Distantes e próximos: realidades migrantes entre Brasil e Costa Rica



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DISTANTES E PRÓXIMOS:

realidades migrantes entre Brasil e Costa Rica
Antonio Nolberto de Oliveira Xavier – Brasil1

Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP

Resumo

Este artigo apresenta um estudo comparativo entre grupos de migração interna, no Brasil, e grupos de migração estrangeira, na Costa Rica, considerando a hipótese de que, independente do tamanho dos grupos, das distâncias que os separam de seus locais de origem e das características políticas dos deslocamentos os pré-conceitos e reações de aceitação ou negação apresentam-se similares, ligados, principalmente, às questões de raça, classe social e gênero. Para este recorte, a metodologia utilizada foi a observação in loco e a pesquisa participante, através do contato direto com os sujeitos que constituem o corpus. O uso da comparação possui uma série de implicações situadas no plano epistemológico, remetendo a um debate acerca dos próprios fundamentos da construção do conhecimento em ciências sociais, de acordo com Florestan Fernandes (1980), ao estudar este método a partir de Comte, Durkheim e Weber. Também trazemos alguns conceitos e propostas metodológicas utilizadas por Suely Rolnik e Carlos Sandoval García para a análise dos dados. O processo de representar o “pertencimento a”, invariavelmente traz consigo uma prática de seleção que ressalta algumas imagens e exclui outras. Dessa forma, não existem “identidades” essenciais, mas práticas, através das quais é construído o sentido de pertencer a algum grupo e o sentido de diferença também aparece como uma forma poderosa para a construção da ideia de comunidade, numa perspectiva anti essencialista que busca conceitualizar as identidades como um fenômeno tridimensional, constituído por representações, subjetividades e fatores materiais. Consideramos, também, o uso que os sujeitos fazem dos meios de comunicação como estratégias no processo de construção do sentido de pertencimento.


Palavras-chave

Migrações; Pertencimento; Subjetividade; Pré Conceitos; Estratégias de Comunicação


Introdução

O presente artigo apresenta considerações referentes ao estudo comparativo entre grupos de migração interna, no Brasil, a saber, gaúchos e nordestinos residentes na cidade de São Paulo, e grupos de migração estrangeira, na Costa Rica, especificamente brasileiros e nicaraguenses. Partimos da hipótese de que, independente do tamanho dos grupos, das distâncias que os separam de seus locais de origem e das características políticas dos deslocamentos, os pré-conceitos e reações de aceitação ou negação apresentam-se similares, ligados, principalmente, às questões de raça, classe social, grau de instrução e gênero.

Este estudo é parte integrante do Projeto de Tese a ser defendido junto ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUCSP, que tem como título – ainda provisório – “EM CASA, FORA DE CASA: estratégias comunicacionais para a construção do sentido de pertencimento”.

Basicamente, para este recorte, a metodologia utilizada é a observação in loco e a pesquisa participante – segundo Pedro Demo (1991) –, através do contato direto com os sujeitos que constituem o corpus da realização de entrevistas semiestruturadas.

O uso da comparação, enquanto perspectiva de análise do social, possui uma série de implicações situadas no plano epistemológico, remetendo a um debate acerca dos próprios fundamentos da construção do conhecimento em ciências sociais. Esta perspectiva está bem definida por Florestan Fernandes (1980), ao estudar o método da comparação a partir de Comte, Durkheim e Weber.

Alguns conceitos e propostas metodológicas, trazidos da leitura de estudos feitos por Suely Rolnik e Carlos Sandoval García, também são aproveitados para construírem os instrumentos de análise deste estudo.

Na construção do sentido de pertencimento está presente a possibilidade de a globalização também acentuar diferenças, localismos e a complexidade cultural, contrariando um prognóstico de inevitável integração ou homogeneização (Featherstone, 1995). Esta acentuação das diferenças e localismos ocorre como um movimento que se poderia chamar de resistência da memória. “Ser obrigado a esquecer, acaba sendo a base para recordar” (Bhabha, 1998, p. 160). Desta forma, entender o esquecimento é tão importante quanto estudar os elementos presentes na lembrança, uma vez que parte da luta contra o poder cultural é o desafio de esquecer imposto pela memória. (Rolnik, 2014).

O processo de representar o “pertencimento a”, invariavelmente traz consigo uma prática de seleção que ressalta algumas imagens e exclui outras. Assim, não existem “identidades” essenciais, mas práticas, através das quais é construído o sentido de pertencer a algum grupo e o sentido de diferença também aparece como uma forma poderosa para a construção da ideia de comunidade. Seguindo o que propõe Carlos Sandoval García, uma perspectiva anti essencialista busca conceitualizar as identidades como um fenômeno tridimensional, constituído por representações, subjetividades e fatores materiais. (Sandoval-García, 2008).

Acrescentamos a estas observações um olhar sobre os modos de participação e o grau de influência que os meios de comunicação possam ter nesse processo de construção das subjetividades. Destacamos, principalmente, os usos desses meios e as estratégias comunicacionais utilizadas pelos sujeitos ao produzirem sentidos de pertencimento.

Realidades migrantes

Os grupos de migrantes investigados para este estudo apresentam vários elementos que os aproximam, mas também especificidades, se compararmos a situação da migração interna, no Brasil, com a situação da migração estrangeira, na Costa Rica.

Historicamente, o principal motivo que levou tanto os nordestinos para a cidade de São Paulo quanto os nicaraguenses para a Costa Rica foi a busca de trabalho e melhores condições de vida. Ambos os grupos de migrantes saíram de seus locais de origem deixando para trás a tarefa dura do corte de cana-de-açúcar para trabalharem, inicialmente, nas lavouras de café que, em períodos distintos da história em cada país, representaram grande crescimento econômico e precisavam de mão de obra acostumada ao serviço rude, oferecendo possibilidade de ganhos maiores (Guimarães, 2002).

Grandes levas de trabalhadores rurais, sobretudo homens, viram no trabalho com o café a oportunidade de receber um salário digno, poder enviar dinheiro para as necessidades básicas da família, juntar recursos suficientes para adquirir sua terra própria, na intenção de garantir um futuro melhor. Por motivos políticos e econômicos, os nicaraguenses literalmente fugiam em busca de um novo lugar para refazerem suas vidas.

En 1997, cerca del 43.8 por ciento del total de la población [en Nicaragua] sobrevivía con menos de un dólar por día, […]. En ese año, el 70 por ciento de las personas consultadas por una encuesta, consideraron el desempleo como el principal problema […]. El significado de dejar Nicaragua y recibir bajos salarios en Costa Rica fue sintetizado por una mujer nicaragüense, quien vive en una humilde comunidad localizada en Pavas, al este de la capital San José: “Aquí los tugurios son de tablas y zinc, además tenemos agua potable y electricidad. En Managua no teníamos ni tablas, eran de cartón, además no teníamos ni agua, ni electricidad [...]”. (Sandoval-García, 2004:154).

os nordestinos, a princípio, partiram em busca de trabalho com o desejo de retornarem para suas cidades ou, pelo menos, para o seu estado, em cidades menos atingidas pela seca e a falta de alimento.

Assim, a partir da década de 1930, a transferência populacional do nordeste (onde havia crise econômica e excedente populacional) para o sudeste (que, no campo, necessitava de braços para consolidar a lavoura capitalista e, no meio urbano, para o processo de industrialização) foi então estimulada como forma de garantir mão-de-obra barata e abundante para as novas necessidades do sistema produtivo. (Nóbrega, R. & Daflon, 2015:19).
Não só o passado histórico, mas a realidade mais recente destes dois grupos apresenta muitas similitudes. Não é difícil encontrarem-se relatos onde a presença destes migrantes aparece aos “nativos” como causa do aumento da criminalidade, das doenças e junto à ideia de que estes “outros” acabam por tirar-lhes alguns direitos, embora reconheçam sua contribuição enquanto força de trabalho. “Os migrantes brasileiros do Nordeste, geralmente pobres, que alimentam as favelas e o desemprego, são geralmente culpabilizados pela decadência ou pela deterioração do padrão de vida das cidades paulistas ou sulistas”. (Guimarães, 2002:135). Também em Sandoval-García podemos encontrar: “La utilidad instrumental de los nicaragüenses es disminuida por las amenazas asociadas con ellos y ellas. Por una parte, son requeridos para trabajos indeseables, pero también son portadores de ‘enfermedades’” (Sandoval-García, 2008: 206).

A principal diferença encontrada na realidade destes dois grupos está no fato de os nordestinos não terem dificuldades com relação à documentação, uma vez que não são estrangeiros. Mas o fato de a grande maioria ser analfabeto ou com pouco estudo acaba sendo um empecilho para conseguirem melhorar sua situação de emprego.

Encontramos com certa facilidade livros, artigos, trabalhos acadêmicos que tratam da situação de migrantes nicaraguenses vivendo na Costa Rica, bem como de migrantes nordestinos presentes na cidade de São Paulo.

Com relação a brasileiros na Costa Rica e gaúchos em São Paulo já não é tão fácil encontrarem-se referências, talvez porque a realidade destes dois últimos grupos não se constitua em problema a ser investigado. As poucas informações, retiradas de sítios da Internet e matérias de jornal, resumem-se, quase que exclusivamente, à divulgação de espaços de gastronomia, festas, compras ou atrativos culturais, denotando uma situação econômica e social estáveis destes dois grupos, além de uma aceitação por parte dos nativos (paulistanos e costarricenses) a esses “estrangeiros”.

Isto pode ser comprovado a partir das respostas dadas às entrevistas, nas quais, de ambos os grupos investigados (gaúchos em São Paulo e brasileiros na Costa Rica), a maioria dos informantes afirma que chegou com possibilidade de emprego certa, ou que veio acompanhando a família (o marido ou os pais que chegavam para trabalhar em cargos estáveis em empresas de grande porte). Entre os mais jovens, nos dois grupos, a maioria chega com a intenção de estudar – principalmente estudos de pós-graduação. O que difere entre os gaúchos jovens em São Paulo e os brasileiros jovens na Costa Rica é que os primeiros buscam na metrópole a oportunidade de trabalho em grandes empresas e acesso à produção cultural, enquanto que o segundo grupo é atraído principalmente pela qualidade de vida, o contato com a natureza (praias, surf, trilhas).
Identidade” e diferença: o sentido de pertencimento

Ser diferente em um determinado meio pode levar a duas posturas: tentativa de anular sua origem para igualar-se ao lugar onde está ou processo de resistência, agrupando-se como forma de construção de pertencimento.

Na Costa Rica, a construção de uma identidade nacional passa pela definição de um “outro” – os nicaraguenses – o qual não se quer ser. Parece ser mais fácil identificar características – geralmente negativas ou pouco desejáveis – nestes outros e, a partir daí, dizer o que não se é, ou mostrar que se é o oposto, do que fazer uma construção de identidade positiva, elencando características próprias. Ao falar sobre a construção de comunidades imaginadas, Sandoval-García afirma que

La formación de un sentido de pertenencia nacional y la representación del “otro” han sido procesos mutuamente constitutivos. Sin embargo, el debate acerca de la formación de “comunidades imaginadas” ha considerado en pocas ocasiones cómo y por qué la exclusión de “otros” indeseados es una poderosa forma de construir sentido e pertenencia. Es relevante reconocer modos de inclusión, pero también explorar cómo la exclusión forma parte de proyectos de estado-nación (Sandoval-García, 2008: 144).


Outro processo que reforça a busca do sentido de pertencimento é o que Suely Rolnik denomina em seu livro Cartografia Sentimental de “A crise da subjetividade”. Saturadas pelo bombardeio da mídia, no qual a constante velocidade de troca de valores leva a uma indefinição de qualquer valor, as pessoas acabam perdendo a noção de subjetividade e sentem-se perdidas em vez de livres.

[...] a capacidade operatória de semiotização das intensidades a que se estava habituado não comporta tamanha rapidez de desterritorialização, tamanha antecipação do fim, tamanha exposição à finitude. [...] Isso expõe as pessoas, repentina e violentamente, ao caráter finito ilimitado das linguagens e à ambiguidade congênita dessa simulação. (Rolnik, 2014:96).


A busca da “identidade” deve ser parte do processo de construção ou reconstrução de um território desterritorializado por uma velocidade vertiginosa imposta pela mídia. A (re)construção deste território apresenta-se – para cada um dos quatro grupos aqui investigados – de formas distintas, nas quais ora são reforçados os elementos de identidade com o meio onde estão inseridos, ora são destacadas as diferenças e características peculiares de cada grupo.

Para os nicaraguenses que vivem na Costa Rica, o esporte tem sido um elemento bastante forte de identificação, nos dois sentidos expostos acima. Inicialmente, por terem os nicaraguenses uma tradição mais forte no beisebol, isso se constituiu em mais um motivo para serem vistos como “outros”, já que a grande paixão na Costa Rica é o futebol e não o beisebol. Mas também permitiu que a Costa Rica tivesse uma equipe de beisebol (formada, basicamente, por nicaraguenses com cidadania “tica”) apta a participar de competições internacionais. Ainda hoje, as principais equipes de beisebol da Costa Rica são compostas por nicaraguenses e isso lhes garante certo status de aceitação. Quanto ao futebol, este se constitui um espaço no qual as diferenças de nacionalidade tendem a desaparecer, uma vez que, tanto “ticos” quanto “nicas” se veem irmanados pelas cores da camiseta da qual são “aficcionados”.

Mas a perspectiva anti-essencialista de que trata Sandoval-García (2008: 41) “procura conceitualizar as identidades [...] como um fenômeno tridimensional, constituído por representações, subjetividades e fatores materiais”. Como fator material, podemos citar dois espaços importantes: La Carpio, bairro de San José onde se concentra a maioria dos nicaraguenses – sobretudo os de mais baixa renda e menor escolaridade – e o Parque La Merced, em frente à igreja de mesmo nome, no centro da capital, que recebe, aos domingos, um grande contingente de nicaraguenses. Estes espaços apresentam-se, ao mesmo tempo, como segregadores, já que são muitas vezes identificados como perigosos, mas também como “reforçadores” de identidade, pois ali se encontram as comidas, o modo de falar, as notícias, os amigos e parentes que estão em viagem para a terra natal e podem levar dinheiro ou objetos para os familiares que permanecem na Nicarágua.

Em São Paulo, o espaço material onde se encontram os nordestinos é bastante disperso, mas, sem dúvida, o bairro de São Miguel Paulista, na Zona Leste, tem a maior concentração de baianos, pernambucanos, paraibanos e cearenses da capital paulista. Assim como La Carpio, em San José da Costa Rica, o bairro sofre a discriminação como região perigosa e de concentração de marginais e delinquentes. Outros espaços também são identificados como de referência à presença de nordestinos, como, por exemplo, Santo Amaro, na Zona Sul, onde se podem encontrar roupas, calçados, comidas e utensílios típicos do nordeste brasileiro. Diferentemente dos nicaraguenses, os nordestinos possuem na capital paulista um espaço cultural e artístico, o CTN (Centro de Tradições Nordestinas) que, além da culinária, presente em 12 restaurantes que funcionam de terça a domingo, situados em um pavilhão coberto, oferece também shows com bandas regionais e de renome nacional, além de trios de música nordestina da própria capital, constituídos por migrantes ou filhos de migrantes, que tocam o xote, o baião, o xaxado, ao som da sanfona, da zabumba e do triângulo. Principalmente de sexta a domingo, o Parque que tem igreja, museu, o espaço para shows, uma emissora de rádio, emissora de Webtv, lojas de artesanato, brinquedoteca e berçário recebe milhares de pessoas, em sua maioria imigrantes nordestinos, descendentes ou parentes que estão de visita e buscam vivenciar um pouco da cultura do nordeste longe de casa.

O grupo de brasileiros na Costa Rica concentra-se na Província de San José, em cidades próximas à capital. Dos que tivemos contato em nossa pesquisa, a grande maioria trabalha como professor de Português na Fundação de Cultura, Difusão e Estudos Brasileiros ou apenas Centro de Estudos Brasileiros (CEB), como é mais conhecido. Embora, aparentemente, não se perceba, neste grupo, uma necessidade de “resistência” ou (re)construção de identidade ou território, entendemos que este processo acaba acontecendo de forma natural, principalmente através do idioma, pelo fato de esses brasileiros manterem contato diário – ou, ao menos, semanal – entre si e através das notícias, novelas, leituras e constante visitação de turistas do Brasil que vêm conhecer o CEB. Além das feiras das regiões, que acontecem bimestralmente, como atividades complementares à formação dos alunos de Língua Portuguesa, dois eventos anuais, promovidos pelo CEB, também se constituem em espaços onde os hábitos, costumes, comidas, bebidas, danças e músicas próprias do Brasil são revividos pelos brasileiros e conhecidos pelos estudantes: a festa junina, que acontece sempre na última semana de junho, e o carnaval, no mês de fevereiro. Estes eventos proporcionam a experiência das duas maiores festas populares do Brasil e reúnem um grande número de brasileiros e de pessoas da Costa Rica que conhecem ou estão interessadas em conhecer o Brasil.

Temos que considerar um forte elemento econômico que facilita a “aceitação” de brasileiros na Costa Rica, qual seja a existência de diversas empresas internacionais (sobretudo norte-americanas) que têm seus parques de produção na Costa Rica e exportam para o Brasil, necessitando ter, aqui, pessoas com domínio do idioma para atendimento nos “call centers”. Isto faz com que os brasileiros sejam muito bem recebidos e tudo o que se refere à cultura brasileira desperte interesse entre os costarricenses, já que dominar o idioma e conhecer a cultura do Brasil aumenta as chances de empregabilidade, principalmente entre os adultos jovens.

Para os gaúchos que residem em São Paulo ou na região metropolitana da capital a principal estratégia de construção do sentido de pertencimento está na frequência e participação nas atividades dos CTGs (Centros de Tradição Gaúcha). Só na região da Grande São Paulo existem quatro entidades (duas no município de Embu das Artes, uma na capital e uma em Diadema. Esta última, o CTG Meu Pago, é o mais antigo Centro e Tradições Gaúchas do estado de São Paulo, com 32 anos de existência). O gaúcho, de modo geral, é conhecido por ser muito arraigado às suas tradições e até considerado “bairrista” pelos brasileiros dos outros estados. Isto tem inclusive gerado algumas piadas e brincadeiras que dizem que “onde se encontram dois ou mais gaúchos já está formado um CTG”. O certo é que existem várias destas entidades espalhadas por todo o Brasil e mesmo fora dele. São 1680 CTGs no Rio Grande do Sul, mais de 1300 no restante do Brasil e em torno de 20 em outros países.

O apego às tradições e aos costumes dos antepassados acaba por servir de antídoto à “perda de subjetividade” de que nos fala Suely Rolnik e se constitui um instrumento de construção do sentido de pertencimento, não só para os gaúchos, mas também para indivíduos pertencentes a outros grupos de migrantes que, sentindo-se desterritorializados, encontram nas práticas tradicionais nos CTGs formas de construção de uma identificação, de um “pertencer a” que, de alguma maneira, responde à pergunta: quem sou eu?


Estratégias comunicacionais e subjetividade

Ao abordarmos a relação entre estratégias comunicacionais e subjetividade, o fazemos considerando tanto os indivíduos imigrantes quanto os “nativos”. Como já apresentado acima, as práticas comunicacionais podem servir para reforçar traços da própria identidade ou para caracterizar um “outro” do qual somos ou queremos ser diferentes. E esta construção pode se dar pela afirmação ou pela negação; de forma aberta, direta, ou disfarçada; nas conversas do cotidiano ou nas representações feitas nos e pelos meios de comunicação.

Gaúchos que vivem em São Paulo e brasileiros que vivem na Costa Rica, aparentemente não sofrem discriminação e as diferenças que trazem, enquanto migrantes, são aceitas e, algumas vezes, consideradas interessantes e até passíveis de serem aprendidas e incorporadas, como as danças, as comidas e a própria linguagem. Daí o fato de os indivíduos desses dois grupos não demonstrarem grandes dificuldades de integração ao novo meio em que se inserem. Há uma tendência à aceitação deste “outro” que não se configura como “ameaçador”, mas que, ao contrário, traz contribuições para o status cultural local.

Já os nicaraguenses que vivem na Costa Rica e os nordestinos que migraram para São Paulo precisam superar uma séria de barreira, a começar pelo modo de falar, o sotaque próprio. Mas o preconceito e a discriminação não se restringem à linguagem falada. Elementos de raça, gênero, estética corporal e até afinidades esportivas constituem-se em aspectos geradores de depreciação deste “outro” migrante. Consideramos estes elementos como linguagens, já que se configuram a partir de signos que podem ser “lidos” e conjugados na construção de discursos, sejam os discriminatórios, sejam os de “resistência” ou de identificação.

No contato com os grupos estudados e a partir das respostas dadas nas entrevistas, conseguimos registrar expressões de preconceito (por parte dos “nativos”) e algumas estratégias de construção de subjetividade (por parte dos imigrantes). Em São Paulo, chamar os nordestinos todos de baianos, independentemente de qual estado eles procedam, faz alusão ao fato de que na Bahia concentra-se o maior número de afrodescendentes. É uma forma velada de dizer “negros”, ou seja, um racismo disfarçado. Também na Costa Rica encontramos registros de apelo a um personagem literário, o Cocori, como forma de referir-se aos nicaraguenses marcando sua condição de “negros” ou mestiços, diferentes dos costarricenses – sobretudo os do Vale Central – que se consideram brancos e “puros”, negando, inclusive, sua mestiçagem indígena.

Expressões como “cabeça chata”, atarracado (pessoa de baixa estatura e de pescoço grosso), são comuns ao indicar-se um nordestino, enquanto que no imaginário paulistano (como de outros estados do Brasil) o gaúcho é visto como loiro, alto, do tipo nórdico. O que não corresponde totalmente à realidade.

As estratégias utilizadas para a sobrevivência neste meio muitas vezes hostil passam por recursos diversos, que vão desde a criação de instituições até a inserção no estilo de vida, passando pela construção de espaços físicos e midiáticos nos quais o contato com seus locais de origem pode ser preservado.

Na Costa Rica, mais especificamente na capital, San José, existe a Rádio Manágua (AM 670), que traz uma programação de notícias, música e esportes voltada para o público nicaraguense. Nos domingos, um grande número de migrantes nicaraguenses se concentra no Parque La Merced, onde vendem comidas e bebidas típicas, além de terem acesso aos principais jornais da Nicarágua (La Prensa e El Nuevo Diario). Existe, também, a ASTRADOMES (Associação de Trabalhadoras Domésticas da Costa Rica) cujos noventa por cento de suas associadas são migrantes da Nicarágua.

Os avanços tecnológicos dos meios de comunicação, sobretudo no que se refere à telefonia móvel e aos aplicativos de Internet, estão entre os instrumentos mais eficazes e eficientes para a construção da subjetividade, uma vez que permitem o contato mais direto e quase que diário entre os indivíduos. As empresas de telefonia na Costa Rica oferecem promoções para que se possa falar com parentes na Nicarágua pagando o custo de uma ligação local. Nossa pesquisa revelou que a totalidade dos imigrantes nicaraguenses entrevistados mantém contato ao menos semanal com familiares e amigos, seja pelo telefone celular, seja pelo Whatsapp, e que procura estar informado sobre a situação do país através do acesso aos sites de jornais pela Internet ou pelas emissoras de TV. Quanto à linguagem esportiva, enquanto o beisebol constituiu, no princípio, um elemento discriminatório, o futebol parece ter sido um espaço de aproximação entre costarricenses e nicaraguenses. Ao vestirem a camiseta do mesmo time e somarem vozes nos estádios, as diferenças tendem a ser esquecidas e grandes amizades se iniciam, como resultado de uma estratégia de aceitação e inclusão.

A linguagem gastronômica também parece ser um espaço de construção/manutenção de subjetividade, já que podemos encontrar, principalmente no centro de San José, vários restaurantes que oferecem comida nicaraguense típica. É consenso entre os “ticos” que a culinária nicaraguense é atrativa e saborosa. Aqui mais um ponto de convergência entre as estratégias de nicaraguenses na Costa Rica e nordestinos em São Paulo. São inúmeros os restaurantes que oferecem comidas típicas dos diversos estados do nordeste e muito da culinária nordestina já foi incorporada aos hábitos dos paulistanos.

Em São Paulo, além dos bairros onde se concentram os maiores contingentes de imigrantes nordestinos e seus descendentes, temos o Centro de Tradições Nordestinas (CTN) que oferece ao público em geral comida, música, dança e artesanato típicos da região. O CTN foi fundado a partir de um programa de ajuda aos necessitados da região nordeste, realizado pela Rádio Atual. Hoje, além da rádio que tem programação voltada para o público nordestino, o CTN tem também uma Webtv e informativo impresso, com notícias e informações sobre os estados da região e também sobre a programação cultural do próprio centro. Semanalmente diversas bandas e cantores regionais se apresentam no palco deste centro de eventos. A música, sem dúvida, é a linguagem que mais fortemente divulga o jeito nordestino de ser para o restante do Brasil. Festas como o carnaval de Salvador e do Recife e o São João da Paraíba são divulgadas amplamente nos meios de comunicação de abrangência nacional e é comum verem-se artistas do Nordeste realizando shows em festas regionais, tanto em São Paulo quanto nas demais capitais.

Com relação aos brasileiros que vivem na Costa Rica, o que se pode citar como estratégia para a manutenção de subjetividade é o fato de muitos se encontrarem ligados, através do idioma, nas relações de trabalho no Centro de Estudos Brasileiros. Como já abordado anteriormente, isso lhes proporciona um contato diário – ou ao menos semanal – com hábitos, costumes, a língua e a cultura do Brasil.

Já os gaúchos que vivem em São Paulo têm nas “domingueiras”2 dos CTGs e, novamente, na culinária presente nas diversas churrascarias espalhadas pela capital paulista, dois grandes espaços para manterem contato com a cultura de origem. Também o acesso aos meios de comunicação (emissoras de TV, rádios e jornais) através da Internet aparece como forma de manter o contato com os acontecimentos, o modo de falar, as músicas e acompanhar as notícias sobre política e economia do Rio Grande, além do uso de outras tecnologias de comunicação.
Considerações finais

Como já explicitado na introdução, este trabalho reúne o registro de observações e análises iniciais do processo de pesquisa comparativa entre dois grupos de migração interna, no Brasil e dois grupos de migração estrangeira, na Costa Rica. As primeiras constatações deste estudo nos possibilitam identificar diversos elementos que se fazem presentes na realidade destes grupos, distanciados geograficamente, mas que os aproximam quanto à realidade social.

Não apresentamos aqui uma conclusão, mas apenas elementos comparativos entre as realidades estudadas, com o intuito de demonstrar que, independentemente do local e do tempo onde ocorram, os processos migratórios geram atitudes de aceitação ou repulsa manifestas em práticas e discursos muito similares.

Uma importante percepção é a de que, seja nas migrações internas, seja nas migrações de um país para outro, não é o fato de ser um “estrangeiro” o que mais conta para a aceitação ou discriminação do “outro”. Os quesitos raça, classe social, escolaridade e gênero aparecem como determinantes neste processo. Considerando-se, neste estudo, o espaço de abrangência da América Latina, entendemos que ainda somos conduzidos por uma ideia de aceitação – e porque não dizer de desejo – do masculino, branco, europeu, letrado, “civilizado”, em oposição ao que seja nativo, mestiço, feminino, exótico.

Neste contexto, o “outro” que pertença ao segundo grupo descrito acima necessita utilizar-se de estratégias para não sucumbir nem perder sua subjetividade. Estas estratégias se manifestam em diversas linguagens que parecem ser recorrentes, independentemente do lugar onde aconteçam. Isto nos leva a considerar que não importam os espaços onde se processam os acontecimentos ou as distâncias que separam os grupos; os “outros” – ameaçantes ou ameaçados – inventam caminhos para construir o sentido de pertencimento e, assim, buscam reverter a crise de subjetividade, criando espaços para o aparecimento de sujeitos. E a criação destes caminhos passa, necessariamente, pelo domínio das linguagens e pelo uso dos meios de comunicação e suas tecnologias.

Referências

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Simon, P. A diáspora do povo gaúcho (2009). Brasília: Senado Federal

1 Professor Assistente, nível B, Departamento de Letras e Artes – DLA, Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC; Doutorando em Comunicação e Semiótica, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP; xavierfolk@hotmail.com.

2 Festas que acontecem nos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), aonde os participantes geralmente vão vestidos com roupas típicas e nas quais são servidos pratos típicos da culinária gaúcha, além de contar com a animação de conjuntos musicais e danças regionais.


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