Divaldo pereira franco



Baixar 0.71 Mb.
Página15/25
Encontro18.07.2016
Tamanho0.71 Mb.
1   ...   11   12   13   14   15   16   17   18   ...   25

NOVAS DIRETRIZES

Para preservá-lo das enfermidades, fortifica-se o corpo; para garanti­la contra a obsessão, tem-se que fortalecer a alma; donde, para o obsidiado, a necessidade de trabalhar por se melhorar a si próprio, o que as mais das vezes basta para livrá-lo do obsessor, sem o socorro de terceiros. Necessário se torna este socorro, quando a obsessão degenera em subjugação e em possessão, por­que nesse caso o paciente não raro perde a vontade e o livre arbítrio.”

A GÊNESE” — Capítulo 14º — Item 46.
Graças à orientação salutar do Cel. Epaminondas Sobreira, atra­vés de oportunos esclarecimentos e leituras bem sugeridas, amplia­vam-se os horizontes do matrimônio Santamaria, que descobria na Codificação Kardequiana uma fonte inexaurível de iluminação e con­forto espiritual. A instâncias do amigo dedicado, o pai de Ester aquies­ceu abrir a mente ao estudo sistemático do Espiritismo, inaugurando o Culto do Evangelho no Lar, como passo inicial para novos cometi­mentos, face à decisão de utilizar a terapêutica espírita, no doloroso processo em que se debatia a enferma querida.

Desse modo, acertou-se a programação adequada que consistiria no encontro semanal, em dia e hora adrede marcados para comentários edificantes em família à luz libertadora dos ensinos de Jesus. D. Mar­garida, a seu turno, desde o momento em que recebera os esclareci­mentos dos Sobreiras, passou a registrar no íntimo ignotas emoções. Da angústia e perplexidade em que se debatia semivencida, passou a singular estado de esperança e otimismo, qual se o espírito dorido antecipasse, precognitivamente, alegrias a que já se desacostumara. Motivada pelas palestras relevantes e face à inauguração do programa evangélico, na intimidade doméstica, deu aspecto festivo ao lar, des­de há muito mergulhado em sombras de funesta aflição. Providenciou vasos guardados e arranjos florais, removendo armários em busca de valiosa toalha bordada com que adornou a mesa da sala de re­feições, reaberta especialmente para a ocasião, sem ocultar a expectativa ditosa.

Graças ao novo estado da alma, hauria energias vitalizadoras que lhe dispensava o seu Espírito-Guia, igualmente felicitado pelas perspectivas em delineamento na família.

Às 19:30 horas chegaram os Sobreiras, que se faziam acompa­nhar do Tenente-Coronel Joel e mais três amigos, que apresentaram, bondosamente, aos gentis anfitriões.

— Rogo desculpas — apressou-se, justificando-se, o Coronel Epaminondas — por haver ampliado o convite para o encontro desta noite, a queridos confrades do nosso círculo de fé, do “Francisco de Assis”, igualmente interessados na recuperação de Ester.

— Não há por que apresentar explicações — assentiu, cortês, o Cel. Santamaria — uma vez que esta casa é perfeita continuação do seu lar, que hoje se honra em receber tão gratas personagens.

— Apresento-lhe, caro Constâncio — prosseguiu o visitante —o dr. e senhora Gilvan de Albuquerque, abnegado médico, residente em Botafogo, bem assim a sua tutelada Rosângela, que é auxiliar de Enfermagem, no Sanatório da Praia Vermelha...

O anfitrião não pôde ocultar a surpresa, defrontando Rosângela. Pela mente reviveu a cena desagradável em que fora protagonista infeliz, quando a jovem o buscara com manifesta simpatia pela filha. Parecia que os Céus apresentavam-lhe ensejo ditoso de reparar o pro­cedimento a que se deixara conduzir pela animosidade gratuita que mantinha em relação ao Espiritismo.

Demonstrando satisfação ante a chegada de novos amigos, elu­cidou, sincero:

— Hoje o Senhor penetra realmente no meu lar, porqüanto me confere o ensejo de desculpar-me com a senhorita pela indelica­deza e incivilidade com que a tratei noutra oportunidade, aqui mes­mo... Sua religião, de fato, é pauta de nobre conduta, promoven­do-a ao perdão espontâneo, conforme o atesta, retornando a esta casa que, doravante, é também sua.

A voz traía-lhe a emoção.

— Sou eu quem vos roga perdão, senhor Coronel — acudiu a jovem embaraçada — pela forma como agi, extemporânea, desa­jeitadamente.

Apertaram-se as mãos, fraternalmente, enquanto dona Marga­rida os convidava a todos adentrarem-se, tomando assentos confor­táveis para a conversação.

A palestra generalizou-se, cordial e franca, agradável e edifi­cante sobre assuntos vários e rápidos.

Às 20:00, delicadamente, o Cel. Sobreira solícitou per­missão para dar início ao labor a que se propunha, sendo convidado bem como os demais pelo dono da casa, à sala de refeições onde tomaram lugar.

O prestimoso amigo trouxera consigo um exemplar de “O Evan­gelho Segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec, cujo volume deixava perceber as iniludíveis marcas do demorado e contínuo uso, pelo trabalhador fiel do Cristo que nele mergulhava o pensamento em constantes e emocionadas reflexões luminíferas.

Convidado à oração, o médium Joel, visivelmente emocionado, exorou as bênçãos divinas para o grupo e em particular para aquele lar, incluindo a alienada distante, cujo nome, enunciado com cari­nho, produziu impacto forte nos genitores ora contritos. A emoção generalizada e sob controle de cada um traduzia as intenções supe­riores que a todos sustentavam, no empreendimento cristão em co­meço.

O ambiente, a pouco e pouco, semelhando-se às primitivas cé­lulas cristãs, impregnou-se de vibrações saturadas de paz que pene­trava almas e corações, irmanando-os todos em fortes vínculos de afeto espiritual.

No silêncio natural que se fez, o diretor abriu “O Evangelho”, conduzido pela intangível mão do Mentor Espiritual do grupo e leu com bem modulada voz, do Capítulo número 11º, “Amar o próximo como a si mesmo”, as oportunas páginas de Emmanuel e Pascal inti­tuladas: “O egoísmo”.

Concluída a leitura e seguramente inspirado, o Coronel Epami­nondas considerou:

— De relevante oportunidade a lição a que fomos guiado, neste momento, porqüanto o egoísmo é a causa matriz de incontáveis de­sastres morais e sofrimentos que irrompem por toda parte.

“Compreendessem os homens a própria fraqueza e limitação, portanto, a necessidade de se ajudarem mutuamente, e diversas se­riam as paisagens espirituais da Terra... Graças à formação social deficiente e à educação moral mal dirigida, cultivam-se os sentimen­tos perniciosos em detrimento dos superiores impulsos da vida no­bre. Açulam-se paixões nos jogos competitivos, nos quais, nem sem­pre, o valor recebe o prêmio de melhor, derrapando-se em sucessivos lances de audácia que se transfere da infância à juventude, à madu­rez, à velhice sob as constritoras molas da avareza vitalizada pelos instintos inferiores predominantes.

“Os pais, de cedo, pensam no triunfo dos filhos, envenenando-os com os tóxicos da egolatria, esquecidos de os preparar convenien­temente para a vida. Vêem na progenitura os futuros herdeiros da Terra, os triunfadores, nem sempre se preocupando com os métodos com que triunfem ou armando-os moralmente para viver com decên­cia em qualquer circunstância, portanto, mais importante, do que dominarem sem os recursos mínimos exigíveis para o autodomínio.

Reflexionou por um pouco e prosseguiu:

— Pequeninos títeres, atravessam a infância sem a competente disciplina, desculpados nos erros e gravames em que se estribam, desenvolvendo aptidões negativas e negligenciados na cultura dos valiosos tesouros morais e espirituais com que se alçariam às tarefas e funções retificadoras para as quais reencarnaram. O egoísmo neles se avulta, incorporando-se à personalidade como câncer cruel em me­tástase devoradora. Surge e reaparece em diversas expressões, agigan­tando-se em terríveis flagícios individuais e coletivos de que padece hoje toda a Humanidade...

“Ira, ciúme, inveja, rebeldia, usura, concupiscência, ódio; são algumas das reações desse adversário implacável que vige em todos nos. Vítimados mais de uma vez pela sua insidiosa dominação, re­nascemos para vencê-lo e quase sempre repetimos os mesmos enga­nos, caindo-lhe nas malhas bem urdidas com que nos surpreende.

“Cultivássemos a fraternidade desinteressada de paixões, exer­citássemos o amor, conforme nos ensinou Jesus e bem diversa seria a nossa posição no planeta.”

Teleguiado pela mente superior que o inspirava, o palestrante fez uma pausa e logo deu curso à edificante lição:

— Lamentavelmente não cessam na Terra as implicações do egoísmo. Imanado às aspirações do Espírito, prossegue em comando além das fronteiras de cinzas do túmulo, em atitude de rebeldia, quando o Desencarnado surpreende o fracasso, entregando-se a ne­fasta posição mental, de que só a dolorosos penates consegue liber­tar-se. Surgem inditosas injunções conscienciais, padecimentos insu­portáveis e resoluções extremas que o desgastam e desgraçam.

“Obsessões de longo curso têm lugar, em processos nefandos de perseguições improcedentes, porque se sentem tais Espíritos mes­quinhos, depreciados, usurpados em direitos que, verdadeiramente, não lhes pertencem, como traídos, transferindo para os outros res­ponsabilidades que lhes competiam desenvolver e não souberam ou quiseram assumir... A seu turno, os que lhes padecem as vergasta­das, ao invés de se elevarem pela oração e paciência, sintonizam, atraVés de reações eloqüentes, em que o ódio, a insensatez e o de­sespero pelas vaidades feridas, se dão as mãos, conjugando forças para as batalhas contínuas da desdita. - E enquanto o amor não luariza os litigantes, portadores ou não de razões, desde que a ver­dadeira razão pertence a Nosso Pai, o conúbio obsessivo prossegue indefinidamente. Não é o que vemos a cada passo? Todos nos julgamos vítimas uns dos outros. Ninguém deseja disputar a honra de servir e desculpar, antes nos esforçamos por ser ou parecer pior, mais poderoso na arte de esgrimir e sustentar as posições mentais e morais inferiores.

“Ao clarão, porém, do Cristo, — que jamais se escusava; não repelia aquele que O buscava, fosse quem fosse: socorria assim a mulher adúltera, como o criminoso, a todos concedendo oportuni­dade para reabilitar-se — modificar-se-ão as contingências e situa­ções, surgindo a antemanhã do Mundo Melhor que todos anelamos.

“Não descuremos, pois, de combater, com todas as forças, esse verdugo de nossa paz e felicidade, que é o feroz egoísmo.

“Se alguém nos fere — a Lei nos faz justiça; se nos perseguem ou prejudicam, se há dor ou necessidade, não nos consideremos in­felizes, inocentes supliciados... Talvez soframos em um setor ou atividade em que não possuímos débitos, devendo, porém, na conta­bilidade Divina, onerosos estipêndios morais que nos chegam em abençoadas ensanchas para resgatar. Alegremo-nos e desincumbâ-mo­-nos dos fardos afligentes, pensando nos a quem prejudicamos e aju­dando-nos, senão com outros valores, através das nossas ações rele­vantes, da humildade, da paciência e da resignação, que constituem eficientes antídotos ao egoísmo.

“Jesus fará por nós o que nos não seja possível realizar.”

Quando silenciou todos estavam imersos em compreensíveis meditações.

Instados bondosamente pelo dirigente, os membros do Círculo de oração trouxeram apontamentos valiosos, generalizando-se os edi­ficantes comentários propiciadores de valiosas anotações e convivên­cia benéfica para todos.

Por fim, o anfitrião, algo canhestramente, opinou a respeito do tema em discussão, apresentando expressivas informações:

— Cultor do egoísmo, tenho sido vítima de mim mesmo, es­tribado em orgulhos vãos, que agora sou compelido a examinar para um inadiável processo de expurgo, a mim próprio benéfico..

“Em relação mesmo à Revelação Espírita ou à problemática que nos envolve com a enfermidade da filha, padecendo de amor-próprio ferido, jamais duvidei de Deus... Acostumado, porém, a supor-me merecimentos inexistentes, reagia contra Ele, revoltado. Po­bre verme que sou! Percebo, então, que o egoísmo se veste de ilusão para melhor apropriar-se de a quem domina.

“Esclarecido sobre os valores espirituais, não obstante seja imensa a minha ignorância no assunto, vislumbro já algumas lu­zes.

Tinha flébil a voz.

Os olhos de dona Margarida, nublados, traíam a emoção da­quela hora, ante a confissão do esposo.

Ele continuou:

— Sentimentos desencontrados me hão atormentado em rela­ção à filha. Identifico que a grande mágoa de que padeço não étão-somente de sofrimento por Ester, mas autocomiseração, decepção pela vida que me surpreendeu de forma amarga, que eu considerava até aqui injusta. Amor e raiva, piedade e revolta alternavam-se em meu espírito sob fardo insuportável... Agora começo a ver melhor.

injunções pretéritas nos amarram uns aos outros, obrigando-rios a arrebentar as algemas do egoísmo.

“Esperava, em razão dos esclarecimentos do Sobreira, a prová­vel cura ou melhora de Ester, sem maiores comprometimentos de minha parte. Era o método simplista e astucioso do cômodo egoísmo que eu cultivo.

“Melhor razão me conscientiza, à medida que leio e medito. Sem dúvida, que aspiro à saúde, à paz da filha, no entanto, reconheço que sou mais doente do que ela, que só padece da mente, enquanto eu estou sobrecarregado no espírito com as mazelas que causam aqueles e outros distúrbios insidiosos quão prejudiciais.. À semelhança do cego de Jericó: agora vejo!”.

Tinha os olhos úmidos. Por fim, solicitei:

— Que nos perdoe o Senhor: a minha mulher e a mim, que temos marchado em círculos de agonia, e nos desculpem os amigos a insipiência e ignorância, ajudando-nos com a sua amizade e com­preensão fraternal.

Dona Margarida levantou-se e abraçou o esposo, osculando-lhe a testa. O gesto espontâneo, comovido, produziu imenso bem-estar no consorte sofrido, longamente estremunhado.

Dando curso ao ministério evangélico, o diretor procedeu às rogativas intercessórias e vibrações, pedindo a Joel aplicasse passes em todos, após o que encerrou a reunião.

Transcorrera apenas uma hora, em cujo período se abriam as portas de mais um lar à comunhão com o Mundo Espiritual, em plena integração com os ditames evangélicos.

A conversação jovial teve curso, enquanto a anfitrioa servia, agradecida, alguns doces e refrescos.

Logo depois, despediram-se os visitantes, deixando o lar imerso em psicosfera diferente da habitual. Cristo fora convidado a voltar àquela família.



15
1   ...   11   12   13   14   15   16   17   18   ...   25


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal