitas histórias, ao novo espaço ganho em 1974 e que muitos relembram ainda sem gramado, com muita poeira vermelha, ou com apenas a grama... com a plantação de pequenas árvores, hoje adultas e identificadas com uma placa com contribuição decisiva de um dos alunos da primeira turma, o Jorginho Tamashiro, também docente do IB e aqui presente.

Mas quem fez e faz o IB não são os seus prédios, nem sua nem tão bem cuidada paisagem, apesar de já muito melhorada em relação ao início...

Quem fez o IB chegar onde estamos, fomos nós: seus professores, seus funcionários e seus alunos!

Cada um de nós fez um pouquinho da história do IB. Mas alguns estão desde o seu início e podem contar, de viva voz, a sua história. Nesse sentido não poderia deixar de registrar que muitos de nossos professores, a maioria aqui presente, vêm deixando sua marca desde a primeira turma da Bio e, também por isso, serão hoje homenageados:

O Prof. Angelo, da Parasito, que a gente sempre pensava que chegaria atrasado porque também estava na festa, mas que nos aguardava em suas aulas às sextas pelas manhã, com uma profundidade, engajamento e ética nas questões parasitológicas...

O Prof. Boschero, que não usava os testes de múltipla escolha característicos da fisio, que continua atuando nas disciplinas de graduação e que se tornou um dos pesquisadores mais renomados do IB e do país...

O Dr. Vidal, temido por alguns, briguento, combativo, hoje Professor Emérito da Unicamp (não sem motivo), que continua contribuindo com sua obstinada determinação na produção do conhecimento básico e aplicado, a serviço do IB, da Unicamp e do país...

A Profa. Débora, que adorava nos mostrar cortes histológicos, mesmo de alguns lindos e maravilhosos tecidos tumorais, que foi corajosa o suficiente para participar das primeiras reações dos ventos democráticos que já sopravam no início dos anos 80...

O Prof. Fernando, inicialmente ranzinza, que teve crises com a pós-graduação, mas que foi se tornando meigo, deixando a sua competência se sobrepujar e permitir que o lado mais humano aflorasse e o tornasse um dos mais homenageados professores do Instituto, com destacada atuação no curso noturno...

O Prof. Ivan, das aulas magnificamente ilustradas, da forma sempre elegante, competente e estimuladora de tratar a zoologia - mesmo prá quem não gostava - também um dos mais homenageados de todos os tempos e também com incansável determinação na consolidação do curso noturno...

O Prof. Ivany, que assustava a gente nas aulas de fisio-vegetal com a velocidade com que suas palavras fluíam, mas que sempre nos brindou com uma invejável dose de interdisciplinaridade, na época mais quixotesca e hoje absolutamente na moda...

O João Semir, idolatrado por todos, em especial pelos que iam estagiar na Botânica, também rebelde para a realização das suas teses, mas inegavelmente um dos maiores taxonomistas do país (e com certeza o mais simpático...)

O Prof. Brown, que inicialmente brindava as turmas com últimas aulas da disciplina de Ecologia em sua casa e que é, sem dúvida, um dos expoentes da Zoologia no Brasil...

O Prof. Magalhães, da Parasito, que atuou mais nos cursos de Medicina ao longo desses 40 anos, hoje também Professor Emérito da Unicamp, mas que tem em sua figura correta e simpática, um exemplo a ser seguido...

A Profa. Luiza Kinoshita, nesta lista dos primeiros pela precocidade com que iniciou a carreira e que contribui, até hoje, com o ensino competente e agradável da taxonomia vegetal, além de ter uma preocupação cada vez mais presente com o ensino da botânica nos cursos básicos do país...

A Profa. Maria Alice, da Histologia, também muito mais atuante na área médica, mas que sempre deixou sua contribuição à biologia, participando ativamente de momentos decisivos de nosso curso, como na sua reestruturação de 88/89...

A Dra. Maria Luiza, da Biologia Celular, inicialmente muito tímida, mas que foi se soltando de forma a poder mostrar, efetivamente, o quanto tem de importante a nos ensinar: na graduação, na pós-graduação, na Diretoria do IB. Sem dúvida uma das figuras mais importantes e respeitadas da Universidade hoje, pela sua coerência, ética, competência e simpatia...

A Profa. Marlene, da Parasito, também mais voltada à formação na área médica, mas com contribuições importantíssimas pra biologia, a despeito da sua típica timidez nipônica...

A Profa. Marlies, que nos encantou a todos com seus maravilhosos slides sobre polinização, com sua competente abordagem da biologia floral, que apaixona todos que têm o privilégio de partilhar seus ensinamentos...

O Prof. Mohamed, desde seu início mais irreverente até a seriedade assumida há muito, com sua visão social coerente e engajada, pela sua trajetória patriótica no melhor sentido nacionalista, desde a direção do IB em duas oportunidades, até a sua ação na Pró-Reitoria de Extensão...

E a Profa. Urara, da Parasito, também pouco atuante na Biologia até o final dos anos 90, mas com contribuições de bastidores importantíssimas na confecção e adequação dos horários, na época em que eles eram feitos com os famosos cartões perfurados, até a reforma de 88/89 do currículo...

Claro que há muitos outros que apesar de não terem participado desde o início, marcaram a vida de cada um de nós...

Claro também, que muitos dos nossos queridos mestres já não se encontram entre nós, mas não por isso deixaram de ser um exemplo a ser seguido...

Não dá prá esquecer, por exemplo, o Prof. Pierre e suas aulas sobre os lofoforados... o Prof. Hermógenes... e tantos outros que nos marcaram, cada um à sua maneira e com nossas percepções...

Escolho, dentre eles, nosso colega, aluno e professor, Adão José Cardoso, de saudosa memória e tirado precocemente de nosso convívio, no exercício incansável de seu trabalho, de formiguinha e com paciência de Jó, que possibilitou a primeira grande mudança de concepção de nosso curso de graduação em 1989. A Biologia tem um marco curricular importante nessa data: as mudanças capitaneadas pelo Adão parecem ter inspirado, quase 10 anos depois, o que veio a se transformar na nova concepção sobre ensino para o século XXI, expressa na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) no final de 96! Com seu jeito meio “hippie” de ser, na aparência quase de um Bufo, ele é o inspirador das minhas ações até hoje! E sem dúvida de muitos outros que tiveram o privilégio de conhecê-lo e com ele conviver! Adão: aceite hoje e sempre a nossa homenagem!

Mas, como já disse, hoje é dia de festa! Dia de rememorar coisas importantes como o fato de sermos oriundos do Curso de Ciências Biológicas mais concorrido do Brasil (claro que por conta de seus excelentes docentes atuais...principalmente na biologia celular... brincadeirinha...);

Sermos egressos de um curso que não se restringiu ao papel acadêmico-científico apenas: contribuímos em momentos decisivos:

Da genômica, biologia molecular e quimiotaxonomia, a lideranças no Projeto Biota, à recuperação da fauna e da flora, na regulamentação do uso de defensivos agrícolas e produtos transgênicos...

Participamos da regulamentação da nossa profissão no final dos anos 70...

Participamos da democratização e institucionalização da Universidade no início dos anos 80...

Consolidamos nossa importância e aumentamos nossa abrangência, abrindo para novos colegas do período noturno a década de 90...

E já no século XXI, temos liderança científica em muitas áreas, com cursos de pós-graduação sólidos, bem avaliados e com padrão internacional...

Somos, sem dúvida, co-responsáveis por nossa Universidade ser hoje, considerada uma das 200 melhores do mundo em algumas pesquisas recentes...

Mas também fizemos diferente...

Fizemos o coral da Bio, que veio a inspirar a criação de muitos outros corais nas Universidades paulistas...

Fizemos (e fazemos!) a Bioart...

Na intervenção da Unicamp, em 81, o show de calouros que fizemos passou a integrar a história da Universidade... Com humor, mas com engajamento político. Com irreverência, mas sem os excessos e o vandalismo que hoje permeiam o movimento estudantil, onde a invasão passou a ser uma atitude mais importante do que a discussão...

E como discutimos!!! No CAB, nas Assembléias da Bio, com as pessoas sentadas em cima das mesas traçando ações para a consecução de objetivos que hoje pareceriam óbvios, mas que na década de 70 e início dos anos 80 eram impensáveis...

E elejo o Formô - Formusura, de quem nem lembro o nome mas, sem dúvida uma figura emblemática - para nos representar dignamente nessa conturbada época de ditadura e de posterior abertura política...

Aliás, já na abertura, volto a citar o que eu reputo como o mais consensual e bonito movimento de resistência ao autoritarismo por nós realizado: nossa reação à intervenção ocorrida em 81. Sem greve, mas em estado de mobilização permanente, não nos furtamos a defender a Universidade dos desmandos autoritários, com engrossamento de filas à execração pública do Interventor da Matemática, do IFCH, da Engenharia Elétrica, onde cantávamos a música da Beth Carvalho (Vou Festejar) com a letra trocada para repudiar a posse do interventor daquela Faculdade...que corajosamente, recusou a árdua tarefa de participar de um momento do lado contrário à toda a comunidade universitária. Repudiamos todos os que foram a nós encaminhados externamente, desrespeitando flagrantemente nossa autonomia...

Acho que, apesar de tudo, vivemos bons momentos...

Até o “non puede” do “Seu” Gimenez era motivo de gozação, mas sempre dentro de um respeito à sua ação que muitas vezes foi lembrada com saudades...

Tivemos muita conversa e discussão na “salinha” (nome carinhoso dado à sede do CAB), onde deixávamos nossas mochilas na sexta, logo pela manhã, para sairmos diretamente prá casa dos nossos pais ao final do dia... e voltávamos com as mesmas mochilas, agora com roupas limpas e passadas, na segunda... E ninguém pensava na possibilidade de não encontrar tudo o que tinha deixado ao final do dia... Bons tempos aqueles em que a polícia não podia entrar no campus (e nós não queríamos mesmo) e não existia nenhuma ação de furto ou roubo no mesmo...

Hoje, pedimos para que entrem e nos protejam...

Mas também teve (e tem) muita festa... Na época, sem curso noturno, o campus ficava às traças a noite... A gente, quando muito, ia à ATREFE (hoje FEF) praticar algum esporte, e depois ia ao Sancho Pança (hoje Aullus) tomar alguma cerveja... ou íamos ao City Bar ver o por do Sol (o Paulistinha era mais do pessoal da Medicina, mais caro...), ou ao Eden Bar, Giovannetti e mesmo ao Ponto Chic, que nunca fechava...

As festas eram nas repúblicas... ninguém ficava no campus à noite, até porque se perdesse o ônibus fretado (chiquetésimo, da Ensatur), acabava tendo que ir a pé até Barão Geraldo e esperar muito prá ser trasladado até a cidade.

Regadas à pinga ou, quando muito chiques, a batidas (feitas com as mesmas horríveis pingas e, normalmente, sem leite condensado!), as festas inventaram o leilão de calouros, que levou à adoção dos mesmos e ao estabelecimento de uma grande família formada pelos alunos/alunas da bio até hoje. Daí, e como tudo é evolução, passou-se a fazer a festa da adoção dos bichos e, como somos muito tradicionais, a festa do casamento do pessoal do primeiro ano para poder adotar o bicho do ano seguinte!

Para a adoção, a biologia continua tradicional e exige a união mais estável dos veteranos para com os bichos... Este procedimento foi considerado um modelo a ser seguido para diminuir a evasão na Universidade e divulgado/disseminado por todo o campus.

Depois que iniciou o curso noturno, em 93 (e que medida acertada essa de aproveitar tamanha ociosidade intelectual e de instalações!!!) e como não poderia deixar de ser, passou-se a exigir mais festas à noite! Festas em Repúblicas, nem pensar (até pela nova relação entre população, imobiliárias e estudantes). A segurança do campus era sempre mais interessante.

A bioart se transformou no maior evento da Universidade (hoje encolheu um pouco no tamanho mas ganhou novamente uma maior qualidade...)

A interbio continua a existir, agora um pouco mais profissional, mas não menos divertida...

Estamos em todos os lugares do Brasil e em muitos lugares do mundo... (se não tomarem cuidado, conquistaremos todos os espaços!!!!)

O fato da história mais recente ainda não suscitar saudades, é uma simples questão de idade... (e de ponto de vista parcial- e meu) pois tenho certeza que os que aqui estão, mais recentes que os mastodontes das turmas em que me incluo, também estão saudosos...

A Biologia mudou. As mudanças são inevitáveis e são sempre prá melhor (ainda que a gente não perceba onde). E nesse contexto, acho que os alunos de hoje, diferentes dos primeiros, continuam a dignificar o que foi construído e que eles ajudam a manter e aumentar: nossa fama se mantém pelas nossas realizações: constantes, e não apenas históricas!

Por isso, tenho certeza que toda a comunidade do IB: nossos professores, nossos funcionários e nossos alunos, são responsáveis pelos sucessos (e insucessos) que alcançamos nesses anos todos...

Hoje temos biólogos que são famosos...

Temos biólogos que desenvolvem a profissão nas mais diversas áreas: temos professores do ensino básico, pesquisadores, profissionais liberais, assalariados de empresas, de órgãos governamentais, professores universitários....

Temos biólogos que usaram a formação biológica para serem advogados, delegados, artistas, engenheiros, e os mais diversos profissionais. Sem dúvida não com o mesmo perfil daqueles que não passaram pelo IB:

- Cada um de nós tem um orgulho imenso, tenho certeza, por ter podido estar aqui por alguns anos...

- Cada um de nós conta muitas histórias, por ter passado por aqui... - Cada um de nós sente muito carinho e saudade pelas amizades construídas aqui, ...

- Cada um de nós carrega consigo muito respeito, admiração e gratidão pelos nossos professores: porque cada um de nós é o que é hoje, porque esteve algum momento da vida aqui: se construindo, se moldando, se tornando gente grande!

Neste momento em que estamos reunidos prá esta confraternização, eu dou as boas vindas e saúdo cada um de vocês e cada um de nossos professores e os colegas que não puderam estar aqui neste momento!

Nós precisamos nos ver mais... Precisamos nos confraternizar mais pois, mesmo num país como o nosso que tem muitos problemas a resolver (e nós estamos contribuindo para essa resolução), precisamos criar a tradição de mostrar o amor que sentimos pelo local que nos acolheu e propiciou a partilha de momentos que foram muito importantes (se não os mais) de nossas vidas!

Que bom que estamos aqui!!!! Cada um de nós tem a sua história... mas, todos nós fazemos parte desta história: a história do nosso Instituto de Biologia da Unicamp!

Bom ver vocês! Bom ser um de vocês!



Beijo grande!



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