Discurso do reitor da ufmg, ronaldo tadêu pena, na posse do diretor da faculdade de medicina



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DISCURSO DO REITOR DA UFMG, RONALDO TADÊU PENA, NA POSSE DO DIRETOR DA FACULDADE DE MEDICINA

11-abril-2006


Servir à Universidade e, por essa via, contribuir com o melhor dos meus esforços para a constituição de uma sociedade mais justa e mais humana, tem sido o compromisso que busco cumprir em minha vida profissional. Hoje, no exercício da função de Reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, constato que esse compromisso atinge seu mais alto nível de exigência. Como disse, no meu discurso de posse, quero, com humildade e honrado pela confiança da comunidade vir a fazer parte da história da UFMG, desempenhando da melhor maneira os deveres do meu cargo. Aliás, desempenhá-los tem sido uma tarefa que muito tem me alegrado. Não que seja fácil, mas é especialmente gratificante. Nesse caso, a honra do exercício do Reitorado tem sido parceira permanente da alegria de, neste lugar, servir melhor à minha Universidade.


Hoje, à tarde, estreei como Presidente do Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão. Assumir a direção do Conselho nos coloca numa perspectiva especial, de enorme complexidade, observando a exposição de opiniões muito diversas, a manifestação, em ato, da pluralidade que caracteriza a Instituição universitária. Com certeza uma experiência rica, que fortalece o dirigente e lhe dá melhores condições de exercer seu cargo.
Agora, aqui neste auditório da Faculdade de Medicina, faço minha estréia na classe de atividades relacionadas à posse das diretorias das Unidades Acadêmicas. Heloisa Starling e eu estamos empossando o primeiro diretor de Unidade Acadêmica em nosso mandato. É emblemático que essa primeira posse seja na Faculdade de Medicina, quando ela completa 95 anos e seu novo diretor seja o Professor Francisco José Penna.
Todos podem imaginar a enorme satisfação que sinto ao dar posse ao Professor Francisco Penna, pessoa com quem convivo muito de perto há exatos 58 anos. Até pela proximidade de nossas idades, sempre compartilhamos as tarefas do dia-a-dia de nossa casa em Conselheiro Lafaiete, determinadas com grande rigidez por nossa mãe. Fomos coroinhas da Igreja São Sebastião, jogamos futebol no glorioso Guarany. Passei cadernos a limpo para ele no tempo do curso científico quando ele já tinha certeza de que seria a médico como o Dr. Ênio Leão, conterrâneo nosso em quem ele sempre buscou se espelhar.
Sempre juntos, trabalhando, brincando, divergindo, concordando. Verdadeiros irmãos.
Quando vim para Belo Horizonte, em 1965, mantivemos a convivência fraterna, ora na República Bom Despacho - onde, forasteiros de Lafaiete, fomos admitidos - , ora jogando futebol em animadas peladas e campeonatos, ora assistindo das arquibancadas do Mineirão o nosso Atlético quando ele ainda dava alegrias. Nossos filhos foram criados juntos, pois somos vizinhos na Sagrada Família. Nós dois: irmãos, companheiros, sempre próximos.
Entretanto, na Universidade fizemos carreiras ortogonais, isto é: sem pontos comuns. Ele aqui na Medicina e no Hospital das Clínicas e eu na Escola de Engenharia. Orientados pelos mesmos princípios, pelos mesmos valores, mas em áreas distintas, em unidades diferentes, percursos ortogonais.
Hoje, por decisão da Congregação, em apoio à consulta feita à comunidade da Faculdade de Medicina, tenho a alegria de me encontrar com Francisco Penna e, com muita honra lhe dar posse como Diretor da Faculdade de Medicina. Novamente, a partir de hoje, estaremos os dois, juntos com Heloisa Starling e Tarcizo Nunes, compartilhando problemas, buscando sua melhor análise, implementando soluções. A parceria será rica e frutuosa para a Instituição, tenho certeza disso.
No ano passado, Heloisa e eu nos apresentamos e discutimos com a comunidade universitária – com sua aprovação inequívoca – uma proposta de gestão ancorada em três princípios: o primado do interesse público, o respeito às diferenças e a ênfase na experimentação.
Na nossa opinião, na UFMG, as atividades da área da saúde guardam estreita relação com estes três princípios. Articular as prioridades, orientados pelo espírito público, projetando e implementando experiências bem fundamentadas são tarefas que juntos – Reitoria e unidades da área da saúde– devemos realizar. Dessa forma, poderemos atingir novos patamares de excelência acadêmica que expressem compromissos socialmente relevantes e cada vez mais entranhados em nossa prática diária.

O povo brasileiro muito espera de suas instituições públicas de ensino superior. Não podemos desconhecer suas expectativas e suas esperanças. Ao contrário, devemos tecer nossa tarefa articulada às aspirações e necessidades de nosso povo. É com este espírito que convido os diretores ora empossados e a comunidade da Faculdade de Medicina a fazer conosco uma reflexão, certamente complexa, talvez penosa, mas necessária e urgente.


Vivemos em um país de injustiças seculares em que a desigualdade figura como algo permanente e natural e a pobreza parece resistir aos discursos e às políticas que pretendem erradicá-la. Não é mais possível desconhecer ou ignorar essa realidade. A população vive segregada em classes de renda cada vez mais díspares, configurando taxas de desigualdade incompatíveis com sociedades democráticas e com as melhores tradições republicanas. O acesso ao ensino superior é uma das expressões mais claras da nossa desigualdade social. Famílias de baixa renda têm enormes dificuldades de acesso à educação superior e apenas algumas, em número muito reduzido, conseguem que seus filhos cheguem à condição de disputar uma vaga para o ensino superior.
Pergunto: Será razoável que brasileiros tão díspares em oportunidades, submetam-se às mesmas normas e exigências no vestibular?
Quando falo de oportunidades desiguais, refiro-me a escolas com boa infraestrutura e professores bem remunerados, oportunidades de aulas de reforços, aulas práticas com laboratórios adequados, intercâmbios internacionais, possibilidades de viagens, escolas de línguas, ambiente familiar estimulante. Enfim, todas as oportunidades educacionais que um jovem de origem pobre não consegue ter.
Pois bem, estes jovens que experimentam a condição da pobreza e, muitas vezes, de famílias de origem africana, cujos antepassados foram submetidos à vileza máxima da escravidão, estes jovens pobres vêem na Universidade, no curso de Medicina, para sermos específicos, o sonho de mobilidade social ou da solidariedade coletiva aos seus pares, não importa. Eles, ainda que se empenhem na luta por uma vaga na UFMG, ainda que apresentem desempenho destacado no concurso vestibular, muitas vezes com médias superiores a 70%, quase sempre vêem frustrados seus sonhos e a possibilidade de realizar seu ideal.
Vejam, pensem comigo, será que não temos a responsabilidade de garantir a este menino pobre ou esta menina pobre o direito da diferenciação? Ou, em outras palavras, para situações tão desiguais não teríamos a obrigação de adotar medidas diferenciadas que possam, não reproduzir a desigualdade, e sim eqüalizar as oportunidades ?
Não seria esse o momento, senhoras e senhores, de construir uma experiência generosa e justa em que poderíamos oferecer o tratamento diferenciado que nosso espírito de solidariedade nos recomenda?
A título de sugestão: não seria possível separar, adotando medidas de controle adequadas, 80 vagas ou 60, por exemplo, do total das 320, e oferecê-las apenas aos candidatos oriundos de escolas públicas que atingirem um determinado desempenho?
Pensem nisso !!! Seria viável ??
Aproveito a oportunidade de estar junto à Comunidade da Medicina para mencionar algumas ações importantes que estamos preparando, neste primeiro mês de mandato. Duas delas o novo diretor já anunciou em seu discurso. Trata-se da transferência da gestão e operação do Hospital de Venda Nova para a UFMG. O hospital será orçamentado com os recursos financeiros adequados. Termo de compromisso já foi assinado e estamos preparando o convênio com a Secretaria de Saúde para ser assinado ainda em abril. O segundo projeto importante refere-se à doação do Dr. Aloísio Faria de recursos já acertados para a construção de um prédio aqui neste campus saúde para abrigar o Centro de Atenção à Saúde do Idoso e o Centro de Atenção à Saúde da Mulher. Estamos preparando a documentação para recebermos 6 milhões e 500 mil reais deste grande benemérito da Universidade, ex-aluno dessa casa.
Além disso, estamos propondo aos Colegiados Superiores da Universidade a destinação de 1 milhão de reais, neste ano de 2006, para a recuperação do acervo bibliográfico da UFMG. Pretendemos aplicar valores nesta faixa durante os quatro anos de nosso mandato.
Um outro projeto é o Programa “Primeiro Computador”. Queremos que cada professor da Instituição tenha em sua mesa de trabalho um computador. Obviamente o programa atenderá aqueles que efetivamente não possuem tal equipamento. Já solicitamos a lista nominal de todos os docente nesta situação. Certamente não conseguiremos atender a todos no primeiro momento. Mas, já neste ano vamos distribui algo em torno de 150 a 200 computadores.
Não serão feitas perguntas. Não tem computador em sua mesa de trabalho? Então precisa ter... Esperamos em dois anos atender a todos.
Professores da UFMG não precisarão fazer projetos para obter o seu primeiro computador. Esta é uma questão de recursos humanos. Não uma questão do ensino ou da pesquisa. Tanto que é a PRORH que conduz o projeto.
Ao finalizar, cumprimento a Direção que termina seu mandato, Professores Geraldo Brasileiro e Joel Lamounier, reconhecendo a importância de sua contribuição para a faculdade de Medicina, o campus da saúde e a UFMG.
Apresento em nome da Universidade as boas vindas à nova direção da Faculdade, Professores Francisco Penna e Tarcizo Nunes, manifestando a certeza de que além de administrar com competência a Faculdade, serão excepcionais parceiros na condução dos destinos da UFMG nos próximos anos.
Muito Obrigado.
Está encerrada a sessão.


Belo Horizonte, 11 de abril de 2006.


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