Divaldo pereira franco



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INCURSÃO AO PASSADO



872. “A questão do livre arbítrio se pode resumir assim: O homem não é fatalmente levado ao mal; os atos que pratica não foram previamente determinados; os crimes que comete não resultam de uma sentença do destino. Ele pode, por prova e por expiação, escolher uma existência em que seja arrastado ao crime, quer pelo meio onde se ache colocado, quer pelas circunstâncias que sobrevenham, mas será sempre livre de agir ou não agir.”...

O LIVRO DOS ESPÍRITOS” — Parte 3ª — Capítulo 10º. - Comentário


Fomos incumbidos de acompanhar pessoalmente o Coronel Santamaría e senhora, cuidando de trazê-los de volta àquele recinto, à hora programada para a segunda fase das operações de socorro da noite.

Embora o silêncio a que se entregaram os cônjuges, eu podia acompanhar-lhes a evocação mental das cenas desenroladas minutos antes. Chegando ao lar, enquanto se serviam de lanche frugal, os esposos teceram considerações elevadas sobre os acontecimentos, conseguindo o pai de Ester traduzir a esperança e o júbilo que ora sucediam à angústia que dele se apossara em face das revelações de Matias. Agradecia a Deus a salutar oportunidade, prometendo empenhar-se quanto lhe permitissem as forças a fim de se reabilitar do doloroso drama, que ocasionara, sem o desejar.

Havia no lar, ora bafejado pelas saturações da prece constante e sob o contínuo das vibrações edificantes, decorrentes das leituras e comentários elevados, uma psicosfera superior, envolvente, que produzia bem-estar, diferindo expressivamente de quando fôramos ali por primeira vez.

Recolhendo-se ao leito, não sem antes lerem oportuna página mediúnica de excelente Obra que mantinham na mesa de cabeceira e orarem, paulatinamente adormeceram.

Ato contínuo providenciamos a recondução dos mesmos, em desdobramento parcial, pelo sono, à sede da Sociedade Espírita e os alojamos em local adredemente reservado.

Entidades amigas que cooperavam com o responsável pelas tare­fas encontravam-se presentes, depois de terem conduzido outros membros da equipe.

A pouco e pouco chegaram os demais participantes da nobre realização.

Chamou-me a atenção a facilidade com que se movimentava o médium Joel e a alta lucidez que o possuía, em incontida alegria com a esposa desencarnada. Com simpatia o nubente terreno apre­sentou-nos a consorte que o auxiliava quanto lhe era permitido em realizações dessa natureza.

Cativou-nos a segurança do esposo e a confiança tranqüila da perene noiva... Aquilo traduzia o lenitivo que o amor coloca na ferida da saudade, mas, sobretudo, resultava do conhecimento da vida espiritual aplicado à vivência no cotidiano.

Sopitando o desejo de tecer considerações sobre como acompa­nhava a tarefa do marido, estando na Espiritualidade, vi-os dirigi­rem-se aos nossos companheiros, exteriorizando as justas alegrias que os possuíam.

À hora própria o benfeitor Bezerra de Menezes convidou-nos à observância do silêncio e da concentração, enquanto se afastava, convidando-nos a mim e ao irmão Melquíades.

Dirigimo-nos à Casa de Saúde, a fim de trazer Ester, cuja presença se fazia imprescindível àquele momento.

Graças às superiores possibilidades do Diretor espiritual, este prestamente desenovelou a paciente das densas malhas em que se enredava, nos fluídos orgânicos, conduzindo-a em espírito, dominada por sono profundo e reparador.

Os passes ministrados pelo irmão Melquíades, com regular fre­qüência, na enferma, desde que se iniciara a terapêutica desobsessiva, com o afastamento de Matias, retido em nosso círculo de atividades, produziam estimulantes resultados. Da agressividade e da apatia em que se alternavam os seus estados emocionais, passou à reflexão, com momentos de lucidez e discernimento que constituíam refrigério no tormento demorado em que sucumbia.

Lamentavelmente. o descaso a que fora relegada e diante da negligência que lhe era votada por pessoas irresponsáveis, não se davam conta, no Hospital, dos bonançosos sinais da recuperação.

A Rosângela, porém, interessada pela padecente, toda sintoma­tologia nova, abençoada, era observada e narrada com emoção esti­mulante aos pais, que registravam os efeitos benéficos com crescente entusiasmo.

Supõem muitos profissionais da Medicina e da Enfermagem que de outra terapêutica não dispõem, quando falham os recursos clássicos... Em razão disso, relegam os pacientes à própria sorte, deles cansados, procurando não perder tempo com os casos irrecupe­ráveis. Olvidam, no entanto, a terapia do amor, a psicoterapia do entendimento e da atenção.

Quando o dr. Pinel foi criticado por desejar libertar das cor­rentes em que sofriam os loucos aos seus cuidados, em Bicêtre, em Paris, perguntaram-lhe, zombeteiros, os colegas:

— “Se não os puderes curar, que farás com eles?

— “Amá-los-ei” — respondeu, como sacerdote do espírito. —Farei sentirem-se criaturas humanas outra vez. Dar-lhes-ei atenção.”

Quando os métodos de qualquer mister, na Terra, estiverem sob a diretriz segura da técnica e o inspirador amparo, simultâneo dos braços de Jesus, muitos males serão evitados e frutos opimos recolhidos.

Chegando ao recinto da sessão especial, Ester foi colocada pró­xima aos pais, igualmente inconscientes, sob o amparo do sono salutar.

As atividades e cuidados para o cometimento já haviam sido iniciados. Aparelhagem especializada para a assepsia psíquica do ambiente fora posta a funcionar, fazendo-nos lembrar os aquecedo­res terrestres à base de resistências elétricas, que produziam ondas especiais de calor e simultaneamente lâmpadas de emissão infra-vermelha e ultravioleta diluíam as construções mentais imperantes, vibriões resultantes das ideoplastias habituais de alguns dos mem­bros tanto do círculo como da enferma.

Percebi delicada aparelhagem de som e imagem que era utili­zada nos dias de trabalhos normais de socorro aos desencarnados que se encarregava de projetar os diálogos e as atividades fora dos muros de defesa da Casa, por meio de projetores sonoros, com objetivo de despertar alguns transeuntes da artéria em que se localizava a Sociedade. À porta, atraídos pelo labor mediante os eficazes comen­tários, reuniam-se perturbadores e enfermos desencarnados, alguns dos quais não obstante a bulha reinante e os doestos dos mais empedernidos, se sensibilizavam, passando a meditar e ensejando possibilidades de serem recolhidos ao recinto para posterior tratamento.

O aparelho receptor de imagem dava conta de preciosas infor­mações do diretor espiritual, não apenas dos acontecimentos de imediata importância como de valioso recurso utilizado para a diagnose de muitas enfermidades dos candidatos que solicitavam orientações particulares para a saúde. Concomitantemente, ensejava maior percepção da aura dos consulentes, de cujo estudo decorriam as orientações para o comportamento moral e as atividades mais compatíveis a desdobrar.

Engrenagens que faziam lembrar os secadores para cabelos, eram aplicados em operações de hipnose mais profunda, criando condicionamentos subliminais com a fixação de imagens positivas no inconsciente atormentado dos comunicantes em sofrimento, de modo a se transformarem essas induções ideoplásticas em vindouras edificações mentais, conseguidas com o esforço dos próprios pacientes, de verdadeiras sementes de vida, nas paisagens turbilhonadas das mentes em tratamento.

Pequenas caixas, umas para medir a intensidade vibratória dos Espíritos hospedados sob cuidados, outras para cotejo de resultados, para registros e impressões de dados, num complexo e emaranhado mecanismo de precisão e utilidade incontestável.

Não são os Espíritos operosos anjos detentores do conhecimento total e da total sabedoria. Evoluem adquirindo experiências que constituem conquistas que se incorporam ao patrimônio de que são detentores.

Na Esfera Espiritual procede-se à criação de sutis, delicadas e mui complexas elaborações para os elevados fins de progresso, e que muitos Missionários da evolução trazem à Terra, transformando em utilidades para os impulsos da técnica da civilização e do desenvolvi­mento das criaturas humanas.

Atendendo ao impositivo da hora, o Instrutor convocou-nos ao serviço de despertamento dos membros do grupo, ali reunidos, facul­tando a cada um a percepção ambiente relativa ao próprio estado psíquico e espiritual.

Cada mente, na condição de fixador e seletor de aptidões, somente permite ao espírito o que este cultiva e grava nas engre­nagens do perispírito, conseguindo ligeiras conquistas que decorrem da Misericórdia de acréscimo de Nosso Pai, não se podendo permi­tirem maiores incursões por ausência de condições psíquicas e energias encarregadas de produzir-lhes o “peso específico” para movimentar-se ou permanecer nas diversas faixas vibratórias acima das densas cor­rentes do corpo somático.

Assim, o homem é sempre o que pensa, porqüanto da fonte mental fluem os rios das realizações. As matrizes mentais demorada­mente fixadas por viciações, desequilíbrios, não podem de inopino ser removidas ou alteradas, constituindo os fulcros da ideação e da vida, onde cada ser, encarnado ou desencarnado, habita... Da mesma forma ocorre com as aspirações superiores que fomentam a dispersão das forças densas e grosseiras que decorrem no mergulho do magnetismo da Terra mesmo, ensejando sintonia com mais nobres ondas de emissão espiritual, sutilizando o perispírito e liberando-o dos condicionamentos mais fortes do corpo físico que vitaliza e a que se vincula...

Podíamos perceber, desse modo, as diversas reações dos convi­dados. Alguns variavam desde a perplexidade ao medo, enquanto outros, à surpresa sucediam o júbilo e a emoção de identificarem o ambiente em que estavam, compreendendo, de pronto, as razões de ali se encontrarem.

Matias prosseguia dormindo, enquanto Ester não dava sinais de lucidez, atendida pelo enfermeiro Melquíades, prestimoso, ao seu lado.

A posição dos encarnados fora providenciada para a formação de um círculo quase fechado, à frente de cujas bordas se postava o incansável Bezerra.

O Cel. Sobreira encontrava-se próximo ao Benfeitor e regular-mente detentor de lucidez. Notava-se-lhe a condição espiritual de destaque no grupo, somente superada dentre os encarnados pelo médium Joel, que, adestrado e conscientizado pela fé e a dedicação incansável, granjeara superiores conquistas de que se utilizava para o ministério da caridade a que entregava a existência.

Obedecendo à austera disciplina no exercício de tais elevados misteres, o Diretor, com harmônica emissão de voz, exorou:

— Senhor Jesus!

“Aqui estamos, teus servos imperfeitos que reconhecemos ser, tentando o ministério da caridade fraternal, que nos ensinaste com o exemplo da renúncia e do sacrifício.

“Desinvestidos dos recursos que se fazem imprescindíveis para os relevantes labores, não dispomos da necessária capacidade para discernir e ajuizar com segurança, atender e agir como de desejar.

“Mais vinculados aos julgamentos humanos e às humanas reações, sentimo-nos impossibilitados de tomar as medidas melhor acertadas e enunciar as palavras na condição de terapêutica santificadora.

“Ainda imantados pelos fluídos densos, faz-se tardo nosso racio­cínio e vagarosa nossa ação. Em conseqüência, convidados a ajudar, conhecer mais para socorrer melhor, procedemos como crianças capri­chosas que apenas desejam para agora, sem a responsabilidade de esperar, adiar, confiar e prosseguir inalteráveis, no árduo labor.

“Face a isso, recorremos à tua fonte de inexaurível bondade, suplicando inspiração e socorro, iluminação e caridade.

“Não nos encontramos, aqui, na posição de Espíritos Felizes ou Mensageiros da Verdade, que sabemos não sê-los, mas na con­dição de irmãos, igualmente necessitados, que, na dor alheia, identifi­camos a própria dor e na limitação imposta pela ignorância no próximo, descobrimos em nós as ausências de luz e sabedoria.

“Há, todavia, Amorável Amigo, o desejo sadio de lenir as exulce­rações que nos são apresentadas, oferecer a tua claridade aos que tropeçam nas sombras e doar as mãos ao trabalho, para nos trans­formarmos em cireneus junto aos que desfalecem sob o peso da cruz que se impuseram por leviandade e loucura, teimando em desco­nhecer tuas santas lições.

“Enriquece-nos de amor a fim de que nosso verbo lenifique e encoraje, nossas energias despertem e vitalizem, nosso esforço conju­gado se converta em elo de união contigo.

“Sê o Sábio Diretor desta realização que nos entregas a executar, nas condições de obreiros incipientes quais o somos, necessitados de segura condução.”

O Mentor, em atitude de indefinível emoção, adquirira tonali­dades safirinas que lhe adornavam a beleza seráfica.

Experimentávamos a superioridade das vibrações que nos pene­travam, fazendo-nos reflexionar sobre as nossas legítimas limitações e deficiências, num exame da grandeza da humildade e do poder da oração.

Transcorridos breves minutos passou a algumas considerações.

— Reunimo-nos, neste momento — elucidou, compassivo —, para estudar com maior profundidade o problema Ester-Matias, nossos irmãos em prova libertadora.

“Conforme ouvimos, há algumas horas atrás, o nosso Matias, sentindo-se desconsiderado pelo genitor da paciente e atribuindo-se direitos de desforço que realmente não pode exercer, ainda mais em considerando que a pseudo—ofensa de que se diz vítima e na qual inclui a mãezinha e irmã, em verdade é improcedente, dá-nos a idéia de que se fossem legítimas as acusações resgatava a filha o débito do pai...

“Caso isto ocorresse, defrontaríamos grave acontecimento a depor contra a justeza das leis do equilíbrio e a segura, insuspeita ação da Justiça Divina, nas ocorrências e engrenagens da vida.

“No processo que entreliga esses destinos na rude peleja, com­pete-nos aprofundar pesquisas, a fim de localizar a participação de Ester, no intrincado da sementeira do ódio, que ora frutifica em dor acerba.

“É óbvio que não nos encontramos estimulados pela curiosidade perniciosa, mas pela inspiração da verdade de modo a agir com acerto e socorrer com segurança.

“Alguns amigos dos irmãos envolvidos na trama dos imperiosos sucessos estão também enredados nos seus destinos, desde que através da abençoada família universal estamos cada dia atando ou desa­marrando laços de compromissos e ajustamentos salvadores.

“Compreendamos o impositivo de cooperar com elevação de propósitos, esquecendo-nos do “eu”, dos problemas e conflitos habi­tuais para melhor nos desincumbirmos da realização a que nos candidatamos.

“Que o Senhor nos auxilie e guarde!”

Os ouvintes encarnados denotavam natural apreensão, sem qual­quer tormento ou receio que traduzisse insegurança.

Os genitores da paciente traziam compungida a face e estavam sinceramente comovidos.

O Coronel Sobreira, muito calmo, expressava grande confiança, refletida na face.

O médium Joel, assistido pela esposa, ao lado de Ester, locali­zada, também, junto ao Coronel Santamaria, exteriorizava perfeito equilíbrio, que transmitia à necessitada em repouso um como anes­tésico eficiente.

Os demais, surpresos, oravam em união de pensamento equili­brado, graças aos exercícios contínuos e à dedicação com que se apresentavam nos serviços da desobsessão, verdadeira escola disci­plinante e iluminativa.

Imediatamente o Instrutor acercou-se de Matias e aplicou-lhe passes de longo curso, despertando-o para a realidade do momento.

A um sinal, antes convencionado, o irmão Melquíades teve o mesmo procedimento com Ester, que, mais lentamente, recobrou a lucidez mental, após despertar.

Encontrava-se menos aturdida do que da vez em que leváramos seus pais ao Manicômio, apresentando expressiva melhora. Compreen­sivelmente, a menor incidência constrangedora de Matias, em parte, afastado, produzia um desencharcamento dos fluídos venenosos e da telepatia perturbante que este conseguia, enviando-lhe contínuas men­sagens de teor apavorante, destrutivo.

Depois de examinar em redor, procurando localizar-se, deparou com os pais, entregando-se ao Coronel Santamaria com expressões de contentamento e queixa, em que relatava o suplício no qual se debatia sem saída.

O emocionado militar olhou o Espírito Bezerra como a soli­citar-lhe permissão para algumas palavras à filha, no que foi aten­dido com leve sorriso de aquiescência do Diretor vigilante.

— Confie em Deus, filhinha! — Exclamou, afável, o progeni­tor. — As dores de hoje prenunciam a liberdade de amanhã, da mesma forma que estas lágrimas retratam a prisão que erguemos no passado e nos empareda nos dias atuais.

— Mas estou louca, papai! — Retrucou a jovem com golo­rosa entonação de voz. — Sou um animal enjaulado... Nenhum amigo ao meu lado. Sem sol e sem esperança... Abandonada. Nem você, nem mamãe jamais me visitaram... Por que, papai?

— Loucos nos encontramos — respondeu com paciência —, quando ferimos e fazemos o mal... Esta atitude, sim, é de arre­matada loucura. Quando, porém, sofremos de uma ou outra forma, nos encontramos liberando da alucinação. O desequilíbrio da mente é transitório, mas o da alma é de demorado curso... Não se preocupe mais. Tudo se aclara já e logo mais, mercê de Deus, o problema estará solucionado, com a nossa conseqüente paz...

“Visitamo-la vezes muitas... Por orientação dos médicos evita­mos acercar-nos de você, a fim de conceder-lhe o competente e cal­mante tratamento prescrito. .

— Eu queria saber — ia prosseguir Ester...

O pai, todavia, afagando-a, impôs-lhe silêncio, solicitando que se mantivesse em reservada atitude de observação, conclamando-a à oração.

Só nesse momento dei-me conta de que os conceitos vertidos pelo pai, obedeciam a telementalização dirigida por Bezerra.

Tudo deveria transcorrer sob cuidadoso controle, de modo a serem colimados os resultados superiores.

Ester retornou, incontinenti, aos cuidados do irmão Melquíades, que, telepaticamente, a acalmou com sugestões positivas, agradáveis.

Matias, ora desperto e ajudado pelo irmão Ãngelo, não dominando a surpresa, interrogou:

- Por que novamente me encontro encarcerado neste círculo? Não ficamos deliberados a aguardar o resultado das tentativas de rea­bilitação do Capitão? Por que devo enfrentá-lo outra vez?

Correu o olhar pelo grupo e, defrontando Ester, descontrolou-se:

— Que faz ela aqui? — bradou, encolerizando-se.

A jovem, ante o verdugo, estremeceu e começou a gritar, modi­ficando-se-lhe o aspecto. A serenidade foi substituída pelo pavor e a tranqüilidade da face pela máscara de horror.

Como esperasse aquele acontecimento, o Diretor prosseguiu, se­reno e concentrado.

Ester, embora seguramente controlada pela mente e pelas vibra­ções do irmão Melquíades, se ergueu, pela primeira vez, revelando-se agressiva.

Aproximou-se de Matias e, na alucinação que a surpreendera, prosseguiu, agora, colérica:

— Odeio-te, sim, odeio-te... (E gargalhou em estado lancinante).

O irmão Ângelo, cuidadoso, pôs-se a trabalhar na sede do centro cerebral de Matias, fazendo-o recuar no tempo, recordar-se, aden­trar-se pelo passado.

— Lembro-me, agora, infame, traidor — objurgou a enferma. —Traíste-me e pagaste. Assim mesmo não te perdoei. Não se despreza uma mulher apaixonada, que possui dinheiro e posição.

Subitamente, Matias, como se conscientizando das diatribes, e recordando, revidou:

Bem o sabia, infeliz. Odiava teu pai, mas sentia prazer em perseguir-te. Tudo está claro, megera..

— Meu pai!? — Inquiriu — Tu sabes que eu não tenho pai...

Matias ia revidar, porém, sob a diretriz mental do Instrutor, respondeu:

- Como eu não compreendi isto antes. Ë ele; é ele, sim, o infame! Olha-o diretamente.

Procura recordar... Mudou de aparên­cia, no entanto, é o teu mísero amante, o odiento executor das tuas malfadadas ordens. Qual o pior dos dois: o mandante ou o atuante? Que importa, porém! Os dois estão no mesmo barco, porque merecem as mesmas condições de pagamento.

“Irei desforrar-me. Nada de negociatas. Eu o antipatizava mes­mo antes e não sabia porquê.”

— Sou eu quem se vai vingar... — estertorou, furiosa. Explo­raste minha madureza, roubaste-me, deixando-me ao abandono, a fim de ires viver com outra... Nunca te permitiria. Mandei matar-te e o faria outra vez, porqüanto o meu ódio continua virgem...

— Tu, sim, estás sob o meu comando e irei eu matar-te..

Os contendores prosseguiam em ofensas recíprocas e acusações contínuas.

A surpresa de Ester, defrontando Matias, causou-lhe um choque que lhe libertou as lembranças guardadas no inconsciente, impelindo-a a reviver as atitudes inditosas dos dias agitados da última reencarnação na Terra...

Podíamos ajuizar, agora com firmeza, que- a jovem, débil e insana, inspiradora de compaixão, a padecer por um erro que o atual genitor houvera cometido, sofria necessariamente com justiça...

Entremen­tes encontrávamos nela mesma as matrizes propiciatórias às ligações para o reajuste pelas trilhas da obsessão. As tomadas por onde vertiam e se renovavam as ondas do ódio não aplacado facultavam que os “plugs” da raiva de Matias se conectassem com vigor, em perfeita sincronia com a antiga sicária, apesar da mudança na roupa física e da experiência nova, que ensejava aquisições para a ventura...

As mãos fortes da Lei alcançavam os infratores e os colocavam no cadinho da dor desde que se recusavam o sagrado cálice das libações do amor, sustentáculo do sacrifício e êmulo da abnegação, no qual nasce a renúncia que santifica, acrisolando.

“Feriste-vos, reciprocamente, e ambos sois culpados da própria amargura que sofreis. Recordar para revidar, porém, e agredir, mais complica, não resolvendo a disputa.

“Aqui viestes para recomeçar, ajustar, programar o futuro.

“O ontem vale pelas lições que encerra, pelo tributo que espera aproveitamento, na dor ou na edificação do bem, a que somos chamados cada dia para conduzir como bênção lenificadora.”

Enquanto falava com inflexão que não dava margem a contra-ditas, os enfermeiros impediam que os altercadores prosseguissem e ouvissem atentamente os conceitos preciosos.

O médium Joel aproximou-se de Ester, transfigurada em matrona portuguesa dos primeiros dias do século passado e sentou-a. Sem modificar a expressão psíquica na face impressa em ricto de soberba e ira incontidas, obedeceu. Joel repetiu a providência com Matias, que retratava no semblante traços de nobre beleza física no ardor da juventude, havendo dele desaparecido naquele momento os sinais deformantes motivadores da desencarnação na Segunda Guerra Mundial.

O poderoso vigor da mente, atuando nos tecidos plástico-mode­ladores do perispírito, ali estava perfeitamente demonstrado, através da transfiguração que o ódio — com sua força de fixação e atuação imediata — imprimia nos partícipes da trama redentora.

Prosseguindo, acentuou o humilde e nobre Orientador:

— Ninguém aqui se apresta para julgar, nem se candidata a perdoar ou condenar. Desnecessárias, portanto, as ácidas acusações mútuas.

“Permitimos a reminiscência das ocorrências entre Casimiro e Eduardina para solucionar as dificuldades vigentes em Matias e Ester... O passado deve constituir ponto de partida para o avanço, não local de retorno para o atraso...

“A vitória, realmente cabe a quem perdoa e ajuda, esquece o mal para fazer o bem, sepulta a mágoa para libertar a confiança. .

“Em vós se encontra, desse modo, a decisão da peleja, através da fórmula com que ireis elaborar os ingredientes das vossas vidas.

Atentai: o veículo da oportunidade passa e quem se obstina em perder o comboio atrasa-se e se perturba na estação em que se aloja, aguardando o próximo...

“Quem ruma às alturas aspira paz; quem se reserva às baixadas, atordoa-se nos espaços exíguos e úmidos, onde o sol não penetra.

Sem poder dominar a exaltação que o tomou, o Coronel Santa-maria passou do choro resignado à convulsão do desespero... De repente levou as mãos à cabeça, como se a mesma ardesse ou estivesse a estourar.

O Mentor aproximou-se, aplicou-lhe recursos magnéticos e pro­pôs-lhe, amoroso:

— Recorde, meu filho! Quando encontramos Jesus, verdadei­ramente, descobrimos a vida. Recorde, a fim de encontrar-se com a consciência e purificá-la no presente.

“Voltemos à cidade de Braga... Recuemos... Os últimos dias

do século XVIII... As notícias da revolução francesa... Braga, a

cidade-reduto da fé... A nobre cidade dos Braganças, originários da

antiga fortaleza de Guimarães... Recorde...

Houve um silêncio, somente interrompido pela voz pausada, segura, vibrante do Diretor Espiritual.

Todos nos concentramos em atitude de oração socorrista, con­fiantes.

Eduardina-Ester, com os olhos fora das órbitas cravou-os no Co­ronel Santamaria, enquanto Casimiro-Matias, demonstrando inquie­tação, agitava-se, receoso, como a pressentir desagradáveis ocorrências.

Face à sugestão, em processo regressivo da memória, uma trans­figuração ocorreu no genitor da obsessa, modificando-lhe a aparência.

O rosto fez-se anguloso, com os zigomas salientes, os olhos algo desmesurados, o nariz aquilino, a pele macilenta, calvície pronunciada, suíssas e cavanhaque, boca prognata. Com o aspeto desagradável, grunhiu, fanhoso:

— Braga! Eterno santuário de Portugal, berço de cavaleiros, santos e nobres, louvada sejas!



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