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Tradução: YGMR

Revisão: Adma

Revisão Final: Simone Amaral

Formatação: Iara


Resumo
Lydia Grenville é a autora de um bem-sucedido folhetim de aventuras. Vere Mallory, o Duque de Ainswood, faz honra à sua estirpe e cultiva uma fama de homem libertino. Lydia iniciou uma campanha na imprensa contra o auge da prostituição em Londres, e quando Vere a conhece não pode evitar apaixonar-se perdidamente, embora tente disfarçar como simples luxúria. Entre ambos nasce uma faiscante batalha amorosa enquanto às suas costas se enfraquece a ameaça de um inimigo secreto.

Uma mulher determinada a manter intactos corpo e coração, e um homem dedicado em seduzi-la.
Prólogo

Longlands, Northamptonshire
Setembro de 1826

O sobrenome familiar do duque de Ainswood era Mallory. Os peritos em genealogia estavam de acordo de que a família era de origem normanda e que se estabeleceu na Inglaterra no século XII, como outras de igual nome.

Segundo os etimologistas, Mallory significava desafortunado ou desventurado. Entretanto, na história familiar do duque de Ainswood, esse nome significava problemas, e dos grandes. Alguns dos antepassados do duque tinham desfrutado de uma longa vida e outros de uma mais curta, mas para todos tinha sido uma vida difícil, porque estava em sua natureza. Eram uns autênticos demônios, nasciam assim e tinham fama de sê-lo.

Mas os tempos tinham mudado e a família tinha começado a mudar por fim e a moderar-se, atuando em conformidade. O quarto duque, um velho malvado e libertino que estava morto há uma década, tinha sido o último de sua geração. Seus descendentes eram os novos Mallory, mais civilizados e virtuosos.

Todos, salvo o único filho do irmão mais novo do quarto duque.

Vere Aylwin Mallory era o último demônio dos Mallory. Com seu um metro e noventa e tantos de estatura, era o mais alto de todos, e para alguns, também era o mais bonito e o mais selvagem. Tinha os espessos cabelos castanhos de seu pai, e em seus olhos (de um verde escuro de anteriores gerações) brilhava a maldade e o mesmo convite ao pecado que tinha sido a perdição de gerações de mulheres. A ponto de completar trinta e dois anos, tinha ultrapassado com acréscimo sua cota de pecados.

Naquele momento se encontrava passeando pelo bosque do enorme imóvel de Longlands, a casa solariega1 do duque de Ainswood. Vere se dirigia à taberna “A Lebre e a Pomba, pertencente à aldeia mais próxima.

Com zombadora voz de barítono, cantava a letra do funeral anglicano com a melodia de uma balada obscena.

Tinha assistido a tantos funerais na última década que sabia a canção de cor, do início: «Eu sou a ressurreição e a vida», até o «Amém» final.

«Pois Deus Todo-poderoso, em sua infinita misericórdia, reclamou a seu lado a alma de nosso querido irmão…»

Ao pronunciar a palavra «irmão», sua voz se quebrou. Fez uma pausa e ficou tenso ao notar o calafrio que percorria seu robusto corpo. Apoiou o braço no tronco de uma árvore, apertou os dentes, fechou os olhos com força e fez um supremo esforço de vontade para afugentar a pena que o rasgava por dentro.

Já tinha se lamentado bastante nos últimos dez anos, disse Vere a si mesmo, e tinha derramado lágrimas suficientes nos sete dias posteriores à morte de seu primo Charlie, quinto duque de Ainswood.

Charlie jazia no mausoléu familiar, com o resto dos membros da família a quem Deus Todo-poderoso «tinha reclamado a seu lado» na última década. A interminável sucessão de funerais tinha começado com a do quarto duque, que tinha sido como um pai para Vere, já que seus pais tinham morrido quando ele tinha nove anos. Desde então, a morte levou os irmãos de Charlie, assim como seus filhos e esposas, as várias filhas, e à esposa e o filho primogênito de Charlie.

O último funeral, apesar dos anos de prática, tinha sido o mais difícil de suportar, pois Charlie não era somente o seu preferido entre todos os primos Mallory, a não ser um dos três únicos homens no mundo aos quais Vere queria como irmãos.

Os outros dois eram Roger Barnes, visconde de Wardell, e Sebastian Ballister, quarto marquês de Dain. Este último, um gigante moreno que se conhecia como lorde Belzebú, era o que todos diziam, uma mancha infame no brasão familiar dos Ballister. Wardell e ele tinham sido companheiros de diabruras de Vere desde sua época em Eton. Mas Wardell tinha sido assassinado em uma briga de bêbados em uma cavalariça fazia seis anos, e o marquês de Dain foram ao Continente uns meses depois e parecia haver-se instalado em Paris em caráter definitivo.

Não restava ninguém a seu lado que o importasse. Do ramo principal dos Mallory só restava um varão, além de Vere: Robin, o filho caçula de Charlie, que só tinha nove anos e era agora o sexto duque de Ainswood.

Charlie tinha deixado também duas filhas (para os que se incomodavam em contar às mulheres, coisa que Vere não fazia), e em seu testamento tinha disposto que Vere fosse o tutor de seus filhos, como parente masculino mais próximo. Isso não significava que Vere se ocupasse deles. Embora a lealdade familiar impusesse certa tolerância com o último demônio dos Mallory (de igual forma que a nomeação de um tutor ditava a tradição), ninguém, nem sequer Charlie, podia estar tão cego para acreditar que Vere estava capacitado para educar a três inocentes meninos. Disso se encarregaria uma das irmãs casadas de Charlie.

Em outras palavras, Vere era seu tutor de uma maneira puramente nominal, e mais valia assim, porque não tinha dedicado um só pensamento a seus tutelados desde que tinha chegado ao imóvel fazia uma semana, a tempo para dar a Charlie o último adeus.

Tudo tinha se cumprido exatamente tal como havia predito o quarto duque em seu leito de morte, estando Vere ao seu lado.

«Vi-os quando estavam todos ao meu redor — havia dito seu tio—. Os vi chegar e partir. Pobres desgraçados. Dois de meus irmãos morreram muito antes que você nascesse. Depois seu pai. E hoje vejo meus filhos: Charles, Henry, William. Ou era a fantasia de um moribundo? Vi-os a todos transformados em sombras. O que fará você então, moço?»

Então Vere tinha acreditado que seu tio estava perdendo a cabeça. Agora sabia que estava certo.

«Todos transformados em sombras.»

—Não se enganava, por Lúcifer — murmurou, afastando-se da árvore—. Resultou ser um maldito profeta, tio.

Reatou a canção do serviço funeral onde tinha parado, entoando as solenes palavras cada vez com um tom mais luxurioso, enquanto caminhava e de vez em quando lançava um sorriso desafiante para o céu.

Os que melhor o conheciam, se pudessem observá-lo naquele instante, teriam compreendido que provocava a Deus da mesma maneira que tão freqüentemente tinha provocado a seus semelhantes. Vere Mallory procurava briga, como de costume, e desta vez era com o Todo-poderoso em pessoa.

Não funcionou. O provocador chegou ao final do cântico sem que a Providência se dignasse sequer lançar uns trovões de advertência. Vere estava a ponto de continuar seus cânticos com outras partes da missa, quando ouviu um rangido de ramos partidos e de folhas secas, e uns passos apressados. Virou-se… e viu o fantasma.

Não era um fantasma na realidade, é obvio, mas se aproximava o bastante. Era Robin, tão dolorosamente parecido com seu pai (loiro, magro e com os mesmos olhos verde mar) que Vere não suportava olhar, e tinha arrumado para não vê-lo em toda a semana.

Mas agora o menino corria para ele, de modo que não havia maneira de esquivá-lo. Tampouco podia ignorar a aguda pontada de dor, sim, e também de raiva, para sua vergonha, porque não podia evitar lamentar-se de que tivesse morrido o pai em lugar do filho.

Vere contemplou o menino com as mandíbulas apertadas. Não era um olhar cordial, assim Robin se deteve em seco a poucos passos. O menino se ruborizou, seus olhos cintilaram e de repente avançou de cabeça contra Vere e golpeou o estômago de seu surpreso tutor.

Embora tivesse o abdômen (e o resto do corpo) duro como um muro, o menino não só continuou lhe dando cabeçadas, mas também o golpeou com os punhos. Sem fazer o menor caso da imensa disparidade em idade, estatura e peso, o jovem duque seguiu golpeando seu primo como um enlouquecido Davi tentando derrubar Golias.

Nenhum membro da nova geração dos Mallory, mais civilizada, teria sabido o que fazer diante daquele ataque desesperado e aparentemente absurdo, sem que parecesse provocação. Mas Vere não era uma pessoa civilizada e o compreendeu; não podia evitar.

Ficou quieto e deixou que Robin seguisse com sua chuva de inúteis golpes, igual ao avô de Robin, o quarto duque, tinha permanecido quieto em seu momento, enquanto um enfurecido Vere o golpeava, depois de haver ficado órfão. Vere não sabia então que outra coisa fazer, além de chorar, o que, sem saber muito bem por que, parecia-lhe totalmente desconjurado.

Robin continuou golpeando, tal como tinha feito Vere, lutando contra um homem adulto e grande como uma coluna, até que não pôde mais e desabou esgotado.

Era o filho de Charlie, e devia estar muito desesperado para ter evitado a atenta vigilância de familiares e serventes e haver entrado sozinho em um escuro bosque em busca de seu dissoluto primo.

Vere não estava certo do que o menino procurava com tanto desespero. Entretanto, estava claro que, fosse o que fosse, Robin esperava que Vere proporcionasse.

Esperou até que Robin deixou de ofegar e começou a respirar normalmente, e depois obrigou ao menino a ficar em pé.

—Não deveria se aproximar de mim, sabe? —disse Vere—. Sou uma má influência. Pergunte a qualquer um. Pergunte às suas tias.

—Choram — disse Robin olhando as botas cheias de marcas—. Choram todo o tempo. E cochicham.

—Sim, é horrível — conveio Vere. Inclinou-se e sacudiu o pó da jaqueta do menino. Robin ergueu os olhos para ele… Com os olhos de Charlie, mas mais jovens e confiados. Vere notou que os olhos lhe ardiam. Ergue-se, limpou a garganta e disse—: Estava pensando em partir e as deixar sozinhas. Talvez… a Brighton. —Fez uma pausa e disse a si mesmo que estava louco por pensar sequer, mas o menino tinha ido a ele e seu pai nunca tinha lhe falhado, salvo ao morrer—. Gostaria de vir comigo?

—A Brighton?

—Isso foi o que disse.

Os olhos muito jovens e muito confiados começaram a brilhar.

—Onde está o pavilhão, quer dizer?

A imensa arquitetura fantasmagoria conhecida como Pavilhão Real era a idéia que tinha o rei Jorge IV como residência de férias junto ao mar.

—Ali estava na última vez em que reparei — respondeu Vere, e pôs-se a andar de volta para a casa.

Seu tutelado se apressou a segui-lo, correndo para não ficar atrasado.

—É tão extravagante como parece nas ilustrações, primo Vere? É como um palácio das mil e uma noites?

—Pensava sair amanhã à primeira hora — disse Vere—. Quanto mais cedo for, mais cedo poderá comprovar por você mesmo.

Se dependesse de Robin, teriam partido imediatamente. Se tivesse dependido de suas tias e os maridos destas, Vere teria partido sozinho. Mas unicamente dependia de Vere, como ele mesmo disse. Como tutor legal do menino, não precisava da permissão de ninguém para levar Robin a Brighton, ou a Bombaim, se fosse sua vontade.

Entretanto, foi o próprio Robin quem resolveu o assunto. O ruído de uns golpes tirou toda a família do salão a tempo para ver o jovem duque descendo arrastando seu baú pela grande escadaria de Longlands e arrastando-o em seguida pelo cavernoso vestíbulo.

—Vêem? —disse Vere, voltando-se para Dorothea, a irmã mais jovem de Charlie, que era a que mais protestava—. Está impaciente por partir. São todos condenadamente deprimentes. São as lágrimas, os cochichos e as roupas negras de luto que o assustam. Tudo é lúgubre e os adultos não fazem mais que chorar. Quer estar comigo porque sou grande e ruidoso, porque posso afugentar os monstros. Não entendem?

Tanto fazia se entendiam ou não, Dorothea cedeu, e outros seguiram seu exemplo. Afinal, só seriam umas semanas. Nem sequer poderia Vere Mallory corromper a moral de um menino de maneira irremediável em umas semanas.

Vere não desejava corromper a moral do menino absolutamente e tinha o firme propósito de devolver Robin a sua casa ao fim de quinze dias.

Era muito consciente de que não podia se fazer de pai de Robin, nem de nenhum outro menino. Não era um bom exemplo. Não tinha esposa (nem intenção de casar-se) para que se ocupasse das coisas que faziam as mulheres, para que suavizasse suas maneiras rudes. Seu serviço doméstico se compunha de um só criado, seu valete Jaynes, que tinha tantas qualidades maternais como um porco espinho com moléstias gastrintestinais. Vere, além disso, não tinha residência fixa desde que tinha abandonado Oxford.

Em definitivo, não estava em posição de educar um menino, sobre tudo um como Robin, destinado a assumir as responsabilidades de um grande ducado.

Não obstante, os quinze dias foram se alongando até virar um mês, e depois outro mais. De Brighton foram a Berkshire, ao vale do Cavalo Branco, para ver a gravura da Idade do Bronze que dava nome ao vale, na ladeira de pedra calcária coberta de erva. Dali foi a Stonehenge, e depois a West Country, seguindo a costa e explorando as cavernas dos contrabandistas até Land's End.

O fresco outono deu passagem ao inverno, que a sua vez deu passagem à cálida primavera. Então começaram a chegar às cartas de Dorothea e de outros, lhe recordando amavelmente, mas sem muita sutileza, que a educação de Robin não podia adiar-se indefinidamente, que suas irmãs sentiam falta dele, e que quanto mais tempo passasse o menino indo de um lado a outro, mais difícil seria estabelecer-se definitivamente.

A voz da consciência de Vere reconhecia que tudo aquilo era certo, que Robin precisava de uma autêntica família, estabilidade, um lar.

Mesmo assim, custava-lhe devolver Robin a Longlands e separar-se dele, embora fosse o mais correto, porque a casa já não era um lugar tão deprimente como antes.

As irmãs de Robin se instalaram ali com seus respectivos maridos e filhos, e na casa voltavam a ressonar as risadas e as canções infantis. Além disso, desafiando as convenções, coisa que Vere aprovava, já haviam substituído os crepes de luto negros e a roupa de luto por tons menos lúgubres.

Também estava claro que Vere tinha cumprido sua meta. Tinha afugentado os monstros, sem dúvida, pois apenas umas poucas horas de volta em casa e Robin já era íntimo de seus primos, os filhos de Dorothea, e se dedicava a atormentar com eles a suas primas. E ao chegar o momento da despedida, Robin não mostrou sinais de pânico. Não se encolerizou nem agrediu Vere, mas sim prometeu lhe escrever pontualmente, arrancou de seu tutor a promessa de que voltaria no fim de agosto para seu décimo aniversário, e saiu correndo para ajudar seus primos a reviver a batalha de Agincourt.

Mas Vere retornou muito antes do aniversário. Apenas três semanas depois de abandonar Longlands, retornava tão rapidamente quanto possível.

O sexto duque de Ainswood tinha adoecido de difteria.
Não se conhecia muito bem a enfermidade. Fazia apenas cinco anos que se publicou na França o primeiro relatório preciso sobre a infecção. Mas todo mundo sabia sem discussão que a difteria era muito contagiosa.

As irmãs de Charlie suplicaram a Vere. Seus maridos tentaram detê-lo, mas ele era mais forte e parecia uma fúria, tanto, que nem um regimento inteiro de soldados poderia tê-lo detido.

Subiu como um torvelinho pela grande escadaria e percorreu o corredor a grandes passadas até o quarto do doente. Empurrou a enfermeira para fora e fechou a porta com chave. Depois se sentou junto à cama e agarrou a débil mão de seu tutelado.

—Não aconteceu nada, Robin — disse—, já estou aqui. Eu lutarei por você. Passe-me isso, ouve-me, garoto? Expulsa esta maldita enfermidade e deixa que eu me ocupe dela. Posso fazê-lo, garoto, sabe que posso.

A fria mão continuava inerte em sua mão grande e quente.

—Passe-me isso, por favor — insistiu Vere, lutando por conter as lágrimas e afogar sua inútil dor—. É muito cedo para você, Robin, sabe. Apenas começou a viver. Não conhece nem uma pequena parte da vida, de tudo o que há por ver e por fazer.

As pálpebras do jovem duque se agitaram e se abriram. Um brilho de reconhecimento pareceu brilhar em seus olhos. Por um instante, a boca esboçou um indício de sorriso. Depois os olhos voltaram a fechar-se.

Isso foi tudo. Apesar de Vere continuar falando e rogando, apesar de apertar a mão com insistência, não pôde atrair a enfermidade para si. Não pôde fazer nada mais que esperar e observar, como tantas outras vezes. Foi uma vigília curta desta vez, a mais curta e difícil de todas.

Em menos de uma hora, enquanto o entardecer deslizava para a noite, a alma infantil partiu… Como uma sombra.

Capítulo 1

Londres

Quarta-feira, 27 de agosto de 1828



—Processarei-os! — bramou Angus Macgowan—. Há leis contra a injuria neste reino, e se isto não é uma injuria, eu tenho as malditas bolas de um touro!

O enorme mastim fêmea de cor negra que dormitava diante da porta do escritório do editor ergueu a cabeça e observou Macgowan e a sua proprietária com uma leve curiosidade. Ao comprovar que esta última não corria perigo iminente, voltou a apoiar a cabeça nas patas dianteiras e fechou os olhos.

A proprietária em questão, Lydia Grenville, de vinte e oito anos, olhou Macgowan com semelhante indiferença. Claro que não era fácil alterar Lydia. Loira, de olhos azuis e com uma estatura de quase metro oitenta, era tão delicada como uma Valquíria2 ou uma amazona, e seu corpo era tão forte e ágil como sua mente, a imagem e semelhança daquelas míticas guerreiras.

No momento em que Macgowan depositou violentamente o objeto de sua indignação sobre a mesa, ela o recolheu com calma total. Era a última edição do Bellweather's Review, e igual ao número anterior, dedicava várias colunas da primeira página a atacar o último trabalho jornalístico de Lydia:



A igual a seu xará, «lady Grendel» do Argus lançou novamente um nocivo ataque contra um público despreparado, ao vomitar seu gás venenoso em uma atmosfera já poluída. Aturdidas ainda pelos ataques prévios a sua sensibilidade, suas vítimas se vêem de novo jogadas no abismo de degradação de que emana o fedor de criaturas vis e corrompidas (pois dificilmente podemos pontuar de humanas as animais que converteram em assunto de seus artigos), cujos uivos cacofônicos de auto-compaixão (pois não podemos chamar linguagem a tais excreções), o monstro com anáguas do Argus…

Lydia interrompeu a leitura neste ponto.

—Perdeu completamente o fio da frase — disse a Angus—. Mas não se pode processar ninguém por não saber escrever. Ou por falta de originalidade. Se mal recordo, o Edinburgh Review foi o primeiro a me dar o nome do monstro de Beowulf. Em qualquer caso, não acredito que ninguém tenha a patente do nome de «lady Grendel».

—É um ataque insidioso e difamatório! —exclamou ele—. Virtualmente a chama de filha da puta no penúltimo parágrafo, e insinua que uma investigação em seu passado conseguiria… conseguiria…

—«Conseguiria sem dúvida explicar a simpatia, pelo resto injustificável, que sente a mulher-macho do Argus por uma antiga profissão que é sinônimo de enfermidade e corrupção» —leu Lydia em voz alta.

—Injúria! —gritou Angus, dando murros sobre a mesa. O mastim ergueu de novo a cabeça, exalou um fundo suspiro canino e depois voltou a acomodar-se para continuar dormindo.

—Simplesmente sugere que fui prostituta — disse Lydia—. Harriet Wilson era, e entretanto seu livro vendeu muito bem. Se o senhor Bellweather a tivesse insultado em seu periódico, estou certa de que teria ganhado uma fortuna. Certamente seus amigos e ele contribuíram para que nós ganhemos. O número anterior do Argus se esgotou em quarenta e oito horas. O de hoje se esgotou antes da hora do chá. Desde que as gazetas literárias começaram a me atacar, nossas vendas se triplicaram. Em lugar de processar o senhor Bellweather, deveria lhe enviar uma nota de agradecimento, e o animar a seguir trabalhando em nosso proveito.

Angus deixou-se cair na cadeira de seu escritório.

—Bellweather tem amigos em Whitehall — grunhiu—. E digamos que alguns no Ministério do Interior não lhe têm muita simpatia.

Lydia era consciente de que tinha despertado bolhas no círculo do ministro de Interior. No primeiro de seus dois artigos sobre as penúrias das prostitutas mais jovens de Londres, tinha insinuado que a prostituição devia legalizar-se, o que permitiria à Coroa conceder licenças e regular o negócio, como em Paris, por exemplo. Também tinha sugerido que a dita regulamentação contribuiria ao menos para reduzir os casos de violência.

—Peel deveria me agradecer — disse Lydia—. É tanta a indignação que despertou minha sugestão, que sua proposta de criar uma policia metropolitana acabou lhes parecendo da mais sensata às mesmas pessoas que antes protestavam, afirmando que era uma conspiração para tiranizar John Bull3. E eles falam de tirania. —Lydia deu de ombros—. Se tivéssemos uma policia como é devido, talvez já tivessem detido essa desalmada.

A desalmada em questão era Coralie Brees. Nos seis meses transcorridos desde que tinha chegado do Continente, feito-se famosa como a pior das alcoviteiras de Londres. Para conseguir surrupiar suas garotas, Lydia tinha prometido não revelar o nome dessa mulher, o que, de todas as formas, de pouco teria servido à causa da justiça, já que cafetões e alcoviteiras eram peritos no jogo de evitar às autoridades. Trocavam de nome com tanta facilidade e tão freqüentemente como tinha feito o pai de Lydia em seu tempo para evitar seus credores, e escapuliam como ratos de uma toca a outra. Não era de estranhar que os de Bow Street não pudessem lhes seguir o rastro, nem se sentissem obrigados a fazê-lo. Segundo algumas estimativas, em Londres havia mais de cinqüenta mil prostitutas, e uma grande maioria tinha menos de dezesseis anos. Pelo que Lydia tinha podido determinar, nenhuma das garotas de Coralie tinha mais de dezenove.

—Mas você a viu — disse Angus, irrompendo em suas sombrias reflexões—. Por que não lhe lançou ao pescoço essa besta negra que tem? —Assinalou o mastim.

—Não serviria de nada deter essa mulher se não houver ninguém com valor suficiente para testemunhar contra ela — replicou Lydia com tom impaciente—. A menos que as autoridades a surpreendam com a mão na massa (e ela já se preocupa de que isso não aconteça), não temos nenhuma prova nem nenhuma testemunha. Pouca coisa poderia fazer Susan, salvo matá-la ou mutilá-la.

Susan abriu um olho ao ouvir mencionar seu nome.

—Já que só faria tal coisa se eu a ordenasse — prosseguiu Lydia—, julgariam-me por agressão, ou me pendurariam por assassinato. E preferiria não acabar na forca por culpa de uma suja e sádica alcoviteira.

Lydia voltou a deixar o Bellweather Review sobre a mesa de seu patrão e depois tirou o relógio do bolso. Tinha pertencido a seu tio avô Stephen Grenville. Ele e sua esposa, Euphemia, tinham acolhido Lydia quando ela tinha treze anos. Os dois tinham morrido durante o outono, com apenas umas horas de diferença.

Apesar de que Lydia sentia uma grande estima por eles, não sentia falta da vida que levava com aquele casal de irresponsáveis. Embora não fossem imorais, como seu pai, eram pessoas superficiais, desorganizadas, sem inteligência, e afligidas de um anseio irrefreável por conhecer o mundo. Estavam sempre impacientes por sacudir o pó de um lugar, muito antes que tivessem tempo de assentar-se. Lydia tinha viajado com eles desde Lisboa até Damasco, passando por todos os países do Mediterrâneo.


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