Divaldo pereira franco



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NOVOS ESCLARECIMENTOS

Os Espíritos maus pululam em torno da Terra, em virtude da inf e­rioridade moral de seus habitantes. A ação malfazeja que eles desenvolvem faz parte dos flagelos com que a Humanidade se vê a braços neste mundo. A obses­são, como as enfermidades e todas as tribulações da vida, deve ser considerada prova ou expiação e como tal aceita.”

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO” — Capítulo 28º — Item 81.
O Coronel Santamaria, no entanto, experimentava insopitável depressão moral, ao concluir dos trabalhos.

Convidado com a esposa a um chá, no lar dos Sobreiras, não obstante o avançado da hora, aceitou o alvitre, tendo em vista poder confabular com o amigo em círculo mais reduzido, procurando es­clarecimentos que se faziam urgentes.

Durante o trajeto quase todo feito em silêncio, os genitores de Ester, ensimesmados, repassavam as palavras do inimigo desencar­nado, enquanto os amigos, que compreendiam a gravidade daquelas reflexões, respeitavam-lhes a quietude.

Chegados ao lar, as senhoras demandaram a intimidade da co­pa-cozinha a preparar o chá, enquanto os cavalheiros permaneceram na sala, esperando.

Foi o pai da enferma quem deu início à conversação:

— Não posso sopitar o desejo de ser leal para comigo mesmo, e para com você, explicando-lhe, que, só a custo, pude conter-me, durante os atrevidos argumentos daquele mentiroso.

O colega, que esperava o desabafo, deixou-o extravasar a má­goa, o estado de alma turbado.

— Ouvir alguém — prosseguiu, quase rancoroso, — na minha posição, agredir impunemente, desrespeitar e ameaçar a vida da mi­nha filha e a minha própria, sem reagir, é demasiado esforço, mesmo para alguém de forte têmpera moral, qual a minha. Tive ímpetos de revidar, altercar e, quiçá, não sei mesmo o que.

— Como você constata — redarguiu, sereno, o colega — o entendimento fraterno e o perdão são virtudes mui difíceis de vidas. Compreendo, perfeitamente, sua inquietação e posso aquilatar se eu não teria reação idêntica, embora haja sofrido angústia equivalente, quando do problema de Giórgío, meu filho.

“Considere, no entanto, que ao seu pensamento contundente ele revidou, identificando-o, o que não conseguira antes, e mais agu­çando a ira e a rebeldia.”

— É verdade — obtemperou o outro. — Todavia ele mente. Jamais feri alguém intencionalmente ou prejudiquei, pelo prazer de afligir e perseguir. Nunca fui homem capaz de atitudes vis.

— Bem o sei — retrucou, o anfitrião, gentil — Ocorre, porém, que o gravame é sempre visto de forma infeliz por quem padece a ofensa, mesmo quando não desejamos magoar. Nossos atos, nossa linha moral de conduta geram reações nos que não nos podem se­guir ou compreender, que ignoramos. Enleiam-se, esses pobres, na revolta e passam a odiar-nos...

— E se somos inocentes do mal que nos atribuem — inda­gou, — deveremos sofrer-lhes a agressão, como conseqüência do que crêem ser injustiça?

— Claro que não.

— Então, e neste caso, por que nos persegue ele?

— Saberemos, com paciência saberemos. A precipitação é má conselheira e o orgulho ferido sempre obscurece a clara visão das coisas, do mundo, da realidade, da vida...

Enquanto aqueciam a água, as duas damas conversavam afavel­mente.

Dona Mercedes confortava a amiga:

— Não veja no ofensor um inimigo. Examine a dificuldade pelo ponto de vista dele e se apiedará. Certamente, perturbado como está, não tem o conhecimento correto das coisas, crendo no que supõe exato... Experimenta, portanto, terrível distúrbio da mente e do sentimento. Parece-me muito positiva a revolta maceradora que ex­teriorizou com ferocidade.

— É, porém, odiento — interrompeu-a, a senhora Margarida. —Como destila veneno! Quantas ameaças e calúnias!

— Reserve-se serenidade, minha amiga. As coisas não são como parecem. Cada um conclui e age, conforme melhor lhe apraz. Con­sidere: ao invés de doar-lhe a piedade que nos merece, você está magoada, vibrando mentalmente contra ele, em razão de ser-lhe ví­tima... Se, todavia, houver sido ele o ferido anteriormente, não pelo que diz, mas por motivos que ele próprio ignora? A atitude to­mada está errada, é certo, mas a sua reação também não está correta. Melhor aguardar os resultados; não com a indiferença, pois isso não seria viável. As formas exatas de proceder são, ainda, a piedade e a oração pelo perseguidor, conforme ensinou Jesus. Demais, ele já está em tratamento, o que prenuncia melhora próxima, saúde futura com paz geral.

A mãe da obsessa, emocionada, meneou a cabeça afirmativa­mente e concluiu:

— Você tem razão. É verdade: só o amor resolve!...

— Então, sigamos à sala. Sirvamos o lanche.

Com a chegada das matronas, o Coronel Sobreira, desejando confortar o amigo e tranqüilizá-lo, definitivamente, expôs:

— Inocentes dos erros que nos atribuem, se experimentamos a injunção da dor, não significa isso um desequilíbrio das Leis.

Ocorre que uma cobrança, se não se refere a um débito próximo, torna-se haver quando pago, de uma dívida antiga... É provável que vocês nada tenham com o perseguidor de Ester, que lhe justifique a atitude. Aliás, nada escuda o homem, facultando-lhe desforço de qualquer natureza.

É possível, que, mediante a contenda e o ajuste com ele, se regularizem compromissos outros, faltosos, para com a Consciência Divina... Importante ressaltar que não é o que ou a quem devemos, mas o débito em si, que sempre constitui abuso e desconsideração para com a Realidade Superior que rege a Vida. Confiemos, então, em Deus e aguardemos Sua Sabedoria. Estamos hoje mais próximos da luz, do que ontem nos encontrávamos e me­lhor elucidados que antes. Quando sabemos a causa é mais fácil se evitarem os efeitos. E o inimigo conhecido é sempre menos perigoso do que o oculto.

Levantou-se, aplicou, delicado, uma palmada no ombro do ami­go, convidando:

— Ao chá, antes que esfrie. Entreguemos nossas preocupações ao Senhor e confiemos.

O restante da visita transcorreu em agradável conversação, após o que os Santamarias demandaram o lar, algo renovados, otimistas.

Era o milagre da caridade da palavra gentil no momento pró­prio, do esclarecimento paciente.

Oportuno elucidar que o amorável Bezerra e nós outros acom­panhamos os dois casais aos seus domicílios. Enquanto dialogavam, os Sobreiras eram teleguiados mentalmente pelo Instrutor, a fim de que a justeza dos conceitos propiciasse resultados positivos e lenifi­cadores nos neófitos aprendizes da Doutrina Espírita.

O verbo edificante é combustível divino que gera renovação e força, plasmando construções superiores nos painéis mentais a ma­terializar-se no mundo objetivo como realizações eficientes.

As considerações salutares e o estudo interessado das comuni­cações, após os trabalhos mediúnicos pelos membros da equipe, ofe­recem significativos resultados para todos. Devem-se analisar o con­teúdo das informações, acrescentar elucidações aos pontos nebulosos, confabular, objetivando-se maior soma de benefícios. Médiuns e doutrinadores, mais facilmente, são convidados a aduzir impressões, emoções experimentadas, que visem a maior benefício para a melhora de técnicas, aprendizagem, correções necessárias.

Contando com a presença dos Benfeitores no recinto, o inter­câmbio intuitivo para o aprimoramento de todos ensejará excelente contribuição que enriquecerá de experiências a equipe interessada, que mais sensível se fará ao controle dos Espíritos Superiores.

No sentido oposto, a conversação vulgar, o comentário ácido, os apontamentos irrelevantes perturbam a psicosfera em que se de­moram por algum tempo as Entidades em tratamento, permitindo a quebra das defesas especiais e a invasão dos Espíritos infelizes a cuja convivência mental os membros do grupo se acostumaram, prosseguindo as inditosas obsessões de que não se desejam libertar.

O término de qualquer ministério de desobsessão, na esfera física, de maneira alguma encerra os serviços de socorro e enferma­gem espiritual. Conveniente os lidadores encarnados cuidarem da preservação psíquica superior do recinto, quanto da própria, demo­rando-se em reflexões e conotações sadias, aplicando em si mesmos as lições ouvidas. Mesmo quando as comunicações hajam apresen­tado maior soma de sofredores, aos colaboradores terrenos compete a meditação quanto ao futuro que os aguarda, caso não se resolvam à vivência das atitudes enobrecedoras.

A programação especial de socorro a Ester e os envolvidos no caso previa dois encontros por semana para a desobsessão, em dias outros que facultassem a continuidade dos estudos doutrinários na Sociedade e a realização do Culto Evangélico no Lar, de forma a evitar-se perturbação ou acúmulo de tarefas.

Rosângela, a jovem médium que exercia a função de auxiliar de Enfermagem, na Casa de Saúde, proibida de aproximar-se da obsessa, nesse comenos pôde observar insinuante modificação no semblante antes hostil da paciente, e, durante o transcurso daquela semana, alguns sinais de ensímesmamento positivo, menos palidez facial, lenta e progressiva melhora.

Diminuída a assimilação contínua dos fluídos enfermiços, gra­ças ao afastamento do irmão obsessor, o organismo passava a reco­brar paulatino controle das suas funções.

Simultaneamente, no mes­mo ínterim, Assistentes do sábio Instrutor auxiliavam a sofrida jovem, renovando-lhe as disposições, as defesas orgânicas e mentais.

Ao terceiro encontro para a assistência especializada, antes de os participantes se adentrarem no recinto da desobsessão, Rosângela brindou os Santamarias com as notícias auspiciosas das suas obser­vações, animando-os, amorosamente.

Dominada pelo júbilo momentâneo, dona Margarida abraçou-a e beijou-lhe a testa, maternal.

— Como poderemos agradecer a Deus as bênçãos que ora re­colhemos sem merecer? — interrogou, num arroubo espontâneo.

— Amando e servindo, como vêm fazendo — respondeu a mé­dium, sensibilizada.

— O Pai não deseja a punição de nós outros, os pecadores, mas nosso arrependimento em forma de renovação e ação valiosa a proveito nosso e dos demais.

O relógio anunciou as 19:30 que indicavam o momento de iniciar-se a preparação para os serviços da Caridade.

Todo o grupo penetrou na sala reservada ao ministério mediúni­co com gravidade, em silêncio.

Operosos, diligentes Mensageiros Espirituais, vinculados ao la­bor da noite, haviam acionado a aparelhagem promotora da assepsia psíquica ambiental, bem como dos cooperadores, porventura atingidos por alguma imprudência e por petardos venenosos atirados pelos adversários da paz.

Tudo eram harmonias, como das vezes passadas, em esfera de oração.

A leitura e conseqüentes comentários de “O Livro dos Médiuns”, de Allan Kardec, no capítulo 23º — Da obsessão — facultou valiosas lições, predispondo, favoravelmente, para o complexo quão importante ministério. Apontamentos proveitosos elucidavam o texto em perfeita consonância com a página evangélica logo depois me­ditada.

Após a prece assinalada pelo fervor do Coronel Sobreira, o Ins­trutor Bezerra, através de Rosângela, transmitiu as informações ne­cessárias, convidando a acurada oração e concentração harmônica, dirigidas ao enfermo espiritual.

O perseguidor, em hibernação, graças ao sono provocado por indução sugestiva, de quando em quando se agitava, presa das ima­gens mentais danosas de que se alimentava intimamente.

O carinho que lhe era dispensado pelos Enfermeiros Desencar­nados acalmava-o, inspirando compaixão e socorro no desvario a que se entregava.

Desperto pela interferência do Mentor, este se lhe fez visível, provocando inesperada emoção.

— Anjo venerando! — exclamou — eu sei que há anjos bons, como há os demônios que nos escravizam! Tenho sido vítima de demorado desgosto e fui encaminhado por nobre conselheiro da Jus­tiça a proceder à cobrança própria.

Relanceando o olhar pela sala, indicou o Coronel Santamaria e completou:

Aquele homem infelicitou-me, destruindo, quase, os seres mais queridos que possuo. Não satisfeito, persegue-me e aqui estou conduzido por estranha força que o ajuda. Rogo socorro e prote­ção...

- Sou teu irmão — esclareceu o nobre Espírito, — esforçan­do-me pela tua paz. Como te utilizas de Ester para afligi-la, aqui te trouxemos para que te comuniques com o adversário e este se rea­bilite contigo, recorrendo a outro médium, o nosso irmão Joel, por cujos condutos entretiveste os diálogos passados...

— Conheces o meu drama?

— Sim. Estou a par do engano doloroso que os junge uns aos outros, em arremetidas de insensatez e loucura. O mal é sempre pior para quem o cultiva, O teu conselheiro equivocou-se, conduzindo-te a grave erro. Falaremos sobre isso depois. Agora, ouve o que têm a dizer-te, e fala, apresenta o teu problema na condição de quem es­pera reparação e não como quem sucumbiu irremediavelmente.

“Não és mau. Ignorando a verdade, enfermaste. Não te é lícito prosseguir na corrida desenfreada para a desdita pessoal. Pára e re­freia o desequilíbrio. É tempo. Vem, envolve o companheiro que te espera. Vê, aguarda-te ele com amor. Absorve-lhe as energias agra­dáveis.

Fala!


Observamos que o inditoso vingador, atraído pelo magnetismo do Guia, dulcificado por primeira vez, acercou-se do médium em profundo transe inconsciente e, envolvido pela aura e fluídos que se exteriorizavam do sensitivo, incorporou-o.

— Fala! — Repetiu o Mentor.

Quem seria o conselheiro da Justiça a que se reportara o so­fredor? — pensava eu. Desejei interrogar o Amigo dileto. O mo­mento, porém, não comportava outras informações. Aquietei-me, aguardando, aprendendo mais pela observação e pelo serviço ao pró­ximo. Teria oportunidade de referir-me ao assunto.

Observei que os cooperadores encarnados, em recolhimento, pressentiam a magnitude daquele momento. Pairavam expectativas felizes e uma aragem suave penetrava-os agradável, balsâmica. O círculo, em oração, mantinha os elos da concentração em perfeita identidade, ligando-se uns aos outros por delicados filamentos lumi­nosos, cujo teor vibratório atestava a potência mental e moral de cada.

O médium-doutrinador, auxiliado pela inspiração do Diretor Espiritual, em admirável fenômeno de clarividência, passou a regis­trar a cena que se desdobrava além da esfera física. Perfeitamente sintonizado com o labor que realizávamos, teve aguçados os sentidos, adquirindo consciência correta do abençoado esforço prestes a colimar no diálogo iluminativo.

— Ajuda-o com o teu amor — escutou na mente a voz do Ins­trutor falar-lhe. Mais amor do que palavras necessita ele. Atende-o!

— Sê bem-vindo, meu irmão! — saudou-o, sem interromper as ligações que o retinham em nossa esfera de ação.

Emulado pelo convite, o visitante, com hesitação e laconismo na voz, falou:

— Sou infeliz!

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