Divaldo pereira franco



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REVELAÇÕES SURPREENDENTES



Pergunta: 280. “De que natureza são as relações entre os bons e os maus Espíritos?”

Resposta: “Os bons se ocupam em combater as más inclinações dos outros, a fim de ajudá-los a subir. É sua missão.”

O LIVRO DOS ESPÍRITOS” — Parte 2ª — Capítulo 6º.


Um frêmito percorreu os companheiros, colhidos pela surpresa.

- Quem se pode considerar ditoso, realmente ditoso, por en­quanto? — retrucou, inspirado, o diretor. — Só os bem-aventurados que se doaram à felicidade dos outros podem fruir essa recompensa. Não nós.

— Eu, porém, sou infeliz, porque odeio e quero odiar, pois não sei outra coisa fazer.

— O ódio é desvio, não estrada; é o amor revoltado, não a saúde; é brasa viva queimando a quem o retém... Nenhuma ofensa merece a resposta do ódio, antes o revide pelo perdão. Odiar é do instinto, perdoar, da razão.

— Não por mim, que sou ignorante, fui enganado, sou um animal...

— Enganado, meu amigo, está quem ilude. Toda vítima, hoje ou mais tarde, é abençoada, não o algoz. Não te cremos um animal; não, no sentido que desejas dar à palavra.

— A vítima, porém, recorda o que sofreu, qual o animal que foi ferido...

— Porque te agrada sofrer. E como preferes não te libertares da doença para a paz da saúde, não será fácil ajudar-te.

— Pergunte-lhe — estertorou, quase a chorar, — pergunte-lhe se se recorda de mim.

— Claro que não recorda. Estamos em planos diferentes da vida. Ele não te vê, não sintoniza contigo, envolvido pela densidade da matéria. Ës desencarnado. Nem todos te podemos ver, embora muitos te possamos sentir e até sofrer-te, qual ocorre com Ester.

A voz do dirigente se encontrava impregnada de doçura e cla­reza, bondade e fé, vibrações que alcançavam o interlocutor de for­ma benéfica, apaziguadora.

— Embora não seja importante — continuou — não nos dis­seste, sequer, o nome. Como identificar-te? Aqui te recebemos na condição de irmão enfermo e isto nos basta para desejar auxiliar-te.

— Pois, bem, chamo-me Matias. Morri na guerra por ordem dele... Pergunte-lhe. Talvez não recorde. Quem lembraria de um reles soldado raso, infeliz? Fui, porém, seu ordenança, seu escra­vo (*) Chamavam-me “o baiano”... Ele era, então, capitão e dava a impressão que a guerra era dele... Estávamos na Itália... Era dezembro de 1944... O inverno cruel nos desgraçava em Monte Castelo... E a guerra em volta... Algumas batalhas haviam redun­dado em pesadas baixas para nossas forças... O dia 12 não chegou a raiar, tão frio, úmido, brumoso, de chuvas contínuas... As ordens eram para tomar a Cordilheira de Monte Castelo em anterior tenta­tiva fracassada... Eu participara da última batalha e retornava ao combate... Então.
(*) Algumas informações apresentadas pela Entidade perturbada foram supres­sas, outras mereceram tratamento especial, por motivos óbvios. Algumas opiniões sobre o purgatório, inferno são decorrência do estado mental e da antiga confissão religiosa da mesma personagem.

Segundo dados oficiais, durante o período das hostilidades, que abran­geu de 16-09-1944 a 28-04-1945, a Força Expedicionária Brasileira experi­mentou, na Itália, a perda de 21 oficiais, 444 praças, com 2.722 feridos, 16 desaparecidos e 35 prisioneiros. (2ª Guerra Mundial)
O Espírito sofredor começou a deblaterar, dolorosamente.

O abnegado Bezerra, que o socorria carinhosamente, presto lhe aplicou recursos balsamizantes, de modo a auxiliá-lo no depoimento esclarecedor, ajudando-o a descarregar as energias negativas que o enlouqueciam.

Concentrados e observando o Espírito em deplorável desespero, podíamos acompanhar as cenas que lhe afloravam à mente e se con­densavam em vigoroso processo ideoplástico.

Tão reais eram as evocações que Matias se retorcia na aparelha­gem mediúnica, deformando a fisionomia do intermediário convul­sionado e reexperimentando as dores cruciais do momento da par­tida...

O Coronel Sobreira, inspirado pelo Mentor, acercou-se do mé­dium e acudiu Matias incorporado com o recurso da aplicação de passes magnéticos de longo curso com a função calmante...

Concomitantemente, falava-lhe, confortador:

— Guarda a calma, meu irmão, e conserva a confiança em Deus. Tudo já passou... As lembranças más se corporificam facilmente, tornando-se algoz impenitente... Asserena-te.

— Sofro, e o ódio me desarvora! — baldoou, agônico. — Ago­ra ele se lembrará de mim.

Posso, ainda, refrescar-lhe a memória...

— Meu irmão — asseverou o doutrinador — a guerra passou há mais de quinze anos com todas as suas dores e te demoras nesse infeliz estado! Que tens feito do conhecimento da Imortalidade? Que necessidade há de vingar-te em alguém, a quem responsabilizas pela tua partida para o Mundo Espiritual? Desencarnação é fenôme­no natural...

— Não comigo! — interrompeu-o, lancinante. — Ele matou­me, empurrou-me para a morte... E não é tudo. O tratante traíu­me... Odeio-o, odeio-o!...

- Melhor repousares, meu irmão... O ódio é ácido destrui­dor!... Rearmoniza-te, agora. Procura acalmar-te. Isto passará...

A voz pausada, melódica, rítmica do Coronel Sobreira influen­ciado pelo Mentor, produzia indução calmante no atribulado perse­guidor.

Utilizando-nos da mentalização ambiente, procuramos aumentar a nossa cooperação mediante a prece intercessória, enquanto o Ins­trutor sustentava o adversário de Ester, a fim de que se pudesse des­lindar dos fortes laços da animosidade, revelando a trama da própria desdita.

Os irmãos Melquíades e Ângelo, adestrados na enfermagem psíquica, acercaram-se do casal Santamaria, tranqüilizando os angus­tiados genitores.

O Coronel recordava, revia os tumultuosos dias da Segunda Guerra Mundial, aquele rude dezembro e as duras batalhas... Não se lembraria de Matias não fosse a alcunha com que todos o identi­ficavam: o baiano, considerando sua procedência..

“Que mal lhe fizera? — interrogava-se. — Nunca maltratara quem quer que fosse? Que lhe devia?”

Havia lágrimas que lhe refrescavam a face escaldante. Desde há muito vinha sopitando o desejo de chorar. No silêncio e calma que se fizeram de inopino deixou-se luarizar pelo pranto sem revolta. Sentia opressão angustiante no tórax.

Os mistérios da vida eram muitos, a colhê-lo, agora, em sur­presas contínuas.

Afiançava-se a si mesmo que tudo ao alcance faria para apazi­guar o irmão infeliz, recuperando a filhinha.

— Oh! Deus meu, piedade! — balbuciou, sem dominar a emoção.

A esposa carinhosa, igualmente vencida pelas circunstâncias, inspirada, porém, por Melquíades, segurou-lhe a destra, sustentan­do-o.

- Tenha calma! Confiemos, sim, em Deus! Ajudemos com a nossa oração contrita.

Pai Nosso...

A intervenção oportuna teve o feliz efeito desejado.

Enquanto isso, o doutrinador aplicava recursos através de passes no médium Joel, que continuava incorporado por Matias, esterto­rando, em ligeiras convulsões.

A fluídoterapia oportuna recompôs a Entidade, que, estimulada pelo afável Bezerra deu curso à narração dos infaustosos aconteci­mentos:

— Nunca morri de amores por ele, apesar disso sempre o servi com respeito... No íntimo experimentava surda antipatia que sufo­cava, considerando a sua posição de relevo.

Fez uma pausa, como a ordenar as lembranças tumultuadas na mente aturdida.

— Prossegue, meu irmão. — Estimulou-o o diretor. — Estamos interessados em conhecer toda a extensão do teu drama, para melhor ajuizar as tuas angústias e ajudar-te com mais segurança. Prossegue!

Sentindo-se menos desesperado, graças ao auxílio que recebia de ambos os planos da Vida, pigarreou, dando continuidade:

— Sempre acreditei em sonhos... Pois eu sonhara que ia morrer naquele dia. Dormira quase nada e, mesmo assim, me viera o aviso. Rezei, e dirigi-me ao capitão a pedir-lhe para ser colocado em qualquer serviço, menos ser mandado para a linha de fogo.

Expliquei-lhe o motivo. Ele zombou de mim, e gritou que todos estávamos ali para morrer... Esse era o nosso dever: dar a vida pela Pátria e aquela era a hora.

“É claro que eu compreendia mas... Sem saber como, eu lhe pedi um favor. Se eu morresse conforme eu acreditava que ia acon­tecer, eu lhe suplicava que ajudasse minha mãe e uma irmã, que deixara na minha terra... Ele me olhou sério e compreendeu a gravidade do meu pedido... Prometeu que o faria. Anotou meu número de identidade, o endereço da minha família... Foi um momento solene para mim...

Voltou a ser acometido pela asfixia, pelo desespero.

As amargas como as ditosas lembranças que se cultivam são transformadas em algemas ou asas para quem as vitaliza. Assim, Matias sofria a injunção das malévolas idéias do ódio e das recor­dações penosas que o ulceravam cada vez mais, sem lenir-se com a oração, a esperança ou o otimismo, em relação ao futuro.

O doutrinador atento, acudiu-o, concitando:

— Narra sem paixão, meu amigo. Recorda sem ódio. Experi­menta expor com lealdade para rever melhor as ocorrências sucedi­das. Não estás aqui a sós...

— Sim, o anjo bom me olha e concorda que eu fale...

“Pois bem: segui e tombei... Não há palavras para exprimir o que me aconteceu... Nunca soube realmente como foi... Era somente a zoada na cabeça, a dor, o sangue a jorrar, a agonia, o clarão e a morte... O clarão e a zoada... Perdia a consciência para acordar na mesma desgraçada situação... Gritava e outros gritos abafavam o meu... Segurava os pedaços do corpo que estourara... Não sei, não sei! Durou a eternidade..

“Um dia, — quando? — não sei quando, ouvi um choro e o meu nome sendo chamado... Tudo em mim eram dores e eu era frangalhos... Alguém me chamava com tanto desespero que me despertou, me arrastou. Subitamente, vi de joelhos minha mãe gri­tando por mim. Ninguém pode avaliar o que foi isso.

“Corri para ela, cambaleante. Respondi-lhe: estou vivo, mamãe, estou doente, mas não morri!... Ela não me ouvia... Eu a sacudi, então, gritei mais, desesperei-me... e nada. Ataquei os transeuntes para que lhe dissessem que eu estava vivo... Tudo inútil. Fiquei pior... Ela falava em pranto: “Oh! Senhor, se meu Matias fosse vivo nós não estaríamos nesta miséria: nem eu nem Josefa...

“Josefa era minha irmã. Onde andava? Notei que mamãe tor­nara-se uma sombra do que eu deixara, embora fosse ela mesma. E Josefa? Passei a deblaterar, na esperança de que ela me ouvisse.

Tudo isso na rua...

“O que aconteceu... foi superior à minha capacidade de enten­der... Não sabendo o que se passava comigo, já que eu estava vivo, senti-me arrastar por desconhecida força e deparei-me numa casa de cômodos, próxima ao cais do porto... Mulheres andrajosas, des­cabeladas, ferozes, brigavam e xingavam, numa desenfreada perdi­ção... Era uma casa de pecado... Subi as escadas impelido por uma desesperada busca... Parei num quarto, que era mais um chiqueiro e dali, olhando o mar, estava minha irmã... Crescera... Mudara tanto! Dela, somente os olhos grandes, negros, tristes e os cabelos.

“Não podia ser... Às minhas dores se juntavam, agora, novos horrores... Ela chorava e devia estar pensando em mim... Eu sentia pelo coração que ela me chamava com saudade, com mágoa.

E tossia... Transparente e fraca, quase a desfalecer, deixava as lágri­mas cairem... Aproximei-me, toquei-a, também, em pranto, sem forças... Ela estremeceu... chamei-a, chamei-a... Ela ficou com o olhar de louca, agitou-se, enquanto eu a chamava... Creio que me viu porque deu um grito e saiu a correr... O alvoroço tomou conta do lupanar infeliz. .. Então, minha irmã estava ali... Não suportei e desmaiei.

Matias chorava copiosas lágrimas, vertidas em lava do íntimo excruciado.

Estávamos comovidos. Toda dor inspira compreensão fraternal, piedade. As dilacerações selvagens, apesar da rudeza, produzem com­preensíveis amarguras.

O doutrinador e a equipe de encarnados escutavam-no com sim­patia, envolvendo-o em eflúvios de cordial e sincera compaixão que o reconfortavam.

Amparado, em clima de real estima, “o baiano” prosseguiu, narrando:

— O tempo era sempre sem fim. Quando despertei, lentamente, sem saber-me onde estava, as vagas recordações fizeram-me refletir...

O que eu sofria no corpo e na alma não tenho como dizer...

“Na balbúrdia em volta, dei-me conta de que uma chusma de desordeiros da mais baixa classe zombava de mim com doestos e gargalhadas ensurdecedoras.

“A duras penas, por eles descobri que morrera... Aquilo que eu sofria e ainda sofro era a morte... Que horror tomou conta de mim!

“Não foi fácil acostumar-me com a idéia... Encontrava-me como quem irá morrer e já fora vítima da morte... Você entende?”

— Claro, meu amigo — redargüiu, compreensivo, o Coronel Sobreira. — Quando vivemos para o corpo, temos muita dificuldade em deixá-lo. Nossos hábitos são nossa vida. .. Continua, porém, deixando que até à última gota se derrame o veneno que te vence, a fim de conheceres a madrugada que já te está raiando, em nome do dia novo de repouso e alegria.

Na minha mente, — voltou a expor — procurava encontrar a ordem das coisas... Embora sofrendo a impiedade daqueles infe­lizes piores do que eu, porque eles não eram tementes a Deus, blasfemavam, enquanto eu estertorava, fui-me ajustando à idéia e compreendendo porque mamãe não me vira... E a fome, a sede que eu sofria? A morte não acaba com tudo?

“Com o tempo, — quanto tempo? — inteirei-me, naquela triste convivência, do que era morrer... e que ali estávamos no purgatório, a caminho do Inferno. Quem tivesse dívidas, que logo as cobrasse, até o momento em que viriam os Encapuçados selecionar os que podiam ficar e os que deviam partir para as mãos de Satanás.

“Muito vagarosamente consegui ordenar as lembranças... Nessa ocasião foi que me recordei do capitão... Teria morrido? Se minha família enfrentava tal penúria, certamente ele morrera, sem poder fazer nada... Meu pensamento se cravou nele... Onde andaria?.

como saber?... Atormentado, por essa dúvida, se ele estava morto ou vivo, o ódio me ia dominando. Se estivesse vivo ele me havia traído...

Houve uma pausa. A narrativa chegava ao seu ponto culminante.

Matias prosseguiu. A voz se alterara, a respiração voltara àdificuldade. O Mentor acolitava-o, socorrista.

— Num momento de ódio vigoroso, senti-me desvairar... Aos gritos e imprecações, desejando encontrá-lo, senti o mesmo ímã des­conhecido arrastar-me e encontrei-me na sala rica onde ele, mais velho, forte, feliz, sorridente, exibia a filha.

“Agredi-o diversas vezes, sem que ele o percebesse... Havia, ali, outros mortos como eu e piores do que eu, misturados aos con­vidados...

“Quando a filha começou a tocar... Da idade de Josefa e tão diferente!... Aproximei-me e senti que ela me sentiu... Segurei-a e ela tremeu... Agarrei-lhe os braços e percebi que os seus ficaram nos meus braços... Entonteci-me e ela cambaleou... Pensei e ela atendeu... Levantei-a e caminhamos... Esbofeteei-o e enlouqueci de ódio, de vingança, de alegria, descobrindo-a louca comigo, mis­turados...

“Assim estamos, e assim seguiremos.

“Agora, pergunte-lhe se sabe quem sou eu?”

A Entidade, ofegante, no médium em agitação, parecia triun­fante.

Bezerra entregou o controle psíquico de Matias ao irmão Ângelo e acionando os centros de captação dos Coronéis Santamaria e Sobreira, dirigia-os com vigor.

O doutrinador, tocado por toda a história, ripostou, sereno:

- O teu não é um drama isolado... A tragédia do Gólgota possuía um inocente, que perdoou...

Tu, que também és culpado de toda a ocorrência e dizes-te “temente a Deus”, no entanto, te alegras promovendo sofrimentos... O desespero do teu próximo acalma a tua agonia? A pobre Ester, enlouquecida, recupera Josefa, perdida? A angústia de dona Margarida diminui a pobreza de tua mãe? Não estás vingando-te, estás mais destruindo e destroçando os teus. Tu não amas a família, nunca a amaste...

A palavra bem posta e as interrogações oportunas desarmavam o vingador.

— Amo, sempre amei os meus — revidou, algo possesso.

— Quem ama auxilia na dor, não foge para cometer crimes e negar assistência. Será amor deixar a irmãzinha num prostíbulo, a fim de levar outra jovem ao Hospício? Que diferença há entre aquele que corrompeu Josefa e tu que infelicitas Ester?

— Eu faço justiça!

— Não confundas justiça com indignidade e covardia moral, atacando nas sombras. Se amasses, verdadeiramente aos teus, procu­rarias socorrê-los, deixando que Deus cuidasse dos demais, porqüanto Ele é o Pai Ünico de todos...

O Espírito começou a chorar diferente pranto.

Nesse instante, o diretor, dirigindo-se ao amigo, sob o teleco­mando do Instrutor, sugeriu:

— Deseja falar-lhe, Constâncio? Tem algo a dizer? Na Casa de Jesus todos se podem expressar, confiantes.

— Sim, — respondeu, com hesitação na voz, o Coronel San­tamaria — eu gostaria de poder dizer quanto estou, também sofrendo. Sou réu, não de um crime conscientemente praticado... Recordo-me do... Matias, que serviu comigo... Jamais de­sejei trair, desconsiderar... Prometi-lhe fazer alguma coisa, caso ele não voltasse... Aqueles dias pareciam-me tão longe e, todavia, neste instante, muito próximos. Revejo, pela mente, o dia terrível, a vitória e as baixas, as novas lutas, a movimentação da tropa, as ansiedades e os receios.

“Veio a paz, meses depois... O retorno à Pátria, a readaptação, novas atividades e velhos compromissos... Fui traído pela memó­ria... Meu Deus, oh! esqueci-me... Jamais... me lembrei...

Só, então, agora.

“Perdoa-me, tu, que tens tanto sofrido! Perdoa-me! Não agi por mal. Dá-me a oportunidade de reparar, antes da minha partida, tantos danos.”

A inesperada atitude do genitor de Ester infundia respeito. Todos nos encontrávamos na mesma elevada emoção.

Sua emotividade caracterizava elevação de propósitos.

— Não o perdoarei! — Redarguiu Matias.

— Tens razão em castigar-me, não a Ester. Transfere para mim a tua dava e alcança-me.

— Esta é a única forma. Sua filha Ester.

— Dá-me oportunidade, então, de ajudar Josefa e socorrer tua mãe. Tenho recursos, que para mim não são úteis e poderiam ampará-las.

— Ajudá-las? Como? O lobo auxiliar as ovelhas?

— Dize-me onde se encontram e irei vê-las. Narrarei tudo à tua mãezinha... Dela farei minha irmã e da tua irmã uma filha.

Não negocio a saúde de Ester com a reparação do mal. Sempre tenho procurado ser coerente comigo mesmo, digno nos meus atos. Quando me descubro em erro, não me envergonho de recuperar-me. Ajuda-me!

— Não creio no que você diz. Enganou-me uma vez. Por que não me iludiria novamente?

— Não te rogo liberdade para minha filha. Prossegue até quando Deus o permitir, porqüanto, até as “folhas que caem da árvore” representam a vontade dEle. Como hoje soa o meu dia, virá, também, o teu. Experimenta, Matias... Tu que sabes quanto macera a dor. Ajuda-me!

A grandeza da cena, o elevado desejo de reparação criava um magnetismo ambiente de alta vibração.

Após alguma reflexão, o Espírito indagou:

— Como fará?

— Tu me dirás em que cidade, em que rua, se possível, e eu cuidarei do restante.

— Veremos, então. Vivem na Cidade do Salvador, à rua... Os detalhes apresentados ensejavam maiores reflexões.

- Deus te pague! e perdoa-me, se possível... – Concluiu o Coronel Santamaria de voz embargada.

O doutrinador indagou:

Então?


  • Não assumo qualquer compromisso... O problema é dele. Demais estou muito cansado...

- Tudo isto me faz padecer dema­siadamente.

— Procura, então, repousar. Pensa em dormir... dormir...

Enquanto isso, atendendo ao alvitre do diretor espiritual, acorri a cooperar na indução hipnótica do comunicante, desligando-o com especial carinho dos liames que o prendiam ao médium Joel, em profundo transe inconsciente.

Ato contínuo, através da psicofonia de Rosângela, o sábio Instrutor procedeu às diretrizes finais, antes do encerramento dos trabalhos.

— Nosso irmão Matias — elucidou, após as palavras iniciais —acaba de entornar o gral miasmático de que se intoxicava com os venenos que absorvia e refertava o vaso.

— Como se faz necessário punçar o abscesso para drená-lo, restabelecendo a vitalização das células e evitando que apodreçam, indispensável que, em momentos próprios, se deixem que extrava­sem das infecções morais a purulência e a vasa pestilencial depo­sitadas no espírito lúrido, vencido...

“Graças ao Senhor, iremos colimando resultados felizes: o escla­recimento com a paz do nosso irmão desditoso e o reequilíbrio mental com a saúde da nossa Ester.

“Seria de bom alvitre que nos mantivéssemos serenos, depois de encerradas as tarefas, demandando os lares em paz, demorando-nos em elucubrações superiores, a fim de prosseguirmos, logo mais, quan­do o sono físico os recolher ao refazimento orgânico, ensejando possibilidades outras.

“Evitemos ressentimentos para com o irmão doente, interroga­ções adiáveis ou ansiedades inoportunas...

“Jesus, meus amigos, nossa Fonte de Paz, facultar-nos-á con­cluir os deveres à hora própria.

A Ele nos devemos entregar, aguar­dando, pacientes, os resultados.”

Despediu-se o venerando amigo.

Incontinente, o Coronel Sobreira, mal sopitando a emoção de indefinível júbilo, humildemente orou com efusão de sentimentos, reconhecido, encerrando o edificante cometimento espiritual.

Enquanto formulava a prece, radiosa luz adentrou-se pelo recinto, procedente das Regiões Felizes. flocos delicados caíam suave­mente, desfazendo-se ao contato com os corpos. As harmonias do ambiente repetiam as células do Cristianismo primitivo, nas noites inesquecíveis do intercâmbio espiritual que as sustentavam, quando visitadas pelos Embaixadores do Senhor, nos dias do testemunho...



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