Discurso, história e trabalho: a emergência de identidades Vanice Maria Oliveira Sargentini ufscar resumo



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DISCURSO, HISTÓRIA E TRABALHO: a emergência de identidades

Vanice Maria Oliveira Sargentini - UFSCar

RESUMO: A Análise do Discurso mantém com a História estreitos laços, uma vez que a escrita da história apresenta uma materialidade que é da ordem do discurso.Com o interesse de observar as relações entre discurso, história e trabalho, reconhecendo o discurso como um lugar de emergência de identidades, busca-se, nesta pesquisa, estudar traços identitários do trabalhador na atual fase da sociedade capitalista brasileira.
Palavras-chave: discurso, identidade, trabalho
Introdução
O interesse em estudar o discurso a respeito do trabalhador brasileiro, produzido em circunstâncias diversas, ampara-se na relação Discurso, História e Trabalho, uma vez que consideramos os eventos históricos como acontecimentos que se constituem na linguagem. Centrando-nos, primordialmente, nas reflexões de Pêcheux e Foucault, dois filósofos que contribuem substancialmente para os estudos do discurso, recorremos a conceitos como formações discursivas, arquivo, formas de poder, na busca de recuperar traços identitários que as vozes sociais atribuem aos trabalhadores.

Observamos que a imagem do trabalhador brasileiro edifica-se, por exemplo no interior de discursos acadêmicos, didático-pedagógicos, textos oficiais, erigindo um imaginário sobre o trabalhador brasileiro, que se modifica ao longo da história. Com o objetivo de formar um quadro das representações que sustentam as identidades do trabalhador e do trabalho no Brasil, investigamos, portanto, discursos que provêm de lugares e sujeitos distintos. Acompanhamos os discursos sobre o universo do trabalho e do trabalhador que circulam na sociedade em diversas séries como:

a) na mídia (em textos de jornais e revistas, na televisão);

b) em textos oficiais (documentos, leis);

c) pela própria voz do trabalhador (em entrevistas, jornais sindicais)

d) pela voz de representantes políticos, eleitos democraticamente, que ocupam o lugar de porta-voz dos interesses do trabalhador.

Pretendemos, a partir da construção desse quadro de representações que sustentam as identidades, apresentar traços identitários do trabalhador brasileiro.

A relevância da pesquisa sustenta-se em âmbitos diversos, destacando-se:

a) a importância do estudo do tema trabalho para a formação do conhecimento sobre a sociedade;

b) a reflexão sobre modos como a linguagem é constitutiva da construção das identidades do trabalhador brasileiro;

Nesta pesquisa objetiva-se, ainda, com o levantamento e análise de discursos diversos relacionados ao tema do trabalho e do universo do trabalhador brasileiro , observar pelo fio discursivo o processo de construção de identidades, considerando que estas não se constróem apenas a partir de textos que se monumentalizaram, mas também, seguindo a concepção da Nova História, no burburinho de vozes que circulam em uma sociedade.

Neste artigo, particularmente, apresentaremos apenas um recorte dessa pesquisa. Exploraremos a análise de textos, que circulam na mídia na contemporaneidade, sobre o trabalho e o universo do trabalhador. Consideramos que tais textos comportam discursos nos quais se instalam, para o enunciatário, lugares para projeção de identidades.




  1. A análise do discurso e a História: a história do tempo presente.

Há no interior dos estudos da Análise do Discurso, desde a origem, uma relação constante com a História, seja a partir de reflexões dadas pelo perfil interdisciplinar característico dos estudos do discurso, seja pelo surgimento de novas concepções acerca de como os estudos do discurso relacionam-se com a descrição do fato histórico. Para o aprofundamento destas duas formas de articulação existentes entre discurso e história, retomaremos as reflexões de Foucault (1986), a respeito da descontinuidade, considerando que tal ponto de vista, desencadeia importante sustentação teórica para os estudos do discurso e para a análise que neste trabalho será apresentada.

Retomaremos, portanto, o percurso da escola dos Annales que, ao reconhecer a história como um ciência em construção, recusa a história positivista, desestabilizando a história historicizante hegemônica (Dosse, 1992).

A escola dos Annales, apresenta suas primeiras reflexões ao final da década de 20, fazendo oposição sistemática à historiografia dominante, rejeitando o capitalismo e o regime totalitário. Lucien Febvre e Bloch, representantes da primeira geração desta nova escola, defendem uma intervenção ativa dos historiadores perante os documentos e arquivos, considerando que o historiador deva construir seu material de análise, compondo-o com documentos em séries inteligíveis integrados a um quadro teórico formulado a partir de questões a serem investigadas. Embora esta geração, admirasse alguns aspectos das proposições marxistas, preferiam manter-se distantes do relato político e eleger o homem como o objeto da história.

Nas décadas seguintes, embora se mantivesse um estruturalismo acentuado em alguns domínios das Ciências Humanas, Braudel, o nome intermediário entre a primeira e terceira geração dos Annales, leva a escola dos Annales a resistir ao estruturalismo, propondo que "a história é o homem e o resto. Tudo é história, a terra, o clima , os movimentos geológicos".1 Contribui, assim, em relação à primeira geração, para a descentralização do homem no que tange à escrita da história. Braudel privilegia uma história naturalizada e, ao decompor a unidade temporal, permite o estudo de objetos heterogêneos, abrindo caminho para o estudos de uma 'história em migalhas'.

A escola dos Annales, em sua terceira geração, dá um novo rumo ao estudo da história, passando a reconhecê-la no interior de sua heterogeneidade e como uma fragmento do real. Nasce, assim, a Nova História, que considera as questões sociais e culturais, que levam o historiador a observar as linhas de força e de fuga, já que a difusão do domínio cultural tem como mediadores grupos sociais possuidores de um discurso dominante e de poder.

Foucault (1986), já no capítulo introdutório de A Arqueologia do saber, exalta a importância da mutação epistemológica que se processa na história. Seus trabalhos anteriores (As palavras e as coisas; A história da loucura; O nascimento da clínica) são um conjunto de estudos que questionam a forma de teorização do conhecimento ou que aplicam a noção de fragmentação do saber em análises históricas concretas como o estudo sobre a loucura, a prisão ou a sexualidade. Neste contexto, cristaliza-se a noção de descontinuidade; o historiador deixa de buscar o reencontro com a totalidade da história e também aceita a impossibilidade de reconstituir integralmente o sujeito a partir da história. A reflexões foucaultianas exigem que se evite todas "as continuidades irrefletidas pelas quais se organizam, de antemão, os discursos que se pretende analisar" (Foucault, 1986, p.27). Desta forma, é preciso renunciar à crença de que seja possível chegar à irrupção de um acontecimento verdadeiro, pois jamais seria possível ao homem reapoderar-se integralmente desse - e, consequentemente, de si mesmo. Nesta concepção passa-se a tratar o acontecimento no jogo de sua instância, na pontualidade em que aparece e em sua dispersão temporal.

Os estudos do discurso articulam-se, assim, à escrita da história, já que em ambos observam-se as práticas discursivas; essas regularidades que ganham corpo seja em um conjunto técnico, em uma instituição, em formas de difusão. Elas estão submetidas há um jogo de prescrições que determinam exclusões e escolhas. (Foucault, 1997)

Assim, ao assentar nosso estudo na interseção entre o discurso e a história, na busca de acompanhar a construção de identidades do trabalhador brasileiro, consideraremos a descontinuidade da construção do saber, instalando nossa análise a partir da observação de práticas parciais, acentuando, deste modo, a impossibilidade de se chegar em uma única identidade.

Ainda, diante dessa impossibilidade de completude do sujeito, buscamos neste trabalho alguns dos "procedimentos que, sem dúvida, existem em toda civilização, pressupostos ou prescritos aos indivíduos para fixar a sua identidade, mantê-la ou transformá-la em função de determinados fins" (Foucault, 1997, p.109).





  1. O discurso da mídia e a emergência de identidades do trabalhador brasileiro

Desde Aristóteles, pensa-se a articulação entre linguagem e identidade a partir da essência das coisas, já que a relação entre o domínio ontológico e o domínio lingüístico é sustentada pela identidade das coisas (Gondar, 2002). Se a identidade era o sustentáculo principal da filosofia clássica (o homem não pode admitir simultaneamente que é e não é), na modernidade passa-se a uma filosofia da linguagem na qual a identidade depende das circunstâncias de emprego de uma palavra em determinado contexto. Diferentemente desta concepção da filosofia da linguagem, Foucault (1997) considera que a identidade é construída, mantida ou modificada a partir das técnicas de si e dos jogos de poder.

Nesta perspectiva , trata-se de compreender a identidade como processo. Ela está sempre em construção e realiza-se pela linguagem, não podendo ser estabelecida a priori. Seguindo a concepção de Foucault (1997), se tomamos a identidade pautada na heterogeneidade e tendo a linguagem como seu elemento constituidor, será preciso admitir que na constituição de identidades intervem o aspecto político de como se as representam. Para Gondar (2002, p.115):
" Existem determinados climas geopolíticos que favorecem a construção de algumas identidades: no século XIX, por exemplo, um clima favorável aos nacionalismos; nesta passagem de século, um clima favorável a uma globalização excludente, mas que também dá lugar a identidades que resistem a esse projeto homogeneizador. As identidades são fabricações, formas que a vontade política é capaz de criar: o que importa é examinar a serviço de que elas se forjam."



    1. A imagem do trabalhador nos discursos da mídia

No interior da pesquisa sobre identidades do trabalhador brasileiro, observamos em publicação anterior (Sargentini, 2001), a construção de identidades que se pautam sobre o imaginário de coletividade - representado na mídia por fotos, entre outras, de trabalhadores reunidos para deflagrar um processo de greve-(Folha de S. Paulo, 06/01/99). Tal imaginário historicamente passa a ser substituído por um imaginário do trabalhador interpelado em sua individualidade - o trabalhador é apresentado na mídia pela representação imagética de um indivíduo que para atingir o sucesso na carreira -"Tornar-se o profissional do novo século" - deverá diferenciar-se dos outros, "assumir a liderança" e o "controle de sua carreira" (Folha de S. Paulo, 22 de abril de 2001).

A princípio acreditávamos que se tratasse de um processo de substituição de identidades, talvez motivado pela ideologia que sustenta a globalização e da intensa concorrência de mercado. Posteriormente, a análise de outros materiais (por exemplo, programas de governo e entrevistas) revelou-nos que essas duas identidades, embora opostas, mantinham-se simultaneamente em evidência.

P
rosseguindo nesta tarefa de acompanhar o processo de construção de identidades do trabalhador brasileiro, flagramos, neste ano de 2004, no caderno Sinapse da Folha de S.Paulo de 27 de abril a seguinte reportagem de capa:



"Brilho em equipe

Com o mercado cada vez mais enxuto, empresas valorizam profissionais com habilidade para desenvolver o talento do grupo."
O texto imagético apresenta uma pessoa em destaque e outras em um fundo desfocado. Todos possuem um expressão de muita alegria e estão abrilhantados por luzes que os põem em evidência. Outras imagens que ilustram essa reportagem também destacam uma única pessoa e outras ao fundo em geral desfocadas.

No interior do caderno, a matéria destaca os seguintes enunciados:







"O time em primeiro lugar

Equilíbrio emocional, liderança afetiva e cooperação são as palavras-chave para tornar uma equipe campeã no mundo dos negócios do século 21."
Nos primeiros parágrafos da reportagem tem-se:

"Gênios temperamentais, tremei. Neste cenário de lucros reduzidos e poucas vagas, a seleção no mercado de trabalho vem observando a química da equipe, não o talento personalista.

Uma das expressões da moda , a "alta performance" depende cada vez menos daquele estilo de craque narcisista. Sempre inspiradas no esporte, empresas agora querem gente que "passe a bola" e "aumente a eficiência do time" - mais enxuto por sinal.

"Quem brilha é a equipe, não o líder. O artilheiro já não importa tanto, ele só consuma o trabalho bem feito", afirma Seme Arone Júnior, 37, sócio diretor do Nube (...)."
Observamos nestes enunciados a proposta de uma outra identidade também para este novo século que se diferencia das anteriores. Em oposição à "assumir o controle da carreira", propõem-se " o time em primeiro lugar"; no lugar de "coletividade", prega-se "liderança afetiva e cooperação". São formações discursivas distintas que sustentam identidades diferentes, porém, observamos que não são apresentadas como contrárias. Observe o texto que se apresenta em destaque na reportagem:
Qualidade aliadas

Para ter alta performance pessoal é preciso...



  1. Ter sólida formação cultural

  2. Ter visão estratégica e qualidade na operação

  3. Saber que quem paga a conta é o cliente

  4. Fazer marketing pessoal

Para ter alta performance em equipe é preciso que ...



  1. As regras sejam claras

  2. O compromisso seja coletivo

  3. Cada um vá além de suas funções e ajude o outro

  4. As idéias sejam compartilhadas e que haja um alto grau de comunicação

Fonte: Carlos Alberto Júlio, presidente da HSM do Brasil e Suzi Fleury, diretora da PH&T.
Nesta nova identidade que é proposta ao trabalhador é preciso "ter alta performance pessoal" e "alta performance em equipe", "(...) é preciso tirar o holofote de si mesmo e jogá-lo no time". Neste conflito de identidades é interessante observar como esse texto verbal opõe-se ao texto imagético, que focaliza um líder e mantém o restante da equipe em segundo plano.. Enfim, para ser um profissional do século XXI, é preciso entrar nesta nova ordem do discurso.

3. Identidades prêt-à-porter: a descontinuidade no discurso do e sobre o trabalhador.
A reflexão de Foucault (1986) a respeito da descontinuidade, auxilia-nos nesta análise ao considerar que não se trata de um substituição de construções identitárias. As novas situações, que consigo trazem novas identidades, não são suficientes ou condição para o abandono de identidades anteriormente construídas.

Entretanto, a persistência na oferta de novas referências identitárias deixa vestígios de uma multiplicidade cambiante de identidades. Sobre essa cambialidade de identidades Rolnik, (1997:20) afirma:


"Não é tão simples assim: é que a mesma globalização que intensifica as misturas e pulveriza as identidades implica também na produção de kits de perfis-padrão de acordo com cada órbita do mercado, para serem consumidos pelas subjetividades, independentemente de contexto geográfico, nacional, cultural etc. Identidades locais fixas desaparecem para dar lugar a identidades globalizadas flexíveis, que mudam ao sabor dos movimentos do mercado e com igual velocidade."

Há uma mudança veloz de identidades, que é imposta ao sujeito. Esse deve sempre estar preparado para entrar nesta ordem do novo, reconfigurando-se a cada curto espaço de tempo. Há, entretanto, o risco desta cambialidade causar grandes abalos à própria ilusão identitária. A perda da identidade, sobretudo, quando essa relaciona-se ao trabalho, torna-se um ameaça ao sujeito, que em desarmonia é capaz de atos insanos. Como exemplo, observa-se fato ocorrido recentemente com um desempregado na galeria do senado.
O fato pode ser lembrado como forma de espetacularização do trabalhador se considerarmos o modo como a mídia e o discurso político os exploraram. Trata-se de uma notícia presente na primeira página do jornal Folha de São Paulo do dia 17 de março de 2004. A imagem seguida da legenda -"Por um emprego. Desempregado há dois anos, Edivaldo de Lima Araújo, ameaça se jogar da galeria do Senado (seis metros); resgatado, recebeu dinheiro dos senadores."- apresenta em posição central o homem que ameaça se jogar e abaixo os senadores que olham para ele e articulam gestos para que ele suspenda a ação.

O desespero do cidadão relaciona-se à perda de identidade, pois vivemos atualmente em uma sociedade em que os sujeitos não são reconhecidos como tal quando representados pela vida concreta ( não se pergunta ao cidadão filho de quem é ou onde nasceu), mas são reconhecidos como sujeitos abstratos resumidos pela função na produção e na circulação de mercadorias de serviço. O interesse pela identidade do sujeito apresenta-se como interesse por seu papel produtivo. Assim, não ter emprego é uma ameaça de perder completamente a identidade.

Há, entretanto, o funcionamento de uma política do bio-poder (Foucault, 1996) com o objetivo de controlar e disciplinar os corpos. O artigo, já mencionado, sobre o trabalho em equipe, publicado no caderno Sinapse, permite-nos reconhecer a forma de funcionamento desse controle
"E não é só isso. Precisam (os profissionais do século XXI) mostrar equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, já que o estressado não está mais com nada. Precisam fazer esporte, parecer bem, ir ao cinema, investir na carreira e desenvolver mais e mais competências, já que o talento é só uma precondição."
Ou ainda:
"Agora, além de qualidades técnicas, estratégicas e estruturais (que incluem a saúde física e mental), os profissionais devem aperfeiçoar habilidades intra e interpessoais. Para trabalhar bem em equipe, é bom, por exemplo, conhecer o mecanismo da ansiedade, que pode ou não ser produtiva; controlar os processos de frustração para que não deságüem em raiva ou agressividade; e checar e ampliar os limites da própria paciência. Ufa."
Ufa, mesmo! Para atingir essa nova identidade, esse trabalhador terá de superar-se ou inserir seu discurso em outras identidades. Para Rolnik (1997), há um mercado variado de drogas que sustentam no sujeito a ilusão identitária como as drogas farmacológicas (vitaminas, anti-stressantes,), as drogas oferecidas pela TV ou ,ainda, a oferecidas pela literatura de auto-ajuda2.

Consideramos, portanto, que há jogos de poder e técnicas de si que sustentam a ilusão de identidade. Os jogos de poder nos textos analisados estão expostos na mídia, por meio da expressão de um discurso da atualidade, da sapiência. Os artigos do caderno Sinapse estão legitimados por um discurso da atualidade (é aguardada a publicação deste caderno que se dá apenas uma vez por mês) e da sapiência. A metalinguagem presente na capa, logo abaixo do nome Sinapse, indica a origem do termo - [do gr. synapsis, união] s.f. 1. Conexão entre células nervosas que torna possíveis pensamentos e emoções.- recuperando, assim, o discurso científico.

As técnicas de si, definidas por Foucault (1997: 109) como "procedimentos que existem em toda civilização, pressupostos ou prescritos aos indivíduos para fixar sua identidade, mantê-la ou transformá-la", são outra forma de sustentar a ilusão da identidade. Cada profissional ao perguntar o que fazer de si mesmo, logo recebe as respostas de tudo o que deve ser -' praticar esporte, ter lazer, parecer bem ...'

4. As identidades e as resistências: considerações finais
A existência de um alto número de desempregados na sociedade brasileira conduz a novas expressões na mídia a respeito do trabalho. Obter um emprego tornou-se objeto de desejo de muitos cidadãos sendo visto como um objeto de difícil aquisição. Emprego (e articulado a esse 'trabalho') entrou para as relações capitalistas de mercado; o emprego figura na mídia eletrônica em mesma relação que câmera digital, carro ou celular. -" Você quer um emprego, preencha um currículo na Catho".- O texto é expresso em 'janelinhas' que aparecem seguidas de outras como as que oferecem bens materiais. Em relação análoga, observamos os trabalhadores 'comprados' em prestações. A solidificação dos contratos temporários definem que tal trabalho será oferecido por tempo determinado, prevendo um certo número de parcelas para seu pagamento.

A partir dessa mercantilização, o próprio trabalho apresenta-se como parte desse mercado de trocas. Projeta-se, dessa forma, uma identidade também sempre em mudança. Consideramos as imagens e os discursos exaltados na mídia como uma forma de procedimento de prescrição de como os indivíduos devem sustentar sua ilusão identitária.

Ocorre que embora a mídia instale lugares discursivos para projeção de novas identidades, observa-se que tal prática de subjetivação não implica o abandono de referências identitárias anteriores (coletividade, individualidade, equipe). Não há continuidade nesta construção do saber sobre o trabalhador. É preciso amparar-se no conceito de descontinuidade para analisá-lo no interior dessa cambialidade de identidades. Afinal, a expressão de um - Ufa!-, presente na superfície lingüística do artigo analisado, é um vestígio dessa resistência aos jogos de poder.

5. Referências Bibliográficas
DOSSE, F. A história em migalhas: dos "Annales" à "Nova História". Trad. de Dulce da Silva Ramos. São Paulo: Ensaio; Campinas, SP: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1992.

FOUCAULT. M. A arquelogia do saber. Trad. de Luiz Felipe Baeta Neves. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1986.

FOUCAULT, M. A microfísica do poder. Trad. de Roberto Machado. 12ª edição. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1996

FOUCAULT, M. Resumo dos Cursos do Collège de France (1970-1982). Trad. Andréa Daher; consultoria Roberto Machado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997

GONDAR, J. Linguagem e construção de identidades - um debate. In: FERREIRA, L. e ORRICO, E. (orgs.) Linguagem, identidade e memória social. Rio de Janeiro: DP&A, 2002

NORA, P. O retorno do fato. In: LE GOFF, J. e NORA, P. (orgs.) História: novos problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.

ROLNIK, S. Toxicômanos de identidade: subjetividade em tempo de globalização. In: LINS, D. (org.) Cultura e subjetividade: saberes nômades. Campinas, SP : Papirus, 1997.

SARGENTINI, V.M. Discurso e História: a construção de identidade do trabalhador brasileiro. In: GREGOLIN, M. R.V. Análise do Discurso: entornos do sentido. Araraquara, SP: FCL/ Unesp, 2001




1 Braudel, Magazine littéraire, entrevista, novembro de 1984, p.22

2 Em pesquisas atuais observamos vários livros indexados na área de administração atuando como auto-ajuda.


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