Divaldo pereira franco



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NA CASA DE SAÚDE



Pergunta: 264. “Que é o que dirige o Espírito na escolha das provas que queira sofrer?”

Resposta: “Ele escolhe, de acordo com a natureza de suas faltas, as que o levem à expiação destas e a progredir mais depressa. Uns, portanto, impõem a si mes­mos uma vida de misérias e privações, objetivando suportá-las com coragem; outros preferem experimentar as tentações da riqueza e do poder, muito mais perigosas, pelos abusos e má aplicação a que podem dar lugar, pelas paixões inferiores que uma e outro desenvolvem; muitos, finalmente, se decidem a ex­perimentar suas forças nas lutas que terão de sustentar em contato com o vício.”

“O LIVRO DOS ESPÍRITOS” — Parte 2ª — Capítulo 6º.




Após a reunião de assistência aos obsidiados, quando as opera­ções de socorro aos perseguidores atendidos chegavam a termo, graças à remoção de alguns a Hospitais especializados, em Colônias do nosso plano, enfermeiros e assistentes prestimosos prosseguiram dis­pensando necessária cooperação no templo Espírita onde ficariam em regime de hospedagem diversos outros sofredores carecentes de dire­triz e medicação próprias.

O venerável Bezerra de Menezes convocou-nos, então, destacan­do os irmaos Ângelo e Melquiades, abnegados trabalhadores desen­carnados, a fim de visitarmos Ester, como passo inicial para o labor que se desenvolveria de imediato, objetivando seu oportuno resta­belecimento.

Chegando ao pavilhão em que a jovem se encontrava, não pude sopitar o choque e a curiosidade, face à multidão que se agitava naquele Frenocômio. Desencarnados às centenas, com os fácieis mui variados, aglutinavam-se em magotes de doentes, totalmente desequi­librados, em manifesta ignorância do estado espiritual em que se demoravam; obsessores de carantonha cruel demonstravam no rosto conturbado os ódios que os desequilibravam; perturbadores zombe­teiros, assinalados pelos vícios em que se locupletavam, com máscara de cinismo indescritível; grupos de vampirizadores misturavam-se a dementes encarnados, parcialmente liberados pelo sono, em lastimá­vel estado; verdugos impiedosos, conhecedores das técnicas obsessi­vas, arrastavam suas vítimas em incríveis padecimentos, que desfale­ciam de pavor, logo despertando para defrontar os adversários frios; entidades hebetadas, simiescas umas, deformadas outras, em promis­cuidade deplorável... Desencarnados ociosos, indiferentes, enchiam os pátios, os corredores como freqüentadores de espetáculos circenses, totalmente desconhecedores do estado em que se movimentavam, pro­duzindo ambiente miasmático, que aspiravam, intoxicando-se cada vez mais e envenenando a psicosfera terrível já reinante.


Um pandemônio ensurdecedor e aparvalhante sucedia-se em cenas que variavam da bestialidade mais vil à impiedade mais selva­gemente elaborada, em cujos cenários muitos encarnados sofriam indefiníveis vilipêndios e atentados.

Dava-nos a impressão de que nenhuma compaixão ou sentimento de humanidade ali encontrava guarida. Os espetáculos da hediondez espiritual superavam tudo que a imaginação humana pode conceber. Aliás, ali se encontravam alguns dos campeões da insensatez e da perversidade, dos ases da mentira e da traição, dos hábeis dissimu­ladores que, não obstante a ausência das roupagens orgânicas, expe­rimentavam as paixões mais açuladas que os governavam em desman­dos inimagináveis.

Recebêramos antes recomendações adequadas quanto aos impo­sitivos da oração e do equilíbrio, a fim de transitarmos em faixa de diferente vibração, passando despercebidos da imensa mole de ator­mentados e atormentadores.

Percebi, então, que outros grupos de socorro freqüentavam aquele dédalo da sordidez, movimentando-se, distintos, com semblan­tes circunspectos e atenciosos. Saudavam-se, fraternalmente, discreta­mente, considerando-se as circunstâncias e finalidades dos misteres a que se entregavam. Constituíam a Providência Divina respondendo aos apelos de muitas orações, socorrendo necessidades justas, ampa­rando os que ansiavam pela terapêutica do amor, já que não faltam nunca as disponibilidades do Senhor, sempre colocadas ao alcance dos que O buscam.

O quarto em que Ester se alojava, verdadeira cela presidiária, produziu-me incontinente mal-estar. Empestada por vibrações perni­ciosas, densas, escuras, pareciam fluído condensado, oleoso, que causava insuportável indisposição psíquica, generalizando-se em sen­sação de náuseas contínuas.

O dirigente da equipe, profundo conhecedor daqueles sítios, sugeriu-nos mais intenso controle da emotividade e imperiosa dispo­sição para a caridade, com que superaríamos as incômodas impressões, sintonizando em faixa mais sutil, de que nos alimentaríamos segu­ramente.

A jovem subjugada em espírito jazia ao lado do corpo, em quase total inconsciência, sob os efeitos de sedativo pernicioso e forte. Junto a ela, em processo de imantação perispiritual, vigiava o algoz desencarnado.

Nos três outros catres infectos que infestavam o exíguo A parla­mento, a tresandar odores insuportáveis, se encontravam duas jovens e uma senhora de meia-idade, estigmatizadas por diversas alienações que as diferenciavam entre si.

Quase todas se encontravam parcialmente fora do corpo, incons­cientes, exceção feita à dama perturbada, que altercava com um perseguidor imaginário, fruto de longo processo ideoplástico.

Outras Entidades desequilibradas se imiscuíam nas sombras e na imundície do quarto abafado, algumas das quais, entorpecidas, pareciam hibernadas em longo processo sonoterápico, mantendo-se alimentadas pelas emanações mefíticas abundantes dos pacientes, suas presas inermes.

Com a autoridade e sabedoria que lhe são peculiares, o “Apóstolo da caridade” exorou a proteção divina em comovedora oração, quando do seu tórax, a pouco e pouco iluminado que se transformou num sol engastado no peito, surgiram fulgurações carregadas de superior energia incidindo sobre os Espíritos levianos, produzindo-lhes cho­ques, que os despertavam, expulsando-os quase todos e fazendo, por fim, que se modificasse a paisagem fluídica reinante.

Ao terminar, recomendou que os Irmãos Ângelo e Melquíades socorressem as duas jovens e apontou-nos a senhora atribulada para assistência de minha parte, recomendando condensasse as forças fluídicas até lograr ser por ela percebido.

Vendo-me, repentinamente, a dama exclamou, emocionada:

— Mensageiro Divino, salvai-me deste cruel perseguidor! Sou criminosa, reconheço, todavia, venho pagando a longo prazo o com­promisso infeliz da leviandade. Socorrei-me, por Deus!

As lágrimas abundantes, a face dorida e a voz amargurada infundiam compaixão.

Teleguiado pela poderosa mente do Diretor Espiritual, acerquei-me e roguei-lhe descansasse em sono reparador de que tinha imediata necessidade.

Aplicando-lhe conveniente recurso fluídico, sem maior resistên­cia descontraíram-se as forças psíquicas concentradas pelo pavor e ela adormeceu.

Auscultando as exteriorizações mentais da Senhora atormentada, em espírito, ora ressonando, o abnegado Instrutor esclareceu:

— Esta nossa irmã está catalogada como esquizofrênica irre­versível, demorando-se na fase da hebefrenia de largo porte, em diagnose apropriada. Fixadas as matrizes da distonia mental, nas sedes perispirituais, o mecanismo cerebral correspondente à área da razão e da personalidade, apresenta sombras características que preexistem desde a vida anterior, quando supunha poder burlar as Leis, entregando-se aos desvarios e alucinações complexos. Em ver dade, manteve-se inatacável no conceito do mundo, entretanto, não conseguiu fugir a si mesma, às lembranças da consciência em des­pertamento, lesando os centros correspondentes da lucidez e do equi­líbrio, que produziram nas sedes sutis plasmadoras do “campo da forma” os desajustes que ora a lancinam.

Fazendo significativa pausa, na qual aplicou passes cuidadosos, longitudinais, a iniciar-se do centro coronário, qual se o desatrelasse de forças densas, em baixo teor magnético, percebemos, a pouco e pouco, que o complexo núcleo se clarificava, irrigando com opalina tonalidade o centro cerebral, igualmente envolto em sombrias cargas fluídicas, onde imagens vigorosas e fixas nas telas da memória se diluíam, sem que, contudo, se desfizessem totalmente.

A energia vitalizadora que era infundida na enferma passou a percorrer-lhe os vários centros de fixação físico-espiritual. E como recebendo ignota carga magnética, revigorante e anestésica simulta­neamente, esta proporcionava à organização física melhor funciona­mento com mais eficaz intercâmbio metabólico, de que se beneficiava o cérebro todo transformado, agora, em um corpo multicolorido, no qual miríades de grânulos infinitesimais ou fascículos luminosos se movimentavam, penetrando neurônios e os ligando, quais impulsos de eletricidade especial enviando ordens restauradoras e mantene­doras da harmonia vibratória indispensável ao tônus do reequilíbrio.

Percebemos que a respiração da doente se fez mais tranqüila, os músculos tensos por todo o corpo relaxaram, com admiráveis resultados no aparelho digestivo, particularmente desgovernado.

Concluída a operação complexa e tecnicamente realizada, o irmão Bezerra de Menezes elucidou-nos:

- Toda enfermidade, resguardada em qualquer nomenclatura, sempre resulta das conquistas negativas do passado espiritual de cada um. Estando o “campo estruturador”, conforme nominam os moder­nos pesquisadores parapsicológicos ao perispírito, sob o bombardeio de energias deletérias, é óbvio que as idéias, plasmando as futuras formas para o Espírito, criam as condições para que se manifestem as doenças...

“Tomemos por exemplo nossa irmã Eudóxia, no momento, sob nossa observação.”

“Amanhã apresentará sinais de significativa melhora na saúde, embora as causas preponderantes da sua alienação nela mesma se encontrem. Numa forma de autocídio indireto, através do qual pre­tende eximir-se à responsabilidade, auto-suplicia-se, mergulhando no desconcerto da loucura.”

Observando-a mais detidamente, continuou:

— Na metade do século passado, encontramo-la senhora de terras, em próspera cidade do Império, no solo fluminense... Con­sorciada com homem probo, de sentimentos elevados, caracterizava-se pelo temperamento irascível, insuportável. Cansado da esposa rebelde e malsinante, o companheiro propôs-lhe separação honrosa... Acre­ditando-se, porém, substituída — e de imediato transferiu para hu­milde serva a suposta preferência do marido — silenciou, planejando, então, hediondo homicídio que culminou calma, calculadamente, com segurança. Envenenou o esposo indefeso nas suas mãos, que de nada suspeitava e, passado algum tempo, repetiu a façanha com a servidora que tudo ignorava...

“Dama altiva e destacada, seus dois crimes não foram sequer suspeitados, ninguém tomou deles conhecimento. Ela, porém, os sabia... A punição maior para o culpado é a presença da culpa, insculpida na consciência. A princípio, quando as forças orgânicas estão em plenitude, ela dorme.

À medida que se afrouxam os liames das potências da vida vegetativa, ressumam as evocações e se trans­formam em complexo culposo, monoideísmo infeliz que mais grava o delito e agrava a responsabilidade...

“Surpreendida pela desencarnação, transferiu para o Além os dramas ocultos. Embora perdoada pelo esposo-vítima, que se encon­trava em melhor condição espiritual do que ela, tornou-se perseguida pela serva, que a seviciou demoradamente em região de compacta sombra espiritual.

“Trazida à reencarnação, os fortes açoites do remorso, as impres­sões vigorosas da expiação junto à vítima, a intranqüilidade lesaram os centros da consciência, do que resultou a enfermidade que ora padece...

Depois de breve silêncio, concluiu:

— Os núcleos desarticulados no perispírito produziram as con­dições físicas do encéfalo, que se desconectaram quando completou trinta anos, idade em que se deixara assediar pela fúria do desequi­líbrio, embora as distonias graves que a perturbavam desde a ado­lescência.

“Apesar de a maior incidência de hebefrenia ocorrer na puber­dade, conforme foi analisada e descrita em 1871, sendo posterior-mente incluída por Kraepelin como uma das “demências precoces”, esta surge como se agrava em qualquer idade... (*)

“A enfermidade que afeta a área da personalidade, produzindo deteriorização, gera estados antípodas de comportamento em calma e fúria, modificação do humor, jocosidade, com tendências, às vezes, para o crime, é o resultado natural do abuso e desrespeito ao amor,

à vida, ao próximo.

“Purgará, ainda um pouco, até que a desencarnação lhe tome de volta as vestes, a fim de recomeçar noutra condição o que espon­tânea e levianamente adiou...

Estávamos edificados e surpresos.

Constatávamos ali a procedência da Divina Justiça e poderíamos distinguir que, na etiologia das enfermidades mentais, muitos fatores estudados pela moderna Psiquiatria são legítimos, faltando a essa nobre Ciência um maior contato com as “questões do Espírito”, do que hauriria suficiente luz para incluir a obsessão como uma das causas das alienações mentais, penetrando nas realidades da Alma encarnada e melhor desintrincando os variados processos que sempre se originam no ser espiritual, ao longo da sua jornada evolutiva.


(*) Quem primeiro definiu a Hebelrenia foi Kahlbaum (KarI Ludwig), em 1863, como sendo uma alienação mental que surge precocemente na puberdade e se caracteriza por uma cessação das aquisições intelectuais, conduzindo o paciente para a demência total, incurável. - Nota do Autor espiritual.

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