Divaldo pereira franco



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REENCONTRO NA ESFERA DOS SONHOS



Pergunta: 401. “Durante o sono, a alma repousa como o corpo?”

Resposta: “Não, o Espírito jamais está inativo. Durante o sono, afrouxam-se os laços que o prendem ao corpo e, não precisando este então da sua presença, ele se lança pelo espaço e entra em relação mais direta com os outros Espíritos.”

O LIVRO DOS ESPÍRITOS” — Parte 2ª — Capítulo 8º.

Decisivamente, dava-se curso à técnica fluídoterápica a benefício de Ester, desde que a família, revinculando-se pelos liames espirituais, mediante a valiosa contribuição da prece em conjunto, ensejava re­levantes recursos que poderiam ser aplicados, não apenas em favor da paciente, mas, também, da Entidade que a mortificava, e sofria, a seu turno.

Estabelecida a ambiência psíquica favorável, após inaugurado o estudo evangélico na residência do Coronel Santamaria, produziu-se conveniente assepsia mental no recinto, impondo aos hóspedes invi­síveis e perniciosos compreensível mal-estar que os obrigava a tras­ladar-se.

Naquela mesma noite, graças aos fluídos que imantavam de agra­dável emotividade os cônjuges e lhes renovavam a psicosfera, quando o sono lhes facultou mais amplas possibilidades para o desdobramen­to parcial e mais acurada lucidez, prontamente retornamos, sob a direção do Espírito Bezerra de Menezes, que, conhecedor das necessidades e recursos a aplicar nos genitores de Ester, deslindou-os quanto indispensável da densa faixa das impressões físicas, mantendo com ambos precioso diálogo, com que os elucidou sobre as tarefas e responsabilidades em começo.

- Encontramo-nos — referiu-se o Benfeitor, dirigindo-se aos surpresos encarnados — no pórtico de graves e superiores cometi­mentos. Justo referirmo-nos a responsabilidades e deveres novos. To­da realização exige programa, caso se desejem colimar resultados compensadores.

Embora o nosso esforço se volte para a problemática de Ester-enferma, todos nós devemos penetrar de compreensão e dis­cernimento, porqüanto as matrizes da perturbação em que se vê envolvida, se lhe encontram sediadas no perispírito, em razão de expe­riências reencarnatórias infelizes do passado. Nesse sentido, os pais atuais se situam como partícipes de ontem, de certo modo culpados pelo drama que ora a martiriza. Em toda conjuntura dolorosa há, impostergável, a presença de dívidas... Recorreremos à proteção di­vina, no entanto, não nos é lícito aguardar milagre, que tal não existe, nem tampouco regime de exceção, que significaria privilégio, que reconhecemos não merecer. “O milagre resulta do trabalho salu­tar, adredemente realizado que funciona a tempo próprio e justo.”

Interrompeu as considerações como se aguardasse mais amplo entendimento dos ouvintes atentos. Estes revelavam surpresa e ansie­dade, traduzindo, ao mesmo tempo, imensa alegria interior e grande expectativa.

Prosseguindo, aclarou mais:

- Planejamos levá-los a visitar Ester, na cela expurgatória em que se encontra... Antes, porém, precisamos reforçar as reservas de ânimo, porqüanto, qualquer desequilíbrio emocional, além de per­turbá-la, poderá produzir prejuízos inesperados à caravana visitadora que nos conduzirá. Assim, compete-lhes considerar não apenas a fi­lha-vítima, mas, também, o algoz-vítimado, sequioso de proteção e socorro, necessitado do amor de todos nós... Convém reconheçamos que a nossa tarefa de caridade tem em mira não somente aqueles que sofrem, mas, também, os que produzem o sofrimento...

“A dor é bênção, bem o sabemos, caminho de ascensão espiri­tual, porta de serviço por cuja soleira transitamos na direção dos rumos mais expressivos e relevantes... Ajudar é realização de auto-socorro com que nos despojamos das mazelas antigas e dos gravames próximos...

“Defendidos pela força da prece, de que nos revestiremos, cabe-nos preservar um clima especial da mente em vigilância, a fim de que as contingências do serviço não nos surpreendam em descon­certo ou desequilíbrio.

“Renovemos a esperança e, diligentes, disponhamo-nos à edifi­cação do bem, em toda parte como em nós mesmos.

“Naturalmente, nossa jovem, graças à perturbação de longo curso em que se vê envolvida, não nos perceberá a presença de ime­diato. Com os centros da lucidez psíquica, demoradamente excitados pelos fluídos degeneradores, requisitará tempo para a imprescindível Iecomposição das faculdades pensantes.

“A nossa primeira tentativa de intercâmbio objetivará ministé­rios outros, do que decorrerão incursões mais profundas e benéficas, de futuro...»

Para nós outros, já acostumados a empreendimentos desta or­dem, eram-nos claras e precisas as recomendações. Todavia, para os pais de Ester somente parcelas das elucidações ficavam gravadas. Outrossim, no seu deslocamento do elegante apartamento para o afli­tivo Manicômio, os dois permaneceram sem maior percepção, por absoluta falta de experiência em realização de tal monta, bem como por falta dos recursos que se faziam próprios para mais amplos ten­tames nesse tempo.

Tomadas as providências para a incursão, foram aplicadas ener­gias especiais no casal Santamaria, que somente recobrou a visão e a consciência quando nos encontrávamos no quarto das pacientes ator­mentadas.

Antes, haviam sido destacados pelo Benfeitor dois dedicados enfermeiros que tinham a tarefa de afastar da cela hospitalar os Espíritos frívolos, não vinculados ao quadro reparador da alienada, trabalhando, no recinto, de modo a torná-lo condigno ao mister em pauta. Não obstante a medida acautelatória, o local transudava mias­mas, e substância pastosa, perniciosa ali se demorava, como resul­tante do vampirismo reinante em processo dominador.

Providenciados recursos defensivos para o quarto, impedindo a invasão da pequena área pelos comensais do desespero, e coloca­dos os visitantes próximos à filha que dormia, inquieta, o Diretor Espiritual perorou comovida súplica que a todos nos permeou de vibrações renovadoras. O ambiente sombrio a pouco e pouco se foi clarificando com diáfana luz, que parecia possuir desconhecidas po­tencialidades de desagregação das moléculas pestilenciais que impreg­navam a atmosfera interna.

Acercando-se da obsidiada e aplicando-lhe vigorosos passes de dispersão fluídica, o Benfeitor desprendeu a Entidade perturbadora, que, por sua vez, era teledirigida por outras mentes situadas distan­tes do Hospital.

O Espírito perseguidor, ignorante e iracundo, viu-se contido e impossibilitado de maior reação pelos envoltórios magnéticos que o detinham, como conseqüência dos recursos de que se utilizava o Ins­trutor. No entanto, colhido pela surpresa, blasfemava, hórrido e ator­mentado, proferindo ameaças, com que pretendia exterminar a doen­te, desforçando-se do genitor da mesma.

Sem permitir-se piedade injustificada ou impaciência negativa, o diligente Bezerra deu prosseguimento, inalterável, ao ministério, objetivando desdobrar Ester para o encontro com os pais, na esfera espiritual, em cujo ensejo lhe seria aplicada terapêutica especial de esclarecimento, que constituiria o passo significativo para os em­preendimentos porvindouros.

Atuando nos centros cerebral e coronário, donde emanavam fluídos dissolventes ali condensados e vitalizados desde o início da agressão obsessiva, Ester-espírito deslocou-se do corpo somático, per­feito símile deste, no qual se notavam as mesmas debilidades do ou­tro: aparência maltratada, vestes andrajosas, descuidadas, desgaste... Não dispondo a jovem do mecanismo mental que aciona a conformação do corpo perispiritual em face ao desequilíbrio, que a vítimava, este retratava os condicionamentos da organização física a que se imantava, absorvendo-lhe as imposições determinantes. Fe­nômeno consentâneo ocorre quando o Espírito, acostumado às cons­truções superiores da Vida, não obstante reencarnado em uma forma grotesca ou desgastada pelo sofrimento, ao desprender-se, assume aparência harmoniosa e luminífera, por ser o soma dirigido pela men­te que extrai do psicossoma os progressos, as conquistas morais que nele imprimem as linhas de equilíbrio, beleza e fluidez.

Desperta do sono provocado, Ester-espírito se deu conta da pre­sença dos progenitores, atirando-se ao regaço maternal, que a acolheu carinhosamente. Lágrimas espontâneas, incontroláveis, expressavam a alegria daquele momento. O Coronel, ansioso, envolveu a esposa e a filha num só amplexo de ternura e saudade, demoradamente con­tidas, deixando extravasar os sentimentos de dor e de amor desde há muito represados.

— É um sonho, mamãe! — Exclamou a jovem, parcialmente lúcida, cansada. — Ë um sonho celeste, papai! Meu Deus, meu Deus, não me permita acordar jamais!..

D. Margarida, por ser dotada de maior sensibilidade do que o esposo, passou a receber o poderoso influxo mental de Bezerra de Menezes, que, num abençoado processo telepático vigoroso, a indu­ziu aos esclarecimentos de que a filha tinha necessidade.

- Sim, filhinha — registrou e transmitiu a matrona, comovi­da, — este é um sonho ditoso, no curso do pesadelo demorado. Sonho, porém, que se transformará, em breve, numa realidade feliz, após expungirmos nossos erros e repararmos nossos compromissos. Despertaremos logo mais, todavia, ficará em nossa lembrança a re­cordação, embora tênue, deste instante, a refrigerar-nos a ardência do desespero e acenar-nos com a coragem em relação ao futuro.

Fez um breve silêncio, como se estivesse refletindo nas palavras que lhe fluíam dos lábios sem qualquer esforço da consciência. Mimetisada pela alegria da promessa futura de saúde e paz da filha querida, estuando confiança, prosseguiu, conduzida, mentalmente:

— Todos temos sofrido. Envelhecemos, seu pai e eu, à distância da sua cela e junto à sua amargura. Esmaeceram nossas alegrias, apagou-se nosso sorriso e nos encontrávamos há pouco à borda de iminente desgraça... No entanto, no momento mais crucial dos nos­sos destinos, Jesus nos convocou a uma vida nova, cuja aduana co­meçamos a perlustrar, na expectativa e direção do futuro. O orgulho que nos cegava, o egoísmo que nos consumia, o desgosto que nos envenenava cederam lugar à humildade que liberta, à esperança que anima e à alegria que canta bênçãos em nossas almas, ora em reco­lhimento para meditação e prece. Apenas começamos a amar e já o amor de Nosso Pai nos inunda de santas concessões.

“Certamente, deveremos sorver, ainda, o fel do fundo da taça, sedimentado pelo tempo, tóxico e desagradável... Recolheremos forças no Senhor, que nos ajudará a secar o nascedouro da amargura, facultando-nos estancar as lágrimas e lenir as úlceras de quem agora constituí a razão do nosso perecimento, da nossa dor. .

— Por que sofro tanto, mamãe, sem consolo, desvairada? —interrompeu-a Ester. — Que fiz para ter sido arrancada do lar, qual criminosa desalmada, atirada sem piedade nesta masmorra odienta? Não suporto mais!

Havia uma dor quase selvagem, desagregadora, na interrogação da jovem, O corpo banhava-se pela transpiração pegajosa, fria, e grossas lágrimas lhe escorriam dos olhos pela face imunda, edema­dada, desvitalizada. Simultaneamente, em espírito, qual criança ani­nhada no seio materno, tremia e chorava, pálida, angustiada, ansiosa.

Dona Margarida compreendeu a extensão do sofrimento da filha e sentiu-se enfraquecer. Nesse instante o Instrutor vigilante envolveu-a com energias revigorantes e vitalizou-a com pensamentos e emoções superiores. A sensível senhora recompôs-se mentalmente e respondeu, com tranqüilidade confiante:

— Tudo que nos acontece procede de nós mesmos. Somos os agentes próximos ou remotos dos sucessos felizes ou desditosos que nos surpreendem. Porque não saibamos a razão da ocorrência infeliz, isto não implica na sua inexistência. O que ora desconhecemos, logo mais se configura ao nosso esclarecimento. Sabendo esperar, conse­guiremos tudo esclarecer. Indispensável, neste momento, nos cons­cientizarmos de que nos Estatutos Divinos a injustiça não tem lugar. Tudo ocorre como reação natural das ações que praticamos. No imo de cada vítima vige um causador de danos, encontra-se um defrau­dador da ordem, do equilíbrio, violador do amor... Não nos preo­cupemos, portanto, por agora, com os porquês, antes pensemos no como proceder de modo a nos liberarmos da conjuntura aflitiva, rea­bilitando-nos perante a Consciência Divina, O essencial, portanto, é confiar em Deus.

Ester-espírito, impregnada pelas palavras lenificadoras e pelos fluídos renovadores que a genitora lhe transmitia ao recebê-los do Instrutor, e também decorrentes do entranhado amor materno, mais calma, gemeu:

— Tenho sono, mamãe, estou cansada!

— Repouse, filhinha — sussurrou a senhora, quase num acalan­to, — Jesus a abençoará com o repouso. Confie em Deus e espere!

Ainda dirigida pela força mental do Benfeitor, repetiu:

— Tudo está bem! Não se desespere! Tenha paciência! Sere­mos felizes.

A jovem, em espírito, adormecida, foi carinhosamente removida por dois Assistentes que se encontravam de sobreaviso.

O Coronel Constâncio, silencioso todo o tempo, impossibilitado de compreender a extensão daquele ministério socorrista, deixava-se emocionar, como se estivesse libertando-se do torniquete de angústia que o dilacerava cruelmente.

À saída de Ester-espírito, sem entender plenamente quanto ocor­ria, tomou as mãos da esposa e beijou-as, ternamente, desejando traduzir no gesto o que as palavras não conseguiriam expressar.

O corpo da jovem obsidiada repousava pela primeira vez nos últimos meses, sem a constrição tormentosa do inimigo desencarnado. Por sua vez, impossibilitado de agredi-la naquele comenos, mais tar­de, recomeçaria a perseguição sinistra em que se engàlfinhava, de­sesperado.

Estavam, porém, lançadas as linhas mestras da recuperação de ambos, na reconstituição das suas vidas espirituais.

Encerrando o labor e encaminhando de volta ao lar, o matrimô­nio Santamaria, sob sua superior assistência, orando, afervorado, Bezerra encerrou a incursão salvacionista, enquanto a madrugada, envolta pelo mistério da noite, lampejava astros no firmamento in­sondável.

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